terça-feira, junho 18, 2013

Adeus, Sergio.




Ontem , enquanto nos preparávamos para ver as massas ressurgirem nas ruas deste país como há décadas não acontecia, deu seu último suspiro de vida um homem que pouco conheci, mas que muito representou em minha vida.

Há pouco mais de um ano partia sua filha Camila, uma das pessoas que mais amei e amo em minha vida. Durante todo o tempo em que convivi com Camila, quase nada conversei com Sergio. As relações entre eles eram dilaceradas e contraditórias, como geralmente o são as relações familiares neste mundo, em que são forçosamente cruzadas por uma série de horríveis conflitos que nossa sociedade doente impõe a elas. Esta relação entre eles, meio distante a contragosto deles mesmos, fazia com que eu mesmo não tivesse relação alguma com Sergio. Percebia nele ciúmes de sua filha e ele chegou até mesmo a proibir-me de dormir em sua casa depois que Camila passou a morar lá. Não tive rancor por isto, tive antes uma inquietação de ver como havia um fosso entre ambos que não se resolvia. O problema comigo era apenas uma pequena expressão disto.

Primeiro, achei que a relação de Camila era de indiferença ou ódio por seu pai, pois ao falar dele expressava rancor. Depois, vi que não. Que o rancor era amor distorcido. Doía nela ver o sofrimento de seu pai. Doía nela, como na relação com toda a sua família, ver a dor que seu próprio sofrimento psíquico causava nele. Ela se afastava também, talvez, como uma forma de protegê-lo de seu sofrimento, como muitas vezes fez comigo.

Mas eu percebi verdadeiramente como ela amava seu pai quando ele foi internado, pouco antes do suicídio de Cami, e quando vi como ela sofreu com isto. Como sofria de ver que ele tinha grande dificuldade em sua relação com o álcool. Como ela desejava que ele parasse de beber. Vi toda a profundidade de uma relação marcada por amor e sofrimento quando ela disse, um dia, transtornada, que ele podia “morrer logo pra acabar com isto”. O sofrimento dele também a fazia sofrer, e ela certamente sentia-se impotente por não saber como ajuda-lo.

Depois que Cami morreu, a postura de Sergio em relação a mim mudou. Só posso imaginar vagamente a dor que ele deve ter sentido ao ir com sua filha na ambulância e assistir ela, com apenas 26 anos, morrer. Uma morte causada por suas próprias mãos por não aguentar mais o sofrimento da vida. De longe, eu vi como ele ficou abalado. A última vez que vi Sergio foi no enterro de Camila. De todos da família, mesmo os que eu não conhecia, ele foi o mais formal e frio comigo. Não sei se era assim o seu jeito com as pessoas, acho que não. Acho que ele estava sofrendo muito e que havia entre nós um estranhamento. Eu também não sei lidar muito com as pessoas, em várias circunstâncias, e com ele isto se manifestava muito: eu tinha vergonha, constrangimento, sentia que minha presença o incomodava. Talvez a frieza tenha sido mais minha do que dele. A dificuldade que existia na relação entre ele e Cami havia se transformado em uma impossibilidade na minha relação com ele.

A mudança veio depois: conversávamos pelo facebook. Sergio passou a me chamar de filho, e a me dar conselhos que provavelmente queria dar a Camila. Como minha mãe faz, passou a criticar minha militância, dizendo que eu desejava coisas impossíveis, que os grandes revolucionários que me inspiram eram assassinos sanguinários. Discutíamos, fraternalmente, sabendo que nunca convenceríamos um ao outro. Ele me incentivava a estar próximo de meus amigos, de minha família: “isto sim é real”, dizia ele.

Aos olhos dele, eu provavelmente era um jovem ingênuo. O carinho que passou a demonstrar por mim era o carinho que sentia por sua filha, e que eu via como tinha dificuldade de se demonstrar na relação cotidiana entre eles, pelo menos durante o tempo em que acompanhei a relação entre os dois. Seus modos de ver o mundo eram distintos pelo vértice, mas eles pouco conseguiam conversar sobre isto. Quando ele criticava minha militância, estava criticando a de sua filha, que me orgulho de ter tido como minha camarada.

Ele me disse para ir a sua casa diversas vezes, lugar que foi a última morada de Cami. Que eu deveria pegar as coisas que quisesse para me lembrar dela. Fiquei sinceramente comovido com este convite, e prontamente aceitei. Muitas vezes disse que iria, mas nunca consegui colocar isto em prática. Tinha receio, é difícil dizer porque. Acho que tinha medo de ver a dor dele muito de perto, de não saber como estar perto dele, o que fazer. Contudo, minha intenção de ir era real, apenas esperava “o momento certo”. A minha dor por perder Cami é uma que permanecerá para sempre comigo, que faz parte do que sou e que para sempre mudou quem eu sou e serei. Hoje eu me esforço a cada dia para ser uma pessoa melhor, uma pessoa melhor como gostaria de ter sido com ela. Para ajudar quem eu amo como gostaria de ter ajudado ela, muito, muito mais do que fui capaz de ajudar. Levo dentro de mim as nossas conversas, os nossos dias juntos, tudo o que aprendi com ela. Sei do tamanho desta dor que carrego. A dor de um pai que perde uma filha, no entanto, só posso imaginá-la. Sinto em sua aproximação de mim uma tentativa de se aproximar um pouco mais de sua filha, do que ela acreditava, desejava e sentia.

Hoje, não posso mais aceitar seu convite. Não posso mais ir a sua casa, conversar com ele, conhece-lo melhor, trocar lembranças tão diferentes que teríamos sobre Cami, discutir e brigar a respeito do socialismo, do capitalismo, da revolução ou de sua impossibilidade. Sergio se foi. A notícia de seu câncer fulminante veio para mim como uma bomba, subitamente, poucos dias antes de sua morte. Seu filho Pedro me mandou uma mensagem, e eu, estupefato, nem consegui lhe responder. Eu não sabia que ele estava doente, e não pude lhe dar um adeus, como não pude dar adeus a Cami. Gostaria de tê-lo visto uma última vez, pois apesar de não termos sido próximos, a dor pela morte de sua filha, minha companheira, nos uniu de uma maneira muito peculiar. A união que se sente com alguém por perder uma pessoa em comum que se ama é difícil de entender e de explicar. Mas é algo muito real. A tristeza pela morte de sua filha foi uma dor pungente que o acompanhou até estes últimos dias.


Não posso deixar de pensar na ironia de que Sergio tenha partido justamente em um dia em que centenas de milhares saíram às ruas no Brasil, tomando o congresso nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, a sede do governo no Paraná e dizendo que o povo acordou na Avenida Paulista. É o começo do começo de um novo tempo que se manifesta em todo o mundo, em que eu acredito que há chances muito concretas de se efetivar a mudança social pela qual eu vivo, e pela qual viveu Camila. A mudança que Sergio dizia ser utópica, e a respeito da qual discutíamos e discutíamos. Toda vez que vejo uma fagulha da luta de classes brilhando, penso em Cami, em como queria que estivesse aqui ao nosso lado para ver e participar da possibilidade de um futuro novo. Agora, pensarei em Sergio também, em como queria que ele estivesse aqui para dizer: “viu só! Eu e sua filha não estávamos errados! É possível um mundo diferente!”. E continuo a dar minha vida para isto, para que seja possível um mundo onde, entre tantas mudanças que queremos, os sofrimentos pelos quais Sergio passou não aconteçam mais. Que ninguém mais precise ver sua filha tirar a própria vida. Que as relações entre as pessoas que se amam não sejam atravessadas por incomunicabilidades, por rusgas que nós, humanos ainda tão rudimentares de uma sociedade doente, criamos. Que ninguém precise mais sofrer com uma doença tão dolorosa e mortal sem ter a seu alcance uma medicina capaz de curá-la. Por uma humanidade mais livre, mais feliz, mais plena, mais humana. Sua memória acompanhará minhas lutas. Descanse em paz, Sergio.


sábado, junho 15, 2013

É necessário ir às ruas com uma estratégia para triunfar! Um debate necessário com o MPL




Na última quinta-feira, 13-06, o Movimento Passe-Livre (MPL) publicou no jornalFolha de S. Paulo um artigo intitulado “Por que estamos nas ruas”. Este texto, junto a outros materiais e posicionamentos públicos doMPL, leva a um necessário debate com este movimento sobre os rumos da crescente mobilização que vem ganhando as ruas aos milhares, e se tornando o mais importante fenômeno político de massas dos últimos anos no país. Não é possível triunfar sem uma estratégia correta, e nossos inimigos estão bem preparados; devemos discutir abertamente entre nós como seguir com nosso movimento.

Em primeiro lugar, cabe questionar a posição do MPL diante das mobilizações: em todos os últimos aumentos de tarifa, este movimento teve a iniciativa de convocar comitês abertos a voz e voto para que todos os que participam das mobilizações, bem como as entidades estudantis, sindicais e populares, e as organizações políticas, pudessem decidir os rumos do movimento. É verdade que em nenhum momento anterior se conseguiu massificar o movimento como está ocorrendo agora, por conta de uma conjuntura política nacional e internacional bastante distinta. Mas já nestes comitês, em 2006, 2011, se mostraram divergências táticas e estratégicas importantes para as mobilizações. No limite deste texto, não retomarei todas as polêmicas que surgiram e que continuam atuais. Coloco esta questão para apontar o problema fundamental da democracia de base no movimento. A ligação com as bases, com os que estão efetivamente mobilizados nas ruas, é um aspecto fundamental para massificar ainda mais o movimento e para que as distintas concepções políticas, as distintas propostas e estratégias, possam debater publicamente e serem colocadas à prova na prática.

