Um condomínio com portões, seguranças. Noto que os seguranças todos tem patentes, como se fossem todos soldados, ou policiais, em um bico. Um deles vem até mim, ele me diz, em tom amigável mas sério, que não posso ficar "passeando". Isso porque eu havia subido, mas depois desci, fiquei um pouco ali ao redor, olhando. Ele me adverte de que não devo fazer isso. Eu pergunto o porquê. Ele começa a me explicar, numa clausura na entrada, mas dois amigos dele ficam conversando com ele sobre algum jogo online, ele divide a atenção, até que os amigos dizem que se falam outra hora.
Fico pensando sobre como esse condomínio era horrível, olhando para fora e vendo que está num bairro de classe média alta de São Paulo. Refletindo sobre isso, penso porque foram morar ali. Quem? Seus pais; nesse momento aparece no sonho que eram eles que haviam ido morar ali, procurando um lugar seguro e tranquilo em São Paulo, que não ficasse vulnerável à violência da cidade. Você parece não aprovar, mas não os condena.
Eu acordo.
Há uma mensagem. Com ela, talvez o primeiro respiro em muitos dias.
terça-feira, abril 28, 2020
terça-feira, abril 21, 2020
Dor Elegante
(Paulo Leminski)
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
shut out
Do lado de fora vejo a chuva
cair sobre tudo,
já não posso ver dentro
já não posso ver nada
esperando o momento derradeiro
das palavras que não posso dizer
um raio de tristeza me rasga
toda vez que penso em você
uma vida que não foi
mas que não consigo deixar para trás
agora estou trancado para fora
e a sabedoria dos tolos
não irá me libertar
caio de joelhos
e rezo
segunda-feira, abril 20, 2020
bananinha
Outo dia achei uma bananinha em meio às minhas coisas. Aquelas: doce de banana, cozida, com açúcar em volta. Ela estava junto com uma goibada, de tamanho semelhante, de mesma origem: o bandejão.
A goiabada, eu comi, numa hora dessas de tristeza e jejum prolongado. A bananinha não.
Ela era um presente. Não desses que tem data certa, obrigação ou etiqueta social que te induz a dar, pensar no que a pessoa quer ou comprar algo genérico que serviria a qualquer pessoa em qualquer data, e, por obrigação social, pelo bem da circulação de mercadorias, pela manutenção da economia e para atestar a eficácia das estratégias de marketing que rechearam nossos calendários de datas "especiais", se dá.
Não era, mesmo porque nessas datas não se dá uma bananinha. Em um Natal, se uma mãe presenteia sua filha ansiosa por uma Baby Alive com uma bananinha, ela sem dúvida se frustraria. Não era a bananinha que a menina desembrulhava no Youtube, nem que a amiga exibia lhe fazendo inveja. Não, ninguém produz nas mentes das crianças uma cuidadosa ânsia por bananinha, sustentando a roda da mercadoria e do desejo.
Nem, na verdade, se dá uma bananinha de aniversário à sua mãe, ou mesmo de dia das mães. Nas propagandas, aquelas emocionantes que dizem quão importante são as mães, ninguém se emociona com uma bananinha. Os perfumes, roupas, chocolates caros são os objetos de desejo, só eles mostrarão quão especial é sua mãe.
A bananinha, esse pequeno doce industrializado e embalado em plástico, foi produzido pela "Castelo de Chaves", indústria e comércio de alimentos, em Jacupiranga, interior de São Paulo. Banana, açúcar a ácido fosfórico a compõem. Produzida sem nenhum carinho, e não pelas mãos de uma dedicada vovó, ela foi feita numa linha produtiva industrial por operários explorados, de quem se extraiu a bananinha e a mais-valia. Vendida em lotes para a Universidade de São Paulo, ela chegou ao bandejão, onde foi distribuída por outros peões, dessa vez os trabalhadores do Restaurante Central, num almoço como outro qualquer. Um estudante, uma bananinha. Muitos não pegam a bananinha: não gostam do doce. Outros a pegam, e a comem indiferentes.
Essa não. Ela foi pega, guardada. Depois, foi dada de presente. Como quando você vê uma coisa bonita, e isso te alegra, porque te lembra de uma pessoa que você ama. E você guarda aquela coisa, como quem zela por um amor. Porque se lembra do brilho de um olhar, um detalhe qualquer, que ninguém mais notaria, quando a pessoa viu uma coisa daquela. Como quem lembra de uma preguiçosa tarde de sábado, num restaurante, quando uma pessoa comprou uma bananinha. Um doce, de uns 2 reais.
Sabe quando você lembra de como uma pessoa mexe sua mão quando fala, do barulho que ela faz quando fica sem jeito ou te desdenha, ou do jeito que a boca dela mexe quando sorri, e você suspira? Assim, às vezes, são as pessoas com uma bananinha. E ela, quando te é dada de presente, vale mais do que qualquer desejo fabricado escrupulosamente por um publicitário. Naquela bananinha está concentrada a mais autêntica declaração de amor.
Um amor é repleto de bananinhas, quando é sentido de verdade. Porque por toda a parte aparecem as "bananinhas": a pessoa que ocupa seus pensamentos é cheia de detalhes, prontos a serem percebidos, e tudo ao redor irá te lembrar dela. Os pequenos presentes do dia-a-dia, as pequenas coisas que se faz. Mensagens, poemas, canções, olhares, piadas internas, jogos. A paixão é feita de bananinhas. E, por isso, as comemos, sem pena; hoje há uma bananinha, cujo gosto é muito melhor do que a de uma comprada por aí ou ganhada de um trabalhador do bandejão. Amanhã haverá outra a nos manter incandescente a alma.
Mas quando as bananinhas cessam, aí as coisas mudam. Cada bananinha é um pequeno tesouro de um passado perdido, de quando ainda se era feliz. Como num casamento onde já não há amor, e se olha para uma foto em que os olhos brilham se encontrando, e toda a intensidade daquela paixão, toda aquela felicidade tem o efeito de uma lança em brasa entrando no peito. Às vezes, nesses casos, é a dor por um amor que já morreu. Mas essa, não: a bananinha é a dor de ainda sentir a alma em brasa. De ainda esperar navios.
Na sua embalagem, meio apagada, mal se lê uma data de validade que parece dizer: 12/20. Ao ler isso, dói ainda mais pensar que o ácido fosfórico talvez tenha maior poder conservante do que minhas ações desastradas, e que a bananinha industrializada pode durar mais do que o amor.
