quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Exorcismo dos resíduos

Nesta semana comecei algo que há muito tempo adiava, e que provavelmente mudará minha vida bastante. E que, espero, possa ajudar outras pessoas a mudarem as suas. Eu comecei a estudar psicanálise, com o intuito - entre outros - de poder clinicar.

A aula inaugural, dada pela professora Teresa, com experiência de décadas de atendimento no SUS, me fez pensar muito sobre esta decisão e este mundo no qual me proponho a ajudar as pessoas a conhecerem e melhorarem seu sofrimento psíquico. Ela, que hoje trabalha no projeto "Braços Abertos" da prefeitura, falou muito sobre como é tentar ajudar as pessoas a partir das instituições públicas.

No começo da década passada, houve no Brasil uma reforma psiquiátrica. Algumas práticas medievais foram abolidas, entre elas os hospitais psiquiátricos onde os pacientes ficavam confinados como em presídios, frequentemente submetidos a torturas e maus tratos. Em seu lugar, vieram os CAPS (Centro de Atendimento Psico-Social), que são hospitais-dia. Ou seja, os pacientes não ficam internados, apenas os frequentam durante o dia. Houve inúmeras mudanças no sentido de humanizar o atendimento a pacientes psiquiátricos.

Contudo, o que a fala de Teresa revelou é que tais mudanças foram insuficientes em todos os sentidos. Estas mudanças não afetaram a lógica de um tratamento fundado em uma moral do produtivismo, na qual as pessoas são meramente as portadoras de uma mercadoria imprescindível para o capitalismo: sua força de trabalho. O olhar de nossa sociedade sobre o sofrimento psíquico está fundado neste valor - como colocar as pessoas "em ordem" para que possam novamente trabalhar, produzir, vender seu trabalho.

Claro, Teresa não colocou nestas palavras. Mas ela falou sobre o conflito entre a institucionalidade e o tratamento. Falou sobre os manuais que dizem que os pacientes devem ser acolhidos e tratados deste ou daquele jeito. Falou sobre a necessidade que se cria de distinguir a equipe de saúde (os "normais") dos pacientes (os "malucos") através de diferenças nas roupas, nos banheiros que usam, na comida que comem, nos talheres que usam. A falta de tempo para conhecer, entender, viver as diferenças psíquicas do paciente, passando com ele pelo tempo que seja necessário para que avance de acordo com seu ritmo e sua vivência. Todo este tempo é comprimido pelas regras da normatização da saúde mental, pela psiquiatria que medicaliza tudo de forma pasteurizada, para que os pacientes possam "melhorar logo" para produzir e não ser mais um "peso morto" para a sociedade.

A reforma psiquiátrica, ao mudar tudo externamente para manter a mesma lógica de funcionamento, inverteu o lado do confinamento. Ouvimos nossa professora contar sobre as pessoas que são confinadas do lado de fora do CAPS, como o paciente que, por se comportar de maneira inadequada, podia entrar apenas na hora de sua sessão. Ou outro, que por mais de seis meses vinha, tomando três ônibus, e sentava-se no meio fio, do lado de fora do prédio. E só foi atendido quando um estagiário passou meses a seu lado, do lado de fora do prédio. Ela falou sobre um morador de rua, que cobria-se com papelões, e morava em frente à secretaria de saúde. Confinado nas ruas. Quantos não estão confinados nas ruas? Confinados na solidão? Confinados na invisibilidade?

Teresa falou sobre a extrema especialização do tratamento psíquico, que levou a que, quando ela trabalhava com pacientes soro-positivos (portadores de HIV), se falasse sobre um "perfil dos portadores de HIV", da mesma forma que hoje se fala de um "perfil dos usuários de drogas". Toda a especialização torna-se, assim, uma padronização, que destitui o paciente de suas experiências singulares e trata-o como mais um na fila. Esta ideia da normatização às pressas e a todo custo ficou particularmente evidente quando Teresa falou sobre as entrevistas de triagem, feitas quando o paciente ingressa para seu tratamento no CAPS. O olhar viciado do médico, do psicólogo, passa a pensar, a cada palavra que é dita pela pessoa a sua frente, na única função: "para onde vou encaminhá-lo?". Tratamento de drogas, violência, etc. Cada problema tem um especialista para onde se encaminha o problema adequado à sua formação. Fragmenta-se um psiquismo, enquadra-se ele em um problema a ser resolvido, encaminha-se para o especialista correto. Próximo! Assim se monta o fordismo das patologias psíquicas na saúde pública brasileira.

Uma entrevista de triagem jogou na cara de Teresa o absurdo desta prática. Uma mulher entre e lhe diz que sua família foi vítima de uma chacina. Que chegou em casa, viu seus filhos mortos no chão, o sangue espalhado por todas as paredes. Teresa parou, impactada. Fez ligações, procurou o lugar que melhor poderia tratar aquele caso tão grave, de uma violência tão brutal. Encaminhou-a. Anos depois, ela conta aos novos estudantes de psicanálise esta história. Ela não conta apenas uma, nem duas vezes; a mulher da chacina é uma constante em seu discurso, uma marca permanente da angústia. Por que eu fui incapaz de ouvir a mulher sobre a chacina? Esta pergunta ecoa na cabeça de Teresa há mais de vinte anos. Ela não foi capaz de lidar com o horror desta experiência, era dor demais para ela carregar, ela teve que passar para frente. Mas a verdade é que não pôde: o preço de encaminhar aquela paciente foi levar para sempre sua memória, a memória de uma pessoa com quem conversou uma vez apenas, e a sombra daquele horror tão brutal que havia vivido.

Décadas de atendimento na saúde pública trouxeram a Teresa muitas histórias de dores e sofrimentos. De pessoas que chegavam tão "estropiadas" no hospital, no CAPS, que ela não sabia nem por onde começar. E ela nos falou sobre como os terapeutas levam os resquícios de seus pacientes, de seus sofrimentos, de cada caso que veem. E sobre como ela escreveu sua tese como uma forma de exorcizar estes resquícios, uma sublimação de tanto sofrimento que se acumulava sobre seus ombros. Eu também escrevo para exorcizar meus resíduos. Mas Teresa sabe que isto não é suficiente; e ela fala, a cada vez que fala em público, ela relembra a mulher que lhe contou sobre a família morta na chacina. Um resíduo que ela carrega para sempre.

Isso me fez pensar muito sobre as minhas escolhas. Sobre os resíduos, sobre o sofrimento humano que carregamos nos ombros. O discurso de Teresa falava sobre as instituições, sobre os confinamentos, mas ele passava ao largo da causa estrutural de todos estes males - o mal fundamental que leva a que todas estas estruturas sociais operem assim; o capitalismo. Minha escolha de vida foi por enfrentar o sofrimento humano combatendo aquilo que hoje é sua maior fonte. E por isto decidi ser um revolucionário, para ir à raiz dos sofrimentos deste mundo.

Mas aconteceu disso não me ser suficiente. E fiquei pensando sobre os resíduos que carrego comigo, os resíduos que nunca conseguimos exorcizar. Quando ela falava sobre as instituições e seu funcionamento, eu me lembrava de quando fui a uma. Não era um CAPS, era uma clínica particular, onde fui visitar uma pessoa que amava, e que subitamente descobri internada. As regras, no entanto, não eram menos rígidas por se tratar de uma instituição privada. Não se entrava de celular, não se entrava com livros antes que fossem aprovados para leitura. Os horários de visita, de ligações, de refeições eram estritos. Nenhum tipo de envolvimento amoroso entre pacientes. Nenhum objeto perigoso nos quartos. Tudo sob controle. O controle dá segurança aos pacientes, e é parte do que muitos deles buscam na instituição. As memórias desta instituição me pesam sobre os ombros, um resíduo que não consigo apagar. A musiquinha que tocava ao telefone, que tocou quando liguei lá pela primeira vez, sem saber que ligava para uma clínica psiquiátrica onde minha namorada, cujo paradeiro eu não sabia há um mês, estava internada. Os almoços que passei lá, os rostos dos pacientes, os detalhes daqueles dias em que ia visitá-la.

A vida nos impõe seus caminhos. A decisão que tomei de lutar por um mundo onde se possam superar os sofrimentos não fez com que eles se atenuassem na luta de cada dia. E eu vi o sofrimento, inadiável, iniludível, carregar a Camila para a morte, sem que pudéssemos fazer o suficiente para mantê-la aqui. Sua escolha de vida era a mesma que a minha, era uma revolucionária. Os sofrimentos lhe tocavam profundamente; ela os entendia, porque ela também sofria. Um psicanalista de um livro que li disse que uma das coisas importantes para ser um terapeuta é ter sofrido. Eu acho pertinente esta observação. Cami sempre foi sensível ao sofrimento alheio, e quando ela estava internada eu a vi feliz. Ela sentiu-se em casa, tornou-se amiga de outros pacientes, sentiu em sua vida o sentido de tocar o sofrimento dos outros. Isto, a luta para penetrar o sofrimento psíquico de cada um, somava-se dialeticamente à luta pelo projeto coletivo de acabar com o sofrimento da humanidade. Mas este projeto não se concluiu, sua vida foi breve demais para isto.