Hoje, o MPL não convoca mais comitês abertos e vem dirigindo o movimento “por cima”, convocando atos pelo FB e com declarações na mídia. Na prática, isto leva a que atuem de forma burocrática com o movimento, como eles próprios corretamente criticaram em muitos momentos em relação a organizações governistas que levaram a desvios no movimento impedindo que chegassem à vitória, tal como foi o caso de UNE e UBES no episódio que ficou conhecido como “Revolta do Buzu”, quando houve o aumento de tarifas em Salvador em 2003. O MPL iniciou uma atuação deste tipo quando declaroupublicamente que aceitaria o acordo de “suspensão” do aumentodas tarifas por 45 dias proposto pelo Ministério Público de SãoPaulo, e cancelaria o ato já marcado para a última quinta-feira.

Em seguida, o MPL publica um texto na Folha de S. Paulo, órgão de imprensa que só abriu espaço para que este movimento se pronunciasse colocando apenas as suas próprias posições, graças aos massivos atos de rua. Depois, são convidados para uma entrevistano programa Roda Viva. Ou seja, mesmo que sejam chamados para falar “como MPL”, este é um espaço conseguido graças à força da mobilização, e, assim, deveria expressar as posições políticas do movimento de conjunto, e não de apenas uma das organizações políticas que o compõe. E, por fim, e mais grave, o prefeitoFernando Haddad convocou o MPL para uma reunião de negociaçãonesta terça-feira.

Independente da correção ou não das divergências que apresentamos, consideramos que a única forma correta de se decidir como proceder diante do acordo do ministério público, da mídia ou da reunião com o prefeito é através da democracia de base, em que se expressem os setores que hoje estão nas ruas, na linha de frente da luta. Por isto, é fundamental a criação de um comitê com um funcionamento democrático. Diante da magnitude da luta, um comitê aberto como o que foi feito nos últimos aumentos não poderia mais responder à necessidade de organização. É necessário um comitê que represente as posições das bases, e, portanto, com delegados que fossem eleitos a partir de discussões em cada escola, universidade, bairro ou local de trabalho que esteja se organizando para construir a mobilização. Só assim poderemos nos ligar cada vez mais à população, aos trabalhadores do transporte e massificar ainda mais nosso movimento.

Libertem nossos presos! Não há trégua enquanto houver repressão!

 
 
 
O movimento tem crescido exponencialmente. Graças a isto, os governos de Haddad e Alckmin se uniram para reprimir as manifestações de forma exemplar e impedir que nos apoiemos nos exemplos de PortoAlegre, Goiânia e Teresina para impor a revogação do aumento e transformemos São Paulo em um grande exemplo nacional da luta contra os aumentos de tarifa. Diante disto, já são centenas de manifestantes presos e feridos, sendo que mais de quinze já estão sendo processados por crimes como formação de quadrilha. A primeira tarefa de nosso movimento é a luta para que nenhum manifestante sofra nenhum tipo de criminalização ou repressão, e por isto precisamos colocar como primeira pauta a libertação de todos os presos e a anulação de todas as acusações feitas contra os que foram detidos. É necessário deixar claro para o governo que sem o atendimento desta demanda, não haverá negociação sobre nenhuma outra pauta. O MPL não apenas não tem colocado isto como pauta central do movimento (sequer citaram a repressão em seu artigo na Folha), como tem dado declarações na mídia com disparates como “arepressão da polícia é desproporcional” (e o que seria uma repressão proporcional?!). Pior de tudo, o MPL para se mostrar como "ordeiro", tem procurado se desvencilhar de "atos de vandalismo" com o argumento de que não aprovam estas "atitudes isoladas" que "não tem como controlar". Este discurso é funcional à mídia e ao governo para criminalizar manifestantes e reprimir. É fundamental levantar a bandeira contra a repressão como linha de frente do movimento, nos apoiando inclusive em recentes conquistas na luta contra a criminalização dos movimentos sociais, como foi a negativa do Juiz a respeito da denúncia de formação de quadrilha contra 72 estudantes e trabalhadores da USP feita pelo MP paulista.

A luta deve ir além dos vinte centavos! Tarifa “justa” de R$2,16, “Tarifa Zero” ou estatização sob controle dos trabalhadores e usuários?


Qualquer um que esteja nas ruas hoje pode dizer que nossa luta não é por vinte centavos da tarifa. Deter o aumento, que privará uma parte ainda maior da população de usar o transporte é uma questão fundamental. Mas a força e massificação de nosso movimento hoje nos permite ir por muito mais do que isto, além de que a própria brutal repressão do governo e da polícia transformou nosso movimento também em uma luta contra a criminalização estatal à organização política dos trabalhadores e da juventude.

O MPL há anos defende o projeto denominado Tarifa Zero, criado por Lúcio Gregori, Secretário de Transportes da gestão petista de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo. Hoje, colocam como pauta de seu movimento a demanda deste projeto, sem questionar em seu programa a questão crucial do controle privado do transporte público, tal como colocam em seu texto na Folha de S. Paulo: “Por isso defendemos a tarifa zero, que nada mais é do que uma forma indireta de bancar os custos do sistema, dividindo a conta entre todos, já que todos são beneficiados por ele.”. O próprio prefeito Fernando Haddad disse que não poderia reduzir a tarifa pois isto implicaria em aumentar o subsídio que a prefeitura desembolsa para as empresas privadas de ônibus (no ano passado foram R$ 821 milhões), e que neste ano o reajuste estava abaixo da inflação devido a isenções fiscais concedidas pelo governo Dilma a estes empresários e ao aumento do subsídio dado pelo governo municipal. Ora, o que Haddad está dizendo é que não pode reduzir as tarifas porque se não iria onerar o orçamento da prefeitura com mais subsídio. A isto o MPL responde dizendo que “a tarifa deve ser dividida entre todos” (subsídio de 100%, portanto) e ainda dizem que “Não somos nós que afirmamos que o aumento está abaixo da inflação sem considerar que, de 1994 para cá, com uma inflação acumulada em 332%, a tarifa deveria custar R$ 2,16 e o metrô, R$ 2,59”.

A tarifa não deveria custar R$2,16 de forma alguma! Só poderia custar isto se levássemos em conta, como Haddad e MPL o fazem, que o transporte continuará sendo fonte de lucro para empresários! Se queremos um transporte que possa ser de fato gratuito, precisamos estar nas ruas levantando a bandeira de estatização imediata de todas as empresas privadas de ônibus! Sem indenização e muito menos subsídio para os empresários parasitas, que ao longo de anos lucraram às custas de nosso direito ao transporte! O MPL se furta a levantar esta demanda, e enquanto na última quinta-feira apánhavamos da polícia nas ruas, Haddad anunciava a uma licitação no valor de R$46,3bilhões para renovas as concessões às empresas privadas por mais15 anos! E o MPL não diz uma palavra a respeito disto, nem levanta esta demanda em momento algum! Precisamos estatizar o transporte, mas não queremos que ele fique nas mãos dos governantes corruptos e suas maracutaias! Quem sabe as reais necessidades de transporte são os trabalhadores dos transportes e os usuários! Por isto, defendemos que a bandeira central de nosso movimento seja a ESTATIZAÇÃO SEM INDENIZAÇÃO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE SOB CONTROLE DOS TRABALHADORES E USUÁRIOS! Só desta forma podemos lutar de forma consequente pela bandeira de PASSE-LIVRE PARA A JUVENTUDE, ESTUDANTES E DESEMPREGADOS! E também pela REDUÇÃO RADICAL DAS TARIFAS!

Da “Tarifa Zero” ao desvio da luta para a "suspensão" do MP


Contudo, o que o MPL tem feito concretamente hoje na luta é muito aquém da luta pela Tarifa Zero ou até mesmo da suposta “tarifa justa” que, segundo eles, “deveria custar R$2,16”. Isto porque, falando de forma ilegítima em nome dos milhares que estão nas ruas, o MPL anunciou em uma audiência pública que suspenderia as manifestações caso a prefeitura aceitasse o acordo proposto pelo Ministério Público de São Paulo de “suspender” o aumento por 45 dias. Com isto, o MPL quer mostrar ao governo e a mídia que vem nos atacando virulentamente que não são “intransigentes” e estão “dispostos ao diálogo”. Mas, na verdade, se trata de um balde de água fria na luta. O MP quer interceder na luta para desmobilizar os milhares que estão nas ruas e garantir para Haddad e Alckmin um cenário mais favorável para o aumento. E o MPL, ao invés de apostar na mobilização independente dos trabalhadores e da juventude para dobrar o governo, aposta nos acordos “por cima” com as instituições do regime. Para nós da Juventude às Ruas e da LER-QI, isto é um grande equívoco: partimos da concepção de que a juventude e a classe trabalhadora devem confiar apenas em suas próprias forças, e não dar crédito à “boa vontade” das instituições do regime, seja o judiciário, o executivo ou o legislativo. Um exemplo recente que mostra o tamanho do equívoco de nos iludirmos com estas concessões (que na verdade só são feitas graças à força do movimento e para tentar desviar nossa luta sem que ela conquiste suas verdadeiras demandas), é o caso do Pinheirinho, em que a organização que dirigia as mobilizações em defesa dos moradores (PSTU), “cantou vitória” antes da hora com a decisão judicial de suspender a reintegração de posse e, assim, os moradores foram pegos de surpresa na madrugada pelo contingente policial.