Eu não consigo comê-la, é patético. Tenho vontade de segurar a bananinha e chorar, lembrando de quando me foi dada. Lembrando da tarde de sábado em que alguém me amava tanto a ponto de prestar atenção num detalhe ínfimo, de que eu gostava de bananinha. Que alguém me amava tanto a ponto de ficar feliz ao ganhar uma sobremesa qualquer, porque poderia guardá-la para dar de presente. E que seria o melhor presente.
Não consigo deixar de lembrar de quando perdi uma pessoa que amava em um trágico suicídio. Ela deixara na minha casa uma pasta de dente, que não conseguia usar, nem jogar fora. Ridiculamente, repetia para mim mesmo que "ela não é a pasta de dente", tentando avançar com passos de formiguinha em meu luto. Um dia, a pasta de dente se foi. Já nem me lembro como.
No inconsciente não há tempo, dizia Freud. Um trauma da infância pode ficar ali, congelado, como um fóssil preservado embaixo da terra, por anos, até vir à tona e rebentar em suas poderosas consequências como se o acontecimento fosse hoje. O recalque o preserva, os sintomas o transformam. Não sabemos o tamanho de nossas dores, nem tampouco importa tanto o tempo em que a sentimos. Um mês pode te parecer um nada. Já há mais de um mês amargamos a devastação de uma pandemia, e no entanto esse mês mudou a cara do mundo, e está criando traumas em nossa sociedade que podem rebentar com a força devastadora de um retorno do recalcado.
Uma bananinha se ganha em um dia. O significado dela não está nesse dia. Mas um mês é o suficiente para ganharmos bananinhas que podemos passar uma vida inteira sem conseguirmos digerir.
Essa maldição nas minhas mãos
tudo que toco desvanece
torna-se pó, desfaz-se em areia.
Essa maldição em minha boca
tudo que provo é a ferrugem
essa decadência em meu sangue.
Tocando à distância
na relva densa das memórias
o cheiro, a voz, o toque, o olhar
tudo é farpa, que entra fundo na pele.
Nada me salva da agonia
de ser o algoz de nós
procuro sentido nas feridas
nas frases que formam
na gramática da pele
que arrancada, deixa exposta
a alma em brasa
procuro esperança na escuridão
na sombra lançada por seu coração
mas os dias são um relógio maldito
a girar os ponteiros em falso
porque tempo nenhum apaga essa imagem
tempo nenhum cura o mal que criei
com o amor
o tique das horas é um martelo
que bate, bate, bate, bate sem cessar
nas feridas abertas
sangram
sem parar
tudo que toco desvanece
torna-se pó, desfaz-se em areia.
Essa maldição em minha boca
tudo que provo é a ferrugem
essa decadência em meu sangue.
Tocando à distância
na relva densa das memórias
o cheiro, a voz, o toque, o olhar
tudo é farpa, que entra fundo na pele.
Nada me salva da agonia
de ser o algoz de nós
procuro sentido nas feridas
nas frases que formam
na gramática da pele
que arrancada, deixa exposta
a alma em brasa
procuro esperança na escuridão
na sombra lançada por seu coração
mas os dias são um relógio maldito
a girar os ponteiros em falso
porque tempo nenhum apaga essa imagem
tempo nenhum cura o mal que criei
com o amor
o tique das horas é um martelo
que bate, bate, bate, bate sem cessar
nas feridas abertas
sangram
sem parar
domingo, abril 19, 2020
sábado, abril 18, 2020
Logo desvanecerá
devolvidas as partes arrancadas
os navios de volta ao porto
velas recolhidas
sonhos esquecidos
Fecho os olhos
sinto o cheiro
o toque
os sons
Tudo se tornou dor
vergonha
incêndio
cinzas
É difícil quando não se consegue pensar
as coisas todas turvas, a palpitação
as cores, os sons estourados
sobrecarga de sensações
sem controle sobre mim
Desvanecerá?
Desvanecerei
me desfaço em ruínas
ao pó retornará
Essa ilusão ortopédica do eu
esmoreceu suas fronteiras
fagocitou uma fatia de vida
maior do que seus limites,
maior do que poderia abrigar
e agora não consigo reconstruir
os limites de mim mesmo
e o que era eu
espalhado no chão,
em sangue, fezes, miúdos
como as tripas de um animal morto
em sacrifício a um deus pagão
Me vesti com sua glória e amor
não posso encarar essa vida sozinho
estou nu, e longe de casa
foi tudo desperdiçado?
Todo esse amor?
A cada noite choro
ainda acreditando na mentira
te amo até minha morte
devolvidas as partes arrancadas
os navios de volta ao porto
velas recolhidas
sonhos esquecidos
Fecho os olhos
sinto o cheiro
o toque
os sons
Tudo se tornou dor
vergonha
incêndio
cinzas
É difícil quando não se consegue pensar
as coisas todas turvas, a palpitação
as cores, os sons estourados
sobrecarga de sensações
sem controle sobre mim
Desvanecerá?
Desvanecerei
me desfaço em ruínas
ao pó retornará
Essa ilusão ortopédica do eu
esmoreceu suas fronteiras
fagocitou uma fatia de vida
maior do que seus limites,
maior do que poderia abrigar
e agora não consigo reconstruir
os limites de mim mesmo
e o que era eu
espalhado no chão,
em sangue, fezes, miúdos
como as tripas de um animal morto
em sacrifício a um deus pagão
Me vesti com sua glória e amor
não posso encarar essa vida sozinho
estou nu, e longe de casa
foi tudo desperdiçado?
Todo esse amor?
A cada noite choro
ainda acreditando na mentira
te amo até minha morte
sexta-feira, abril 17, 2020
Me convulsiono na dor extrema da ternura
sinto a pele queimar, ferida aberta
como a tatuagem que sangra
depois da ferida da agulha
A pele aberta, a ferida incandescente
ao redor um teatro de sombras
feito com a luz das chamas
que ainda queimam minha alma
as partes arrancadas se esparramam
num lodo de sangue e lágrimas
misturam-se à terra
fertilizam dor
Não há o que tomar de mim
pois em mim tudo é podre
e tudo o que me foi dado
apodrece
como num toque de midas
corrompido
Se respiro amor
exalo solidão
se respiro vida
exalo morte
Era você, sem ar, partida
e eu podia sentir meus olhos
se desfazendo em pó
e nós dois, como dois estranhos
nos desfazendo em pó
sinto a pele queimar, ferida aberta
como a tatuagem que sangra
depois da ferida da agulha
A pele aberta, a ferida incandescente
ao redor um teatro de sombras
feito com a luz das chamas
que ainda queimam minha alma
as partes arrancadas se esparramam
num lodo de sangue e lágrimas
misturam-se à terra
fertilizam dor
Não há o que tomar de mim
pois em mim tudo é podre
e tudo o que me foi dado
apodrece
como num toque de midas
corrompido
Se respiro amor
exalo solidão
se respiro vida
exalo morte
Era você, sem ar, partida
e eu podia sentir meus olhos
se desfazendo em pó
e nós dois, como dois estranhos
nos desfazendo em pó
quinta-feira, abril 16, 2020
Nas madrugadas
você chora no seu sono?
