terça-feira, janeiro 28, 2014

#[Não] Vai ter Copa?[!]

Ele sai de casa às 5 da manhã, 
chega quase 7 da noite e não tem tempo
 nem de fazer um curso. (...) É o Fabrício que me sustenta. 
Fui ao banco e estou com as contas atrasadas. 
Eu não tenho como pagar as minhas contas.

- Evanilse, mãe de Fabrício, jovem de 22 anos vítima de três tiros da polícia militar no ato em São Paulo.

Não acho que são manifestantes quem anda com estilete,
 com materiais supostamente explosivos, com bolinhas de gude,
 e outros instrumentos que servem muito mais para agressão.

- Fernando Grella, Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, defendendo a ação da PM contra Fabrício. 


Dilma e seu parceiro, Joseph Blatter, presidente da FIFA, comemoram o grande evento
No dia 25 de janeiro o fantasma das mobilizações de junho, que tiraram o sono dos principais governantes do país, voltaram a rondar pelo país. É verdade que o número de manifestantes que se reuniram em 13 capitais estaduais não chega a somar nem o que havia em um dos grandes atos de junho. Mas tampouco as manifestações contra o aumento da tarifa começaram com dezenas de milhares. O que vemos hoje é nada mais do que a primeira batalha de um longo combate, que por sua vez faz parte de uma secular guerra.

A copa é o evento em torno do qual se organizam os campos em conflito: de um lado os grandes capitalistas que têm lucrado e lucrarão ainda bilhões, bem como os governos que são eleitos com seu financiamento e que são pouco mais do que marionetes em defesa de seus interesses econômicos e políticos; do outro lado estão os "deserdados" da copa: todos aqueles que teriam que economizar muito - talvez anos - para sequer conseguir comprar o mais barato dos ingressos de um jogo qualquer deste evento que será realizado ali do lado de suas vidas cotidianas. Ao mesmo tempo em que começam a se organizar as vozes insurretas dos que não aceitam passivamente a realização da copa, se levantam do outro lado os porta-vozes de sua defesa.

A preocupação não é pouca: desde a copa das confederações, em que verdadeiras batalhas campais ocorreram nas cidades-sede, com direito a mortes causadas pelas agressões da polícia, como a do jovem Douglas Henrique, que caiu de um viaduto em Belo Horizonte, tanto a FIFA como o governo federal passaram a colocar os atos contra a copa na sua agenda de principais preocupações para garantir que tudo ocorra bem no bilionário evento. E, como todo bom déspota sabe, a arma do convencimento é tão importante quanto as armas físicas, por isto o PT lançou uma anti-campanha chamada #Vaitercopa, com direito a uma tremenda campanha na internet de seus blogueiros e dos partidos governistas "de esquerda", com a juventude do PT e PCdoB na linha de frente. 

Cartaz da campanha #VaiTerCopa idealizada pelos governistas na internet

Alguns dos "pontos altos" desta campanha tem sido, por exemplo, o alistamento de voluntários para trabalhar na copa feito pela UNE - entidade que supostamente representa os estudantes universitários nacionalmente, mas que é dirigida há décadas pelo PCdoB através de eleições fraudulentas com direito a métodos de gângster de burocracia sindical, como espancar a oposição, e assim virou uma mera correia de transmissão estudantil do governismo. A entidade pretende recrutar dezoito mil pessoas para trabalhar de graça na copa; afinal, seria pedir demais que as corporações que terão lucros bilionários ainda pagassem para que pessoas trabalhassem no evento, não é? Recentemente, o pessoal do #Vaitercopa lançou uma nova campanha: a #Vaiterfusca, na qual pretende arrecadar dinheiro para comprar um fusca novo para o "seu Itamar", o cidadão que tentou atravessar uma barricada de colchões em chamas com seu carro. Os "generosos" doadores divulgam a falsa informação de que os "baderneiros", os "black blocks" atearam fogo propositalmente no carro com as pessoas dentro.

A campanha do #VaiTerCopa tem o seguinte eixo: quem é contra a copa, é contra o Brasil. Ou ainda, quando é mais abertamente petista, diz: quem é contra a copa "faz o jogo da direita", tal como eles dizem em todos os momentos contra qualquer um que os critique pela esquerda (quem é pela punição dos mensaleiros "faz o jogo da direita", quem é contra o governo do PT "faz o jogo da direita" e, numa versão mais apelativa, até a Marilena Chauí disse que os black blocks eram "fascistas"!). O célebre petista Paulo Henrique Amorim chegou ao cúmulo de, em seu blog Conversa Afiada, afirmar que "o #NãoVaiTerCopa é um movimento terrorista", comparando o incêndio do fusquinha do "seu Itamar" com o incêndio do Reichstag (parlamento alemão que foi incendiado pelos nazistas) e afirmando que as manifestações são uma "obra-prima da direita" (sic!). Pode-se dizer, sem exagero, que o fusquinha de seu Itamar virou o grande mártir da campanha #Vaitercopa. Talvez os três tiros de que foi vítima Fabrício - que segue internado em estado grave - tenham pouca importância diante de... um fusquinha destruído!

Cena cinematográfica do fusquinha do Itamar em chamas - o mártir do #vaitercopa dos governistas

Como um exemplo da campanha podemos citar o texto do Antonio Lassance no site petista Carta Maior. O esforço que os ideólogos petistas vêm fazendo para combater o movimento espontâneo do #NãoVaiTerCopa! demonstra a preocupação que o risco de manifestações tem causado aos petistas, por mais que repitam histericamente que "são uma minoria barulhenta". O texto de Lassance na Carta Maior começa com pérolas nacionalistas dignas de nota, como "Pela primeira vez em todas as copas, a principal preocupação do brasileiro não é se a nossa seleção irá ganhar ou perder a competição. (...) Um clima esquisito se alastrou e, justo quando a Copa é no Brasil, até agora não apareceu aquela sensação que, por aqui, sempre foi equivalente à do Carnaval." É natural que a primeira reação de qualquer pessoa que não está cegada por um petismo crônico e conhece um pouco a história do nosso país seja a de associar este patriotismo fervoroso ao ufanismo da ditadura militar, que colocava a seleção brasileira como tropa de choque ideológica da sua campanha de "pão e circo" para abafar os gritos dos que eram torturados e assassinados nos seus porões. Hoje, a tentativa do governo petista é abafar os protestos e colocar o PT "lá em cima" pra disputar a eleição no fim do ano. E, ao longo do texto o autor destila muito mais ladainha patriótica para comover os brasileiros a não serem mais dos que "torcem contra o Brasil", tal como qualifica os que são contra a copa (Ame-o ou deixe-o!). Mas vejamos seus argumentos menos nitidamente ideológicos e tentam se encobrir com números.

Um dos fatos que gera mais indignação em nós que vamos às ruas contra a copa, é, evidentemente, a cifra exorbitante dos gastos com o evento. Desde 2007, quando a FIFA fez a primeira previsão para a construção e reforma dos estádios, orçada em R$2,6 bilhões, houve um aumento de mais de 300% neste custo. A previsão inicial de 20 bilhões de reais contando todos os custos passou já para 28,5 bilhões, segundo o Ministério dos Esportes (Lassance fala em 26 bi). O autor rebate isto dizendo que "apenas" (!!!) 8 bilhões deste dinheiro (dados oficiais falam em 8,9 bi) serão gastos com estádios, e o restante com infraestrutura que ajudará todos os habitantes. Que lindo! Mesmo que isto fosse verdade, comparemos estes 8 bilhões em um evento de um mês com o orçamento anual da educação no Brasil: R$ 101,86 bilhões (5,8% do PIB), para todos os níveis educacionais em todo o país durante um ano inteiro! Portanto, para além dos "pequenos ajustes" que Lassance faz nos números oficiais (afinal, o que é um bilhãozinho a mais ou um a menos para este "impávido colosso" promover sua grandeza mundo afora, não é?), podemos dizer que os seus "apenas" 8 bilhões não tem nada de pouco. No Brasil o governo investe na educação, em média, R$ 5.800 reais por aluno por ano (metade do recomendado pela OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), contando todos os níveis de ensino. Na primeira fase de vendas de ingressos para a copa, um pacote para assistir a sete jogos na "categoria 1" custa R$ 6.700. Acho que nem todos os "amantes da pátria" poderão ver os jogos de perto... e talvez nem todos tenham uma educação minimamente digna, mas, deixemos isto pra lá e sigamos com os números.

Quando Lassance e os dados oficiais falam em gastos com "infraestrutura" (que ajudam a todos, veja que democrático!), sob este rótulo bonito escondem o caráter real das obras. Como disse o secretário-executivo do Ministério dos Esportes, Luiz Fernandes: "são 51 obras ao todo, espalhadas pelas doze cidades que vão receber a copa". Em junho do ano passado, foi divulgada uma das últimas grandes revisões dos gastos da copa, que mostrava que o gasto com estádios crescia e o gasto com infraestrutura diminuía. As duas únicas obras de infraestrutura em Manaus, por exemplo - o monotrilho e o BRT (Bus Rapid Transit) eixo lestem, com custo total de R$ 1,6 bilhões - foram removidas dos projetos, bem como o o monotrilho da linha 17 da CPTM em São Paulo - que custaria R$ 1,9 bilhões das verbas da Copa e mais de R$ 3 bilhões no total). 