É para impedir que o MPL ou qualquer outro “representante” ilegítimo de nosso movimento tente vender nossa mobilização por migalhas que precisamos de um Comitê democrático, formado por entidades sindicais, estudantis, organizações políticas e delegados eleitos em assembleias de base, para que possamos decidir coletivamente e de forma democrática, pelos que estão na luta, quais as nossas demandas, quais as nossas táticas e como vamos negociá-las com o governo.

Vamos às ruas apostando nas forças de nossa mobilização independente para derrotar a polícia, o governo e os empresários do transporte! Nenhuma ilusão no acordão do MP!

Por um Comitê democrático para decidir os rumos da mobilização!

Liberdade a nossos presos! Arquivamento de todas as acusações!

Estatização sem indenização das empresas de ônibus sob controle dos trabalhadores e usuários!

Passe-Livre para os estudantes, a juventude e os desempregados! Redução radical das tarifas!



sábado, fevereiro 16, 2013

Carta aberta de um estudante denunciado e suspenso, aos calouros da Letras


Caros calouros,

Queria antes de tudo dar as boas vindas a vocês a esta universidade. Vocês estão entrando em um curso que, apesar de seus imensos problemas, tem muitas coisas boas para quem souber aproveitar. Digo isto com a propriedade de quem ingressou no curso há algum tempo, fez a graduação e a licenciatura, e hoje cursa a pós-graduação. Estudar em uma universidade como a nossa deveria ser um direito de toda a população; afinal, todos a financiam através do ICMS – um imposto regressivo, ou seja, os pobres pagam proporcionalmente mais do que os ricos. Mas, como disse Kant: Todo direito que não é universal torna-se um privilégio. E, infelizmente, é esta a realidade das universidades públicas no Brasil hoje: são um privilégio para poucos.

Assim, acredito que quando ingressamos aqui assumimos também uma grande responsabilidade; de lutar para que esta universidade seja, de fato, pública em todos os seus sentidos. Isso significa questionarmos desde seu acesso – hoje negado à imensa maioria do povo trabalhador, dos pobres, dos negros, pelo vestibular, que nada mais é do que um filtro social travestido de uma prova que atestaria o “mérito” ou a “capacidade” de estudarmos aqui. Mas também questionarmos todo o resto: o conhecimento aqui produzido, seus critérios, a serviço de que(m) ele está, a forma como tudo é decidido na universidade e até mesmo o acesso ao espaço físico do campus Butantã.

Quando entrei aqui, conheci esta responsabilidade e, a partir de meu contato com o movimento estudantil, o movimento de trabalhadores, as greves em defesa da educação, fui progressivamente vendo a importância destas lutas e a necessidade de participar delas. Posso dizer que aprendi tanto ou mais fora das salas de aula do que dentro delas, vendo como se dá na prática a disputa por um projeto de universidade (ou, se quisermos usar um termo bastante expressivo, mas que é escondido de nós porque afirmam de maneira cínica ser “ultrapassado”, fui vendo como se dava a luta de classes dentro da universidade).

Foi por causa desta responsabilidade que fui preso, no dia 8 de novembro de 2011, junto a outras 71 pessoas, que incluíam estudantes, funcionários e apoiadores, na reintegração de posse levada a cabo na reitoria da USP por 400 policiais fortemente armados. A ocupação da reitoria da USP era contra a presença da polícia militar no campus, e os motivos dos estudantes foram sistematicamente deturpados pela mídia, pela reitoria e pelo governo. Alckmin, após nossa prisão, disse que precisávamos de uma “aula de democracia”.

Antes de entrar na USP eu acreditava, como talvez a maioria de vocês ainda acredite, que a polícia servia para proteger as pessoas. Contudo, descobri já no meu primeiro ano que seu papel é bem distinto: em uma sociedade dividida em classes sociais, onde alguns sobrevivem da exploração do trabalho de muitos, ela serve para manter as coisas tal como são: os pobres em seu lugar. Não à toa, a polícia de São Paulo é uma das mais assassinas do mundo. Aqui na USP ela entrou para reprimir o movimento estudantil e de trabalhadores, para legitimar medidas autoritárias e arbitrárias como a demissão inconstitucional (pois foi feita sem sequer um processo no ministério do trabalho e por motivos políticos) do diretor do Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp), o Brandão; ou a expulsão recente de seis estudantes que lutavam por mais vagas na moradia, um direito elementar de permanência estudantil que é a única forma de garantir o acesso de muitos à universidade. Contudo, fora da universidade a polícia é ainda pior; logo aqui ao nosso lado, na favela da São Remo, vizinha à USP, podemos ver exemplos cotidianos disso. No carnaval de 2007, Cícera, uma trabalhadora terceirizada da  lanchonete da Faculdade de Educação, recebeu uma “bala perdida” de um policial e morreu. A prova do crime “sumiu” dos arquivos da polícia e seu assassino foi inocentado pelo Estado. Neste ano, o adolescente Genilson, de apenas 15 anos, que era aluno de uma amiga minha em uma escola do Rio Pequeno, foi assassinado pela polícia também na São Remo. São pequenos exemplos de uma prática cotidiana de uma polícia que vem matando uma média de 16 pessoas por dia nos últimos meses, em especial a juventude pobre e negra das periferias (os mesmos que não podem estudar na USP).

Porque eu sou contra a presença desta polícia no campus, porque eu sou a favor da democratização da universidade, porque eu sou contra a violência praticada pela polícia nas periferias, porque eu defendo a liberdade de organização política de estudantes e trabalhadores, eu estou sendo acusado de forma completamente injusta pela reitoria e pelo ministério público. Aplicaram-me uma suspensão de cinco dias – e a outros colegas de quinze – com base no “código de ética” e em um decreto (52.906 de 1972 no Estatuto da USP, recomendo a leitura) que data da ditadura militar e proíbe na universidade manifestações políticas e “atentados à moral e aos bons costumes”. A aberração jurídica da denuncia do ministério público é gritante, com acusações absurdas de formação de quadrilha. Pois é assim que tratam agora quem não se cala e se manifesta contra o que é injusto.

Escrevo esta carta para vocês por alguns motivos: para esclarecer os motivos destas punições e a arbitrariedade e injustiça da acusação que pesa sobre mim e tantos outros; para chamar a que vocês, ingressando na universidade, não se esqueçam que hoje têm acesso a um privilégio que deveria ser um direito, e assumam a responsabilidade por isso; que saibam que o primeiro passo para lutar por democracia nesta universidade é a defesa dos que hoje são perseguidos por lutar por isso. E, por fim, e talvez mais importante: para que não tenham medo. Este é o principal objetivo de nossos acusadores: calar a voz dos que lutam. Intimidar, assustar e acuar todos os que possam protestar contra as arbitrariedades, autoritarismo e injustiça. Não se calem, não se resignem, não se tornem apáticos, e nem sejam cooptados pelos “privilégios” de estudar na USP. Por isso, chamo todos a se mobilizarem contra as punições hoje em curso, pela reintegração dos estudantes já expulsos e de Brandão.

Coloco-me à disposição para conversar com todos os que queiram.

Fernando Pardal.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O tempo em que se gesta uma vida

É difícil parar para pensar nela. Sempre foi, mas antes era inevitável, não havia escolha. Quando eu acordava, quando dormia, em qualquer momento que minha cabeça ficasse minimamente tranquila, sua memória vinha. Ironicamente, eu morria de medo de perder estas memórias, que eu julgava serem tudo o que me restou dela. Já não tenho mais medo de perder as memórias, e tampouco acho que foram tudo o que me sobrou dela. O que me fica da cami está profundo demais em minhas veias para que eu possa perder. O que me fica é muito mais do que esta tristeza que não se vai; aprendi a ser mais próximo do que quero que a humanidade seja; aprendi também a viver com a dor, com a saudade, com o arrependimento, com o incerto.

Pensei muito sobre sua morte, e muito em sua vida a partir da perspectiva desta morte. Muito em como o duro combate acabou por derrubar uma combatente que ainda tinha muito para dar, para viver, para descobrir, aprender e ensinar. Não tem jeito: o gosto da morte fica, amargo, intransponível. Creio que ficaria de toda forma, mas uma morte terrível como a da cami sem dúvida fica mais, e não dá pra não ser assim. Só que o tempo dá um certo equilíbrio às coisas. Coloca a tristeza em perspectiva, e eu vejo como ainda falta muito para que esta tristeza e esta dor fiquem no lugar certo diante do que foi sua vida, do que ela foi para mim e para o mundo em que teve a oportunidade de ser a pessoa maravilhosa que foi, ainda que muito, muito aquém do que deveria ter sido. Ela precisava ter sido mais, o meu desejo de que ela fosse mais nunca vai se esvair. Mas ele vai se aquietar um pouco, como já começou a se aquietar.

Nos primeiros meses não se sabe medir o tamanho da dor. A vida é luto, a vida é estúpida, amarga, sem sentido e horrível. Droga, droga, não queria que fosse assim. Passo alguns meses deixando ela ali, subjacente, latente na vida. Nunca a esqueço, mas quando a puxo pro primeiro plano é uma facada, uma ausência terrível. As lágrimas são um pequeno sinal de uma saudade que não dá para entender, não dá pra mesurar. A serenidade se esvai, me vem seu rosto, sua dor, sua saudade. Como posso te lembrar serena se não foi assim que partiu? Como posso te desejar uma memória serena se não foi isso que consegui compartilhar com você em vida?