Entre páginas do capital
e cenários de horror pandêmicos
seu rosto reluz nos meus sonhos
num sono profundo que quer dizer não
Nas manhãs, me agarro a páginas
Há algo de você no horizonte
no combate duro contra a exploração
contra as mortes que se proliferam
vejo seu rosto, distante
O meu tempo é tão falho?
Por que o quarto está tão frio?
Você chora no seu sono?
Todas minhas falhas expostas
um gosto amargo na boca
enquanto o desespero toma conta.
E por que algo tão bom
simplesmente não pode funcionar mais?
O amor vai nos separar uma vez mais
você chora no seu sono?
Entre páginas do capital
e cenários de horror pandêmicos
seu rosto reluz nos meus sonhos
num sono profundo que quer dizer não
Nas manhãs, me agarro a páginas
Há algo de você no horizonte
no combate duro contra a exploração
contra as mortes que se proliferam
vejo seu rosto, distante
O meu tempo é tão falho?
Por que o quarto está tão frio?
Você chora no seu sono?
Todas minhas falhas expostas
um gosto amargo na boca
enquanto o desespero toma conta.
E por que algo tão bom
simplesmente não pode funcionar mais?
O amor vai nos separar uma vez mais
quarta-feira, abril 15, 2020
Quando o sol voltar
Haverá peixes no mar quando o sol voltar
e todos comerão fartamente
sorrindo.
Repito isso no canto
escuro, frio, úmido,
da minha mente
Em meio à chuva e ao vento
tento recolher pedaços
ruínas de barcos
num quebra-cabeça impossível
A fome sufoca, engasga o pensamento
turva a visão, embaça o futuro
que se confunde com a lama presente
não se vê, não se sonha
Me jogo ao mar com escombros
chocando a quilha contra as ondas
imensas, intransponíves
me afogo na tormenta
Haverá sol?
Não sei
mas aguardo o dia de te ver
quando o sol voltar
e todos comerão fartamente
sorrindo.
Repito isso no canto
escuro, frio, úmido,
da minha mente
Em meio à chuva e ao vento
tento recolher pedaços
ruínas de barcos
num quebra-cabeça impossível
A fome sufoca, engasga o pensamento
turva a visão, embaça o futuro
que se confunde com a lama presente
não se vê, não se sonha
Me jogo ao mar com escombros
chocando a quilha contra as ondas
imensas, intransponíves
me afogo na tormenta
Haverá sol?
Não sei
mas aguardo o dia de te ver
quando o sol voltar
segunda-feira, abril 13, 2020
No cais
No cais eu me sento
do amanhecer ao anoitecer
olhando o horizonte.
Por ali passam pernas, pessoas,
vendedores apregoam mercadorias
indiferentes à minha presença miúda.
Ninguém nota que no caderno, rabisco
palavras largadas, que carregam o peso da vida
e sonho com formas de jogar tudo pro alto
A cabeça está baixa, mas os olhos não
fixos na linha do horizonte
esperam os barcos
Anoitece
No cais,
uma alma incendiada
espera.
do amanhecer ao anoitecer
olhando o horizonte.
Por ali passam pernas, pessoas,
vendedores apregoam mercadorias
indiferentes à minha presença miúda.
Ninguém nota que no caderno, rabisco
palavras largadas, que carregam o peso da vida
e sonho com formas de jogar tudo pro alto
A cabeça está baixa, mas os olhos não
fixos na linha do horizonte
esperam os barcos
Anoitece
No cais,
uma alma incendiada
espera.
quinta-feira, abril 09, 2020
Um porto que não há
Volto a esse lugar, cemitério dos meus sentimentos, pra chorar sozinho.
Os barcos vem atracar na minha costa, mas não sei erguer um porto. Não sei dar âncoras.
Meu peito dilacerado transborda enquanto vejo o sol se por no horizonte azul.
A noite se espalha, escurece minha vista
Eu já não sei se os barcos continuam aqui, tudo é escuro
tudo que vejo é a noite, e contra o fundo preto da minha consciência
ainda imagino as velas em riste, com as quais desejo ainda navegar o mundo
Rompi com o mundo, queimei meus navios
mas já não tenho onde pousar meus sonhos
me afogo
Sob aquela luz vermelha, contemplo meu crime
alma incendiada sob o calor da minha
queimada, em trapos
tudo que queria era construir um porto
mas como posso se estou à deriva?
Os barcos vem atracar na minha costa, mas não sei erguer um porto. Não sei dar âncoras.
Meu peito dilacerado transborda enquanto vejo o sol se por no horizonte azul.
A noite se espalha, escurece minha vista
Eu já não sei se os barcos continuam aqui, tudo é escuro
tudo que vejo é a noite, e contra o fundo preto da minha consciência
ainda imagino as velas em riste, com as quais desejo ainda navegar o mundo
Rompi com o mundo, queimei meus navios
mas já não tenho onde pousar meus sonhos
me afogo
Sob aquela luz vermelha, contemplo meu crime
alma incendiada sob o calor da minha
queimada, em trapos
tudo que queria era construir um porto
mas como posso se estou à deriva?
quarta-feira, abril 08, 2020
Carta de outro mundo
O mundo está um caos. E está só começando. As coisas vão ficar feias, e os capitalistas já sabem disso. No meio disso tudo, vão se completar oito anos da sua partida. É terrível sentir como sua presença é algo tão distante, como já é muito difícil sentir você por perto. Você está lá, sempre nos meus pensamentos, sempre nas minhas palavras. E eu queria que você pudesse viver aqui, em meio a esse que vai ser o maior desafio das nossas vidas até hoje.
Como você estaria hoje? Formada em pedagogia, atuando como professora. Nesse momento, com as aulas suspensas. Te imagino construindo os comitês, ajudando na organização das novas iniciativas nas redes, militando no seu computador, com uma long neck de Heineken e um cigarrinho ao lado. A Pagu no seu colo.
Conversas online, você me xingando, esbravejando com sua voz aguda e gesticulando.
