quinta-feira, junho 12, 2014

Um pouco sobre a greve do metrô



Era uma campanha salarial, mas se tornou uma escola de guerra e a principal arena da luta de classes no país. Depois que os metroviários entraram em greve, depois que colocaram em ação os seus piquetes combativos para impedir a contingência, depois que enfrentaram a repressão e as prisões, que passaram por cima do TRT e decidiram lutar, a greve dos metroviários deixou para o passado sua condição de luta salarial e se transformou em uma arena decisiva do combate entre patrões e trabalhadores, burgueses e proletários, exploradores e explorados.

A burguesia não deixou pra menos e resolveu que, se essa greve era um exemplo pros trabalhadores do Brasil e do mundo, que voltavam seus olhos para ela acompanhando cada passo da luta, como quem está no campo de batalha, então, eles, os patrões, deveriam transformá-la em um exemplo também: um exemplo de como reprimir os que ousam levantar sua cabeça e dizer não. E assim é que se desenvolve a luta dos metroviários.

O Metrô de São Paulo é uma empresa pública. Seria razoável, portanto, assumir que ela não tem lucro: ora, qual a finalidade de uma empresa pública de transporte? Fornecer transporte! Então, deveria fazê-lo pelo menor custo possível e com a maior qualidade, certo? Pois bem, não é bem assim na prática. Quem controla o metrô é o Estado. E, infelizmente, se mantém atualíssima a definição de mais de 150 anos de Marx e Engels, de que o estado moderno não passa de um administrador dos negócios da classe capitalista. E o metrô de São Paulo, com mais de quatro milhões de "clientes" por dia e garantia de fidelidade, é um ótimo negócio! Uma parte, já foi diretamente loteada para a iniciativa privada através do consórcio da Linha 4. Outra, permanece nas mãos do governo estadual, dirigido por uma das oligarquias mais reacionárias da burguesia brasileira: o PSDB paulista, capitaneado hoje pelo fanático da Opus Dei, Geraldo Alckmin.

O metrô tem lucro e não esconde isso: tanto que seus funcionários recebem uma PLR (Participação nos Lucros e Rendas) anualmente. O lucro, que não deveria haver em qualquer empresa pública, se torna um "prêmio" por produtividade para os funcionários. Os trabalhadores ganham algumas migalhas do banquete de seus patrões. A PLR é, por si mesma, algo contrário aos interesses dos trabalhadores: ela consiste em tentar cooptar os trabalhadores para o interesse de que seu patrão lucre mais, para que ele possa ter ao final do ano uma migalha maior. Quanto maior o lucro, maior a PLR. É o oposto do salário. Como disse há 115 anos o camarada Lenin:

"Os patrões pagam aos operários unicamente o salário imprescidível para que estes e seus familiares possam subsistir, e tudo o que o operário produza acima dessa quantidade de produtos necessária para seu sustento é embolsado pelo patrão; isso constitui seu lucro. Portanto, na economia capitalista, a massa do povo trabalha por contrato para outros; não trabalha para si, mas sim para seus patrões, e o faz por um salário. Se compreende que os patrões tratem sempre de reduzir o salário: quanto menos entregam ao operário, mais lucro lhes sobra. Em oposição, os operários tratam de obter o maior salário possível para poder dar à sua família uma alimentação abundante e sã, viver em uma boa casa e se vestir não como mulambentos, mas como se veste todo mundo."

O Metrô de São Paulo trata de ser como qualquer patrão: quer arrancar o couro de seus trabalhadores tanto quanto possível, e tirar a sua fatia. Para onde vai esta gorda fatia de dinheiro arrancada do trabalho dos metroviários? Isso, nós podemos ver estampado nos jornais: é o que alimenta os mais de 400 milhões de reais do propinoduto, em que todo os escalões do funcionalismo embolsaram seu quinhão, incluindo o governador José Serra. O dinheiro, vindo das tarifas e do subsídio estatal, se transforma em champagne, mansões, iates... e, claro, carros e helicópteros para que nenhum deles precise se apertar no metrô ou no ônibus, que continuam lotados graças às suas falcatruas. Um dos ralos de dinheiro do propinoduto foi justamente na compra de um sistema que garantiria um menor intervalo entre os trens e, assim, faria com que a lotação nos vagões diminuísse consideravelmente. Mas, não tem problema: o carrão do Alckmin está garantido com o lucro do metrô, e, para o povão, é só colocar uma propaganda dizendo que trem lotado "é bom pra xavecar a mulherada", incentivando abertamente o assédio sexual no metrô, enquanto cinicamente coloca anúncios de que os agentes de segurança são treinados para lidar com esses casos - o que é falso e coloca esses trabalhadores em uma situação lastimável de trabalho.

Aumento salarial? Nem pensar! Dá um prêmio de produtividade, a PLR, no fim do ano, que é apenas uma migalha dos milhões desviados no propinoduto, e aí se encherem o saco demais é só dizer que os metroviários ganham bem mais do que os trabalhadores por aí. O que é uma triste verdade... Só que ganham um nada, comparados com os parasitas que não estão nas plataformas, nas bilheterias, nos trens todos os dias e vivem de explorar seu trabalho. Assim, quem é xingado todos os dias por usuários pela péssima qualidade do transporte são aqueles que dão seu sangue e que recebem "unicamente o salário imprescindível para o sustento de sua família", e não os parasitas que são culpados e compram seus helicópteros com o dinheiro que deveria garantir qualidade e boas condições de trabalho. Mas, aí, pro governo tá ótimo, porque apanhando do usuário o metroviário fica mais suscetível à lavagem cerebral da empresa, que, desde a contratação, o ensina a odiar cada usuário, como se ele também, ao tirar seu uniforme, não ficasse puto com a merda que é pegar aquele vagão lotado que nem dá pra entrar. Usuário briga com metroviário, metroviário briga com usuário, usuário briga com usuário. E o Alckmin e seus parasitas só na maciota do propinoduto.

Quando o metrô de São Paulo decide parar, a burguesia saber que vai ter que jogar duro: não é qualquer categoria que está em greve. É o coração da economia brasileira que está em jogo, a circulação de mão de obra da principal metrópole do país. E, pode apostar, a burguesia não brinca em serviço. Assim, quando os metroviários votaram em sua assembleia por greve, era necessário estar preparado para uma guerra pesada. Assim foi: o plano de contingência do metrô envolvia colocar todos os supervisores para operar trens e fazer o papel dos agentes de estação, vendendo bilhetes, controlando as catracas. Garantir os pontor nevrálgicos, para a burguesia, claro. A linha verde, menina dos olhos da burguesia, seguiu funcionando em grande parte. Azul e vermelha, parcialmente. Lilás, que é minúscula, inteira. Os metroviários piquetaram os pátios. Na reunião de negociação, o governo Alckmin revelou sua linha dura: impor uma derrota completa à categoria era a sua meta, e nada além do que já havia foi oferecido.

Com este cenário se abriu a assembleia ao fim do primeiro dia de greve. Uma greve fortíssima na base da categoria, com imensa adesão nas estações e pátios e muita disposição de luta. E, mesmo assim, uma quantidade muito grande de estações funcionando, se considerarmos a imensa adesão. Isso era parte da preparação do governo: depois da greve de 2012, que parou o metrô por apenas meio período, a empresa viu que era necessário se preparar para novos enfrentamentos. Promoveu muitos operadores de trem a supervisores; assim, quando chegasse a greve, poderia colocá-los para operar os trens. Chefe pelego é uma redundância.

Mas, antes de falar sobre essa assembleia decisiva, façamos um parênteses para dizer como chegaram os metroviários para essa luta duríssima. Seu sindicato fora dirigido desde 1989 pelo PCdoB, um partido para o qual a palavra pelego hoje é um elogio: estão sentados no colo da burguesia, atacando os trabalhadores em toda a linha. São o retrato da burocracia sindical, os agentes da burguesia no movimento operário. A última greve que haviam dirigido no metrô foi em 2007; o resultado foram 61 demissões, contra as quais o sindicato não fez absolutamente nada. Uma pesadíssima derrota pra categoria, que, evidentemente, ficou com muito medo de sair à luta. Mas os trabalhadores não são idiotas: aprendem com a história, com os erros, com as derrotas. O PCdoB já não podia mais iludir a categoria. E havia uma oposição: a chapa encabeçada por PSTU e PSOL venceu a eleição, e tomou a direção do sindicato da burocracia.

Foi pouco depois disso que participei pela primeira vez de uma assembleia dos metroviários, na condição de estudante e apoiador da luta. Era uma assembleia que tinha tudo para votar greve. Mais de 1500 metroviários enfurecidos enchiam a quadra do sindicato. Vários deles levavam nas costas grandes mochilas com colchonetes, para pernoitar no sindicato e ir direto para os piquetes, depois da aprovação de greve na categoria. A direção do sindicato se dividiu: PSOL defendia contra a greve, PSTU a favor. E foi pra votação: o contraste foi nítido, a categoria queria greve, por mais ou menos 70% a 30% dos presentes. Eu, junto a meus camaradas metroviários, já comemorávamos, quando o PSTU toma a palavra para... retirar a proposta de greve! Sem hesitar, nos colocamos para manter a proposta de greve: inútil, a direção do sindicato simplesmente nos impedia de defender qualquer posição na assembleia. "Tá pensando que isso aqui é movimento estudantil", disse um militante do PSTU. Sim, isso mesmo: a oposição de esquerda ao PCdoB tomou para si as práticas da burocracia sindical, e disseram ali no microfone que "a categoria estava dividida." Antes que terminassem seu blá, blá, blá, metade da assembleia ia embora puta da vida com aquele sindicato. Era a primeira, ainda pequena, experiência da categoria com sua nova direção...

