segunda-feira, março 16, 2015

Golpe à vista?

Depois de ontem, vi muita gente ficar com medo. É bastante normal e compreensível: por onde se olhasse, uma maré verde e amarela cheia de vuvuzelas escorria pelas ruas da cidade em direção à Avenida Paulista. E, bom, já acabou a Copa né? (E que Copa inesquecível, hahaha). Vou falar especificamente de São Paulo, não apenas porque era o maior ato, como é o que eu vi de pertinho. Sim, eu fui lá ver o que rolava.

Pra começo de conversa, limpemos os campos a respeito dos números. A polícia falou em um milhão. Eu estive lá e vi, com meus olhos que a terra há de comer, quantas pessoas tinham; não tinham um milhão de jeito nenhum. Mas, como minha palavra pode não te convencer, sejamos mais científicos e vamos a uma conta rápida (tudo bem se você for de humanas, é bem fácil de entender e eu também sou). A Paulista tem seis pistas, certo? De cerca de 3,5m cada uma. Mais duas calçadas, digamos que cada uma tem cinco metros. E a extensão da avenida é de 2.700 metros, ok? Então, [(6 x 3,5) + 10] x 2.700 = 79.650 metros quadrados. Suponhamos, então, uma concentração bastante densa de pessoas em toda a extensão (bem mais do que tinha, mas vamos dar uma colher de chá para a "luta pela pátria"), de 3 pessoas por metro quadrado (tipo um trio elétrico bem animado do carnaval da Bahia). Assim, teríamos 3 x 79.650 = 238.950. Olha, tá bem próximo do número da folha, de 210.000 pessoas. Um pouco distante, contudo, daquele da polícia, que alegou ter usado "métodos geoestatísticos" em sua contagem. Uau! Melhor acreditarmos então que cabe um milhão de pessoas entuchadas na Paulista graças aos tais "métodos geoestatísticos" secretos da PM, que, aliás, é dirigida pelo governador do PSDB e não tem, claro, nenhum interesse em inflar os números do ato anti-Dilma.

Ok, então com esse número sério, sejamos francos: é gente pra caralho. E, afinal, quem eram essas pessoas que saíram no domingo com suas vuvuzelas e camisas do Brasil sem nenhum jogo pra ver? Circulando pelo ato e pelo trajeto até ele, uma coisa era nítida: tratava-se, em 90% pelo menos, daquilo que a """"jornalista"""" Eliane Catanhede definiu certa vez, de maneira muito filosófica, como uma "massa cheirosa"


Um orgulhoso membro da "massa cheirosa" se declara ao mundo

Em que consiste a tal "massa cheirosa"? Aquilo que reunimos sobre o heterogêneo nome de "classe média". Gente que não se identifica como trabalhador e que, em geral, sente certo "nojinho" deles. Afinal, trabalhar cansa, trabalhar sua, trabalhar dá trabalho, e, no fim do dia, às vezes não estamos mesmo tão cheirosos quanto uma emperequetada madame dos jardins. Ainda bem que por enquanto ainda dá pra tomar banho, mas o futuro dessa prática das massas é incerto em São Paulo...

No transporte público com destino ao ato, notava-se um dos sintomas de ser parte da massa cheirosa: a ausência de conhecimento sobre o que é e como funciona um busão ou um metrô. As bilheterias tinham filas imensas, porque essa galera anda de carro e não tem bilhete único, esse importante instrumento cotidiano do trabalhador normal. Vários de meus colegas metroviários amargaram seu domingo dando alguns milhares de vezes informações elementares que todo usuário do metrô sabe... mas uma massa cheirosa e bem esclarecida, não.

A "massa cheirosa" aprende a pegar o busão
 
E, afinal, essa gente quer um golpe militar? Quer a volta da ditadura? Bom, havia gente pedindo isso no ato sim. Três imensos carros de som localizados em frente ao MASP faziam um discurso sanguinolento bem típico das "viúvas de 1964", como Jair Bolsonaro. Espumando ódio, eles diziam que só os milicos podem varrer o país.



FFAA pede intervenção militar: "Marcha da família com Deus pela Liberdade. 1964 mais vivo do que nunca"


 Em torno desses carros de som se reuniram, chutando alto, umas 3 mil pessoas. Em dado momento eles decidiram marchar até sei lá onde pedindo para os milicos tomarem a atitude varonil que lhes cabe, e com muita hombriedade, deporem a Dilma e tomarem o poder. Eu não estava nesse momento, mas ouvi relatos de que aproximadamente 500 babacas os seguiram. O resto do ato passeava alegremente com cartazes que diziam "Fora Dilma", "Fora PT", "Fora corruPTos" e coisas afim. A palavra de ordem que mais ouvi sendo cantada (raramente eles cantavam) era "Lula cachaceiro, devolve meu dinheiro".


Exemplar de cidadão altamente politizado e consciente indo ao ato

 Essa gente quer um golpe? Não me parece... tem ali alguns reacionários conscientes, claro. Mas, em geral, é uma galera que está puta, perdida, lê muita Veja e acha que trabalha pra caralho pra ter sua vida digna, e que todo mundo poderia e deveria fazer o mesmo. A real é que muitos dos motivos que eles têm para protestar, em que pese o ridículo com o qual vestem estes motivos, é muito pertinente. Os políticos estão enchendo o cu de grana e isso é um absurdo que tem que acabar. O que talvez eles não tenham entendido (muitos) ou não queriam entender (poucos) é que são todos os políticos, de todos os partidos burgueses, e também os juízes, os funcionários de alto escalão, os deputados, os senadores... além disso, esse dinheiro não é só de corrupção - algo que vai existir enquanto esse sistema de representavidade podre estiver de pé - mas são todas as mamatas de que desfrutam, como as verbas de gabinete, os "auxílios", os salários exuberantes. A corrupção e sua respectiva impunidade nada tem a ver com o PT (ou melhor, tem tudo a ver com o PT), ela já estava lá desde que se criou o parlamento, o executivo, o judiciário. Os problemas da vida da classe média, que começa a sentir e em breve sentirá mais os efeitos da crise (que já atingem em cheio os trabalhadores) são o problema de um sistema gerido por parasitas. Militares, PSDB ou o que quer que seja vai mudar os "enfeites" para manter o essencial, e, aliás, os partidos todos já afirmaram (como o fez ontem Aécio após os atos) que estão de acordo nesse "pacto".