A vida que não foi continua não sendo. E, hoje, dezenas de milhares de vidas sendo interrompidas, como a sua foi. Por esse sistema social miserável em que vivemos. Vidas que não serão, pessoas sendo incineradas nas ruas do Equador, como lixo descartável. No maior país imperialista do mundo, o recorde de mortes. Imagino seu ódio e sua tristeza. O mundo te atingia demais, e talvez fosse difícil pra você esse momento. Eu me imagino ao seu lado tentando ajudar a transformar a dor em raiva, em luta.
Minha vida pessoal continua o caos, e penso em você alternando palavras carinhosas, "ah, lindo, não fica assim", com momentos de raiva, em que você me xingaria por me meter nessas situações "ah, pardal". O cheirinho dos seus cachos, misturado ao do seu Marlboro. Sua pele macia, marcada pelas cicatrizes aqui e ali.
É terrível pensar como vidas se acabam por momentos decisivos que poderiam não existir. Sua vida, ainda penso às vezes no que poderia ter prolongado ela. E hoje, a angústia de ver milhares de vidas que acabam a cada dia. Sonhei que tentava ajudar as pessoas com remédios que não foram ainda liberados; e que nem serão produzidos em quantidade suficiente, se forem. O capitalismo segue matando, segue mutilando nossas vidas.
Você ainda é minha companheira nessa luta. Ainda é minha companheira em cada dor, e eu ainda luto para que a dor seja coragem. Eu não sei se falei aqui, nessa espécie de túmulo/confessionário virtual, que encontrei Andreia, a sua analista. Ela estava ali, como por acaso, no meio do caminho em que comecei a traçar com a sua ajuda, um caminho complementar e paralelo para tentar ser companheiro de dores e de descobertas das pessoas, e que sigo lutando para unificar com a luta revolucionária. Foi bonito e emocionante encontrá-la. Compartilhei com ela um pouco do destino trágico que se abateu sobre sua família também. Algo que poderia parecer um triste acaso, mas que acho que nem nós psicanalistas, nem nós marxistas, vemos como acaso. Acho que ela ficou feliz. Não me reconheceu prontamente, só quando eu disse a ela quem era. Pareceu acender a luz de algo adormecido ali. É claro que você marcou decisivamente a vida dela também.
Eu sigo também lutando por me revolucionar. Dou passos adiante, mas, confesso, dou passos atrás também. Suas palavras doloridas ainda me marcam. Tento aprender com os erros que cometi com você. Tento me apoiar nos acertos, nos momentos em que aprendemos juntos.
Amanhã serão oito anos completos de sua partida. Já não penso em você todos os dias, ainda que sei que sua marca indelével está lá, a cada passo. O sentimento de falta, de impotência, eu sei que a dimensão mais profunda dele até hoje eu tive com a sua morte. Mas ao longo desses anos fui aprendendo que faz parte da condição humana. Pelo menos dessa humanidade que conhecemos. E, talvez, isso me ajude a encarar de forma mais "harmônica" a falta que você faz na minha vida. Mas não é verdade que sei lidar com a falta, porque se não, não seria também parte dessa humanidade claudicante. Eu continuo errando, mas continuo andando. Hoje passo menos dias abatido, jogado na cama. Hoje penso muito menos em como seria seguir seus passos. Me fortaleci, sem dúvida. Como apostava que você poderia se fortalecer para permanecer aqui. Mas nem todas as batalhas vencemos. Ainda tenho vontade de pedir seu perdão, mesmo depois de tudo.
Hoje em minha janela brilha o sol. E o coração se põe triste a contemplar a cidade. Ele ainda se pergunta porque você se foi.
segunda-feira, abril 15, 2019
"Ela já morreu"
Às vezes a gente não sabe o tamanho das nossas próprias dores. O que a gente aperta no nosso inconsciente, e segue a cada dia, pode ser do tamanho do mundo.
A sombra de um objeto perdido que recai sobre o nosso eu, a perda do objeto se transformando em uma perda do eu. Essa era a forma como Freud falou da melancolia. Ela é um luto por uma perda que nunca acaba, que se torna maior do que o eu, e acaba com nossa capacidade de investir em outras coisas.
Imagine sentir que tudo que você ama é absolutamente efêmero, que não se sustenta, que seus desejos e paixões são um castelo de areia pronto a ruir - e ele rui a cada dia. Que tudo que é sólido se desmancha, mas basta para isso um minuto.
Uma das imagens mais fortes que F. usou para falar do psiquismo é a de um cristal, que se constitui ao longo de um processo mas contém em sua estrutura pontos frágeis, pontos de ruptura, que são, no entanto, completamente invisíveis quando esse cristal está inteiro. Mas, com o choque, ele se racha, justamente naqueles pontos de fragilidade que se encontravam ocultos. Todos nós temos nossas fissuras, e os choques nos fazem "regredir" para onde estas rachaduras do eu sempre estiveram.
Sete anos se passaram, e há cerca de duas semanas eu me deparei em análise interrogado sobre se eu poderia me permitir deixar que ela morresse. Se eu poderia ir adiante.
"Se eu esquecer ela, é como se ela fosse morrer de verdade." - tal foi o ato falho na minha fala, que era como um pedido para ouvir, com uma nova contundência, a verdade que meu inconsciente se recusa a assimilar.
"Ela já morreu".
Foram essas as palavras que com um baque surdo se chocaram rudemente com essa sombra da perda que às vezes parece sufocar tudo, sem que eu sequer saiba de onde isso vem. Que faz com que tudo no mundo tenha gosto de cinzas. Que nenhum edifício possa se erguer em meio a escombros que se acumulam.
Ela já morreu. E eu não posso morrer junto.
A sombra de um objeto perdido que recai sobre o nosso eu, a perda do objeto se transformando em uma perda do eu. Essa era a forma como Freud falou da melancolia. Ela é um luto por uma perda que nunca acaba, que se torna maior do que o eu, e acaba com nossa capacidade de investir em outras coisas.
Imagine sentir que tudo que você ama é absolutamente efêmero, que não se sustenta, que seus desejos e paixões são um castelo de areia pronto a ruir - e ele rui a cada dia. Que tudo que é sólido se desmancha, mas basta para isso um minuto.
Uma das imagens mais fortes que F. usou para falar do psiquismo é a de um cristal, que se constitui ao longo de um processo mas contém em sua estrutura pontos frágeis, pontos de ruptura, que são, no entanto, completamente invisíveis quando esse cristal está inteiro. Mas, com o choque, ele se racha, justamente naqueles pontos de fragilidade que se encontravam ocultos. Todos nós temos nossas fissuras, e os choques nos fazem "regredir" para onde estas rachaduras do eu sempre estiveram.