Todas as mudanças de gastos seguem este padrão: retirada de obras que minimamente atendem ao interesse da população e incremento de obras nos estádios e seu entorno, que só beneficiam a FIFA e a burguesia ligada à copa. Assim, também a maior parte das obras de "infraestrutura" são em aeroportos - R$ 6,7 bilhões (que vão beneficiar muito a população trabalhadora, que, como todos sabem, não vai espremida como sardinhas em trens, ônibus ou metrô para seu trabalho, mas sim vai cuidar de seus negócios na Europa, sofrendo as "terríveis filas" dos aeroportos) - , ou obras no entorno dos estádios (apenas a intervenção em torno do Itaquerão custará R$ 317,7 milhões, sendo que nos anos de 2011 e 2012 o governo estadual investiu em toda a linha vermelha de metrô onde uma parcela considerável da população paulista é esmagada duas vezes por dia, a cifra de R$ 384 milhões).

Além disso, Lassance nos faz a gentileza de informar que "Quase 2 bi serão gastos em segurança pública, formação de mão de obra e outros serviços". Se é que podemos confiar em seus números, vamos ver qual o excelente serviço que presta à população a "segurança pública" - ou polícia, coxa, gambé, porco (no sul) etc. para nós, leigos em administração pública. Entre tantas coisas que a polícia faz pelos cidadãos brasileiros - como, por exemplo, sua "altíssima produtividade", chegando a matar cinco pessoas por dia e sendo uma das mais "produtivas" do mundo - vamos nos deter, já que é este o assunto, aos serviços prestados pela boa realização da copa. Podemos citar, por exemplo, a bem sucedida remoção dos índios que ocupavam a Aldeia Maracanã para que ali fosse realizada uma das incríveis obras de infraestrutura da copa que "irá melhorar a vida de todos": um estacionamento.

Índio que habitava a aldeia Maracanã impede o progresso da nação, mas companheiros da segurança pública ao fundo preparam seus argumentos para convencê-lo de que a Copa é de todos
A Odebrecht e outros participantes do consórcio responsável pelas reformas do Complexo do Maracanã, ao contrários dos teimosos índios e estudantes que foram ali apoiá-los (claramente gente que está contra o Brasil e fazendo o jogo da direita), foram grandes apoiadores das medidas de segurança pública adotadas e agora trabalham na infraestrutura que irá remover esta incômoda morada indígena em plena cidade para que todos possam democraticamente usufruir da copa.

Mas se você acha que as contribuições da Segurança Pública para a copa terminam aí, está muito enganado. O Portal Popular da Copa calcula que, entre Copa e Olimpíadas, serão removidas de 150 a 170 mil pessoas, sempre contando com os bons serviços da segurança pública para ajudar na mudança. São dezenas de comunidades que serão beneficiadas por estas melhorias, perdendo suas casas para dar espaço a algo muito mais importante: a alegria de sediar a copa do mundo. Veja, por exemplo, estes alegres moradores que tiveram o privilégio de ceder seus lares para a construção da Transoeste no Rio (que, por um problema de cálculo, acabou passando longe):


E, é claro, não podemos esquecer outro serviço indispensável para a Copa, a FIFA, a Dilma e todos os brasileiros que têm orgulho de ser brasileiros e sediar este grande evento: convencer estes teimosos descontentes que eles estão fazendo barulho à toa. Para isto, contam com a ajuda da Lei Geral da Copa, mais conhecida como "AI-5 da Copa", por sua leve semelhança com o decreto da ditadura que suspendia diversos direitos constitucionais dos brasileiros (claramente, de gente que não queria ajudar o país crescer). Esta simpática lei - aprovada com grande rapidez graças aos eficientes serviços dos deputados petistas Vicente Candido (relator do projeto) e Jilmar Tatto (que pediu regime de urgência para sua aprovação - proíbe greves até três meses antes da copa, estabelece a instituição de "crime de terrorismo" inexistente na legislação brasileira (opa, quem se lembrou do Paulo Henrique Amorim chamando os protestos contra a copa de "terrorismo"?), proíbe o comércio de ambulantes ao redor dos estádios (afinal, ninguém quer que os dólares dos turistas por acidente acabem beneficiando os pobres!), responsabiliza o Estado brasileiro por danos decorrentes do evento (afinal, se os "terroristas" forem acidentalmente assassinados pelas forças de "segurança pública", ninguém quer que isso cause algum problema legal para uma entidade prestigiada internacionalmente como a FIFA, né?), entre outras coisinhas mais.

Grafite comenta os investimentos de infraestrutura referentes à segurança pública na Copa

Além disso, parece que a Dilma e seu amigo Blatter estão realmente preocupados com a nossa segurança, e por isso nossa presidenta fará uma tropa especial de dez mil homens para confraternizar com os "terroristas" que não estiverem tão felizes com os estádios, as remoções, os investimentos em infraestrutura. O dia 25 de janeiro foi, sem dúvida, um primeiro ensaio de como irão agir estes delicados porcos fardados nos momentos mais cruciais. Veja por si mesmo como eles são amigáveis com os manifestantes que tentavam se proteger das bombas e cassetetes dentro de um hotel:


Um dos manifestantes que eles "cuidadosamente renderam" ficou assim:


Já esta outra, professora, agredida pela polícia, ouvia dos policiais "vadia!" e "filha da puta!" enquanto estes a chutavam, caída no chão.



Mas não é só a repressão física que estão preparando: discursos de PT e PSDB vem se encontrando na "linha dura" contra as manifestações contra a copa. Enquanto de um lado Paulo Henrique Amorim nos chama de "terroristas", de outro lado Fernando Grella diz que, sim, a polícia está certa em meter bala (não mais as de borracha que cegaram um jornalista ano passado) nos manifestantes para se proteger "legitimamente" de um estilete escolar e de seu material "supostamente explosivo" (sic!). Fabrício, neste momento, está na UTI em estado grave. E o Estado está dando para a polícia licença para matar em manifestações.

E, se a maior parte dos gastos já está feita, por que vocês vão às ruas protestar? Não é melhor agora deixar a copa acontecer? Não! Não vamos deixar a copa acontecer porque não nos calamos diante de todos os crimes que estão ocorrendo. Nos recusamos a ir para nossas casas, ligar as tevês e assistir pacatamente os jogos da copa que está sendo utilizada como pão e circo para abafar a miséria, para continuar gerando os lucros inumeráveis de poucos enquanto milhões morrem por nenhum outro motivo se não a exploração e opressão de que são vítimas para que estes parasitas enriqueçam. No Rio de Janeiro, durante o ato, nossos camaradas da Juventude às Ruas puxaram a palavra de ordem "Fifa é o caralho! Lá no Maracanã tem sangue operário", em referência aos operários que foram assassinados (isso mesmo, assassinados) pela queda de um guindaste no Maracanã em decorrência das péssimas condições de trabalho fornecidas pelas máfias da construção civil com a conivência dos governos. Quando o ato começou a entoar estas palavras, trabalhadores da construção civil ao lado aplaudiram e saudaram a passagem dos manifestantes. Não estaremos em casa porque é ao lado destes que queremos estar, dizendo que não somos apenas contra esta copa, mas contra tudo o que ela representa, e que não descansaremos enquanto não derrotarmos os que fazem este mundo ser como é.

Lutamos contra a copa não como um fim em si mesmo, mas como parte da guerra que travamos para que esta sociedade seja dirigida pelos que produzem tudo, e para que possamos ter escolas, hospitais, transporte público, moradia, tudo isto de qualidade e para todos, para atender as necessidades dos trabalhadores e do povo pobre, e não para o lucro de um punhado de parasitas. A copa representa este mundo velho e podre, onde alguns esbanjam dinheiro enquanto outros morrem por não terem atendidas suas necessidades mais elementares. Queremos estar na linha de frente da luta contra a copa com este sentido: de transformar esta revolta em uma luta por um mundo novo, uma sociedade sem exploradores e explorados, onde cada um produza de acordo com suas possibilidades e tenha acesso ao que é produzido de acordo com suas necessidades. E, pode apostar que, no que depender de nós, #NãoVaiTerCopa!

Operários da construção civil saúdam ato no Rio ao ouvir a palavra de ordem: "Fifa é o caralho! No Maracanã tem sangue operário!"





terça-feira, janeiro 21, 2014

Kaique, os suicídios e os suicidados.



Imagine andar na rua com medo, todos os dias; medo de ser visto pela pessoa errada, na hora errada, no lugar errado. Imagine ter medo de que sua família descubra quem você é, com quem você namora. Imagine ser espancado, torturado brutalmente, morto, apenas e unicamente porque ousou ser quem você é. Imagine que por séculos consideraram a sua sexualidade, a sua forma de amar, uma doença, e que até hoje é considerado um pecado, e em muitos lugares um crime. Imagine ser considerado esquisito, estranho, uma aberração, uma pária. Ouvir piadas sobre o "tipo" de pessoa que você é em cada canto, em cada esquina, em cada boteco, na sua escola, no trabalho, nos programas de televisão que fazem isto impunemente, porque não há nenhuma lei sequer dizendo que você tem direito de não ser discriminado por quem quer que seja.

Tudo isto, ou pelo menos grande parte destas situações, são coisas que os LGTTBI enfrentam todos os dias, sendo que no caso de alguns deles, como as travestis e transexuais, há ainda outras coisas que poderíamos acrescentar à lista, como ser quase sempre relegado à prostituição como forma de subsistência. A nossa sociedade não apenas é conivente com a violência contra quem tem qualquer tipo de sexualidade ou identidade de gênero distinta dos padrões heteronormativos, mas ela incentiva esta violência. Ela incentiva com suas instituições mais fortes: a Igreja, a televisão, a escola, a família.