Eu levo os resíduos de seu sofrimento comigo. Teresa sempre se perguntará porque teve de encaminhar a mulher cuja família morreu numa chacina. Eu sempre carregarei comigo muitas perguntas e muitas dores da morte da Cami, em quem penso a cada dia de minha vida. A dor que carrego me aproxima do sofrimento humano, me impele, me faz querer ser parte de encarar a dificuldade de socorrer aqueles a quem a institucionalidade capitalista não dará atenção, e sempre confinará - seja nos muros de seus hospitais psiquiátricos, seja para fora de seus CAPS, ou em qualquer outro tipo de marginalidade. Quero ser uma pequena parte da luta por instituições novas, em que a dura e árdua luta de cada dia não nos torne cegos, incapazes de ter tempo e espaço para a dor do próximo. Para que possamos, no decorrer de nossa luta, nos tornarmos mais humanos, mais capazes de solidarizar-nos com a dor alheia, mais capazes de suportar em nossos ombros os resíduos que, enfim, serão também mais uma motivação para lutarmos por um mundo onde se sofra menos.

sábado, fevereiro 15, 2014

O assassinato de Santiago e as saudades do Estado Novo

Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
- Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.

Santiago Andrade: a única morte de um trabalhador que comoveu toda a burguesia do país
Não se fala em outro assunto no país. Não há nada mais importante, mais comovente, mais mobilizador para este Brasil do que um cinegrafista que morreu, vitimado por um rojão. O Jornal Nacional se "comove", a Dilma se "comove". Por que é uma morte que "comove" tanto, se neste país a vida - especificamente a de trabalhadores como Santiago Andrade - é um artigo tão barato? Se somos campeões em mortes por acidente de trabalho, em mortes pela violência policial, e não há toda esta comoção? Onde estava esta comoção quando morreu Douglas em BH, durante protesto na Copa das Confederações, ao tentar fugir das bombas da PM? Ou quando morreu uma gari em Belém por inalar os gases desta polícia? Ou quando foi "suicidado" Kaique? Quando mataram Amarildo? Quando a bala de borracha da PM cegou o repórter Sérgio Silva, e pouco depois o jovem Vitor? Quando morreu atropelado um camelô, no mesmo protesto em que Santiago foi atingido, ao ser atropelado quando fugia das bombas da PM? Quando morrem operários na construção dos estádios da copa? Quando foi baleado Fabrício no ato contra a copa em São Paulo? Quando "justiceiros" amarraram e torturaram um jovem negro a um poste no Rio? Tantas mortes, tanta injustiça, e tão pouca comoção na imprensa e nos governos! De onde ela vem, bem agora?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que este não foi o primeiro assunto que tomou unanimemente os meios de comunicação neste ano. Primeiro foram os rolezinhos, que deixaram a burguesia de cabelo em pé, chegando a pautar uma reunião ministerial extraordinária do governo de Dilma. A pauta do governo, então, era "entender" o que queriam os jovens, enquanto a parte mais reacionária da burguesia pedia sangue, através, por exemplo, de sua mais nova testa-de-ferro, a porta-voz da escandalizada "burguesia socialite", a """""jornalista""""" Rachel Sheherazade. O "entender" do governo quer dizer, na realidade, colocar em prática uma das especialidades do PT: cooptar; ganhar os organizadores dos rolezinhos com cargos e dinheiro, e receber em troca todos os votos que estes podem angariar. E mandaram lá o primeiro escalão do governismo em matéria de cooptação e formação de burocratas juvenis - no caso, o PCdoB, partido que dirige o braço do governo petista no movimento estudantil, a UJS, que implementa sua política através da UNE, financiada com alguns bons milhões de dinheiro do Estado. Só que desta vez o tiro saiu pela culatra... Cooptação ou repressão, são apenas duas formas distintas da burguesia tentar segurar o rojão. A atenção que foi dispensada aos rolezinhos era o prenuncio do pavor da burguesia diante de uma inelutável verdade: este país já não é o mesmo depois do ano passado, e está um bocado mais difícil para os de cima seguirem governando, explorando e oprimindo como antes. Era preciso fazer algo.

Globo dedica um editorial do Jornal Nacional à sua "comoção" pela morte de Santiago

A burguesia tem seus métodos. Cada fração dela tenta agir de uma forma - cooptar, reprimir etc. - para atingir seus fins. E, inclusive, eles se estapeiam pelo poder, como vemos com PT e PSDB, por exemplo. Mas, por instinto de classe, quando o deles está na reta, eles podem se juntar em torno de alguma tática em comum contra seu maior inimigo - os trabalhadores e os explorados. E a morte do cinegrafista da Bandeirantes foi um prato cheio para que uma classe que tem medo do futuro pudesse tentar erguer algumas barricadas ideológicas que protejam sua velha e carcomida dominação. A barricada ideológica consiste em tentar convencer os oprimidos e explorados de que a violência que os ameaça é a dos outros oprimidos e explorados, e não a deles, opressores e exploradores. De que a violência que os ameaça não é o desemprego, os baixos salários, a falta de condições de atendimento nos hospitais, a precariedade das escolas, os ônibus caros e lotados, o metrô-lata-de-sardinha que quebra a cada dia mais, a polícia que mata todo dia na quebrada. A violência que os ameaça é um cara com um rojão, que matou um cinegrafista e pode matar qualquer um. E, veja só, este cara com um rojão não é só um: são milhares! Eles saem às ruas, putos da vida porque enfrentam todos os dias a mesma merda que você passa - transporte lotado, trabalho duro o dia inteiro pra enriquecer o patrão, exploração até arrancar o couro, racismo, machismo, homofobia e uma vida dura - e saem com rojões assassinos que podem acertar qualquer um, inclusive... você! E não para por aí: eles não são amadores - estes assassinos com rojões são recrutados por partidos organizados que os aliciam com 150 reais para que eles saiam matando aleatoriamente. Veja bem, tome cuidado: da próxima vez que você estiver puto com o ônibus caro e lotado, lembre-se que você poderia estar sendo assassinado por um manifestante com um rojão! Melhor agradecer!

E, pra sua sorte, nossos governantes já têm todas as providências prontas para serem tomadas: mais polícia, mais armas, mais leis que qualifiquem as pessoas que saem nas ruas dizendo que o ônibus é uma merda como o que eles realmente são - terroristas! É, isso mesmo: o blogueiro Paulo Henrique Amorim bem que já vinha dizendo que os black blocs eram terroristas. A FIFA e a Dilma bem que já tinham aprovado aquela leizinha esperta para a Copa que garantia que não só estes terroristas, mas também os terroristas trabalhadores que fizessem greve recebessem a sua lição. Agora, é só aprovar mais esta nova lei e o povo trabalhador não vai mais ter o que temer: os vagabundos de rojão vão todos pra cadeia; os que reclamarem de qualquer coisa vão todos para a cadeia. E você, bem, você já pode voltar pra sua vida tranquila e segura: um salário que não chega até o fim do mês, um emprego que você não sabe até quando vai ter, um busão caro onde você vai e volta esmagado por três horas, uma polícia que pode te matar ou te descer o cacete porque você é preto e pobre. Ufa! Não tem mais nada a temer!

Então, vamos lá, repetir algumas coisas que já estão aí sendo ditas por muita gente, mas infelizmente é muita gente que não tem nem a Rede Globo, nem a Folha de São Paulo pra dizer estas coisas, então é bem possível que você ou as pessoas que você conhece ainda não tenham ouvido porque suas vozes não chegam muito longe (como a deste precário blog). Primeiro: você já viu o vídeo do cara que soltou o rojão e comparou bem de pertinho com a foto do cara que foi preso na Bahia? Ok, pode ser que ele tenha se bronzeado bastante, mudado de cabelo, colocado um óculos, sei lá... as pessoas mudam, né? Tá, então vamos para outra coisa: você sabe quem é o advogado que está defendendo eles? É um cara que defende pessoas ligadas às milícias no Rio de Janeiro. Sim, as mílicias, sabe, aqueles grupos formados por policiais que dominam territórios na cidade onde controlam o tráfico, cobram "proteção" das pessoas, regem bairros e favelas inteiras com métodos do fascismo. Bom, e como este cara que defende grupos de extrema direita formados por policiais foi defender manifestantes que estavam em um ato de esquerda? Pelo "amor ao trabalho", diz ele. Que bonito, né? Outra coisa: o primeiro cara preso, que entregou seu colega a quem deu o rojão, tem o mesmo advogado do outro. Você não acha esquisito? Um cara é preso, seu advogado diz pra ele assim: "entrega seu amigo que eles aliviam pra você". Tá, o cara vai lá e entrega. O outro é preso e fala "bom, aquele advogado que falou pro meu amigo me entregar pra polícia parece um cara gente fina. Acho que vou querer que ele me defenda também." Em seguida, vem um monte de declarações bombásticas, uma mais ridícula que a outra: que eles são envolvidos com o deputado Marcelo Freixo do PSOL. Olha, eu não tenho lá muita afinidade política com o Freixo, mas posso te dizer que ele é bem conhecido por... combater as milícias no Rio! Coincidência, né? Depois dizem que os manifestantes recebem 150 reais para "quebrar tudo". Isso já ultrapassa o limite do ridículo. Qual o sentido de pagar alguém para ir a um ato quebrar tudo? O que um partido ganha com isso? Acusam os partidos legalizados que participam das manifestações, PSOL e PSTU, de "comprar" manifestantes. A troco de quê? Quem comprou? Será, pense você, que o advogado dos milicianos - cujo principal adversário político neste momento é o Freixo - não poderia, por acaso, orientar seus "clientes" a dizer que eles foram aliciados para que a pena sobre eles fosse mais branda? Eu vou a manifestações há pelo menos dez anos, eu conheço muito bem PSOL e PSTU porque eles são meus principais adversários políticos todos os dias na universidade e fora dela há um bom tempo. Eu sei muito bem os podres que são capazes de fazer. E, acredite, não só eles não pagariam a ninguém pra ir na manifestação, como se o fizessem não faria sentido algum. Será que é tão difícil acreditar que as pessoas saem às ruas porque elas acreditam em algo? Por que querem mudar este mundo de merda?

