terça-feira, agosto 24, 2021
sábado, agosto 21, 2021
quarta-feira, agosto 18, 2021
Eu olho pros olhos do gato enquanto ele me observa tomar banho, pela fresta do box, empoleirado na janela. O que move ele? Por que ele se empoleira para me ver tomar banho? O que sente o gato?
Eu não sou um gato, e não sei se ele sofre minha ausência quando não estou, nem o que ele sente quando, empoleirado todos os dias, me assiste tomar banho. Ou quando sobe em meu corpo para mamar minhas orelhas.
Empoleirado, eu assisto em minha memória você sorrir. Quando eu não estou, o gato sente minha falta como eu sinto a cada dia a sua?
Quando o gato quebra coisas que amo, ele não sente remorso. Ele não entende que destruiu algo importante para a pessoa que o ama e que a cada dia cuida dele. O gato destrói coisas como quem me assiste tomar banho empoleirado. Tudo ele faz com a idêntica inocência de um gato. Eu não sei o que ele sente quando minha cara de dor constata que algo que valorizo foi destruído por suas ações de gato; provavelmente, nada semelhante a arrependimento.
Mas eu não sou um gato, e a cada dia sofro porque minhas ações humanas destroem coisas importantes para a pessoa que amo. E eu sinto remorso e arrependimento. Não sendo um gato, eu possuo a humana capacidade de medir as consequências de minhas ações, e também de sofrer por ter agido de forma a trazer dor para uma pessoa que amo. E, ao contrário dos gatos, com o olho da memória, empoleirado, assisto você sorrir. Ouço as palavras de amor que você me dizia antes que minhas ações humanas lhe ferissem.
E penso que queria ser um gato, cujas ações são sempre inocentes, e que dia após dia pode se empoleirar para assistir a quem ele ama tomar banho. Gatos que não magoam e não se arrependem em sua triste solidão, como quem perdeu um pedaço de si que não consegue reaver.
sexta-feira, agosto 13, 2021
Não há uma noite tranquila
Pela janela o cinza cobre o céu e as calçadas,
nas manchetes e nas postagens, as mentiras cobrem as fotos, as falas, a vida,
dentro de mim o sujo de minhas ações, a hipocrisia cobre minha vontade de viver.
Não há uma noite tranquila porque o mundo é ruim,
e eu não sou melhor do que ele para poder me erguer e lutar.
Não há uma noite tranquila porque o que há de preservável nesse mundo
- a flor que nasce no asfalto e fura o tédio, o nojo e o ódio -
meu pé bruto trata de tentar pisoteá-la com sua estupidez.
Sonho com outra vida, com outra realidade menos menos morta
e bebo deste cálice.
terça-feira, agosto 10, 2021
não há no que se segurar.
O resto de vida que senti naquele dia foi apenas para realçar o gosto da morte no resto dos dias. E para me mostrar que me debater não serve para ajudar a ficar na superfície, mas sim para ajudar a levar ao fundo os que tentam me estender a mão.
Melhor afundar sozinho.
Eu já estou perdendo a possibilidade de nadar. Meus músculos estirados têm cãimbras. Minha vontade já gasta não consegue retesá-los. O desespero se torna a cada dia apatia. E a vaga memória de que há algo que pode nos segurar, há esse toque, se torna dor, porque tocar é ferir.
Não quero ferir.
Não quero.
Não.
quarta-feira, outubro 21, 2020
Sem garantias
Nada garante
quem você é
o que você é
o que você pode
até onde você vai.
Nada garante
que amanhã você é o mesmo
porque você não é
e nem quem você gostaria
que te garantisse isto.
Nada garante
que você é bom
que você é capaz
que você consegue
que não vai falhar.
Nada garante
que você é um
que você é todo
que é inteiro
porque você não é.