É por isso tudo que não, não podemos também ir de gaiato no discurso histérico dos petistas que dizem que é um bando de coxinha golpista que quer acabar com os avanços sociais do PT com uma ditadura militar. Hoje, em milhares de fábricas, de operadoras de telemarketing, de supermercados, trabalhadores se identificavam e aplaudiam o ato de ontem. Eles, muito mais do que a "massa cheirosa", têm muitos motivos para se indignar. Os "avanços sociais" do novo governo da Dilma consistem em inflação, corte de direitos trabalhistas, corte de orçamento para áreas como educação e um discurso de "segura firma que vou botar pra foder" que Dilma fez no 8 de março. Portanto, defender a Dilma contra "os coxinhas", "o PIG", a "direita golpista" é a última coisa que qualquer um deva fazer para lutar contra essa merda toda que aí está. O que temos que fazer é dar respostas sérias, que não só sejam respostas pros trabalhadores tomarem em suas próprias mãos para fazer, pois não serão feitas por nenhum pilantra desses, mas que também possam mostrar a muitos dos que estavam na Paulista ontem que tocar vuvuzela de verde e amarelo e dizer "fora PT" que isso não vai resolver nenhum problema nesse país, nem os seus, nem os dos trabalhadores.

Por fim, há muita gente dizendo que a situação de hoje é análoga a 1964. A esses afobados eu digo: calma lá, amigo. Ao contrário do que a historiografia oficial nos ensina, o golpe de 1964 não foi contra o Jango. Foi contra as Ligas Camponesas que avançavam a luta no campo por reforma agrária. Foi contra o movimento operário que protagonizava greves de centenas de milhares de operários. Foi contra a rebelião na base das forças armadas que fazia sovietes de marinheiros e se rebelava contra os oficiais. Isso criou a necessidade de um golpe. Que burguesia vai querer dar um golpe quando a presidente está aplicando à risca tudo o que ela precisa e quer, todos os ajustes contra os trabalhadores? Não há nenhuma comparação possível entre essas duas situações históricas...

Àqueles que continuem achando que há um "golpe em marcha" no país, recomendo que tomem alguns desses elementos que coloquei aí para pensarem com mais cuidado, pesquisando sobre o que está rolando nesses atos. Também recomendo fortemente a leitura desse texto.

sexta-feira, março 06, 2015

Plano B



Nossos olhos se batem,
se grudam,
e o estranho desconforto de te desconhecer me assola

só queria te dizer o quanto isso é normal
e ser tua carne
mas nunca.

A prisão ao avesso de meus privilégios me amputa
do desejo estúpido de me largar,
de largar de tudo, e te dizer
me toma. Como se fosse tua, e sempre.


Esbarro em teus olhos mais uma vez
para nunca mais
reincidente nessa noite
em ser um plano B
primeiro, a quem me revelei, sem pudor
para amargar o arrependimento de ser mais um
depois, de meu próprio pudor
em ter nascido como quem nunca assumiu
a estupidez, o fardo de ser um escroto
(sem saber como)

e a ideia de ser livre, esbarra nas grades da prisão do outro
e nem sei tuas grades, mas fantasio
quero destruí-las
mas meus braços não alcançam
não tem força para destruir as grades do mundo
e  sequer as tuas, pessoa incógnita
levou meus olhos
e meu desejo, de ser outro, de ser, 
apenas

e quem pode apenas ser em um mundo como esse?
desço com um adeus

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Do que é feito o amor

É noite. Densa e sem estrelas, abafada, sem vento, sem vida, sem canto. É noite e nos arrastamos sem luz, horas adentro, horas a fio. A perna cansada persiste tesa, impassível, sobrevivente de uma vida sem rastros.

Cuspo os restos de sonhos na pia com a pasta de dente que lava o café de minha boca. Amarga ela persiste, com o gosto de menta. As palavras continuam de desmanchando nas horas, repetidas, eternas, sem sentido. Embalado em uma casca, persisto em não ser. De pé.

É noite. É dia? É morte. É vida? Já não se sabe se há algo ainda para ser, em meio a tantos dias inertes, sem sombra, sem refresco, sem porquê. E, no entanto persisto.

Numa tarde, que poderia muito bem ser mais um poço de nojo e tédio, fixo teus olhos. Teus dentes, brancos, imensos, são um sorriso que não existe. Me traga. Em alguns minutos, horas, dias (o que é esse tempo, esse tempo que inventaram fora de nós?) as fronteiras, os abismos se desfizeram, se diluíram, me derreteram em uma fusão de prantos, de risos, de sonhos. Absorvo o detalhe mais mínimo e o coloco em um altar de futuro. Queimo minhas velas, meus barcos. Me afogo. Já não há minuto sem aquela pinta, aquela fala que gagueja sem hesitar. Que me afirma, me xinga, em um desenho me corta e me vira do avesso. Me exclama em um desejo, o meu.

As pernas já não são tesas. São moles, bambas, o riso frouxo. A entrega. O peito aberto e o medo, inútil, a querer espreitar, a querer encobrir. Inútil. Já não sou do medo, nem do tédio. Já não sou das lágrimas, secas, sem escorrer. As lágrimas vertem novamente, aos montes, ao menor pronunciamento que saia por entre aqueles lábios, tão novos, tão sonhos, tão tudo. Os lábios que me têm entre eles. Que sopram, de leve, e sussurram o sentido de tudo.

Teus seios, teu sexo, meu corpo, fundido. A seiscentos quilômetros, e ainda assim fundido. A maluquice me segue. Ela te arrastou para cá, te jogou em mim, levou aquele ranço pegajoso que fazia eu me arrastar pelos cantos. Quero tua voz chorosa na madrugada, para dizer que sou teu. Que não há dor que crie essa beleza tamanha e que me possa ser estranha ou indiferente. Deixa-me mergulhar nos teus sonhos, nos teus pelos, nos teus dias, no desenho infinito de sua vida. Toma de minhas mãos essa bandeira que você fez tremular novamente. Caminhemos lado a lado, porque os dias, já não há porque temê-los. São repletos, plenos, poucos.

sábado, janeiro 24, 2015

Destituindo-se, despindo-se lentamente, parte a parte, dia a dia. Como montar um quebra-cabeça ao contrário, retirando cada peça, uma por vez, até que o grande desenho coerente e completo vá se transformando em um monte de fragmentos dispersos, inconclusos, incoerentes.

Ver-se ao contrário, desdito, desvisto. Redescriado, um parto para o interior de si mesmo, vivendo nas estranhas entranhas das circunvoluções do cérebro. As palavras, lá fora, ao longe, balbuciadas como rumores de uma civilização antiga da qual se desconhece por completo os significados, os ritos, os dias.

