quarta-feira, janeiro 27, 2010

Uma bela cerimônia!

Segunda-feira, feriadão.
Lá vamos nós pra porta da Sala São Paulo. Lá dentro uma pomposa cerimônia: Kassab e outros distintos membros da honrada elite paulistana condecoram o novo autocrata da USP, João Grandino Rodas. Teve até um culto ecumênico! Juro! O cara foi literalmente abençoado por líderes religiosos para sua louvável tarefa de dirigir o centro nervoso da intelectualidade paulistana, a universidade mais elitista, racista, conservadora do Brasil.
E do lado de fora, mais de cem manifestantes tomavam chuva, com faixas, cartazes, palavras de ordem. Contra Rodas e contra Kassab e suas enchentes e aumentos de passagem. Numa das faixas do Movimento A Plenos Pulmões dizíamos: Rodas, ontem com a ditadura militar, hoje com a ditadura universitária.
Exagero?
Vejamos: Rodas participou de julgamentos responsáveis por aferir a responsabilidade do Estado brasileiro em casos de morte e tortura no período da ditadura. Trabalhou arduamente para jogar para baixo do tapete alguns dos mais brutais crimes políticos ocorridos na história recente do país. Votou, para ficar em um exemplo só, pela isenção de responsabilidade do Estado no julgamento do assassinato da estilista Zuzu Angel, cujo assassinato pelos milicos já foi retratado até em filme-novelão.
Quando presidente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), foi responsãvel por permitir a criação da AmBev, criando um monstruoso monopólio no Brasil.
Listar todos seus podres é uma tarefa de titãs, que eu não tenho condições de cumprir agora. Mas acho que ainda vale contar um pouco do que já fez na USP, como diretor da Faculdade de Direito, mais conhecida como SanFran. Foi ele o responsável, em 2007, por meter a tropa de choque dentro da faculdade, para prender e reprimir um protesto de diversos movimentos sociais que consistia em uma "ocupação simbólica" de 24 horas do Largo São Francisco. Tinha criança, velhinho, estudante, sem terra. Meteu a PM lá dentro e disse à imprensa que era para garantir a "segurança do patrimônio" da universidade. Em 2008, propôs e obteve aprovação, no Conselho Universitário (o CU, denominado pela USP de CO, sua instância máxima de deliberação) uma resolução que recomendava o uso de força policial para reprimir manifestações dos trabalhadores e estudantes quando "necessário".
Assumiu a reitoria sem obter aprovação nem mesmo no CO, tendo sido indicado pelo abutre-mor Serra para ocupar o posto. Vem com um discurso pra lá de demagógico e hipócrita de diálogo, de acabar com a intransigência. Não resiste à menor prova dos fatos.
Foi já nesta segunda-feira que tomamos porrada na cabeça, sem que nem pra quê. A gente já vê quando Rodas acha necessário reprimir manifestações com uso da polícia: sempre. Se cem pessoas cantando na chuva e protestando já motivo pra meter bronca, imagina o que vai ser este ano na USP. Foram diversos feridos, um deles saiu com a cabeça banhada em sangue direto pro hospital. Três presos. Bombas, cacetetes, escudos, capacetes. Contra manifestantes desarmados.

Boa sorte para nós. Vai ser preciso pra enfrentar o novo magnífico Reitor e sua vasta tradição de "diálogo" na base do cacete.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Afogando o povo