Como uma onda indiferente
se espalhando sobre um castelo de areia
que retorna ao mar sem deixar rastros
de si ou das ruínas que fez
assim serão suas certezas
desmanchadas em um sopro
apenas caminhe, um passo por vez
porque nada te garante
não há garantias.
terça-feira, outubro 20, 2020
segunda-feira, outubro 19, 2020
Palafita
Se a cura é pela palavra
o silêncio adoenta
Mas já adoecido cheguei aqui
e de que adiantam minhas palavras
se não sei nada dizer
das dores
as dores são palafitas
sobre a qual ergui esse casebre
as paredes úmidas
de uma madeira podre
quem não viu, entrou
sentou, se acomodou
fez do silêncio canção
entoou seus poemas
ecoaram no ar
mas nada se sustenta nessa fantasia
palafita de vigas ocas
com o desejo que a circunda
por fora, por dentro
sem jamais ter substância
Tua casa não tinha chão
nem teto
nem casa
nem nada
Destila. destino
Fermenta no peito essa dor
que cavei nos dias
curando, como um queijo,
cada farpa de rancor, numa suada gota
caindo no fundo do pote
um pingo de fel, um rastro de lágrima
escorre na pele, na sombra dos dias
não se vê, nem se ouve
a dor surda,
recalque
mágoa
sem
na foto, no som
retorço a escuta
passado fugidio
só meu
na fantasia de fazer um
nutri as escolhas
todas erradas
mal feitas
mudas
não te dirijo a palavra mais
nem escrita, nem gemida
são minhas agora
e as escondo
no fundo
cegas
não são
não se diz
não se representam
em nenhum sonho requentado
nessa pura ilusão crescente que já se vai
domingo, julho 19, 2020
sexta-feira, maio 29, 2020
Capitão, meu capitão, como viver assim, se navegar é preciso?
São cinco da manhã e ele está pensando em... barcos.
Seu capitão caiu no convés, morto e frio. As jornadas se acabaram, e o navio no porto, o marinheiro no cais. Sem saber viver em terra firme, ficou ali, esperando o navio que não vai partir.
Velas recolhidas, não adianta o vento soprar. Sem capitão, o navio não pode partir.
O capitão não fala, e a nave não parte. Recolhidas nas velas estão embrulhados os sonhos que não podem ser desfraldados.
Ao longe se perde o horizonte, inexplorado. O horizonte prenhe de futuros não descobertos.
Marejados, agora, só os olhos do marujo. Ele sonha, sem dormir
O barco, barulho do meu dente em tua veia.
Morto por dentro, ele descobre:
Navegar é preciso,
viver não é preciso.
domingo, maio 24, 2020
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
segunda-feira, maio 11, 2020
Dia e noite
imagine você e eu, eu e você
cantando músicas clichê
pelas janelas abertas
correndo na orla
A revolução que tomará palácios
começando em novos colchões
e você dizendo pertencer a mim
acalmando minha mente
Um chão onde pisar e
um céu de estrelas onde mirar
quando você está comigo
os céus são azuis
Não importa como os dados rolem
certas coisas teimam em ser
imagine como o mundo poderia ser
tão bom, tão bom
Na calada da noite,
sempre primavera,
e os portos abertos.
sob o mistério de um futuro todo
na ponta da língua, enxergar,
o brilho de novos olhos que se abrem
revelando.
sexta-feira, maio 08, 2020
A goiabada e o futuro
sentado à mesa, como devagar
sonhando com um futuro
pleno de goiabadas,
discussões e textos,
beijos e planos,
à meia luz.
Fecho os olhos e tento sentir
a mesa da sala, o peso no colo,
o cheiro e o toque na penumbra
num colchão ao chão sobre o qual
todo o futuro parecia inesgotável
e morava, o mundo inteiro, no fundo dos seus olhos
Arrancar finas fatias de goiabada,
como quem consome as lascas doces de um futuro
que ficou ali, guardado na geladeira,
junto com os planos de retomar o que ficou
congelado.
Comer, engolir uma fatia desse futuro
como esse sonho, que raciono em pequenas doses de esperança
tal qual o náufrago que, na ilha deserta, come apenas o necessário a cada dia
projetando no futuro o seu resgate incerto antes que acabem suas provisões
pequenas fatias de esperança e goiabada, que como para adoçar os dias,
que como para aguentar a vida, mais um pouco apenas, porque, quem sabe,
esse futuro ainda pode estar ali, escondido no horizonte,
como as velas de um grande barco que surge sabe-se-lá-de-onde
para o resgate que parecia impossível.
E, pensando no amor incerto,
lembro-me do grande poeta,
que nunca cessou de cantar o amor e o futuro,
unindo-os em um só sonho de liberdade e vida:
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.
quarta-feira, maio 06, 2020
Apesar de tudo
como uma criança, que chora angustiada no berço
sem saber de si e do mundo, grita a plenos pulmões
pela ausência de sabe-se-lá-o-que, é puro desespero
e sente o seio ausente chegar, numa ilusão de completude,
e se acalma.