Sete anos se passaram, e há cerca de duas semanas eu me deparei em análise interrogado sobre se eu poderia me permitir deixar que ela morresse. Se eu poderia ir adiante.
"Se eu esquecer ela, é como se ela fosse morrer de verdade." - tal foi o ato falho na minha fala, que era como um pedido para ouvir, com uma nova contundência, a verdade que meu inconsciente se recusa a assimilar.
"Ela já morreu".
Foram essas as palavras que com um baque surdo se chocaram rudemente com essa sombra da perda que às vezes parece sufocar tudo, sem que eu sequer saiba de onde isso vem. Que faz com que tudo no mundo tenha gosto de cinzas. Que nenhum edifício possa se erguer em meio a escombros que se acumulam.
Ela já morreu. E eu não posso morrer junto.
sábado, março 09, 2019
Minha tia, mãe da Kandura
A morte coloca as coisas em perspectiva. Ainda que nosso luto esteja amarrado, contido, restrito e sedado pelas correntes econômicas da exploração, pelas amarras ideológicas e científicas de seus manuais médicos, ele se esgueira e resiste em nossa mente, como nós nesse mundo.
Há quase uma semana meu luto por minha tia Selma vem se esgueirando pelos seus caminhos particulares. Tenho lido sobre ela, sobre seu trabalho, sobre sua vida, coisas que nunca li. E sinto uma ausência muito estranha.
Às vezes sinto inveja das pessoas que mandam as fotos e vídeos, que escrevem coisas bonitas sobre seu trabalho. No começo dos anos 90, quando eu tinha uns cinco anos, minha tia se foi de São Paulo, ao lado do seu companheiro de vida e de arte, Edgard, para bem longe dessa cidade cinza. Teresina, depois Manaus, foram os lugares onde decidiram viver, criar e sonhar.
Eu vi minha tia pouco, muito pouco, com ela vivendo do outro lado do país. Curiosamente, existia uma afinidade que perpassava a distância, e sobrepujava o contato rarefeito que tínhamos. Eu admirava, sem dúvida, suas escolhas. Ela quis fazer teatro, e durante dez anos pertenceu a um grupo que fez história em São Paulo, o Ventoforte, fundado e dirigido por Ilo Krugli. Disse que ali foi seu momento de formação artística, seu momento mais importante nesse caminho. Mas ela decidiu ir para o norte, onde viver de teatro, fazer o teatro era um desafio ainda maior.
"Manaus tem uma herança maldita de matar as pessoas que realmente querem fazer alguma coisa por elas, e eu continuo aqui se o preço for morrer", ela havia dito em uma entrevista recente, no ano passado. Queria mudar as pessoas por meio do teatro, e levar o teatro onde ele não chegava. Peregrinou pelo Rio Negro indo às comunidades indígenas, aprendendo e ensinando, levando sua palhaça Kandura às praças, aos teatros, às aldeias.
Um dos meus maiores pesares nesse momento é não ter nenhuma lembrança da minha tia exercendo seu ofício, sua paixão. Tenho uma vaga lembrança, uma imagem mental embaçada, de uma apresentação sua no que imagino que era o Ventoforte. Eu tinha uns cinco anos. Depois, nunca mais vi. Nem quando esteve em São Paulo apresentando a peça de sua Kandura. Ela não me chamou, nem eu pedi que chamasse. É difícil saber porque, acho que nos acostumamos tanto a essa distância que parecia que não importava. Ela soube de relance, creio, e um pouco em algumas conversas que tivemos, que fui me apaixonando pelo teatro como ela. Escolhendo o caminho da militância, nunca consegui o tempo e a dedicação que o fazer teatral exige. Mas me tornei pesquisador, e é meu ofício remoer a história do teatro revolucionário pra dizer pras pessoas que ele existiu e deve existir.
E, remoendo a história dos fazedores de teatro do século passado, da Alemanha, da Rússia, dos EUA, não me esforcei o suficiente pra ir até Manaus e ver o maravilhoso trabalho que fazia minha tia, Selma Bustamante. Agora, fico ouvindo as memórias dos outros, os depoimentos, vídeos, fotos, e só posso sentir o orgulho dessa pessoa que fez do teatro não apenas um trabalho seu, mas uma forma de amar os outros e o mundo, de mudar a vida das pessoas.
As memórias que tenho dela e dos nossos poucos momentos juntos não são do teatro. Lembro-me de como me apresentava às pessoas como seu filho, enganando a todos com nossa semelhança física. Mas o estranho é que essa semelhança nunca me pareceu ser só física, mas algo em nosso caráter. O otimismo e a alegria contagiante da minha tia, que falava pelos cotovelos, a aproximava de meu pai, mas não de mim. Mas algo de um inconformismo intrínseco, de uma empáfia, uma irritação incalável frente aos opressores, sempre me pareceu ser um traço profundo em comum. Sim, é verdade que algo disso corre no sangue de muitos da família. Mas há algo ali, um pouco distinto que sentia me aproximar dela. Não sei se é um tipo de asco ao convencional, ou se é algo que invento. Não sei se é o mesmo que a atraiu para a arte e para Manaus, e que me fez rechaçar a Medicina com seus arrogantes aspirantes e me levou às Letras e ao comunismo.
Talvez não seja nada de fato, mas o que inventamos também é verdade. A tristeza que sinto frente à partida precoce da minha tia é estranhamente desproporcional ao tempo que compartilhávamos juntos, e o que sinto é de verdade, mesmo se não puder compreendê-lo.
Há, claro, também uma raiva que me toma por perceber o sentido trágico de sua morte. Um câncer parece a quase todos hoje um acidente, um (in)fortuito mal que acomete qualquer um - em geral sem explicação que dê conta de atribuir a isso qualquer sentido maior do que a má sorte individual. É mal de comunista, no entanto, desse materialismo dialético teimoso e raivoso que é "a crítica radical de tudo que existe", nunca se conformar com o que pareça acaso. Uma investigação profunda e fisiológica, uma anamnese às avessas, poderia provavelmente mostrar o que adoeceu minha tia. Não está a meu alcance. Mas o que, sim, está, é ver a profunda falsidade da "cura" que essa medicina lhe ofereceu. Quimios e radioterapias arrebataram sua qualidade de vida, mas supostamente haviam-na curado. Foram cinco anos até que se provasse que não, e um fulminante "novo" câncer lhe matasse em cerca de duas semanas de evolução, desde os primeiros sintomas visíveis.