Mais nove vítimas na região metropolitana de São Paulo:
No grajaú, um casal e sua filha de dez anos soterrados; na pompéia, um velho de 75 anos no desabamento de sua casa; em Mauá e Santo André, mais dois deslizamentos; em Ribeirão Pires, duas crianças e sua mãe soterrados.
Ontem a polícia reprimiu duas manifestações, no Jd. Lucélia e em Rio Bonito, da população revoltada com a situação em que se encontram. No Jd. Lucélia, no ano passado, uma parcela da população foi expulsa pela prefeitura para as obras de canalização de um córrego. Jogadas para fora de suas casas com uma "indenização" de cinco mil. Eu adoraria ver o filho da puta do Kassab se virar pra arranjar um lugar pra morar com cinco mil.
Quem ficou ali viu as consequências da obra que a prefeitura iniciou: nas recentes chuvas, casas que nunca sofreram problemas foram completamente inundadas. Chamados, os bombeiros nunca vieram. A ajuda que a prefeitura prometeu depois de um protesto nunca chegou.
Em Dezembro assistimos a população pobre da Zona Leste, em especial do Jardim Pantanal, sofrer as consequências de uma inundação sem precedentes. As "autoridades competentes" nos empurram a mesma cantilena de sempre: estão fazendo "de tudo" para impedir novas enchentes e "ajudar" a população atingida. Afinal, quem pode controlar as chuvas? Sem dúvida não é o prefeito, então culpem São Pedro, culpem o acaso, culpem qualquer um, menos quem controla a cidade: é uma fatalidade incontrolável.
Então, vejamos: fora o evidente fato de que só sofrem os deslizamentos e desabamentos aqueles que são obrigados a morar em condições precárias e em áreas de risco por conta da situação econômica a que, não por acaso, estão submetidos, vejamos o que os isentos governantes fizeram. No dia 8 de Dezembro todas as comportas da barragem da Penha foram fechadas, contribuindo decisivamente para o alagamento na Zona Leste. Por que elas foram fechadas? Para impedir o alagamento das marginais. Ora, o que são alguns pobres a mais morrendo lá no Jardim Pantanal?
Uma fatalidade, sem dúvida, incontrolável...

Saca só um gostinho da PM batendo na galera:
http://bit.ly/8QRUJY

Blog da campanha de solidariedade ao povo do Haiti

http://solidariedadeaohaiti.blogspot.com/?zx=bbe4a64881993a6d

http://www.youtube.com/watch?v=dS1Scrf8lHs

terça-feira, janeiro 19, 2010

Haiti: a heróica luta de um povo oprimido



Há muito blá, blá, blá por aí sobre o Haiti. É só ligar qualquer canal de TV, sintonizar qualquer estação de rádio para ver a farsa montada: o melodrama sensacionalista que a mídia burguesa faz sobre a tragédia de um povo. Concomitantemente, se abafa de maneira escandalosa as causas deste sofrimento pelo qual os haitianos passam hoje, montando um cenário imaginário em que se trata apenas de uma "catástrofe natural". Mas a coisa é tão gritante que mesmo nas arestas dos grandes monopólios da comunicação vemos algumas vozes que resgatam a exploração secular que se abate sobre os haitianos, como é o caso do texto de um professor e um estudante da Unicamp (militante do PSTU) que saiu na Folha.
Durante a greve da USP no ano passado tive a oportunidade de participar de uma atividade organizada pela Conlutas e pelo Comando de Greve dos trabalhadores e ouvir o relato de Didier Dominique, um militante de esquerda da Central Sindical e Popular Batay Ouvrier. Mesmo tendo sempre me posicionado ativamente contra a brutal ocupação das tropas da ONU no Haiti, foi só neste momento que tive a real dimensão do que se passa lá.

Didier falou sobre as revoltas que ocorreram no início de 2009 pelo aumento do salário mínimo (que tem o valor de US$1,70 por dia!). Falou sobre o tipo de perseguição política que sofrem os militantes de esquerda, sobre as repressões ao movimento que chegaram ao ponto das "tropas de paz" invadirem um hospital jogando bombas de gás lacrimogêneo em seu interior, assassinando um idoso e uma criança recém-nascida. Falou sobre a situação de miséria do Haiti, onde há 70% de desemprego e 90% de analfabetismo.
Hoje também vemos nas notícias sobre o terremoto as opiniões sobre a dificuldade de ajuda aos haitianos por conta da falta de estrutura do país. Pouco, contudo, se fala sobre o que gerou isso. Muito se fala sobre ditaduras sanguinárias que existiram lá; pouco se fala sobre que as financiou, quem as apoiou ativamente, quem ocupou o país militarmente diversas vezes. Muito se fala sobre supostas "tropas de paz"; pouco se
fala sobre o papel que cumprem cotidianamente, reprimindo a população, estuprando as mulheres, aterrorizando aqueles que se revoltam contra a miséria imposta.
Resgatar a história deste povo é fundamental, desde a luta por sua independência, que em 1804 conseguiu derrotar 25 mil homens das tropas de Napoleão e fundar o primeiro país independente da América Latina, a primeira república negra do mundo. A nossa solidariedade deve ser ao povo haitiano, que lutou e luta a cada dia contra aqueles mesmos que hoje aparecem de cara lavada nas televiões, internet e jornais, estendendo sua hipócrita mão para "ajudar".
Hoje o imperialismo disputa a tapa para decidir quem vai comandar o futuro do Haiti. O aeroporto está controlado pelas "humanitárias" forças militares estadunidenses que impedem o acesso de ajuda médica para priorizar o repatriamento de cidadãos de seu país. Mandam cada vez mais tropas, mas podemos ver nas poucas entrevistas com a população que não há ajuda alguma ao povo, que é obrigado a saquear as lojas destruídas (sendo violentamente reprimidos pelas "tropas de paz" por tentarem sobreviver) e tirar seus amigos e parentes dos escombros com as próprias mãos. A grande ajuda que chega, como apontou Adriana Diniz no JB, foi 4 mil vezes menor do que o dinheiro usado para salvar os capitalistas durante a crise.