O PSTU é assim: um partido com um discurso vermelho, inflamado, de esquerda, revolucionário. Mas, quando chega na cara do gol, tem medo, é cético. Acha que a classe não aguenta o tranco. E é essa tragédia que se repetiria em 2014, no momento decisivo. Alckmin é uma direita, ideológica, dura, disposta a ir até o fim na luta. Com ele não tem meio termo: quer derrotar seu inimigo até o fim. Essa determinação, sentada no governo estadual, os trabalhadores não teriam na sua direção.

Voltemos à assembleia, após o primeiro dia de greve. É por conhecer essa postura vacilante do PSTU, que ora vai à esquerda, ora à direita, e que na tradição marxista recebe o nome de centrismo, que muitos de nós nos surpreendemos ao ver que eles defendiam a manutenção da greve, sem hesitação. Mas era necessário avançar, ou não arrancaríamos nada do governo: propusemos piquetar as estações chave onde se reuniam os supervisores pelegos, para impedir a saída dos trens e garantir uma greve pra valer. Não tem polêmica, disse o sindicato: queremos fazer a mesma coisa. Assim, se dividiram os metroviários: além dos piquetes nos pátios, iriam para Brás, Bresser, Ana Rosa. Nós tivemos mais peso em Ana Rosa, e aí se mostrou a diferença entre os que querem levar a luta até o fim, e os que vacilam. Em Ana Rosa, as operações ficaram paradas até sete, sete e meia. A polícia entrou e teve que reprimir os metroviários com cacetetes, bombas, e levou um preso, militante dos metroviários pela base. Em Brás, após uma rápida negociação, a retirada "pacífica" dos metroviários.



Bom, agora imagino alguém que vá perguntar: "Então, a diferença entre vocês e o PSTU é que vocês querem ser reprimidos pela polícia e eles não?". Não. Não tem nada a ver com isso a diferença. Existe um conceito que para nós é muito caro, chamado auto-organização. Ele quer dizer que para nós, parte fundamental da estratégia para vencer, é que os trabalhadores se organizem pela base, ou seja, que cada trabalhador, a partir de seu local de trabalho e com seus colegas, seja protagonista de sua luta. Isso significaria, por exemplo, que antes da greve todas as estações, pátios, setores, deveriam fazer reuniões onde se discutisse profundamente a greve, a mobilização, as táticas, as formas organizativas. A partir disso, cada reunião votaria delegados: alguns trabalhadores que julgassem que representam melhor a posição daquele setor, e que está mais preparado para levar a luta adiante. Juntando todos os delegados eleito em cada sessão, se formaria um comando de greve. A direção do sindicato, a partir daí, deixaria de existir enquanto tal, e o papel que ela cumpria, de ser a direção política da categoria, passaria ao comando de greve. Esse comando, ligado organicamente à cada estação, poderia organizar piquetes muito mais amplos e com muito mais força, estaria mais preparado politicamente e fisicamente para resistir às investidas da polícia, estaria mais preparado para discutir com cada metroviário os próximos passos da luta.

Ainda assim, mesmo sem tudo isso, o piquete de Ana Rosa foi decisivo: mostrou uma nova camada de metroviários dispostos à luta, e que poderiam melar o plano de contingenciamento do governo. Mas a burguesia não brinca em serviço: Alckmin manteve sua linha de nenhuma concessão, depois de botar a polícia para descer o cacete nos piquetes. No fim de semana, a linha foi "cozinhar" a greve para esperar o julgamento do TRT no domingo. E aí, novamente, outro ponto em que o PSTU não faz juz ao seu auto-intutulamento como partido revolucionário. Uma definição elementar do marxismo é que o Estado nunca é neutro: ele é um órgão de repressão, de dominação de uma classe sobre a outra. O TRT, como órgão do Estado burguês, está a serviço dessa classe. Mas frequentemente o PSTU alimenta esperanças nos trabalhadores nas decisões do TRT, quando deveria fazer o contrário. O TRT julgou a greve abusiva, o que era evidente. Aí, novamente, o PSTU surpreendeu: defendeu a manutenção da greve. PCdoB começa a mostrar sua cara, mas é ostensivamente vaiado na assembleia ao dizer que era hora de recuar. A greve continua.

Contudo, a direção do sindicato não prepara os trabalhadores para o inevitável cenário do dia seguinte: com a "justiça" do seu lado e a abertura da copa há quatro dias de distância, é hora do governo jogar com a artilharia pesada. Se o sindicato fosse sério na luta, saberia que no dia seguinte viriam as demissões, e teria preparado os trabalhadores para esse cenário. Mas nada disso... continua a greve como antes. Dito e feito: segunda-feira o piquete da Ana Rosa migra para Vergueiro atrás dos pelegos. A polícia vem dura pra cima, e prende 13 metroviários, que eram cerca de 90 antes de conseguirem fugir em grande parte pela saída de emergência e dar um belíssimo olé na polícia. Logo depois, começam a vir as demissões. Na greve, à noite, a direção do sindicato já aparece dividida. A burocracia sindical, que não é nada burra, sabe que defender abertamente contra a greve é um tiro no pé. Então, tendo uma boa experiência, sabe usar o velho discurso de "desmobilizar para mobilizar", e defende a "suspensão" da greve para voltar no dia da abertura da Copa. PSOL embarca junto na pelegagem e no plano de desmonte da greve. PSTU defende a greve, mas nem se dá ao trabalho de colocar Altino, a principal figura pública e presidente do sindicato, para defender. Além disso, dão novamente uma mostra de seu entendimento do que é a democracia operária simplesmente impedindo que façamos uma fala para defender a greve.

A categoria está com medo. Ainda é fresca a memória das demissões de 2007 e de como elas não foram revertidas. O PCdoB coloca um demitido de 2007 para defender o fim da greve. Claro, para ele é fácil: ele tem as costas quentes da burocracia sindical, e está muito garantido sem nenhuma mobilização. O medo ajuda a que uma maioria apertada se convença da "tática" de deixar a greve para o dia da copa. A votação é encerrada, com indicativo de greve para o dia 12. Essa é a primeira derrota dos metroviários.

Nos primeiros dias, acompanhando a mídia, acompanhando as pessoas na rua, se via algo novo na greve: a população apoiando massivamente. Uma pesquisa mostrou que quase 80% da população apoiava a greve do metrô, mesmo com uma ofensiva campanha da mídia contra os metroviários. A categoria estava forte, unida. O país mudou, os garis mostraram o caminho: as 42 demissões de Alckmin não seriam páreos para uma categoria decidida, com uma direção firme e orgânica na base, que levasse a greve adiante. Na reunião de segunda com o TRT, o desembargador saiu afirmando que se a greve continuasse era por instransigência do governo. O presidente do metrô falou que readmitira 40 metroviários, mas Alckmin negou: queria uma derrota exemplar. O PT, descabelando-se ao pensar na abertura da Copa sem metrô, começa a pressionar, com Lula à frente, pela readmissão. Faltava um empurrãozinho, muito menos do que um dia de greve da categoria. Mas depois da decisão de suspender a greve, o PSTU, como bom centrista que é, jogou para o alto a greve: parou de mobilizar a categoria para voltar pra greve no dia 12. E, pior ainda, hoje, no dia 11, defendeu que não retornassem à greve. Assim, se fechou com chave de ouro, para Alckmin, a vitória sobre a mais importante greve operária no país desde os levantes de junho. E, para enterrar essa mobilização, o tucano linha dura contou com a ajuda da direção vacilante do sindicato, com o PSTU e PSOL.

É uma derrota dura, mas os revolucionários não são gente que curva a cabeça e aceita as coisas como elas são. A nossa tradição é a do revolucionário Leon Trotski, que viu o Estado operário que ele ajudou a erguer ser dominado por uma burocracia que o expulsou e tomou o poder político da mão dos trabalhadores; e ele não desistiu. Viu a revolução alemã ser sufocada em sangue em 1919, 1921, 1923, e teve a serenidade de fazer o balanço dessas derrotas para que a classe operária triunfasse na próxima oportunidade. Acompanhou minuciosamente a revolução espanhola, um dos maiores levantes da classe operária na história, e tentou passo a passo, ano a ano, influenciar seus rumos. Viu ela ser derrubada pelo fascismo, mas não curvou sua cabeça. Foi desterrado, correu o mundo inteiro até acabar no México, o único país que o aceitaria. De dirigente do primeiro Estado operário e do maior exército revolucionário do mundo, passou a perseguido político tentando construir uma organização internacional com pequenos grupos espalhados em muitos países. Nunca se curvou, nunca hesitou, nunca desistiu. Nossos camaradas demitidos por lutar são os herdeiros dessa tradição. E teremos a serenidade de fazer o balanço e tirar as lições dessa derrota para que os trabalhadores e os revolucionários possam se educar, se forjar na dura luta para que possamos superar as direções centristas, para que possamos construir uma tradição capaz de botar de joelhos não apenas o testa-de-ferro da burguesia, Geraldo Alckmin, mas toda essa classe de parasitas que vivem do nosso sangue e suor. Hoje, um pouco triste, olho com orgulho e admiração nossos camaradas demitidos, e sigo ao lado deles lutando pela reintegração e pela construção de uma tradição combativa, classista, decidida e revolucionária nos metroviários de São Paulo, na classe trabalhadora brasileira e internacional. Não tem arrego! Não vai passar nenhuma demissão!


segunda-feira, maio 19, 2014

A Mulher, o Estado e a Revolução Permanente



O livro “Mulher, Estado e Revolução”, da historiadora americana Wendy Goldman, consegue traçar com grande precisão as características fundamentais na vida das mulheres no período pós-revolução de outubro na Rússia. Estabelecendo um panorama entre a vida concreta das mulheres, seus problemas cotidianos, e os debates que se desenvolviam entre intelectuais, juristas, membros do partido bolchevique, e delegadas(os) dos Sovietes, Goldman consegue demonstrar de forma aguda e viva as imensas dificuldades enfrentadas pelo primeiro Estado Operário na história da humanidade para traduzir em realidade concreta os princípios, a estratégia e o programa do socialismo científico em um estado transitório rumo ao socialismo.
As dificuldades – muitas vezes insuperáveis dentro daquele contexto estrito – eram provenientes do fato de que, como afirma Leon Trotski: “O poder público pode desempenhar um papel gigantesco, seja reacionário ou progressivo, segundo a classe em cujas mãos caia. Mas, apesar de tudo, o Estado será sempre uma arma de ordem superestrutural. A passagem do poder das mãos do tzarismo e da burguesia às mãos do proletariado não cancela os processos nem anula as leis da economia mundial.”[1] Ou seja, a economia (a base ou estrutura sobre a qual se ergue a superestrutura do Estado) em sua escala mundial permanece sendo um fator decisivo para considerar os avanços e retrocessos políticos da URSS.
Assim, para compreendermos profundamente a questão dos avanços e retrocessos nas relações com a família, os direitos das mulheres e o Estado na URSS, é indispensável pensarmos na teoria da revolução permanente de Trotski, que elucida as causas desses fenômenos sociais. Tomaremos aqui os três aspectos nos quais ele mesmo dividiu sua teoria.

