sexta-feira, agosto 29, 2014

Porque devemos apoiar a luta dos palestinos

Publicado originalmente no site da Liga Estratégia Revolucionária



Crianças israelenses escrevem mensagens como "com amor, de Israel" nos mísseis que serão lançados sobre Gaza.

1.902 mortos, 10.000 feridos. A maior parte civis e, destes, uma grande parcela de crianças. Esses são os números gerados pelos ataques de Israel aos palestinos na Faixa de Gaza. Quando você estiver lendo esse texto, esses números provavelmente já estarão desatualizados, pois o número cresce a cada hora.

Muito se lê e se ouve dizendo que Israel estaria exercendo seu “direito à legítima defesa”. Estaria contra-atacando para se proteger dos ataques do grupo Hamas, que alegam ser um grupo terrorista. Vejamos, em primeiro lugar, os “ataques” que Israel alega ter sofrido recentemente: seus bombardeios sobre Gaza se iniciaram após o sequestro e assassinato de três jovens israelenses; o governo de Israel afirmou ser responsabilidade do Hamas, mas não apresentou nenhuma prova disso, e o Hamas diz não ter participação nesse episódio. Isso, de acordo com o governo liderado pelo direitista Benjamin Netanyahu, do partido Likud, justificaria a destruição massiva que Israel tem levado adiante, destruindo escolas, hospitais, casas, matando dezenas de crianças e atingindo centenas de alvos não militares. Isso é a mais evidente demonstração do cinismo das declarações de que Israel está “se defendendo”.

Uma Palestina onde árabes, judeus e cristãos viviam em paz

Contudo, a questão é muito mais profunda. Para entendê-la, é necessário conhecer a história da Palestina e da criação do Estado de Israel. Nos limites desse artigo é impossível desenvolver todos os aspectos, mas queremos apontar o essencial. Já no século XIX, quando a região da Palestina fazia parte do Império Otomano, ali convivia pacificamente uma população de variada origem étnica e religiosa. A maioria eram árabes e muçulmanos, mas ao lado desses os cristãos e judeus coexistiam harmoniosamente.

Em muitas regiões do mundo os governos passaram a implementar políticas anti-semitas, ou seja, de perseguição aos judeus sob as mais variadas formas: desde leis que os segregavam, bairros e escolas separadas até o massacre físico. Um dos lugares em que essa política foi levada adiante de forma mais intensa foi na Rússia, onde foi aplicada pelo governo da monarquia (os tzares). Era uma política de Estado fazer os chamados “pogroms”, que eram massacres contra os judeus. Ali, como em toda a parte, os judeus era proibidos de cultivar a terra. Havia, no entanto, um povo que não os perseguia e não implementava essa proibição: o povo árabe. E, por isso mesmo, muitos e muitos judeus passaram a imigrar para a Palestina, onde podiam viver sem serem segregados.

O sionismo criado sob as asas do imperialismo

No fim do século XIX, Theodor Herzl fundou o movimento sionista, que defendia a criação de um Estado judaico, que a seu ver era a forma de acabar com a perseguição aos judeus. Esse movimento, inicialmente bastante minoritário entre os judeus e inexpressivo politicamente, ganhou o apoio do imperialismo britânico, que, após o fim da Primeira Guerra Mundial e o desmantelamento do Império Otomano, passou a gerir a Palestina como seu “protetorado”, a partir da divisão do espólio de guerra entre os países imperialistas.

Apoiou a imigração massiva de judeus para a palestina, mas não por querer “ajudar os judeus”, que já viviam ali tranquilamente, mas sim por querer criar um pólo sob sua influência em uma região estratégica. Como fim daSegunda Guerra e o ascenso do imperialismo americano, o movimento sionista troca de “padrinho” e se filia aos EUA, que, com o mesmo interesse militar, político e econômico, apoia a criação de Israel. Em 1948, valendo-se do trágico massacre aos judeus feito por Hitler na guerra, consegue difundir a ideologia da criação de Israel.

O sionismo tinha um lema para a Palestina: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Só que a Palestina não era uma terra sem povo: como dissemos, ali já era um local habitado por muitos povos, e, majoritariamente, os árabes. Quando a ONU aprova a resolução da criação do Estado de Israel estão dando o sinal verde para a criminosa política que já há algumas décadas era incentivada por EUA e Inglaterra: a expulsão dos árabes palestinos de suas casas. Para consagrar a criação de Israel, uma mílicia organizada pelo sionista Bem Gurion leva adiante a expulsão e o massacre de dezenas de aldeias, entre os quais o mais célebre é o de Dir Yassin, no qual 250 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram assassinadas.

Israel: um estado religioso e racista fundado no militarismo e expansionismo

Esse foi o método pelo qual Israel continuou se expandindo desde então: em dezenas de massacres, em guerras como a dos seis dias em 1967, foram tomando cada vez mais territórios às custas de milhares de mortes e milhões de exilados. Hoje, os palestinos exilados, que não têm direito de voltar às suas casas e estão espalhados pelo mundo, inclusive pelo Brasil, são cerca de 8 milhões. Isso só pode ser feito criando Israel como um Estado religioso, no qual os palestinos são discriminados por cerca de 30 leis, tal como ocorria com os judeus na Rússia tzarista.

Mais do que isso, para essa política expansionista se criou a ideia de “cidadão-soldado”, num país em que cerca de 20% do PIB vai para financiar o exército e todos os homens servem quatro anos nas forças armadas, e as mulheres três. Isso, somado à intensa propaganda sionista, deixou marcas profundas na ideologia do povo israelense: não é a toa que hoje vemos fenômenos como o “cinema de Sderot”, em que israelenses assistiam em cadeiras de praia e aplaudindo os bombardeios sobre Gaza, ou as crianças que escreviam “mensagens de amor” nas bombas e mísseis que eram jogados sobre o território. Cria-se uma ideologia fascista, na qual os árabes são vistos como “sub-humanos” para se justificar seu massacre. Os israelenses que resiste a esse processo de fascistização, como os jovens que se recusam a servir no exército ou alguns intelectuais, são completamente marginalizados em seu país como “traidores”.

Como resolver a questão?

Tudo isso é fundamental para entendermos que não é possível ver a questão como de “dois lados agressores” que estão, ambos, errados. Nem que Israel tem direito à defesa, ou que é necessário criar dois Estados, um palestino e um judaico. A base que sustenta Israel desde sua criação é uma ideologia imperialista, um expansionismo fundado numa ideologia racista de que os judeus são “o povo eleito” e por isso têm mais direitos do que os palestinos a existir, um Estado religioso e militarizado até a medula. Os próprios judeus ortodoxos dizem não concordar a existência de Israel, e têm protagonizado atos, ao lado de outras dezenas de manifestações ao redor do mundo que reuniram centenas de milhares, contra esse massacre.

A única forma de garantir uma existência pacífica para judeus e árabes na Palestina é a criação de um Estado único, uma Palestina que não seja racista. Para isso, no entanto, é fundamental se libertar da dominação do imperialismo, que tem ali um ponto de apoio fundamental para sua política de dominação no oriente médio. Por isso, somente a classe trabalhadora pode dar uma resposta a essa situação, os trabalhadores judeus e árabes podem criar um país que rume ao socialismo, se unificando com os trabalhadores de todos os países árabes na região para a criação de uma União de Estados Árabes Socialistas. Isso está em oposição à existência de Israel, mas também à solução igualmente reacionária proposta por Hamas, de um Estado árabe teocrático que voltaria seu racismo e discriminação contra os judeus. A criação de um Estado operário e socialista só pode se dar pela via da união dos trabalhadores árabes e judeus, fazendo, conjuntamente, uma revolução contra suas burguesias, que são as verdadeiras interessadas em que o massacre se perpetue.

E o Brasil com isso?

É criminoso que qualquer pessoa no mundo fique calada diante desse massacre, que não é de hoje, mas que ocorre há mais de sessenta anos. A diplomacia brasileira, diante disso, veio a público dizer que os ataques de Israel eram “desproporcionais”. O primeiro problema com essa afirmação é que não há nenhum tipo de ataque “proporcional” contra o povo palestino: toda agressão feita por Israel é um crime contra a humanidade.

Em segundo lugar, a postura “independente” do Brasil foi desmentida logo que a diplomacia israelense fez suas declarações asquerosas de que “o Brasil é um anão diplomático” e de que “desproporcional é sete a um”. Ogoverno brasileiro apressou-se em declarar que “reconhece o direito de defesa de Israel”, mostrando que é, sim, conivente com o massacre dos palestinos.



Mas é muito pior: o governo brasileiro é o quinto maior importador de armas de Israel no mundo. Essas armas são usadas para reprimir nas favelas. A polícia e exército brasileiro também recebem treinamento do exército de Israel. Esse é o nível de cumplicidade entre o governo brasileiro e o governo israelense. É necessário irmos às ruas, como ocorreram nos três atos já realizados em São Paulo, massificando cada vez mais nossas mobilizações para exigir que se encerre qualquer relação diplomática com Israel, e que acabe todo tipo de acordo militar entre os dois países.

sábado, julho 26, 2014

Palestina - uma luta pelo direito à vida


Você sabe o que é Nakba? É uma palavra árabe, significa "catástrofe". Essa é a palavra que os palestinos usam para designar a criação do Estado de Israel, em 1948. Esse evento levou à expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas casas, logo após um "exemplar" massacre em uma pequena aldeia palestina, Dir Yassin, em que mais de 250 pessoas, incluindo crianças, mulheres, idosos, são impiedosamente assassinados.

Os palestinos, após a resolução da ONU que aprova a criação de Israel, tentam resistir, tomam as ruas, decretam greve geral. O imperialismo inglês, que nesse momento controla o território, ajuda as forças sionistas a esmagar os protestos. Ben Gurion, líder do movimento sionista, arma os sionistas até os dentes para que estes imponham, à força, a expansão do território determinado pela ONU.