Uma morte ao olhar a face sem reciprocidade do outro. Emaranhado de traços, dessentidos. Esquecer-se do humano como o outro, como a si, como o repositório de sentido. Porque já não há comunicação. As palavras, antes brilhantes, são despejos de sons guturais vindos da caverna de um tempo em que tudo era outro. Em que se era gente, com tudo, tudo mesmo, até aqueles papéis que se usam para identificar. Até aqueles papéis, aqueles gestos, aquelas mesuras sociais que já viraram um edifício de sentidos por si mesmas. Ninguém precisava mais encontrar o sentido, ele já havia se estabelecido em seus sólidos alicerces, fundos, fortes, há milênios. Se era gente.

Hoje, não mais. Hoje balbucios, desencontros. Hoje os rostos, traços desconjunturados. Hoje os sons, os sons. A luz, fere os olhos. Hoje já não há mais dias, mais tempo, mais vida. A morte, de longe se avista, como a única fonte de sentido (amor?). Abraçar-te, ao longe. Tomar fôlego e mergulhar, procurar o sentido ali, onde já não há esse desespero esbaforido a nos perseguir. Onde des-existir é um ato morno, de ternura, e não mais os rituais sangrentos de poder desse mundo fétido, praticados contra aqueles que se quer dominar. A morte para nós mesmos, calma, serena, procura de sentido. Refúgio da podridão dos dias. A necessidade de respostas ficou para trás.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Barbáries cotidianas – A mulher das hérnias



Quando pensamos na célebre previsão de Rosa Luxemburgo, que dizia que à humanidade havia duas alternativas de futuro, o socialismo ou a barbárie, logo nos vêm à mente os episódios mais catastróficos a que o capitalismo nos conduziu, e que confirmam sem margem para dúvidas a correção do que afirmou essa, que foi uma das grandes dirigentes revolucionárias de todos os tempos. As guerras mundiais, os extermínios em massa, as crises econômicas, desemprego, guerras civis. São muitos os episódios de barbárie sem igual que se fizeram sentir pelas mãos da burguesia para preservar viva e atuante a sua dominação. Nos tempos atuais, em que se agrava cada vez mais a crise mundial do capitalismo, a cada dia essa disjuntiva recobra sua atualidade. Grupos neonazistas se organizam na Europa; planos de austeridade atacam trabalhadores, jovens e direitos sociais; repressão a todo momento aos levantes contra essas medidas. A única saída que o capital pode oferecer é essa, agora, ontem e sempre: a barbárie.

Mas a barbárie existe em muitas formas. Ela não está presente só nos grandes momentos de absurdo. Na verdade, em uma sociedade doente e podre como essa ela está presente o tempo todo, em tudo que é canto. Basta parar e olhar. É que é tanta dor e miséria que muitas vezes nossos olhos calejam, a vida nos torna insensíveis e brutos para o sofrimento ao nosso redor. É também um mecanismo de defesa, para conseguirmos também continuar a viver, apesar de tudo. Mas é preciso desnaturalizar a dor, sentí-la novamente a cada dia. Indignar-se com ela. Transformá-la em luta, organização.
São as pequenas barbáries cotidianas que sustentam esse mundo selvagem, em que “a mão invisível do mercado” é a responsável por arrasar com as vidas dos bilhões e bilhões de seres humanos que têm apenas a sua força de trabalho para vender. E, ainda mais, dos que muitas vezes nem essa possibilidade têm. Trabalhando no metrô de São Paulo, um simples peão da operação, oito horas por dia na estação, tem muitas oportunidades de ver todo tipo de retrato dessas pequenas barbáries. Essa semana vi (no mínimo) uma delas.

Estava no meu posto na estação Luz, ao lado de algumas catracas que dão acesso à rua, e recebo um aviso sonoro para entrar em contato com a Sala de Supervisão de Operação, mais conhecida como SSO. Dizem-me para levar a cadeira de rodas ao bloqueio oeste. Esse lugar, o bloqueio oeste, é a linha de catracas que fica na integração entre linha 4 amarela, linha 1 azul do metrô e as linhas 11 e 7 da CPTM (trens). Recebe alguns apelidos carinhosos dos funcionários da estação, como “porta do inferno” ou “faixa de gaza”. Ali, milhares e milhares de pessoas passam apressadas, acotovelando-se, muitas vezes xingando algum funcionário, em geral por algo que não é culpa dele. É um desses lugares do metrô que dá pra esperar que aconteça de tudo.

Chego ao bloqueio com a cadeira, encontro uma colega amparando uma senhora de idade, curvada, apoiada na parede. Ajudamos ela a sentar. A colega me relata rapidamente: “Ela tem seis hérnias, pisaram nela ao passar na catraca.” Conduzo a cadeira à sala de primeiros socorros, onde ofereço um copo de água à senhora e me sento à sua frente para ouví-la e saber como ela está. Pergunto se está bem, se sente dor.

“Ai, tá doendo bastante. Eu tenho seis hérnias, bico de papagaio, passei a noite com dor e agora dei um jeito de sair de casa, aí esbarraram em mim, deu uma dor imensa.”

Ela vê que estou atento e interessado, e continua:

“Eu fiquei com esses problemas por causa do trabalho, começou com uma dorzinha, mas aí eu tinha que continuar trabalhando, foi piorando, piorando. Até que um dia fiquei toda travada, não conseguia nem me mexer. Ainda bem que estava na casa da minha filha, ela me ajudou. Olha, levei dois anos pra conseguir uma consulta com um especialista. Aí, quando cheguei lá a ressonância que tinha feito já nem valia mais nada, tive que fazer outra. Ele nem olhou na minha cara, não perguntou nada, o que eu já tinha feito, onde tinha passado. Pegou e me encaminhou de volta pro posto de saúde perto da minha casa, onde eu já tinha ido. Fiquei dois anos esperando pra ele me mandar de volta pro primeiro lugar que tinha ido. Quando cheguei lá eles me encaminharam pra fisioterapia. E agora estou indo pra minha primeira sessão da fisioterapia e me acontece isso.”