Mas esta historinha da carochinha, bem mal contadinha mas mesmo assim reproduzida como verdade em cada jornal e canal de televisão deste país - devidamente acompanhada por um montão de lágrimas de crocodilo pela morte de um trabalhador que não ganhou sequer o mínimo de segurança para trabalhar por parte de seus patrões - me lembrou de uma outra historinha parecida, de tão mal contada, e com uma solução já prontinha também. Foi em 1937. Nosso querido presidente da república, o "pai dos pobres", Getúlio Vargas "descobriu" um plano dos comunistas para... dominar o país! Veja só, este plano da Internacional Comunista (sic!) previa incendiar prédios públicos (será que eles usariam rojões?), saques, destruição, sequestro de governantes e figuras importantes, enfim, transformar o país num caos! Era o Plano Cohen, vindo de Moscou para aterrorizar a população de bem. Mas, ainda bem, o "pai dos pobres" tinha a solução para isso: uma leve ditadurazinha, com suspensão dos direitos civis, das eleições, uma constituição nova feita a gosto do ditador. Houve quem não gostasse, claro, sempre há os que querem baderna. Mas os integralistas, por exemplo, foram imediatamente fazer uma manifestação para apoiar o Vargas. Felizmente, triunfou a ordem, e a ditadura do Estado Novo de Vargas foi até 1945, tranquilamente prendendo, torturando e assassinando comunistas, operários, enfim, todos aqueles que não concordassem que o país ia muito bem, como, aliás, vai até hoje. Em 1945 o general Goes Monteiro revelou publicamente que o plano Cohen era uma farsa, (Uau! Quem diria!!!) montada pelo governo para justificar sua ditadura.

E, ainda bem, hoje também podemos contar com a eficácia da polícia civil, que concluiu a investigação em tempo recorde. Podemos contar com a confissão destes marginais - devidamente assessorados por seu advogado defensor de milicianos e amante de seu trabalho - que acabaram nos revelando que por trás de toda esta baderna estão os terríveis comunistas (nossa, mas eles não cansam?). E ainda bem que, como nos anos 30, a solução já está pronta, na forma de uma maravilhosa lei contra o terrorismo. Tudo o que cabe a nós, cidadãos de bem, é apoiar nossos governantes neste decidido combate aos maus elementos da nação! Tudo pelo progresso e contra os vândalos!


sábado, fevereiro 08, 2014

Militantes (para você que não me respondeu)

O partido exige-nos uma entrega total e completa. 
Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; 
para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido 
significa encontrar a si mesmo.  Sim, nosso partido nos toma por inteiro. 
Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar 
da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas 
uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão.

- Leon Trotsky, discurso de fundação da IV Internacional, 1938

Os homens fazem a sua própria história, 
mas não a fazem como querem, 
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha
 e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,
 legadas e transmitidas pelo passado.

- Karl Marx, O dezoito de Brumário de Luis Bonaparte, 1852

Me convenci de que o socialismo não só era possível, mas também necessário, há dez anos. Contudo, demorei ainda mais cinco nos para chegar à conclusão de que não basta querer o socialismo e defendê-lo em minhas atitudes individuais ou minhas ideias - é necessário ter uma estratégia fundada na teoria e provada na realidade para que possamos chegar nele, e fazer de cada dia uma escrupulosa batalha para que possamos traduzir esta estratégia em táticas, em ações feitas em função de um plano maior, para que consigamos derrubar um inimigo que é imenso, e que não vai ceder sem dar todas as suas forças para resistir à queda.

Não fui eu, nem muito menos a organização na qual milito que inventamos a estratégia que adotamos nesta guerra. Na verdade, não foi nenhuma mulher ou homem isoladamente. Esta estratégia é, ela mesma, o fruto da luta de milhões de trabalhadores, explorados, lutadores, que deram suas vidas em combate contra o capital. Há, dentre estes, alguns que tiveram a oportunidade de poder sintetizar com grande sucesso os erros e acertos, a teoria e a estratégia que pode nos ajudar a avançar. Dentre estes não podemos esquecer os nomes de Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Rosa. Todos estes, em maior ou menor grau, passaram apuros e sofreram riscos e privações para poder nos legar este conhecimento, esta luta. Trotsky e Rosa foram assassinados por gente que não matou apenas a eles, mas também estrangulou os partidos que ajudaram a construir com a militância de suas vidas. Marx viu sua filha morrer de fome; Lenin viveu na clandestinidade e sofreu um atentado que quase o matou. São esforços e privações que estão muito além do que hoje sofremos.

Nem por isto tornar-se um revolucionário hoje é uma tarefa fácil.Quando pela primeira vez tomei contato com a organização na qual eu milito hoje, a Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional, nem me passava pela cabeça a ideia de dedicar minha vida à construção de um partido revolucionário, não só no Brasil, mas em escala mundial. Me parecia, como ainda parece à maioria da humanidade hoje, uma ideia absurda, maluca, completamente desprovida de inteligência ou de entendimento sobre a realidade. Era um punhado de gente - literalmente um punhado - a maioria alguns estudantes de origem pequeno-burguesa, que se propunha a nada menos do que derrubar o Estado e instaurar uma ditadura da classe trabalhadora. "Que viagem!", pensava eu.

Eu não vou me propor aqui a tentar explicar para ninguém porque esta ideia não me parece mais absurda, porque não tenho a pretensão de convencer alguém em um post de blog: a mim, foram necessários cinco anos para que me convencesse. E não foram poucos destes que hoje chamo de camaradas - alguns que infelizmente já não estão mais em nossas fileiras - que conversaram comigo pacientemente. Mas não foram apenas eles que me convenceram: foi principalmente o fato de que eventualmente tive a humildade de admitir para mim mesmo que eu não sabia nada da história da luta da classe trabalhadora, e que tudo o que eu repetia como um papagaio era fundado em duas coisas - a primeira, como já disse acima, no aparente absurdo da ideia que eles propunham. A segunda, em repetir os preconceitos e falsas verdades que haviam me enfiado goela abaixo sem que eu nem percebesse.

E eu li, li, e li. Procurei ler aqueles que estiveram nas revoluções, que participaram e escreveram sobre elas. Li os anarquistas, e descobri uma carência de fundamentos teóricos que levaram a práticas trágicas. Li John Reed e descobri que antes disso nada sabia sobre os dez dias que abalaram o mundo, ou sobre quem era e o que faziam aqueles que se denominavam bolcheviques. Mas não me contentei com esta versão apenas e fui ler o que diziam os inimigos dos trabalhadores: li mais de mil páginas do historiador liberal inglês Orlando Figes, que procura sustentar - através de uma minuciosa pesquisa extremamente bem documentada - a posição de que os bolcheviques eram assassinos sanguinários. Li as polêmicas de Marx e Bakunin, de Rosa e Bernstein, de Lenin e os mencheviques, de Trotsky e os stalinistas, e também com os liberais. Li os autonomistas: John Holloway e sua teoria de mudar o mundo sem tomar o poder; Hakim Bey e suas zonas autônomas; Cornelius Castoriadis e sua crítica quase metafísica ao trotskismo. Li Malatesta, Kropotkin, Maurício Tragtenberg., Makhno, Victor Serge. E li ainda muito pouco.