O lema do sionismo, "uma terra sem povo para um povo sem terra" foi a mentira através do qual se perpetuou um massacre por mais de seis décadas, fundado em um Estado militarizado até os dentes, no qual o serviço militar obrigatório de 3 anos para os homens e 2 para as mulheres é um pilar social. A chamada "defesa" do Estado de Israel é constituída sobre essa farsa, que hoje mantém milhares de palestinos reféns em Gaza e na Cisjordânia, e quase um milhão de refugiados espalhados pelo mundo, sem direito a retornar ao seu lado. Quando Israel foi aceita pela ONU, em 19, ela se comprometeu a garantir o retorno dos refugiados. Obviamente, uma farsa, que foi aceita e encoberta por essa organização "humanitária" do imperialismo. A ONU permaneceu e permanece decretando suas resoluções vazias, enquanto o massacre contra os palestinos continua. Para quem quiser saber melhor essa história, recomendo assistir esse filme.

No ato em São Paulo, menina leva cartaz: "Chega de matar as crianças de Gaza como eu".


É culpa dos dois lados? Um conflito entre dois povos em guerra? Não se trata de nada disso. Estudar a história da palestina deixa muito claro que se trata do exílio forçado de um povo e de seu massacre, feito com a conivência e o apoio da Inglaterra e, após 1945, dos EUA, mas com a cumplicidade dos demais países e governos capitalistas.

Hoje esse massacre chega a extremos. Não militares, pois é impraticável contabilizar todos os crimes cometidos por Israel contra os palestinos durante essas seis décadas. Mas chega a novos patamares ideológicos, com já muitas gerações tendo crescido sob a tutela da ideologia sionista e a educação militar e fascista que esse Estado dá aos seus cidadãos.

Eu vi essa educação expressa em uma amiga - talvez ex-amiga seja o termo mais correto - israelense, que se chocou ao ver minhas postagens no Facebook em defesa do povo palestino e contra Israel. É o Hammas que mata o povo palestino, me disse ela. O Hammas? Como? É o Hammas que joga mísseis sobre as casas de civis, que mantém os palestinos como reféns sem cidadania espremidos em uma pequena faixa de terra e isolados por um muro cheio de militares armados até os dentes? É o Hammas que expulsou centenas de milhares? É o Hammas que diz, como a extrema-direita israelense faz, que não existem civis palestinos, apenas terroristas e terroristas em potencial?

São "terroristas"? São "violentos"? Israel tem que "se defender"? Há um poema de Brecht chamado "Sobre a violência". Ele é assim:

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguem chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
E tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operarios na rua?



Você já viveu como um prisioneiro? Já teve seus familiares assassinados? Já foi um cidadão sem direitos? Já teve que apresentar seus documentos todos os dias para passar por uma vigilância militar e chegar ao seu trabalho? Teve seus antepassados expulsos de suas casas? Foi tratado como lixo, sido chamado de terrorista por tudo isso que lhe ocorreu? Não, né?

E se vivesse assim, você, toda sua família, todos os seus amigos, há décadas? O que você faria? Você sabe? Eu não sei, mas acho que, ainda que ineficaz, qualquer forma de tentar resistir a isso seria, no mínimo, legítima. Seja sequestrar um avião, tentar construir foguetes em sua casa, cavar túneis, jogar pedras contra tanques ou qualquer ato desesperado. Se isso é ser terrorista, qualquer ser humano está sujeito a ser um terrorista. Ou, como alternativa, a morrer de joelhos...

Por outro lado, como justificar que, quando se bombardeia um povo por uma suposta "legítima defesa", se sente em cadeiras de praia para assistir e aplaudir enquanto crianças são brutalmente assassinadas, escolas e hospitais são destruídos para pegar os "terroristas"? Que tipo de defesa é essa, em que professores universitários dizem que a única forma de conter os terroristas é estuprar suas mães e irmãs? Que tipo de defesa é essa em que cada cidadão é treinado para ser um assassino? Uma defesa que bombardeia crianças que jogam bola na praia, que ataca emissoras de televisão, que impede manifestações contra os ataques em seu território? Como alguém pode acreditar que isso é defesa? Como alguém pode achar que qualquer coisa que se faça contra isso não é em legítima defesa? Como alguém pode defender a existência de um Estado que, desde antes de ser criado, é responsável pela morte, sofrimento, exílio, racismo?

Ato em Londres. Na Grã Bretanha os atos contra os ataques de Israel chegaram a reunir cem mil em um dia.
Não é possível sustentar essa mentira, e por isso o apoio democrático aos palestinos, que lutam por nada mais do que seu direito a existir, a morar em sua terra, a não serem bombardeados, cresce exponencialmente no mundo inteiro. São centenas de milhares em dezenas de atos no mundo inteiro. Intelectuais e artistas como Sinead O'Connor, Massive Attack, Robert De Niro, Stephen Hawkings se somam à campanha. Enquanto isso, o massacre continua. A Nakba continua massacrando todo um povo, sem direito a viver. Não se pode dormir em paz enquanto isso continua.

E você, vai fazer o que?


terça-feira, julho 22, 2014

Chega dos parasitas dessa “democracia dos ricos”


Vem se aproximando mais uma vez aquele momento no qual, a cada dois anos, nos dizem que decidimos o futuro do nosso país. À velha e gasta propaganda do “direito e dever de cidadão” que supostamente exercemos ao ir às urnas, se soma um nem-tão-novo discurso que diz que “o verdadeiro protesto é nas urnas”. Essas “lições” vêm do mesmo lugar, e essa última, em particular, se dirige à juventude que foi às ruas às centenas de milhares no ano passado e conseguiu barrar os aumentos das passagens; dirige-se também às dezenas de milhares de trabalhadores que fizeram greves, muitas vezes atropelando seus próprios sindicatos, e conseguiram em muitos casos conquistar aumentos significativos – em especial os garis do Rio.

A ideia que esse discurso quer enfiar em cada cabeça é que pode ser até justo e eficiente protestar na rua, mas que a verdadeira mudança, a que tem consistência e profundidade, está no “voto consciente”. E essa preocupação de reafirmar tantas vezes essa ideia surge porque todos vimos que, junto com a exigência de melhores serviços públicos, direitos e salários, acompanhava constantemente o tom geral de reprovação desses governos que estão aí. Os índices de aprovação dos governantes de plantão, fossem do PT, PSDB, PMDB ou outros, despencaram a níveis historicamente baixos. E por isso se gasta hoje tanta propaganda para tentar convencer cada um que o melhor é “votar certo”.

Mas quando paramos para ver e pensar no “voto certo”, a certeza de junho e das greves desse ano volta a se manifestar: com um ou com outro, amargamos as mesmas dificuldades. E, não só isso, mas continuam os mesmos acordos, a mesma corrupção, os mesmos privilégios para quem está “por cima” enquanto nós, os que “votamos consciente”, amargamos com uma vida cheia de dificuldades, sempre as mesmas e cada vez maiores. E vemos todos os políticos, seja qual for o partido, “dançando conforme a música”, cedendo aqui e ali para as mesmas velhas oligarquias, justificando cada passo igual ao de seus antecessores em nome da tal “governabilidade”. E o que é a “governabilidade” senão continuar cedendo aos interesses das mesmas empresas, dos mesmos bancos, dos mesmos setores conservadores, para fazer um governo que, em suma, não faz nada de novo, nem nada para quem precisa?

Não podemos mais continuar acreditando que tudo o que nos cabe é votar “no menos pior” e empurrar os problemas com a barriga, vendo cada dia estourar um escândalo de corrupção novo e nos acomodarmos em pensar que “política é isso mesmo”. Não! Em junho mostramos que a política que queremos é aquela que fazemos quando dizemos aos de cima “basta”! Basta de sapatear em nossos direitos em nome de seus privilégios. A política que necessitamos e que somos capazes de fazer é aquela que fizeram os garis do Rio quando disseram “basta”! Basta de direções pelegas nos sindicatos ligadas aos empresários nos dizerem que não podemos fazer greve. Basta de prefeitos como Eduardo Paes, do Rio, que vive uma vida de luxo, mas foi à televisão dizer que os garis em greve são “marginais” e não podem lutar por um salário digno. E mostramos que somos, sim, nós, trabalhadores e juventude, capazes de fazer a nossa política por cima da vontade deles.

Nessa eleição precisamos saber que essa vontade e capacidade de lutar por democracia precisa ser expressa também para determinarmos como funcionam os governos. Para que os que elegemos, e que hoje cinicamente se denominam “representantes do povo”, o sejam de fato, eles devem viver a vida do povo, e não como parasitas privilegiados às custas de nosso trabalho. Por isso, todo político eleito, todo assessor parlamentar e qualquer cargo de confiança, todo juiz, desembargador, magistrado deve deixar de ganha salários de dezenas de milhares de reais e passar a ganhar o mesmo que um professor da rede pública de ensino. Assim vão deixar de fazer demagogia com “a importância da educação”, pois verão na pele como vive um educador nesse país. Que passem a usar o transporte, educação e saúde públicas, como os trabalhadores, para sentirem na pele o drama que vive quem depende dos serviços públicos. Que os juízes que julgam as greves de garis, motoristas de ônibus e outras categorias abusivas sejam eleitos por voto popular.

Para que nossa representação seja muito mais democrática, efetiva e barata, temos que acabar com cargos do poder executivo, como presidente e governador. Esses cargos não servem para nada se não para negociar em melhores condições com determinados empresários e banqueiros, para fazer conchavos ao gosto desse e daquele partido. Que os poderes executivo e legislativo se unifiquem, e componham uma câmara única, acabando com o Senado. Na câmara dos deputados os representantes são eleitos de acordo com o número de votantes, mas cada estado tem um número mínimo e um máximo de deputados pré-estabelecidos, independente do número total de votantes, provocando uma distorção da votação em que nem todos tem o mesmo peso, pois se dilui o peso de cada voto nos locais mais populosos e, portanto, com maior concentração de trabalhadores, como São Paulo, em relação a estados menos populosos, como Acre. No Senado, essa distorção é ainda maior, pois são eleitos três senadores por estado, independente de seu tamanho ou sua população. Essa distorção é o que mais favorece que continuem no poder por décadas oligarquias regionais como os Sarneys do Maranhão e Amapá, os Collors em Alagoas, os Magalhães na Bahia, entre outros. Que o dinheiro que banca esses parasitas no Senado seja usado para os serviços públicos!