Isto porque qualquer diferença na sexualidade (um desvio da normalidade, aos olhos da nossa sociedade) é um ataque ao que há de mais sagrado no lamentável mundo em que vivemos: a propriedade privada. Por quê? Bom, tem um sujeito chamado Engels, que explicou isto muito bem, e recomendo muitíssimo sua leitura. Mas, resumindo a coisa, acontece que a célula fundamental de uma sociedade baseada na propriedade privada é a família, aquela bem de comercial de margarina, com papai-mamãe-filhinhos. Como explica Engels, o surgimento da monogamia, do casamento, enfim, da família tal qual a conhecemos, está intimamente associado à origem da propriedade privada: para que houvesse herança era necessário saber de quem era o filho, e, bem, todos sabem quem é a mãe de alguém, já o pai... só se poderia garantir a certeza da paternidade impondo à mulher que só tivesse um parceiro sexual, e assim o pai poderia se assegurar de que transmitiria a seu filho de sangue a sua propriedade.

Contudo, há ainda outro fator de imensa importância no papel econômico desta: em uma família (ou pelo menos no tal padrão "ideal" de família) o papel do homem é o de "provedor", trabalhando fora e garantindo o sustento, e a mulher é a "senhora do lar", assegurando o cuidado dos filhos, a manutenção da casa, a preparação da comida, enfim, tudo o que se refere ao âmbito doméstico. Acontece que este trabalho "feminino" é fundamental para que todos os dias o homem possa levantar e ir vender a sua força de trabalho para o capitalista que irá explorá-lo. E este capitalista não paga um centavo para que a esposa do trabalhador faça tudo isto, por todo este trabalho que serve para que seus trabalhadores estejam todos os dias novinhos em folha para trabalharem para ele. Assim, este trabalho socialmente necessário é um trabalho não remunerado, que é "naturalizado" como sendo da esposa, da mulher. Com a revolução industrial, as guerras, o movimento feminista etc. a mulher foi progressivamente ganhando espaço no mercado de trabalho. O que mudou para as mulheres? As mulheres da burguesia ou da pequena-burguesia (as tais classes médias) passaram a contratar empregadas, faxineiras, babás - particularmente em países como o Brasil onde a tradição da escravidão nunca saiu da tradição das classes dominantes - para realizar suas tarefas domésticas enquanto elas trabalhavam. Para as mulheres trabalhadoras (como as próprias empregadas domésticas), veio a dupla jornada de trabalho, em que elas continuam sendo relegadas pelo patriarcado e pela sociedade machista a ter que realizar todas as tarefas domésticas, mesmo trabalhando oito ou mais horas fora de casa.



Este modelo de família raramente existe tal qual ele é "pregado" por nossa sociedade; no século XIX Marx já dizia, no segundo capítulo do Manifesto Comunista que esta família "Completamente desenvolvida (...) só existe para a burguesia; mas ela encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários e na prostituição pública. Contudo, mesmo sendo um modelo "ideal", é ele que permanece fundamentando a estruturação econômica da sociedade, a divisão sexual do trabalho, a criação dos filhos etc. Qualquer tipo de sexualidade que não seja a heterossexual, qualquer identidade de gênero que não seja cis (identidade de gênero e sexo coincidem), necessariamente coloca perguntas e questionamentos sobre estes modelos socialmente referendados, ainda que se faça um tremendo esforço para que, ao mesmo tempo que se reprime e se combate todo tipo de questionamento da heternormatividade, se procure cooptar os LGTTBI para terem uma aspiração de vida tendo como modelo a família burguesa e heterossexual.



Daí, ser gay neste mundo é ser subversivo, anormal, ser perseguido como um animal raro, por mais que seja algo completamente normal do ponto de vista biológico ou psíquico. Esta é a vida que, dentre tantos em nosso mundo, levava o jovem Kaique, de 16 anos. Diferentemente de jovens homossexuais ricos e brancos, que apesar de enfrentarem muita discriminação, podem relativamente - e apenas relativamente - se distanciar dela em locais onde sua sexualidade é mais aceita, como o Shopping Frei Caneca ou a USP, Kaique era pobre e negro. Ser homossexual na periferia de uma grande cidade como São Paulo é estar sob a mira constante da homofobia, ainda mais do que quando se mora nos Jardins. Pode vir por parte da polícia, do tráfico, pode ser alguém no bar, podem ser skinheads, pode ser o pastor da igreja ali ao lado ou seus próprios parentes. Podem ser insultos, ameaças, censuras, sermões, agressões físicas, abusos sexuais, estupros corretivos ou punitivos, tortura e assassinato. Não há nenhuma instituição que te dê o mínimo de amparo, seja ele legal, físico, moral ou psicológico para enfrentar isto. Na verdade, a maior parte delas faz parte da perseguição que está em todas as partes.

Kaique foi encontrado morto após sair de uma balada sorridente e feliz. Uma região rondada por skinheads, sedentos por descarregar seu ódio cego e estúpido em alguma vítima. Quando seu corpo foi achado, todos seus dentes haviam sido arrancados e uma barra de ferro estava atravessada em sua perna. A polícia, antes de qualquer coisa, disse que foi suicídio. O absurdo desta constatação, motivado evidentemente pela homofobia da própria polícia - amparada legalmente pelo fato de que a homofobia sequer é crime e os poucos casos registrados não são qualificados como crime de ódio, mas como crimes comuns - levou a que a família se pronunciasse publicamente e que se organizasse um ato no dia 17/01 pedindo justiça, pela apuração do assassinato de Kaique e a punição dos responsáveis.



No sábado havia familiares dele no ato; hoje, a família veio a público "reconhecer" que foi suicídio. As supostas "provas" de que foi suicídio são alguns escritos tristes em seu diário, ensaios de carta de despedida. Isto foi suficiente para contrariar todo tipo de lógica, como quando se afirma que ele caiu em pé mas que a queda lhe arrancou todos os dentes (além de enfiar em sua perna uma misteriosa barra, ocultada posteriormente pela polícia). Sabemos como funciona a polícia. A família de Amarildo, para dar apenas um exemplo, foi ameaçada para que não continuasse sua denúncia. Todos os familiares de pessoas mortas pela polícia e que ameacem denunciar são ameaçados, e mesmo quando a denúncia é levada adiante os policiais são julgados em tribunais militares especiais, onde são inocentados sem nenhuma preocupação com qualquer aparência de justiça.

Nada é capaz de me convencer que Kaique não foi brutalmente assassinado, não sem antes ter sido espancado e torturado. Mas, mesmo que fosse verdade que Kaique cometeu suicídio, que ele pulou de um viaduto para acabar com sua própria vida, ele teria sido assassinado. Viver com medo, perseguido, condenado, ameaçado e discriminado não é uma vida digna para nenhum ser humano. Inúmeras pesquisas feitas em distintos países ao redor do mundo, como esta na Holanda, atestam o número muito maior de suicídios na população LGBTTI do que em outras camadas. São pessoas que tiram a vida com suas próprias mãos, mas que foram assassinadas por uma sociedade doente, preconceituosa, que é incapaz de permitir que as pessoas tenham direito sobre seu próprio corpo e sua própria sexualidade. Tenha sido Kaique assassinado pelas mãos de skinheads ou mesmo na improvável hipótese de que ele lentamente tenha sido envenenado com a peste homofóbica de nossa sociedade, Kaique foi uma vítima de uma ideologia e uma sociedade que precisam - estas sim - morrer o quanto antes. Não descansaremos enquanto não for feita justiça e enquanto cada ser humano não possa expressar sua identidade de gênero e sua sexualidade como quiser, sendo respeitado por todas as pessoas e amparado de todas as formas pela sociedade.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

um "rolezinho" na sociedade de classes


Vivemos no país com a segunda maior população negra do mundo. A maior fora da África. Considerem que este dado é subestimado, já que o racismo institucionalizado no nosso país entra fundo na cabeça de todos, incluindo dos próprios negros, que por conta disso muitas vezes acabam se enxergando como tudo que se possa imaginar (escurinho, moreno, jambo, pardo, marrom etc etc.) menos como aquilo que são: negros. Quem poderá culpá-los por querer se livrar daquilo que poderia ser considerado um estigma, neste país que é um dos mais racistas do mundo?

Um país construído na base da chibata e do pelourinho, com o maior influxo de escravos da história da humanidade, patrocinado pelos imperialismos europeus para explorar melhor este país e construir a sua riqueza. Um país que criou as favelas, os bandeirantes, a polícia mais assassina do mundo para tentar controlar uma população negra que ao longo da história deste país foi relegada ao que há de pior na sociedade. Uma população que nunca foi passiva ou resignada diante de sua exploração, mas que lutou, assassinou seus senhores, construiu seus quilombos, que luta a cada dia, como acontece hoje contra as remoções da copa. A escravidão não acabou com a abolição de 1888; ela apenas começou.



A escravidão mudou de nome, mudou de roupa, tornou-se assalariada e mudou de discurso, vestindo o disfarce encardido e cínico da ideologia racista da "democracia racial", que quer convencer os explorados e oprimidos de que já conseguiram sua liberdade e que somos todos iguais nesta sociedade miserável. A escravidão mudou de vários jeitos, mas não mudou de cor. Provar isto é tão simples quanto parece: entre em qualquer prédio público, um fórum, por exemplo. Veja a cor dos advogados, juízes, magistrados. Agora veja a cor dos que limpam os banheiros, dos seguranças. Entre em um condomínio de luxo, veja a cor dos moradores; agora veja a cor das babás, porteiros, empregadas, faxineiras, motoristas, seguranças. Entre em uma universidade pública como a USP ou a Unicamp; entre em uma sala de aula e veja a cor dos alunos. Agora, vá ao bandejão, para a cozinha, e veja a cor dos funcionários. Entre em um presídio e veja a cor dos presidiários; entre em um parlamento e veja a cor dos parlamentares. Vá a um jogo da copa, veja a cor dos que ocupam as cadeiras. Vá ao lado de fora, veja a cor dos camelôs. Veja as estatísticas salariais, de mortes violentas, de presos, de educação, saúde e moradia. Veja a cor delas. Não há nenhuma mágica argumentativa que possa, diante da realidade, sustentar que não há racismo no Brasil.



