quinta-feira, agosto 29, 2013

Medicina, racismo e elitismo no Brasil: uma combinação de classe feita para matar



Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõem a partir da aparência... coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo.

- Michele Borges, jornalista em seu Facebook.

Eu estive lá, eu vi de perto quem são e como se formam as pessoas que se juntaram por um instinto de auto-defesa corporativa para chamar os médicos cubanos de “escravos”. Passei mais de um ano estudando medicina com estas pessoas, e posso afirmar que foi uma experiência que marcou minha vida. Me ensinou muito concretamente algo que eu viria a aprender teoricamente apenas alguns anos depois: que a sociedade em que vivemos é dividida em classes, com interesses antagônicos e irreconciliáveis.

Quando estive em uma faculdade privada de medicina, a Unisa, nos anos de 2003 e 2004 eu não era comunista. Estava muito longe disso. Era petista, acreditava que a única possibilidade que restava à humanidade era fazer do capitalismo o menos pior que ele pudesse ser. A verdade é que eu pensava assim porque havia crescido e passado toda a minha adolescência na bolha da pequena-burguesia, e isto me impedia de ver o mundo tal como ele é; contudo, todo tipo de alienação e limitação em minha visão política que eu pudesse ter por conta de minha condição de classe era algo que se relativizou muito quando entrei na medicina: para os parâmetros de lá, eu era um subversivo total. Eu não sabia disto até o primeiro dia de aula...

Meu primeiro “ato subversivo” na faculdade foi ter cabelo comprido. Segundo fui informado aos berros por um estudante do sexto ano, que insistia também que eu “não tinha direito” de olhar para seu rosto enquanto ele falava comigo porque eu era um “bixo”, o fato de eu ter cabelo comprido não apenas não era uma “postura adequada” para um profissional médico, como também um ato de arrogância, afinal “quem eu pensava que era” para não cortar o cabelo como todo mundo havia feito. Estas duas “acusações” me foram repetidas algumas dezenas de vezes nos meus primeiros dias na faculdade, quando eu era literalmente escoltado por dois seguranças privados entre os três que haviam sido contratados pela faculdade para “impedir trotes” depois que a Unisa foi processada pelos pais de uma caloura, e que outro calouro teve queimaduras na virilha após terem jogado querosene nele porque ele era um “bixo rebelde”. Quando me acusavam de “arrogante” porque eu supostamente “me achava melhor do que os que haviam cortado o cabelo”, a minha resposta era bastante simples: “mas eu acho que ninguém deve ser obrigado a cortar o cabelo”. Meus “superiores” da faculdade ficavam estupefatos...acho que nunca tinham pensado em uma possibilidade tão subversiva! Como assim? É a tradição! Você entra, toma trotes e depois os aplica. Assim você aprende quem manda e quem obedece. E você obedece para depois mandar. É a hierarquia.

O racismo nojento que se expressou nos gritos de “escravos” contra os médicos cubanos tampouco é incomum e para mim não foi novidade. Basta dizer que os trotes contra os calouros são aplicados até o dia 13 de maio, pois é o dia da “libertação dos escravos”. Na visão dos estudantes de medicina, é claro, apenas uma “piadinha inocente” com a carnificina secular à qual submeteram o povo negro.

Vou poupá-los de um tanto de histórias semelhantes que seriam suficientes para um livro e contar apenas mais dois episódios: um deles se deu quando eu cometi o erro de ir a uma “confraternização” da faculdade, fora do campus, onde eu estava totalmente à mercê dos imbecis, cuja opinião sobre mim àquela altura (minha fama de “pau no cu”, como eles diziam para se referir a quem não se adequasse às suas regras e hierarquias, já havia corrido os quatro cantos da faculdade) não devia ser nada melhor do que a que têm sobre os médicos cubanos. Depois de ser submetido a algumas rodadas de cerveja na cabeça, de ser obrigado a beber cerveja com meu próprio cabelo cortado dentro dela, de ouvir todo tipo de insulto gritado e cuspido em minhas orelhas, meus “superiores” me obrigaram a subir em uma mesa para entoar o glorioso hino da faculdade tantas vezes quantas fosse necessário até que todos os presentes se dispusessem a me acompanhar. Faço questão de dividir a letra com vocês:

Pessoal!
Xá! (o coro responde: Vasca!)
Xá! Vasca!
Xavasqui! Xavascá! Xavasqui e acolá!
Enfia o dedo nela que ela vai arreganhar!
O que? Arre-ga-nhar!
Na rima do pudendo (termo médico que designa a fissura formada pelos grandes lábios da vagina)
eu entrei mordendo!
É a Med Santo Amaro que está te fodendo!
Medicina! Santo Amaro! Hooool!

Havia umas tantas outras músicas que expressavam a sofisticação humana dos meus colegas. Vou reproduzir apenas mais uma, em homenagem à coruja loka – singelo símbolo da Atlética (o grande órgão venerado pelos estudantes):

A coruja bota no seu cu!
E goza, e goza, e goza na sua boca!
Loca! Loca, loca, loca, locaaa!
Coruja loca!

Em seguida, após eu passar pelo ritual de iniciação, a pose de oficial do exército foi deixada de lado por um dos veteranos, do sexto ano, que veio conversar comigo “sinceramente”. Disse-me que eu não podia ter aquele tipo de postura, que agora sim eu estava agindo de acordo, que nós precisávamos de união. “Você já ouviu falar da máfia de branco?” Ele disse. “Nós somos a máfia de branco. Se você precisar de ajuda, somos nós que estaremos lá para nos ajudarmos. Numa prova, quando tivermos que colar, somos nós que nos apoiaremos. Se acontecer alguma coisa com um paciente, somos nós que vamos ter que acobertar. Por isto precisamos ficar unidos”.

Sim, é isto: é uma corporação no sentido forte do termo. Eles defendem seus interesses. Por isto se unem para repelir os médicos cubanos que estão entrando em “seu território”. Por isto se unem para defender o Ato Médico para tirar os outros profissionais da saúde do “seu território”. Por isto fazem rituais de iniciação medievais, tais como se faz na polícia ou no exército, tais como os do Capitão Nascimento, para iniciar os “seus” em “sua corporação”. Eles realmente se consideram melhores do que todos os outros seres humanos, e não há exagero aqui. Apenas uma vez consegui conversar com estudantes de outro curso no campus, que abrigava todos os cursos de biológicas. Eles não sabiam que eu era estudante de medicina. Quando lhes disse, imediatamente queriam interromper a conversa: já conheciam este tipo de gente. Apenas se abriram novamente quando lhes confessei que eu também tinha desprezo pelos meus colegas de curso e vice-versa.

Há outra ocasião que quero compartilhar: a visita ao hospital ligado à universidade, o Hospital Geral do Grajaú (HGG), e a visita à unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) conveniado com a universidade. No hospital, pela primeira vez fui bem tratado por uma estudante do sexto ano. Era uma moça que talvez não tivesse contato ou não se importasse tanto com a minha “fama”. Ela me recebeu bem, me explicou tudo, foi extremamente gentil. Então, chegaram os pacientes. O HGG é hospital de referência da região, onde vão parar todos os casos minimamente graves. A estudante estava no último ano de seu internato, período em que é “obrigada” a atender no hospital. A rudeza com a qual ela recebeu o paciente me deixou atônito. Pegando a sonda que estava nele e a examinando rapidamente junto a uma papelada, ela identificou que já havia recebido o paciente e que indicara que ele marcasse uma consulta no ambulatório de especialidades da faculdade. “Eu não te mandei ir lá marcar a consulta? Por que você não foi? Por que voltou aqui?” O paciente, certamente intimidado em sua condição de trabalhador e pobre diante do poder implícito do jaleco e do título da “doutora” da “máfia de branco”, respondeu humildemente que ele havia tentado marcar a consulta, mas que eles tinham vagas somente para dali a três meses, e que ele precisava limpar a sonda antes disso, e que não tinha condições de esperar tanto. Perguntava se ela poderia fazer alguma coisa por ela. Mesmo que ela quisesse muito, o que estava longe de ser o caso, não poderia: esta é a principal agonia que eu antevia na minha profissão depois de estar formado - a impossibilidade de ajudar meus pacientes mesmo que fosse um médico competente, porque simplesmente não há nenhuma infraestrutura mínima para realizar o trabalho.

A estudante conseguia habilmente ser gentil quando se dirigia a mim, de forma atenciosa perguntando se eu queria ajudar a trocar a sonda, e estúpida, rude, impaciente quando se dirigia ao paciente que “não entendia nada” das “ordens médicas”. Não posso deixar de lembrar dos médicos cubanos, negros, como os pacientes maltratados daquela interna. Negros “com cara de empregada”, a quem gente que paga alguns milhares de reais por mês para estudar numa faculdade privada de medicina está acostumada a tratar como uma categoria inferior de seres humanos. Assim que o paciente deixou o consultório, ela desabafou comigo: “Ainda bem que só faltam seis meses para eu sair daqui!”. Em seguida, se tudo desse certo, ela faria residência e abriria seu consultório particular, para nunca mais precisar encostar ou se dirigir a um negro ou um pobre na condição de paciente, e eles voltariam a ocupar o lugar invisível de subalternos que a médica desejava para eles em sua vida.