Além disso, não é justo que tenhamos que esperar quatro anos para tirar do poder alguém que vem agindo de forma contrária aos interesses da população. É necessário que os cargos eletivos sejam revogáveis, para que aqueles que vencem a eleição saibam que não podem fazer “o que quiser”.

Essas medidas, as mais básicas para que tenhamos um governo democrático, nunca serão votadas pelos próprios privilegiados que hoje fazem as leis e se beneficiam da corrupção e de suas mordomias. Para impor essas mudanças, temos que ver o exemplo das mobilizações recentes, e saber que só podem ser conquistadas pela nossa própria força. Por um governo dos próprios trabalhadores para os trabalhadores e o povo pobre!

quinta-feira, julho 03, 2014

Como conheci Fábio Hideki e porque lutar por sua liberdade



Me lembro bem da primeira vez que conversei com Fábio. Foi em 2007, no prédio das Ciências Sociais/Filosofia da USP. Ele era um cara expansivo, bem aberto, veio puxando assunto comigo e com minha camarada Flávia, que na época estudava lá também. Achei ele meio esquisitão, em vários sentidos. Era um nerd japonês da Poli, mas era de esquerda, ainda que bastante confuso nas coisas que falava. Dava pra ver que ele se sentia bastante isolado lá na Poli, e acho que era por isso que passeava ali pela Sociais.

Logo me acostumei com o Fábio por ali, conversava sempre com ele, e o que achava mais interessante nele era sua disposição absolutamente interminável por conversar, ouvir opiniões diferentes, pensar, rever suas próprias concepções. Isso permitia a Fábio que ele avançasse muito rapidamente em suas concepções políticas, porque apesar de ser bastante convicto do que falava, também nunca deixava de ouvir os outros. Conversava com todos os grupos políticos, ouvia todas as opiniões, nunca deixava de dizer o que achava, e nunca abria mão de uma opinião para agradar ninguém.

Me lembro bem de uma discussão que tivemos, em 2009, quando Fábio defendeu uma posição que considerei completamente absurda. Foi em meio à greve pela reintegração do Brandão, diretor do Sintusp demitido político ilegalmente pelo governo Alckmin devido à sua trajetória de luta. Era uma greve bastante dura, e tal como hoje, dirigida de forma muito democrática pelo Comando de Greve dos trabalhadores e pelas assembleias da categoria. Eu militava na LER-QI, organização da qual Brandão era membro e fundador, há poucos meses. 

Acompanhava muito de perto a greve, lutando para que os estudantes percebessem como era fundamental que defendessemos o Sintusp e os trabalhadores diante desse ataque. Era uma tarefa muito difícil: a USP é muito elitista, e era uma árdua tarefa explicar para um estudante porque ele deveria ser a favor de uma greve para reintegrar um peão da universidade. Fomos duramente atacados pela mídia. Os trabalhadores radicalizaram suas medidas, piquetaram o prédio da reitoria. A burocracia acadêmica e o governo não deixaram por menos, e o setor mais reacionário, aglutinado em torno da figura do então diretor da faculdade de direito, João Grandino Rodas, pressionou a reitora Suely Vilela para que ela chamasse a polícia. E, um belo dia, a reitoria amanheceu cercada pela polícia. Foi então que os estudantes se revoltaram e aderiram à greve, na qual levantaram a pauta contra a Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), uma forma de precarização do ensino transformando-o em ensino à distância. 


No Jornal do Campus em 2009, imagem de Fábio com o monitor na cabeça


Hideki era ativo na greve: podia-se vê-lo em todos os atos com sua sempre inusitada forma de protestar - andava com um monitor na cabeça, protestando contra o EaD (Ensino à Distância). Em determinado momento da greve, os trabalhadores tiveram uma excelente ideia para divulgar sua greve e arrecadar dinheiro para a luta: um grande show. E organizaram, no velódromo da USP, um show com Tom Zé, B-Negão, entre outros artistas solidários com a luta. Cobrando um ingresso de cinco reais, cuja renda seria destinada inteiramente ao fundo de greve, o Comando de Greve colocou de pé esta fantástica atividade de greve. Fábio veio me procurar para dizer que era contra (na época ele não era trabalhador da USP, apenas estudantes). "Contra?", me espantei, e questionei seu motivo. Ele disse que ao cobrar ingresso para entrar no velódromo, um espaço público dentro da universidade pública, os trabalhadores estavam incorrendo em um tipo de privatização do espaço. No meio da discussão, chegou a comparar com as festas realizadas pelo Grêmio Politécnico que também cobravam entrada no espaço. E disse que era contra a cobrança de ingresso em qualquer evento na USP, pois era um espaço público. Discuti com ele exaustivamente e, em alguns momentos, até exaltadamente. De nada valeram meus argumentos sobre como o dinheiro era para financiar justamente a luta em defesa da universidade pública, e que não tinha absolutamente nada a ver com uma festa da Poli ou qualquer tipo de privatização do espaço. Fábio não apenas não se convenceu, mas por alguns meses insistiu nessa discussão comigo e com todos os meus camaradas, justamente porque sabia que nossa organização fazia parte do Comando de Greve e era uma impulsionadora dessa política.

Imagino que hoje a opinião dele seria outra. Mas, não importa muito. Citei esse episódio porque acho ele emblemático das posturas de Fábio: ele é duro na queda, teimoso nas suas posições, convicto mesmo quando sua opinião é isolada; mas nunca se recusa a discussão. Com o tempo e seu envolvimento no movimento estudantil, foi tendo posições progressivamente à esquerda, e sempre assumiu claramente sua posição de oposição política às direções do movimento, PSOL e PSTU, e também sempre os questionou aberta e diretamente.

Lutando pela democratização da universidade


Fábio continuou sendo uma figura muito conhecida na USP, no movimento estudantil e de trabalhadores, e acredito que isso se deva a três características marcantes suas: sua excentricidade, com coisas como andar com o monitor na cabeça em 2009, com sua espada de treino de Kendô, ou com seu capacete de motoqueiro nos atos mais recentes; sua enorme comunicatividade e vontade de discutir com todos sobre tudo, e de conhecer todas as posições políticas e se posicionar sobre tudo; sua combatividade, de estar sempre presente nos mais diversos tipos de atos com uma assiduidade que praticamente não se encontra em ativistas políticos que não sejam militantes de organizações (e mesmo nesses nem sempre se encontra).

Acho que Fábio ter se tornado um trabalhador na USP foi um enorme ganho, para a categoria e para ele. Uma categoria com uma história e uma tradição de luta tem muito a ensinar a um jovem e bem disposto ativista político; e um jovem combativo como Fábio renova a disposição de luta da categoria e de sua vanguarda. Além disso, como atestam os depoimentos de companheiras do CESEB que trabalham ao lado de Fábio, como Nilma, ele é muito atencioso com os usuários do posto; não esperaria outra coisa dele.

Fábio foi preso injustamente, ilegalmente, de maneira absurda. Fiquei pasmo quando soube que estava sendo acusado de "líder dos black blocs"; acho que o primeiro impulso de qualquer um que conheça ele ao descobrir isso é de rir. Porque, por mais que ele já tenha hoje uma relativa experiência na militância política, de uma maneira curiosa Fábio sempre manteve um jeito inexplicavelmente ingênuo, inocente, amigável. Ele é o tipo de pessoa que não condenaria de forma alguma a ação dos black blocs, pois, diferente de organizações como o PSTU, sabe que é uma questão de princípio não contribuir em uma vírgula para a criminalização dos lutadores. Mas ele nunca tomaria parte nessas ações, pois tem maturidade política suficiente para saber de sua completa ineficácia e contraproducência para as causas que defende. Sendo assim, sua prisão me faz pensar em duas possibilidades: A polícia resolveu escolher um bode expiatório completamente aleatório apenas porque recebeu ordens de cima para fazer uma "prisão midiática" e ajudar Alckmin a "ficar bem na fita" com os setores mais conservadores do eleitorado paulista; ou, o serviço de inteligência da polícia é dos mais imbecis, precários e rudimentares que já existiram. A primeira possibilidade parece mais plausível.

Agora, a tarefa de qualquer ativista minimamente consequente, ou mesmo de qualquer pessoa democrática, é lutar pela liberdade de Fábio. Pouco importa se você o conhece, se você concorda com as opiniões dele, se você é amigo dele ou se acha Fábio um louco ultra-esquerdista ou um mala sem alça. Não é isso que está em jogo. Esta prisão é um salto de qualidade na criminalização dos movimentos sociais e lutadores, um teste de força do governo. Se ela passa, é um sólido passo para o avanço da repressão e da vigilância. É um passo atrás em qualquer âmbito democrático da nossa sociedade. É a permissão para que qualquer outra pessoa seja presa sob acusações forjadas e mantida em um presídio. Me preocupa muito que organizações importantes da esquerda como PSOL e PSTU não estejam percebendo a gravidade dessa questão e não estejam mexendo um dedo para lutar pela liberdade de Fábio. É hora de nos unirmos fortemente em uma grande luta para libertar Fábio Hideki. Todos somos Fábio.

terça-feira, julho 01, 2014

Sobre garis, metrô, eleições e a estratégia revolucionária que o PSTU não aprende

Cada passo do movimento real 
é mais importante do que uma dúzia de programas.

- Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha

Zé Maria do PSTU demonstra sua "estratégia revolucionária" sentando amigavelmente com a burocracia sindical.

Está completando um ano desde que nosso país passou por um abalo que mudou muita coisa. Não há quem na esquerda brasileira não afirme - à sua maneira - que junho foi um marco. E aí, isso coloca todas as organizações à prova, depois de décadas muito difíceis para qualquer um que se reivindique marxista e revolucionário - em particular para os que não apenas falam que são, mas que agem de acordo com isso. 