Da democracia ao socialismo

O primeiro aspecto da teoria da revolução permanente diz respeito a como se dá a passagem da revolução democrática à revolução socialista. Por “revolução democrática”, poderíamos – grosso modo – entender as transformações estruturais da sociedade que foram feitas, em países como a França, Inglaterra ou EUA, pela burguesia em combate aberto contra a velha classe dominante: a nobreza monárquica. Questões como a reforma agrária, a independência nacional e o direito ao voto são demandas que poderíamos chamar de “democrático-burguesas”, pois são típicas de um regime democrático – em oposição ao monárquico – que foi realizado sob a direção da burguesia, e no qual ela se estabeleceu como a classe dominante socialmente, através dos estados nacionais modernos que existem até hoje.
Originalmente, Marx e Engels, ao preverem a dinâmica da passagem do capitalismo ao socialismo, julgaram que a revolução aconteceria primeiro em países de desenvolvimento capitalista avançado, ou seja, em que a revolução democrático-burguesa já tivesse ocorrido e, a partir disso, a classe trabalhadora tivesse se tornado numericamente maior, e as forças produtivas estivessem mais avançadas. Esta visão partia de entender que a burguesia, no começo, era uma classe revolucionária em oposição à nobreza, e que sua dominação política permitia o desenvolvimento social e técnico da sociedade, essencial para criar as bases materiais para o socialismo. Mas com o tempo o papel social da burguesia mudou drasticamente, e já nas revoluções de 1848, que se tornaram conhecidas como a “primavera dos povos”, Marx e Engels viram que já havia passado o momento histórico em que a burguesia poderia cumprir um papel revolucionário: chegava um momento em que, com medo de que sua aliança com os trabalhadores contra a nobreza saísse do controle e eles mesmos fossem “atropelados” pela organização dos trabalhadores, a burguesia preferia se aliar com a nobreza para conter o movimento revolucionário.
Foi exatamente isso que aconteceu, por exemplo, na revolução russa de 1905. A burguesia cumpriu um papel diretamente contra-revolucionário, com medo dos trabalhadores e de sua crescente organização, que já contava então com um forte partido, o POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo, que se dividiu em dois: bolcheviques e mencheviques), e que organizou conselhos que reuniam os trabalhadores para se organizar politicamente, os Sovietes. Nessa revolução, que foi derrotada, Trotski atuou ativamente, sendo eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Trotski viu que mesmo que a Rússia não tivesse passado por uma revolução democrático-burguesa, era impossível que a burguesia se colocasse como cabeça de uma revolução para derrubar a nobreza e o tzarismo. Ela preferia se aliar a estas classes reacionárias contra os trabalhadores, por medo. Por isso, disse que a revolução democrático-burguesa na Rússia só poderia ser feita pelos trabalhadores, de forma independente da burguesia. Nisso, ele e Lenin concordavam, diferente dos Mencheviques, que ainda achavam que na Rússia era preciso ter um período de democracia burguesa antes que o país estivesse preparado para uma revolução operária e socialista.
Mas Trotski entendeu que, uma vez que o poder fosse tomado pelos trabalhadores, eles não se contentariam em fazer apenas reformas democráticas. Afinal, numa sociedade “democrática” permanecia a propriedade privada, e eles continuavam sendo explorados. Por isso, o caráter “permanente” da revolução consistia em que os trabalhadores avançariam de medidas democráticas a socialistas. Nas palavras de Trotski: “Se a opinião tradicional sustentava que o caminho da ditadura do proletariado passava por um prolongado período de democracia, a teoria da revolução permanente vinha proclamar que, nos países atrasados, o caminho da democracia passava pela ditadura do proletariado. Com isso, a democracia deixava de ser um regime de valor intrínseco para várias décadas e se convertia no prelúdio imediato da revolução socialista, unidas ambas por um nexo contínuo. Entre a revolução democrática e a transformação socialista da sociedade se estabelecia, portanto, um ritmo revolucionário permanente.”[2]
No livro de Goldman isso surge claramente nos debates a respeito da família e de seu papel social. Em primeiro lugar, o Código Familiar de 1918 estabelecia reformas que estavam ainda nos marcos democráticos, mas que mesmo assim eram mais radicais do que nos países capitalistas mais avançados: a facilidade para se obter o divórcio, os direitos políticos plenos das mulheres trabalhadoras e camponesas nos sovietes, a licença a maternidade, o direito à pensão – todas essas eram medidas democráticas, mas que já colocavam a nascente república operária como a mais avançada democracia do mundo. No entanto, as discussões sobre o definhamento da família e a necessidade do Estado assumir o papel econômico que esta desempenha apontam para um horizonte que está além da sociedade capitalista burguesa. Como aponta Goldman, os legisladores e juristas mais avançados, como Goikhbarg, Krilenko, Pashukanis, todos tinham a concepção de que o Estado e as leis deveriam definhar, pois esses eram necessários para regulamentar fundamentalmente os conflitos econômicos e sociais que desapareceriam em uma sociedade socialista. Durante o comunismo de guerra, os refeitórios coletivos, por exemplo, foram um passo no sentido de absorver as tarefas econômicas da família. Mas havia um obstáculo para que isso se desenvolvesse até o fim...

O caráter internacional da revolução

O terceiro aspecto da teoria da revolução permanente trata justamente desse obstáculo, que, como apontamos antes em uma citação de Trotski, se refere aos limites entre poder estatal e economia. Marx e Engels previam que a revolução aconteceria primeiro em um país capitalista avançado, justamente porque nesses países as bases materiais para a socialização da produção e a distribuição da riqueza estariam muito mais desenvolvidas. Mas, como o próprio Marx aponta, a sociedade capitalista, ao se estabelecer em todo o globo a partir da conquista imperialista de territórios e mercados, cria um mundo “à sua imagem e semelhança”, com uma divisão internacional do trabalho em que cada país tem um papel determinado, de acordo com os interesses da burguesia. Se no começo a burguesia importava aos países industrializados matéria prima e exportava produtos industrializados, com o tempo esse mecanismo ficou mais complexo. Lenin, em seu livro “Imperialismo: fase superior do capitalismo”, mostra como a burguesia passa a exportar não apenas produtos, mas também capital. Na Rússia, por exemplo, a indústria se desenvolveu muito rapidamente principalmente com o capital importado da burguesia francesa e gerido pelo tzarismo em parceria com a burguesia nacional. Por isso, a classe trabalhadora cresceu muito em pouco tempo; mas a burguesia nem tanto, já que o capital vinha de fora. Isso fez com que o país tivesse condições políticas excepcionalmente favoráveis para a revolução. Mas isso não mudava o fato de que, comparada à Alemanha ou Inglaterra, por exemplo, a indústria russa fosse extremamente atrasada, com cerca de 90% do país vivendo no campo.
Deste aspecto, somado aos longos anos da Primeira Guerra Mundial, aos anos da Guerra Civil contra os contrarrevolucionários, e ao rigoroso inverno de 1921, vieram as imensas dificuldades materiais em avançar na distribuição da riqueza. A imensa miséria descrita por Goldman, que levava às crianças de rua (besprizornost); ao desemprego feminino; às dificuldades do Estado em criar creches, lares infantis, restaurantes e lavanderias; às imensas dificuldades para o pagamento de pensão e a independência econômica das mulheres; às dificuldades implicadas no divórcio dos camponeses pobres que levavam à divisão da terra (dvor).
Trotski, assim como Lenin e todo o Partido Bolchevique até 1924, sempre ressaltaram a impossibilidade de que a revolução russa prosperasse se não fosse seguida de outras revoluções – particularmente em países mais desenvolvidos como a Alemanha, que teve grandes oportunidades revolucionárias perdidas em 1919, 1921, 1923... Para avançar rumo ao socialismo, é necessário desenvolver as forças produtivas. Dessa dependência da economia mundial, no entanto, como afirma Trotski “(...) não se deduz, nem muito menos que isso, a conclusão de que a Revolução de Outubro tenha sido historicamente ‘ilegítima’, conclusão que é de um filisteísmo vergonhoso. A conquista do poder pelo proletariado internacional não podia nem pode ser um ato simultâneo em todos os países. A superestrutura – e a revolução entra na categoria das ‘superestruturas’ – tem sua dialética própria, a qual penetra autoritariamente no processo econômico mundial, mas de forma alguma suprime, suas leis mais profundas. A Revolução de Outubro foi ‘legítima’, quando considerada como primeira etapa da revolução mundial, que necessariamente deve ser obra de várias décadas.”
Trotski afirma essa concepção em contraposição à visão stalinista de que na Rússia já existia o socialismo, e sua teoria do “socialismo em um só país”. O que havia na Rússia, como o livro de Goldman demonstra de maneira irrefutável, estava muito longe de ser o socialismo: era um Estado operário tentando, com seus parcos recursos materiais, avançar rumo a medidas de caráter socialista, mas, em primeiro lugar, para conseguir atingir os níveis de vida dos países capitalistas avançados. A profunda contradição entre os recursos econômicos precários e as tarefas socialistas é o que salta aos olhos em todo o livro de Goldman.