Quando fomos ao PSF, passamos em pequenos grupos de estudantes do primeiro ano nas casas da favela do Grajaú junto com a agente comunitária, recrutada entre os moradores dali mesmo. Imaginem vocês aqueles estudantes que provavelmente nunca entraram em um ônibus na vida, andando em uma favela. Depois de tantas visitas e tantas casas, a agente desabafou conosco: “Ainda bem que vocês estão vindo aqui, para ver como é. Nós precisamos muito de mais médicos aqui. O pessoal se forma e vai embora, nunca mais volta e nós ficamos sem médicos para nos atender.” Ela se afasta, um colega compartilha seus sentimentos íntimos conosco: “Ah, me desculpa, mas eu nunca trabalharia aqui.” Ele continuou seu discurso, mas acho que meu cérebro, após estes anos, preferiu bloqueá-lo de minhas memórias para me poupar um pouco. Hoje, lembrando disso, penso nos médicos que chamam os negros cubanos que deixaram seu país por um salário de R$10 mil reais, cuja metade será paga ao ministério da saúde de Cuba, de “escravos”. Quem trabalharia por esta miséria? Na visão deles, apenas os médicos negros, “escravos”, com “cara de empregada”. Será que eles sabem que isto é muito mais do que ganha a maior parte dos trabalhadores do Brasil? Será que eles se importam? O que meus colegas disseram já responde a estas perguntas.

Eu poderia continuar escrevendo muito, muito mesmo, sobre o que há de podre na medicina. Foram estas coisas que me fizeram largar o curso ainda no segundo ano. Eu não seria capaz de conviver com esta gente, com seu modo de pensar, de viver. Talvez eu ficasse deprimido, talvez fizesse um atentado ao estilo “jovem americano” entrando na faculdade e fuzilando a todos. Preferi sair. Amadurecendo minha visão política nos anos seguintes pude perceber as causas sociais que levam os médicos e a medicina a serem assim. Talvez esta experiência pessoal tenha ajudado a me empurrar um pouco mais rápido para o socialismo. O que sei é que trazer um punhado de médicos cubanos pode escancarar a mentalidade podre de nossos médicos, mas pouco ou quase nada pode fazer para ajudar a que o povo pobre e trabalhador a ter acesso a condições mínimas de saúde. E, sem dúvida, a mudança desta situação não virá pelas mãos de Dilma nem de nenhum governante a serviço deste Estado. Virar a medicina brasileira de cabeça para baixo é uma tarefa para a revolução operária e socialista.

segunda-feira, agosto 05, 2013

#Partiu Zanon!








 Posso dizer sem muito receio de errar que o período no qual cresceu minha geração foi um dos mais tristes e sombrios desde que se iniciou a história do capitalismo. Está certo que em relação a momentos como as guerras mundiais ou a crise dos 30, ou mesmo os primórdios do capitalismo industrial, grande parte das pessoas sofreu menos privações materiais ou sofrimento físico. Mas é uma geração da qual a burguesia roubou algo muito mais valioso do que qualquer privação material poderia impor: a possibilidade de acreditar em um mundo distinto, em um futuro melhor para a humanidade; s possibilidade de se ver enquanto sujeito da história e da superação da miséria da humanidade. A mim, pelo menos, nada parece mais assustador do que a ideia de que a história acabou – que, por incrível que pareça, teve nas décadas passadas seu breve período de apogeu e triunfo.
            Digo isto para tentar explicar um pouco que seja o que alguns jovens desta geração, alguns dos quais estas ideias pareciam inacreditáveis, podem sentir diante de uma  pequena – porém fundamental – trincheira no combate a esta derrota que a possibilidade de um futuro sofreu enquanto nascemos e crescemos. A trincheira da qual eu falo é fruto de um combate árduo que já dura mais de uma década, protagonizado por algumas centenas de operários e com o apoio imprescindível de uma camada mais ampla de estudantes, desempregados, indígenas, presidiários, donas de casa, enfim, de todo um setor da população que corretamente reconheceu na luta destes trabalhadores o seu próprio combate por uma vida mais digna. Trata-se de um pequeno exemplo da luta de classes – aquela que queriam nos fazer acreditar que havia desaparecido – na qual a classe que gesta dentro de si o futuro – o proletariado – conquistou para si e para os demais explorados e oprimidos do mundo, uma vitória.
            Foi na crise de 2001 na Argentina que isto começou. Com a queda de cinco presidentes, a revolta de amplos setores da classe média, uma crise econômica profunda e generalizada, centenas de fábricas foram ocupadas. O capital tratou mais uma vez de demonstrar sua força, maleabilidade e poder não apenas de repressão – acabando com diversas ocupações com o aparato policial – mas também de cooptação – tratando de impor a que muitas ocupações se tornassem cooperativas e os seus trabalhadores passassem a ser pequenos empreendedores, pequenos patrões e capitalistas. Em Zanon, fábrica de cerâmica localizada na província de Neuquén, no sul da Argentina, a história foi outra. Os trabalhadores ocuparam a fábrica, colocaram-na para produzir, resistiram bravamente todas as investidas da polícia, conquistaram o apoio do povo pobre, dos estudantes e dos indígenas. Um pequeno exemplo mostra a grandeza da luta: os presidiários de um presídio local decidiram apoiar a luta, e para isto fizeram greve de fome para doar sua própria comida aos trabalhadores de Zanon em luta.
            A fábrica virou patrimônio do povo, doando sua produção para a construção de hospitais e escolas que o governo se recusava a construir. Aumentou o número de postos de trabalho, empregando uma parte dos desempregados que apoiaram a luta dos operários. Estudantes da universidade se aliaram aos trabalhadores ajudando-os a gerir os aspectos da produção dos quais eram tolhidos no sistema patronal da divisão do trabalho entre o intelectual/técnico e o físico/produtivo, colocando de pé, assim, um verdadeiro pacto operário-universitário que mostra o potencial transformador da universidade quando ela coloca seu conhecimento a serviço dos trabalhadores. Os indígenas do povo Mapuche apoiaram os operários cedendo-lhes a matéria-prima, argila, que se encontrava em seu território e que antes era roubada pelo proprietário da fábrica.
            Após dez anos de luta, o povo de Neuquén e os operários de Zanon (rebatizada como FaSinPat – sigla para Fábrica Sem Patrões) conseguiram dobrar até mesmo o sagrado direito burguês da propriedade privada, e impuseram que se reconhecesse legalmente a expropriação da fábrica. Mas sua luta vai muito além dos limites de uma fábrica, pois os operários aprenderam no curso de sua luta que é necessário lutar por muito mais, que as injustiças não se iniciaram e não terminam nos portões de Zanon, e que tampouco é possível derrotá-las restringindo a luta. O primeiro passo foi retomar o Sindicato Ceramista de Neuquén das mãos da máfia que o controlava, uma verdadeira corja de burocratas sindicais que sustentavam-se fartamente fazendo do sindicato um mantenedor dos interesses patronais. Em Neuquén, como em qualquer parte do mundo, a tarefa de expulsar os burocratas dos sindicatos é fundamental para retomar um dos principais instrumentos de lutas dos trabalhadores. Para assegurar que o sindicato permanecesse assim, o estatuto do sindicato foi reformulado de forma a que seus dirigentes não gozassem de privilégios, e que tivessem o limite de um mandato sindical para que depois retornassem a seus postos de trabalho nas fábricas. Como ensinou Marx há um bocado de tempo, nossa consciência está em primeiro lugar determinada pelas nossas condições materiais de vida. Um dirigente sindical que receba um salário bem maior do que aquele que recebia na fábrica, e ainda por cima possa se manter por décadas fora da linha de produção se reelegendo indefinidamente como dirigente sindical, tem todos os motivos para se tornar um burocrata, que passará a vender os interesses dos trabalhadores aos patrões em nome de garantir seus próprios privilégios materiais. É o caso de quase todos os ratos parasitas da CUT, Força Sindical e outras centrais sindicais vendidas em nosso país.
            Vários anos depois, os operários deram mais um passo na luta contra seus inimigos de classe, desta vez conquistando um posto avançado dentro de território que, por sua própria natureza, é do inimigo: o parlamento de Neuquén. A partir da conformação de uma Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, na sigla em espanhol), composta pelo PTS (organização irmã da LER-QI, na qual eu milito aqui no Brasil), pelo PO e pela IS, se elegeram dois operários de Zanon para revezarem o mandato entre si e com mais um companheiro da IS. O primeiro ano foi ocupado pelo operário de Zanon, o companheiro Alejandro López, que não é de nenhum partido. Atualmente, está na bancada parlamentar Raul Godoy, também operário de Zanon e dirigente do PTS. Da mesma forma que no sindicato, o mandato parlamentar não poderia significar um privilégio material, e Godoy recebe o mesmo salário que recebia na fábrica, doando o restante para um fundo de lutas dos trabalhadores. Propôs também um projeto de lei que ficou conhecido nacionalmente, de que todos os parlamentares recebessem o mesmo salário que uma professora do ensino básico. Para nós, esta é uma atuação exemplar, que denuncia a podridão do regime político da burguesia e contrasta enormemente com o péssimo exemplo do parlamentar do PSOL Jean Wyllys, que recentemente defendeu publicamente o salário de R$ 26.000 que recebem os parlamentares aqui, como “justo”. Godoy também esteve recentemente na Grécia, conversando com os operários da fábrica Vio.Me – sob controle operário desde 2004 – para apoiar sua luta com a experiência de Zanon.
            Isto é apenas um pouquinho da história da luta de Zanon. Que por sua vez é ainda uma pequena, minúscula, vitória dos trabalhadores em sua luta contra o capital. Mas para nós, revolucionários que dedicamos nossas vidas a esta luta, a luta de Zanon é um grande exemplo. É isto que explica o plano de dez jovens que decidiram viajar em dois carros até o sul da Argentina para conhecer de perto esta experiência. Em Porto Alegre, os companheiros fizeram uma grande campanha financeira, organizando festas e arrecadações para poder custear sua viagem. E eu, quando fui convidado a fazer parte da viagem como parte da delegação da LER-QI, me senti privilegiado pela oportunidade de ir pessoalmente pela primeira vez ver o exemplo que meus camaradas do PTS dão em conjunto com os operários independentes em Zanon.
            Revezando-nos em cinco motoristas, partimos pelas estradas em uma comitiva de dez pessoas, entre paulistas e gaúchos; militantes da LER-QI e companheiros independentes; professores, estudantes e metroviários; todos com o objetivo comum de buscar o exemplo e a inspiração para seguirmos em nossas cidades e no dia-a-dia na luta coletiva e histórica de milhões de mulheres e homens contra o sistema de exploração e miséria em que vivemos.
            Mas no meio do caminho havia uma lebre. Eu, que estava dirigindo o carro, não me lembro de nada devido a uma pancada na cabeça. Só sei do que me contaram, que quando fui desviar da lebre, certamente por impulso, o carro capotou, ficando completamente destruído e ferindo três companheiros. Pelo estado em que o carro ficou, somos todos unânimes em afirmar que tivemos bastante sorte. Comigo, apenas uma mão quebrada e dois pontos na outra, além da batida na cabeça. Valéria teve um corte no rosto, uma pancada na cabeça e uma clavícula fraturada; também não foi nada muito grave. Mas, infelizmente, nossa companheira Paula teve ferimentos mais graves: fraturou a bacia e a vértebra lombar, L2, que por sorte não atingiu sua medula. O acidente na estrada da província de La Pampa, quando faltavam cerca de 400 km para chegarmos a Zanon,  transformou nossa viagem drasticamente.