Nesse marco, vemos estourar uma das mais importantes greves no país: a dos metroviários de São Paulo. Importante pelo peso social de uma categoria que é responsável por 4 milhões de viagens por dia, sobretudo de trabalhadores indo e voltando de seus postos, colocando em ação a mais-valia, a reprodução do capital, o lucro de seus patrões. Parar isso não gera apenas um impacto econômico avassalador, mas faz com que todo o país, todos os explorados, prestem atenção no que está acontecendo ali. Uma categoria com uma tradição de luta que não é qualquer coisa, com um nível de sindicalização altíssimo e a possibilidade de ser um exemplo.

Isso, depois da vitória dos garis. O primeiro exemplo contundente de que há um setor da classe operária que aprendeu com junho, e não só aprendeu mas colocou em prática aquilo que viu. Contra a burocracia sindical e o governo. Nesse episódio, os dois maiores partidos da esquerda brasileira, PSTU e PSOL, ficaram de fora, olhando, como se não fosse com eles. Se em junho sua atuação foi marginal e insignificante, quando se trata de um setor da classe operária que sai em luta, torna-se ainda mais bizarro que essas organizações se coloquem no posto de deslumbrados espectadores. E, no final, batem palma para "mais uma vitória" e voltam para sua rotina: eleições sindicais, eleições estudantis, acordos de cúpula, uma grevinha pra constrar aqui e outra ali, e, pra coroar, as eleições burguesas - aí sim um lance que levam a sério (do seu jeito-adaptado-à-democracia-burguesa-de-ser).

O triste fato é: essa esquerda não aprendeu nada. Em junho não aprendeu nada; na greve dos garis não aprendeu nada; com seus próprios erros não aprende nada. Se alguém de dez anos atrás viajasse no tempo e visse como esses partidos atuam hoje, não veriam nenhuma diferença estrutural em tudo o que fazem; apenas alterações aqui e ali, mas sem nenhuma mudança significativa. Isso ficou TÃO nítido na principal iniciativa que o PSTU teve para "organizar" a classe trabalhadora desde junho: o encontro unidade de ação, em que fechou um "acordão" de cúpula com a "esquerda" da CUT - a CUT pode mais - e depois levou trabalhadores a um encontro para bater palmas para as decisões que haviam já tomado nos bastidores. Nada mais emblemático do que o espaço que abriram para os garis no tal encontro: uma saudação de dois minutos, que poderia muito bem nunca ter acontecido, já que não mudou uma vírgula de tudo o que estava sendo discutido ali. O "resultado" desse "vitorioso" encontro foi o desmoralizante ato do dia 12 de junho, em que a polícia reprimiu exemplarmente o ato na porta do sindicato dos metroviários e o PSTU fez o vergonhoso papel de impedir a entrada no sindicato de diversos setores que compunham o ato, como Black Blocs e algumas organizações de esquerda. Depois, como a "cereja do bolo", fechou pelas costas do restante do ato um acordo com a polícia para que todos saíssem calmamente do sindicato, sem faixas, bandeiras ou palavras de ordem, rumo ao metrô, e assim a polícia "permitiria" que dispersássemos o ato. Uma vergonha!

Isso simboliza bem o que foi "aprendido" pela esquerda de junho para cá. Mas, sem dúvida, não é o pior que ela mostra na sua prática. Vejamos: os garis, sem nenhuma direção organizada conseguiram: deflagrar greve em toda a categoria; eleger uma comissão de negociação em suas assembleias; enfrentar a repressão policial que chegou a vigiar os fura-greves, intimando os garis a retornarem ao trabalho; enfrentar as 300 demissões por parte do governo com disposição de fortalecer a luta; ganhar o apoio massivo da população; destituir nove membros de sua comissão eleita que havia decidido recuar diante das ofensivas do governo e da patronal; não recuar diante do retorno ao trabalho de uma grande parcela dos garis que teve medo diante da ofensiva patronal; impor à readmissão de todos os demitidos; impor um aumento salarial de 37% e mais diversos benefícios. Essa foi a maior vitória subjetiva da classe trabalhadora no Brasil em décadas! Agora, vejamos o que o PSTU aprendeu:

No metrô, onde o sindicato é co-dirigido por PSTU (maioria) e PSOL (minoria), eles queriam a todo custo segurar a greve até a véspera da copa, e com isso deixaram de lado a oportunidade de unificar com a espontânea e combativíssima greve dos rodoviários; pressionados por uma base furiosa, que assistiu aos rodoviários, garis e diversas categorias saírem à luta, o sindicato se relocalizou nos 45 do segundo tempo e, diante de uma assembleia massiva, propôs a greve no dia 5 de junho; desconsiderou a necessidade da preparação forte nas bases para essa greve e o enfrentamento que ela geraria, muito pelo contrário, alimentou sempre a ilusão de que seria fácil ganhar apenas pelo peso da categoria; boicotou a iniciativa que propunhamos de liberação de catracas, o que seria um elemento chave para ganhar o apoio da população como os garis (ainda mais do que teve, pois a população de fato apoiou a greve, a despeito das mentiras na mídia); não preparou a auto-organização pelas bases através de um comando de greve que pudesse organizar cada setor para a luta (a preparação das bases nos garis foi um elemento decisivo para a força da greve); não deu peso para organizar as medidas que poderiam melar o plano de contingência da empresa que colocou uma parte do metrô para funcionar com as chefias ocupando os postos de trabalho; vacilou para defender a continuidade da greve quando houve demissões; defendeu contra o retorno da greve no dia da estréia da copa do mundo. E, por fim, está fazendo um criminoso "corpo mole" na campanha pela reintegração dos 42 metroviários que foram demitidos, em grande parte, por culpa de sua política irresponsável. E para completar, a pitada cômica-se-não-fosse-trágica: na reunião dos delegados sindicais após a greve, a diretoria do sindicato teve a cara-de-pau de afirmar que a greve foi "vitoriosa"! Claro que foi: para a burguesia!

Há muitos aspectos que mereceriam ser desenvolvidos nesse balanço, e uma parte boa deles pode ser encontrado na declaração da LER-QI sobre a greve do metrô. Apenas citei esses elementos para ressaltar o absurdo contraste entre o que os garis fizeram - sem nenhum partido ou mesmo uma vanguarda experiente dirigindo a luta - e o papelão que o PSTU, um partido que se auto-denomina trotskista e carrega nas suas costas uma experiência de cerca de 40 anos como corrente no Brasil, fez à frente da luta dos metroviários. E aí, chamo a atenção para um documento recentemente publicado no site do PSTU, que está sendo uma verdadeira "sensação" entre a sua militância. Trata-se da carta de entrada para o partido de dois ex-dirigentes da Insurgência, corrente interna do PSOL. Ironicamente, o documento se chama "A estratégia revolucionária posta em questão". Vejamos então a "estratégia revolucionária" do PSTU.


Afirmam eles que tanto a revolução chinesa de 1949 quanto a revolução russa de 1917 foram "os caminhos dos socialistas ao poder", já que ambas "elevaram à destruição das instituições burguesas fundamentais, principalmente as Forças Armadas, em diversos processos revolucionários." Daí, já podemos ver a origem teórica de um erro concreto bastante grande do PSTU: esses ex-dirigentes da Insurgência e futuros dirigentes do PSTU resumem em seu texto a diferença entre a revolução bolchevique de 1917 e a revolução chinesa de 1949 a que a primeira foi "a insurreição urbana" e a segunda "a guerra de guerrilhas". Ambas, a seu ver "levaram os socialistas ao poder". Isso porque, para o alegre PSTU, baseado no absurdo balanço das revoluções do século XX feito pelo fundador de sua corrente, Nahuel Moreno, "todos os caminhos levam ao socialismo". Assim, pouco importa que na Rússia foi a classe operária, auto-organizada em Sovietes, que destruiu o Estado burguês e transformou seus sovietes nos órgãos dirigentes do primeiro estado operário, sendo estes dirigidos pela política do partido operário de Lenin e Trotski, baseados em uma amplíssima vanguarda da classe operária forjada não apenas pela teoria marxista mas por décadas de sua aplicação na luta contra o tzarismo. Enquanto na China, uma camarilha burocrática dirigida por Mao-Tsé Tung à frente de um exército camponês tomou o poder e, empurrada pela ação das massas, viu-se obrigada a avançar em medidas socialistas de expropriação da burguesia e dos latifundiários para que pudesse manter-se no poder como uma casta burocrática que expropriou o poder das mãos dos camponeses e trabalhadores por décadas. Para o PSTU, os dois casos "levaram os socialistas ao poder" (!!!) Conceitos marxistas e leninistas como auto-organização dos trabalhadores, hegemonia operária e partido revolucionário operário são meros "penduricalhos" na teoria do PSTU, pois, como definiu Moreno, uma revolução como a russa constitui uma "exceção histórica". Ora, se basta um exército camponês para fazer a revolução, PSTU, então para que construir um partido operário? Nos juntemos aos "anticapitalistas" da Insurgência e façamos o socialismo, não?

Bom, mas apesar de todo seu bonito discurso sobre a necessidade de destruir o Estado burguês, na prática o PSTU de fato se alia a "anticapitalistas amplos" bem piores do que a Insurgência. Sua crítica de fachada ao eleitoralismo nesse belo texto de efeito não discute que, enquanto ele era escrito, aqui no estado de São Paulo o PSTU fechava uma frente eleitoral com Gilberto Maringoni, amplamente conhecido como "o mais petista entre os militantes do PSOL". Podemos deixar então ao PSTU a pergunta: para além da retórica vermelha desse texto, onde está "a participação nas eleições burguesas e no Parlamento não mais como pontos de apoio táticos para a construção de um partido revolucionário e a mobilização das massas". Ou será que durante os recentes conflitos operários vimos os parlamentares do PSTU, Cléber e Amanda Gurgel, colocando seu mandato inteiramente a serviço de que fortalecessem a luta? Porque não estiveram em São Paulo apoiando ativamente a greve dos metroviários e rodoviários, ou no Rio apoiando a dos garis, para citarmos apenas alguns exemplos? O que temos visto é o PSTU se aliar com setores mais à direita do PSOL, quando não com partidos que fazem parte do governo burguês de Dilma, como o PCdoB, tudo em nome de conseguir sua "fatia do bolo" do Estado burguês contra o qual vociferam tão violentamente Luisa D'Ávola e Henrique Iglecio. E se hoje o PSTU afirma com tanta veemência que "pela experiência histórica da esquerda revolucionária, nós entendemos que entrar no futuro governo Syriza seria um grande equívoco, pois seria apoiar um novo governo de Frente Popular na Grécia, que, por ser dirigido por um partido reformista, contaria, muito provavelmente, com a presença de alas burguesas em sua composição." Parece muito curioso que o façam sem apresentar um balanço de seu absurdo apoio ao Syriza, inclusive polemizando contra a LER-QI e nossa organização internacional FT-QI, há pouquíssimo tempo atrás...