E, ainda sim, a leitura não foi tudo o que bastou para me convencer. Uma das coisas que aprendi lendo - e depois fazendo - com Marx, foi que a prática é o critério da verdade. E que podemos ler uma montanha de coisas e isto não torna nossa prática revolucionária. Mas ao longo dos anos conheci a prática de muitas correntes que se propõem a atuar na realidade para transformá-la. Nunca tive o espírito diletante, antes peco pelo contrário, fazendo antes de pensar o suficiente. E foi assim que comecei a ser um ativista, em 2004, entrando de cabeça em uma greve que em um mês foi capaz de limpar da minha cabeça uma porção do lixo que dezenove anos de liberalismo burguês haviam enfiado e marcado na minha concepção de mundo. O que ficou, no entanto, foi suficiente para me afastar do marxismo e me jogar em uma agrupação populista semi-autonomista, o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL). Nesta agrupação, acompanhei com desconfiança o processo de fundação do PSOL. Fui vendo, ao longo dos anos, a tragédia do PT - um partido feito por trabalhadores em luta contra a ditadura que foi traído por um punhado de burocratas social-democratas - ser repetida na farsa do PSOL - um pequeno racha daquele dirigido por parlamentares que repetiam sua estratégia de "socialismo" parlamentar. Vi a sua messiânica Heloísa Helena defender leis que atacavam os trabalhadores, militar ao lado da Igreja contra o direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo, e em seguida abandonar o barco porque ela perdia seu espaço de caudilha dentro dele e procurava ventos mais à direita. Mas, muito antes que tudo isto se concretizasse, já tinha abandonado os companheiros do MTL em seu projeto fracassado ao sentir que não era este o caminho.

O lixo burguês que me foi enfiado na cabeça, como falei, não se dissipou todo de uma vez - nem se dissipará por inteiro enquanto eu viver, afinal, não posso ser uma pessoa que não pertence a seu tempo. Uma das piores heranças desta porcaria ideológica era o individualismo, a ideia de que somos algo tão especial que imaginar que alguém possa ter algum tipo de autoridade sobre você é uma aberração. É a individualidade mais burguesa que se possa imaginar, a ideia da auto-suficiência. E foi vítima dela que virei um anarquista e fui militar no Movimento Passe-Livre, onde tudo se decidia por consenso e imperava a mentira de que não há dirigentes (cujo resultado é criar pequenos burocratas que dirigem sem serem legitimados pelo coletivo). A esta ideia do "indivíduo livre" somavam-se outros preconceitos que me colocaram lá: de que os partidos inibem a criatividade, a individualidade, transformam seus adeptos em repetidores de palavras dos dirigentes, sem espírito crítico ou capacidade de pensarem por si próprios. Esta ideia é ima gêmea daquela da individualidade "a todo custo", e que remete profundamente às ideias que os românticos - primeiros artistas da época burguesa - criaram lá no século XVIII e XIX.

Mas a realidade é persistente, e foi me mostrando o quão mesquinha era este tipo de militância, e que tinha em si a mesma prepotência que eu carregava quando era um adolescente petista: substitui a história por mistificações e preconceitos - quem diria, burgueses. Foi mais um ano ali para que eu aprendesse isto. E depois, quantas experiências me foram necessárias: a luta em solidariedade ao povo de Oaxaca, que numa pobre província do México conseguiu se organizar para derrubar seu governo, tomar as emissoras de televisão e criar seu governo próprio, dirigido por organizações sindicais e populares. A esquerda brasileira, por incrível que pareça, parecia um túmulo: ninguém falava disto. Os sindicatos dirigidos pelo PSTU calavam; os parlamentares do PSOL calavam. Apenas um pequenino grupo, quase inexistente, colocou suas pequenas forças para fazer de tudo o que pudesse para apoiar aquela luta. E eu me juntei a eles. Era a LER-QI. Depois, em 2007, a greve da USP me mostrou na prática como se portavam os "libertários" autonomistas que dirigiam tudo como um punhado de "burocratinhas mirins". E a realidade me ensinou a necessidade da auto-organização, tal como eu lera nos escritos sobre a revolução russa. E, naquele momento, apenas uma pequenina organização - quase sem influência na greve - defendia esta importante tradição. Esta era a LER-QI.

Foram anos que me mostraram como a teoria e a prática distintas, revolucionárias, se fundiam, não sem erros - e muitos! - em uma das organizações políticas que conheci. E, quem diria, era uma organização pequenina, cheia de estudantes e ainda engatinhando para ter trabalhadores em suas fileiras. Fruto de uma expulsão do PSTU em 2000, que, juntando-se à tradição de camaradas argentinos do PTS, fundaram em apenas cinco pessoas esta organização. Sim, era penosa a escolha de militar em uma organização tão pequena. Mas não era por acaso que era numa organização tão pequena se expressava o melhor da tradição revolucionária, e olha que eu não estava em qualquer lugar deste país tão grande: eu estava na USP, um lugar bastante propenso a servir de ninho para organizações de esquerda. A tradição do trotskismo principista, que representa em nossa época a continuidade dos melhores ensinamentos de séculos de luta da classe operária e dos explorados de todo mundo, teve que nos ser importada da Argentina, e coube a este punhado de cinco camaradas, que não se intimidaram diante da absurda dificuldade de sua tarefa, tentar transformar estas ideias em força material. E, como disse Brandão, um dos fundadores deste grupo, no recente encontro de trabalhadores que fizemos e que reuniu 800 pessoas, se em doze anos aqueles cinco puderam chegar a estes 800, podemos fazer em muito menos tempo que estes 800 possam ser milhares.

Não, eu não queria ter que partir de tão longe, mas os homens não fazem a história como querem, mas sim como lhes foi dado fazer a partir da herança do passado. O passado recente é de derrotas colossais da classe trabalhadora. Por isto partimos de tão longe. E isto, sim, implica em sacrifícios. Não como os daqueles que foram assassinados ou viveram na clandestinidade. Pelo menos ainda não. Mas queremos preparar mulheres e homens à altura deste tipo de tarefa, deste tipo de sacrifício. Pessoas que tenham a consciência de que nosso sacrifício pessoal, ou daqueles que amamos, é um preço pequeno a se pagar por uma esperança que seja de emancipar a humanidade desta espessa camada de miséria que a cobre. Miséria material, moral, espiritual, intelectual, física. Uma miséria que as futuras gerações não merecem, como nós não teríamos merecido.

E, sim, às vezes abrimos mão de nossos fins de semana; pode até ser, em alguns casos, de quatro domingos por mês. Temos que construir bases materiais para nossa militância, formas de divulgar nossas ideias. A burguesia tem o mundo à sua disposição: as televisões, os provedores de internet, a posse das redes sociais, os jornais, as imprensas, as escolas, as igrejas...enfim, tudo. Nós, com muito custo, com uma parte do salário de cada um de nossos militantes, conseguimos colocar de pé nossas casas socialistas, onde fazemos reuniões, palestras, debates, cursos, festas. Conseguimos, com muito suor, manter um site, alguns blogs (como este), nosso jornal, que levamos e tentamos vender àqueles em que temos a confiança de que podem estar ao nosso lado para defender estas ideias. Estes jornais, quando os vendemos, não tiramos lucro algum dele; pelo contrário: é nossa contribuição financeira voluntária que é capaz de fazer com que estas ideias se materializem em papel, que levamos clandestinamente para vender nas fábricas, que vendemos aos nossos contatos nas universidades, escolas, locais de trabalho. Nossos militantes passam madrugadas em claro, entre um dia de trabalho e outro, para poder diagramar, escrever, revisar este jornal. Ele é, para nós, com todas as suas debilidades, um motivo de orgulho. E nos orgulhamos de levá-lo embaixo do braço para vender àqueles em que confiamos que poderemos discutir estas ideias.

Discutimos, pacientemente, com cada pessoa próxima a nós porque achamos que podemos e devemos mudar nossas vidas, nosso mundo. Que vale a pena militar em uma pequena organização com a ambição de construir um partido mundial que possa derrubar cada Estado burguês que oprime a humanidade em cada canto deste planeta. E também lutamos, aos tropeços, com tantos erros, com tantas dificuldades, para poder mudar em nós mesmos o que queremos mudar no mundo inteiro. Para poder fazer de nossa organização um pequeno embrião de uma sociedade distinta, onde as pessoas possam se relacionar de forma diferente. Isto implica em desenvolver a habilidade de se auto-criticar sempre que possível. Em fazer balanços duros de nossos erros, de ver onde carregamos ainda os preconceitos que queremos destruir. Em como podemos ajudar nossos camaradas. Aprender a ouvir críticas e saber que elas não servem para nos desmoralizarmos, mas para podermos ser pessoas melhores. E que nos tornamos pessoas melhores para poder lutar mais para mudar este mundo.