Olho no rosto cansado da mulher. É o rosto gasto de quem trabalhou muito, durante muitos anos; ela evidentemente sente dor, mas carrega a expressão de quem já se acostumou a sofrer calada, a engolir a dor e levar adiante. O rosto de quem não pôde parar um segundo pra sentir a dor, porque a conta no fim do mês não ia esperar um segundo para ser paga. Ela respira, joga um pouco de água gelada que dei a ela sobre a perna dolorida. Enquanto isso, eu lembro da Santa Casa fechando suas portas por uma dívida de quase oitocentos milhões de reais, uma dívida que cresceu por décadas e foi causada pela corrupção. Enquanto pessoas como essa senhora amargavam filas de dois anos para ver um médico que não pergunta qual é o problema e não escuta seus pacientes, os administradores dos hospitais públicos enchem os bolsos com o dinheiro de remédios superfaturados. Remédios que a população não tem dinheiro para comprar, e que não tem como conseguir nos hospitais parasitados pelas empresas privadas como a gestora do almoxarifado da Santa Casa ou as Organizações Sociais que administram os hospitais públicos. A dor no rosto daquela senhora era o retrato do descaso pela saúde dos trabalhadores; seu corpo, destruído pelo trabalho que enriqueceu seus patrões, agora era destruído novamente pelo dinheiro desviado da saúde pública que enriqueceu empresários e governantes.

“Vamos, acho que já estou melhor, já dá pra ir.” Ela não parecia muito melhor, na verdade. Poderia oferecer um táxi para levá-la ao Pronto Socorro (por enquanto o metrô ainda dispõe disso), mas não adiantaria: ela estava ali a caminho da fisioterapia, já estava indo fazer o mínimo (máximo) que o Estado lhe garantiu para tentar melhorar... depois de anos esperando. Conduzi ela até a plataforma, e ali, ao esperar o metrô, ela se despediu de mim.

“Obrigado, meu filho, deus te abençoe. Que bom vocês trabalhando aqui, ajudando. Que bom que tem gente que nem vocês pra ajudar a gente.” Eu não fiz nada de mais, apenas ajudei ela a chegar no trem. Penso que ter ouvido o sofrimento que ela passou, sendo jogada de um lado pra outro que nem um trapo sujo sem uso, infelizmente já parecia tanto para aquela senhora. Já era mais do que o médico especialista, que ela esperou dois anos para ver, havia feito por ela. Já era mais do que esse mundo doente espera que façamos por um companheiro abatido por essas pequenas barbáries que nos levam de dia em dia. Eu queria poder fazer mais por ela, mas ali eu era só um peão, e não tinha muito que pudesse fazer. Engulo essa dor amarga, que queima lá dentro, esperando pra explodir junto com a de outros milhões. O futuro não será a barbárie, porque não mais permitiremos.

sexta-feira, novembro 14, 2014

Os médicos que tudo podem, os pretos que nada podem

Veio à tona um escândalo na Faculdade de Medicina da USP, onde os alunos estupravam sistematicamente suas colegas mulheres, tanto utilizando drogas nas festas como a coação física, como mostram os relatos de diversas estudantes, que deram depoimentos da Assembleia Legislativa (ALESP) e na mídia.

É monstruoso, chocante, mas, infelizmente, para quem já conheceu uma faculdade de medicina por dentro, como eu tive o desprazer de fazer, não chega a ser surpreendente. Um pouco dessa falta de espanto é demonstrável pela atitude do diretor da Faculdade de Medicina, ao pressionar os deputados pelo cancelamento da audiência pública na ALESP sobre os casos de estupro. O diretor queria evitar jogar o nome da faculdade na lama. Quem, inclusive, quer contribuir dentro da faculdade para "jogar o nome na lama" é caçado e expulso: assim aconteceu com Paulo Saldiva, que dirigia a apuração interna da USP sobre os casos, em relação aos quais a universidade, evidentemente, cala e faz de tudo para abafar.

É isso: o nome deles nunca deve estar na lama, mas eles mesmos só existem na lama. A lama da "máfia de branco", como me apresentou meu veterano quando passei pela Medicina Santo Amaro. A máfia de branco que "protege os seus", escondendo casos de negligência médica, lucrando fortunar com seus esquemas com laboratórios, fazendo seu pequeno clube de privilegiados, de médicos que se consideram pessoas superiores às outras.

A sociedade assim o diz: os médicos, grandes detentores do saber, da verdade, dos diplomas de medicina, da regulação de nossos corpos e mentes. Eles detém a autoridade para falar sobre nossa vida e nossa morte. E, por que então não poderiam fazer sexo quando quisessem, com quem quisessem e como quisessem? Eles podem tudo, e têm a certeza absoluta da impunidade. Quando matam pacientes por negligência ficam impunes, porque com um estupro na faculdade seria diferente?

Já falei um pouco sobre como funciona essa casta de privilegiados antes por aqui. Relatei, por exemplo, o hino da faculdade onde estudei, e seu caráter reacionário e machista. Esse tipo de música, aliás, não é exclusividade da medicina, mas é praticamente unânime entre todas as atléticas universitárias. Claro que, querendo estar sempre em primeiro lugar, nesse quesito também a medicina quer ser a campeã, e por isso investiu em fazer as mais degradantes, retrógradas e asqueirosas músicas, como foi divulgado recentemente sobre a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, também da USP. Numa mistura de misoginia e racismo, a música é um verdadeiro hino à imbecilidade, mostrando o quão baixo pode chegar o pensamento desses exemplares da "elite" de nossa sociedade.

Pixação mostra a ideologia da "elite universitária"

A medicina, enquanto for um produto a ser vendido - e muito caro - e também um símbolo de status para ser consumido por imbecis deste calibre, que ao ingressar no curso passam a se julgar no direito de tratar todos os demais seres humanos como "carne barata" (em particular os pacientes pobres, negros e as mulheres), está fadada a reproduzir esse tipo de monstruosidade que vemos acontecer todos os dias. É um pouco do que Foucault explica com seu conceito de "biopoder", de como a medicina passa a ser uma instituição social reguladora. Isso não pode acabar dentro de uma sociedade onde tudo é mercadoria. Enquanto houver capitalismo, a medicina não pode ter outra face.

Enquanto eram divulgados esses escândalos, que a direção da faculdade de medicina e da USP tentam em vão abafar com todos os seus recursos, surgiu outra notícia na mídia sobre pessoas que estão bem distantes da faculdade de medicina: imigrantes haitianos em São Paulo. 300 deles estavam morando como podiam em um prédio no centro da cidade, quando foram desalojados pela polícia militar, que exercia sua função mais importante: a manutenção da propriedade dos ricos em detrimento do direito dos pobres.