O que é mais alarmante, no entanto, não é a completa incoerência do discurso destes novos militantes com a prática cotidiana do PSTU. Mas sim que este texto é mais uma amostra - tão mais contundente quanto mais é um texto "celebrado" pela sua militância - do quanto o PSTU está de olhos fechados para a luta de classes. Desde junho para cá, a única citação de algum fato da realidade política brasileira no texto são... os Black Blocs! Depois das suas virulentas investidas de Zé Maria contra este setor, que beira a criminalização de suas ações; depois de seu criminoso fechamento das portas do sindicato quando a polícia atacava o ato em defesa dos metroviários no qual eles também estavam, agora a grande polêmica estratégica entre Insurgência e PSTU se resume a Black Blocs! Creio que está na hora de perguntar ao PSTU o porquê dessa fixação inexplicável pelos Black Blocs! Por que os novos militantes do PSTU não discutem nesse texto a aliança que fizeram com a Insurgência para enterrar a heroica greve dos professores no Rio de Janeiro em 2013, quando estes mostravam uma enorme disposição de luta e a direção do sindicato, nas mãos dessas organizações, sufocou a greve! Ou por que não existe um "a" sobre a atuação desse partido à frente da greve do metrô, quando demonstraram de forma acabada para todos o quanto foram incapazes de aprender uma vírgula das lições dos garis e foram a direção de uma greve que representou a primeira derrota contundente da classe operária no Brasil desde junho! Agora, o PSTU sai por aí reproduzindo a palavra de ordem dos garis, que foi tomada pelos metroviários e que o PSTU, dirigindo o sindicato dos metroviários, transformou em letra morta: "Não tem arrego". Depois de sua defesa contra a greve na assembleia de 11 de junho, essa palavra de ordem não tem como não soar ridícula na boca de um militante do PSTU. Falta aos novos militantes do PSTU, bem como aos velhos, pensar um pouco melhor em que consiste sua "estratégia revolucionária": será de debates teóricos com as posições do mandelismo, ou de sua atuação na luta de classes para construir uma alternativa revolucionária no Brasil e no mundo? Ou, trocando em miúdos: de que adianta toda essa "polêmica", se na prática o PSTU parece cada vez mais com o reformismo adaptado que ele crítica?



quinta-feira, junho 12, 2014

Um pouco sobre a greve do metrô



Era uma campanha salarial, mas se tornou uma escola de guerra e a principal arena da luta de classes no país. Depois que os metroviários entraram em greve, depois que colocaram em ação os seus piquetes combativos para impedir a contingência, depois que enfrentaram a repressão e as prisões, que passaram por cima do TRT e decidiram lutar, a greve dos metroviários deixou para o passado sua condição de luta salarial e se transformou em uma arena decisiva do combate entre patrões e trabalhadores, burgueses e proletários, exploradores e explorados.

A burguesia não deixou pra menos e resolveu que, se essa greve era um exemplo pros trabalhadores do Brasil e do mundo, que voltavam seus olhos para ela acompanhando cada passo da luta, como quem está no campo de batalha, então, eles, os patrões, deveriam transformá-la em um exemplo também: um exemplo de como reprimir os que ousam levantar sua cabeça e dizer não. E assim é que se desenvolve a luta dos metroviários.

O Metrô de São Paulo é uma empresa pública. Seria razoável, portanto, assumir que ela não tem lucro: ora, qual a finalidade de uma empresa pública de transporte? Fornecer transporte! Então, deveria fazê-lo pelo menor custo possível e com a maior qualidade, certo? Pois bem, não é bem assim na prática. Quem controla o metrô é o Estado. E, infelizmente, se mantém atualíssima a definição de mais de 150 anos de Marx e Engels, de que o estado moderno não passa de um administrador dos negócios da classe capitalista. E o metrô de São Paulo, com mais de quatro milhões de "clientes" por dia e garantia de fidelidade, é um ótimo negócio! Uma parte, já foi diretamente loteada para a iniciativa privada através do consórcio da Linha 4. Outra, permanece nas mãos do governo estadual, dirigido por uma das oligarquias mais reacionárias da burguesia brasileira: o PSDB paulista, capitaneado hoje pelo fanático da Opus Dei, Geraldo Alckmin.

O metrô tem lucro e não esconde isso: tanto que seus funcionários recebem uma PLR (Participação nos Lucros e Rendas) anualmente. O lucro, que não deveria haver em qualquer empresa pública, se torna um "prêmio" por produtividade para os funcionários. Os trabalhadores ganham algumas migalhas do banquete de seus patrões. A PLR é, por si mesma, algo contrário aos interesses dos trabalhadores: ela consiste em tentar cooptar os trabalhadores para o interesse de que seu patrão lucre mais, para que ele possa ter ao final do ano uma migalha maior. Quanto maior o lucro, maior a PLR. É o oposto do salário. Como disse há 115 anos o camarada Lenin:

"Os patrões pagam aos operários unicamente o salário imprescidível para que estes e seus familiares possam subsistir, e tudo o que o operário produza acima dessa quantidade de produtos necessária para seu sustento é embolsado pelo patrão; isso constitui seu lucro. Portanto, na economia capitalista, a massa do povo trabalha por contrato para outros; não trabalha para si, mas sim para seus patrões, e o faz por um salário. Se compreende que os patrões tratem sempre de reduzir o salário: quanto menos entregam ao operário, mais lucro lhes sobra. Em oposição, os operários tratam de obter o maior salário possível para poder dar à sua família uma alimentação abundante e sã, viver em uma boa casa e se vestir não como mulambentos, mas como se veste todo mundo."

O Metrô de São Paulo trata de ser como qualquer patrão: quer arrancar o couro de seus trabalhadores tanto quanto possível, e tirar a sua fatia. Para onde vai esta gorda fatia de dinheiro arrancada do trabalho dos metroviários? Isso, nós podemos ver estampado nos jornais: é o que alimenta os mais de 400 milhões de reais do propinoduto, em que todo os escalões do funcionalismo embolsaram seu quinhão, incluindo o governador José Serra. O dinheiro, vindo das tarifas e do subsídio estatal, se transforma em champagne, mansões, iates... e, claro, carros e helicópteros para que nenhum deles precise se apertar no metrô ou no ônibus, que continuam lotados graças às suas falcatruas. Um dos ralos de dinheiro do propinoduto foi justamente na compra de um sistema que garantiria um menor intervalo entre os trens e, assim, faria com que a lotação nos vagões diminuísse consideravelmente. Mas, não tem problema: o carrão do Alckmin está garantido com o lucro do metrô, e, para o povão, é só colocar uma propaganda dizendo que trem lotado "é bom pra xavecar a mulherada", incentivando abertamente o assédio sexual no metrô, enquanto cinicamente coloca anúncios de que os agentes de segurança são treinados para lidar com esses casos - o que é falso e coloca esses trabalhadores em uma situação lastimável de trabalho.

Aumento salarial? Nem pensar! Dá um prêmio de produtividade, a PLR, no fim do ano, que é apenas uma migalha dos milhões desviados no propinoduto, e aí se encherem o saco demais é só dizer que os metroviários ganham bem mais do que os trabalhadores por aí. O que é uma triste verdade... Só que ganham um nada, comparados com os parasitas que não estão nas plataformas, nas bilheterias, nos trens todos os dias e vivem de explorar seu trabalho. Assim, quem é xingado todos os dias por usuários pela péssima qualidade do transporte são aqueles que dão seu sangue e que recebem "unicamente o salário imprescindível para o sustento de sua família", e não os parasitas que são culpados e compram seus helicópteros com o dinheiro que deveria garantir qualidade e boas condições de trabalho. Mas, aí, pro governo tá ótimo, porque apanhando do usuário o metroviário fica mais suscetível à lavagem cerebral da empresa, que, desde a contratação, o ensina a odiar cada usuário, como se ele também, ao tirar seu uniforme, não ficasse puto com a merda que é pegar aquele vagão lotado que nem dá pra entrar. Usuário briga com metroviário, metroviário briga com usuário, usuário briga com usuário. E o Alckmin e seus parasitas só na maciota do propinoduto.

Quando o metrô de São Paulo decide parar, a burguesia saber que vai ter que jogar duro: não é qualquer categoria que está em greve. É o coração da economia brasileira que está em jogo, a circulação de mão de obra da principal metrópole do país. E, pode apostar, a burguesia não brinca em serviço. Assim, quando os metroviários votaram em sua assembleia por greve, era necessário estar preparado para uma guerra pesada. Assim foi: o plano de contingência do metrô envolvia colocar todos os supervisores para operar trens e fazer o papel dos agentes de estação, vendendo bilhetes, controlando as catracas. Garantir os pontor nevrálgicos, para a burguesia, claro. A linha verde, menina dos olhos da burguesia, seguiu funcionando em grande parte. Azul e vermelha, parcialmente. Lilás, que é minúscula, inteira. Os metroviários piquetaram os pátios. Na reunião de negociação, o governo Alckmin revelou sua linha dura: impor uma derrota completa à categoria era a sua meta, e nada além do que já havia foi oferecido.

Com este cenário se abriu a assembleia ao fim do primeiro dia de greve. Uma greve fortíssima na base da categoria, com imensa adesão nas estações e pátios e muita disposição de luta. E, mesmo assim, uma quantidade muito grande de estações funcionando, se considerarmos a imensa adesão. Isso era parte da preparação do governo: depois da greve de 2012, que parou o metrô por apenas meio período, a empresa viu que era necessário se preparar para novos enfrentamentos. Promoveu muitos operadores de trem a supervisores; assim, quando chegasse a greve, poderia colocá-los para operar os trens. Chefe pelego é uma redundância.