É engraçado, porque a impotência de nosso conhecimento nos impede de derrotar o inimigo e ter uma estratégia para isso, mas não impede a nossa rebeldia e revolta. Minha tia, também nisso, não foi dócil. Desde o começo, rejeitava o tratamento que queriam lhe impingir. Sem radioterapia, era seu primeiro protesto. Acabou cedendo, porque o peso da medicina é demais pra uma cabeça suportar. Eu vi, com ódio, como sua saúde se degenerou nos dias antes de sua morte. Vi, lembrando da impotência calculada dessa medicina, que em nome de lucros impede que se desenvolvam tratamentos muito mais inteligentes, uma ciência digna desse nome, para que se salvem milhares, milhões de pessoas como minha tia. Ela foi, também, assassinada pela impotência e pela fraude de um conhecimento médico cujo verdadeiro propósito está longe de ser curar; mas que cumpre com nível ótimo seu objetivo de gerar lucros.
Os maiores herdeiros de minha tia, eu não tive sequer o privilégio de conhecê-los. São os órfãos que ficam no "Baião de Dois", seu grupo de teatro. São seus alunos, seus colegas de teatro. São os que sabem, com uma profundidade que infelizmente não me é acessível, a imensidão do legado que essa pessoa fundamental deixou por aí, no teatro amazonense. A eles estendo minhas invisíveis condolências, centenas de quilômetros distante, pois sem nos conhecermos dividimos a dor dessa perda, e os saúdo pois serão eles que continuarão o que ela fazia dia a dia, o que a movia e a apaixonava. De minha parte, fico com o pouco, mas imenso, legado que me cabe. A paixão pelo teatro e o inconformismo que eram a base comum, além de nossos laços de parentesco, eu prometo levar adiante. E espero que possa ainda aprender e descobrir muito mais sobre uma pessoa que gostaria de ter conhecido muito mais em vida, mas cuja herança vai criar raízes profundas no Amazonas e pelo Brasil afora.
Aí uma entrevista com ela, do ano passado:
Aí uma entrevista com ela, do ano passado:
domingo, agosto 05, 2018
Hoje sonhei com você.
Não havia as duras palavras, o ódio e as lágrimas.
Havia só eu e você, como as coisas deveriam ser.
Hoje, e ontem, e amanhã, eu sinto uma dor que não posso lhe dizer.
Porque essa dor eu devo engolir a cada dia novamente,
com mais uma dose do cotidiano cinza desse mundo
que massacra toda tentativa de amar.
Eu levo esse amor como uma farsa
por que quem acreditaria nisso
que alguém tão vil,
tão sujo,
indesculpavelmente mesquinho,
possa ainda assim amar?
Não havia as duras palavras, o ódio e as lágrimas.
Havia só eu e você, como as coisas deveriam ser.
Hoje, e ontem, e amanhã, eu sinto uma dor que não posso lhe dizer.
Porque essa dor eu devo engolir a cada dia novamente,
com mais uma dose do cotidiano cinza desse mundo
que massacra toda tentativa de amar.
Eu levo esse amor como uma farsa
por que quem acreditaria nisso
que alguém tão vil,
tão sujo,
indesculpavelmente mesquinho,
possa ainda assim amar?
sábado, abril 14, 2018
As flores ceifadas de nosso jardim
Seis anos. Mais uma vez queria lhe dizer coisas que não posso. Digo-as à tela, a essas páginas esquecidas.
Durante esse ano minha dor e a ausência inescapável tiveram uma companhia, triste e inesperada. Nas palavras de quem sofreu talvez a mais dura das perdas, a perda de uma filha. Uma pequena flor, um broto arrancado, sem florescer, a raiz arrancada de uma Violeta que não pudemos ver crescer.
E quantas vezes não chorei na dor da partida da Violeta, na dor impossível de uma mãe que tão subitamente se vê sem a criança que acalentou com toda sua dedicação. Quantas vezes não vi nessa dor um espelho da minha.
O amadurecer de uma dor, o luto, é uma coisa que não se mede. Me indigno ainda e sempre com as réguas de uma medicina que quer marcar os dias e contar os prazos de nossa dor. 15 dias, é o tempo que nos é permitido sofrer (e olhe lá, porque você precisa trabalhar enquanto sofre).
Essa medida imensurável é um mistério que nos engole: quanto tempo vai demorar pra que eu consiga voltar a viver? E é uma ambiguidade terrível, que nas palavras da Marília vi tal como em mim mesmo. Será que poder viver novamente não é uma traição? Se a dor se transforma, não estou deixando para trás algo que deveria estar marcado a ferro e fogo, e sempre, e tanto? A gente se marca na pele para dizer que estamos marcados na alma. Uma marca que não se apaga.
E a gente sabe que não vai esquecer, que não vai passar. E não demora muito pra entender que a dor não vai embora. E olha um pouco indignado pro mundo, indignado porque, diferente da gente, ele não parou de girar. As pessoas vão vivendo suas vidas. No primeiro mês, todo mundo falava, todo mundo lembrava. Depois vai passando, vai ficando uma dor só nossa. E é como se tivéssemos parado no tempo.
De certa forma, sempre vamos ficar parados no tempo. Quando me pego chorando por um luto que já tem seis anos, como se tivesse sido ontem o dia da partida, já não me surpreendo que um pedaço meu ficou nessa dor. Que eu inteiro fiquei nessa dor, que não passa nem vai passar. A dor pode matar, e se a gente deixar ela nos leva embora. Eu vi, de longe, os seus pais partirem. E sempre me perguntei o quanto disso não era a dor que ficou. A dor que você já sabia que ia deixar pra trás quando partisse.
Eu vejo a força da Marília na luta por seguir a vida. Sem conseguir sorrir do mesmo jeito, mas sem se dobrar diante da dor. Uma coragem imensa, na qual me inspiro. Às vezes a gente já nem sabe mais porque resiste, mas resiste. Tem um pedaço de vida na gente que teima em viver.
Escrever é uma forma de tentar sobreviver. E mais uma vez eu vi muito da minha dor, nos textos que iam tentando dar forma, dar sentido pra esse sofrimento. Todos os dias. Depois a cada mês. Depois, uma hora, acaba passando um dia sem. E aí a gente até se sente culpado. Como se estivesse esquecendo. Como se tivesse deixando pra trás aquela dor, que, parece, é a única coisa que sobrou pra gente se apegar. Se perdermos a dor, perdemos tudo que nos restou. A gente quase se sente culpado por estar vivo. E por ter deixado escapar um sorriso em algum momento. Como pude sorrir? Como pude deixar de escrever naquele dia, mesmo tendo lembrado, como pude deixar pra depois? Ou não escrever? A gente sente às vezes que se não fala disso está deixando o mundo esquecer, e deixando o que ainda temos daquela pessoa partir.