            Recebemos prontamente toda a ajuda dos poucos camaradas do PTS que militam em Santa Rosa, capital de La Pampa, que em plena campanha eleitoral se desdobraram em mil para nos ajudar. Imediatamente também a LER-QI e o PTS enviaram camaradas para ajudar em tudo o que fosse possível. Paula foi informada que precisava fazer uma cirurgia para colocar uma prótese no lugar da vértebra fraturada, que deveria ser feita o quanto antes pois qualquer movimento indevido poderia atingir sua medula, trazendo graves conseqüências e podendo mesmo deixá-la paraplégica. Contudo, se há uma coisa que não vale nada no capitalismo, é a vida de uma pessoa que não tem dinheiro. E este é o caso da minha companheira Paula, cuja cirurgia foi adiada já por três vezes, com o hospital inventando mil histórias absurdas e mentirosas, como de que a prótese precisaria vir de Buenos Aires, o que foi desmentido pelo próprio hospital ao cônsul brasileiro em uma ligação telefônica.
            Desde os primeiros momentos, Paula mostrou a força, a firmeza e a coragem de uma verdadeira revolucionária. Apesar da angústia de ficar presa à cama, praticamente imóvel, apesar das fortíssimas dores que sente e que os anestésicos só são capazes de aliviar parcialmente, apesar dos absurdos que o sistema público de saúde a está submetendo, Paula encara a sua situação de forma valente, apesar dos momentos inevitáveis de angustia, tristeza e desespero. Insistiu aos companheiros que estavam em condições que seguissem a viagem até Zanon para conhecer a fábrica, mesmo chorando porque não poderia ir com eles. Combinei, ao pé do seu leito, que não deixaremos de ir até lá quando ela estiver melhor. Em meio a sua dor, Paula não deixa em nenhum momento de sentir e manifestar gratidão pelos companheiros que estão se esforçando para ajudá-la, em especial a Silvia que desde o começo está ao seu lado no hospital, e sua mãe, que sem falar uma palavra de espanhol também está lá a seu lado.
            Em Porto Alegre, ocorre uma emocionante demonstração da solidariedade entre os lutadores, com o Centro Acadêmico de História da UFRGS, onde Paula estuda, organizando uma campanha financeira, e uma vigília no consulado da Argentina para pressionar os burocratas a que realizem logo a cirurgia da Paula. Aqui em São Paulo nós da LER-QI também estamos organizando uma comitiva para ir ao consulado. O cartunista Latuff também se solidarizou e fez uma charge denunciando o enorme descaso dos governos brasileiro e argentino com a situação da Paula.
            Se não pude conhecer Zanon nesta viagem, pude aprender muito mais na prática sobre a solidariedade de classe. A sensibilidade, a disponibilidade e a atenção dos camaradas do PTS, sejam os companheiros de La Pampa, seja do companheiro Juan que veio de Neuquén nos ajudar, é uma lição revolucionária. Sem nunca terem visto Paula  e nem nenhum de nós na vida, os camaradas fizeram de tudo para nos ajudar. Os laços que unem os revolucionários, e que os unem aos seus companheiros de classe, podem ser muito mais fortes do que qualquer amizade. O que nos une é um projeto de vida, uma luta em comum. Aprender a ser mais humano, contudo, é uma tarefa difícil neste mundo, e os camaradas sem dúvida me ajudaram muito nisto.
            As maiores lições e exemplos, contudo, quem deu foi a Paula, deitada em sua cama no hospital. Para além de todo o carinho que Paula tem com todos os que a ajudam, ela mostra uma grandeza de espírito imensurável ao não deixar que a dor que a aflige feche seus olhos para a exploração dos que estão ao seu redor. Em seu leito, escreveu no seu perfil no Facebook: “a situação dos enfermeiros e enfermeiras aqui é durissíma, chegam a trabalhar 5 dias direto, o hospital sempre lotado de situações horríveis, o meu caso não é nem de longe o mais grave, o esgotamento desses trabalhadores é visível, a galera que faz a limpeza do hospital é terceirizada, não preciso dizer que sendo assim trabalham pra caralho ganhando uma miséria e são na maioria mulheres, juntando lixo hospitalar que é perigosíssimo, e limpando os quartos e banheiros todos os dias correndo o risco de pegar infecções. Digo tudo isso porque essa luta que todas e todos vocês estão travando ultrapassa a pressão para que se agilize minha cirurgia que é urgente, mas nos demonstra a desumanização de todo um sistema, o quanto essa merda explora, mata, não está nem aí e oferece o mínimo para o ser humano poder seguindo sendo explorado, mal tratado em nome do lucro das figuras ilustres que estão bem confortáveis nesse momento tendo resolver um caso de descaso.”
            Quando leio isto penso que precisamos urgentemente de mais Paulas no mundo. Quando tudo isto passar, Paula ainda irá em algum momento conhecer Zanon. Mas, na verdade, o que há de melhor em Zanon já está dentro dela. E me orgulho de sua luta hoje e das que iremos travar lado a lado no futuro: a mesma luta dos operários de Zanon, da classe trabalhadora mundial e dos explorados deste mundo.      

  

terça-feira, julho 02, 2013

O "povo" acordou. Um debate com ideias que estão nas ruas.


As ideias dominantes de um tempo foram sempre
apenas as ideias da classe dominante.

- Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto do Partido Comunista.

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.

- Frase dos estudantes franceses nas lutas de maio de 1968.