Erramos, e muito. Somos jovens, poucos, inexperientes. E as críticas que recebemos, se feitas de boa fé, são para nós um grande presente, pois nos permitem avançar e revolucionar a nossa organização e a nós mesmos, que somos os tijolos que constroem seu edifício. Contudo, também temos que nos acostumar a ouvir calúnias, críticas feitas com o propósito de destruir, de desmoralizar, críticas feitas por ressentimento ou mesquinhez. E, infelizmente, às vezes temos que ouvir estas críticas de pessoas que julgamos que poderiam estar ao nosso lado nesta luta. Às vezes, são golpes duros. Às vezes vemos um camarada valioso abandonar a militância. São muitos os motivos que podem levar a isto e temos que ser serenos para avaliar os nossos problemas, as pressões da vida, poder aprender com nossas derrotas também. E não nos derrubarmos. Como disse Che, um camarada que deu sua vida pela luta, mesmo que com uma estratégia incorreta, precisamos aprender a ser duros; mas sem perder nossa ternura jamais. É difícil. Muitos de nós endurecem e perdem a ternura. Muitos não conseguem endurecer. Mas continuaremos tentando. Continuaremos combatendo todas as críticas feitas para nos destruir, aprendendo com os adversários de boa fé, e avançando para dar a contribuição que pudermos nesta difícil e imprescindível tarefa de emancipar a humanidade. E seremos cada vez mais.   

terça-feira, janeiro 28, 2014

#[Não] Vai ter Copa?[!]

Ele sai de casa às 5 da manhã, 
chega quase 7 da noite e não tem tempo
 nem de fazer um curso. (...) É o Fabrício que me sustenta. 
Fui ao banco e estou com as contas atrasadas. 
Eu não tenho como pagar as minhas contas.

- Evanilse, mãe de Fabrício, jovem de 22 anos vítima de três tiros da polícia militar no ato em São Paulo.

Não acho que são manifestantes quem anda com estilete,
 com materiais supostamente explosivos, com bolinhas de gude,
 e outros instrumentos que servem muito mais para agressão.

- Fernando Grella, Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, defendendo a ação da PM contra Fabrício. 


Dilma e seu parceiro, Joseph Blatter, presidente da FIFA, comemoram o grande evento
No dia 25 de janeiro o fantasma das mobilizações de junho, que tiraram o sono dos principais governantes do país, voltaram a rondar pelo país. É verdade que o número de manifestantes que se reuniram em 13 capitais estaduais não chega a somar nem o que havia em um dos grandes atos de junho. Mas tampouco as manifestações contra o aumento da tarifa começaram com dezenas de milhares. O que vemos hoje é nada mais do que a primeira batalha de um longo combate, que por sua vez faz parte de uma secular guerra.

A copa é o evento em torno do qual se organizam os campos em conflito: de um lado os grandes capitalistas que têm lucrado e lucrarão ainda bilhões, bem como os governos que são eleitos com seu financiamento e que são pouco mais do que marionetes em defesa de seus interesses econômicos e políticos; do outro lado estão os "deserdados" da copa: todos aqueles que teriam que economizar muito - talvez anos - para sequer conseguir comprar o mais barato dos ingressos de um jogo qualquer deste evento que será realizado ali do lado de suas vidas cotidianas. Ao mesmo tempo em que começam a se organizar as vozes insurretas dos que não aceitam passivamente a realização da copa, se levantam do outro lado os porta-vozes de sua defesa.

A preocupação não é pouca: desde a copa das confederações, em que verdadeiras batalhas campais ocorreram nas cidades-sede, com direito a mortes causadas pelas agressões da polícia, como a do jovem Douglas Henrique, que caiu de um viaduto em Belo Horizonte, tanto a FIFA como o governo federal passaram a colocar os atos contra a copa na sua agenda de principais preocupações para garantir que tudo ocorra bem no bilionário evento. E, como todo bom déspota sabe, a arma do convencimento é tão importante quanto as armas físicas, por isto o PT lançou uma anti-campanha chamada #Vaitercopa, com direito a uma tremenda campanha na internet de seus blogueiros e dos partidos governistas "de esquerda", com a juventude do PT e PCdoB na linha de frente. 

Cartaz da campanha #VaiTerCopa idealizada pelos governistas na internet

Alguns dos "pontos altos" desta campanha tem sido, por exemplo, o alistamento de voluntários para trabalhar na copa feito pela UNE - entidade que supostamente representa os estudantes universitários nacionalmente, mas que é dirigida há décadas pelo PCdoB através de eleições fraudulentas com direito a métodos de gângster de burocracia sindical, como espancar a oposição, e assim virou uma mera correia de transmissão estudantil do governismo. A entidade pretende recrutar dezoito mil pessoas para trabalhar de graça na copa; afinal, seria pedir demais que as corporações que terão lucros bilionários ainda pagassem para que pessoas trabalhassem no evento, não é? Recentemente, o pessoal do #Vaitercopa lançou uma nova campanha: a #Vaiterfusca, na qual pretende arrecadar dinheiro para comprar um fusca novo para o "seu Itamar", o cidadão que tentou atravessar uma barricada de colchões em chamas com seu carro. Os "generosos" doadores divulgam a falsa informação de que os "baderneiros", os "black blocks" atearam fogo propositalmente no carro com as pessoas dentro.

A campanha do #VaiTerCopa tem o seguinte eixo: quem é contra a copa, é contra o Brasil. Ou ainda, quando é mais abertamente petista, diz: quem é contra a copa "faz o jogo da direita", tal como eles dizem em todos os momentos contra qualquer um que os critique pela esquerda (quem é pela punição dos mensaleiros "faz o jogo da direita", quem é contra o governo do PT "faz o jogo da direita" e, numa versão mais apelativa, até a Marilena Chauí disse que os black blocks eram "fascistas"!). O célebre petista Paulo Henrique Amorim chegou ao cúmulo de, em seu blog Conversa Afiada, afirmar que "o #NãoVaiTerCopa é um movimento terrorista", comparando o incêndio do fusquinha do "seu Itamar" com o incêndio do Reichstag (parlamento alemão que foi incendiado pelos nazistas) e afirmando que as manifestações são uma "obra-prima da direita" (sic!). Pode-se dizer, sem exagero, que o fusquinha de seu Itamar virou o grande mártir da campanha #Vaitercopa. Talvez os três tiros de que foi vítima Fabrício - que segue internado em estado grave - tenham pouca importância diante de... um fusquinha destruído!

Cena cinematográfica do fusquinha do Itamar em chamas - o mártir do #vaitercopa dos governistas

Como um exemplo da campanha podemos citar o texto do Antonio Lassance no site petista Carta Maior. O esforço que os ideólogos petistas vêm fazendo para combater o movimento espontâneo do #NãoVaiTerCopa! demonstra a preocupação que o risco de manifestações tem causado aos petistas, por mais que repitam histericamente que "são uma minoria barulhenta". O texto de Lassance na Carta Maior começa com pérolas nacionalistas dignas de nota, como "Pela primeira vez em todas as copas, a principal preocupação do brasileiro não é se a nossa seleção irá ganhar ou perder a competição. (...) Um clima esquisito se alastrou e, justo quando a Copa é no Brasil, até agora não apareceu aquela sensação que, por aqui, sempre foi equivalente à do Carnaval." É natural que a primeira reação de qualquer pessoa que não está cegada por um petismo crônico e conhece um pouco a história do nosso país seja a de associar este patriotismo fervoroso ao ufanismo da ditadura militar, que colocava a seleção brasileira como tropa de choque ideológica da sua campanha de "pão e circo" para abafar os gritos dos que eram torturados e assassinados nos seus porões. Hoje, a tentativa do governo petista é abafar os protestos e colocar o PT "lá em cima" pra disputar a eleição no fim do ano. E, ao longo do texto o autor destila muito mais ladainha patriótica para comover os brasileiros a não serem mais dos que "torcem contra o Brasil", tal como qualifica os que são contra a copa (Ame-o ou deixe-o!). Mas vejamos seus argumentos menos nitidamente ideológicos e tentam se encobrir com números.

Um dos fatos que gera mais indignação em nós que vamos às ruas contra a copa, é, evidentemente, a cifra exorbitante dos gastos com o evento. Desde 2007, quando a FIFA fez a primeira previsão para a construção e reforma dos estádios, orçada em R$2,6 bilhões, houve um aumento de mais de 300% neste custo. A previsão inicial de 20 bilhões de reais contando todos os custos passou já para 28,5 bilhões, segundo o Ministério dos Esportes (Lassance fala em 26 bi). O autor rebate isto dizendo que "apenas" (!!!) 8 bilhões deste dinheiro (dados oficiais falam em 8,9 bi) serão gastos com estádios, e o restante com infraestrutura que ajudará todos os habitantes. Que lindo! Mesmo que isto fosse verdade, comparemos estes 8 bilhões em um evento de um mês com o orçamento anual da educação no Brasil: R$ 101,86 bilhões (5,8% do PIB), para todos os níveis educacionais em todo o país durante um ano inteiro! Portanto, para além dos "pequenos ajustes" que Lassance faz nos números oficiais (afinal, o que é um bilhãozinho a mais ou um a menos para este "impávido colosso" promover sua grandeza mundo afora, não é?), podemos dizer que os seus "apenas" 8 bilhões não tem nada de pouco. No Brasil o governo investe na educação, em média, R$ 5.800 reais por aluno por ano (metade do recomendado pela OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), contando todos os níveis de ensino. Na primeira fase de vendas de ingressos para a copa, um pacote para assistir a sete jogos na "categoria 1" custa R$ 6.700. Acho que nem todos os "amantes da pátria" poderão ver os jogos de perto... e talvez nem todos tenham uma educação minimamente digna, mas, deixemos isto pra lá e sigamos com os números.