Os imigrantes haitianos vieram ao Brasil procurando emprego, procurando fugir da miséria que corrói a população de seu país há gerações. Os haitianos dizem que foram iludidos a vir para o Brasil pelo governo. Não têm aqui alojamento, saúde ou escola, e a maior parte deles não sabe falar português. Foram avisados que perderiam suas casas provisórias e precárias pelas tropas do batalhão de choque em frente ao seu prédio.

Imigrantes haitianos em Brasiléia, no Acre, vivem em alojamentos precários

Da mesma forma que os estupros da medicina e os privilégios dos médicos, a miséria que assola o povo haitiano não se fez por milagre. Ela foi imposta com muito sangue após o Haiti fazer a primeira revolução negra na história, sendo o primeiro país a abolir a escravidão no mundo, derrotando as tropas de Napoleão para conquistar sua independência. Eles foram um exemplo para todos os escravos e negros do mundo; um exemplo que precisava ser sufocado. E séculos de opressão imperialista seguiram esse fato, destruindo completamente a economia haitiana e colocando ali ditaduras fantoches, impedindo seu povo de exercer a liberdade que conquistaram com a luta. Nessa história de escravidão, o Brasil tem seu quinhão: há des anos está dirigindo as tropas da ONU (MINUSTAH), que mantém uma ocupação militar no país. Essas tropas reprimem greves operárias, manifestações estudantis, qualquer organização do povo.

Como os estudantes de medicina da USP, os soldados da MINUSTAH se sentem muito poderosos diante do povo que oprimem, portanto suas armas com licença da ONU para matar. Como na medicina da USP, eles usam sua autoridade para estuprar mulheres, muitas vezes em troca de comida para que elas possam alimentar seus filhos famintos. A comida mais popular no Haiti hoje são biscoitos feitos de barro.

Quando os haitianos saem de seu país para procurar empregos, eles encontram mais miséria e exploração. Muitos deles têm chegado ao Brasil, e trezentos calharam de chegar a São Paulo, e encontrar um lugar para morar em um prédio vazio no centro. O prédio é uma propriedade privada, cujo proprietário é a Arquidiocese de São Paulo, aquela mesma Igreja Católica que durante séculos legitimou ideologicamente a escravidão contra a qual os haitianos lutaram e venceram. Essa Igreja, tão caridosa, recorreu à Polícia Militar para expulsar os haitianos de seu prédio e poder continuar a fazer sua caridade. Os haitianos, que não sabiam disso pois estão em um país estrangeiro cuja língua não falam, foram enganados por alguém que lhes cobrava aluguel para morar na propriedade da Igreja. A polícia, no entanto, não quer saber de quem enganou os haitianos: o que ela quer é defender a propriedade da Igreja, e para isso mobiliza suas tropas e desvia o rumo de 30 linhas de ônibus para poder fazer valer sua lei de ferro e fogo.

Em um mundo como o nosso, funciona assim: os pretos foram mercadoria durante séculos para que os brancos os comprassem e vendessem. Hoje, são mão de obra barata e não têm direito a morar no prédio que é da milionária e poderosa Igreja que legitimou sua escravidão. Já os brancos bem nascidos estudam medicina e estupram suas colegas, assassinam seus pacientes, e ainda fazem músicas que cantam em alto e bom tom orgulhando-se disso. Se há alguém que possa encontrar argumentos justos para defender esse mundo, que fale agora. Se ela é indefensável, como eu acredito que seja, não fiquemos assistindo sua injustiça calados. Mudemos ela com urgência.

segunda-feira, novembro 10, 2014

Entrevista com Rodrigo Ciríaco, autor de "Te pego lá fora"



Na próxima terça-feira a Editora DSOP irá relançar um livro que, a meu ver, já se tornou um clássico da literatura contemporânea brasileira. O "Te pego lá fora", de Rodrigo Ciríaco, lançado originalmente em 2008 pelas Edições Toró.

O lançamento vai ser 18 de novembro, a partir das 19h, na Livraria Cultura. Tive o privilégio de estar no primeiro lançamento há seis anos e pretendo ir novamente nesse.

Aproveito a deixa pra publicar aqui uma entrevista que o Rodrigo gentilmente me cedeu em 2008 para um trabalho da matéria de Didática que estava fazendo na licenciatura. Várias perguntas são baseadas nos contos de "Te pego lá fora", então pode ajudar a deixar o pessoal um pouco mais curioso pra ir no lançamento.




Entrevistador:  Conte um pouco sobre sua formação escolar. Onde estudou? Como era a escola? Como era sua relação com colegas, professores, funcionários, instituição?

Rodrigo: Estudei na Escola Estadual Profa. Irene Branco da Silva. Fica na Vila Rui Barbosa, subdistrito da Penha, Zona leste de São Paulo. Era uma boa escola na época que entrei e que foi se degradando com o tempo. Havia turmas de todos os períodos (na época, Primeiro e Segundo Grau), e lembro de ter participado de atividades no laboratório, biblioteca, quadra, além, claro, da sala de aula. Utilizei bem todos os recursos pedagógicos disponíveis.
            Eu era um CDF na escola. Só que não era um cara fechado, quadradão; pelo menos não depois da oitava série, quando passei a estudar no período noturno. Tive uma relação muito boa com colegas de classe, funcionários, professores da escola, ou seja, com toda a instituição. Claro, até o momento que eu fiz o papel de “bom-mocinho”, pois quando fui tentar organizar uma festa para ajudar um professor muito querido por todos na escola que estava com um sério problema de saúde, tive uma relação conflituosa com a direção, que não queria autorizar a festa. Fiz um abaixo-assinado, colhi centenas de assinaturas, discuti a questão com colegas da escola e, mesmo não tendo realizado a atividade, foi importante para marcar posição e provocar a direção; além de constatar que eles nem sempre faziam o que era melhor para os alunos, mas o que era conveniente para eles.

E:  O que motivou sua escolha pela carreira de professor? Quando tomou esta decisão?

R.: O que motivou mesmo a minha escolha pela carreira foi ter conhecido bons professores de história ao longo de minha trajetória discente, em especial nos últimos anos do Segundo Grau e um professor do cursinho. Mas, como eu falei, eu era um aluno CDF. E gostava de sentar com colegas, ajudá-los nos momentos de dificuldade, participar de seminários, etc. Acho que eu já tinha uma pré-disposição para a carreira docente. Mas a decisão, mesmo, só foi aos quarenta minutos do segundo tempo, pouco antes de indicar a opção nos vestibulares da Unesp e Fuvest. Antes, eu havia pensado também em Psicologia.