A mudança permanente dentro da revolução

                O que Trotski coloca como o segundo aspecto da teoria da revolução permanente é aquilo que mais se destaca na obra de Goldman: “Ao longo de um período de duração indefinida e de uma luta interna constante, vão se transformando todas as relações sociais. A sociedade sofre um processo de metamorfose. E nesse processo de transformação cada nova etapa é consequência direta da anterior. Esse processo conserva forçosamente um caráter político, ou, o que é o mesmo, se desenvolve através do choque entre os distintos grupos da sociedade em transformação. (...) As revoluções na economia, da técnica, da ciência, da família, dos costumes se desenvolvem em uma complexa ação recíproca que não permite à sociedade alcançar o equilíbrio.”
                Esta colocação de Trotski sintetiza com perfeição a dinâmica apontada por Goldman em seu livro. Os choques que ocorrem nos debates a respeito, por exemplo, do Código da Família de 1926, são fruto direto dos distintos interesses e contradições existentes no seio da sociedade russa. Enquanto as mulheres camponesas propunham medidas punitivas para o comportamento sexual promíscuo dos homens, como forma de preservar seus interesses econômicos, alguns defendiam a liberdade cada vez maior nas relações. O fato de que os juristas propunham medidas educativas para tentar combater o besprizornost como resultado de sua compreensão marxista de que sua causa era fundamentada em uma condição de pobreza, se chocava com a própria escassez de recursos do Estado para poder fazer com que essas leis tivessem validade material. O resultado que o stalinismo deu a esse conflito foi o fim das Komones, que aplicavam medidas pedagógicas, e o envio das crianças infratoras às prisões, restaurando a lógica punitiva que oculta as causas sociais da criminalidade, exatamente como nos países capitalistas.
O conflito entre os distintos grupos sociais foi incessante, sem que se alcançasse um equilíbrio, como aponta Trotski, desde a implementação do Código Familiar de 1918 até o retrocesso stalinista do Código de 1936. Nesse aspecto encontramos um choque frontal com a concepção stalinista, para a qual a conquista do poder representa 90% da construção socialista. Na concepção de Trotski, que se demonstra correta a partir da pesquisa de Goldman, “a conquista do poder pelo proletariado não significa o coroamento da revolução, mas simplesmente seu início.”, pois o Estado, como ele disse, é apenas um instrumento “superestrutural”. Para construir uma sociedade socialista é necessário criar bases materiais, econômicas, e inclusive ideológicas, propagando a educação por toda a população. Isso, claramente, não pode ser feito senão em algumas décadas.
                Nesse sentido, a própria Wendy Goldman aponta, na sua conclusão, que “As raízes da reversão do direito familiar datam dos anos 1920. O legado do subdesenvolvimento russo, a falta de recursos estatais, o peso da economia, da sociedade e das tradições camponesas atrasadas, a devastação da base industrial durante o período de guerra, o desemprego, a fome e a pobreza foram fatores que minaram gravemente a primeira visão socialista. Os besprizorniki cumpriram um papel crucial em obrigar o Estado, de decreto em decreto, a abandonar a criação coletiva das crianças. Muitas das sugestões oferecidas pelas mulheres e camponesas na década de 1920 – limitar o divórcio, garantir o cumprimento da responsabilidade pela pensão alimentícia, deter a promiscuidade masculina – foram finalmente adotadas pela lei e política familiar stalinistas. A dura retórica da responsabilidade familiar encontrou sem dúvida um público agradecido.”
                Assim, podemos ver que existe uma base material que fundamenta o retrocesso legal e ideológico capitaneado pelo stalinismo. Em momentos anteriores, como na implementação da NEP, por exemplo, o Estado soviético foi obrigado a dar passos atrás politicamente devido à escassez de bases materiais para avançar politicamente. Contudo, a diferença fundamental é que nesses momentos esses passos atrás se apresentavam tal como eram: recuos táticos impostos pelas condições materiais, e eram apresentados assim. Já na era stalinista, a burocracia soviética implementou recuos decisivos, mas sempre os apresentando como passos adiante, como a “consolidação do socialismo”, formando uma ideologia oficial do Estado que era proibido contestar. Isso é nítido, por exemplo, na proibição do aborto e na proclamação de que todos tinham condições de criar seus filhos “de forma socialista”. Para poder assegurar seus recuos, Stalin sempre procurou se apoiar nos setores mais conservadores socialmente, como nos camponeses ricos ou nos privilegiados membros da burocracia estatal.
                Por estes motivos, parece equivocada a análise de Goldman quando aponta que “Finalmente, ainda que as condições materiais tenham cumprido um papel fundamental em minar a visão dos anos 1920, não foram em última instância responsáveis pela sua desaparição. (...) A reversão ideológica na década de 1930 foi essencialmente política não de natureza econômica ou material, e levava a marca da política stalinista em outras áreas.”
                Se é um fato que o retrocesso ideológico foi conduzido diretamente pelo burocracia stalinista encrustrada no Estado, a própria análise de Goldman ao longo de todo o livro demonstra que os obstáculos materiais que a revolução enfrentou – e que foram imensamente agravados pelo fato da revolução não ter triunfado em outros países mais desenvolvidos – serviram como pretexto e justificativa para inúmeros retrocessos. Seria impossível para a burocracia stalinista consolidar os retrocessos políticos se não estivesse assentada sobre essa sólida base material. Além disso, como afirma Trotski em suas “teses sobre revolução e contra-revolução”: “As conquistas obtidas na luta não se correspondem, e na natureza das coisas não podem diretamente se corresponder, às expectativas das massas atrasadas que têm acordado para a vida política pela primeira vez em grande número no curso da revolução. A desilusão destas massas, seu retorno à rotina e a futilidade, é parte integrante do período pós-revolucionário tanto como a passagem ao campo da ‘lei e da ordem’ daquelas classes ou setores de classe ‘satisfeitos’, que haviam participado na revolução.” Esse fator, como aponta Goldman no trecho citado acima, foi um ponto de apoio fundamental para fazer de muitas mulheres um “público agradecido” em relação aos retrocessos.

Além disso, a burocracia barganhava com o desespero das mulheres que não conseguiam atender suas necessidades materiais, como afirma Goldman: “A lei de 1936 oferecia às mulheres uma barganha implícita: ela ampliava tanto a responsabilidade do Estado como a do homem pela família, mas em troca ela exigia que as mulheres assumissem o duplo fardo do trabalho e da maternidade. A ideia de que o Estado assumiria as funções da família foi abandonada”. Assim, a relativa separação que Goldman faz entre as causas materiais e as movimentações políticas da burocracia não se sustenta, pois é do isolamento da revolução e da miséria material que floresceu a burocracia, que arrancou com mãos de ferro o poder político das mãos dos trabalhadores e esmagou os sovietes, enviando os oposicionistas aos milhares para os gulags e fuzilando-os nos processos de Moscou.

Esta perspectiva é fundamental para combater o senso comum da ideologia burguesa que prega que o socialismo é uma “utopia irrealizável”, e que o stalinismo é a consequência inevitável e natural da revolução. É imprescindível aprendermos com a história da revolução russa para que possamos fazer novas revoluções triunfantes, que possam superar as dificuldades enfrentadas pelo primeiro Estado Operário da história e que, assim, finalmente, possamos emancipar todas as mulheres e a humanidade.




[1] TROTSKI, Leon. “La teoria de la revolucion permanente”. Buenos Aires: CEIP, p. 407. Tradução minha.
[2] Idem, p. 418. Tradução minha.

sábado, maio 17, 2014

Em memória de Nelson: mais um irmão de classe a vingar

Não conheci Nelson. Era operário metalúrgico e, como a maioria dos trabalhadores, deixou seus anos e sua saúde na linha de produção, na labuta de cada dia, aumentando a fortuna de um patrão qualquer. Aposentado por invalidez, praticamente surdo e cego, Nelson foi reposto sem mais considerações, como mais uma peça gasta da máquina que faz o capital girar. Outro operário entrou em seu lugar para suportar o pesado fardo da exploração.

Nelson passou seus últimos anos em casa, e enfrentou as consequências tardias da brutalidade com que o ritmo da fábrica extraiu dia-a-dia sua energia num trabalho febril. Contraiu câncer, doença que certamente também era consequência de seu trabalho. Se fosse rico, ele teria acesso ao mais avançado da nossa técnica semi-bárbara das terapias químicas e radiológicas em pouco tempo. Uma medicina tão fundada no lucro e numa visão selvagem de saúde e doença que muitas vezes tem um tratamento mais doloroso e letal do que a própria patologia, mesmo para os que podem pagar seus exorbitantes preços. Mas Nelson não era rico: era um trabalhador aposentado, um peão de fábrica sujeito ao que tivesse a saúde pública a lhe oferecer. E o que ela lhe ofereceu foi espera, uma espera que permitiu à doença se alastrar irrestritamente por seu corpo, debilitar sua saúde cada vez mais.