Eu lembro de momentos tranquilos, do seu sorriso calmo. Eu lembro hoje do sorriso calmo, meio envergonhado, de quando eu olhava apaixonado. A fumaça subindo do canto da boca, de lado. A serenidade era um presente raro, mas nós o tivemos por alguns meses. Nós o roubamos uma vez ou outra. Lembro da última vez, a última vez que roubamos à vida um momento de calma, um momento nosso para sonhar com uma vida que ela não pôde ter. Sentados nas pedras, fomos felizes, juntos, uma última vez.

Eu lembro de vezes que consegui segurar sua dor entre as mãos, de ter certeza que ela iria ser menor do que a vida, do que a luta por mudar a vida. Lembro de ter sentido o tamanho imensurável de uma dor que era sua. Eu consegui te ouvir, consegui estar com você. A dor também tem seus momentos de serenidade, e me lembro de você afagando calmamente meus cabelos quando eu chorei também. Havia felicidade na cumplicidade da dor, do sentimento mais profundo e verdadeiro que era a dor. E quando ela era nossa.

Queria te dar um último abraço e sentir sua dor. É tarde, muito tarde. Sua dor foi enterrada. Ela deixou heranças, que se dividem em pequenos pedaços, em vários continentes e vidas, das pessoas que te amaram, que te choram e sofrem. Gestamos esta dor, por nove meses, em nossas vidas. O luto, o luto eterno passou. A luta pela vida é maior e vence. Mas a dor permanece, ali, para ser puxada pela mão à tona em noites como esta, em que te lembramos, em que beijamos as memórias dos momentos doces e das dores que dividimos com você. E esta dor que um dia foi sua e imensurável, que venceu a batalha pela vida e por mudá-la, se transformou em uma teia fina, invisível e insolúvel que liga estas pessoas. Pessoas que te conheceram em diferentes momentos, que te amaram de formas diferentes e com motivos diferentes. Te lembramos e lembramos sua dor. Lembramos seus sorrisos e coisas que cada um carrega, pequenos segredos. Com os fios desta teia tecemos sua memória em diferentes cores. Nenhum de nós te esquece, e nenhum pode te levar conosco. Levamos apenas estas memórias, estas mudanças que deixou em cada um de nós.

Em nove meses se gesta uma vida humana. São nove meses sem a sua vida. Parece uma eternidade desde que a vi pela última vez. Não achava que seria a última; queria um abraço, só um abraço... levo esta dor nas alegrias de hoje, nas lutas por um futuro melhor. Um futuro que possa perdoar o que somos hoje e o que fomos ontem. Ele vai vir, e carregará nossas memórias nele.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Na São Remo, o genocídio. Na imprensa, a hipocrisia


A polícia mais assassina do mundo e a política de militarização dos governos do PT e PSDB 

A Polícia Militar de São Paulo já ficou internacionalmente famosa por ser a segunda polícia mais assassina do mundo (a primeira é a do Rio de Janeiro!). Contudo, o que ela fazia antes empalideceu diante de sua atuação recente. A mídia, afoita, noticia dia e noite as mortes de policiais, mas omite números como o de que para cada policial morto, 41 civis são assassinados pela policia no Rio de Janeiro, isso no ano de 2007. Hoje, do jeito que a polícia de São Paulo está, esta proporção deve ser ainda maior. Por isso, quando se fala de "guerra civil", está se cometendo um equívoco: trata-se de genocídio sistemático de uma população que tem renda e cor: são os negros e pobres da periferia de São Paulo.

A operação saturação em Paraisópolis, que sitiou a favela com 600 policiais e o abuso sistemático de todos os direitos dos moradores, agora conta com um reforço de peso: a vitória de Haddad em São Paulo trouxe imediatamente a atenção do governo Dilma para fazer de São Paulo o novo foco de sua política de militarização das favelas com as UPPs, botando as forças de segurança nacional para reprimir cotidianamente os moradores. Dilma quer militarizar a Paraisópolis! 

Os moradores da São Remo que construíram e mantém a USP são atacados pela reitoria e o governo

Aqui ao lado da USP, na São Remo, onde moram muitos dos trabalhadores da universidade - e particularmente os que ocupam os trabalhos mais precarizados, os terceirizados - a situação é escandalosa. A história da favela da São Remo e do campus Butantã da USP estão umbilicalmente ligadas, pois aquela começou a ser erguida justamente pelos trabalhadores que construíram os prédios da universidade. Situada em um terreno que oficialmente pertence à universidade, não foi sem muita luta, contando inclusive com o importante apoio dos trabalhadores da USP, que os moradores da São Remo conseguiram se manter ali. Foi também graças à sua mobilização, ao lado dos moradores de outras partes do Butantã, Rio Pequeno etc, que se construiu o Hospital Universitário da USP (que, diga-se de passagem, a reitoria tem planos de privatizar através de uma OS, um tipo de privatização que Haddad apoiou enfaticamente em sua campanha). A universidade cresceu, as condições de emprego se precarizaram: implementou-se a terceirização na universidade, com trabalhadores que não tem acesso a direitos trabalhistas elementares. Um deles, o vale transporte. 

Muitas empresas contratam apenas pessoas que morem num raio de até dez quilômetros da universidade, pois assim não pagam o vale. Claro, há trabalhadores terceirizados que se deslocam de pontos extremos da cidade para a USP, e que são ainda obrigados a falsificar seu endereço para trabalhar em condições absurdas. Também por isso, são centenas os trabalhadores terceirizados da universidade que vêm das favelas da região: favela do jaguaré, Vila Dalva, São Remo... Muitos destes trabalhadores contavam com o circular como o único auxílio que tinham para se transportar até seus locais de trabalho. Rodas, com uma canetada, cortou os circulares e privatizou o sistema de transporte da USP através da implementação do BUSP (o transporte é feito pela SPTrans através das empresas privadas concessionárias e a "comunidade USP", da qual a reitoria faz questão de excluir os terceirizados, pode andar mediante o uso de um bilhete especial). Assim, da noite para o dia todos os terceirizados perderam o direito de andar de circular e ganharam alguns quilômetros a mais em seus trajetos diários. Isto representou também um outro ataque, pois os motoristas dos circulares foram desviados de sua função, e este cargo está extinto na universidade em nome da privatização. Para calar os estudantes diante disso, a reitoria estendeu o trajeto até o metrô (sendo que a própria reitoria vetou o projeto original do metrô que previa duas estações dentro do campus! Uma na Praça do Relógio e outra no HU).

Os trabalhadores terceirizados e moradores da São Remo já não tem direito a nada na universidade: não podem usar o CEPEUSP, as bibliotecas, nem sequer comer no bandejão. Apesar de terem construído a universidade e fazerem ela funcionar a cada dia, a universidade elitista e racista simplesmente os classifica como "elementos estranhos" (lembremos que um dos fundamentos para a demissão inconstitucional de Brandão, diretor do Sintusp, em 2008, foi ter defendido estes "elementos estranhos" à USP em suas mobilizações contra atraso de salários e direitos, uma das marcas inconfundíveis destas empresas parasitas na universidade). As humilhações e abusos a que estão submetidos estes trabalhadores cotidianamente foram escancaradas na greve da União em 2011.

Contudo, a reitoria não considera o suficiente manter esta semiescravidão para galgar os degraus dos rançosos e meritocráticos rankings internacionais: decidiram que era necessário tirá-los de suas casas, afinal, pega mal para uma universidade de excelência que todos vejam a pobreza e exploração sobre a qual ela se sustenta bem ali, a olhos vistos, colada no muro da universidade. Então veio o projeto de "reurbanização" da São Remo, que pretende desalojar todo mundo e fazer uma coisa, assim, mais USP pra ficar ali, né?

Nem todos sabem, mas a remoção já começou aos poucos! Com duzentas casas removidas, os moradores recebem um "auxílio" de 300 reais (como eu queria ver o Rodas morar com este dinheiro!). A resistência, por outro lado, também já está de pé, com o Sintusp e a Associação de Moradores da São Remo na linha de frente.