Mas o que há é muito cinismo. Nas escolas, nas universidades, nas novelas, na religião, nas famílias. Nos ensinam mentiras, mentiras tão grandes e poderosas que chegam a fazer as pessoas não conseguirem ver o que há bem diante de seus narizes. Fazem as pessoas não verem que dentro de um shopping center, o mais simbólico templo do consumo em nossa sociedade, os negros tem lugares bem determinados: atrás dos balcões das praças de alimentação, vestindo os uniformes de funcionários de limpeza, os uniformes dos seguranças.



Até onde eu sei, começou na cidade de Vitória, no final do ano passado: jovens realizavam um baile funk num píer, ao lado de um shopping. Os bailes funk, tal como outrora os terreiros de candomblé ou as rodas de capoeiras (manifestações culturais predominantemente do povo negro) vem sendo criminalizados e perseguidos. Assim, a polícia resolveu acabar com o baile, e os jovens se refugiaram dentro do Shopping Vitória. Os clientes ficaram apavorados quando viram os jovens, em sua maioria negros, entrando: tratava-se de um arrastão, para eles. A polícia interviu, prendendo as centenas de jovens que não estavam fazendo nada, se não tentar procurar proteção da própria polícia e de sua violência assassina e racista.



Foi depois disso que os "rolezinhos" começaram a ser marcados por todo o país. Milhares de jovens que sofrem todos os dias com o racismo, a violência policial, a exploração em seus trabalhos, a falta de lazer em suas comunidades, resolveram se vingar, e dizer que eles também tem direito de andar no shopping, como qualquer branco cheio de dinheiro. Mas a nossa sociedade discorda desta conclusão.



Primeiro foi a polícia, intervindo da única forma que sabe fazer, de forma violenta e racista, para assegurar o passeio "tranquilo" da classe média branca dos shoppings. Depois, a justiça seguiu seu exemplo e passou a conceder liminares aos shopping proibindo os rolezinhos e garantindo multas e prisões para quem os praticasse. Qual o crime? Estar em um lugar ao qual você não pertence. Mostrar àqueles que querem que você exista apenas para servir, que você existe também quando não está de uniforme e trabalhando. Os que criaram e perpetuam a desigualdade e a miséria tem medo: temem todos os dias que a violência que eles mesmos criaram venha bater em sua porta, venha tomar deles aquilo que eles sistematicamente negaram à maioria. Por isto, escondem-se em enormes condomínios com grades e seguranças (muitas vezes negros, mas devidamente uniformizados e servindo); por isto, apelam para a polícia para ameaçar, reprimir, enxotar. Por isto escondem-se nos shoppings, espaços controlados, seguros, onde estão entre os seus. E por isto os rolezinhos lhes apavoram tanto.


O apartheid e o racismo no Brasil não tem nada de sutil ou velado. Ele é tão ostensivo, assassino e opressor quanto foi na época em que os senhores de engenho chicoteavam seus escravos. Só não vê quem não quer, ou quem está soterrado pela ideologia de uma classe dominante que vive com medo. Com medo de que a classe trabalhadora negra deste país tome seu destino em sua própria mão e acabe com os descendentes destes senhores de escravos, que vivem ainda hoje fazendo dos seus quartos de empregadas, de seus presídios e camburões as senzalas modernas.

Hoje, no Facebook, um amigo de uma amiga disse que a comparação entre a proibição aos rolezinhos e o apartheid (regime de segregação racial existente até os anos 90 na África do Sul) era desproporcional e descabido. Por que?, eu pergunto. Quando um estado tira sua máscara e diz abertamente que os negros não podem frequentar o mesmo espaço que brancos sob pena de serem presos, agredidos e multados, sem sequer se dar ao trabalho de uma justificativa, por mais esdrúxula que esta seja, isto é apartheid. Isto é o estado dizendo que os negros tem um lugar na sociedade, que é o de explorados.



Estes são os calouros da FEA (Faculdade de Economia e Administração da USP) fazendo seu "rolezinho" no Shopping Eldorado em 2011, devidamente guiados por seus veteranos, que tal como num ritual militar iniciam os "seus bixos" para ensiná-los na tradição do corporativismo e da segregação, cantando que a "FEA USP é a melhor escola do Brasil" e comemorando a exclusão social do vestibular berrando que "só burro paga", enquanto mais de 70% da juventude brasileira (principalmente os negros) estão excluídos das universidades públicas que sustentam com seus impostos. Destilam também machismo com suas musiquinhas imbecis.

Reparem no começo do vídeo o segurança passivamente observando ao lado, sem esboçar reação durante os mais de dez minutos desta manifestação que expressa o que há de mais nojento, racista e elitista na "universidade de excelência". A coluna da direita no Youtube mostra que tal evento ocorre todos os anos, sem nenhuma interferência da polícia, nenhuma liminar da justiça, sem tropa de choque prendendo e espancando ninguém.



Os que são proibidos pela justiça e pela polícia de entrar no shopping numa decisão que escancara o apartheid social existente na nossa sociedade são os mesmos que estão excluídos das universidades por outro tipo de apartheid tão naturalizado: o vestibular. Estes que comemoram a exclusão dos negros das universidades neste vídeo são os mesmos que exijem a presença da polícia para tirá-los de seus locais de lazer, os shopping centers. Na concepção desta burguesia e pequena burguesia, de maneira escancarada ou velada, a única função dos pobres e negros é serví-los: do outro lado do balcão nas praças de alimentação, limpando suas salas de aula como trabalhadores terceirizados.

Passa da hora de dar um basta ao apartheid que existe nesta sociedade racista. O capitalismo é a principal fonte disto. A libertação do povo negro só virá com a revolução, com o fim da sociedade de classes, com a dissolução da polícia que serve para reprimir o povo negro e os trabalhadores. 

Come ananás, mastiga perdiz: teu dia está prestes burguês!
A revolução brasileira virá, e ela será NEGRA!






quarta-feira, dezembro 18, 2013

Azul é a cor mais heteronormativa


 
“Azul é a cor mais quente” nos comove com um apelo fácil, nos tocando em dramas individuais que todos vivemos. Quem nunca sofreu por amor? Quem nunca errou e perdeu um grande amor? Quem nunca se arrependeu de algo que fez, tomou um fora? Suas cenas longas, com tomadas bonitas que focam pequenos detalhes da vida, dos corpos, dos gestos, criam uma identidade com a protagonista, com o difícil trajeto de descoberta da sua sexualidade, o enfrentamento que ela assume aos poucos contra o preconceito, tanto o que está do lado de fora em seus colegas, amigos, família, como o que a sociedade entranhou desde pequena em sua própria cabeça. Uma jovem colegial que procura se “forçar” a uma heterossexualidade antes que consiga assumir para si mesmo que não é ali que irá se realizar sentimentalmente, e o trajeto de assumir sua homossexualidade através de uma grande paixão, uma mulher mais jovem e madura que irá lhe ensinar a ser ela mesma, a não ter vergonha de si e de sua forma de amar.

                É um filme bonito, sensível, mas sua beleza acaba aí. E, no entanto, há muito mais por trás desta beleza; por trás de uma comovente história de um amor frustrado, o filme carrega o pesado ranço do patriarcado transmitindo seu modelo para uma relação amorosa, mesmo quando nela não há um homem. A heteronormatividade em nossa sociedade é um fruto direto da forma como o sistema capitalista de exploração se baseia – entre tantas outras formas de explorar – numa opressão muito mais antiga do que ele próprio, que é o machismo e o patriarcado, para fazer recair em uma metade da humanidade o fardo mais pesado da exploração. Nossa sociedade toma como célula econômica fundamental da vida a família, na qual cabe ao homem provedor o papel de garantir o sustento da mulher e dos filhos. À mulher, a quem cabe o papel de fazer todo o trabalho doméstico não remunerado pelos capitalistas, mas fundamental para a reprodução do capital, coube também progressivamente entrar no mercado de trabalho, com salários inferiores e, assim, mantendo seu papel economicamente subordinado e sofrendo a exploração da dupla jornada de trabalho – trabalho assalariado e trabalho doméstico não remunerado. Este modelo familiar, cuja estrutura é fundamental para sustentar economicamente este sistema, é o principal motivo pelo qual a heterossexualidade é uma norma tão fundamental do capitalismo, e pelo qual todas as outras formas de sexualidade podem constituir uma “ameaça” e devem ser combatidas pelas principais instituições ideológicas sociais.

                O filme, num primeiro olhar, parece combater a visão heteronormativa do mundo: ao mostrar o preconceito que é aos poucos superado por Adéle, ao criar a empatia com a personagem e seus sentimentos, ele pode também combater o preconceito existente no próprio público, criando neste a ideia de que a homossexualidade é tão “natural” como a heterossexualidade, e, portanto, não deve ser discriminada de forma alguma, mas aceita, respeitada, “normalizada” socialmente. E é verdade que este filme pode mesmo cumprir este papel. Mas, se passarmos desta “primeira camada”, veremos que há aspectos do filme que são o contrário disto, reforçando o modelo heteronormativo como regra até mesmo para os casais não-heterossexuais. O público se identifica com o “romance escondido” do casal na primeira parte de sua relação: Adéle é acuada por suas colegas e renega publicamente sua sexualidade para poder ser aceita como “normal” na escola; depois, no jantar em família na sua casa, vemos o peso do modelo familiar no diálogo que se estabelece entre os pais de Adéle e Emma. Ao comentar a dificuldade em ter a arte e o ofício de artista como uma fonte de renda em nossa sociedade, a solução que apresentam os pais de Adéle é que Emma tenha um marido com um bom emprego, que possa sustenta-la enquanto ela faz sua arte. Aí, mais uma vez, aparece a família como o núcleo econômico, com o homem no papel de provedor e de sustento econômico para a mulher. Rimos disto, nos sentindo subversivos junto ao casal que esconde seu amor, um amor que não se encaixa nos padrões prontos dos pais de Adéle. A nossa cumplicidade com as duas aumenta, quando elas abafam seus gemidos para poder transar no quarto.