Longos meses depois, Nelson iniciou seu tratamento. Quando foi internado, para fazer uma cirurgia relativamente simples e sem grandes riscos, continuou seu calvário pela sistema de "saúde" pública contraindo infecções hospitalares e sofrendo todo tipo de negligências por parte do hospital, dos médicos, e mesmo aqueles que provavelmente gostariam de lhe oferecer o melhor tratamento possível não podiam, pois eram eles mesmos, como trabalhadores da saúde, peças sendo gastas pela exploração cotidiana, como fora seu paciente antes de adoecer. Muitos endureceram e se insensibilizaram diante do sofrimento dos pacientes como a única forma de sobreviver psiquicamente em meio a tanta dor e impotência.

Foram três infecções hospitalares que contraiu, agravando progressivamente seu estado de saúde de maneira avassaladora e irreversível. Sua família, impotente, assistia o sistema de saúde assassinar lentamente aquele que para eles não era uma peça gasta, mas uma pessoa que amavam. Nas estatísticas, M. era um número. Para nós, era um irmão de classe. Ele ontem não resistiu mais ao lento e doloroso processo de destruição a que lhe submeteram, e seu corpo cedeu. Sua morte entrou para a história como mais um dos incontáveis crimes do capitalismo contra os explorados e oprimidos do mundo. Para minha camarada e amiga, sua filha, este crime entrará em sua consciência e sua história como uma marca a ferro e fogo da crueldade desse mundo podre. O assassinato de seu pai será uma dor eterna, mas também a cicatriz de uma luta que levamos todos os dias. Uma luta ao lado de cada Nelson que foi assassinado, de cada explorado, oprimido, mutilado, assassinado por este mundo cão. Uma luta contra cada patrão miserável que impõe a dor às famílias, a cada trabalhador, em nome de suas festas luxuosas, suas mansões, helicópteros e iates.

Para a burguesia, a morte de Nelson é mais um número em uma estatística sem importância. Para nós é a morte de um irmão de classe, de um de nossas fileiras, e não passará impune. Por ele e por todos os outros, marchamos a cada dia. Junto a minha camarada e amiga, sigo em luta e tento dividir com ela como puder a tristeza de perder um pai de uma forma tão brutal. Seu ódio é nosso, e nosso ódio é o combustível que vai nos colocar de pé a cada dia para combater, para fugir a cada hesitação e vacilo, para enfrentar cada dificuldade que se coloque no caminho com coragem, paciência e perseverança, pois sabemos que qualquer luta e qualquer sacrifício vale a pena para não viver em mundo podre como esse de cabeça baixa, aceitando passivamente que a cada dia este tipo de sofrimento se repita infinitamente em cada lar operário, em cada família na periferia, em cada um que perde sua vida e que poderia ainda estar aqui. Para nós, marxistas, a paz não está na vida após a morte - Nelson se foi, não existe mais e não tem alma imortal. A herança e o legado de sua vida - além da marca que deixou em cada um que o conheceu - é a luta para que não deixemos sua morte em vão, e saber que sua vida foi a dura história de mais um membro da classe que irá dar o passo definitivo para emancipar a humanidade, para que nunca mais alguém passe por isso novamente. É, sem dúvida, uma forma gloriosa de permanecer na história.

sexta-feira, maio 16, 2014

A eleição da Apeoesp e "um jeitinho petista de ver a vida"

Semana passada fui atuar como fiscal na eleição da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo. A intenção era ajudar nossos camaradas dos Professores pela Base a garantir que a rotineira prática da fraude eleitoral, que a chapa 1 (PT e PCdoB) utiliza para se manter na direção há décadas, fosse, no mínimo, mais difícil para eles.

Bebel e seus amigos.

Maria Isabel Noronha, a "Bebel", apesar desse "meigo" apelido, é uma burocrata de carteirinha que está confortavelmente acomodada na direção do sindicato há muitos anos, e a mais de uma década não pisa numa sala de aula, vivendo do salário dos professores que a sustentam através do imposto sindical. Ano passado, Bebel e sua gangue colocoram a polícia para reprimir os professores e escoltar seu carro de som para fora da assembleia, depois de manobrar descaradamente quando mais de 60% dos professores presentes recusaram a proposta do sindicato de acabar com a greve sem nada nas mãos.

A PM, amiga da Bebel, ajuda o carro de som dos burocratas a sair da Paulista.
 
E eis que eu e mais algumas dezenas de camaradas fomos obrigados a dividir um dia de eleição ao lado dos "companheiros" que integram a chapa 1 da Bebel, como mesários e fiscais. Um dia que prometia ser longo...

Eu e mais um companheiro do Professores pela Base ficamos junto com três apoiadores da chapa 1. Eram bastante simpáticos e amenos conosco. Ao longo do dia, pude conversar bastante com eles. Eram dois mais jovens, e uma outra de bastante tempo na categoria. E pude aprender um pouco sobre como pensam os "petistas da base". Eram todos da CNB/Articulação, a corrente majoritária do PT, aquela mesma do Lula, Dilma e mensaleiros de alto escalão. Mas, sendo esta corrente aglutinada muito mais ao redor de interesses materiais do que ideológicos, eles faziam parte de um grupo dissidente aos burocratas de sua mesma corrente que dirigem a subsede Norte da Apeoesp, ligados à Nilcéia, uma "Bebel de segundo escalão", que há anos está lá parasitando a subsede. Ela, que atua como uma burocrata "cachorro louco", foi responsável pelas fraudes e seu "braço direito" tentou agredir uma camarada nossa e furou o pneu de um de nossos carros. O bê-á-bá dos burocratas sindicais.

Professor conta a Nilcéia sua opinião sobre ela, logo após a votação fraudada de fim de greve em 2013.

Já os petistas que me acompanharam na urna estavam em outro estado de espírito. Tendo sido passados pra trás pelo grupo da Nilcéia, eles haviam retirado seus candidatos à subsede para pressionar a burocrata local. Portanto, para eles era ótimo que fossemos bem na eleição, pois assim mostrariam para Nilcéia como o apoio deles é importante para ganhar votos e poderiam exigir uma "fatia maior do bolo". E é exatamente assim que a política funciona entre eles: acordos de interesses para conseguir um pouco mais de poder e privilégios. Nada que tenha a ver com o interesse dos trabalhadores, claro. Isso tudo, obviamente, com o devido verniz "democrático e popular" para agradar a base. Tudo em nome da boa "governabilidade". O mesário que tinha uma origem mais claramente pequeno-burguesa - vamos chamá-lo de Roberto para não expor o petista que tão amavelmente se abriu comigo - colocava as coisas assim, bem honestamente: ele tinha um cargo de diretor de recursos humanos em uma Diretoria de Ensino municipal - uma boa boquinha no governo petista do Haddad. Tinha uma vida tranquila com seu companheiro, guiava sua vida pelos ideais de uma religião não-monoteísta e muito progressista, desfrutava os pequenos prazeres da vida, como sua coleção de perfumes (um autêntico apreciador, um bon vivant). Havia sido bem votado na última eleição. Disse nos respeitar, porque, segundo ele, estávamos "todos lutando pela mesma causa", mas "com táticas diferentes". Ao longo do dia disse como estava ali militando, pois a remuneração que receberia como mesário era muito menor do que a de seu dia perdido na DER.

A realidade dele era um bocado diferente da do fiscal, vamos chama-lo de Wellington, que, também militante do PT, tinha uma origem de classe nitidamente mais proletária do que a de seus dois colegas. Ele contou-me brevemente sua história militante: começou a militar no PCdoB, fazendo campanha para João Felício, um burocrata da Apeoesp que havia galgado os degraus a um cargo no parlamento. Disse que lhe prometeram pagar pela campanha, mas que no final não recebeu um centavo. E, ainda, que os seus "chefes" conseguiram cargos de assessores, mas o pessoal que estava no dia-a-dia da campanha não conseguiu nada. Ficou abandonado por seus dirigentes... depois disso ele passou a militar no PT, mas disse que na outra campanha não atuou e o burocrata não conseguiu se eleger. Falou ainda que depois ingressou sem ajuda nenhuma em uma universidade privada, onde cursou história, e que durante esse tempo não recebeu nenhum auxílio do partido. E agora estava ali, fazendo a campanha pra chapa 1.

Achei muito interessante a história desses "companheiros", porque estou acostumado a pensar em dois tipos de petistas: os grandes burocratas e traidores de classe, como os dirigentes da CUT ou o Lula; e os pequeno-burgueses acomodados "progressistas", cuja mentalidade política é perfeitamente expressa pelo petismo, mas que não tem nenhum "interesse material" no triunfo do PT, como meu pai. Ali, pude conviver com um tipo diferente, os "aspirantes a burocratas": uma geração que não é aquela que construiu o PT como um partido de trabalhadores pela base e se desiludiu; nem mesmo os que se tornaram os serviçais diretos da burguesia. É, na verdade, uma geração que começou a militar no PT já completamente degenerado, e que foi educada na política como sendo um lugar onde tentar garantir seus interesses privados; cuja militância se iniciou e se formou em campanhas eleitorais, que não associa em nenhum momento a política à luta de classes, mas sim a acordos aqui e ali. É o autêntico corpo e alma do PT de hoje: um deles é um "pequeno burocrata" com um carguinho; o outro, um peão que entra ali querendo ver se consegue ganhar alguma coisa, uma migalha que caia da mesa dos de cima. Ambos se confortam na ideia de que "militam pela esquerda", "contra os tucanos" ou coisas assim.

O significado do termo "militância" para essa gente nada tem a ver com o que é para nós, que viemos da tradição revolucionária, dos bolcheviques. Lembro-me sempre de uma passagem de "Minha Vida", a autobiografia de Trotsky, em que ele fala sobre quando conheceu os membros do Partido Socialista americano, que classificava como "cavalheiros que dividem seu tempo livre entre a ópera e o Partido". A luta que Lenin deu para a conformação de um partido revolucionário, a que levou à divisão entre "bolcheviques" e "mencheviques" tinha a ver com isso: gente que via a luta revolucionária como o motivo central de sua vida, e gente que a achava "bonita" e tinha "um certo interessse" em leva-la a frente, quando não tivesse algo "mais importante" para fazer. É por isso que cada militante bolchevique vale dez reformistas ou centristas: é alguém que está convicto de levar sua luta adiante, custe o que custar.