Para quem quiser acompanhar mais notícias sobre o Haiti, estou postando algumas coisas interessantes no meu twitter (fepardal). Na quinta-feira realizaremos um ato no consulado haitiano, com horário ainda a determinar. Em breve divulgo com mais detalhes.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Livros de 2009

1- Os irmãos Karamázov (Dostoiévski)
2- Maria. Uma peça e cinco histórias (Isaac Bábel)
3- A tragédia de um povo. Revolução Russa 1891-1924 (Orlando Figes)
4- Infância (Górki)
5- Ganhando meu pão (Górki)
6- Minhas universidades (Górki)
7- No fundo (Górki)
8- O Estado e a Revolução (Lênin)
9- O programa de transição / documentos da quarta internacional (Trotsky)
10- Da Cabula (Allan da Rosa)
11- Morada (Guma e Allan da Rosa)
12- O Romantismo no Brasil (Antonio Candido)
13- Lutadoras (Andrea D'Atri e Diana Assunção orgs.)
14- Pedagogia do oprimido (Paulo Freire)
15- Letramento literário (Rildo Cosson)
16- O Cortiço (Aluisio Azevedo)
17- Um segredo no céu da boca (vários autores da Cooperifa)
18- Iracema (José de Alencar)
19- Germinal (Émile Zola)
20- Palestina: uma nação ocupada (Joe Sacco)
21- Palestina: na faixa de gaza (Joe Sacco)
22- Pyongyang (Guy Delisle)
23- Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)
24- A terra dos meninos pelados (Graciliano Ramos)
25- A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac)
26- Diário do exílio (Trotsky)
27- A revolução traída (Trotsky)
28- Marxism and Literary criticism (Terry Eagleton)
29- México rebelde: A comuna de Oaxaca (Gilson Dantas)
30- Escritos latinoamericanos (Trotsky)
31- A mão e a luva (Machado de Assis)
32 - Crônicas escolhidas (Machado de Assis)
33 - Valéria (Milo Manara)
34 - O clic (Milo Manara)
35 - O Grito do Povo (Vautrin/ Tardi)
36 - Filhos da pátria (João Melo)
37 - Persépolis (Marjane Satrapi)
38 - A história da revolução russa vol. 1 (Trotsky)

segunda-feira, novembro 09, 2009

Quem não tem cão...

Às vezes o dia amanhece de tarde, com aquele sol alto das duas horas já cansado de tanto tostar as pessoas e querendo ir se esconder. O dia já quer virar noite, e eu só queria ser capaz de dormir pra sempre.
Ora, que se dane! Que se dane mil vezes!
Você que me interroga com esta cara de quem não quer fazer nada!
A vida que me interroga com a podridão que oferece nos jornais, nas esquinas, nas bocas de quem eu encontro pela frente. Já me levantei, fazer o que? É necessário mastigar a nós mesmos, mastigar, mastigar, mastigar e, por fim mas nunca menos importante, é necessário engolirmos a nós mesmos.
Farei a digestão de meus pequeninos sentimentos apodrecidos acompanhada de um cálice de vodka.

domingo, fevereiro 22, 2009

Literatura sob a ótica marxista

Pois já demorou pra que eu me dê esta tarefa, e eu enrolei tanto justamente porque ela é assustadoramente difícil. Mas então agora vou me enterrar em livros e pesquisas pra tentar pensar uma série de questões sobre a literatura.
Pra começar, estou lendo "A formação da literatura brasileira", do Antonio Cândido.