Mas, antes de falar sobre essa assembleia decisiva, façamos um parênteses para dizer como chegaram os metroviários para essa luta duríssima. Seu sindicato fora dirigido desde 1989 pelo PCdoB, um partido para o qual a palavra pelego hoje é um elogio: estão sentados no colo da burguesia, atacando os trabalhadores em toda a linha. São o retrato da burocracia sindical, os agentes da burguesia no movimento operário. A última greve que haviam dirigido no metrô foi em 2007; o resultado foram 61 demissões, contra as quais o sindicato não fez absolutamente nada. Uma pesadíssima derrota pra categoria, que, evidentemente, ficou com muito medo de sair à luta. Mas os trabalhadores não são idiotas: aprendem com a história, com os erros, com as derrotas. O PCdoB já não podia mais iludir a categoria. E havia uma oposição: a chapa encabeçada por PSTU e PSOL venceu a eleição, e tomou a direção do sindicato da burocracia.

Foi pouco depois disso que participei pela primeira vez de uma assembleia dos metroviários, na condição de estudante e apoiador da luta. Era uma assembleia que tinha tudo para votar greve. Mais de 1500 metroviários enfurecidos enchiam a quadra do sindicato. Vários deles levavam nas costas grandes mochilas com colchonetes, para pernoitar no sindicato e ir direto para os piquetes, depois da aprovação de greve na categoria. A direção do sindicato se dividiu: PSOL defendia contra a greve, PSTU a favor. E foi pra votação: o contraste foi nítido, a categoria queria greve, por mais ou menos 70% a 30% dos presentes. Eu, junto a meus camaradas metroviários, já comemorávamos, quando o PSTU toma a palavra para... retirar a proposta de greve! Sem hesitar, nos colocamos para manter a proposta de greve: inútil, a direção do sindicato simplesmente nos impedia de defender qualquer posição na assembleia. "Tá pensando que isso aqui é movimento estudantil", disse um militante do PSTU. Sim, isso mesmo: a oposição de esquerda ao PCdoB tomou para si as práticas da burocracia sindical, e disseram ali no microfone que "a categoria estava dividida." Antes que terminassem seu blá, blá, blá, metade da assembleia ia embora puta da vida com aquele sindicato. Era a primeira, ainda pequena, experiência da categoria com sua nova direção...

O PSTU é assim: um partido com um discurso vermelho, inflamado, de esquerda, revolucionário. Mas, quando chega na cara do gol, tem medo, é cético. Acha que a classe não aguenta o tranco. E é essa tragédia que se repetiria em 2014, no momento decisivo. Alckmin é uma direita, ideológica, dura, disposta a ir até o fim na luta. Com ele não tem meio termo: quer derrotar seu inimigo até o fim. Essa determinação, sentada no governo estadual, os trabalhadores não teriam na sua direção.

Voltemos à assembleia, após o primeiro dia de greve. É por conhecer essa postura vacilante do PSTU, que ora vai à esquerda, ora à direita, e que na tradição marxista recebe o nome de centrismo, que muitos de nós nos surpreendemos ao ver que eles defendiam a manutenção da greve, sem hesitação. Mas era necessário avançar, ou não arrancaríamos nada do governo: propusemos piquetar as estações chave onde se reuniam os supervisores pelegos, para impedir a saída dos trens e garantir uma greve pra valer. Não tem polêmica, disse o sindicato: queremos fazer a mesma coisa. Assim, se dividiram os metroviários: além dos piquetes nos pátios, iriam para Brás, Bresser, Ana Rosa. Nós tivemos mais peso em Ana Rosa, e aí se mostrou a diferença entre os que querem levar a luta até o fim, e os que vacilam. Em Ana Rosa, as operações ficaram paradas até sete, sete e meia. A polícia entrou e teve que reprimir os metroviários com cacetetes, bombas, e levou um preso, militante dos metroviários pela base. Em Brás, após uma rápida negociação, a retirada "pacífica" dos metroviários.



Bom, agora imagino alguém que vá perguntar: "Então, a diferença entre vocês e o PSTU é que vocês querem ser reprimidos pela polícia e eles não?". Não. Não tem nada a ver com isso a diferença. Existe um conceito que para nós é muito caro, chamado auto-organização. Ele quer dizer que para nós, parte fundamental da estratégia para vencer, é que os trabalhadores se organizem pela base, ou seja, que cada trabalhador, a partir de seu local de trabalho e com seus colegas, seja protagonista de sua luta. Isso significaria, por exemplo, que antes da greve todas as estações, pátios, setores, deveriam fazer reuniões onde se discutisse profundamente a greve, a mobilização, as táticas, as formas organizativas. A partir disso, cada reunião votaria delegados: alguns trabalhadores que julgassem que representam melhor a posição daquele setor, e que está mais preparado para levar a luta adiante. Juntando todos os delegados eleito em cada sessão, se formaria um comando de greve. A direção do sindicato, a partir daí, deixaria de existir enquanto tal, e o papel que ela cumpria, de ser a direção política da categoria, passaria ao comando de greve. Esse comando, ligado organicamente à cada estação, poderia organizar piquetes muito mais amplos e com muito mais força, estaria mais preparado politicamente e fisicamente para resistir às investidas da polícia, estaria mais preparado para discutir com cada metroviário os próximos passos da luta.

Ainda assim, mesmo sem tudo isso, o piquete de Ana Rosa foi decisivo: mostrou uma nova camada de metroviários dispostos à luta, e que poderiam melar o plano de contingenciamento do governo. Mas a burguesia não brinca em serviço: Alckmin manteve sua linha de nenhuma concessão, depois de botar a polícia para descer o cacete nos piquetes. No fim de semana, a linha foi "cozinhar" a greve para esperar o julgamento do TRT no domingo. E aí, novamente, outro ponto em que o PSTU não faz juz ao seu auto-intutulamento como partido revolucionário. Uma definição elementar do marxismo é que o Estado nunca é neutro: ele é um órgão de repressão, de dominação de uma classe sobre a outra. O TRT, como órgão do Estado burguês, está a serviço dessa classe. Mas frequentemente o PSTU alimenta esperanças nos trabalhadores nas decisões do TRT, quando deveria fazer o contrário. O TRT julgou a greve abusiva, o que era evidente. Aí, novamente, o PSTU surpreendeu: defendeu a manutenção da greve. PCdoB começa a mostrar sua cara, mas é ostensivamente vaiado na assembleia ao dizer que era hora de recuar. A greve continua.

Contudo, a direção do sindicato não prepara os trabalhadores para o inevitável cenário do dia seguinte: com a "justiça" do seu lado e a abertura da copa há quatro dias de distância, é hora do governo jogar com a artilharia pesada. Se o sindicato fosse sério na luta, saberia que no dia seguinte viriam as demissões, e teria preparado os trabalhadores para esse cenário. Mas nada disso... continua a greve como antes. Dito e feito: segunda-feira o piquete da Ana Rosa migra para Vergueiro atrás dos pelegos. A polícia vem dura pra cima, e prende 13 metroviários, que eram cerca de 90 antes de conseguirem fugir em grande parte pela saída de emergência e dar um belíssimo olé na polícia. Logo depois, começam a vir as demissões. Na greve, à noite, a direção do sindicato já aparece dividida. A burocracia sindical, que não é nada burra, sabe que defender abertamente contra a greve é um tiro no pé. Então, tendo uma boa experiência, sabe usar o velho discurso de "desmobilizar para mobilizar", e defende a "suspensão" da greve para voltar no dia da abertura da Copa. PSOL embarca junto na pelegagem e no plano de desmonte da greve. PSTU defende a greve, mas nem se dá ao trabalho de colocar Altino, a principal figura pública e presidente do sindicato, para defender. Além disso, dão novamente uma mostra de seu entendimento do que é a democracia operária simplesmente impedindo que façamos uma fala para defender a greve.

A categoria está com medo. Ainda é fresca a memória das demissões de 2007 e de como elas não foram revertidas. O PCdoB coloca um demitido de 2007 para defender o fim da greve. Claro, para ele é fácil: ele tem as costas quentes da burocracia sindical, e está muito garantido sem nenhuma mobilização. O medo ajuda a que uma maioria apertada se convença da "tática" de deixar a greve para o dia da copa. A votação é encerrada, com indicativo de greve para o dia 12. Essa é a primeira derrota dos metroviários.

Nos primeiros dias, acompanhando a mídia, acompanhando as pessoas na rua, se via algo novo na greve: a população apoiando massivamente. Uma pesquisa mostrou que quase 80% da população apoiava a greve do metrô, mesmo com uma ofensiva campanha da mídia contra os metroviários. A categoria estava forte, unida. O país mudou, os garis mostraram o caminho: as 42 demissões de Alckmin não seriam páreos para uma categoria decidida, com uma direção firme e orgânica na base, que levasse a greve adiante. Na reunião de segunda com o TRT, o desembargador saiu afirmando que se a greve continuasse era por instransigência do governo. O presidente do metrô falou que readmitira 40 metroviários, mas Alckmin negou: queria uma derrota exemplar. O PT, descabelando-se ao pensar na abertura da Copa sem metrô, começa a pressionar, com Lula à frente, pela readmissão. Faltava um empurrãozinho, muito menos do que um dia de greve da categoria. Mas depois da decisão de suspender a greve, o PSTU, como bom centrista que é, jogou para o alto a greve: parou de mobilizar a categoria para voltar pra greve no dia 12. E, pior ainda, hoje, no dia 11, defendeu que não retornassem à greve. Assim, se fechou com chave de ouro, para Alckmin, a vitória sobre a mais importante greve operária no país desde os levantes de junho. E, para enterrar essa mobilização, o tucano linha dura contou com a ajuda da direção vacilante do sindicato, com o PSTU e PSOL.