         Centenas de milhares estão nas ruas por todo o país. Dobramos os governos do PT , PSDB e PMDB, e revertemos o aumento das tarifas em dezenas de cidades. O “povo” acordou. As aspas estão aí porque para entendermos o que está acontecendo, é preciso compreender de que povo estamos falando. Só assim podemos saber para onde nosso movimento vai, e inclusive tentar influenciar os seus rumos.
Nós, marxistas, analisamos as coisas a partir de suas condições materiais de existência: ou seja, tentamos entender como as ideias que surgem estão relacionadas às condições concretas de seu surgimento, as circunstâncias históricas que motivaram sua existência. Neste sentido pensamos também o “povo”: entendemos que a população da nossa sociedade é marcada, entre tantas coisas, por uma divisão fundamental: as classes sociais. As pessoas pertencem a uma ou outra classe social conforme seu papel na produção de tudo o que existe em nossa sociedade, ou seja, conforme as condições materiais de sua existência. E seus objetivos, seu modo de ver e pensar o mundo, estão sem dúvida bastante condicionados a isto (ainda que existam mil e uma outras influências que podem ser também determinantes).
Desde que existe o capitalismo, são duas as classes fundamentais da nossa sociedade, cujos interesses estão em oposição. Há os que vendem a sua força de trabalho para um patrão em troca de um salário: estes pertencem à classe trabalhadora, ou proletariado. E há os que são patrões, que empregam a força de trabalho de outras pessoas e em troca lhes dão um salário, ficando com a maior parte do resultado do trabalho de seus empregados (lucro): estes são a burguesia, a classe dominante em nossa sociedade do ponto de vista tanto político quanto econômico. O interesse da burguesia é manter a sociedade tal como ela é, para assim manter seu lucro e sua exploração sobre os trabalhadores; já o proletariado só pode se libertar de sua própria exploração acabando com o capitalismo e colocando a produção social como um bem coletivo. Entre estas duas classes fundamentais, há um meio termo nada desprezível numericamente de pessoas que trabalham “por conta própria”, sem vender sua força de trabalho para um patrão mas também sem explorar o trabalho alheio. A estes chamamos de pequena burguesia, e incluem desde profissionais liberais como médicos e advogados, passando por camelôs e donos de pequenos negócios, até pequenos agricultores. As multidões que saem às ruas hoje nos protestos não são homogêneas em sua composição de classe, e incluem tanto a classe trabalhadora como a pequena-burguesia, que por conta desta diferença de classe têm interesses distintos nas manifestações. Algumas consequências disto foram bem tratadas no texto de Iuri Tonelo. Nós, marxistas, tomamos partido da classe trabalhadora no conflito que existe entre as classes sociais, pois entendemos que a dinâmica de nossa sociedade coloca como tarefa desta classe dirigir a luta contra esta sociedade de exploração e miséria, libertando a si própria e ao restante da humanidade.
                O objetivo deste texto é tentar abordar algumas das principais ideias que têm surgido nestas manifestações, não apenas em consequência da heterogeneidade de classe dos manifestantes, mas principalmente porque carregam muito do senso comum que se forjou na geração que hoje está nas ruas. Uma geração que não viu revoluções. Algumas destas são as ideias que aprendemos com nossas famílias, nas escolas, na televisão, nos jornais. Enfim, são as ideias dominantes da nossa sociedade, e que são transmitidas pelas instituições sociais criadas e controladas pela burguesia; e por isto transmitem valores que, de uma forma ou de outra, atendem a seus interesses. Por isto, mesmo os trabalhadores são educados com valores contrários aos seus próprios interesses, com os mesmos valores de seus patrões que vivem de explorá-los. O objetivo aqui é abrir um debate franco com muitos dos que carregam algumas destas ideias, para discutir como elas podem – muitas vezes ao contrário do que desejam aqueles que as defendem – significar um atraso para o movimento que sai às ruas querendo lutar por uma sociedade melhor. Na verdade, justamente porque algumas destas ideias defendem os interesses dos patrões, muitas vezes elas são pontos de apoio dentro das manifestações para o conservadorismo de tudo aquilo que estamos querendo combater. Não à toa, são incentivadas pela imprensa, que por ser de propriedade da burguesia, expressa as ideias que são do interesse dela.

“Verás que um filho teu não foge à luta”




Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo (...)

- Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista


As bandeiras do Brasil, as caras pintadas de verde e amarelo, centenas cantando o hino nacional ou músicas e palavras de ordem que expressam orgulho de ser brasileiro. Todos vimos muitas cenas como estas em todos os protestos. Mas, qual o problema de levantarmos com orgulho a bandeira de nosso país? Bom, depende da circunstância.

As nações não existiram sempre, são uma invenção relativamente recente na história da humanidade. Elas surgem junto com o domínio político da burguesia, que, para facilitar suas transações econômicas, precisava de uma unidade monetária, alfandegária, linguística, territorial, bem como de uma organização unificada com leis e forças armadas (Estado) para defender seus interesses contra outros burgueses na competição por mercados. Contudo, mais do que um simples território unificado, a ideia de nação passou a servir como uma forma de identidade de um povo, mas não uma identidade qualquer: o fundamental para a burguesia na ideia de “nação” é fazer com que a classe trabalhadora, a quem ela explora cotidianamente, veja em seu patrão e carrasco que lhe arranca o couro e lhe dá um salário de fome, um “irmão” ao invés de um inimigo de classe. E no trabalhador que sofre a mesma exploração que ele em outro país, um “inimigo” ao invés de um irmão de classe. Assim, os trabalhadores se sentem mais propensos a se juntar àqueles que os exploram para defender os interesses destes contra seus irmãos trabalhadores de outro país, e isto aparece disfarçado sob o manto do patriotismo. Como se o trabalhador estivesse defendendo o interesse da nação (e, assim, dele mesmo) e não o interesse de seus patrões.
 É por isto que o que Marx e Engels diziam em 1848 continua valendo até hoje: “Aos comunistas tem, além disso, sido censurado que querem abolir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar o que não têm. Na medida em que o proletariado tem primeiro de conquistar para si a dominação política, de se elevar a classe dirigente da nação, de se constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo nenhum no sentido da burguesia. Os isolamentos e as oposições nacionais dos povos vão desaparecendo já cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as relações de vida que lhe correspondem. A dominação do proletariado fá-los-á desaparecer ainda mais. A unidade de ação, pelo menos dos países civilizados, é uma das primeiras condições da sua libertação. À medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a exploração de uma nação por outra. Com [a queda da] oposição das classes no interior da nação cai a posição hostil das nações entre si”.
Ou seja, o interesse histórico da classe trabalhadora por uma humanidade livre, de acabar com a exploração do trabalho e de um homem por outro, passa necessariamente por acabar com a divisão entre países, que só serve aos burgueses e às suas disputas. É por isto que um dos princípios fundamentais do comunismo é o internacionalismo, o entendimento que a luta dos trabalhadores brasileiros é a mesma luta dos trabalhadores de qualquer parte do mundo e, assim, devemos nos apoiar mutuamente. Por isto que defendemos a solidariedade ativa às lutas do povo egípcio, sírio, líbio, turco, grego e outros contra seus governos que os reprimem, pois quanto mais fortalecida estiver a luta deles, mais estará a nossa e vice-versa.
Contudo, nem sempre o nacionalismo possui um sentido conservador, tal como no caso da burguesia que reivindica sua pátria para arregimentar os trabalhadores para se colocar contra os trabalhadores de outro país. Como disse o revolucionário marxista Leon Trotsky: “Quando o pequeno camponês ou o operário falam de defesa da pátria, falam da defesa de sua casa, de sua família e da família de outrem contra a invasão, contra as bombas, contra os gases asfixiantes. O capitalista e seu jornalista entendem por defesa da pátria a conquista de colônias e mercados, a extensão, pela pilhagem, da parte ‘nacional’ da renda mundial. O pacifismo e o patriotismo burgueses são mentiras completas. No pacifismo e no patriotismo dos oprimidos há um germe progressista que é necessário saber compreender para daí tirar as conclusões revolucionárias necessárias. É necessário saber dirigir estas duas formas de pacifismo e de patriotismo uma contra a outra.”
Por isto, não é possível concordar com os que jogam em um mesmo saco de “fascistas” todos os que levam um sentimento nacionalista para um ato de rua. Se é verdade que há aqueles que neste nacionalismo carregam o germe do reacionarismo e mesmo grupos fascistas, também há milhares que reivindicam um sentimento progressista de que as demandas populares devem ser conquistadas nas ruas pelo “povo brasileiro” organizado, em contraposição às instituições apodrecidas do regime político burguês. Ou seja, é, contraditoriamente, uma forma de contrapor o “povo” ao Estado burguês (como dizia uma pichação na  Avenida Paulista:  “até quando o governo será contra o povo?”). Contudo, mesmo este sentimento progressista dos que levam nas bandeiras do Brasil as suas demandas por mais investimentos na saúde e educação, abre um espaço para que o nacionalismo junte em um mesmo saco os manifestantes que querem um Brasil “mais cívico e ordeiro” e aqueles que defendem sair às ruas e lutar de forma independente contra a polícia e os governos. O sentimento nacionalista é facilmente capitalizado pela direita e pela burguesia. É assim que discursos como os de Dilma se aproveitam deste sentimento nacionalista para tentar botar “panos quentes” nos protestos. Por isto, é necessário explicar pacientemente aos que reivindicam o sentimento nacionalista o porquê de nosso combate a ele.

Contra a corrupção






O moderno poder de Estado é apenas uma comissão 

que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa
.
-Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista

                É inegável que dentre as inúmeras pautas que passaram a ser levantadas nos protestos, a do combate à corrupção é uma das que tem grande peso e destaque (em particular nos atos centrais onde predomina a pequena-burguesia). Isto não apenas porque é, de fato, uma das mais levantadas pelos manifestantes oriundos da pequena-burguesia, mas também porque tem um respaldo inclusive entre a classe trabalhadora, e ainda porque a mídia burguesa faz questão de dar mais destaque a esta pauta do que a outras. Isto ocorre porque a pauta da corrupção é bastante ampla, difusa, e por isto pode facilmente ser capitalizada também pela direita burguesa. Exemplo expressivo disto é o vídeo de Flávio Bolsonaro, representante da camada mais reacionária da política brasileira, que diz – entre tantas baboseiras e mentiras deslavadas – que “o PT é o partido mais corrupto do Brasil”, e que “este protesto tem que continuar nas urnas”. Ou seja, Bolsonaro procura canalizar a revolta das ruas para eleger os representantes mais de direita da burguesia nas eleições de 2014. O que Bolsonaro quer ocultar em seu discurso é que, se o PT é comprovadamente um partido cheio de escândalos de corrupção, como mensaleiros, sanguessugas, entre tantos outros, o PSDB, o DEM e todos os partidos do regime tem suas mãos sujas com a lama da corrupção. É necessário entender que a corrupção é inerente ao sistema capitalista e a todos seus regimes de governo.
                O combate à corrupção é uma pauta legítima, que canaliza uma grande revolta contra os governos e mesmo contra o regime e os partidos da ordem, e faz muito mal a esquerda que julga esta pauta como “de direita” e deixa para Veja, Bolsonaro, Estadão a sua reivindicação. O fundamental é justamente desmascararmos estes canalhas reacionários que se colocam como “arautos da ética”, chegando à raiz deste problema. E a questão não é de governo ou mesmo de regime, mas sim do Estado burguês. É necessário compreendermos que enquanto tivermos um Estado a serviço de uma classe parasita e exploradora, a corrupção será inerente a ele. O PT, que por décadas procurou ser o partido da ética, hoje justifica sua corrupção dizendo que é necessário sujar as mãos para fazer política. Esta ideia tornou-se senso comum, e por isto muitos manifestantes afirmam que seu protesto “não é político”. Temos que combater a ideia de que a política institucional da burguesia seja compreendida como a única forma de fazer política. É necessário disputarmos aos olhos das massas e dos trabalhadores a necessidade de fazermos uma política revolucionária, que acabe com a corrupção da única forma possível: acabando com o sistema que lhe dá origem e sustentação.
Esta disputa entre uma política institucional ou revolucionária não é nova, e esteve presente também  na própria história do PT, que surgiu do movimento das greves operárias do final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, e que eram sim muitíssimo políticas e com um forte potencial revolucionário. Dentro do PT, contudo, uma ala influente dirigida por Lula procurava fazer de tudo para separar o “sindical” do “político”, dizendo que as greves não eram contra a ditadura mas apenas por salários (escondendo que o arrocho era fruto da política dos militares), separando as lutas por regiões, por fábricas, por ramos da indústria. Um pouco desta história pode ser conhecida aqui. Isto é exatamente o contrário do que propõe o marxismo. Um dos principais dirigentes revolucionários marxistas, Lenin, afirmava que o papel dos revolucionários é atuar em cada pequena luta sindical, elevando o patamar destas à luta política contra o regime. Marx e Engels também afirmaram que “Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que (...) nos diversos estágios do desenvolvimento pelos quais a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total”. Ou seja, uma luta salarial representa um interesse particular e legítimo dos trabalhadores, mas é necessário que entendamos que o que ganhamos em uma luta salarial hoje, a inflação e o arrocho salarial comerão dos salários amanhã. Por isto nossa luta deve olhar para o todo.
Assim, a linha política que hegemonizou o PT com a ala de Lula, Genoíno, Zé Dirceu, Suplicy e outros que defendiam a via parlamentar de mudanças, só pode servir ao interesse da burguesia, de isolar as lutas dos trabalhadores para manter seu domínio político. A única política que pode servir aos interesses da libertação dos trabalhadores e, consequentemente, de toda a humanidade, é uma política revolucionária que seja feita nas ruas, nas barricadas, nas greves, nos instrumentos de auto-organização dos trabalhadores e das massas para que, a partir desta organização, possamos derrubar este Estado corrupto e corruptor da burguesia para colocar no poder os trabalhadores.
Esta lição foi ensinada pela primeira vez pelos revolucionários da Comuna de Paris, em 1871, quando os trabalhadores tomaram o poder pela primeira vez, derrubando o governo em Paris e elegendo seus próprios representantes entre eles. Estes não ganharam salários imensos e desfrutaram de privilégios como nossos parlamentares, juízes e governantes. Ganhavam o mesmo que um trabalhador comum e seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento. Nem tinham dezenas de cargos comissionados com salários altíssimos. Não havia um “presidente” ou “prefeito”, mas um governo composto por todos estes representantes. O nível de privilégio que tem os parasitas de nosso congresso pode ser visto neste artigo de Leandro Ventura. Se hoje os partidos burgueses propõem uma miserável “reforma política” plebiscitária, nós devemos dizer que nossas demandas para acabar com os privilégios e a roubalheira dos empresários e políticos e democratizar o país não cabem nas perguntas de um plebiscito montado por eles mesmos! Queremos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, com representantes eleitos nos locais de trabalho e na qual todos possam se candidatar, para fazer uma reforma radical deste regime e acabar com todas as negociatas entre os políticos burgueses e os empresários! Só assim podemos acabar com a corrupção de fato.

 “Sem partido! Sem partido!”



O pior analfabeto é o analfabeto político. (...)
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.(...)
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos,
 que é o político vigarista, pilantra, corrupto
 e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

- Bertolt Brecht, O Analfabeto Político

                O rechaço aos governantes e a seus partidos tomou uma face distorcida em muitas manifestações, com pessoas que gritavam “sem partido” a organizações de esquerda e dos trabalhadores. Como dissemos acima, o rechaço aos partidos que constituem este regime apodrecido é mais do que justo, pois são eles que mantém esta ordem de uma sociedade miserável em nome do lucro de poucos. Mas é fundamental colocarmos um critério em nosso rechaço, ou se cometerá uma enorme injustiça aos principais aliados dos que lutam nas ruas por mudanças profundas na sociedade. Um partido nada mais é do que uma forma organizativa, um grupo de pessoas que se aglutina coletivamente para poder atuar politicamente na sociedade. Esta forma organizativa pode ser preenchida com conteúdos sociais muito distintos, que sem dúvida se expressarão na forma como este partido se organiza também. A burguesia se agrupa em diversos partidos para disputar seus interesses na sociedade, mas, sendo estes partidos representantes desta classe parasitária, nunca nenhum deles poderá representar os interesses dos trabalhadores e da população mais pobre. São os partidos que representam interesses de banqueiros, de empresários, que não apenas se candidatam por estes partidos (como o ex-vice-presidente José de Alencar, grande industrial cujas relações com o poder lhe garantiam negócios privilegiados) mas também financiam suas campanhas para garantir seus interesses. Em geral são regidos por alguns grandes “caciques” representantes de oligarquias regionais e frações da burguesia, como Sarneys, ACMs, Malufs, Calheiros, Collors...ou por caudilhos que por terem grande destaque abafam toda a democracia interna de um partido em nome de seus acordos com este ou aquele setor da burguesia, como é no caso de Lula.
                Se a burguesia se organiza em partidos para lutar por seus interesses, é porque reconhece nesta forma uma grande eficiência de organização. Por que os trabalhadores, que querem lutar pela derrubada deste sistema, não deveriam também se associar para fazer sua política nas fábricas, nos bairros operários, nas escolas? A sua política, contudo, não é e nem pode ser a mesma da burguesia. Os partidos burgueses disputam e fazem acordos entre si para abocanhar um pedaço deste regime apodrecido e corrupto. Os trabalhadores devem se organizar em partidos para uma política revolucionária, que possa acabar com este Estado corrupto e corruptor. Nem a sua forma organizativa pode ser a mesma, com alguns “donos” do partido e muitos braços ou funcionários. Os trabalhadores que se organizam em um partido que lute pelos interesses de sua classe não o fazem por quererem privilégios ou por ambições pessoais, mas sim porque sua compreensão política dá um salto e ele passa a ver que a miséria de sua própria vida não é individual e nem se pode acabar com ela individualmente, mas que é necessário se organizar unificadamente com seus companheiros de classe com uma estratégia para mudar a sociedade. Por isto, os partidos operários devem prezar sempre pela mais ampla democracia interna, para que as bases do partido tenham controle sobre seus dirigentes. Defendemos o princípio formulado por Lenin, denominado “centralismo democrático”, que foi sintetizado com a seguinte máxima de garantir a mais ampla democracia na discussão e a mais estrita unidade na ação.
                Por isto, quando alguém se revolta contra um partido ou uma organização operária, está na verdade combatendo um aliado contra este sistema. Os partidos operários não são o mesmo que os partidos burgueses, e não devem ser tratados da mesma forma. Mesmo a juventude e os trabalhadores que não se organizem em partidos devem entender e respeitar os que se organizam como seus aliados, e tratar as eventuais diferenças políticas a partir de debates de ideias, que são saudáveis, necessários e ajudam o movimento em seu conjunto a avançar, mas devem saber que a luta contra os governos e os partidos burgueses é uma meta em comum.
Há, evidentemente, confusões que podem surgir nesta distinção entre partidos burgueses ou partidos operários. O PT, por exemplo, leva a palavra “trabalhadores” em seu nome. E, de fato, surgiu como uma organização dos trabalhadores a partir de suas greves e mobilizações. Contudo, o setor que o hegemonizou, como dissemos antes, foi o de Lula, que apostava justamente na via institucional de disputa da política a partir das eleições, dos cargos, das comissões, dos financiamentos privados. Conforme o PT se aprofundou neste caminho, ele foi progressivamente deixando de lado qualquer vestígio de política operária. Destruiu qualquer vestígio de democracia interna, acabando com os comitês de base, tornando seus dirigentes sindicais em burocratas bem remunerados e em conluio com os empresários, e alçando Lula cada vez mais como um grande caudilho que manda no partido. Associou-se aos grandes burgueses e aos partidos que os representam. Com sua ascensão ao poder do Estado como governantes no poder executivo, reprimiram energicamente a mobilização independente dos trabalhadores, já na gestão Erundina na prefeitura de São Paulo reprimiram greves de motoristas de ônibus, por exemplo. Hoje, enviam a Força de Segurança Nacional para reprimir greves nas obras do PAC, assassinar índios, reprimir manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Por isto que para os marxistas a prática é o critério da verdade: de defesa dos trabalhadores, no PT só sobrou o nome. Não é este partido que deve estar ao nosso lado nas manifestações. Ainda assim, contra a direita fascista que os ataque, defenderemos seu direito de organização. Mas entendemos e apoiamos o repúdio dos trabalhadores que foram traídos pelo partido que construíram.
O PSOL, hoje, começa a dar os primeiros passos no mesmo rumo do PT, seguindo uma via de disputa na política institucional. Seus parlamentares já votaram leis que retiram direitos dos trabalhadores, como foi o Super-Simples. Já se associaram com partidos burgueses, como o DEM nas eleições de Macapá. Também seguiram o curso de elevar figuras parlamentares a caudilhos, como foi com Heloísa Helena, que hoje se liga a Marina Silva. Não é um partido dos trabalhadores, mas um partido eclético que tenta aglutinar em seu interior interesses de classe distintos. Mas mesmo com todos estes problemas, o PSOL possui em sua base uma parcela de juventude e trabalhadores honestos, muitos dos quais estão nas ruas lutando ao nosso lado. Seu direito à organização deve ser defendido, sem que por isto se diminuam as enormes diferenças políticas que nos separam.
Defender a possibilidade dos trabalhadores e a juventude de se organizarem em sindicatos e partidos é defender nosso próprio direito de lutar, de nos manifestarmos e de fazermos frente ao enorme poder de organização da burguesia e de seus políticos corruptos e parasitas. Sem partidos, nossa organização nunca será capaz de derrubar os poderosos e seus canhões.