E:  Na sua descrição que aparece no livro “Te pego lá fora” é dito que você já recebeu propostas para lecionar em instituições de ensino privado. No entanto, você recusou. Por que esta opção pelo ensino público? Para você, o que está em jogo na oposição entre ensino público e privado?

R.: Primeiro, eu sempre estudei em instituições públicas de ensino. Desde o pré, até a Faculdade (formei-me na USP). Tenho uma convicção de que todo o investimento de dinheiro público que foi feito na minha formação, na minha pessoa, tem que, de certa forma, ter um retorno à sociedade. Acredito que este retorno se dá a partir do momento em que eu faço a opção de trabalhar numa instituição pública de ensino, apesar das enormes dificuldades: administrativa, organizacional, salarial, pedagógica, etc.
            Outra coisa é que eu acredito que a Educação deveria ser pública, gratuita e de qualidade, para todos. Sem distinção. A partir do momento que transformamos a Educação em mais uma mercadoria, separamos o que algo é algo de Direito para todos em um objeto de consumo – com variantes qualitativas – disponíveis para poucos, reproduzimos um problema seríssimo: a desigualdade. Então, por isso esta opção pelo ensino público, gratuito.
            Hoje em dia eu até repenso esta minha opção em não trabalhar em colégios particulares. Em certos momentos eu acho que até deveria estar lá para provocar esta instituição, provocar os valores que ela traz em si e os valores que os alunos que a freqüentam possuem. Mas não sei se conseguiria conciliar com o ensino no Estado e, dentro da minha chatice, sinceridade e seriedade que compartilho na minha profissão, acho que não duraria muito tempo também.

E: Conte um pouco sobre suas primeiras impressões como professor. O que mais lhe marcou no início da vida docente? O que foi mais fácil/difícil, interessante, etc?

R.: O que mais me marcou no início foi o “batismo de fogo”, realizado pelos professores. Lembro muito bem da experiência que foi a primeira vez que eu entrei numa sala de professores: as pessoas me olhando, tal qual eu fosse um animal, um objeto estranho. Uma curiosidade excessiva de olhares sobre a minha pessoa, uma coisa invasiva. Eu tinha apenas vinte anos, uma cara de moleque de Ensino Médio na sala dos “Veteranos”. Quando eles souberam que eu era o professor substituto que havia atribuído algumas aulas livres, quase deram risada. O que choveu foi conselho: - “Olha, cuidado. Nessa escola só tem animal.” “Rapaz, bem-vindo. Seja firme, você vai entrar numa jaula.” Foram estas palavras utilizadas. Ou seja, recepção melhor, não podia ter existido...
            Para mim o que foi mais fácil foi a relação com os alunos. Descobrir que eles não são aqueles “animais” que os professores apontam. São difíceis de lidar, como toda criança e adolescente algumas vezes são muito difíceis, mas não a ponto de desumaniza-los daquela maneira. Procurei sempre vê-los como gente, como pessoas, em primeiro lugar tratá-los com respeito para poder exigir isso deles. Isso facilitou muito.
            A minha maior dificuldade foi com a minha insegurança. A dificuldade em acreditar que eu era capaz de lecionar, que eu podia fazer aquele trabalho. Isso foi, e em partes ainda é, o mais difícil para mim. Com o tempo eu descobri que a experiência prática das coisas vai nos trazendo mais segurança. O tempo é um fator muito importante. E além disso, a preparação, o estudo, são vitais para diminuir esta sensação. Quanto mais preparado, mais organizado em relação ao que ia fazer eu estava, menos inseguro eu ficava. Ainda que nada do que eu tivesse preparado fosse executado da maneira como eu pensei, se eu me preparei, mais seguro estava.

E: O conjunto de experiências relatadas em seu livro chama a atenção para diversos problemas encontrados em grande parte das escolas públicas atualmente. Gostaríamos que você relatasse um pouco como você enfrenta alguns destes problemas, por exemplo:

a) Em contos como “Cara-de pau”, “Um estranho no cano”, “Socá pra dentro”, “Medo”, podemos perceber uma relação extremamente hostil dos professores e funcionários da escola em relação aos alunos, que são frequentemente insultados, ofendidos, humilhados e até mesmo agredidos fisicamente. Como você lida com esta situação no seu dia-a-dia? Você tem alguma opinião sobre as possíveis causas deste problema?


R.: Com muita revolta. A hostilidade, ofensas, humilhação e violência é uma situação quase que cotidiana dentro da escola. Tanto por parte de alguns alunos, quanto por parte de funcionários e professores.
            Da minha parte, eu tento lidar com esta situação através do diálogo, respeito. Algo que não abro mão dentro de sala de aula ou da própria escola é o respeito.    Estabelecermos sempre uma relação cordial, onde as regras do contrato – pedagógico – tem que ser claras, o papel de cada um naquele espaço, tem que estar claro. E quando não estão, quando este contrato é violado, por alguma das partes, tem que sentar e conversar. O diálogo, a clareza das coisas é fundamental dentro da escola. E quando o diálogo, a conversa, a clareza das coisas não funciona, sanções, reparações e punições devem ser aplicadas.
            Com relação a colegas e alunos, tento orientar, ambas as partes. Se observo alguma postura que não gosto de algum companheiro, tento chegar, conversar. Se for amigo, um bate-papo informal, trocar uma idéia; se não for, expor a situação, o problema em algum espaço legitimado para isso, seja um HTPC, seja um conselho de classe. E, no caso do aluno, eu relato o que ele pode fazer a nível institucional para resolver o problema.
            Algumas idéias sobre a causa deste problema eu penso que são: a desorganização do espaço escolar, tanto administrativamente quanto pedagogicamente; a falta de autoridade (não autoritarismo) e profissionalismo por parte de alguns profissionais da educação; a falta de regras claras que definam os papéis de cada um dentro daquele espaço, entre outros.

b) Em contos como “A.B.C.”, “Aprendiz”, “Bia não quer merendar”, “Nos embalos”, “Questão de postura”, “Miolo mole frito”, “A placa”, são retratadas situações que muitas vezes ultrapassam os muros da escola e mostram a extrema violência, em diversos aspectos, a que estão submetidos os alunos. Em diversos casos tais situações chegam a provocar a evasão escolar, como em “A placa”. Como você encara esta situação? E a instituição escolar? Há alguma preocupação com a vida dos estudantes por parte dela?