Quando Lassance e os dados oficiais falam em gastos com "infraestrutura" (que ajudam a todos, veja que democrático!), sob este rótulo bonito escondem o caráter real das obras. Como disse o secretário-executivo do Ministério dos Esportes, Luiz Fernandes: "são 51 obras ao todo, espalhadas pelas doze cidades que vão receber a copa". Em junho do ano passado, foi divulgada uma das últimas grandes revisões dos gastos da copa, que mostrava que o gasto com estádios crescia e o gasto com infraestrutura diminuía. As duas únicas obras de infraestrutura em Manaus, por exemplo - o monotrilho e o BRT (Bus Rapid Transit) eixo lestem, com custo total de R$ 1,6 bilhões - foram removidas dos projetos, bem como o o monotrilho da linha 17 da CPTM em São Paulo - que custaria R$ 1,9 bilhões das verbas da Copa e mais de R$ 3 bilhões no total). 

Todas as mudanças de gastos seguem este padrão: retirada de obras que minimamente atendem ao interesse da população e incremento de obras nos estádios e seu entorno, que só beneficiam a FIFA e a burguesia ligada à copa. Assim, também a maior parte das obras de "infraestrutura" são em aeroportos - R$ 6,7 bilhões (que vão beneficiar muito a população trabalhadora, que, como todos sabem, não vai espremida como sardinhas em trens, ônibus ou metrô para seu trabalho, mas sim vai cuidar de seus negócios na Europa, sofrendo as "terríveis filas" dos aeroportos) - , ou obras no entorno dos estádios (apenas a intervenção em torno do Itaquerão custará R$ 317,7 milhões, sendo que nos anos de 2011 e 2012 o governo estadual investiu em toda a linha vermelha de metrô onde uma parcela considerável da população paulista é esmagada duas vezes por dia, a cifra de R$ 384 milhões).

Além disso, Lassance nos faz a gentileza de informar que "Quase 2 bi serão gastos em segurança pública, formação de mão de obra e outros serviços". Se é que podemos confiar em seus números, vamos ver qual o excelente serviço que presta à população a "segurança pública" - ou polícia, coxa, gambé, porco (no sul) etc. para nós, leigos em administração pública. Entre tantas coisas que a polícia faz pelos cidadãos brasileiros - como, por exemplo, sua "altíssima produtividade", chegando a matar cinco pessoas por dia e sendo uma das mais "produtivas" do mundo - vamos nos deter, já que é este o assunto, aos serviços prestados pela boa realização da copa. Podemos citar, por exemplo, a bem sucedida remoção dos índios que ocupavam a Aldeia Maracanã para que ali fosse realizada uma das incríveis obras de infraestrutura da copa que "irá melhorar a vida de todos": um estacionamento.

Índio que habitava a aldeia Maracanã impede o progresso da nação, mas companheiros da segurança pública ao fundo preparam seus argumentos para convencê-lo de que a Copa é de todos
A Odebrecht e outros participantes do consórcio responsável pelas reformas do Complexo do Maracanã, ao contrários dos teimosos índios e estudantes que foram ali apoiá-los (claramente gente que está contra o Brasil e fazendo o jogo da direita), foram grandes apoiadores das medidas de segurança pública adotadas e agora trabalham na infraestrutura que irá remover esta incômoda morada indígena em plena cidade para que todos possam democraticamente usufruir da copa.

Mas se você acha que as contribuições da Segurança Pública para a copa terminam aí, está muito enganado. O Portal Popular da Copa calcula que, entre Copa e Olimpíadas, serão removidas de 150 a 170 mil pessoas, sempre contando com os bons serviços da segurança pública para ajudar na mudança. São dezenas de comunidades que serão beneficiadas por estas melhorias, perdendo suas casas para dar espaço a algo muito mais importante: a alegria de sediar a copa do mundo. Veja, por exemplo, estes alegres moradores que tiveram o privilégio de ceder seus lares para a construção da Transoeste no Rio (que, por um problema de cálculo, acabou passando longe):


E, é claro, não podemos esquecer outro serviço indispensável para a Copa, a FIFA, a Dilma e todos os brasileiros que têm orgulho de ser brasileiros e sediar este grande evento: convencer estes teimosos descontentes que eles estão fazendo barulho à toa. Para isto, contam com a ajuda da Lei Geral da Copa, mais conhecida como "AI-5 da Copa", por sua leve semelhança com o decreto da ditadura que suspendia diversos direitos constitucionais dos brasileiros (claramente, de gente que não queria ajudar o país crescer). Esta simpática lei - aprovada com grande rapidez graças aos eficientes serviços dos deputados petistas Vicente Candido (relator do projeto) e Jilmar Tatto (que pediu regime de urgência para sua aprovação - proíbe greves até três meses antes da copa, estabelece a instituição de "crime de terrorismo" inexistente na legislação brasileira (opa, quem se lembrou do Paulo Henrique Amorim chamando os protestos contra a copa de "terrorismo"?), proíbe o comércio de ambulantes ao redor dos estádios (afinal, ninguém quer que os dólares dos turistas por acidente acabem beneficiando os pobres!), responsabiliza o Estado brasileiro por danos decorrentes do evento (afinal, se os "terroristas" forem acidentalmente assassinados pelas forças de "segurança pública", ninguém quer que isso cause algum problema legal para uma entidade prestigiada internacionalmente como a FIFA, né?), entre outras coisinhas mais.

Grafite comenta os investimentos de infraestrutura referentes à segurança pública na Copa

Além disso, parece que a Dilma e seu amigo Blatter estão realmente preocupados com a nossa segurança, e por isso nossa presidenta fará uma tropa especial de dez mil homens para confraternizar com os "terroristas" que não estiverem tão felizes com os estádios, as remoções, os investimentos em infraestrutura. O dia 25 de janeiro foi, sem dúvida, um primeiro ensaio de como irão agir estes delicados porcos fardados nos momentos mais cruciais. Veja por si mesmo como eles são amigáveis com os manifestantes que tentavam se proteger das bombas e cassetetes dentro de um hotel:


Um dos manifestantes que eles "cuidadosamente renderam" ficou assim:


Já esta outra, professora, agredida pela polícia, ouvia dos policiais "vadia!" e "filha da puta!" enquanto estes a chutavam, caída no chão.



Mas não é só a repressão física que estão preparando: discursos de PT e PSDB vem se encontrando na "linha dura" contra as manifestações contra a copa. Enquanto de um lado Paulo Henrique Amorim nos chama de "terroristas", de outro lado Fernando Grella diz que, sim, a polícia está certa em meter bala (não mais as de borracha que cegaram um jornalista ano passado) nos manifestantes para se proteger "legitimamente" de um estilete escolar e de seu material "supostamente explosivo" (sic!). Fabrício, neste momento, está na UTI em estado grave. E o Estado está dando para a polícia licença para matar em manifestações.

E, se a maior parte dos gastos já está feita, por que vocês vão às ruas protestar? Não é melhor agora deixar a copa acontecer? Não! Não vamos deixar a copa acontecer porque não nos calamos diante de todos os crimes que estão ocorrendo. Nos recusamos a ir para nossas casas, ligar as tevês e assistir pacatamente os jogos da copa que está sendo utilizada como pão e circo para abafar a miséria, para continuar gerando os lucros inumeráveis de poucos enquanto milhões morrem por nenhum outro motivo se não a exploração e opressão de que são vítimas para que estes parasitas enriqueçam. No Rio de Janeiro, durante o ato, nossos camaradas da Juventude às Ruas puxaram a palavra de ordem "Fifa é o caralho! Lá no Maracanã tem sangue operário", em referência aos operários que foram assassinados (isso mesmo, assassinados) pela queda de um guindaste no Maracanã em decorrência das péssimas condições de trabalho fornecidas pelas máfias da construção civil com a conivência dos governos. Quando o ato começou a entoar estas palavras, trabalhadores da construção civil ao lado aplaudiram e saudaram a passagem dos manifestantes. Não estaremos em casa porque é ao lado destes que queremos estar, dizendo que não somos apenas contra esta copa, mas contra tudo o que ela representa, e que não descansaremos enquanto não derrotarmos os que fazem este mundo ser como é.

Lutamos contra a copa não como um fim em si mesmo, mas como parte da guerra que travamos para que esta sociedade seja dirigida pelos que produzem tudo, e para que possamos ter escolas, hospitais, transporte público, moradia, tudo isto de qualidade e para todos, para atender as necessidades dos trabalhadores e do povo pobre, e não para o lucro de um punhado de parasitas. A copa representa este mundo velho e podre, onde alguns esbanjam dinheiro enquanto outros morrem por não terem atendidas suas necessidades mais elementares. Queremos estar na linha de frente da luta contra a copa com este sentido: de transformar esta revolta em uma luta por um mundo novo, uma sociedade sem exploradores e explorados, onde cada um produza de acordo com suas possibilidades e tenha acesso ao que é produzido de acordo com suas necessidades. E, pode apostar que, no que depender de nós, #NãoVaiTerCopa!