“Sem violência! Sem violência”



Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. 

Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.

- Bertolt Brecht, Sobre a violência


O que é roubar um banco comparado a fundar um?

- Bertolt Brecht, A ópera dos três vinténs


Desde a brutal repressão policial que ocorreu no ato em São Paulo, no dia 13 de junho, com mais de 250 presos e 100 feridos, o movimento deu um salto. Muitos passaram a apoiá-lo nem tanto pela redução do aumento, mas pela indignação de uma manifestação democrática ser reprimida de forma tão truculenta pela polícia. A partir deste momento, a própria mídia foi obrigada a mudar drasticamente seu discurso, que até então era de condenar de forma unânime as manifestações. A violência policial chocou de tal forma a pequena-burguesia que conforma grande parte da mal chamada “opinião pública”, que os veículos de imprensa foram obrigados a endurecer seu discurso contra a repressão. Ainda que procurassem a todo momento distorcer os fatos, dizendo que se tratavam de policiais “mal preparados” ou de “excessos”, tentando assim maquiar a conduta geral da polícia e fazer passar uma regra por uma exceção.

Para entendermos a polícia, precisamos compreender que, como afirma Lenin em “O Estado e a revolução”, “O exército permanente e a polícia são os principais instrumentos do poder governamental”. Ou seja, a função primordial da polícia, ao contrário do que nos ensinam, não é a de “proteger todos”, mas de proteger a propriedade privada e o Estado. Quando uma mobilização sai às ruas para questionar os lucros de empresários cujos acordos selados com o governo determinam o funcionamento do transporte na cidade, isto está gerando um embrião de questionamento à propriedade privada dos meios de transporte. A polícia e seu principal aliado no campo das ideias – a mídia controlada pela burguesia – farão seu trabalho: reprimir por um lado e deslegitimar o movimento por outro. Exemplo emblemático foi o discurso de Arnaldo Jabor após os primeiros atos, em que ele comparou os manifestantes ao crime organizado. A realidade é que o crime organizado tem muito mais em comum com a própria polícia, e quem lucra com este é a burguesia e os policiais que tem mil e um laços com o tráfico, como mostrou, por exemplo, esta reportagem da Bandeirantes.

A atuação da polícia, contudo, é muito mais repressiva justamente onde a miséria gerada pela burguesia se expressa com maior força: nas periferias e favelas, onde cotidianamente assassinam a juventude pobre e negra. Quando falamos em violência, precisamos, portanto, lembrar que o que há de mais violento em nossa sociedade é a miséria, a fome, a pobreza, as quais o Estado se esforça para manter com suas leis e sua polícia. Perto disto, é perfeitamente compreensível que as pessoas que são violentadas pelo Estado cotidianamente coloquem um pouco de sua fúria para fora de forma caótica quando os atos conseguem minimamente tomar as ruas contra este Estado. Por mais que não concordemos com este método pela sua ineficácia, o que repudiamos não é esta “violência”, mas sim o discurso da mídia burguesa que nada fala sobre Douglas Henrique, jovem metalúrgico morto nas manifestações, mas dá grande destaque a lixeiras reviradas na manifestação. Até figuras da própria mídia, quando não estão com o cabresto que lhes é imposto pelos donos das emissoras, concordam com isto, como vemos nesta entrevista com Ricardo Boechat.

Há que se diferenciar as “violências” dos manifestantes. Não é à toa que quando as manifestações se tornam massivas, o discurso da mídia muda completamente, como vemos nas esfarrapadas “desculpas” de Jabor (na verdade uma tentativa de se relocalizar e ainda “ensinar” aos manifestantes pelo que devem lutar, colocando as pautas de um típico comentarista de direita da globo). A mídia passa a querer criar um abismo entre os “manifestantes ordeiros e cidadãos” e os “vândalos, baderneiros, arruaceiros”. Jogar uma pedra contra a polícia é um embrião de auto-defesa. Conforme a luta nas ruas cresça, esta tendência terá que se organizar e se expressar efetivamente em milícias operárias e populares. Como afirma Lenin: “a sociedade civilizada está dividida em classes hostis e irreconciliáveis cujo armamento ‘espontâneo’ provocaria a luta armada. Forma-se o Estado; cria-se uma força especial, criam-se corpos armados, e cada revolução, destruindo o aparelho governamental, põe em evidência como a classe dominante se empenha em reconstituir, a seu serviço, corpos de homens armados, como a classe oprimida se empenha em criar uma nova organização do mesmo gênero, para pô-la ao serviço, não mais dos exploradores, mas dos explorados”.

Contudo, nem toda a violência é a legítima defesa contra a polícia. Quando se joga uma pedra na vidraça de um banco, é um pequeno protesto contra o saque cotidiano aos trabalhadores que é feito pela burguesia. Quando se faz uma pichação de protesto, é uma forma de colocar para fora uma voz que não tem onde se expressar na sociedade, é uma forma de luta. Mas a depredação caótica de casas, carros populares ou pequenos comércios afeta justamente aqueles que têm motivo para colocar seu ódio nas ruas: estamos atacando a nós mesmos e ajudando a criar um rechaço popular às manifestações ao invés de ganhar mais apoio. Isto não quer dizer que devemos, como nos sugere a Rede Globo ou os comandantes da polícia, entregar os manifestantes que façam isto. Eles podem estar equivocados, mas é um dos nossos, e temos que convencê-lo de seu erro; a polícia, por outro lado, é nossa inimiga, e contra ela devemos estar unidos.

A burguesia não tomou o poder das mãos da nobreza pacificamente, e nunca um tirano deixará seu poder “pela força do diálogo”. Como disse o abolicionista Luis Gama, “todo escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Nunca confundamos a violência do opressor com a resistência do oprimido. A nossa violência, dos que são explorados e oprimidos cotidianamente, deve se organizar para resistir aos ataques dos opressores e poder se transformar em força para mudar a sociedade e coloca-la de cabeça para baixo.

Agora é hora de nos organizarmos, avançarmos em nosso programa e nos colocarmos com a classe trabalhadora nas ruas para levar esta insatisfação que explodiu às suas últimas consequências, virando de cabeça pra baixo esta sociedade!

terça-feira, junho 18, 2013

Adeus, Sergio.




Ontem , enquanto nos preparávamos para ver as massas ressurgirem nas ruas deste país como há décadas não acontecia, deu seu último suspiro de vida um homem que pouco conheci, mas que muito representou em minha vida.

Há pouco mais de um ano partia sua filha Camila, uma das pessoas que mais amei e amo em minha vida. Durante todo o tempo em que convivi com Camila, quase nada conversei com Sergio. As relações entre eles eram dilaceradas e contraditórias, como geralmente o são as relações familiares neste mundo, em que são forçosamente cruzadas por uma série de horríveis conflitos que nossa sociedade doente impõe a elas. Esta relação entre eles, meio distante a contragosto deles mesmos, fazia com que eu mesmo não tivesse relação alguma com Sergio. Percebia nele ciúmes de sua filha e ele chegou até mesmo a proibir-me de dormir em sua casa depois que Camila passou a morar lá. Não tive rancor por isto, tive antes uma inquietação de ver como havia um fosso entre ambos que não se resolvia. O problema comigo era apenas uma pequena expressão disto.

Primeiro, achei que a relação de Camila era de indiferença ou ódio por seu pai, pois ao falar dele expressava rancor. Depois, vi que não. Que o rancor era amor distorcido. Doía nela ver o sofrimento de seu pai. Doía nela, como na relação com toda a sua família, ver a dor que seu próprio sofrimento psíquico causava nele. Ela se afastava também, talvez, como uma forma de protegê-lo de seu sofrimento, como muitas vezes fez comigo.