                Contudo, a ironia maior está no fato de que Emma viria a cumprir precisamente o papel social de “homem”, e justamente no “casamento” que se estabelece entre ela e Adéle. Desde o primeiro contato o papel de “mulher”, ou seja, de parte mais “frágil” e subordinada do casal, vai se desenhando para Adéle. Segundo as próprias palavras de Emma ao abordá-la no bar, ela era um tipo que não se via muito por ali: menor de idade, uma “heterossexual curiosa”. O que em Adéle a identifica como uma “heterossexual curiosa” naquele meio? Seu jeito “feminino”, delicado, meigo, tímido, introvertido. Ela é, desde que coloca os pés no lugar, assediada por mulheres que cumprem o papel de “homens”: agressivamente abordando ela com cantadas, encarando-a de cima a baixo, oferecendo-lhe para pagar bebidas. Ela, tímida e recatada, é “salva” de todas estas abordagens por Emma, que chega apresentando-a como sua “prima”, como um código para dizer: esta já tem “dona”. Vai pegá-la na escola, inicia sua vida sexual e, por fim leva-a para viver em sua casa.

                O papel que cabe na relação para Adéle é o papel da mulher numa relação heterossexual de nossa sociedade: ela cuida da casa, cozinha, recebe os amigos de Emma. Para Emma, cabe explorar o mundo, emancipar-se através de sua criação – seu trabalho – e poder descobrir sua identidade. Para Adéle, cabe a profissão socialmente designada para mulheres de professora, em que seu suposto “instinto maternal” pode se desenvolver no cuidado com as crianças. Mas, para além disso, não lhe cabe explorar o mundo: a sua realização é a realização no amor, ou seja, no âmbito familiar. Isto fica explícito no diálogo que elas têm na cama, quando Emma insiste para que Adéle mostre as coisas que escreve, que as publique para que ela se realize na sua arte. Adéle afirma: sua felicidade é aquela; a sua escrita é sobre coisas íntimas, pessoais, e não para o mundo. A sua felicidade é poder estar ali com Emma. Neste mesmo dia, Adéle havia recusado o convite para sair com seus colegas de trabalho. O motivo: ir para casa cozinhar, arrumar tudo para receber todos os amigos e colegas de trabalho de Emma e celebrar sua estreia como artista. Está fundada a divisão social do trabalho e, consequentemente, de toda a vida social dentro daquele casal: Emma vive para o mundo; Adéle, para a família. Em seu discurso diante dos convidados, Emma mostra qual o papel de Adéle: musa inspiradora para sua arte – ou seja, seu papel não é de indivíduo, de sujeito diante do mundo, mas de suporte, mero apoio para que Emma possa, ela sim, descobrir sua individualidade, desenvolver-se como sujeito criador e colocar-se no mundo desta forma. E, de quebra, ainda diz de Adéle: “e foi ela que preparou todos os pratos!”. Adéle, em seu humilde discurso, apenas diz: “espero que gostem de tudo.” Pois é este o papel que lhe é reservado: agradar e servir bem, ser uma boa acompanhante para sua companheira. O diálogo na cama desenvolve isto, quando Adéle diz que todos os amigos de Emma eram “tão cultos” que ela se sentiu “deslocada”. E Emma lhe responde: “você esteve ótima”, “eles te adoraram”. Ela é um bibêlo, um penduricalho de Emma.

                Junto à heteronormatividade, cuja principal função é garantir a divisão social do trabalho entre homem e mulher, o outro principal pilar ideológico e moral da família é a monogamia. E ela cumpre um papel decisivo no filme, pois será o pivô da separação do casal. Emma tem toda uma vida para viver; Adéle não. Por isto, nada mais natural que se sinta carente, sozinha, abandonada enquanto Emma vive sua vida. Lembremo-nos que, quando Adéle finalmente aceita o convite de seus colegas para sair, é justamente quando Emma está trabalhando até tarde com sua colega (em relação à qual, aliás, Adéle já sentia ciúmes). Está triste e insegura, pois o que dá sustentação à sua vida e é seu principal motivador (Emma), não tem ela neste mesmo lugar: no papel de homem da relação que é desempenhado por Emma, o papel central é ocupado pelo trabalho, pela atividade de realização no mundo. Isto coloca Adéle num papel claramente subordinado na relação, o que a torna insegura, fragilizada.

                A carência joga Adéle nos braços de outro homem, do primeiro homem que lhe dê atenção, lhe valorize. É por conta disto que Adéle ouve de seu “marido” os xingamentos tipicamente machistas que as mulheres ouvem de seus companheiros “traídos”: puta, vagabunda, vadia. Adéle era, em primeiro lugar, “propriedade” de Emma, e ela não pode ser perdoada porque feriu o mais sagrado dos princípios desta sociedade: o da propriedade. É expulsa com uma mala de roupas de sua própria casa, pois esta é propriedade do “homem provedor”, e tudo o que ela construiu ali é acessório, detalhe. Quantas mulheres não são expulsas de casa por seus maridos com uma mão na frente e outra atrás, porque cabe ao homem o papel de proprietário? Todo o trabalho que tiveram para construir aquela casa, por ser socialmente desvalorizado, perde todo seu valor e é na separação que isto se expressa mais, quando as mulheres deixam de ter tudo aquilo que seu trabalho doméstico não remunerado ajudou a acumular.

                Contudo, a vida de Adéle era a família, a relação, e por isto sua vida para no tempo, na obsessão em ter Emma como companheira. A vida desta, que nunca teve como centro a relação amorosa, segue adiante com uma nova companheira, se desenvolvendo naquilo que de fato a realiza: o trabalho como artista. A profissão de Adéle não é socialmente valorizada: é uma profissão “de mulher”, de “mãe”, de “cuidar de crianças”. Ainda que tenha, na verdade, uma importância social imensa, de educar pessoas, transmitir valores e conhecimentos socialmente imprescindíveis, a profissão de educadora infantil nunca será socialmente valorizada porque é uma “profissão de mulher”. Isto se expressa ao longo do filme em diversos diálogos, como na casa dos pais de Emma, entre o casal na cama etc.

                Pode-se argumentar que não há motivo para condenar o filme por apresentar uma relação homossexual que é guiada pelos parâmetros heteronormativos, pois afinal a sociedade é assim, grande parte dos casais gays de fato reproduz estes valores, e não é a “função” da arte dar nenhuma resposta a um problema social que exista. Independentemente da discussão sobre a suposta “função” da arte, cujo argumento de que não deve responder a problemas sociais eu acho bastante duvidoso, para dizer o mínimo, o problema central do filme está em que a heteronormatividade do casal em nenhum momento é problematizada. A tristeza de Adéle aparece ao público como um drama afetivo individual, e não há nenhum movimento que coloque esta questão em seu devido papel de problema socialmente construído. Se o filme vem sendo injustificadamente louvado aos quatro cantos pelo seu mérito de questionar tabus e desafiar preconceitos, parece justo exigir dele que questione os problemas sociais mais profundos que fazem com que a heteronormatividade e a monogamia centradas na família continuem sufocando a sexualidade da maior parte da humanidade.

segunda-feira, novembro 11, 2013

O movimento estudantil da USP e a triste esquerda que "tem pra hoje"...

Este post é um desabafo. Seu intuito não é fazer uma luta política, afirmar posições, combater equívocos. É um desabafo de alguém que fica puto, que fica cansado. De alguém que escolheu um projeto para sua vida que é uma luta coletiva, dura, contra um inimigo imenso, e que é a única perspectiva para fazer deste mundo um lugar suportável, digno de existência. Se este mundo é uma merda - foi o que decidi há tempos - a única alternativa é tentar transformá-lo. Isto me levou ao marxismo, à militância. E quis o destino que fosse logo no movimento estudantil da USP, que tem lá sua importância, mas que não vem ao caso esmiuçar agora. O que vem ao caso são as cretinices que se colocam nesta mesma USP entre o hoje e este projeto de futuro.

Lembro-me quando entrei na USP. Nunca havia visto um "socialista" de perto. De repente, estava cercado por "socialistas". Eles discutiam violentamente entre eles, e eu, não entendia nada: porque discutiam tanto se defendiam a mesma coisa? Passaram-se anos, e eu descobri uma lição valiosa que o marxismo me ensinou: a prática é o critério da verdade. E isto me ensinou que nem todos os "socialistas" são socialistas de fato. E o movimento estudantil e outras experiências foram me mostrando que a esquerda que temos hoje, como não poderia deixar de ser, herdou as derrotas da classe trabalhadora e as incorporou como um legado perverso em sua estratégia, seu programa, sua prática política e mesmo em sua moral. E fez disto o cenário da esquerda que encontrei ao entrar na universidade (que certamente é pior na universidade elitista e racista que é a USP).