São Remo militarizada e a campanha reacionária da imprensa

Sob o pretexto do assassinato de um soldado da Rota, a polícia está mantendo um verdadeiro estado de sítio. De estudantes da  universidade que dão aulas nas escolas ao redor da USP, já soubemos de alguns casos de jovens, alunos seus, assassinados. Em geral, o único motivo é estarem na rua após o horário permitido pelo toque de recolher. O boletim do Sintusp de hoje noticia: "Uma companheira, funcionária da USP, que teve sua porta arrombada pelos coturnos dos soldados, pediu o mandato judicial e recebeu dois tapas no rosto de um policial que gritava: "está aqui!". Em várias outras casas, os policiais quebraram móveis, eletrodomésticos e, quando os moradores protestaram dizendo que eram trabalhadores, ouviram dos policiais que quem mora na favela e não paga IPTU é bandido"

Esta situação já perdura há semanas, mas agora se agravou muito com a ocupação das polícias civil e militar. Agora, a mídia está em polvorosa com sua campanha reacionária, em que unifica os "maconheiros da USP" com os "traficantes da São Remo" e clama histericamente pela polícia para reprimir ambos. Este artigo   de Dennis de Oliveira mostra bem a postura da mídia diante da São Remo. Os estudantes da USP, que no ano passado travaram uma luta exemplar contra a polícia, não podem se calar diante deste absurdo! Ontem, os estudantes da Letras começaram a dar uma resposta. Agora, é fundamental que cada estudante e cada entidade passem a construir a reunião de segunda-feira, às 16h, no Sintusp, em que estará presente a Associação de Moradores da São Remo, para podermos organizar uma resposta unificada e à altura da repressão policial que está ocorrendo! Todo apoio aos moradores da São Remo!


domingo, outubro 28, 2012

Professora Marilena, vamos aos fatos

Nesta semana, os petistas da USP realizaram um ato pró-Haddad. O ato foi encabeçado pelo próprio PT e pela Consulta Popular, que nesta eleição tem mostrado um papel vergonhoso de ser mais petistas que o próprio PT. Este post é para debater especificamente a fala da professora Marilena Chauí neste debate, que ao longo dos anos tem se mostrado como uma das maiores defensoras ideológicas do PT na USP (tendo chegado às raias do absurdo ao afirmar, durante a eleição de 2010, que o bolsa família era uma espécia de "via brasileira ao socialismo"). Então, antes de mais nada, aí vai a intervenção dela neste debate:



A Juventude às Ruas esteve presente no ato, panfletando sua declaração pelo voto nulo programático no segundo turno em São Paulo e com cartazes que diziam "não há mudança com Maluf nem com o dinheiro da OAS (empreitera que doou um milhão para a campanha de Haddad) e da burguesia". 




Assim, pôde-se perceber, nitidamente, que nossa presença incomodou os petistas, e uma parte da fala de Chauí procurava combater justamente nossa posição pelo voto nulo. Mas vamos por ordem.

A professora ressalta que, em sua visão, há três formas de recusar a política: a primeira é uma concepção teológica do poder, de que o poder emana de uma fonte religiosa, divina, dogmática. Depois, mais à frente, ela afirma que Haddad combateria isto, pois não está com "os Malafaia da vida" (em referência a Silas Malafia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que declarou seu apoio a Serra). Ora, muito curioso isto, pois NO MESMO DIA do debate na USP, o candidato de Chauí que supostamente combate os "dogmas religiosos" dos "Malafaias da vida", apareceu publicamente recebendo apoio de 20 líderes religiosos de 11 igrejas e nove entidades evangélicas. Olha a cara de alegria do futuro prefeito ao receber os ensinamentos de Deus:



Em troca, Haddad prometeu dar um basta na lei do PSIU que proíbe que os crentes façam quanto barulho quiserem com a pregação de suas ideologia, ops, teologia da prosperidade. A lei do PSIU é escrota e reacionária, mas Haddad vai acabar com ela para garantir o apoio dos crentes. Me diga, professora, onde está o combate aos dogmas religiosos? Nos últimos dias, milhares de crentes receberam instruções de seus pastores para votar na "mudança" de Haddad. Denunciamos isto no ato, prontamente: pode-se ouvir, após Chauí falar o nome de Malafaia, a Juventude às Ruas gritando: "Edir Macedo!", falando dos aliados de Haddad.

Em seguida, Chauí volta sua artilharia retórica diretamente contra a Juventude às Ruas, recorrendo a Maquiavel e falando sobre os "moralistas" que olham "o céu dos princípios" para ignorar a "prática verdadeira que ocorre na terra". Por trás da excelente oratória de Chauí, que aprendeu muito com o mais brilhante conselheiro da monarquia, o que ela está dizendo é simplesmente isso: em política, não se deve ter princípios, mas sim entrar de cabeça na lama da política burguesa. É uma demagogia pomposa em defesa de uma política suja e sem princípios. O mesmo argumento pode ser utilizado para justificar o mensalão do partido de Haddad. 

Vamos então olhar mais de perto a "prática concreta" e sem princípios que defende Chauí: o PT, em seu discurso (ou seja, no campo "utópico" dos princípios) diz governar para os pobres (há algumas décadas seria para os trabalhadores, mas hoje acham este discurso já muito "ultrapassado" e os trabalhadores ficam só no nome do partido mesmo). Na "prática concreta", contudo, o PT militarizou os canteiros de obras em Jirau, Suape e outras obras do PAC, impedindo o direito de greve dos setores mais explorados e precarizados do proletariado brasileiro; cortou o ponto de grevistas do funcionalismo federal; autorizou o despejo de centenas de Guarani-Kaiowá (que, no campo dos princípios, bem como no Facebook, os petistas continuam defendendo e se comovendo, mesmo que seja o seu governo aquele que está fazendo isto). No campo dos "princípios", o PT defende a educação pública; mas na "prática cotidiana", Haddad transferiu milhões das verbas publicas para os empresários da educação através do Prouni (calcula-se que com a verba de cada vaga no Prouni poderiam ser abertas três vagas em universidades federais. No campo dos "princípios", Haddad e o PT defendem a saúda pública; mas na "prática concreta" ele garante manter a privatização da saúde em São Paulo através das chamadas "Organizações Sociais" (OS), que são empresas privadas que administram os hospitais públicos, e lucram muito com isso enquanto milhares de pessoas padecem nas filas. No "céu dos princípios", o PT combate as oligarquias reacionárias, as heranças da ditadura, luta pelos direitos humanos; mas na "prática concreta", se alia com Maluf, o governador biônico da ditadura que é responsável pela criação da vala clandestina do cemitério de Perus, onde foram enterrados centenas de jovens negros, pobres, trabalhadores e militantes de esquerda torturados e assassinados pela ditadura; o Maluf do "Rouba mas faz", "estupra mas não mata" (afinal, ele também é um homem que faz a "política concreta", e, segundo sua própria análise, perto do PT é um comunista, pois ele sabe o quanto os banqueiros e empresários lucraram nos anos de Lula e Dilma no poder). No "céu dos princípios" o PT é lindo, mas na "prática concreta" governa para os empresários, para a burguesia, ao lado dos Sarneys, Collors e Malufs que em seus "princípios" tanto combateram.

Para Chauí, provavelmente o "céu dos princípíos" é para a sala de aula. Lá ela diz, como no debate, que "está com o bem e com a verdade". Já em sua prática política, ela está no vale tudo dos partidos podres do regime. Para os marxistas o critério é distinto: nossos princípios são o guia de nossa prática política cotidiana, e não um palavrório para nos consolar de uma prática concreta mesquinha. Quem de fato exerce uma separação entre os princípios e o cotidiano é o PT e seus ideólogos, como Chauí, que se contenta em falar sobre o socialismo e manter-se na lama da política burguesa. Nós, pelo contrário, nos apoiamos em exemplos como o de Lênin, que por décadas travou uma luta incansável para construir uma ferramenta política dos trabalhadores que, no momento correto, soube tomar o poder das mãos da burguesia. Que fez uma política persistente, consciente e planejada. Ao estouro da Primeira Guerra Mundial, praticamente todos os "marxistas" da Segunda Internacional souberam, como Chauí, abandonar o "céu dos princípios" do internacionalismo proletário para fazer a "prática concreta" de apoiar as "suas" burguesias nacionais na carnificina imperialista. Lênin e Trotsky, ao contrário, soube guiar sua política concreta pelos seus princípios, e, mesmo isolados e em minoria, defenderam a política correta, do internacionalismo proletário. Se reuniram, em 1915, na conferência internacionalista de Zimmerwald, pouco mais de uma dúzia de revolucionários, que eram tudo o que havia restado de marxismo principista, que lutava pela unidade dos trabalhadores contra a burguesia. Souberam ser minoria e lutar contra a "prática concreta" do social-chauvinismo.

Hoje, também, os revolucionários são uma pequena minoria. E, como em momentos passados na história, desdenham de nossa "incapacidade" de fazer política concreta, ou seja, de "estar com as massas" custe o que custas, seja lá com que política for. Ao discurso de Maquiavel de Marilena Chauí, os revolucionários opõem o discurso de Lênin, em "O que fazer?": "É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles"

Como disse a própria Chauí, a terceira maneira de se abster de fazer política é se dobrar diante da ideologia burguesa, "aceitar a tirania, a ditadura do imaginário dominante e não me colocar a altura de quebrá-lo, de rachá-lo de ponta a ponta". Sim, nos propomos exatamente a fazer isto, e não há nada mais distante de enfrentar o imaginário dominante do que votar em Haddad e "lavar as mãos". Chauí dá, como exemplo deste imaginário dominante, "a ideia de que a política é a ação de técnicos modernos, responsáveis e competentes que se apropriam de todo o espaço público para agir em nome dos interesses privados da classe dominante".

Vamos ver então um programa que apresenta um "técnico competente":




O discurso de Chauí é ideológico, porque falsifica o que é Haddad, seu projeto de governo, sua campanha. Para ganhar as eleições em São Paulo, Haddad se mostra como o "técnico competente" que vai resolver tudo com seu "Arco do Futuro", uma panacéia digna das grandes obras que "foi Maluf que fez". Os problemas, na campanha de Haddad, deixam de ser políticos para serem técnicos. Em verdade, o "Arco do Futuro" de Haddad irá beneficiar empreiteiras como a OAS, que "doou" (ou, mais precisamente, investiu) um milhão de reais na campanha de Haddad.