Mas eu percebi verdadeiramente como ela amava seu pai quando ele foi internado, pouco antes do suicídio de Cami, e quando vi como ela sofreu com isto. Como sofria de ver que ele tinha grande dificuldade em sua relação com o álcool. Como ela desejava que ele parasse de beber. Vi toda a profundidade de uma relação marcada por amor e sofrimento quando ela disse, um dia, transtornada, que ele podia “morrer logo pra acabar com isto”. O sofrimento dele também a fazia sofrer, e ela certamente sentia-se impotente por não saber como ajuda-lo.

Depois que Cami morreu, a postura de Sergio em relação a mim mudou. Só posso imaginar vagamente a dor que ele deve ter sentido ao ir com sua filha na ambulância e assistir ela, com apenas 26 anos, morrer. Uma morte causada por suas próprias mãos por não aguentar mais o sofrimento da vida. De longe, eu vi como ele ficou abalado. A última vez que vi Sergio foi no enterro de Camila. De todos da família, mesmo os que eu não conhecia, ele foi o mais formal e frio comigo. Não sei se era assim o seu jeito com as pessoas, acho que não. Acho que ele estava sofrendo muito e que havia entre nós um estranhamento. Eu também não sei lidar muito com as pessoas, em várias circunstâncias, e com ele isto se manifestava muito: eu tinha vergonha, constrangimento, sentia que minha presença o incomodava. Talvez a frieza tenha sido mais minha do que dele. A dificuldade que existia na relação entre ele e Cami havia se transformado em uma impossibilidade na minha relação com ele.

A mudança veio depois: conversávamos pelo facebook. Sergio passou a me chamar de filho, e a me dar conselhos que provavelmente queria dar a Camila. Como minha mãe faz, passou a criticar minha militância, dizendo que eu desejava coisas impossíveis, que os grandes revolucionários que me inspiram eram assassinos sanguinários. Discutíamos, fraternalmente, sabendo que nunca convenceríamos um ao outro. Ele me incentivava a estar próximo de meus amigos, de minha família: “isto sim é real”, dizia ele.

Aos olhos dele, eu provavelmente era um jovem ingênuo. O carinho que passou a demonstrar por mim era o carinho que sentia por sua filha, e que eu via como tinha dificuldade de se demonstrar na relação cotidiana entre eles, pelo menos durante o tempo em que acompanhei a relação entre os dois. Seus modos de ver o mundo eram distintos pelo vértice, mas eles pouco conseguiam conversar sobre isto. Quando ele criticava minha militância, estava criticando a de sua filha, que me orgulho de ter tido como minha camarada.

Ele me disse para ir a sua casa diversas vezes, lugar que foi a última morada de Cami. Que eu deveria pegar as coisas que quisesse para me lembrar dela. Fiquei sinceramente comovido com este convite, e prontamente aceitei. Muitas vezes disse que iria, mas nunca consegui colocar isto em prática. Tinha receio, é difícil dizer porque. Acho que tinha medo de ver a dor dele muito de perto, de não saber como estar perto dele, o que fazer. Contudo, minha intenção de ir era real, apenas esperava “o momento certo”. A minha dor por perder Cami é uma que permanecerá para sempre comigo, que faz parte do que sou e que para sempre mudou quem eu sou e serei. Hoje eu me esforço a cada dia para ser uma pessoa melhor, uma pessoa melhor como gostaria de ter sido com ela. Para ajudar quem eu amo como gostaria de ter ajudado ela, muito, muito mais do que fui capaz de ajudar. Levo dentro de mim as nossas conversas, os nossos dias juntos, tudo o que aprendi com ela. Sei do tamanho desta dor que carrego. A dor de um pai que perde uma filha, no entanto, só posso imaginá-la. Sinto em sua aproximação de mim uma tentativa de se aproximar um pouco mais de sua filha, do que ela acreditava, desejava e sentia.

Hoje, não posso mais aceitar seu convite. Não posso mais ir a sua casa, conversar com ele, conhece-lo melhor, trocar lembranças tão diferentes que teríamos sobre Cami, discutir e brigar a respeito do socialismo, do capitalismo, da revolução ou de sua impossibilidade. Sergio se foi. A notícia de seu câncer fulminante veio para mim como uma bomba, subitamente, poucos dias antes de sua morte. Seu filho Pedro me mandou uma mensagem, e eu, estupefato, nem consegui lhe responder. Eu não sabia que ele estava doente, e não pude lhe dar um adeus, como não pude dar adeus a Cami. Gostaria de tê-lo visto uma última vez, pois apesar de não termos sido próximos, a dor pela morte de sua filha, minha companheira, nos uniu de uma maneira muito peculiar. A união que se sente com alguém por perder uma pessoa em comum que se ama é difícil de entender e de explicar. Mas é algo muito real. A tristeza pela morte de sua filha foi uma dor pungente que o acompanhou até estes últimos dias.


Não posso deixar de pensar na ironia de que Sergio tenha partido justamente em um dia em que centenas de milhares saíram às ruas no Brasil, tomando o congresso nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, a sede do governo no Paraná e dizendo que o povo acordou na Avenida Paulista. É o começo do começo de um novo tempo que se manifesta em todo o mundo, em que eu acredito que há chances muito concretas de se efetivar a mudança social pela qual eu vivo, e pela qual viveu Camila. A mudança que Sergio dizia ser utópica, e a respeito da qual discutíamos e discutíamos. Toda vez que vejo uma fagulha da luta de classes brilhando, penso em Cami, em como queria que estivesse aqui ao nosso lado para ver e participar da possibilidade de um futuro novo. Agora, pensarei em Sergio também, em como queria que ele estivesse aqui para dizer: “viu só! Eu e sua filha não estávamos errados! É possível um mundo diferente!”. E continuo a dar minha vida para isto, para que seja possível um mundo onde, entre tantas mudanças que queremos, os sofrimentos pelos quais Sergio passou não aconteçam mais. Que ninguém mais precise ver sua filha tirar a própria vida. Que as relações entre as pessoas que se amam não sejam atravessadas por incomunicabilidades, por rusgas que nós, humanos ainda tão rudimentares de uma sociedade doente, criamos. Que ninguém precise mais sofrer com uma doença tão dolorosa e mortal sem ter a seu alcance uma medicina capaz de curá-la. Por uma humanidade mais livre, mais feliz, mais plena, mais humana. Sua memória acompanhará minhas lutas. Descanse em paz, Sergio.


sábado, junho 15, 2013

É necessário ir às ruas com uma estratégia para triunfar! Um debate necessário com o MPL




Na última quinta-feira, 13-06, o Movimento Passe-Livre (MPL) publicou no jornalFolha de S. Paulo um artigo intitulado “Por que estamos nas ruas”. Este texto, junto a outros materiais e posicionamentos públicos doMPL, leva a um necessário debate com este movimento sobre os rumos da crescente mobilização que vem ganhando as ruas aos milhares, e se tornando o mais importante fenômeno político de massas dos últimos anos no país. Não é possível triunfar sem uma estratégia correta, e nossos inimigos estão bem preparados; devemos discutir abertamente entre nós como seguir com nosso movimento.

Em primeiro lugar, cabe questionar a posição do MPL diante das mobilizações: em todos os últimos aumentos de tarifa, este movimento teve a iniciativa de convocar comitês abertos a voz e voto para que todos os que participam das mobilizações, bem como as entidades estudantis, sindicais e populares, e as organizações políticas, pudessem decidir os rumos do movimento. É verdade que em nenhum momento anterior se conseguiu massificar o movimento como está ocorrendo agora, por conta de uma conjuntura política nacional e internacional bastante distinta. Mas já nestes comitês, em 2006, 2011, se mostraram divergências táticas e estratégicas importantes para as mobilizações. No limite deste texto, não retomarei todas as polêmicas que surgiram e que continuam atuais. Coloco esta questão para apontar o problema fundamental da democracia de base no movimento. A ligação com as bases, com os que estão efetivamente mobilizados nas ruas, é um aspecto fundamental para massificar ainda mais o movimento e para que as distintas concepções políticas, as distintas propostas e estratégias, possam debater publicamente e serem colocadas à prova na prática.

Hoje, o MPL não convoca mais comitês abertos e vem dirigindo o movimento “por cima”, convocando atos pelo FB e com declarações na mídia. Na prática, isto leva a que atuem de forma burocrática com o movimento, como eles próprios corretamente criticaram em muitos momentos em relação a organizações governistas que levaram a desvios no movimento impedindo que chegassem à vitória, tal como foi o caso de UNE e UBES no episódio que ficou conhecido como “Revolta do Buzu”, quando houve o aumento de tarifas em Salvador em 2003. O MPL iniciou uma atuação deste tipo quando declaroupublicamente que aceitaria o acordo de “suspensão” do aumentodas tarifas por 45 dias proposto pelo Ministério Público de SãoPaulo, e cancelaria o ato já marcado para a última quinta-feira.