R.: Vejo isto como um problema muito sério. Na escola, acabamos por estabelecer uma relação humana, pedagógica, social com os alunos, baseada principalmente na confiança. Depois que você está há um tempo na escola – pelo menos um ano, um ano e meio, acredito – desenvolvendo um trabalho sério com uma mesma turma, você consegue adquirir a extrema confiança deles. E com isso, muitos destes casos que aparecem as vezes de maneira superficial – no sentido de só vermos a ponta do iceberg – são apresentados a você de uma maneira mais profunda, mais intensa, até como forma de compartilhar não apenas a violência, o problema, mas a sua solução.
            Da minha parte, procuro não me omitir quando vejo uma situação destas. Converso muito com os alunos, com o seu consenso informo a situação à Coordenação, à Direção da escola; se necessário converso com os responsáveis. A questão das drogas, a violência doméstica, o abuso sexual, o trabalho infantil, entre outros, são questões que estão colocadas, existem, não podem ser ignoradas. Só que é muito difícil lidar com isto já que muitas vezes lidamos sozinhos com estas situações. A escola, enquanto instituição, deveria responsabilizar-se, mas infelizmente não o faz, e quando o faz, faz de uma maneira equivocada. Eu creio que os profissionais que fazem parte dela não estão preparados – como muitas vezes eu não estou – mas o maior problema é o desejo de não querer se aprofundar nestas questões, já que elas demandam tempo, responsabilidades e muito trabalho. Somados ao nosso já cotidiano massacrante, estas questões são muitas vezes ignoradas ou postas de lado, o que não resolvem as violências pelas quais estão submetidas estas crianças e adolescentes.

c) Em contos como “Da frente do front”, “Papo reto”, “Perdidos na selva”, “Um estranho no cano”, a situação de tensão constante também parece afetar a relação entre os professores, entre estes e a direção da escola, e daqueles que trabalham na escola com as outras pessoas de seu convívio social. Frequentemente os professores que acreditam na educação pública como um princípio aparecem taxados como “idealistas” ou “ingênuos”, e são coagidos moralmente para se “enquadrar no esquema” e agir como todos os demais. Conte como você lida com esta situação no seu cotidiano.

R.: Olha, algumas vezes eu dou risada, em outras eu finjo que não é comigo. Muitas vezes eu tento apenas ignorar este tipo de comentário, mesmo porque se for rebater a toda hora, a todo instante em que eles são manifestados, não faria outra coisa na escola. Mas há determinados momentos que precisamos questionar estas opiniões e posturas, principalmente quando isso se manifesta quase como uma coerção moral. Mesmo porque senão acabamos caindo na idéia de que não é possível mudar, de que nada funciona, nada dá certo. Algumas vezes eu sinto isto, claro, faz parte, dependendo do dia, dos problemas e situações que enfrentamos, ficamos enfraquecidos, querendo desistir. Mas no dia que eu tiver a desistência total como princípio, como muitos colegas meus já fizeram, eu abandono a escola. Acredito que será mais salutar para mim, para os profissionais que me rodeiam e para os alunos.

E: Em “Da frente do front” é mostrada a relação conflituosa existente entre os professores e alunos que defendem a escola pública e o governo, responsável por sua gestão. Em “Papo reto”, este mesmo conflito é colocado dentro dos muros da escola, com a direção. Como você enxerga a gestão da educação pública hoje em dia? Ela é democrática? Você considera que possui autonomia para desenvolver seus projetos e seu método pedagógico? Como você lida com isto?

R.: Pergunta um “tantinho” quanto complexa. Primeiro, precisamos definir o conceito do que entendemos por democracia. Democracia é “o poder pelo povo”? Certo. Mas entendo que, na instituição escolar, democracia é a garantia de você ter direitos. Ou seja, uma escola democrática, pra mim, é aquela que garante um bom aprendizado e desenvolvimento do aluno, enquanto estudante e enquanto ser humano. Avaliando por este ponto, nossas escolas não são democráticas. Não apenas porque os alunos não participam das instâncias de decisões – e existem algumas delas que eles não devem participar, já que existe a necessidade de uma certa maturidade e aprendizado técnico, profissional – mas porque eles não estão tendo a garantia dos seus direitos respeitados. Desde o direito mais básico, como o direito à vida e ao desenvolvimento pleno e seguro, quanto o seu direito à educação, cultura, lazer, respeito. Isto não está acontecendo em nossas escolas.
            Com relação ao desenvolvimento de projetos pedagógicos, temos autonomia sim. Em alguns pontos, autonomia até demais, eu acho. Pois o fato de não haver uma fiscalização, de não haver uma cobrança sobre o trabalho dos professores, é parte da responsabilidade desta lambança que temos hoje no ensino.
            Por outro lado, não concordo com o método que a Secretaria de Educação Estadual está querendo “corrigir” este erros, com os “caderninhos” de proposta curriculares para o ano letivo. Aquilo chega a soar como ridículo. Primeiro porque desconsidera todo o aprendizado, toda a formação profissional do professor, responsabilizando-o pela nossa situação catastrófica por “não saber ensinar”, e as coisas não são bem assim. Segundo, o Estado, com estes cadernos, faz o professor se comprometer com metas pelas quais ele sabe que o professor não poderá cumprir. Por exemplo: em História, nos quatro anos do ciclo II do Ensino Fundamental, parece que somos obrigados a trabalhar a história de “Deus e sua época”, ou seja, tudo. Isto é inviável. Seria muito mais ético fazer com que os professores estabelecessem sim, uma proposta curricular, um programa de trabalho ao longo do ano, mais um programa sincero, nas quais os profissionais pudessem se comprometer com a sua meta e realização real, na prática, e não essa proposta curricular que é quase impossível de se fazê-la cumprir com o aluno tendo o aprendizado concluído – já que esta também é uma questão posta: qual o nosso objetivo? Aplicar o programa, a proposta, na sua totalidade, como eles mandam – ou seja, conteúdo, conteúdo, conteúdo -, ou fazer o aluno apre(e)nder, de verdade, ainda que seja o mínimo e necessário? Das duas, eu fico com a segunda. Prefiro que o aluno apreenda um conteúdo mínimo proposto, com informações elementares à sua vida, e tenha domínio sobre isso.
            Que fique claro: não se trata de se comprometer com a “educação mínima”, ensinar apenas o básico aos alunos, não é isto. Mas rever a nossa proposta curricular atual e determinar o que é viável, praticável e possível inclusive para que isto possa ser cobrado e sua execução avaliada.