domingo, fevereiro 15, 2009

Passa Palavra

E daí tem alguns amigos participando de um coletivo de notícias sobre movimentos populares e sociais. Tá adicionado ali nos links e, pra não ter erro, tá aqui:

http://passapalavra.info

Ainda é cedo pra fazer algum comentário acerca da minha opinião, mas logo mais eu dou meu parecer.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Paraisópolis - favela sitiada

Vídeos sobre a ação dos cachorros de guarda:

youtube - reparem nos comentários

e

Globo

Cornelius Castoriadis

Então eu vou começar a ler um livro chamado "A instituição imaginária da sociedade" que o Ciola (provavelmente o único leitor deste blog hahaha!) me emprestou. O autor é Cornelius Castoriadis, de quem eu nunca havia ouvido falar na vida. Então, pensei, é melhor eu ter alguma remota idéia de quem está falando comigo antes de ler. E fui maior fonte de conhecimento rápido e superficial do mundo, o Google. E eis que encontrei um sumário sucinto de uma opinião pessoal de um "castoridiano" (ou castorista, se preferirem) sobre o sentido da elaboração de teórico deste filósofo grego.
está aqui ó: Web Site Cornelius Castoriadis/Brasil

Isto é bom porque me dá também uma idéia de quem são os leitores e divulgadores de sua obra. E é possível que já me dê uma idéia do que vou encontrar no livro.

Favela sitiada




São quatrocentos policiais, cem viaturas, vinte cavalos, quatro cães e um helicóptero que mantém a “Lei e a Ordem” hoje na favela de Paraisópolis. Não bastasse o cotidiano de exploração e miséria a que estão submetidos os oitenta mil habitantes, hoje eles vivem submetidos ao terrorismo constante dos “homens da lei”. É esta a “Operação Saturação”, um destes momentos em que a face mais verdadeira e crua da nossa sociedade vem à tona. Basta de qualquer verniz democrático, é hora de mostrar até que ponto o Estado está disposto a manter os pobres em seu lugar à força de armas. Só quem mora lá sabe o que é viver nesta situação. E a nós, chegam somente alguns respingos de informação:

Moradores da Favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, acusam cinco agentes da Companhia de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar de terem mantido ontem dois adolescentes em cárcere privado e de agredi-los dentro da casa de um deles.

Polícia revista moradores nas entradas de Paraisópolis

Cinco membros da comunidade foram ontem à ouvidoria das polícias para reclamar de excessos na abordagem policial.

"Nossa preocupação é que tem muita polícia dentro da comunidade. Se foi necessário, foi no primeiro dia. Há alguns excessos na abordagem. Eu presenciei um policial gritando e xingando um cidadão que estava sendo revistado, de mãos na parede", afirma o radialista José Lopes, de 56 anos.

O padre Luciano Borges Basílio, da Paróquia São José, localizada na favela, também reclamou da truculência da Polícia Militar. O religioso disse que, mesmo usando roupa eclesiástica, foi maltratado ontem de manhã em abordagem dos homens do Regimento da Cavalaria.


Espumante, a raivosa “opinião pública” da burguesia clama por “justiça”, e a imprensa mostra o sofrimentos dos pobres vizinhos de Paraisópolis:

Vizinho de Paraisópolis, Morumbi vive dia de medo

Olhem os comentários

Pois é. Tudo em nome do "bem-estar social". Eu fico imaginando o tipo de coisa que está acontecendo lá e que não é divulgado.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Oba! Socialismo em dias de festa: Reunião anticapitalista no maior evento neohippie do mundo!



'Terminamos o FSM com uma vitória do socialismo e da revolução, com novas inspirações, renovados na busca de outro mundo socialista', afirmou Pedro Fuentes, Scretário de Relações Internacionais do PSOL.


Ah, fala sério! Vamos lá, pessoal, vocês acham mesmo que é assim que se luta contra o capitalismo? A história realmente não tem absolutamente NADA a ensinar para vocês? Ou será que é pura hipocrisia? (As perguntas não são retóricas, se alguém souber ou quiser tentar respondê-las, estou aguardando ansiosamente.)