Operários da construção civil saúdam ato no Rio ao ouvir a palavra de ordem: "Fifa é o caralho! No Maracanã tem sangue operário!"





terça-feira, janeiro 21, 2014

Kaique, os suicídios e os suicidados.



Imagine andar na rua com medo, todos os dias; medo de ser visto pela pessoa errada, na hora errada, no lugar errado. Imagine ter medo de que sua família descubra quem você é, com quem você namora. Imagine ser espancado, torturado brutalmente, morto, apenas e unicamente porque ousou ser quem você é. Imagine que por séculos consideraram a sua sexualidade, a sua forma de amar, uma doença, e que até hoje é considerado um pecado, e em muitos lugares um crime. Imagine ser considerado esquisito, estranho, uma aberração, uma pária. Ouvir piadas sobre o "tipo" de pessoa que você é em cada canto, em cada esquina, em cada boteco, na sua escola, no trabalho, nos programas de televisão que fazem isto impunemente, porque não há nenhuma lei sequer dizendo que você tem direito de não ser discriminado por quem quer que seja.

Tudo isto, ou pelo menos grande parte destas situações, são coisas que os LGTTBI enfrentam todos os dias, sendo que no caso de alguns deles, como as travestis e transexuais, há ainda outras coisas que poderíamos acrescentar à lista, como ser quase sempre relegado à prostituição como forma de subsistência. A nossa sociedade não apenas é conivente com a violência contra quem tem qualquer tipo de sexualidade ou identidade de gênero distinta dos padrões heteronormativos, mas ela incentiva esta violência. Ela incentiva com suas instituições mais fortes: a Igreja, a televisão, a escola, a família.



Isto porque qualquer diferença na sexualidade (um desvio da normalidade, aos olhos da nossa sociedade) é um ataque ao que há de mais sagrado no lamentável mundo em que vivemos: a propriedade privada. Por quê? Bom, tem um sujeito chamado Engels, que explicou isto muito bem, e recomendo muitíssimo sua leitura. Mas, resumindo a coisa, acontece que a célula fundamental de uma sociedade baseada na propriedade privada é a família, aquela bem de comercial de margarina, com papai-mamãe-filhinhos. Como explica Engels, o surgimento da monogamia, do casamento, enfim, da família tal qual a conhecemos, está intimamente associado à origem da propriedade privada: para que houvesse herança era necessário saber de quem era o filho, e, bem, todos sabem quem é a mãe de alguém, já o pai... só se poderia garantir a certeza da paternidade impondo à mulher que só tivesse um parceiro sexual, e assim o pai poderia se assegurar de que transmitiria a seu filho de sangue a sua propriedade.

Contudo, há ainda outro fator de imensa importância no papel econômico desta: em uma família (ou pelo menos no tal padrão "ideal" de família) o papel do homem é o de "provedor", trabalhando fora e garantindo o sustento, e a mulher é a "senhora do lar", assegurando o cuidado dos filhos, a manutenção da casa, a preparação da comida, enfim, tudo o que se refere ao âmbito doméstico. Acontece que este trabalho "feminino" é fundamental para que todos os dias o homem possa levantar e ir vender a sua força de trabalho para o capitalista que irá explorá-lo. E este capitalista não paga um centavo para que a esposa do trabalhador faça tudo isto, por todo este trabalho que serve para que seus trabalhadores estejam todos os dias novinhos em folha para trabalharem para ele. Assim, este trabalho socialmente necessário é um trabalho não remunerado, que é "naturalizado" como sendo da esposa, da mulher. Com a revolução industrial, as guerras, o movimento feminista etc. a mulher foi progressivamente ganhando espaço no mercado de trabalho. O que mudou para as mulheres? As mulheres da burguesia ou da pequena-burguesia (as tais classes médias) passaram a contratar empregadas, faxineiras, babás - particularmente em países como o Brasil onde a tradição da escravidão nunca saiu da tradição das classes dominantes - para realizar suas tarefas domésticas enquanto elas trabalhavam. Para as mulheres trabalhadoras (como as próprias empregadas domésticas), veio a dupla jornada de trabalho, em que elas continuam sendo relegadas pelo patriarcado e pela sociedade machista a ter que realizar todas as tarefas domésticas, mesmo trabalhando oito ou mais horas fora de casa.



Este modelo de família raramente existe tal qual ele é "pregado" por nossa sociedade; no século XIX Marx já dizia, no segundo capítulo do Manifesto Comunista que esta família "Completamente desenvolvida (...) só existe para a burguesia; mas ela encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários e na prostituição pública. Contudo, mesmo sendo um modelo "ideal", é ele que permanece fundamentando a estruturação econômica da sociedade, a divisão sexual do trabalho, a criação dos filhos etc. Qualquer tipo de sexualidade que não seja a heterossexual, qualquer identidade de gênero que não seja cis (identidade de gênero e sexo coincidem), necessariamente coloca perguntas e questionamentos sobre estes modelos socialmente referendados, ainda que se faça um tremendo esforço para que, ao mesmo tempo que se reprime e se combate todo tipo de questionamento da heternormatividade, se procure cooptar os LGTTBI para terem uma aspiração de vida tendo como modelo a família burguesa e heterossexual.



Daí, ser gay neste mundo é ser subversivo, anormal, ser perseguido como um animal raro, por mais que seja algo completamente normal do ponto de vista biológico ou psíquico. Esta é a vida que, dentre tantos em nosso mundo, levava o jovem Kaique, de 16 anos. Diferentemente de jovens homossexuais ricos e brancos, que apesar de enfrentarem muita discriminação, podem relativamente - e apenas relativamente - se distanciar dela em locais onde sua sexualidade é mais aceita, como o Shopping Frei Caneca ou a USP, Kaique era pobre e negro. Ser homossexual na periferia de uma grande cidade como São Paulo é estar sob a mira constante da homofobia, ainda mais do que quando se mora nos Jardins. Pode vir por parte da polícia, do tráfico, pode ser alguém no bar, podem ser skinheads, pode ser o pastor da igreja ali ao lado ou seus próprios parentes. Podem ser insultos, ameaças, censuras, sermões, agressões físicas, abusos sexuais, estupros corretivos ou punitivos, tortura e assassinato. Não há nenhuma instituição que te dê o mínimo de amparo, seja ele legal, físico, moral ou psicológico para enfrentar isto. Na verdade, a maior parte delas faz parte da perseguição que está em todas as partes.

Kaique foi encontrado morto após sair de uma balada sorridente e feliz. Uma região rondada por skinheads, sedentos por descarregar seu ódio cego e estúpido em alguma vítima. Quando seu corpo foi achado, todos seus dentes haviam sido arrancados e uma barra de ferro estava atravessada em sua perna. A polícia, antes de qualquer coisa, disse que foi suicídio. O absurdo desta constatação, motivado evidentemente pela homofobia da própria polícia - amparada legalmente pelo fato de que a homofobia sequer é crime e os poucos casos registrados não são qualificados como crime de ódio, mas como crimes comuns - levou a que a família se pronunciasse publicamente e que se organizasse um ato no dia 17/01 pedindo justiça, pela apuração do assassinato de Kaique e a punição dos responsáveis.



No sábado havia familiares dele no ato; hoje, a família veio a público "reconhecer" que foi suicídio. As supostas "provas" de que foi suicídio são alguns escritos tristes em seu diário, ensaios de carta de despedida. Isto foi suficiente para contrariar todo tipo de lógica, como quando se afirma que ele caiu em pé mas que a queda lhe arrancou todos os dentes (além de enfiar em sua perna uma misteriosa barra, ocultada posteriormente pela polícia). Sabemos como funciona a polícia. A família de Amarildo, para dar apenas um exemplo, foi ameaçada para que não continuasse sua denúncia. Todos os familiares de pessoas mortas pela polícia e que ameacem denunciar são ameaçados, e mesmo quando a denúncia é levada adiante os policiais são julgados em tribunais militares especiais, onde são inocentados sem nenhuma preocupação com qualquer aparência de justiça.