Professores pela Base: os que levaram a luta anti-burocrática na eleição da Apeoesp.

Outro dia, quando escrevi um texto que falava um pouco sobre minha trajetória militante, um amigo "marxista de academia", um cara honesto, comentou que meu texto "poderia ter sido escrito pelo Dalai Lama", se trocasse o Partido pela religião. Interessante, lembrei-me de quando militava no Movimento Passe Livre e alguém levantou a ideia de cotizações (contribuições financeiras regulares dos militantes para a organização), e um anarquista disse que isso era "o dízimo", "coisa de Igreja" etc. Dessas analogias formais vive a ideia destes autonimistas, que, no fundo, têm algo em comum com os petistas: a militância é para eles "um passatempo". Eles cuidam de seus empregos, de suas carreiras acadêmicas, de seus casamentos... e, quando dá tempo, militam. E acham (ou não pensam muito nisso) que assim vão mudar o mundo.

É curioso como estas tendências não se desenvolvem e criam raízes no movimento operário, senão pela via da cooptação de dirigentes e quadros. Para os trabalhadores, a militância só pode ter o significado de um compromisso de vida: eles não tem "tempo de lazer" para gastar com uma militância de aparências. Cada segundo gasto em uma atividade partidária é um sacrifício pessoal em uma vida dura. E só a ideia de uma mudança de fato da sociedade pode ganhar estes setores. Para um pequeno-burguês, não é necessário se comprometer de corpo e alma com a ideia da revolução, pois, em última instância, sua vida não está mal hoje... é só sua consciência que "sofre" com a miséria alheia. Por isso, inclusive, é tão fácil para ele encher a boca para reivindicar o "avanço" dos governos do PT, já que não é o dele que está na reta. Em épocas de relativa "paz social", estas ideias de "avanços graduais" florescem inclusive no seio da classe trabalhadora. Mas, então, ela não precisa militar mesmo. E o campo político fica sendo o destes pequenos e grandes arrivistas, e dos políticos burgueses profissionais. Mas quando a luta de classes se acirra, a coisa muda radicalmente: este "jeitinho petista de ver a vida" se encontra cada vez mais espremido pelos dois campos opostos que se fortalecem: a linha dura da burguesia de aumentar mais e mais a miséria dos trabalhadores; ou uma política revolucionária que consiga mudar as coisas de fato.

E aí, muito pouco vai sobrar para aqueles que fazem a sua política procurando uma "boquinha" no banquete da burocracia sindical...

quinta-feira, abril 10, 2014

Um dia de lutas, pela sua memória

Hoje foi um dia longo, duro e muito bom. Estive com meus camaradas no ato dos vigilantes da USP, trabalhadores da empresa Atlântico Sul, que estavam protestando em frente à reitoria por estarem com seus salários há mais de um mês atrasados. Chegamos lá vindo de nossa campanha para o DCE, a qual deixamos de lado nas urnas para colocar em prática o programa que levantamos - único motivo pelo qual participamos das eleições - de aliança com os trabalhadores em suas lutas, de defesa da efetivação dos terceirizados sem concurso. Nos aproximamos do ato sob uma salva de palmas dos trabalhadores, que imediatamente reconheceram e se fortaleceram com o apoio dos estudantes, mesmo que fossemos poucos.

Ali, pude aprender da melhor forma que há para aprender: com os trabalhadores em luta, organizados, conscientes de que são capazes de dobrar seus patrões. Vi ali muitos trabalhadores que pela primeira vez se organizavam, ainda hesitantes às vezes, mas que tornavam-se pouco a pouco sujeitos políticos de suas vidas e seus destinos; tornavam-se membros conscientes de sua própria classe. Orgulhei-me de podermos estar ao seu lado, e ao mesmo tempo me envergonhei de fazer parte de um movimento estudantil que prefere se agarrar às urnas como se isso fosse mais importante do que a vida real que acontecia ali, mais importante do que uma luta de trabalhadores que despertavam, pela primeira vez, para a vida política; trabalhadores ao lado dos quais nós, estudantes, poderíamos aprender; a quem poderíamos apoiar e, quem sabe, efetivamente fazer alguma diferença para o desfecho de sua greve. Ajudamos como pudemos: com cartazes, palavras no microfone, comprando comida para que eles pudessem aguentar ali firmes as horas de enrolação que a negociação da reitoria e da empresa impunham a eles. Enfim, saíram dali com o compromisso de pagamento para o dia 15, a ser feito pela própria USP, já que esta confia tanto na empresa que ela própria contratou que sequer irá repassar o dinheiro a esta, com medo de que eles não paguem os trabalhadores e não resolvam o problema daquela incômoda greve, ali, bem na frente da reitoria. Este compromisso feito pela reitoria é duvidoso; mas os trabalhadores saíram também com um outro compromisso, este de nossa parte e plenamente confiável: o de que, se necessário, voltaremos no dia 15, e com mais estudantes para apoiá-los.

À tarde, entreguei correndo minha dissertação de mestrado, a qual espero que possa ser uma modesta contribuição para a classe trabalhadora no resgate de sua história, de sua luta, da apropriação das ferramentas que precisamos para mudar este mundo.

E à noite, pudemos ouvir valorosos companheiros trabalhadores que foram em uma atividade de nossa chapa para nos apoiar, para compartilharmos nossa luta. Um camarada trabalhador do bandejão, onde os trabalhadores têm seu corpo literalmente destruído pelo trabalho massacrante; um camarada da indústria metalúrgia, que nos contou como foi que tomou contato com sua história, a história de sua classe, e que apoiava os estudantes que estavam ali para lutar por uma universidade a serviço desta classe; um camarada trabalhador, negro, do ABC, que falou sobre o orgulho de apoiar uma chapa que se colocava nesta luta, ao lado de cada trabalhador explorado; um camarada bancário, que contou sobre a importância da juventude que apoiou ativamente os piquetes de bancários na greve do ano passado (veja os posts anteriores aqui no blog que falo um pouco desta luta), e como isso fez toda a diferença para ajudar a acabar com o roteiro da "greve de fachada" da burocracia sindical da CUT.

E, por último e mais fundamental, pudemos ouvir um companheiro gari, vindo diretamente da sua experiência de greve no ABC, onde participou da comissão eleita pelos próprios trabalhadores, que enfrentou a justiça burguesa que julgou a greve ilegal, enfrentou seu sindicato pelego que queria acabar com a greve, e conquistou novamente para aqueles trabalhadores a ideia de que podem se organizar, podem lutar e podem vencer. 

Foi um dia de campanha para o DCE. Mas digo com muito orgulho que foi uma campanha completamente diferente de qualquer outra chapa dessa esquerda apática, acomodada e cética que temos hoje por aí. Foi um dia de estar ao lado da classe trabalhadora em luta, de aprender com ela. De reafirmar com exemplos concretos a convicção de que é esta classe - a que tudo produz - a força social que é verdadeiramente capaz de enterrar a burguesia e esse mundo miserável que ela sustenta à custa de muita dor e exploração.

Mas não é porque foi um dia de luta que eu me esqueci que há exatos dois anos eu perdia uma das pessoas que mais amei - que mais amo - nesta vida. E, voltando para casa, pude chorar sua ausência. Chorei-a porque ela teria visto o que acontece hoje como nós temos visto: com os olhos brilhando de entusiasmo pela promessa do novo. Ombro a ombro com cada um desses guerreiros da nossa classe que toma para si, de um dia para o outro, a tarefa de serem sujeitos de sua própria história. Foi um dia digno de sua memória. Não um dia de lamentar apenas, mas de celebrar e lutar aquilo pelo que ela viveu e lutou. Se há uma coisa nessa vida que apaixonou a Camila, que lhe deu forças para lutar contra seus fantasmas, era a luta por um mundo sem exploração e opressão. Eu me lembro, como se fosse ontem, de seus olhos brilhando quando ela parava e escutava, realmente escutava, o que lhe dizia um trabalhador. Ela ouvia, em todas as partes, e aprendia com a clase trabalhadora a cada dia. Tinha a humildade e a paixão de uma autêntica revolucionária. Muito diferente dos que hoje eu vi, panfletando indiferentemente, como se nada estivesse acontecendo, enquanto há poucos metros um gari, um combatente de linha de frente de sua classe, contava como ele perdeu uma promoção porque preferiu ir à luta. Contar como abriu mão de seu aumento, de seu conforto individual, para se colocar na luta por algo que é muito maior: pelo bem coletivo, pela satisfação de saber que - derrotado ou vitorioso - ele lutou pelo que era certo. Que não enfiou o rabo entre as pernas e saiu de cabeça baixa, mesmo que isso fosse dar a ele e sua família, ao seu filho de apenas um ano, uma vida mais confortável e digna. Porque há os que se contentam com o pouco que conseguem espremer da miséria, e há os que querem lutar por um mundo em que ninguém passe por humilhação, sofrimento, exploração; e, por esta causa, estão dispostos a abrir mão de ganhos individuais.