O argumento que cooroa a exposição de Chauí é o corporativismo universitário, que chama o voto em Haddad porque este é "professor da USP". Que importa isto para os trabalhadores e a população pobre de São Paulo?! Nada, e Chauí bem sabe disto, mas como está fazendo a "política concreta" na USP, irá recorrer ao sentimento corporativista dos estudantes ali presente para votar em um candidato que "nos represente". O Ministro da Educação, que ela reivindica que "paralisou" a privatização de Paulo Renato, foi o que privatizou as verbas públicas através do ProUni. A única coisa que Haddad "paralisou" foram as dezenas de universidades federais que entraram em greve neste ano contra a política de ensino precário de Haddad através do Reuni, em que os estudantes não tem salas de aula, bibliotecas, bandejões, alojamentos, professores (e estes não tem salários decentes).

Professora Chauí, nos mantemos no campo dos que lutam contra uma política que mantém milhões em uma vida de miséria, enquanto mantém a riqueza nas mãos de poucos. É isto que o PT, por vias distintas (e muitas vezes mais eficaz) daquelas do PSDB, tem feito ano após ano. Combatemos também os intelectuais vendidos, que tem colocado seu prestígio e seu mérito a serviço de produzir ideologia a serviço da dominação burguesa. É isso, infelizmente, que o discurso de Marilena Chauí fez nesta última semana, e tem feito ao longo de anos. Nossos princípios nós não abandonamos.





segunda-feira, outubro 22, 2012

Os mandatos operários de Cléber e Amanda: uma oportunidade que não deve ser perdida

No primeiro turno das eleições municipais, se expressou um sintomático crescimento da esquerda (que analisamos mais detidamente na declaração da LER-QI). É necessário, em primeiro lugar, fazer a distinção entre PSOL e PSTU. Aquele, teve um expressivo aumento eleitoral, dobrando o número de vereadores, conquistando uma prefeitura e elegendo seu primeiro vereador na maior cidade do país. O PSTU, por outro lado, teve vitórias muito menos expressivas, do ponto de vista quantitativo, elegendo dois vereadores em capitais (Amanda Gurgel em Natal e Cléber Rabelo em Belém).

A trajetória acelerada e sem freios do PSOL rumo a ser "sócio menor" do regime burguês apodrecido

Contudo, do ponto de vista qualitativo não há comparação possível. O PSOL dá passos cada vez mais firmes rumo a ser nada mais do que mais um partido de um regime podre, a ala esquerda da miséria que a "democracia" burguesa pode nos oferecer. "Mas será que você não está exagerando? O PSOL participa de lutas, de movimentos sociais etc" poderiam objetar-me. Bom, como marxista, que procura olhar para as coisas (e aí também os partidos) como de fato são (e não como dizem ser!) e extrair as lições de uma realidade necessariamente contraditória, afirmo com toda a certeza que o PSOL segue um caminho decidido para ser uma perna bamba e "socialista" do regime burguês. Mesmo que muitos em suas fileiras, até os de suas alas mais à direita, como é o MES (Movimento de Esquerda Socialista), reinvidiquem Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa e Gramsci, sua prática nada tem a ver com os ensinamentos e a vida destes revolucionários. Colocam em prática aquilo que Lênin já apontou em 1917: "Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para 'consolo' das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o. A burguesia e os oportunistas do movimento operário se unem presentemente para infligir ao marxismo um tal 'tratamento'. Esquece-se, esbate-se, desvirtua-se o lado revolucionário, a essência revolucionária da doutrina, a sua alma revolucionária. Exalta-se e coloca-se em primeiro plano o que é ou parece aceitável para a burguesia. Todos os sociais-patriotas (não riam!) são, agora, marxistas." Tristemente, o PSOL está muitíssimo mais próximo dos detratores em vida de Lênin, como os mecheviques e os socialdemocratas alemães, do que de Lênin e sua doutrina...

É exatamente naquela fatia que Lênin classificou como "os oportunistas do movimento operário" que se encaixa o PSOL (ainda que possam existir indivíduos que são exceção, mas que no conjunto do partido não apenas não fazem diferença como colocam suas posições de esquerda para "lavar a cara" dos oportunistas de carreira; a estes, só resta abandonar o partido ou subordinarem-se às direções oportunistas). São oportunistas porque sua reivindicação fajuta de Lênin, sua atuação no movimento operário, estão sempre subordinados a melhor eleger parlamentares, a melhor aparecer como o partido da "ética" e "contra a corrupção". O que "esquecem" os oportunistas do PSOL é que, neste mesmo texto de Lênin supracitado, ele aponta, com vastas citações de Marx, a impossibilidade de um Estado burguês "ético" e sem corrupção. Isso porque, como afirma Lênin (baseado em Marx): "O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes.O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classe são inconciliáveis." E, apontando o que faziam os oportunistas de sua época: "De um lado, os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena burguesia, obrigados, sob a pressão de fatos históricos incontestáveis, a reconhecer que o estado não existe senão onde existem as contradições e a luta de classes, "corrigem" Marx de maneira a fazê-lo dizer que o Estado é o órgão da conciliação das classes. Para Marx, o Estado não poderia surgir nem subsistir se a conciliação das classes fosse possível.".

Os oportunistas "clássicos" da Segunda Internacional formularam com todas as letras esta concepção, de que o Estado poderia "conciliar" as classes e, desta forma, seria possível atingir o socialismo por vias pacíficas e por meio de reformas graduais. A história demonstrou seu erro diversas vezes. Aqui ao lado, no Chile, temos um exemplo trágico e inesquecível no reformismo de Salvador Allende, um reformista honesto que acabou por preparar o ascenso do fascismo em seu país entregando um ministério a Pinochet, que mais tarde seria o autor do golpe militar, para "acalmar" a burguesia raivosa. Foi mais um fracasso da concepção do Estado como órgão conciliador das classes. Hoje, o PSOL repete a mesma concepção, ainda que, nos discursos, muitas vezes diga que não. Enquanto os revolucionários honestamente dizem que bebem na fonte dos grandes dirigentes do movimento comunista que nos antecederam, os oportunistas sempre afirmam estarem inventando "o novo". Allende falava da "via chilena" para o socialismo, sem lembrar que esta via fora em primeiro lugar a do oportunismo alemão; o PSOL diz que é um "partido novo", requentando estas mesmas táticas.

Mas, enquanto afirma ser um "partido necessário", vemos que sua trajetória não é mais que uma paródia dos grandes partidos de massa reformistas. Antes que possuam alguma expressão, sua degeneração oportunista é patente. Primeiro foram as doações da Taurus e Gerdau (fabricante de armas e monopólio do aço - analisamos esta doação neste artigo ) para a campanha de Luciana Genro à prefeitura de Porto Alegre, que vão contra um princípio elementar do marxismo: a independência de classe (como defender os interesses dos trabalhadores sendo financiado pela burguesia?). Também votaram seus parlamentares diretamente contra direitos dos trabalhadores, quando votaram a favor do Supersimples. Agora, até mesmo seu verniz de "ético" e "anti-corrupção" vai por água abaixo, quando um membro da sua Direção Nacional, Martiniano Cavalcante, comprovadamente recebeu 200 mil reais de Carlinhos Cachoeira (Vale lembrar que Martiniano é da corrente interna MTL, a mesma que dirige a oposição ao Sintusp em São Paulo, e que ele chegou a disputar a vaga de candidato a presidente com Plínio de Arruda Sampaio, sendo apoiado pelo MES). Em cidades como Macapá e Belém, o PSOL está recebendo apoio do DEM, PTB, PSDB. Seu ex-candidato a presidente recentemente declarou apoio a Serra, enquanto a direção municipal não vê nenhuma diferença entre o voto nulo e o voto em Haddad... o que sobra para o PSOL? E deixamos a pergunta para os que ainda tem esperança neste partido: o que poderia frear este curso acelerado rumo a ser um novo "mini PT"?
Veja o apoio de Lula ao candidato do PSOL em Belém:

 

O PSTU tem nas mãos a chance de colocar seus mandatos a serviço da luta de classes, mas para isso deve mudar a perspectiva destas vitórias táticas!

Deixando claro porque o PSOL, ainda que seu avanço eleitoral contraditoriamente represente algo progressista, NÃO é uma alternativa para os trabalhadores, passemos ao PSTU e seus novos vereadores. O PSTU é um partido operário, não recebe dinheiro da burguesia, defende em seu programa a revolução socialista e a ditadura do proletariado. Só por isso, já tem um abismo de distância com o partido pequeno-burguês e oportunista que é o PSOL. Contudo, não é de hoje que discutimos como o PSTU se distancia da herança revolucionária de Trotsky, apoiando candidaturas de conciliação de classes e justificando com todo tipo de malabarismo teórico. Sobre isso, vale ler este artigo, que desenvolve bem as questões de princípio envolvidas.
Agora, o PSTU rompe a frente eleitoral em Belém, sob o pretexto de que recebe o apoio de Lula. Para o PSTU, magicamente isto foi um salto de qualidade em relação a receber dinheiro da burguesia e fazer frente com o partido que é uma base sólida de sustentação do governo e uma das maiores "patas" da burocracia sindical no país, o PCdoB de Aldo Rabelo. Veja abaixo o vídeo do vereador eleito do PSTU explicando a ruptura:


E aí, se convenceu? Eu não...ele diz que havia um "critério de classe" na composição da frente. E onde vai a grana do empresariado que apoiou no primeiro turno neste tal "critério de classe", que só para o PSTU existia? Infelizmente, tenho que concordar com um colega da Letras, ex-militante do PSTU, que coloca esta postura do PSTU como extremamente oportunista, diante do fato de que seu objetivo central, a eleição de Cláber, está atingido. Não pode haver outra explicação, pois o curso oporunista da campanha de Edmilson seguiu plenamente coerente; quem não teve a coerência necessária a um partido operário foi o PSTU. Além disso, sob que base se justifica o voto crítico que continuam chamando em Edmilson? Cléber se cala quanto a este fator, nada secundário.