E: Por fim, podemos ver hoje em dia uma série de conflitos políticos colocados na cena da educação pública, com diversas greves e protestos dos professores não apenas pelo aumento salarial, mas também contra políticas do governo estadual. Como você vê o papel político dos professores atualmente? Qual a sua importância? Como você enxerga a atuação da APEOESP?

R.: Os professores não tem um papel político atuante atualmente, com raras exceções, é claro. A maioria está de saco cheio de tudo, querendo apenas saber quanto vai cair de salário e pronto. Não os culpo por chegarem nestas situações, muitos deles devem inclusive ter sido “idealistas” como sou hoje e, por conta da estrutura, do governo, da direção, e dos raios-que-o-partam, chegaram a este ponto. Não os culpo por isto. Irei culpá-los se estiverem de saco cheio, cansados e continuarem na rede, empurrando com a barriga, fazendo um péssimo trabalho, enganando os pais, a sociedade, os alunos. Aí devem ser responsabilizados. Mesmo porque, eu fico pensando – agora, neste exato instante – se houvesse um êxodo em massa de profissionais da educação, um grito de “Basta!” emitido pelos professores, talvez o governo tivesse que fazer mudanças que são profundamente necessárias em relação a nossa categoria.
            Os professores não são valorizados hoje em dia. E por responsabilidade sua, em primeiro lugar. O docente não se valoriza muitas vezes enquanto pessoa, enquanto profissional – na sua formação. O governo só complementa o trabalho.
            A APEOESP deveria servir para alguma coisa, já que é um dos maiores sindicatos da América Latina. Eu ainda estou tentando descobrir para o que ela serve, por isso que sou filiado. E apesar do número de professores sindicalizados, não acho que ela tenha a representatividade em nosso meio como parece. E para mim um dos problemas é que ela mesmo não se leva a sério.
            A APEOESP deveria defender a educação, mas ela só sabe defender a corporação. Isso, é grave. Pois o fato de uma pessoa ser professor não significa que ela é uma boa pessoa, um bom profissional. Qualquer ser humano que estude, faça uma faculdade boca-de-esquina qualquer ligado à área educacional pode se tornar um docente, e aí? Por isso ele se torna um cara, uma mina legal? Então não acho que todo professor é defensável, e a APEOESP faz isso – não que não tenha direito de defesa, mas não se pode colocar todos como “santos” como este sindicato muitas vezes faz.
            Outro problema da APEOESP é que ela sempre coloca, como carro-chefe de suas reivindicações, a questão salarial. É claro, é óbvio que o professor precisa ganhar melhor, ter um bom plano de carreira, isto é óbvio. Mas uma coisa eu tenho como certa: ainda que houvesse um aumento de 100% dos salários dos professores, não ia ter mudanças substanciais na qualidade da educação paulista. Não creio. O que ia mudar é que o poder de consumo, o poder de compra destes professores iriam aumentar, mas não acredito que isso fosse ter um grande impacto na educação. Muitos docentes não iam abandonar seus outros cargos por conta do aumento, muitos docentes não iam melhorar a preparação de aulas por causa do aumento, muitos docentes não seriam mais decentes, mais humanos na relação com os alunos que eles tratam como lixo, como bicho, muitas vezes, só por causa deste aumento. E o sindicato só fica nesta ladainha: aumento, aumento, aumento.         
            Acho que tem outras coisas para serem colocadas na pauta de reivindicações, não apenas como adendo, mas como proposta mesmo. Uma coisa já falei é a questão da proposta curricular: fazer uma proposta viável. Discutir, seriamente, o que o aluno deve aprender na escola, o que é possível ensinar durante um ano letivo, já que a história de “Deus e sua época” não é possível. Outra coisa: vamos diminuir o número de alunos por sala. Vinte alunos por sala, já. Pra ontem. Que se construam mais escolas, que se repense os seus horários, não importa. Vinte alunos por sala, já. É um número razoável, satisfatório e adequado para o professor trabalhar, desenvolver diferentes propostas, projetos. Entre outros coisas. Se o professor conseguisse ensinar os seus alunos dentro de uma proposta curricular viável, em que todos aprendessem, trabalhando ao longo de alguns anos letivos numa sala com vinte alunos, tenho plena convicção de que algumas mudanças surgiriam: a) a evasão, problemas de indisciplina, diminuiriam; b) a qualidade da educação melhoraria; c) alunos e professores estariam mais satisfeitos, com auto-estima elevada.
            Posso dizer, com toda franqueza, que eu dispensaria inicialmente um aumento de salário se eu tivesse condições pedagógicas, administrativas e estruturais para trabalhar, se eu estivesse satisfeito com o meu trabalho. Ficaria lá, com os meus quatro salários mínimos, sem problema. Nós, seres humanos, não somos apenas material, não é só a massa e o concreto que importam, mas precisamos de realização, precisamos saber que o nosso trabalho, o nosso investimento está rendendo bons frutos, que não é apenas um gasto, uma energia, física, emocional, mental que você aplica e vai pro espaço, não é aproveitada. Se nós conseguíssemos executar ações capazes de fazer com que tenhamos este retorno, com que tivéssemos resultados, seria muito mais benéfico para todos, e acredito que muitos de meus colegas professores estariam satisfeitos com isto.

E: Gostaria de fazer alguma consideração final?

R.: Apenas que as questões aqui colocadas são bem complexas, que eu não tive o tempo adequado para responder à todas, já que as respostas demandariam semanas, meses de pensamento, reflexão e ação, mais do que apenas a semaninha que tive para fazê-las. Dizer que Educação é algo que eu levo muito a sério, gostaria que as pessoas envolvidas neste meio também o fizessem e, se acha que não dá conta, se acha que não é possível mudar, se acha que não tem o que fazer; se você não está a fim de investir nessa guerra que parece que não terá fim e que não conseguiremos uma transformação, seja sincero contigo, abandone o barco e vá fazer outra coisa da vida. Eu mesmo já pensei em desistir – estou pensando muito nos últimos meses –, mas enquanto acreditar, prossigo. Quando desistir, se desistir, aviso. Gostaria que outros profissionais da educação fizessem o mesmo.
            Quem vai começar a mudar a educação não será o governo, não apenas. Seremos nós. Aqui em São Paulo um partido político está há quinze anos tocando o barco e não conseguiu tapar os buracos. Já estamos com a água no pescoço e afundando. Portanto, temos muito trabalho a fazer. Façamos. Não podemos perder mais tempo.