Camila, como o gari que hoje ouvimos, era uma dessas pessoas. Há quem tenha lido montanhas de livros marxistas, mas que não tem um grama dessa coragem, dessa disposição de lutar. Esses, nunca serão revolucionários. Os revolucionários são os que colocam em prática aquilo em que acreditam, e que, tendo lido apenas um panfleto, ou ouvido de orelhada qualquer coisa sobre a luta, transformam aquilo em combustível para combater, em argumentos para motivas seus companheiros de classe ou para jogar na cara do patrão e do burocrata sindical. A mulher que amei foi uma pessoa assim: ela lutou, a cada dia, para viver; e viveu, a cada dia, para lutar contra essa sociedade miserável. Nem todas as lutas vencemos. Nós todos, eu, ela, sua família, seus amigos, seus camaradas, perdemos essa luta que era a sua vida cedo demais. Com apenas vinte e seis anos perdemos uma grande guerreira, uma verdadeira revolucionária, que via a vida com os olhos dos que sofrem e que dariam tudo, tudo o que têm, sem hesitar um segundo, para mudar esse mundo, não para si, mas para todos.

Neste dia de luta, cami, não a esqueci. Como nunca a esqueço em nenhum dia, independente de como ele seja. Me alegro, no entanto, mesmo entre as lágrimas de saudades, de saber que o dia em que completa dois anos de sua partida, foi um dia de celebrar as lutas e de colocá-las em prática. Não há homenagem melhor para você.


sexta-feira, março 28, 2014

O patriarcado é um estupro à humanidade



Sei que não foram poucos os que, como eu, ficaram enojados, revoltados e tristes demais ao ver hoje estampada nos jornais a divulgação dos resultados da pesquisa do IPEA que, entre outras atrocidades, afirmava que a maior parte da população brasileira (65%) acredita que se uma mulher está usando uma roupa que mostra o corpo, ela "merece ser atacada", ou que "se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros", ou ainda que as mulheres casadas devem satisfazer seus maridos na cama, com ou sem vontade (27%, ou 38,5% se incluirmos os que concordam "parcialmente"), ou que existe "mulher para casar" (54,9%).

São resultados escandalosos, que atestam o que qualquer um que preste atenção na realidade ao seu redor pode facilmente verificar: vivemos em uma sociedade incrivelmente machista, em que as mulheres estão constantemente submetidas a diversas ameaças e abusos: agressões físicas, estupros, humilhações, abusos verbais, salários menores, mortes por abortos clandestinos, assédios morais, sexuais, constrangimentos de todo tipo. 

As agressões costumam ocorrer em casa: pais, padrastos, irmãos, cunhados, esposos, namorados... acontecem aí porque as mulheres são consideradas "propriedade" dos homens; porque se ensina, para homens e mulheres, desde a mais tenra idade, que as mulheres tem que aprender seu lugar, serem comportadas, obedientes, responsáveis, fiéis, companheiras, carinhosas, submissas.



As mulheres são menos gente - é isso que nos ensinam. E o mais assombroso é que inclusive as mulheres aprendem e reproduzem isto. 

Diante disso, penso na reação que muitas pessoas que conheço terão - partindo da noção de que a maior parte delas faz parte dos que não concordam com tais afirmações. Muitas se sentirão desiludidas, decepcionadas, céticas: a humanidade não presta, não tem jeito, foda-se tudo; outras dirão que é necessário "cortar o pinto" de todo mundo que concorda com as afirmações (como cortarão o pinto das mulheres, que são 66% dos que responderam a pesquisa?). Outras, ainda, dirão que é necessário fortalecer o "empoderamento" das mulheres, conquistando mais "mulheres no poder" como Dilma ou Bachelet.

Realmente, à primeira vista é mais do que compreensível que dê um baita desânimo... sei que muita gente olharia pra mim e diria: "olha só, você que é comunista, que fala em revolução da classe trabalhadora, mas então: não são estes os trabalhadores, são eles que responderam a pesquisa. Aliás, a pesquisa aponta que conforme sobe o nível de escolaridade, diminuem estas posições - portanto, são os trabalhadores que mais concordam com isso. Viu só," - dirá esta pessoa, ainda por cima acreditando que sou eu que me acho "iluminado" - "sua ideia é ingênua: nenhuma revolução de trabalhadores pode combater o machismo".

Sim, é verdade: a classe operária é profundamente machista. Pudera: são eles as principais vítimas de todo tipo de ideologia burguesa. A própria pesquisa aponta o efeito disso: "Por trás das afirmações, apontam os pesquisadores, está a ideia de que a mulher somente pode encontrar a plenitude em uma relação estável com um homem – ou que deve ser recatada sem almejar uma vida de solteira com muitos parceiros. Essa ideia, segundo o estudo, tem influência marcante da religião: católicos têm chances 1,5 vez maior de concordar com a afirmação de que toda mulher sonha em casar, e os evangélicos, 1,8." E não é, desde sempre, a religião a principal forma ideológica de dominação?

A pesquisa, na verdade, aponta para a correção das ideias marxistas; foi Marx que disse que "as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias de sua classe dominante". Pois bem: o resultado desta pesquisa é o resultado do lixo ideológico que é enfiado dia e noite na cabeça de todos, e é feito assim porque assim convém que seja feito pela burguesia - inclusive e sobretudo pelas "mulheres empoderadas" como Dilma, Bachelet, Merkel...

Metade da humanidade com salários rebaixados, fazendo trabalhos domésticos não remunerados, submetida e subjulgada e, portanto, mais facilmente dominável, explorável. Isso é a felicidade da burguesia, tudo o que ela precisa. As mulheres, objetificadas, são sua "prenda" para quem faz seu serviço sujo: para a polícia que estupra nas favelas, nos "pinheirinhos"; para as tropas de ocupação nos "Haitis"; para seus exércitos imperialistas que impõem sua vontade em todos os cantos. As mulheres são o "belo ornamento" na casa de um burguês, e a mão de obra gratuita na casa do operário. E a violência - quando não basta o convencimento - é a melhor forma de tentar mantê-las caladas.



O que esta pesquisa mostra é que, sim, precisamos de uma revolução que vire este mundo de cabeça para baixo. O que ela mostra, também, é que tomar o poder das mãos da burguesia não basta - isso é só o começo da mudança. É a partir de tomar o poder que efetivamente poderemos fazer as primeiras mudanças mais drásticas na vida das mulheres, colocando o Estado operário para garantir cada direito que hoje o capitalismo lhes nega; para educar as massas com valores radicalmente distintos do que hoje lhes ensinam as Igrejas, a televisão, a escola capitalista. Se fosse possível mudar radicalmente o que todos pensam sem tomar o poder, então poderíamos ser todos professores ou pregadores. Não: precisamos desde hoje ter uma vanguarda consciente da necessidade de lutar pela emancipação da humanidade; mulheres à frente, homens ombro a ombro, combatendo todo tipo de opressão e machismo. Nenhum ser humano é verdadeiramente livre enquanto outro é oprimido. E não há como mudar a mentalidade de uma sociedade de conjunto se todos os meios de produção, reprodução, divulgação de ideias estão nas mãos de uma classe cujo interesse é perpetuar a opressão, pois isto lhe garante manter o poder e seus lucros.

O que estou falando não é um mero exercício de imaginação. Aliás, aproveitando, convido a conhecerem um extraordinário livro que fala sobre a experiência mais avançada de emancipação das mulheres em uma sociedade, que se deu justamente na criação do primeiro Estado operário do mundo - a Rússia pós revolução bolchevique. Tive a oportunidade de ajudar com a tradução deste livro, que lançaremos em breve. Haverá debates em Minas, Rio e São Paulo com sua autora, que pesquisou profundamente os arquivos soviétivos e analisou em extensão a experiência de centenas de mulheres e a forma como o estado soviétido abordava questões como o divórcio, aborto, pensão alimentícia, emprego feminino etc. Este livro dá uma vaga ideia do tipo de transformação social que pode ocorrer na vida das mulheres se a luta por sua emancipação estiver atrelada à única via que pode abrir o caminho para sua libertação plena: a revolução socialista.



Para concluir, deixo aqui um trecho de uma biografia de John Reed - autor que pesquiso em meu mestrado - que relata um depoimento que estava sendo feito a uma comissão formada pelo Senado dos EUA, em 1919, cuja finalidade era investigar a "terrível" influência dos bolcheviques no país:

"Quais são as formas e requerimentos para casamentos e divórcios sob o governo soviético na Rússia?", perguntou o Major Humes.

"Uma simples declaração perante o comissário apropriado de que querem se casar ou de que querem se divorciar."

"Eles têm quantas esposas quiserem?"

"De forma rotativa," respondeu Stevenson.

"A poligamia é reconhecida?" Insistiu Humes.

Stevenson esquivou-se. "Eu não sei a respeito de poligamia. Não estudei tão a fundo sua sociedade."

Nelson, sempre um pouco lento mas enormemente persistente, não deixou a questão sumir. "Isto é," ele disse, "um homem pode se casar e então se divorciar quando estiver cansado e então tomar outra esposa?"

"Precisamente."

"E seguir com esta operação?"

"Sim."

"Você sabe se eles ensinam amor livre?" perguntou Overman.

"Eles ensinam," assegurou Stevenson.

Este absurdo interrogatório ocorreu, e foi retirado das atas do senado americano. Deixo, em resposta a ele, um texto escrito 71 anos antes, por Karl Marx e Friederich Engels:

Mas vós, comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres, grita-nos toda a burguesia em coro.

O burguês vê na mulher um mero instrumento de produção. Ouve dizer que os instrumentos de produção devem ser explorados comunitariamente, e naturalmente não pode pensar senão que a comunidade virá igualmente a ser o destino das mulheres.

Não suspeita que se trata precisamente de suprimir a posição das mulheres como meros instrumentos de produção.

De resto, não há nada mais ridículo do que a moralíssima indignação dos nossos burgueses acerca da pretensa comunidade oficial de mulheres dos comunistas. Os comunistas não precisam de introduzir a comunidade de mulheres; ela existiu quase sempre.

Os nossos burgueses, não contentes com o facto de que as mulheres e as filhas dos seus proletários estão à sua disposição, para nem sequer falar da prostituição oficial, acham um prazer capital em seduzir as esposas uns dos outros.