É uma derrota dura, mas os revolucionários não são gente que curva a cabeça e aceita as coisas como elas são. A nossa tradição é a do revolucionário Leon Trotski, que viu o Estado operário que ele ajudou a erguer ser dominado por uma burocracia que o expulsou e tomou o poder político da mão dos trabalhadores; e ele não desistiu. Viu a revolução alemã ser sufocada em sangue em 1919, 1921, 1923, e teve a serenidade de fazer o balanço dessas derrotas para que a classe operária triunfasse na próxima oportunidade. Acompanhou minuciosamente a revolução espanhola, um dos maiores levantes da classe operária na história, e tentou passo a passo, ano a ano, influenciar seus rumos. Viu ela ser derrubada pelo fascismo, mas não curvou sua cabeça. Foi desterrado, correu o mundo inteiro até acabar no México, o único país que o aceitaria. De dirigente do primeiro Estado operário e do maior exército revolucionário do mundo, passou a perseguido político tentando construir uma organização internacional com pequenos grupos espalhados em muitos países. Nunca se curvou, nunca hesitou, nunca desistiu. Nossos camaradas demitidos por lutar são os herdeiros dessa tradição. E teremos a serenidade de fazer o balanço e tirar as lições dessa derrota para que os trabalhadores e os revolucionários possam se educar, se forjar na dura luta para que possamos superar as direções centristas, para que possamos construir uma tradição capaz de botar de joelhos não apenas o testa-de-ferro da burguesia, Geraldo Alckmin, mas toda essa classe de parasitas que vivem do nosso sangue e suor. Hoje, um pouco triste, olho com orgulho e admiração nossos camaradas demitidos, e sigo ao lado deles lutando pela reintegração e pela construção de uma tradição combativa, classista, decidida e revolucionária nos metroviários de São Paulo, na classe trabalhadora brasileira e internacional. Não tem arrego! Não vai passar nenhuma demissão!


segunda-feira, maio 19, 2014

A Mulher, o Estado e a Revolução Permanente



O livro “Mulher, Estado e Revolução”, da historiadora americana Wendy Goldman, consegue traçar com grande precisão as características fundamentais na vida das mulheres no período pós-revolução de outubro na Rússia. Estabelecendo um panorama entre a vida concreta das mulheres, seus problemas cotidianos, e os debates que se desenvolviam entre intelectuais, juristas, membros do partido bolchevique, e delegadas(os) dos Sovietes, Goldman consegue demonstrar de forma aguda e viva as imensas dificuldades enfrentadas pelo primeiro Estado Operário na história da humanidade para traduzir em realidade concreta os princípios, a estratégia e o programa do socialismo científico em um estado transitório rumo ao socialismo.
As dificuldades – muitas vezes insuperáveis dentro daquele contexto estrito – eram provenientes do fato de que, como afirma Leon Trotski: “O poder público pode desempenhar um papel gigantesco, seja reacionário ou progressivo, segundo a classe em cujas mãos caia. Mas, apesar de tudo, o Estado será sempre uma arma de ordem superestrutural. A passagem do poder das mãos do tzarismo e da burguesia às mãos do proletariado não cancela os processos nem anula as leis da economia mundial.”[1] Ou seja, a economia (a base ou estrutura sobre a qual se ergue a superestrutura do Estado) em sua escala mundial permanece sendo um fator decisivo para considerar os avanços e retrocessos políticos da URSS.
Assim, para compreendermos profundamente a questão dos avanços e retrocessos nas relações com a família, os direitos das mulheres e o Estado na URSS, é indispensável pensarmos na teoria da revolução permanente de Trotski, que elucida as causas desses fenômenos sociais. Tomaremos aqui os três aspectos nos quais ele mesmo dividiu sua teoria.

Da democracia ao socialismo

O primeiro aspecto da teoria da revolução permanente diz respeito a como se dá a passagem da revolução democrática à revolução socialista. Por “revolução democrática”, poderíamos – grosso modo – entender as transformações estruturais da sociedade que foram feitas, em países como a França, Inglaterra ou EUA, pela burguesia em combate aberto contra a velha classe dominante: a nobreza monárquica. Questões como a reforma agrária, a independência nacional e o direito ao voto são demandas que poderíamos chamar de “democrático-burguesas”, pois são típicas de um regime democrático – em oposição ao monárquico – que foi realizado sob a direção da burguesia, e no qual ela se estabeleceu como a classe dominante socialmente, através dos estados nacionais modernos que existem até hoje.
Originalmente, Marx e Engels, ao preverem a dinâmica da passagem do capitalismo ao socialismo, julgaram que a revolução aconteceria primeiro em países de desenvolvimento capitalista avançado, ou seja, em que a revolução democrático-burguesa já tivesse ocorrido e, a partir disso, a classe trabalhadora tivesse se tornado numericamente maior, e as forças produtivas estivessem mais avançadas. Esta visão partia de entender que a burguesia, no começo, era uma classe revolucionária em oposição à nobreza, e que sua dominação política permitia o desenvolvimento social e técnico da sociedade, essencial para criar as bases materiais para o socialismo. Mas com o tempo o papel social da burguesia mudou drasticamente, e já nas revoluções de 1848, que se tornaram conhecidas como a “primavera dos povos”, Marx e Engels viram que já havia passado o momento histórico em que a burguesia poderia cumprir um papel revolucionário: chegava um momento em que, com medo de que sua aliança com os trabalhadores contra a nobreza saísse do controle e eles mesmos fossem “atropelados” pela organização dos trabalhadores, a burguesia preferia se aliar com a nobreza para conter o movimento revolucionário.
Foi exatamente isso que aconteceu, por exemplo, na revolução russa de 1905. A burguesia cumpriu um papel diretamente contra-revolucionário, com medo dos trabalhadores e de sua crescente organização, que já contava então com um forte partido, o POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo, que se dividiu em dois: bolcheviques e mencheviques), e que organizou conselhos que reuniam os trabalhadores para se organizar politicamente, os Sovietes. Nessa revolução, que foi derrotada, Trotski atuou ativamente, sendo eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Trotski viu que mesmo que a Rússia não tivesse passado por uma revolução democrático-burguesa, era impossível que a burguesia se colocasse como cabeça de uma revolução para derrubar a nobreza e o tzarismo. Ela preferia se aliar a estas classes reacionárias contra os trabalhadores, por medo. Por isso, disse que a revolução democrático-burguesa na Rússia só poderia ser feita pelos trabalhadores, de forma independente da burguesia. Nisso, ele e Lenin concordavam, diferente dos Mencheviques, que ainda achavam que na Rússia era preciso ter um período de democracia burguesa antes que o país estivesse preparado para uma revolução operária e socialista.
Mas Trotski entendeu que, uma vez que o poder fosse tomado pelos trabalhadores, eles não se contentariam em fazer apenas reformas democráticas. Afinal, numa sociedade “democrática” permanecia a propriedade privada, e eles continuavam sendo explorados. Por isso, o caráter “permanente” da revolução consistia em que os trabalhadores avançariam de medidas democráticas a socialistas. Nas palavras de Trotski: “Se a opinião tradicional sustentava que o caminho da ditadura do proletariado passava por um prolongado período de democracia, a teoria da revolução permanente vinha proclamar que, nos países atrasados, o caminho da democracia passava pela ditadura do proletariado. Com isso, a democracia deixava de ser um regime de valor intrínseco para várias décadas e se convertia no prelúdio imediato da revolução socialista, unidas ambas por um nexo contínuo. Entre a revolução democrática e a transformação socialista da sociedade se estabelecia, portanto, um ritmo revolucionário permanente.”[2]
No livro de Goldman isso surge claramente nos debates a respeito da família e de seu papel social. Em primeiro lugar, o Código Familiar de 1918 estabelecia reformas que estavam ainda nos marcos democráticos, mas que mesmo assim eram mais radicais do que nos países capitalistas mais avançados: a facilidade para se obter o divórcio, os direitos políticos plenos das mulheres trabalhadoras e camponesas nos sovietes, a licença a maternidade, o direito à pensão – todas essas eram medidas democráticas, mas que já colocavam a nascente república operária como a mais avançada democracia do mundo. No entanto, as discussões sobre o definhamento da família e a necessidade do Estado assumir o papel econômico que esta desempenha apontam para um horizonte que está além da sociedade capitalista burguesa. Como aponta Goldman, os legisladores e juristas mais avançados, como Goikhbarg, Krilenko, Pashukanis, todos tinham a concepção de que o Estado e as leis deveriam definhar, pois esses eram necessários para regulamentar fundamentalmente os conflitos econômicos e sociais que desapareceriam em uma sociedade socialista. Durante o comunismo de guerra, os refeitórios coletivos, por exemplo, foram um passo no sentido de absorver as tarefas econômicas da família. Mas havia um obstáculo para que isso se desenvolvesse até o fim...