Nada é capaz de me convencer que Kaique não foi brutalmente assassinado, não sem antes ter sido espancado e torturado. Mas, mesmo que fosse verdade que Kaique cometeu suicídio, que ele pulou de um viaduto para acabar com sua própria vida, ele teria sido assassinado. Viver com medo, perseguido, condenado, ameaçado e discriminado não é uma vida digna para nenhum ser humano. Inúmeras pesquisas feitas em distintos países ao redor do mundo, como esta na Holanda, atestam o número muito maior de suicídios na população LGBTTI do que em outras camadas. São pessoas que tiram a vida com suas próprias mãos, mas que foram assassinadas por uma sociedade doente, preconceituosa, que é incapaz de permitir que as pessoas tenham direito sobre seu próprio corpo e sua própria sexualidade. Tenha sido Kaique assassinado pelas mãos de skinheads ou mesmo na improvável hipótese de que ele lentamente tenha sido envenenado com a peste homofóbica de nossa sociedade, Kaique foi uma vítima de uma ideologia e uma sociedade que precisam - estas sim - morrer o quanto antes. Não descansaremos enquanto não for feita justiça e enquanto cada ser humano não possa expressar sua identidade de gênero e sua sexualidade como quiser, sendo respeitado por todas as pessoas e amparado de todas as formas pela sociedade.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

um "rolezinho" na sociedade de classes


Vivemos no país com a segunda maior população negra do mundo. A maior fora da África. Considerem que este dado é subestimado, já que o racismo institucionalizado no nosso país entra fundo na cabeça de todos, incluindo dos próprios negros, que por conta disso muitas vezes acabam se enxergando como tudo que se possa imaginar (escurinho, moreno, jambo, pardo, marrom etc etc.) menos como aquilo que são: negros. Quem poderá culpá-los por querer se livrar daquilo que poderia ser considerado um estigma, neste país que é um dos mais racistas do mundo?

Um país construído na base da chibata e do pelourinho, com o maior influxo de escravos da história da humanidade, patrocinado pelos imperialismos europeus para explorar melhor este país e construir a sua riqueza. Um país que criou as favelas, os bandeirantes, a polícia mais assassina do mundo para tentar controlar uma população negra que ao longo da história deste país foi relegada ao que há de pior na sociedade. Uma população que nunca foi passiva ou resignada diante de sua exploração, mas que lutou, assassinou seus senhores, construiu seus quilombos, que luta a cada dia, como acontece hoje contra as remoções da copa. A escravidão não acabou com a abolição de 1888; ela apenas começou.



A escravidão mudou de nome, mudou de roupa, tornou-se assalariada e mudou de discurso, vestindo o disfarce encardido e cínico da ideologia racista da "democracia racial", que quer convencer os explorados e oprimidos de que já conseguiram sua liberdade e que somos todos iguais nesta sociedade miserável. A escravidão mudou de vários jeitos, mas não mudou de cor. Provar isto é tão simples quanto parece: entre em qualquer prédio público, um fórum, por exemplo. Veja a cor dos advogados, juízes, magistrados. Agora veja a cor dos que limpam os banheiros, dos seguranças. Entre em um condomínio de luxo, veja a cor dos moradores; agora veja a cor das babás, porteiros, empregadas, faxineiras, motoristas, seguranças. Entre em uma universidade pública como a USP ou a Unicamp; entre em uma sala de aula e veja a cor dos alunos. Agora, vá ao bandejão, para a cozinha, e veja a cor dos funcionários. Entre em um presídio e veja a cor dos presidiários; entre em um parlamento e veja a cor dos parlamentares. Vá a um jogo da copa, veja a cor dos que ocupam as cadeiras. Vá ao lado de fora, veja a cor dos camelôs. Veja as estatísticas salariais, de mortes violentas, de presos, de educação, saúde e moradia. Veja a cor delas. Não há nenhuma mágica argumentativa que possa, diante da realidade, sustentar que não há racismo no Brasil.



Mas o que há é muito cinismo. Nas escolas, nas universidades, nas novelas, na religião, nas famílias. Nos ensinam mentiras, mentiras tão grandes e poderosas que chegam a fazer as pessoas não conseguirem ver o que há bem diante de seus narizes. Fazem as pessoas não verem que dentro de um shopping center, o mais simbólico templo do consumo em nossa sociedade, os negros tem lugares bem determinados: atrás dos balcões das praças de alimentação, vestindo os uniformes de funcionários de limpeza, os uniformes dos seguranças.



Até onde eu sei, começou na cidade de Vitória, no final do ano passado: jovens realizavam um baile funk num píer, ao lado de um shopping. Os bailes funk, tal como outrora os terreiros de candomblé ou as rodas de capoeiras (manifestações culturais predominantemente do povo negro) vem sendo criminalizados e perseguidos. Assim, a polícia resolveu acabar com o baile, e os jovens se refugiaram dentro do Shopping Vitória. Os clientes ficaram apavorados quando viram os jovens, em sua maioria negros, entrando: tratava-se de um arrastão, para eles. A polícia interviu, prendendo as centenas de jovens que não estavam fazendo nada, se não tentar procurar proteção da própria polícia e de sua violência assassina e racista.



Foi depois disso que os "rolezinhos" começaram a ser marcados por todo o país. Milhares de jovens que sofrem todos os dias com o racismo, a violência policial, a exploração em seus trabalhos, a falta de lazer em suas comunidades, resolveram se vingar, e dizer que eles também tem direito de andar no shopping, como qualquer branco cheio de dinheiro. Mas a nossa sociedade discorda desta conclusão.



Primeiro foi a polícia, intervindo da única forma que sabe fazer, de forma violenta e racista, para assegurar o passeio "tranquilo" da classe média branca dos shoppings. Depois, a justiça seguiu seu exemplo e passou a conceder liminares aos shopping proibindo os rolezinhos e garantindo multas e prisões para quem os praticasse. Qual o crime? Estar em um lugar ao qual você não pertence. Mostrar àqueles que querem que você exista apenas para servir, que você existe também quando não está de uniforme e trabalhando. Os que criaram e perpetuam a desigualdade e a miséria tem medo: temem todos os dias que a violência que eles mesmos criaram venha bater em sua porta, venha tomar deles aquilo que eles sistematicamente negaram à maioria. Por isto, escondem-se em enormes condomínios com grades e seguranças (muitas vezes negros, mas devidamente uniformizados e servindo); por isto, apelam para a polícia para ameaçar, reprimir, enxotar. Por isto escondem-se nos shoppings, espaços controlados, seguros, onde estão entre os seus. E por isto os rolezinhos lhes apavoram tanto.


O apartheid e o racismo no Brasil não tem nada de sutil ou velado. Ele é tão ostensivo, assassino e opressor quanto foi na época em que os senhores de engenho chicoteavam seus escravos. Só não vê quem não quer, ou quem está soterrado pela ideologia de uma classe dominante que vive com medo. Com medo de que a classe trabalhadora negra deste país tome seu destino em sua própria mão e acabe com os descendentes destes senhores de escravos, que vivem ainda hoje fazendo dos seus quartos de empregadas, de seus presídios e camburões as senzalas modernas.

Hoje, no Facebook, um amigo de uma amiga disse que a comparação entre a proibição aos rolezinhos e o apartheid (regime de segregação racial existente até os anos 90 na África do Sul) era desproporcional e descabido. Por que?, eu pergunto. Quando um estado tira sua máscara e diz abertamente que os negros não podem frequentar o mesmo espaço que brancos sob pena de serem presos, agredidos e multados, sem sequer se dar ao trabalho de uma justificativa, por mais esdrúxula que esta seja, isto é apartheid. Isto é o estado dizendo que os negros tem um lugar na sociedade, que é o de explorados.



Estes são os calouros da FEA (Faculdade de Economia e Administração da USP) fazendo seu "rolezinho" no Shopping Eldorado em 2011, devidamente guiados por seus veteranos, que tal como num ritual militar iniciam os "seus bixos" para ensiná-los na tradição do corporativismo e da segregação, cantando que a "FEA USP é a melhor escola do Brasil" e comemorando a exclusão social do vestibular berrando que "só burro paga", enquanto mais de 70% da juventude brasileira (principalmente os negros) estão excluídos das universidades públicas que sustentam com seus impostos. Destilam também machismo com suas musiquinhas imbecis.

Reparem no começo do vídeo o segurança passivamente observando ao lado, sem esboçar reação durante os mais de dez minutos desta manifestação que expressa o que há de mais nojento, racista e elitista na "universidade de excelência". A coluna da direita no Youtube mostra que tal evento ocorre todos os anos, sem nenhuma interferência da polícia, nenhuma liminar da justiça, sem tropa de choque prendendo e espancando ninguém.



Os que são proibidos pela justiça e pela polícia de entrar no shopping numa decisão que escancara o apartheid social existente na nossa sociedade são os mesmos que estão excluídos das universidades por outro tipo de apartheid tão naturalizado: o vestibular. Estes que comemoram a exclusão dos negros das universidades neste vídeo são os mesmos que exijem a presença da polícia para tirá-los de seus locais de lazer, os shopping centers. Na concepção desta burguesia e pequena burguesia, de maneira escancarada ou velada, a única função dos pobres e negros é serví-los: do outro lado do balcão nas praças de alimentação, limpando suas salas de aula como trabalhadores terceirizados.

Passa da hora de dar um basta ao apartheid que existe nesta sociedade racista. O capitalismo é a principal fonte disto. A libertação do povo negro só virá com a revolução, com o fim da sociedade de classes, com a dissolução da polícia que serve para reprimir o povo negro e os trabalhadores. 

Come ananás, mastiga perdiz: teu dia está prestes burguês!
A revolução brasileira virá, e ela será NEGRA!