O casamento burguês é na realidade a comunidade das esposas. Quando muito poder-se-ia censurar aos comunistas quererem introduzir uma comunidade de mulheres franca, oficial, onde há uma hipocritamente escondida. É de resto evidente que com a supressão das relações de produção actuais desaparece também a comunidade de mulheres que dela decorre, ou seja, a prostituição oficial e não oficial.


sábado, março 08, 2014

Greve dos garis: um exemplo que vai fazer história!

Os proletários não têm nada a perder 
a não ser as suas correntes. 
Têm um mundo inteiro a ganhar.

- Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto do Partido Comunista

Os que mais sofreram com o velho são os que lutarão
 com mais empenho e abnegação pelo novo.

- Leon Trotsky.



Olho as fotos das manifestações dos garis no Rio e penso: nunca em minha vida vi uma foto no Brasil com tantos negros juntos. A manifestação parecia uma insurgência de escravos insurretos transportada diretamente para as ruas do Rio. E eles, alcançando a herança de seus ancestrais que colocaram de pé os quilombos e assassinaram senhores de escravo, cantavam "chega de escravidão!".

Não é para menos: fazendo um trabalho dos mais duros, recebiam um salário de 800 reais. Seus relatos das condições de trabalho são assustadores: baratas encontradas no pão do "cafézinho", banheiros insalubres, todo tipo de condição degradante e absurda. Eles disseram chega.

Seu espírito ao tomar as ruas era o de uma nova época, uma que a minha geração não testemunhara ainda. Era a força de trabalhadores que acreditam na sua capacidade de lutar e de vencer. De gente que não se cala diante de um prefeito, da mídia, de um sindicato pelego, de ameaças e demissões. De gente que não tem medo de lutar, porque sabe que só tem a ganhar levando até o fim o seu combate.



Eles venceram, depois de apenas oito dias de greve, ficou claro para o governo que não havia como sustentar seu combate. As mentiras, as ameaças, as ilegalidades não foram suficientes. Cada passo da luta dos garis foi correto para levá-los à vitória.

Não se dobraram diante de seu sindicato, dirigido não por trabalhadores, mas por parasitas que sobrevivem às custas do imposto sindical e se alimentam da miséria dos trabalhadores, do sangue e suor de cada um que passa os dias limpando as ruas de sol a sol. Estes burocratas já não sabem o que é pegar uma vassoura. Do que eles entendem, é de reuniões a portas fechadas com os patrões, com cafezinhos, tapinhas nas costas, sorrisos, palavras amigáveis. Estes burocratas, acostumados a seu longo reinado, não sonhariam com o que esperava eles neste carnaval. E, por isto, cumpriram seu roteiro de todos os anos: um acordinho ridículo, mal disfarçado sob o nome de "luta" em seu site ou em algum boletim qualquer. Pronto: os trabalhadores voltariam a seu lugar - explorados, oprimidos, calados, varrendo as ruas. E eles poderiam voltar à sua mamata de cada dia, vivendo com um salário dezenas de vezes maior do que o de qualquer gari. 

Sua arrogância era tanta, que quando chamaram uma assembleia pelas suas costas, os parasitas do sindicato não sentiram necessidade de comparecer. Sem seus recursos materiais e sua "legitimidade" de direção, não sairia qualquer assembleia. Mas saiu. "Tudo bem", pensaram os parasitas. "Fechamos aqui um acordo com o governo e o patrão, e amanhã tá todo mundo de volta às vassouras." Nada disso: os garis foram à greve e não reconheceram a negociação fajuta dos burocratas. Esta foi a primeira vitória dos garis: mesmo que sua greve não conquistasse nenhuma das demandas econômicas, ao passar por cima destes vendidos eles mostraram que era sujeitos de sua própria luta. Eram ELES, os garis organizados em suas assembleias, quem diziam o que queriam.



Foram às ruas, em pleno carnaval. Sua tática de aproveitar um dos feriados que enche o Rio de turistas e volta os olhos do mundo para a cidade foi impecável: mostraram com isso que sabem o exato objetivo de uma greve - golpear os patrões onde mais lhe dói, mostrar ao máximo como sem os trabalhadores eles não são nada, não podem nada. O prefeito, desesperado, procura seus aliados mais importantes: a polícia e a imprensa. Bota a guarda para vigiar trabalhadores e ajudar a direção da empresa a assediá-los. Como nos tempos da chibata e do pelourinho, a Comlurb e Eduardo Paes querem colocar os trabalhadores negros para serví-los submetendo-os pela força física. Mas a greve não para. A imprensa mostra as ruas sujas, diz que não há greve, dá toda a voz à empresa, ao prefeito, ao sindicato; e nenhum espaço para os garis falarem de suas condições de trabalho degradantes, de seu salário de fome.


Eles não se intimidam. Desde o começo, nossa pequena organização se colocou a tarefa que qualquer revolucionário digno deste nome se colocaria: estar ombro a ombro com os garis nesta luta. Nossos camaradas no Rio tiveram o privilégio de aprender a cada dia a lição destes trabalhadores que, sem nenhuma organização prévia ou apoio, ousou enfrentar o mundo. Nós, aqui em São Paulo, mesmo não podendo estar presentes fisicamente, nos apaixonamos por esta luta desde o primeiro momento. E procuramos todas as formas a nosso alcance para ajudar. Divulgação na internet para quebrar o cerco da mídia, organizamos manifestações de solidariedade primeiro em nossos locais de trabalho e estudo. Pouca coisa, muito simples, mas o que estava a nossa mão: fotos com cartazes em apoio à greve. Na USP, no Metrô, nas escolas onde lecionamos. E, mesmo com poucas forças, deu resultado. Nossa manifestação apareceu no Estadão, no UOL e em outros meios. Fomos além e organizamos atos de rua em Campinas e São Paulo, fechando por alguns momentos a Avenida Paulista com pouco mais de cinquenta pessoas.

Trabalhadores da manutenção do metrô de SP em apoio à greve dos garis
Uma das coisas que temos em comum com estes garis, cuja luta tomamos com todas as nossas forças para nós mesmos, é a ousadia; saber que o maior erro que podemos cometer é subestimar nossas forças e dar a vitória para nosso inimigo de antemão, sem sequer lutar. Podemos, e frequentemente vamos, sair derrotados das lutas. Mas aprendemos e nos fortalecemos com cada combate, e mesmo nas quedas que sofremos. A esquerda brasileira não sabe desta lição; e por isto, sem acreditar na possibilidade dos garis lutarem, ousarem, enfrentarem o mundo, foram tranquilamente pular seu carnaval. O apoio poderia ser outro se organizações muito maiores que as nossas, como PSOL e PSTU, colocassem desde o dia 1 de março suas forças para fazer medidas de solidariedades como estas. Não importa. Não era isto que impediria que lutássemos, e muitíssimo menos que os garis saíssem às ruas, enfrentando todas as probabilidades de uma derrota.



E o governo estava disposto a impor esta derrota a todo custo: assim, demitiu por cartas e mensagens de texto no celular mil trabalhadores, dizendo que os substituiria. O governo e os patrões, quando o calo aperta, não têm medo de passar por cima das leis que eles mesmos fazem, como o direito constitucional de greve. Sabem que os juízes jogam no seu time. E sabem que a demissão de um afeta todos os trabalhadores, com medo de perderem seu emprego.

A segunda vitória fundamental da greve dos garis foi esta: não abaixar a cabeça diante de todos os ataques de seus inimigos. Saber que, se o cerco aperta, é necessário fortalecer as posições, procurar mais aliados, e seguir o combate se houver forças para tanto. Seguiram em luta. Começaram a furar o cerco e ganhar o apoio de diversos setores da população. Quando terminou o carnaval, a esquerda "de férias" voltou para a realidade e viu que esta greve era pra valer, e que era necessário apoiá-la. Ainda que o tenham feito de forma rotineira, como quem cumpre um velho calendário gasto, este apoio ajudou também.

Os garis não se dobraram. Estavam dispostos a lutar até o fim. Como os negros insurretos do Quilombo dos Palmares, que resistiu até a última gota de sangue contra a escravidão, e lutou quando já não havia esperança de vitória. Porque, uma vez que se sente o gosto de liberdade, de ser sujeito de sua própria história, já não se quer mais voltar atrás. E este sentimento, que cala fundo no peito de um trabalhador que toma consciência de que é ele quem bota este mundo pra funcionar, faz com que entendamos que frequentemente é melhor ser derrotado com a cabeça erguida do que seguir olhando para baixo. 

Esta determinação é que fez o que parecia impossível a apenas oito dias: os garis derrotaram a arrogância do prefeito, que publicamente declarava que era um "motim" que seria derrotado a qualquer momento. Conseguiram o aumento de seu salário, de R$800,00 para R$1.100,00, com aumento do ticket refeição de doze para vinte reais. E impuseram que não houvesse nenhuma demissão. Nas matérias na imprensa, se dizia: "garis saem insatisfeitos com o resultado." E é esta a terceira, e a maior vitória desta greve: saber que uma batalha que se vence contra os donos deste mundo é apenas um sinal de que sua dominação se sustenta, antes de mais nada, na mentira de que são invencíveis. Eles não são; e sem os trabalhadores, os patrões não são nada. A vitória dos garis no Rio entrará para a história da luta da classe operária no Brasil como a aurora de um novo despertar de consciência, de uma classe que começa a acordar de um longo e profundo sono, a lentamente tomar consciência de seu poder, de sua capacidade de se organizar e tomar para si a tarefa de se libertar e, junto consigo, libertar o conjunto da humanidade.

Não é nada menos do que isso o legado da greve dos garis do Rio de Janeiro, que transformou este carnaval em um momento para ser lembrado.