Às vezes dá vontade de não ter continuado. Às vezes a gente ainda é só dor. E, não, passar ela não passa. Mas é como se se diluísse nessa coisa chamada tempo, que queira ou não vai se infiltrando e comendo pelas beiradas. Quando arrancam as flores do nosso jardim, ele nunca mais é o mesmo. A gente pode plantar outras. A gente pode regar aquele espaço vazio com as palavras que destilamos dessa dor. A gente faz o possível para viver. Mas mesmo com o tempo se infiltrando, aos poucos, por entre essa dor que tudo toma. Mesmo com as coisas da vida lutando até arrancar um sorriso. Mesmo que de fora olhem e digam que a gente já tá melhor, quando a gente olha para dentro muitas vezes a certeza é de que não estamos. É como tentar diluir óleo jogando água no copo. Eles não se misturam. Permanece ali, inteiro. Escondida, mas viva, está essa dor.
Conseguir viver, apesar de tudo, talvez seja nossa melhor homenagem. Essas flores arrancadas de nosso jardim sempre terão ali seu lugar, onde nada mais vai crescer. Mas cultivamos sementes de esperança e de vida. E elas crescem também por vocês.
The powers that be
That force us to live like we doBring me to my kneesWhen I see what they've done to you
Well, I'll die as I stand here todayKnowing that deep in my heartThey'll fall to ruin one dayFor making us part
I found a picture of you, o-o-oh, o-o-ohThose were the happiest days of my lifeLike a break in the battle was your part, o-o-oh, o-o-ohIn the wretched life of a lonely heart
Now I'm back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang
Durante esse ano minha dor e a ausência inescapável tiveram uma companhia, triste e inesperada. Nas palavras de quem sofreu talvez a mais dura das perdas, a perda de uma filha. Uma pequena flor, um broto arrancado, sem florescer, a raiz arrancada de uma Violeta que não pudemos ver crescer.
E quantas vezes não chorei na dor da partida da Violeta, na dor impossível de uma mãe que tão subitamente se vê sem a criança que acalentou com toda sua dedicação. Quantas vezes não vi nessa dor um espelho da minha.
O amadurecer de uma dor, o luto, é uma coisa que não se mede. Me indigno ainda e sempre com as réguas de uma medicina que quer marcar os dias e contar os prazos de nossa dor. 15 dias, é o tempo que nos é permitido sofrer (e olhe lá, porque você precisa trabalhar enquanto sofre).
Essa medida imensurável é um mistério que nos engole: quanto tempo vai demorar pra que eu consiga voltar a viver? E é uma ambiguidade terrível, que nas palavras da Marília vi tal como em mim mesmo. Será que poder viver novamente não é uma traição? Se a dor se transforma, não estou deixando para trás algo que deveria estar marcado a ferro e fogo, e sempre, e tanto? A gente se marca na pele para dizer que estamos marcados na alma. Uma marca que não se apaga.
E a gente sabe que não vai esquecer, que não vai passar. E não demora muito pra entender que a dor não vai embora. E olha um pouco indignado pro mundo, indignado porque, diferente da gente, ele não parou de girar. As pessoas vão vivendo suas vidas. No primeiro mês, todo mundo falava, todo mundo lembrava. Depois vai passando, vai ficando uma dor só nossa. E é como se tivéssemos parado no tempo.
De certa forma, sempre vamos ficar parados no tempo. Quando me pego chorando por um luto que já tem seis anos, como se tivesse sido ontem o dia da partida, já não me surpreendo que um pedaço meu ficou nessa dor. Que eu inteiro fiquei nessa dor, que não passa nem vai passar. A dor pode matar, e se a gente deixar ela nos leva embora. Eu vi, de longe, os seus pais partirem. E sempre me perguntei o quanto disso não era a dor que ficou. A dor que você já sabia que ia deixar pra trás quando partisse.
Eu vejo a força da Marília na luta por seguir a vida. Sem conseguir sorrir do mesmo jeito, mas sem se dobrar diante da dor. Uma coragem imensa, na qual me inspiro. Às vezes a gente já nem sabe mais porque resiste, mas resiste. Tem um pedaço de vida na gente que teima em viver.
Escrever é uma forma de tentar sobreviver. E mais uma vez eu vi muito da minha dor, nos textos que iam tentando dar forma, dar sentido pra esse sofrimento. Todos os dias. Depois a cada mês. Depois, uma hora, acaba passando um dia sem. E aí a gente até se sente culpado. Como se estivesse esquecendo. Como se tivesse deixando pra trás aquela dor, que, parece, é a única coisa que sobrou pra gente se apegar. Se perdermos a dor, perdemos tudo que nos restou. A gente quase se sente culpado por estar vivo. E por ter deixado escapar um sorriso em algum momento. Como pude sorrir? Como pude deixar de escrever naquele dia, mesmo tendo lembrado, como pude deixar pra depois? Ou não escrever? A gente sente às vezes que se não fala disso está deixando o mundo esquecer, e deixando o que ainda temos daquela pessoa partir.
Às vezes dá vontade de não ter continuado. Às vezes a gente ainda é só dor. E, não, passar ela não passa. Mas é como se se diluísse nessa coisa chamada tempo, que queira ou não vai se infiltrando e comendo pelas beiradas. Quando arrancam as flores do nosso jardim, ele nunca mais é o mesmo. A gente pode plantar outras. A gente pode regar aquele espaço vazio com as palavras que destilamos dessa dor. A gente faz o possível para viver. Mas mesmo com o tempo se infiltrando, aos poucos, por entre essa dor que tudo toma. Mesmo com as coisas da vida lutando até arrancar um sorriso. Mesmo que de fora olhem e digam que a gente já tá melhor, quando a gente olha para dentro muitas vezes a certeza é de que não estamos. É como tentar diluir óleo jogando água no copo. Eles não se misturam. Permanece ali, inteiro. Escondida, mas viva, está essa dor.
Conseguir viver, apesar de tudo, talvez seja nossa melhor homenagem. Essas flores arrancadas de nosso jardim sempre terão ali seu lugar, onde nada mais vai crescer. Mas cultivamos sementes de esperança e de vida. E elas crescem também por vocês.