Sobre Górki

Estou lendo agora a trilogia autobiográfica do Górki.
Terminei o "Infância", em que ele fala sobre suas primeiras lembranças, começando com a morte do pai e a mudança com sua mãe para a casa dos avós. Neste ponto de partida é maravilhoso o modo como Górki já descarta a possibilidade de uma autobiografia enciclopédica com enumeração e listagem de fatos, memórias, e muito blá blá blá digno das páginas da revista "Cult" ou outras publicaçõs tipo "Revista caras para burgueses metidos a intelectual", tal como, infelizmente, a Biografia recém-lançada a respeito de Maiakóvski ("Maiakovski: O poeta da Revolução", Aleksandr Mikhailov, Record, 2008). Ele começa com o ponto de vista próprio da memória infantil, e suas lembranças principiam subitamente no momento fundamental da morte de seu pai.
A partir daí, delinea-se o retrato da sua infância de miséria na família cada vez mais pobre de seu avô, onde os filhos homens disputam tapa a tapa qualquer herança que puderem conseguir de seu pai (incluindo o dote da irmã). A mesquinharia não fica na geração mais recente, e mostra suas raízes mais profundas na figura do avô. A violência absurda de uma sociedade patriarcal, conservadora, e machista, fruto da vida de obscurantismo e opressão a que os personagens estão submetidos cotidianamente, é retratada por Górki de maneira não apenas precisa, mas com o verdadeiro talento de um grande escritor (Górki, sendo quase unanimemente considerado pela crítica como um escritor de altos e baixos, também quase unanimemente tem a sua trilogia apontada como uma de suas melhores criações). Contraditoriamente, são os primeiros choques da criança com este mundo brutal que irão moldar a sua personalidade extremamente sensível, aliada à revolta contra a opressão, traços que fundamentarão a produção literária e a militância socialista que estão na base da vida de Górki. O absoluto horror a certas experiências, por vezes, deixa entrever no olhar da criança os olhos de um homem já maduro, que vê a sua vida infantil com os olhos de um adulto dotado de extrema sensibilidade e já inconformado com a miséria do nascente (porém ainda mais arcaico do que em sua contraparte Européia) capitalismo russo.
São estas passagens, que aliam a vida de miséria da criança e de seu meio com a sensibilidade e a indignação do escritor socialista, que conferem ao livro o seu sentido último. Tal ocorre, por exemplo, quando, ao retornar de um verão no qual trabalhara e viajara como lavador de pratos em um barco e caçador de pássaros, o jovem Aliekséi (Górki), retorna à casa dos antigos patrões:

"Parecia-me que, no decorrer daquele verão, eu vivera uma experiência tremendamente rica, envelhecera e ficara mais inteligente enquanto, na casa dos patrões, no mesmo período, o enfado se adensara ainda mais. Eles adoecem com a mesma frequência, desarranjando os intestinos com a comida farta, contam uns aos outros, com as mesmas minúcias, o evoluir das suas doenças, a velha [mãe de seu patrão e irmã de sua avó] reza a Deus de maneira terrível e rancorosa, como sempre."

Bom, há muito ainda que eu poderia falar sobre os romances, mas ainda nem terminei de lê-los. Vou seguir o método Ciola de tentar falar para os outros para ver se escuto de novo e dizer aqui que pensei diversas vezes como valeria a pena fazer um estudo comparativo entre o "Infância" do Górki e o "Infância" do Graciliano Ramos. Mas aí eu fico pensando se vale a pena e para que eu faria isto e começo a me questionar sobre a validade da crítica literária no mundo em que vivo e blá blá blá até que a perspectiva do tal estudo some completamente.

Ciola: vou consertar o "afundar", senhor piadista, mas não vou remunerar seu serviço barato de revisão de texto. Quanto ao livro, foi mal, eu li pra caralho nestas férias e acabei deixando justo ele de canto. Mas você pode compreender né? Há tanta coisa que eu preciso ler, e um cara com o qual eu já não tenho tanto acordo logo de cara é pouco tentador. Entretanto, acho importante ler os teóricos que discordo (visando principalmente os objetivos expressos há uns dois posts atrás) e já te prometo de antemão (sua tática, novamente) que vou ler e escrever algo a respeito dele.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Engatinhando, engatilhando...