Estou participando de mais uma greve entre tantas que já vivi na USP. Deveria ter me acostumado a certas coisas, que conforme vão levando nossa ingenuidade embora, vão deixando lições valiosas. Mas a verdade é que sempre pode piorar. E todo tipo de escrotice que não se espera daqueles que dizem que querem construir um mundo sem opressão e exploração aparece na sua cara. Mentias, calúnias, provocações, ameaças, agressões físicas. Táticas sujas, daquelas que nossos inimigos usam. Mas elas estão dentro do nosso movimento, sendo usada contra nós, que dedicamos nossas vidas, nosso sangue, nosso tempo a mudar o mundo. E quem está nos atacando não é, ou não deveria ser em hipótese alguma, nosso inimigo: são aqueles mesmos "companheiros socialistas" que conheci no meu primeiro ano de USP. Eles nos caluniam, nos ameaçam, e depois negam tudo publicamente, tentando nos demonizar para tornar estéreis nossas posições políticas. Eles nos chamam de seita, mas querem nos isolar forçadamente, querem nos isolar e nos insultar porque nossas ideias têm força. Eles querem que desapareçamos, porque ameaçamos seu "pequeno poder". Eles são ainda tão pequenos, tão débeis, mas estão aprendendo numa velocidade impressionante os hábitos e rotinas da burocracia sindical que deveriam estar combatendo. Me dá raiva, mas também me dá nojo, tristeza. Penso em quantas pessoas eles, que são organizações nacionais, aproximam como uma "referência" de esquerda, de projeto revolucionário. Os piores viram dirigentes, tornam-se cínicos e incorporam estes métodos sujos de "debate político". Os melhores, provavelmente, são os que se desiludem amargamente com aquilo que pensam ser a concretização mais palpável do que gostariam de poder defender, do socialismo, do comunismo. Eles deixam de militar, voltam para a pequenez de suas vidas privadas; como costumamos dizer, eles "quebram". Me encho de ódio ao pensar nestas pessoas, nestas possibilidades desperdiçadas, me revolto ao pensar em quantas pessoas não deixam de acreditar que há uma alternativa para este mundo ao tomar contato com este tipo de prática política degenerada dos nossos "socialistas", que aprenderam muito bem lições de nossos inimigos, como com o stalinismo, que transformas as discussões políticas em calúnias morais. Que impede o debate ao invés de levá-lo até o fim.

Por mais de um mês, eu e centenas de estudantes viemos dando nosso sangue para construir uma luta contra a reitoria e o governo. Alguns de nós porque acreditamos em outra sociedade, ou, no mais modesto dos casos, porque queremos uma universidade menos elitista. E hoje, assistimos relutantes, com o sangue fervendo, nossa luta ser jogada ao vento. Em parte porque nosso inimigo é poderoso. Mas isto, sinceramente, não é o que mais me incomoda. Aprendi a saber que nosso inimigo é poderoso e as batalhas serão duras. O que me irrita de maneira impressionante é o "fogo amigo" dos auto-proclamados "socialistas", que, por terem sido derrotados democraticamente em sua política mesquinha, por verem seu "pequeno poder" ameaçado, preferem lançar mão de sua campanha de provocações e mentiras, de ataques dos mais sujos e nada "socialistas". Porque preferem ver um movimento derrotado para poder tentar jogar o ônus sobre as nossas costas do que seguir firme na luta e fazer um balanço honesto. Passaram a lutar mais contra nós do que contra nosso inimigo comum; abandonaram a linha de frente da luta para "evitar conflitos" com os agressores que eles próprios haviam ameaçado ainda uma hora antes.

Fico puto. Isto que eu queria dizer. Mas, me fortaleço, e sei que meus camaradas também. No fundo, por mais que seja uma merda saber que além de nossos inimigos poderosos teremos que enfrentar nossos adversários e suas mentiras, isto nos torna mais convictos de que nossa estratégia, nossa teoria, nossa moral estão corretas e precisam ser fortalecidas. Se for esta esquerda que vai dar a "alternativa" para os trabalhadores, estaremos fadados a mais uma época de exploração e opressão. Então, precisamos dar outra alternativa, e nos forjamos no "fogo amigo" enquanto nadamos contra a corrente. Mas há outras centenas, talvez milhares, que, vendo de longe, se afastarão do movimento estudantil, talvez de qualquer perspectiva de transformação social. Uma porta de mudança social que se fecha aos olhos de alguns combatentes, que poderiam nos ajudar muito. Um passo atrás na luta. A derrota que a reitoria poderá talvez impôr à nossa luta é ruim; mas muito pior é se há uma outra derrota, fomentada por dentro, que afaste os estudantes deste ambiente fratricida de mentiras e ataques morais. Isto é o que me revolta e entristece. Nossa tradição é bela, é poderosa; quando leio textos de Trotsky, Lenin, vejo a força de nossas convicções, estratégia e teoria. Vejo ali a possibilidade do futuro, e encho-me de força para que faça minha parte para que estas ideias penetrem nas massas e se transformem em força material. Este tipo de problema que enfrentamos hoje é uma coisa mesquinha demais, mas é hoje a lama na qual nadamos na USP, e da qual temos que sair, passo a passo. Para chegar o futuro, precisamos atravessar este triste presente. Como disse Marx, os homens fazem a história, mas não como querem, e sim como lhes é permitido fazer. Façamos, então, porque infelizmente o futuro terá que nascer do material humano que temos hoje. Educá-lo, combatê-lo, aprender com ele. Seguir adiante, apesar de tudo. Nossos mestres enfrentaram coisas piores, e nós enfrentaremos também. Hoje, nos forjamos na luta mesquinha do presente. Nossos ideais nos levarão adiante.

terça-feira, outubro 29, 2013

A greve, os DCEs e suas "vitórias", e os muros da USP



Ontem ocorreu a segunda reunião do Comando de Greve da USP desde que se iniciou a nossa mobilização. Em minha avaliação, foi um momento decisivo para terminar uma sequência de erros que colocam nossa mobilização em uma posição dificílima. Ela ainda é uma greve bastante forte e enraizada nos cursos, mas encontra-se em um impasse cujas principais saídas foram todas bloqueadas, uma após a outra. E o pior de tudo: tais bloqueios vieram diretamente dos que estão dirigindo a greve.

O primeiro momento de nossa greve era de uma oportunidade ímpar: confluíram as mobilizações da USP, Unicamp e a heróica greve dos professores do Rio. Tudo confluía para nos unificarmos. Era ainda mais simples, se pensarmos que a direção do DCE da USP é do PSOL e PSTU, a do SEPE (sindicato dos professores do Rio) também, e a do DCE da Unicamp é do PSOL. Contudo, toda a iniciativa de unificação que vimos por parte destas direções foram declarações vazias de solidariedade. Nós nos matamos de tentar: eu, pessoalmente, fui quatro vezes pra Unicamp durante a greve. Propusemos e foi aprovada um indicativo de Comando de Greve unificado de USP e Unicamp nesta universidade. Aprovamos também na USP. Na primeira reunião, contudo, os dois DCEs boicotaram. Propusemos, e na medida de nossas forças, procuramos implementar a unificação das pautas: que a Unicamp assumisse as bandeiras de democratização da universidade, e a USP as contra a repressão e a polícia. Mas somos ainda poucos, e o boicote ativo dos DCEs pesaram mais.

Mas a unificação pela qual lutamos não era apenas entre as lutas em curso; esta era, inclusive, a mais tática, e que poderia servir como impulsionador para uma outra, esta sim estratégica: a unificação com os que estão excluídos do ensino superior, os que estão relegados às péssimas condições de ensino no ensino básico público, os trabalhadores da educação que sofrem com a precarização de sua profissão. Uma unificação nacional em defesa de uma pauta ampla, democrática e estrutural em nosso país: por uma educação pública, gratuita, de qualidade, para todos e a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Era não apenas viável que a nossa unificação das três lutas colocassem esta perspectiva de um levante nacional em defesa da educação, como inclusive era necessário. Era, aliás, a única forma de conseguir lutar efetivamente pela pauta que a USP levantou desde o começo, de democratização da estrutura de poder da universidade.

Como sempre apontamos, as diretas pra reitor não são uma bandeira que levantamos. Por sua patente impotência em mudar qualquer questão relevante dentro da universidade. Levantamos a bandeira de uma Estatuinte Livre, Soberana e Democrática, que só pode ocorrer a partir da imposição de uma mobilização massiva e destruindo a estrutura de poder que existe hoje. Isso, é claro, não pode ocorrer com uma mera greve de estudantes da USP. Nossa greve cutucou os professores e funcionários da USP. Mas o trabalho de repressão e cooptação da reitoria surtiu efeitos, e não foi possível partir para uma greve unificada. Contudo, a unificação com outras universidade poderia dar um fôlego que atacasse no âmago o corporativismo e fizesse as outras categorias se moverem ao ver que algo grande estava se gestando.



Então veio o primeiro golpe decisivo. Ele não foi desferido pelas reitorias, nem pelos governos, mas pelo PSOL na direção do DCE da Unicamp. A correlação de forças ali, desde o começo, era impressionantemente favorável para o movimento. Basta compararmos a mobilização da USP em 2011 com a de Unicamp em 2013 para termos uma dimensão: o assassinato de Felipe, na USP em 2011, fez a situação política na universidade dar um giro à direita, com mobilizações de estudantes da Faculdade de Economia e Administração (FEA) pedindo a entrada da polícia no campus. Era a deixa que o reitor Rodas esperava, e ele assinou um convênio com a PM em agosto. Desde este momento, nós, da LER-QI e da Juventude às Ruas, nos pusemos a denunciar o acordo e dizer que era necessária uma mobilização contra a PM no campus; PSOL e PSTU, como de costume, disseram que os estudantes "não estão preparados" para a pauta do Fora PM. Em lugar disto, defenderam o programa de "por mais segurança" no campus, com seu "plano alternativo de segurança". Claro, isto dialoga mais com a consciência da maioria dos estudantes da USP, verdadeiros privilegiados que vivem dentro de uma bolha e, justamente por isto, estão sujeitos a serem atacados pelos que não tem os mesmos direitos que eles. A questão é que o papel dos revolucionários não pode nunca ser defender o que é mais fácil, mas sim o que é correto, sempre. E, claro, procurando dialogar da melhor forma possível. Esta é uma divergência de fundo que temos com estas correntes. A questão é que naquele momento os estudantes não se mobilizaram nem pelo "fora PM", nem "por mais segurança". Até o dia 27 de outubro. Uma greve imensa decorre disto - mais uma vez apesar da política nefasta de PSOL e PSTU - mas não conseguimos reverter o ataque da reitoria. A PM permanece.