The powers that be
That force us to live like we doBring me to my kneesWhen I see what they've done to you
Well, I'll die as I stand here todayKnowing that deep in my heartThey'll fall to ruin one dayFor making us part
I found a picture of you, o-o-oh, o-o-ohThose were the happiest days of my lifeLike a break in the battle was your part, o-o-oh, o-o-ohIn the wretched life of a lonely heart
Now I'm back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang
segunda-feira, janeiro 15, 2018
Dolores
Não sei se alguma vez me senti tão triste pela morte de uma pessoa que nunca conheci pessoalmente. Mas hoje me sinto como se tivessem arrancado um pedaço da minha vida; esse pedaço era Dolores O'Riordan, uma voz com quem cresci e que me ajudou a me tornar a pessoa que sou, me deu um pedaço do tecido com o qual costurei a vida.
Ela era jovem, e
subitamente não é mais. Estancou no tempo, está morta e deixou
três filhos além de uma legião de fãs, entre os quais um bom
tanto de gente deve estar triste e sentindo órfão como estou.
Eu sempre desprezei
muito o sentimento de idolatria e tietagem. Não gosto de ficar
investigando detalhes da vida de pessoas públicas que admiro; nunca
vi sentido em um autógrafo. E talvez por estranhar essa bizarra
sensação de proximidade com as “estrelas” da indústria
cultural, algo que chega a níveis doentios na tal “sociedade do
espetáculo”, eu acho estranho me sentir assim.
Nunca troquei uma
palavra com Dolores, ela nunca soube da minha existência. E, no
entanto, sua voz me consolou em momentos tristes, difíceis, de ódio
mais do que a voz de qualquer pessoa que eu ame. Suas músicas foram
a trilha sonora de momentos felizes; de desilusões amorosas. Da
minha adolescência e da minha vida adulta. Uma presença constante, desde meus doze anos.
Eu também tive
momentos de afastamento, quando gostei menos dos “novos” discos,
primeiro o
“Bury the hatchet”
em 99 (quando eu tinha quinze anos e Cranberries já era uma “velha
banda” na minha curta vida) e depois ainda mais o “Wake up and
smell the coffe”. Depois, com o tempo fiz as pazes e aprendi a
gostar das novas músicas, que foram encontrando seus significados
nas minhas experiências. Os próprios membros do Cranberries tiveram
seu “tempo”, dissolvendo o grupo entre 2003 e 2009. Tal como
eles, não aguentei ficar muito tempo longe da banda.
Pouquíssimos músicos
ressoaram tanto e tão significativamente nos meus ouvidos. Gosto de
muitas músicas diferentes, mas consigo facilmente destacar quatro
bandas as quais me apeguei de um jeito muito mais intenso: Queen,
Cranberries, Garbage e Sleater Kinney. As músicas as quais sempre
recorro, como uma volta para casa. Como um abraço de um amigo quando
você precisa.
As causas da morte de
Dolores não foram divulgadas. Mas certamente foram terríveis e
brutais, para tirar uma vida tão jovem e florescente, aos 46 anos,
num quarto de hotel durante uma viagem para gravações. Como é
inevitável, eu, como qualquer pessoa, me pergunto. A maldita palavra
ressoa como uma pergunta na minha cabeça quase ao mesmo tempo em que
recebo o baque pesado e inesperado da notícia de sua morte.
Suicídio? Com fama, talento, fortuna e filhos que eram “a sua
salvação”, como ela mesmo dizia, Dolores teve sua cota de merda
desse mundo asqueroso. Abuso sexual na infância que levou a
transtornos alimentares, um “colapso” e, depois, um diagnóstico
– mais um número da nossa lista – de transtorno bipolar. Em 2014
e 2016 foi acusada de agressão em supostos ataques maníacos.
Não sei nada sobre sua
vida pessoal, nem quero na verdade, transformar isso em objeto de
especulação. Mas sei que a morte de Dolores, um dos maiores
talentos musicais de sua geração e em minha opinião a mais linda
voz dela, muito provavelmente, é mais uma dos infindáveis crimes
dessa sociedade doente. Não são coisas "casuais" ou infortúnios que lhe ocorreram. São crimes bárbaros, são a marca desse mundo. Ela sofreu a brutalidade que é reservada às mulheres. Sua mente, adoecida, foi submetida aos procedimentos monstruosos que criamos. A bizarra forma como a arte é explorada como uma mercadoria de alta lucratividade, e os artistas muitas vezes são destruídos por essa engrenagem da indústria cultural, também cobrou um preço alto de Dolores. Ela disse que, no auge da fama do Cranberries, ela se sentia “realmente doente e estragada... eu me sentia como um fantoche, um objeto." De uma forma ou de outra, ela, como tantos, foi sendo envenenada de uma forma que ninguém nunca mais deveria ser. E eu lamento, por tudo isso, ainda mais sua tristíssima morte.
Once you ruled my mind,
I thought you'd always be there.
And I'll always hold on to your face.
But everything changes in time,
And the answers are not always fair.
And I hope you've gone to a better place.
Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I know that you've gone to a better place.
Cordell [x7]
Your lover and baby will cry,
But your presence will always remain,
Is this how it was meant to be?
You meant something more to me,
That what many people will see,
And to hell with the endless dream.
Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
We all will depart and decay,
And we all will return to a better place.
Cordell [x7]
I thought you'd always be there.
And I'll always hold on to your face.
But everything changes in time,
And the answers are not always fair.
And I hope you've gone to a better place.
Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I know that you've gone to a better place.
Cordell [x7]
Your lover and baby will cry,
But your presence will always remain,
Is this how it was meant to be?
You meant something more to me,
That what many people will see,
And to hell with the endless dream.
Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
We all will depart and decay,
And we all will return to a better place.
Cordell [x7]
Eu pensei que você sempre estaria ali.
E eu sempre lembrarei de seu rosto.
Mas tudo muda com o tempo,
E as respostas não são sempre justas.
E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.
Cordell,
O tempo dirá,
Disseram que você morreu,
E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.
O tempo dirá,
O tempo dirá,
Disseram que você morreu,
E eu sei que você foi para um lugar melhor.
Cordell [x7]
O seu amante e seu filho irão chorar,
Mas sua presença permanecerá para sempre,
Era assim que deveria ser?
Você significava algo a mais para mim,
Mais do que muitas pessoas verão,
E para o inferno com o sonho sem fim.
Cordell,
O tempo dirá,
Disseram que você morreu,
E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.
O tempo dirá,
O tempo dirá,
Todos nós iremos partir e decair,
E nós vamos todos retornar para um lugar melhor.
Cordell [x7]
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