Em seguida, o MPL publica um texto na Folha de S. Paulo, órgão de imprensa que só abriu espaço para que este movimento se pronunciasse colocando apenas as suas próprias posições, graças aos massivos atos de rua. Depois, são convidados para uma entrevistano programa Roda Viva. Ou seja, mesmo que sejam chamados para falar “como MPL”, este é um espaço conseguido graças à força da mobilização, e, assim, deveria expressar as posições políticas do movimento de conjunto, e não de apenas uma das organizações políticas que o compõe. E, por fim, e mais grave, o prefeitoFernando Haddad convocou o MPL para uma reunião de negociaçãonesta terça-feira.

Independente da correção ou não das divergências que apresentamos, consideramos que a única forma correta de se decidir como proceder diante do acordo do ministério público, da mídia ou da reunião com o prefeito é através da democracia de base, em que se expressem os setores que hoje estão nas ruas, na linha de frente da luta. Por isto, é fundamental a criação de um comitê com um funcionamento democrático. Diante da magnitude da luta, um comitê aberto como o que foi feito nos últimos aumentos não poderia mais responder à necessidade de organização. É necessário um comitê que represente as posições das bases, e, portanto, com delegados que fossem eleitos a partir de discussões em cada escola, universidade, bairro ou local de trabalho que esteja se organizando para construir a mobilização. Só assim poderemos nos ligar cada vez mais à população, aos trabalhadores do transporte e massificar ainda mais nosso movimento.

Libertem nossos presos! Não há trégua enquanto houver repressão!

 
 
 
O movimento tem crescido exponencialmente. Graças a isto, os governos de Haddad e Alckmin se uniram para reprimir as manifestações de forma exemplar e impedir que nos apoiemos nos exemplos de PortoAlegre, Goiânia e Teresina para impor a revogação do aumento e transformemos São Paulo em um grande exemplo nacional da luta contra os aumentos de tarifa. Diante disto, já são centenas de manifestantes presos e feridos, sendo que mais de quinze já estão sendo processados por crimes como formação de quadrilha. A primeira tarefa de nosso movimento é a luta para que nenhum manifestante sofra nenhum tipo de criminalização ou repressão, e por isto precisamos colocar como primeira pauta a libertação de todos os presos e a anulação de todas as acusações feitas contra os que foram detidos. É necessário deixar claro para o governo que sem o atendimento desta demanda, não haverá negociação sobre nenhuma outra pauta. O MPL não apenas não tem colocado isto como pauta central do movimento (sequer citaram a repressão em seu artigo na Folha), como tem dado declarações na mídia com disparates como “arepressão da polícia é desproporcional” (e o que seria uma repressão proporcional?!). Pior de tudo, o MPL para se mostrar como "ordeiro", tem procurado se desvencilhar de "atos de vandalismo" com o argumento de que não aprovam estas "atitudes isoladas" que "não tem como controlar". Este discurso é funcional à mídia e ao governo para criminalizar manifestantes e reprimir. É fundamental levantar a bandeira contra a repressão como linha de frente do movimento, nos apoiando inclusive em recentes conquistas na luta contra a criminalização dos movimentos sociais, como foi a negativa do Juiz a respeito da denúncia de formação de quadrilha contra 72 estudantes e trabalhadores da USP feita pelo MP paulista.

A luta deve ir além dos vinte centavos! Tarifa “justa” de R$2,16, “Tarifa Zero” ou estatização sob controle dos trabalhadores e usuários?


Qualquer um que esteja nas ruas hoje pode dizer que nossa luta não é por vinte centavos da tarifa. Deter o aumento, que privará uma parte ainda maior da população de usar o transporte é uma questão fundamental. Mas a força e massificação de nosso movimento hoje nos permite ir por muito mais do que isto, além de que a própria brutal repressão do governo e da polícia transformou nosso movimento também em uma luta contra a criminalização estatal à organização política dos trabalhadores e da juventude.

O MPL há anos defende o projeto denominado Tarifa Zero, criado por Lúcio Gregori, Secretário de Transportes da gestão petista de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo. Hoje, colocam como pauta de seu movimento a demanda deste projeto, sem questionar em seu programa a questão crucial do controle privado do transporte público, tal como colocam em seu texto na Folha de S. Paulo: “Por isso defendemos a tarifa zero, que nada mais é do que uma forma indireta de bancar os custos do sistema, dividindo a conta entre todos, já que todos são beneficiados por ele.”. O próprio prefeito Fernando Haddad disse que não poderia reduzir a tarifa pois isto implicaria em aumentar o subsídio que a prefeitura desembolsa para as empresas privadas de ônibus (no ano passado foram R$ 821 milhões), e que neste ano o reajuste estava abaixo da inflação devido a isenções fiscais concedidas pelo governo Dilma a estes empresários e ao aumento do subsídio dado pelo governo municipal. Ora, o que Haddad está dizendo é que não pode reduzir as tarifas porque se não iria onerar o orçamento da prefeitura com mais subsídio. A isto o MPL responde dizendo que “a tarifa deve ser dividida entre todos” (subsídio de 100%, portanto) e ainda dizem que “Não somos nós que afirmamos que o aumento está abaixo da inflação sem considerar que, de 1994 para cá, com uma inflação acumulada em 332%, a tarifa deveria custar R$ 2,16 e o metrô, R$ 2,59”.

A tarifa não deveria custar R$2,16 de forma alguma! Só poderia custar isto se levássemos em conta, como Haddad e MPL o fazem, que o transporte continuará sendo fonte de lucro para empresários! Se queremos um transporte que possa ser de fato gratuito, precisamos estar nas ruas levantando a bandeira de estatização imediata de todas as empresas privadas de ônibus! Sem indenização e muito menos subsídio para os empresários parasitas, que ao longo de anos lucraram às custas de nosso direito ao transporte! O MPL se furta a levantar esta demanda, e enquanto na última quinta-feira apánhavamos da polícia nas ruas, Haddad anunciava a uma licitação no valor de R$46,3bilhões para renovas as concessões às empresas privadas por mais15 anos! E o MPL não diz uma palavra a respeito disto, nem levanta esta demanda em momento algum! Precisamos estatizar o transporte, mas não queremos que ele fique nas mãos dos governantes corruptos e suas maracutaias! Quem sabe as reais necessidades de transporte são os trabalhadores dos transportes e os usuários! Por isto, defendemos que a bandeira central de nosso movimento seja a ESTATIZAÇÃO SEM INDENIZAÇÃO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE SOB CONTROLE DOS TRABALHADORES E USUÁRIOS! Só desta forma podemos lutar de forma consequente pela bandeira de PASSE-LIVRE PARA A JUVENTUDE, ESTUDANTES E DESEMPREGADOS! E também pela REDUÇÃO RADICAL DAS TARIFAS!

Da “Tarifa Zero” ao desvio da luta para a "suspensão" do MP


Contudo, o que o MPL tem feito concretamente hoje na luta é muito aquém da luta pela Tarifa Zero ou até mesmo da suposta “tarifa justa” que, segundo eles, “deveria custar R$2,16”. Isto porque, falando de forma ilegítima em nome dos milhares que estão nas ruas, o MPL anunciou em uma audiência pública que suspenderia as manifestações caso a prefeitura aceitasse o acordo proposto pelo Ministério Público de São Paulo de “suspender” o aumento por 45 dias. Com isto, o MPL quer mostrar ao governo e a mídia que vem nos atacando virulentamente que não são “intransigentes” e estão “dispostos ao diálogo”. Mas, na verdade, se trata de um balde de água fria na luta. O MP quer interceder na luta para desmobilizar os milhares que estão nas ruas e garantir para Haddad e Alckmin um cenário mais favorável para o aumento. E o MPL, ao invés de apostar na mobilização independente dos trabalhadores e da juventude para dobrar o governo, aposta nos acordos “por cima” com as instituições do regime. Para nós da Juventude às Ruas e da LER-QI, isto é um grande equívoco: partimos da concepção de que a juventude e a classe trabalhadora devem confiar apenas em suas próprias forças, e não dar crédito à “boa vontade” das instituições do regime, seja o judiciário, o executivo ou o legislativo. Um exemplo recente que mostra o tamanho do equívoco de nos iludirmos com estas concessões (que na verdade só são feitas graças à força do movimento e para tentar desviar nossa luta sem que ela conquiste suas verdadeiras demandas), é o caso do Pinheirinho, em que a organização que dirigia as mobilizações em defesa dos moradores (PSTU), “cantou vitória” antes da hora com a decisão judicial de suspender a reintegração de posse e, assim, os moradores foram pegos de surpresa na madrugada pelo contingente policial.

É para impedir que o MPL ou qualquer outro “representante” ilegítimo de nosso movimento tente vender nossa mobilização por migalhas que precisamos de um Comitê democrático, formado por entidades sindicais, estudantis, organizações políticas e delegados eleitos em assembleias de base, para que possamos decidir coletivamente e de forma democrática, pelos que estão na luta, quais as nossas demandas, quais as nossas táticas e como vamos negociá-las com o governo.

Vamos às ruas apostando nas forças de nossa mobilização independente para derrotar a polícia, o governo e os empresários do transporte! Nenhuma ilusão no acordão do MP!

Por um Comitê democrático para decidir os rumos da mobilização!

Liberdade a nossos presos! Arquivamento de todas as acusações!

Estatização sem indenização das empresas de ônibus sob controle dos trabalhadores e usuários!

Passe-Livre para os estudantes, a juventude e os desempregados! Redução radical das tarifas!