Na Unicamp, junho havia mudado tudo: logo após o assassinado de Denis a reitoria assina o convênio com a PM e a resposta dos estudantes é imediata, realizando grandes assembleias de curso. A reitoria é ocupada e a greve cresce. Em pouquíssimo tempo o reitor, Tadeu, eleito com um programa "democrático" e com o apoio de diversos setores de estudantes, professores e funcionários iludidos por sua demagogia, foi obrigado a retroceder e dizer que não assinaria mais convênio algum. O movimento estava forte, na ofensiva, e com a possibilidade de, com esta importante conquista em mãos, ir por mais, unificando-se com a USP e indo ao fundo da questão: a expulsão permanente da polícia só pode se dar com a mudança radical da estrutura de poder.



Mas pro PSOL aquilo já era uma grande vitória. E para eles, o que se trata é de conseguir vitórias, isto é o que importa em qualquer mobilização. Seu programa é sempre o que eles julgam que irá mobilizar mais os estudantes - mesmo que não seja lá muito correto - e sua meta é sempre sair da luta com algo que possam chamar de "vitória" - mesmo que não seja lá grande coisa ou até que não seja coisa alguma mas que possa receber de alguma forma o rótulo da "vitória" para eles "moralizarem" os estudantes. É que em sua lógica, é a conquista de "vitórias" que leva os estudantes a saberem que é possível lutar e ganhar, e aí vão lutar mais e conseguir mais "vitórias"... e de vitória em vitória, um dia, quem sabe, mudamos o mundo... ou não. O PSTU, em linhas gerais, atua mais ou menos com a mesma lógica. É por isto que defendem como pauta, na USP, as diretas pra reitor: porque acham que é o que mais mobiliza, e porque achavam que dava pra conquistar. Achavam porque agora estão na luta - ou, mais precisamente, na negociação - por muito menos, por qualquer migalha que possam colocar o rótulo de "vitória" em cima. Em seu afâ por literalmente inventar vitórias, chegaram a cantar como vitória o fato de que a reitoria sentou pra negociar (!) e que a USP não vai anular o semestre letivo da universidade inteira (!!).

Enfim, foi esta lógica absurda que levou a que o PSOL defendesse, em uma assembleia com quase 500 estudantes mesmo em um dia de chuva (o que para os parâmetros da Unicamp é algo sem precedentes), que os estudantes desocupassem a reitoria ao invés de seguir construindo a greve e a ocupação. Pela pouca experiência dos estudantes com a direção do PSOL - há anos não acontecia uma mobilização expressiva na Unicamp - e por sua confiança ainda inabalada, eles convenceram uma maioria cambaleante: a votação foi de 159 pela manutenção da ocupação, 231 pela desocupação e 80 abstenções. Foi o golpe fatal na greve. Voltei, na semana seguinte, para a assembleia. Menos de cem pessoas presentes. No dia seguinte à desocupação, o vice-reitor foi à imprensa desdenhando do movimento: disse que a polícia não estava descartada na Unicamp. Mas quem terminou a desmoralização de uma luta massiva foi o DCE, ao aprovar na assembleia a proposta de que o movimento estudantil faça uma campanha financeira para arcar com os custos dos estragos causados pela ocupação. o reitor Tadeu, com sua adega recheada de vinhos finos e um gordo salário, deve estar feliz de ver como foi fácil mudar o jogo, e colocar na defensiva um movimento que estava tão forte.




Em seguida, PSOL e PSTU deram mais um golpe na greve, quando acabaram com a forte greve dos professores no Rio. Aí, encerrou-se o momento de conseguir unificar as lutas, coisa que nunca tiveram como meta, pois o que se trata é de cada um conseguir a "sua vitória". Para que não digam que estou inventando, ouvi mais de uma vez dos diretores do DCE da Unicamp que "a melhor maneira de apoiar os estudantes da Unicamp é sairmos da reitoria com esta vitória, e eles verem que é possível vencer". A lógica deles é aritmética, e sua lógica é a formal: vitória da unicamp, mais vitória da USP, igual a duas vitórias para o movimento. A questão é que uma vitória unificada de USP e Unicamp tem uma qualidade muito superior a duas "vitórias" isoladas, que podem rapidamente se transformar em derrotas quando o movimento bate em retirada em plena ofensiva, como vemos na Unicamp, onde a polícia civil está chamando estudantes para depôr e preparando as punições.

Diante disto, o movimento chegou a uma situação difícil: na USP, a reitoria continuava enrolando nas negociações, sendo intransigente e arrastando a greve. Em alguns cursos, o DCE começou a tentar aplicar uma "estratégia" de conseguir vitórias locais, já que estava se tornando evidente que a greve não teria correlação de forças para conseguir sua "vitória" das diretas pra reitor. Reivindicam como exemplo em suas falas nas assembleias o curso de Educação Física, que conseguiu demandas extremamente insignificantes e corporativas, e os estudantes saíram da greve. É a mesma lógica que aplicaram na Unicamp: o melhor é sair da luta com a sua "pequena vitória" ao invés de se manter unificado ao resto dos estudantes, lutando pelas pautas que podem fazer a diferença. É a miséria do possível em sua expressão mais patética.

Nós, que não fazemos avaliações farsescas para tentar agradar ou moralizar ninguém, vimos que a única possibilidade de fazer o movimento avançar após tantas traições e erros, era radicalizar seus métodos e sua pauta, numa tentativa de trazer de volta à ativa milhares de estudantes que hoje estão em casa, fazendo com que nossa greve se enfraqueça, e ao mesmo tempo tentar dialogar com a população. Por isto propusemos uma ação de, em um ato político, quebrarmos os muros que dividem a USP da favela que está ao seu lado, a São Remo. Como já disse aqui antes, a história da São Remo confunde-se com a própria história da USP. A universidade, por sua vez, na tentativa de garantir "mais segurança" para a sua ilha da fantasia, ergueu muros no campus nos anos 1990, passou a restringir o acesso, vetou o projeto da linha amarela do metrô que previa duas estações dentro da Cidade Universitária, e colocou a polícia para patrulhar o campus. A mídia, para acabar com nossas greves, sempre as vendeu como mobilizações de privilegiados em defesa de seus privilégios. O DCE ajuda a fortalecer esta visão ao levantar como pauta central as diretas pra reitor. A nossa ideia era justamente mostrar que nossa mobilização é para democratizar radicalmente a universidade, de colocar para dentro os que estão excluídos pelo filtro social do vestibular, que só podem entrar na universidade para ocupar os postos de trabalho mais precarizados, colocando a universidade para funcionar a troco de superexploração. Mais uma vez, o DCE foi contra. Em sua concepção, este tipo de medida não dialoga. Em oposição propuseram um trancaço nos portões da USP no dia da negociação, para tentar desesperadamente arrancar alguma migalha e poder defender o fim da greve com alguma "vitória". Na tentativa de inventar vitórias, soltaram este comunicado em que enrolam muito para tentar vender suas supostas vitórias.

Agora, resta saber como vamos seguir nossa luta e derrubar os muros da USP de fato. Será que de vitória em vitória vamos chegar lá...?

quarta-feira, outubro 02, 2013

O dia D de "Dissolução do CO"!

Cartaz da Juventude às Ruas no ato do "Dia D" com programa que seria aprovado quase integralmente na assembleia à noite

(...) a consciência de classe não é uma coisa feita dos mesmos materiais
que as fábricas, as minas e os caminhos de ferro, mas de um material bem mais maleável; 
pode modificar-se rapidamente sob os golpes da crise,
sob o peso de milhões de desempregados.

- Trotsky, discussão sobre o programa com membros do SWP

A atual gestão do DCE (PSOL e PSTU) desde sua eleição estava com um plano bonitinho: os estudantes da USP vão se mobilizar em 2013 para votar pra reitor. Cada vez mais eu me convenço que este pessoal vê "os estudantes" como um tipo de gente à parte deles, gente que não deve entender as coisas e em cuja cabeça deve caber uma ou duas ideias por vez. Isto porque o programa deles para DCE falava somente duas coisas: cotas e diretas. E com isto e um programa bem colorido, desenhado e com mais de sei-lá-quantas-centenas-de-nomes em sei-lá-quantos-campi eles conseguiram se eleger, com uns consideráveis milhares de votos. E ficaram felizes, porque de novo tinham mais um ano de um grande aparato na sua mão para poder fazer esta política mesquinha. E dentro da gestão, o MES-PSOL por cima da carne seca e o PSTU...bem, o PSTU pode não mandar em muita coisa, mas pelo menos estão no aparato...e parece que cada vez mais para eles isto é o mais importante de tudo, porque NUNCA fizeram nenhuma crítica pública ao MES ou ao PSOL na gestão do DCE em dois anos de gestão em comum. Nem mesmo quando o DCE soltou a humilhante nota pública contra a "ocupação" da câmara feita "pela ANEL" (na verdade apenas pelo PSTU...).