O caráter internacional da revolução

O terceiro aspecto da teoria da revolução permanente trata justamente desse obstáculo, que, como apontamos antes em uma citação de Trotski, se refere aos limites entre poder estatal e economia. Marx e Engels previam que a revolução aconteceria primeiro em um país capitalista avançado, justamente porque nesses países as bases materiais para a socialização da produção e a distribuição da riqueza estariam muito mais desenvolvidas. Mas, como o próprio Marx aponta, a sociedade capitalista, ao se estabelecer em todo o globo a partir da conquista imperialista de territórios e mercados, cria um mundo “à sua imagem e semelhança”, com uma divisão internacional do trabalho em que cada país tem um papel determinado, de acordo com os interesses da burguesia. Se no começo a burguesia importava aos países industrializados matéria prima e exportava produtos industrializados, com o tempo esse mecanismo ficou mais complexo. Lenin, em seu livro “Imperialismo: fase superior do capitalismo”, mostra como a burguesia passa a exportar não apenas produtos, mas também capital. Na Rússia, por exemplo, a indústria se desenvolveu muito rapidamente principalmente com o capital importado da burguesia francesa e gerido pelo tzarismo em parceria com a burguesia nacional. Por isso, a classe trabalhadora cresceu muito em pouco tempo; mas a burguesia nem tanto, já que o capital vinha de fora. Isso fez com que o país tivesse condições políticas excepcionalmente favoráveis para a revolução. Mas isso não mudava o fato de que, comparada à Alemanha ou Inglaterra, por exemplo, a indústria russa fosse extremamente atrasada, com cerca de 90% do país vivendo no campo.
Deste aspecto, somado aos longos anos da Primeira Guerra Mundial, aos anos da Guerra Civil contra os contrarrevolucionários, e ao rigoroso inverno de 1921, vieram as imensas dificuldades materiais em avançar na distribuição da riqueza. A imensa miséria descrita por Goldman, que levava às crianças de rua (besprizornost); ao desemprego feminino; às dificuldades do Estado em criar creches, lares infantis, restaurantes e lavanderias; às imensas dificuldades para o pagamento de pensão e a independência econômica das mulheres; às dificuldades implicadas no divórcio dos camponeses pobres que levavam à divisão da terra (dvor).
Trotski, assim como Lenin e todo o Partido Bolchevique até 1924, sempre ressaltaram a impossibilidade de que a revolução russa prosperasse se não fosse seguida de outras revoluções – particularmente em países mais desenvolvidos como a Alemanha, que teve grandes oportunidades revolucionárias perdidas em 1919, 1921, 1923... Para avançar rumo ao socialismo, é necessário desenvolver as forças produtivas. Dessa dependência da economia mundial, no entanto, como afirma Trotski “(...) não se deduz, nem muito menos que isso, a conclusão de que a Revolução de Outubro tenha sido historicamente ‘ilegítima’, conclusão que é de um filisteísmo vergonhoso. A conquista do poder pelo proletariado internacional não podia nem pode ser um ato simultâneo em todos os países. A superestrutura – e a revolução entra na categoria das ‘superestruturas’ – tem sua dialética própria, a qual penetra autoritariamente no processo econômico mundial, mas de forma alguma suprime, suas leis mais profundas. A Revolução de Outubro foi ‘legítima’, quando considerada como primeira etapa da revolução mundial, que necessariamente deve ser obra de várias décadas.”
Trotski afirma essa concepção em contraposição à visão stalinista de que na Rússia já existia o socialismo, e sua teoria do “socialismo em um só país”. O que havia na Rússia, como o livro de Goldman demonstra de maneira irrefutável, estava muito longe de ser o socialismo: era um Estado operário tentando, com seus parcos recursos materiais, avançar rumo a medidas de caráter socialista, mas, em primeiro lugar, para conseguir atingir os níveis de vida dos países capitalistas avançados. A profunda contradição entre os recursos econômicos precários e as tarefas socialistas é o que salta aos olhos em todo o livro de Goldman.

A mudança permanente dentro da revolução

                O que Trotski coloca como o segundo aspecto da teoria da revolução permanente é aquilo que mais se destaca na obra de Goldman: “Ao longo de um período de duração indefinida e de uma luta interna constante, vão se transformando todas as relações sociais. A sociedade sofre um processo de metamorfose. E nesse processo de transformação cada nova etapa é consequência direta da anterior. Esse processo conserva forçosamente um caráter político, ou, o que é o mesmo, se desenvolve através do choque entre os distintos grupos da sociedade em transformação. (...) As revoluções na economia, da técnica, da ciência, da família, dos costumes se desenvolvem em uma complexa ação recíproca que não permite à sociedade alcançar o equilíbrio.”
                Esta colocação de Trotski sintetiza com perfeição a dinâmica apontada por Goldman em seu livro. Os choques que ocorrem nos debates a respeito, por exemplo, do Código da Família de 1926, são fruto direto dos distintos interesses e contradições existentes no seio da sociedade russa. Enquanto as mulheres camponesas propunham medidas punitivas para o comportamento sexual promíscuo dos homens, como forma de preservar seus interesses econômicos, alguns defendiam a liberdade cada vez maior nas relações. O fato de que os juristas propunham medidas educativas para tentar combater o besprizornost como resultado de sua compreensão marxista de que sua causa era fundamentada em uma condição de pobreza, se chocava com a própria escassez de recursos do Estado para poder fazer com que essas leis tivessem validade material. O resultado que o stalinismo deu a esse conflito foi o fim das Komones, que aplicavam medidas pedagógicas, e o envio das crianças infratoras às prisões, restaurando a lógica punitiva que oculta as causas sociais da criminalidade, exatamente como nos países capitalistas.
O conflito entre os distintos grupos sociais foi incessante, sem que se alcançasse um equilíbrio, como aponta Trotski, desde a implementação do Código Familiar de 1918 até o retrocesso stalinista do Código de 1936. Nesse aspecto encontramos um choque frontal com a concepção stalinista, para a qual a conquista do poder representa 90% da construção socialista. Na concepção de Trotski, que se demonstra correta a partir da pesquisa de Goldman, “a conquista do poder pelo proletariado não significa o coroamento da revolução, mas simplesmente seu início.”, pois o Estado, como ele disse, é apenas um instrumento “superestrutural”. Para construir uma sociedade socialista é necessário criar bases materiais, econômicas, e inclusive ideológicas, propagando a educação por toda a população. Isso, claramente, não pode ser feito senão em algumas décadas.
                Nesse sentido, a própria Wendy Goldman aponta, na sua conclusão, que “As raízes da reversão do direito familiar datam dos anos 1920. O legado do subdesenvolvimento russo, a falta de recursos estatais, o peso da economia, da sociedade e das tradições camponesas atrasadas, a devastação da base industrial durante o período de guerra, o desemprego, a fome e a pobreza foram fatores que minaram gravemente a primeira visão socialista. Os besprizorniki cumpriram um papel crucial em obrigar o Estado, de decreto em decreto, a abandonar a criação coletiva das crianças. Muitas das sugestões oferecidas pelas mulheres e camponesas na década de 1920 – limitar o divórcio, garantir o cumprimento da responsabilidade pela pensão alimentícia, deter a promiscuidade masculina – foram finalmente adotadas pela lei e política familiar stalinistas. A dura retórica da responsabilidade familiar encontrou sem dúvida um público agradecido.”
                Assim, podemos ver que existe uma base material que fundamenta o retrocesso legal e ideológico capitaneado pelo stalinismo. Em momentos anteriores, como na implementação da NEP, por exemplo, o Estado soviético foi obrigado a dar passos atrás politicamente devido à escassez de bases materiais para avançar politicamente. Contudo, a diferença fundamental é que nesses momentos esses passos atrás se apresentavam tal como eram: recuos táticos impostos pelas condições materiais, e eram apresentados assim. Já na era stalinista, a burocracia soviética implementou recuos decisivos, mas sempre os apresentando como passos adiante, como a “consolidação do socialismo”, formando uma ideologia oficial do Estado que era proibido contestar. Isso é nítido, por exemplo, na proibição do aborto e na proclamação de que todos tinham condições de criar seus filhos “de forma socialista”. Para poder assegurar seus recuos, Stalin sempre procurou se apoiar nos setores mais conservadores socialmente, como nos camponeses ricos ou nos privilegiados membros da burocracia estatal.
                Por estes motivos, parece equivocada a análise de Goldman quando aponta que “Finalmente, ainda que as condições materiais tenham cumprido um papel fundamental em minar a visão dos anos 1920, não foram em última instância responsáveis pela sua desaparição. (...) A reversão ideológica na década de 1930 foi essencialmente política não de natureza econômica ou material, e levava a marca da política stalinista em outras áreas.”
                Se é um fato que o retrocesso ideológico foi conduzido diretamente pelo burocracia stalinista encrustrada no Estado, a própria análise de Goldman ao longo de todo o livro demonstra que os obstáculos materiais que a revolução enfrentou – e que foram imensamente agravados pelo fato da revolução não ter triunfado em outros países mais desenvolvidos – serviram como pretexto e justificativa para inúmeros retrocessos. Seria impossível para a burocracia stalinista consolidar os retrocessos políticos se não estivesse assentada sobre essa sólida base material. Além disso, como afirma Trotski em suas “teses sobre revolução e contra-revolução”: “As conquistas obtidas na luta não se correspondem, e na natureza das coisas não podem diretamente se corresponder, às expectativas das massas atrasadas que têm acordado para a vida política pela primeira vez em grande número no curso da revolução. A desilusão destas massas, seu retorno à rotina e a futilidade, é parte integrante do período pós-revolucionário tanto como a passagem ao campo da ‘lei e da ordem’ daquelas classes ou setores de classe ‘satisfeitos’, que haviam participado na revolução.” Esse fator, como aponta Goldman no trecho citado acima, foi um ponto de apoio fundamental para fazer de muitas mulheres um “público agradecido” em relação aos retrocessos.

Além disso, a burocracia barganhava com o desespero das mulheres que não conseguiam atender suas necessidades materiais, como afirma Goldman: “A lei de 1936 oferecia às mulheres uma barganha implícita: ela ampliava tanto a responsabilidade do Estado como a do homem pela família, mas em troca ela exigia que as mulheres assumissem o duplo fardo do trabalho e da maternidade. A ideia de que o Estado assumiria as funções da família foi abandonada”. Assim, a relativa separação que Goldman faz entre as causas materiais e as movimentações políticas da burocracia não se sustenta, pois é do isolamento da revolução e da miséria material que floresceu a burocracia, que arrancou com mãos de ferro o poder político das mãos dos trabalhadores e esmagou os sovietes, enviando os oposicionistas aos milhares para os gulags e fuzilando-os nos processos de Moscou.

Esta perspectiva é fundamental para combater o senso comum da ideologia burguesa que prega que o socialismo é uma “utopia irrealizável”, e que o stalinismo é a consequência inevitável e natural da revolução. É imprescindível aprendermos com a história da revolução russa para que possamos fazer novas revoluções triunfantes, que possam superar as dificuldades enfrentadas pelo primeiro Estado Operário da história e que, assim, finalmente, possamos emancipar todas as mulheres e a humanidade.




[1] TROTSKI, Leon. “La teoria de la revolucion permanente”. Buenos Aires: CEIP, p. 407. Tradução minha.
[2] Idem, p. 418. Tradução minha.