A voz, a fantasia de ser um só num encaixe perfeito,
acalma a angústia.
A dura realidade de ser só um, e, ainda por cima,
bastante incompleto,
é que queremos negar.
A falta, esse buraco, que pulsa, que dói
essa ânsia de procurar o preenchimento
para uma ausência infinita, e que sempre o será,
busco nesses ex-futuros planos,
onde vivo, respiro, como um prêmio ou um consolo.
A voz, do outro lado, alimenta essa fantasia tola
de que as chaves estão todas lá, e as fechaduras aqui
esperando serem abertas no momento certo.
De que os navios estão todos lá, e os portos aqui
esperando o momento certo da chegada.
Não estão. E era esse todo o engodo primeiro
A gente precisa não se iludir?
A essa pergunta, a dura resposta é:
não somos capazes de não nos iludirmos
e, no entanto, precisamos tentar isso a cada dia.
Das mentiras que inventei, você é preferida
e com as fantasias que crio disso,
e das que escuto de sua boca,
tento remendar esse buraco
que a ausência de sua presença-ausente deixou.
É o suficiente por hoje
por hoje e nada mais
para chegar ao fim de mais um dia
por mais um dia eu sobrevivo
cobrindo o futuro de ilusões
que me permitirão, quem sabe,
sobreviver também amanhã
No amanhã eu te vejo
e no três, desligamos.
sem rumos
segunda-feira, maio 04, 2020
chaves
Algumas chaves são mais fáceis de entregar que outras. As chaves abrem coisas sobre as quais decidimos colocar trancas. Coisas, portanto, que não queremos que sejam de acesso público. Coisas secretas, reservadas, privadas. Coisas que queremos proteger e resguardar. Coisas importantes ou preciosas por algum motivo. Coisas cuja integridade podemos considerar ameaçada, caso ficassem destrancadas.
Se entregamos uma chave a alguém é por vezes um gesto de necessidade, outras não. Mas é sempre um ato de confiança, pois damos acesso a algo restrito. E às vezes a chave não é para nada mais do que demonstrar essa confiança.
Há muitos tipos de fechaduras e chaves. Se elas foram inventadas para proteger bens materiais, há, no entanto, muitas vezes algo muito maior em sua entrega. Mesmo que ela não proteja nada materialmente, às vezes nossas trancas protegem nossos segredos, nossas dores, nossos sonhos.
Há chaves cujo peso é imenso. Mesmo que não usemos, elas nos são caras. Devolvê-las dói, não porque não poderemos mais acessar o que há por trás de uma tranca. Mas porque já não somos alguém cuja confiança seja digna de ter uma chave. Porque estamos agora do lado de fora.
Nem sempre somos senhores de nossas próprias trancas, de nossas próprias chaves. Às vezes as pessoas podem abrir nossas fechaduras muito tempo depois que já, supostamente, deveríamos ter tomado as chaves de volta. Muito tempo depois que lhes devolvemos chaves de portas.
Algumas pessoas simplesmente podem empurrar nossas portas, e entrar, quando quiser, em nossos lugares mais recônditos, mais inacessíveis, mais bem guardados. Tirar-lhes as chaves está fora de nosso alcance. Porque para elas não há sequer portas a guardar esses segredos. As portas estão sempre abertas, as feridas sempre expostas. Não há como trancar essas dores, nem estancar essas feridas.
Nem todos os unguentos vão aliviar. Não tem remédio nem nunca terá.
terça-feira, abril 28, 2020
sonho
Fico pensando sobre como esse condomínio era horrível, olhando para fora e vendo que está num bairro de classe média alta de São Paulo. Refletindo sobre isso, penso porque foram morar ali. Quem? Seus pais; nesse momento aparece no sonho que eram eles que haviam ido morar ali, procurando um lugar seguro e tranquilo em São Paulo, que não ficasse vulnerável à violência da cidade. Você parece não aprovar, mas não os condena.
Eu acordo.
Há uma mensagem. Com ela, talvez o primeiro respiro em muitos dias.
terça-feira, abril 21, 2020
Dor Elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