Bom, tudo estava tranquilo com o DCE comandando a passividade na USP...mas aí veio junho, e tudo mudou. Tudo, menos a ideia do PSOL e PSTU que os estudantes sempre se mobilizam pelo que é mais evidente e "simples de entender", e não pelo que é mais correto e necessário. Façamos aqui uma distinção necessária: o PSOL é um partido essencialmente reformista, o que significa que sua estratégia para atingir o socialismo é conseguir pequenas reformas graduais por dentro do sistema capitalista até (supostamente) atingir o socialismo por vias pacíficas. O PSTU é um partido centrista, ou seja, que oscila entre posições reformistas como as do PSOL e posições revolucionárias - que têm como estratégia atingir o socialismo através de uma revolução, ou seja, da derrubada do Estado burguês e do sistema capitalista. Assim, as justificativas que cada um tem para suas "diretas pra reitor" são diferentes: o PSOL quer é "uma boquinha" no regime universitário, sonham em eleger seu mais novo filiado, o "pop star" da Filosofia, Vladimir Safatle, como reitor da USP. Assim como fizeram na Unifesp, onde a reitora já é do PSOL. O PSTU não: eles acham que garantir a votação pra reitor hoje realmente não vai democratizar de fato a USP, mas é "uma vitória", e quando os estudantes conseguem uma vitória eles se mobilizam por mais e..."de grão em grão o socialismo enche o papo".

Nós que militamos na Juventude às Ruas e na LER-QI achamos isto uma baboseira. As pessoas se mexem quando elas sentem que vale à pena se mexer, e o avanço de consciência não é feito por "etapas" ou "degraus". Elas foram às ruas em junho por isto: porque não aguentavam mais e acharam que valia a pena lutar. Quando algum reformista ou centrista me faz a já gasta comparação entre os vinte centavos (uma migalha!) e as diretas pra reitor, eu só posso ver nesta equivalência uma enorme lógica formal, um pensamento quadrado, estanque e nada dialético. Lênin dizia que os revolucionários devem estar na linha de frente da luta por cada demanda específica e econômica dos trabalhadores para elevá-las ao patamar de uma luta política contra o regime. Foi assim que atuamos em junho: estávamos na linha de frente pela redução da tarifa, mas em nenhum momento deixamos de apontar que a única forma de garantir um transporte público, gratuito e de qualidade para todos é a estatização do sistema de transporte sem indenização sob controle dos trabalhadores e usuários. PSOL e PSTU fazem o contrário: eles se diluem e se adaptam à consciência mais atrasada, para assim "dialogar" melhor. Deixam de cumprir o papel de qualquer organização revolucionária que mereça este título, e ao invés de tentar se fundir com as massas elevando o nível de seu programa, estratégia e organização, se diluem rebaixando seu próprio nível e passam de vanguarda à retaguarda que é arrastada pelas massas.

O irônico é que estas organizações se acostumaram a tal ponto a abrir mão de um programa correto em nome de "dialogar com as massas", que quando as massas vão à esquerda e assumem demandas mais progressistas, elas acabam passando por cima destas organizações com seus programas "dialogados". Trotsky dizia que muitas vezes os revolucionários estarão contra a corrente. Isto não quer dizer que não tenhamos que fazer pontes entre a consciência de nossa época e a necessidade do socialismo. Mas quer dizer que não abrimos mão de defender o que defendemos, pois se não perdemos o sentido de existir!

E ontem o DCE foi, feliz da vida, para o ato com centenas de estudantes, cujo mérito de ter construído e mobilizado a partir dos cursos foi centralmente deles, pois afinal são as maiores correntes do movimento e estão em muito mais lugares do que grupos minoritários como a Juventude às Ruas. E no ato, levaram com eles a "solução" para todos os problemas: desde a contaminação no campus da EACH, passando pelo currículo da Direito, pelas catracas da FEA, pela falta de professores da Letras, pela reforma da FAU, pelos espaços estudantis da ECA...tudo se resolveria... votando pra reitor!!! E eles convenceram centenas de estudantes disto, porque, afinal fazia sentido! Se eu voto pra reitor, posso exigir uma representação adequada! O curioso aqui é como se deu esta mobilização: o DCE colocou seus esforços, e colocou mesmo para discutir as diretas pra reitor nestes cursos, e fez uma coisa correta ao dizer que os problemas específicos estão ligados a como se governa a universidade em seu conjunto; mas ao fazer isto deu esta resposta capenga, que não responde em nada! No fim das contas, estão dizendo: o problema não é esta burocracia parasita e nojenta que governa a universidade, o problema é que eu não posso votar em um dos burocratas! E eles convenceram os estudantes achando que esta pauta era a mais mobilizadora. E os mobilizaram para o seu "Dia D" de "Diretas pra reitor". Só que este D foi de outra coisa...

Algo saiu do script do DCE, logo quando eles tinham centenas querendo votar pra reitor mobilizados. A primeira coisa é que fazia tanto tempo que eles não ocupavam uma reitoria, que já não sabiam mais como se fazia: os últimos militantes destes partidos que participaram de uma ação assim se formaram há tempos. E lá se foram eles, querendo derrubar portas de aço blindadas com chutes e pedaços de pau! Mas tudo bem, este problema foi contornado: conseguimos enfim, sob a liderança um pouco atrapalhada do DCE, entrar pela porta lateral. Tinha outro problema por vir, no entanto, e este era um pouco mais grave. O problema é que pra lá dos milhares de votos despolitizados nas eleições, das reuniõezinhas de cúpulas às sextas-feiras na salinha do DCE, dos conchavos de gabinete com mil e um burocratas, para lá de tudo isto existe um pessoal que teima em existir e atrapalhar os planos do DCE; este pessoal são aquelas "seitas ultra-esquerdistas" que "não dialogam com as massas". Entre estas "seitas ultra-esquerdistas" (qualquer semelhança com o discurso dos burocratas da CUT do Sindicato de Bancários sobre os quais escrevi outro dia não é, infelizmente, mera coincidência) está a Juventude às Ruas.

E nós estávamos no ato e na assembleia de ontem, com cerca de 800 estudantes. Contudo, o DCE não prima pela democracia nestas assembleias. Imagino que, na visão deles, dar espaço democrático para estas "seitas" falarem e colocarem suas propostas não ajuda a democracia de fato, que vai se realizar plenamente no diálogo entre seu programa rebaixado e os "estudantes normais". Assim, ontem, eles ligaram o trator e passaram por cima de nossa proposta de discutir cada ponto de nossos eixos de greve; isto levou a que rapidamente aprovassem um "blocão" de propostas com a solução para todos os problemas que já haviam apresentado para os estudantes ali presentes: "eu quero votar pra reitor!"

Foto do meu celular sem flash da assembleia geral em frente à reitoria

Mas, ao contrário do que o DCE pensa, os estudantes são bastante espertos, e sua consciência pode avançar aos saltos quando a situação histórica permite. E, depois de junho, a situação histórica neste país permite. O balanço que o DCE faz de junho é: conseguimos os vinte centavos, e agora os estudantes estão muito mais fortes para conseguir as diretas pra reitor. Nós, por outro lado, achamos o seguinte: em junho as pessoas disseram basta, e começaram por vinte centavos mas terminaram questionando os governantes e seus esquemas. Se o próprio regime eleitoral decrépito da burguesia está sendo questionado, porque os estudantes aqui dentro vão querer entrar em greve para votar pra reitor? Se votar pra presidente, governador, prefeito e parlamentares não mudou nada, o que vai adiantar votar pra reitor? As pessoas se mobilizam por mudanças efetivas. E elas estavam lá com a pauta de diretas ontem porque era a mudança mais efetiva que viam. No entanto, ao longo da assembleia ouviram pela primeira vez outras propostas: ficaram sabendo que quem dirige de fato a universidade é o Conselho Universitário (CO, de acordo com a sigla imbecil criada pela reitoria), que é composto por um punhado de professores parasitas que lucram com a terceirização e as fundações privadas; que para mudar a USP precisamos acabar com este CO e fazer um novo Estatuto; que a forma mais democrática de governar a USP é com um governo composto por professores, funcionários e estudantes, com membros revogáveis. Todas estas propostas foram aprovadas ontem na assembleia, para o desgosto do DCE que apenas "quer votar pra reitor".

Contudo, as resoluções da assembleia ainda expressam a confusão entre o programa velho (diretas pra reitor) e o novo, que responde em sua raiz aos problemas da democratização da USP. Agora, trata-se de ir pra cada curso desta universidade discutir com os estudantes este programa. Enquanto isto, o DCE da USP deve estar quebrando a cabeça com a seguinte questão: ora, mas estes não são uma seita parasita com um programa que não dialoga com os estudantes? Mas a assembleia não era composta por estudantes que aprovaram o programa deles? O programa que não dialoga com os estudantes? Então, podemos concluir que os estudantes não dialogam com os estudantes... que esquisito né? Como será que o DCE vai resolver este enigma?
Outro craft da Juventude às Ruas e do Pão e Rosas com outra parte fundamental de programa (a ser aprovado em breve...?)
Por fim, espero poder desenvolver este tema em outros textos, se a falta de tempo durante a greve permitir! Mas acho fundamental antecipar e deixar registrado que a nossa greve só pode ser vitoriosa se conseguirmos extrapolar as demandas da USP e nos aliarmos aos trabalhadores levantando alto as demandas de efetivação dos terceirizados sem concurso público e por cotas raciais proporcionais e pelo fim do vestibular. Por uma USP radicalmente democrática!!!