Contudo, estas contradições não anulam a notoriedade da eleição, de Cléber, mas, principalmente, de Amanda Gurgel. Com estes dois mandatos operários, os companheiros do PSTU estão convocados a transformar a tribuna do parlamente burguês num espaço de denuncia incansável do regime, do capitalismo, de apoio às lutas de todos os setores explorados e oprimidos, dos trabalhadores e da juventude. Mas será que o PSTU está neste caminho? Neste ponto, queria apontar a seguinte contradição. Este é o discurso da vitória de Amanda Gurgel, até pouco tempo a capa de entrada do site do PSTU:


Este discurso foi pronunciado para a militância do PSTU. Bem classista, né? Denuncia o regime, fala que é um mandato coletivo a serviço das lutas, diz que o parlamento é o território inimigo, que "o nosso lugar é a luta". Que diferença do discurso que Amanda tem feito para as massas, no horário eleitoral.


Onde está a crítica feroz ao regime ao dizer que "precisamos de mudança na câmara" e "contra o poder econômico temos a força das ideias". Na campanha de Belém, PSTU vai mais longe com o Slogan "Belém para os trabalhadores", como se uma eleição pudesse fazer Belém estar de fato a serviço dos trabalhadores! Isso é o contrário de como os revolucionários devem usar o parlamento, como diz Lênin, para acabar com as ilusões da massas de que ali se pode obter grandes "vitórias". 

A conquista de um lugar no parlamento, espero que os companheiros do PSTU a coloquem a serviço de um programa classista. Como exemplo, coloco o mandato dos deputados trabalhadores da fábrica sem patrões, Zanon, na Argentina. Veja a diferença de seu programa eleitoral:



Um recorte de classe, que defende a expropriação do petróleo sobre controle operário, coloca o mandato ligado a sua luta na fábrica. Espero que Amanda e Cléber passem a fazer este tipo de discurso, para ajudar a avançar a consciência dos trabalhadores (o que, muitas vezes, significa chocar-se com ela!)

Seguimos entusiasmados e ansiosos com os primeiros mandatos operários e independentes na tribuna burguesa do Brasil neste século, enquant avança uma crise internacional. Que o PSTU coloque estes mandatos a serviço da luta de classes, e isso será um grande trunfo nas mãos da classe trabalhadora! Uma nova trincheira, que pode ser útil na guerra de classes desde que usada como um posto avançado no território inimigo para lutar por nossas posições, sem recuar um passo sequer!
Avante!


terça-feira, outubro 09, 2012

Lo que importa: uma elegia a Camila Radwanski




“Há os que lutam um dia, e são bons;
Há os que lutam um ano, e são melhores;
Há os que lutam muitos anos, e são muitos bons;
Porém, há os que lutam toda uma vida; estes são os imprescindíveis.”
- Bertolt Brecht

“Cuando yo muera, no me llores en la tumba fria.
Buscame en las luchas del pueblo, soy viento de libertad”
- Anônimo

Minha geração nasceu em uma época triste; uma época de ceticismo, descrença e desesperança. Crescemos e formamos nossa consciência em um tempo em que se dizia que o pior do mundo era o único mundo possível. Nos ensinaram a crer nisso. Nos ensinaram que o melhor era pensar em nós mesmos, em nossa sorte. Que a vida era cada um por si.

Não foi a primeira vez que o mundo tornou-se sombrio para os que tinham esperança. Em todos os momentos em que isso ocorreu, os revolucionários foram tão fundamentais quanto sempre. Para nadar contra a corrente, para manter viva a chama-piloto que poderia incendiar o mundo quando ele se enchesse de indignação novamente. Para semear para o futuro a colheita que nunca veriam.

Camila foi desta geração. Nasceu e cresceu em uma camada social privilegiada, cercada pelos filhos dos ricos, pelo quais não passava a pobreza do mundo. Mas eram parte da miséria também, pois não é só aos trabalhadores, aos explorados que atinge a miséria. A pobreza de nossa época é psíquica, é moral, é subjetiva, e de todos os tipos. Os meios mais abastados materialmente sofrem também desta miséria, que enche a vida de um vazio insuportável.

Ela nunca se ligou aos que optavam por uma vida de mais do mesmo. Por seus caminhos tortuosos e difíceis, Camila penou pela miséria do mundo, a conheceu e sofreu com ela. Não se conformava, não aceitava, não abaixava a cabeça. Era uma pária naquele meio, como os que anseiam por mudança verdadeira têm sido uma pária neste mundo recente. Era uma estranha no ninho que procurava, com seus próprios meios, lutar contra uma vida de miséria. A miséria material, esta ela não conheceu. As outras, estavam com ela o tempo todo; viveu mergulhada nesta miséria psíquica de nosso tempo. Por formas e caminhos para os quais ainda não dispomos de instrumentos para mapear, ela foi profundamente golpeada por esta miséria; forjou sua própria subjetividade na luta contra isto.

A luta revolucionária, para alguém que penou tanto ao se deparar com tanta brutalidade, é um caminho quase natural. E ela fez disso seu sentido. Quando a conheci, cada fibra do seu ser já era tomada pela ambição revolucionária, de virar esta miséria de ponta-cabeça a golpes duros e bem orientados. Não há quem me convença de que não foi isto que a orientou durante a parte mais difícil e mais gratificante de sua vida; de que foi esta meta que a manteve viva, pulsando, lutando até o último segundo.



O sofrimento do mundo penetrou nas veias da Camila. Tornou seu psiquismo doente, abalado, destroçado em alguns aspectos. Como o corpo de um trabalhador que exerce as funções mais penosas se gasta, se destrói aos poucos, tornando-se uma máquina rota muito antes do tempo, assim penso que aconteceu com o psiquismo desta pessoa a quem tanto amei. Não tenho meios para prova-lo, mas é o que sinto. Que a podridão do mundo, a mesma que a encheu de vigor para lutar, é a que lhe dava pesadelos e vozes, enchia seus dias de dor e tristeza.

Ela não se rendeu. Do pouco e intenso tempo que a conheci, esta é uma certeza que carrego. Cada gesto seu era uma preparação para o futuro revolucionário. Quando muitos em volta acreditavam que Camila estava longe da luta, eu discutia com ela cotidianamente e em detalhes os nossos planos, os equívocos, o que era necessário mudar para avançar em nossa pequena organização revolucionária. Através de meus pensamentos e ações, em cada conversa nossa, ela aportava para a construção de uma organização que se prepara para mudar o mundo. Em cada conversa nossa, ela preparava a si mesma para poder se colocar de corpo e alma a serviço da revolução; de resto, a vida não valeria o esforço de ser mantida.

Nos anos que precederam, Camila foi ativa de diversas formas nesta luta. Quanto aos sonhos que tinha para um mundo melhor – do que gostaria de fazer se fosse livre – também soube colocá-los a serviço desta luta. Queria fazer cinema, fotografar, criar. Fez com isto, por exemplo, esta belíssima foto para a capa da segunda revista Estratégia Internacional Brasil, publicação da LER-QI.



Quando estudava na PUC, participou da criação do grupo de mulheres Pão e Rosas, que se colocava a tarefa de lutar contra todas as formas de opressão que as mulheres sofrem, mas tomando em suas mãos em primeiro lugar as demandas das mulheres trabalhadoras e a partir de uma perspectiva marxista. Em toda a sua militância, a questão da luta contra a opressão às mulheres e aos homossexuais sempre foi um dos aspectos que destacou sua atuação. Não apenas porque Camila sofreu estes dois tipos de opressão na pele, mas fundamentalmente por seu instinto de sempre se ligar aos setores mais explorados e oprimidos, uma marca dos melhores revolucionários.

Um dos legados importantes que nos deixa para continuarmos nossa luta são as traduções que fez para o livro “Lutadoras: histórias de mulheres que fizeram história”, para nossas revistas, jornais etc. 



Vinha sendo pioneira em abrir a discussão em nossa organização com mais profundidade sobre os direitos dos LGBTTI e a opressão contra este setor da sociedade. Uma de suas contribuições que me marcou foi o texto escrito junto com a camarada Fernanda sobre a aprovação do casamento igualitário para homossexuais na Argentina: “Casamentohomossexual é aprovado na Argentina: E no Brasil, quando vamos arrancar estedireito?”

A sua condição de saúde, contudo, sempre foi um obstáculo muito concreto ao seu desenvolvimento pleno como militante revolucionária, e isso era algo que a deixava profundamente triste. Seguiu lutando, como pôde. Recentemente, vinha discutindo mais solidamente como voltar à militância plena e organizada na LER-QI. Sempre que a encontrava este assunto não faltava nas nossas conversas, era uma angústia sua e minha pensarmos como poderia atender a todas as exigências de uma vida militante. Andava propondo de militar a partir de nossa editora, tomando mais tarefas de tradução, porque isso era algo que poderia fazer em casa, mesmo se não estivesse bem. Enfim, em cada palavra sua, na forma como tratava a LER-QI como “nós”, mesmo quando estava afastada, tudo deixava claro que a luta revolucionária era o pilar fundamental para lutar por uma vida que, apesar de todos os percalços, mantinha de pé a luta para seguir adiante.