Mais fácil falar do que fazer...
Não sei o que me ocorre, ando com um bloqueio para realizar certas tarefas. De qualquer forma, posto aqui a minha intenção com o intuito de criar alguma pressão sobre mim e, assim, quem sabe, conseguir parir o rebento.
É o seguinte: após finalmente concluir a leitura do livro de Orlando Figes sobre a Revolução Russa, e estou querendo escrever uma breve resenha sobre ele. Talvez seja o fato de que não me preparei adequadamente para esta intuito enquanto lia o livro, ou talvez seja só um pouco de receio por tentar defender uma visão bastante diferente das muitíssimo bem fundamentadas mil páginas do livro, mas o fato é que o negócio ainda não foi pra frente. Acho que preciso entender que, não importa o que eu escreva agora, vai ser só um tipo de rascunho com primeiras impressões.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Não há prática revolucionária, sem teoria revolucionária

A conhecida citação de Lênin diz tudo, e qualquer um que se pretenda um militante revolucionário minimamente consequente há de concordar com isto, seja ou não partidário do Leninismo. Para nós, vivendo em uma época em que o legado de tradições das lutas do movimento operário e socialista remonta mais de dois séculos, e em que a ideologia triunfante burguesa (e até mesmo muitos que se autodenominam como "de esquerda") alardeou o fim da União Soviética como a vitória final do capitalismo, a tarefa de estudar e resgatar esta história a fim de aprender suas lições é tão difícil quanto necessária.
Por experiência própria sei que é prática comum entre a militância de esquerda (talvez no Brasil em especial) fazer tabula rasa da vastíssima experiência de lutas dos trabalhadores, descartando absolutamente tudo o que veio antes como inútil sem ao menos se dar ao trabalho de conhecer isto que se joga fora. É uma tentativa inútil, desesperada e leviana de criar algo como um foguete espacial sem querer saber ao menos como se faz um motor de combustão. É impressionante, no entanto, como um modo de agir tão estúpido vigora com tanto fervor entre a esquerda. Eu mesmo, por exemplo, demorei anos até me dar conta de que tomava tal atitude.
Entretanto, a postura mais perniciosa diante da teoria revolucionária e da história da luta pelo socialismo leva esta cretinice adiante, pois, além de ignorar flagrantemente a história, acredita que sabe dela tudo o que é necessário, transformando análises absolutamente superficiais em dogmas dignos de serem seguidos às últimas consequências.
A história está repleta de nomes que dedicaram longas vidas inteiramente à causa revolucionária, e que morreram sem aprender uma ínfima parte do que desejavam. Em geral, sua luta levou a sua morte prematura. Está repleta também de erros e acertos das lutas pregressas, cujo simples estudo poderia ajudar enormemente a nos prepararmos para as lutas vindouras. Poucos são os revolucionários dignos de respeito que, ao longo de sua vida, não mudaram posturas e reviram pontos fundamentais de sua prática pautados em elaborações teóricas que foram frutos de um confrontamento cotidiano de suas concepções diante da realidade concreta. Muitas vezes, aqueles que se vangloriam de peito estufado de uma pretensa "coerência teórica" são os mais obtusos militantes. Alguns dos textos mais brilhantes da história da teoria socialista são os textos de polêmicas, em que os revolucionários se debruçavam exaustivamente sobre concepções alheias, esforçando-se para demonstrar porque e em que estas estavam equivocadas.
Já passa da hora de retomarmos seriamente estas tradições, de realmente pensarmos criticamente nossas práticas, pois sem isso estamos fadados ao fracasso e a mediocridade. Estes já são um terrível peso sobre as costas de um indivíduo. São muito piores quando temos a responsabilidade de fundarmos um projeto coletivo, que pretende ser uma luta pela emancipação de toda a humanidade, junto com nossos próprios erros.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Acho que não sei mais fazer este negócio de blog, tem ares de coisa muito estúpida pra que eu consiga fazer algo bom dele.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Reformas

Blog em fase de modificações.
Acho que vou ter que retornar aos tempos da máquina de escrever. O Word não aceita minha tentativa de escrever várias palavras juntas sem espaço. Tentei em três computadores diferentes, e ele SEMPRE dá pau. Vou ver se o BrOffice é menos cretino. Como pode um programa que é desenvolvido há tanto tempo por uma megacorporação multimilionária ser tão absolutamente tosco?

quarta-feira, novembro 05, 2008

A minha vida vai bem sim.
E sinto que, aos trancos e barrancos, estou conseguindo apontá-la na direção que eu quero.
Mas queria ver este pessoal que pouco vejo por aí.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Passei por aqui só pra falar bobagens, ando sufocado pelo dia-a-dia (e quem não anda?)
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?