Além da saudade imensa e incontornável de sua presença insubstituível, Camila deixa um bocado de lições aos revolucionários. Que, se Trotsky dizia, nem só de política vive o homem, podemos dizer até mesmo que nem só de política vive um partido. É necessário, e isso aprendia com Camila sempre, sabermos ouvir e entender as pessoas. Aprendemos, ao olhar sua vida e sua luta para se dedicar até o fim à revolução, o que é verdadeiramente ser um revolucionário. O que a matou, no fim, foi ver-se impossibilitada de entregar-se tão completamente quanto era seu desejo. “Lo que importa”, dizia seu álbum de fotos com retratos de lutas nas quais tomou parte, com obras de arte em homenagem à revolução. Camila sabia que, em um mundo devastado e quando nós mesmos nos encontramos devastados, o que realmente importa é lutar por um mundo novo e uma humanidade livre; é entregar nossa vida a esta causa, que é o melhor que uma pessoa pode fazer hoje. Ela deu sua vida a esta causa, integralmente. Traduziu em cada fibra do seu ser o sentido das palavras de Trotsky em seu discurso de fundação da IV Internacional: “O partido exige-nos uma entrega total e completa. Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido significa encontrar a si mesmo. Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão”.



Aos seis meses de sua partida, continuamos carregando, hoje e sempre, a tristeza infinita por sua morte; mas esta dor é herdeira de sua certeza: se esta vida vale a pena ser vivida, é para lutar com todas as forças para que ela se transforme em algo distinto.

Camila Radwanski presente! Hoje e sempre!


quinta-feira, outubro 04, 2012

A arte revolucionária e independente não pode ser "reduto" nem de Serra e nem de Haddad!




Foi divulgado no Facebook um e-mail de um membro da Cia Os Satyros de teatro que mostra o que todos já sabem: sua ligação orgânica e umbilical com o PSDB e, particularmente, com Serra. Eis a peça:

"Assunto: [psdbcultura] socorro!
Enviada: 03/10/2012 21:25

Queridos,
Sexta vai ter uma manifestação aqui na Roosevelt, organizada a partir do Face. Na verdade, eles se dizem apartidários, mas cheguei a noticia de que vêem em nome do PT. Precisamos fazer alguma coisa e com urgência. Não sei, talvez nos reunirmos pessoalmente. Amanha, vcs poderiam? Tipo na hora do almoço? Podíamos nos encontrar na Roosevelt. É importante!!! E urgente!!! Socorro!

SAtyros Um, meio dia, pode ser?
É muito, muito importante.
Inclusive, não irei a minha aula na USP só por causa disso, ok?

Vamos acabar com "eles" e mostrar q a arte é reduto do Serra!

Podem trazer pessoas, vamos nós organizar!!!

No inicio tb não dei bola.
No convite, inclusive, eles afirmam q é "apartidário", embora seja contra Russomanno.
No entanto, to vendo um bando de petistas se organizando.
Acho q precisamos nós unir.

Ivam Cabral
Enviado via iPad"


Isto, em si, não é novidade. Todos sabem que há uma troca de favores por ali. A SP Escola de Teatro, feita por Serra, é fruto direto desta maracutaia. E a própria existência dos Satyros é uma demonstração da lamentável servilidade a que podem chegar certos "artistas" em sua tentativa de conseguir as migalhas da "elite ilustrada". E a Praça Roosevelt, por sua vez, virou o símbolo desta mediocridade. De arte, não sobra muito por ali, com uma ou outra honrosa exceção. O que há de sobra é gente querendo "ver e ser vista" com sua produção artística servil e insossa; querendo pagar de "intelectual e artista". A última vez - última mesmo! - que pisei no teatro d'Os Satyros foi para ver "Os 120 dias de Sodoma". Só para algum leitor da Veja entediado, que resolveu trocar sua novela habitual por um programa mais "intelectual", aquela imbecilidade pode representar algo interessante. Pobre Marquês de Sade, que teve sua obra transformada em bibelô para colorir as noites da burguesia paulistana. Não se poderia esperar algo distinto de quem quer requentar as fórmulas prontas de ontem para ser louvado pela mediocridade intelectual de hoje. Este é o único tipo de "artista" - estes que fazem o teatro de Miguel Falabela na escala do semiamadorismo - que poderia proferir o excremento verbal de que "A arte é reduto do Serra". É o servilismo artístico em sua expressão política.

Contudo, o que me incomoda muito mais é um expressivo setor do movimento de teatro de grupo em São Paulo, muitos com uma produção artística muito rica e interessante, e que no plano teórico reivindica o marxismo, afirma se colocar politicamente ao lado dos explorados, mas que chega na hora da eleição, mal saem de sua peça "revolucionária" e se colocam a fazer uma campanha deslavada para o petismo. Muitos dos mesmos que ontem ocuparam a Funarte, exigindo políticas públicas para a cultura e contra o corte de verbas que reduziu o orçamento da arte de 0,2% para 0,06% do PIB, hoje saem a defender o voto no mesmo partido que fez este criminoso ataque à já indigente verba cultural. Grupos que nas suas peças combatem a ditadura e seus resquícios, mas que depois colocam isto na gaveta para votar e chamar publicamente o voto em Haddad, que está abraçado ao governador biônico da ditadura Paulo Maluf, que colocou a "Rota na rua" e foi um dos responsáveis pela criação do cemitério clandestino de Perus, onde se enterraram sabe-se lá quantos lutadores e militantes assassinados e torturados brutalmente pela ditadura. São estes grupos de teatro que dizem defender uma cultura universal, popular, para os trabalhadores e o povo, mas chamam voto no Haddad que foi um dos grandes privatizadores da educação através do ProUni, e promoveu a precarização das universidades com a expansão sem verbas do REUNI.

Passa da hora dos grupos de teatro que reivindicam o teatro épico de Brecht, fundado no materialismo dialético de Marx e Engels, entenderem de uma vez por todas que este teatro revolucionário é fruto indissociável de uma luta política à morte contra a burguesia, pela independência política da classe trabalhadora, pela revolução socialista e pela ditadura do proletariado! É hora de tomar em suas mãos o marxismo não apenas como uma formulação estética ou uma declaração de posições em abstrato que se desmancham na primeira prova concreta da realidade! O marxismo é, antes de mais nada e sobretudo, a ferramente política de luta da classe trabalhadora na longa batalha pela emancipação da humanidade. Negociar alguns editais ou leis progressistas com o partido que se tornou o principal sustentáculo da burguesia no Brasil, levando a cabo ataques severos à classe trabalhadora, com corte de pontos de grevistas, repressões às greves nas universidades e canteiros de obras, conluio com as oligarquias centenárias do latifúndio e a grande burguesia monopolista do capital financeiro é dar as costas para o marxismo! É dar as costas para a luta para a possibilidade de uma arte verdadeiramente independente e livre! Para uma sociedade em que todos possam efetivamente ter tempo, educação, disposição para fazer e desfrutar da arte, sem a opressão e a exploração que sufocam a humanidade hoje.

A arte não é reduto da burguesia reacionária que está representada nas eleições por Serra e Russomano. Tampouco pode ser reduto da burguesia "light" que faz uma ou outra concessão com a mão esquerda enquanto golpeia os trabalhadores, a juventude, os artistas, as mulheres, os negros e homossexuais com sua mão direita, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade. Olhemos para trás, companheiros artistas, para aqueles que nos inspiram no campo artístico, e aprendamos também com suas atitudes políticas, que em nenhum momento se dissociaram de sua arte: Maiakóvski foi um ardente combatente ao lado dos bolcheviques, o único partido que foi capaz de permanecer fiel aos interesses da classe trabalhadora e do socialismo e levar a revolução à vitória; Brecht extraiu seu teatro dialético em grande medida de suas experiências ao lado da classe trabalhadora, tendo sido delegado no conselho operário de Munique, um órgão equivalente ao soviete, que organizava de forma independente da burguesia os trabalhadores; André Breton se aliou ao Partido Comunista Francês pela luta antiimperialista na guerra de Marrocos, mas rompeu com este por ver que não apenas sufocava a arte com a mordaça do "realismo socialista", mas também pelo beco sem saída de suas políticas de aliança com a burguesia "democrática" contra o fascismo. Foi aliado da luta pela política operária independente mesmo quando esta esteve em minoria na Oposição de Esquerda e na IV Internacional. Escreveu com Leon Trotsky o manifesto "Por uma Arte Revolucionária e Independente", cujas linhas ainda tem muito a ensinar para os trabalhadores da cultura de hoje como travar uma luta por uma arte livre e emancipada.

A arte que queremos tem que ser revolucionária e independente! E para isso deve ser independente de todas as frações da burguesia: não é reduto de Serra, nem de Kassab, nem de Haddad ou Marta Suplicy! A arte deve ser o reduto de apoio ativo e incondicional às lutas dos trabalhadores por uma sociedade sem classes! Retomemos o lema da FIARI: "A independência da arte para a revolução; A revolução, para a libertação definitiva da arte!"