CHUPA! CHUPA!!!!
Realizaram um sonho maravilhoso que eu tinha em minha mente, uma destas coisas bonitas que você sempre quis realizar na vida, mas sempre foi uma utopia.
Há dias em que você recupera um pouco da esperança de que o mundo pode ser um lugar justo e bom, e hoje é um destes dias.
Até mais Excelentíssimo Coronel Ubiratan. Neste momento singular eu gostaria que realmente houvesse uma vida após a morte, onde você pudesse sofrer mais.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u125835.shtml
Ah, estou pensando que deveríamos fazer uma festa de comemoração, talvez no espaço aquário. Quem topa?
terça-feira, setembro 12, 2006
domingo, setembro 10, 2006
Tudo bem, eu sei que não tenho doenças incuráveis e tenho todos os meus membros e que os meus problemas são todos bobinhos e vivem praticamente dentro da minha cabeça depressiva pós-adolescente pseudo-niilista de moleque desocupado do começo do século do fim do mundo. Mas, afinal, fizemos blogs para escrever coisas belas e edificar o conhecimento e a moral dos nossos tempos ou fizemos para ficar reclamando de nossas vidinhas pacatas e medíocres de pequenos-burgueses pretensiosos impotentes diante da crueldade e feiúra do mundo e de nós mesmos? (e repare que a primeira pessoa do plural é puramente um efeito retórico e eu não tive a intenção de envolver nenhum de vocês em meus toscos draminhas pessoais tá? E como a pergunta também foi retórica, e nós já sabemos a resposta, vamos pular direto pra parte onde eu começo o famigerado mimimi).
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Você precisa parar de ser vítima das coisas, Fernando.
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...
quarta-feira, agosto 23, 2006
terça-feira, junho 27, 2006
Tava lendo um textinho aí do carequinha Lênin, chamado assim: O materialismo dialético e o Anarquismo.
Achei que ia ser interessante, mas não tem nada a ver. É uma discussão sobre o materialismo dialético ser ou não uma ciência e coisa e tal. Tipo assim, super demodê, sabe?
Mas tem um trecho que me deu vontade de colocar aqui, porque não faz absolutamente nenhum sentido, é como uma discussão entre crianças de nove anos.
"Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo!"
Sensacional né? Aprendi horrores.
Achei que ia ser interessante, mas não tem nada a ver. É uma discussão sobre o materialismo dialético ser ou não uma ciência e coisa e tal. Tipo assim, super demodê, sabe?
Mas tem um trecho que me deu vontade de colocar aqui, porque não faz absolutamente nenhum sentido, é como uma discussão entre crianças de nove anos.
"Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo!"
Sensacional né? Aprendi horrores.
domingo, junho 04, 2006
Como Queríamos Demonstrar
Transtornado. Esta é a palavra que define meu estado de espírito no momento. Ainda nem sinto a coisa bem digerida no meu cérebro pra poder escrever sobre ela, mas como eu posso falar a merda que quiser aqui, vai assim mesmo.
O Movimento Estudantil é um CU, um GRANDE CU. Eu queria ir na plenária final do Congresso de Estudantes da USP e gritar isto. Isto não ia ser suficiente. Eu queria ir na plenária final do CONUNE e gritar isto e um monte de coisas no microfone. Eu queria escrever um tratado de mil páginas dizendo em detalhes como, quando, onde e porquê o ME é um grande CU.
Mas, como queríamos demonstrar, eu fui na plenária inicial ver o grande autismo burocrata: em vez de defendermos o emprego de oito terceirizados que ganham menos de quatrocentos reais, não têm direitos trabalhistas e foram demitidos por se organizarem com um sindicato, o Congresso decide por fazer a discussão, priorizando nosso "acúmulo", levar as discussões pra nossos Campi e, finalmente, tirar uma deliberação que será fundamental para impulsionar nossas lutas. Os burocratas optam pela mentira deslavada, a calúnia, a hipocrisia sem pudores.
Eu vi os GTs autistas, discutindo idiotices sem base material nenhuma. Eu vi a plenária final com seus delegados desqualificando a posição das correntes minoritárias em um gesto absolutamente idiota e infantil. O Congresso aprovou que o PCO é fascista.
E, enfim, como já prevíamos, vimos as pessoas não entenderem sarcasmo e nos dizerem que somos reacionários, machistas, conservadores. E até mesmo levantarem a questão de que talvez estejamos do outro lado da trincheira. Veja bem, não veio da minha boca sectária e cheia de nojo. Mas talvez seja verdade. Talvez eu não esteja do lado da trincheira das pessoas que querem fazer a frente classista e brincar de ser parlamentar. Talvez eu não esteja do lado da trincheira que quer brincar de "acumular" sobre a luta de classes enquanto ela está acontecendo debaixo do nosso nariz.
Eu estou de saco cheio. DE SACO CHEIO.
Transtornado. Esta é a palavra que define meu estado de espírito no momento. Ainda nem sinto a coisa bem digerida no meu cérebro pra poder escrever sobre ela, mas como eu posso falar a merda que quiser aqui, vai assim mesmo.
O Movimento Estudantil é um CU, um GRANDE CU. Eu queria ir na plenária final do Congresso de Estudantes da USP e gritar isto. Isto não ia ser suficiente. Eu queria ir na plenária final do CONUNE e gritar isto e um monte de coisas no microfone. Eu queria escrever um tratado de mil páginas dizendo em detalhes como, quando, onde e porquê o ME é um grande CU.
Mas, como queríamos demonstrar, eu fui na plenária inicial ver o grande autismo burocrata: em vez de defendermos o emprego de oito terceirizados que ganham menos de quatrocentos reais, não têm direitos trabalhistas e foram demitidos por se organizarem com um sindicato, o Congresso decide por fazer a discussão, priorizando nosso "acúmulo", levar as discussões pra nossos Campi e, finalmente, tirar uma deliberação que será fundamental para impulsionar nossas lutas. Os burocratas optam pela mentira deslavada, a calúnia, a hipocrisia sem pudores.
Eu vi os GTs autistas, discutindo idiotices sem base material nenhuma. Eu vi a plenária final com seus delegados desqualificando a posição das correntes minoritárias em um gesto absolutamente idiota e infantil. O Congresso aprovou que o PCO é fascista.
E, enfim, como já prevíamos, vimos as pessoas não entenderem sarcasmo e nos dizerem que somos reacionários, machistas, conservadores. E até mesmo levantarem a questão de que talvez estejamos do outro lado da trincheira. Veja bem, não veio da minha boca sectária e cheia de nojo. Mas talvez seja verdade. Talvez eu não esteja do lado da trincheira das pessoas que querem fazer a frente classista e brincar de ser parlamentar. Talvez eu não esteja do lado da trincheira que quer brincar de "acumular" sobre a luta de classes enquanto ela está acontecendo debaixo do nosso nariz.
Eu estou de saco cheio. DE SACO CHEIO.
domingo, maio 21, 2006
Ouvir babaquice e opiniões estúpidas infelizmente é algo pra lá de corriqueiro neste mundo imbecil, mas fazia um bocado de tempo que eu não era forçado a ouvir tanta merda em uma só semana. Caralho, que que é esta porra da cidade inteira parar, as pessoas cancelarem tudo e fecharem todas as coisas porque queimaram uns ônibus e mataram uns PMs. "Ai, que medo! O PCC vai me matar!" Se você é uma destas pessoas que ficou com medo de sair na rua por causa do PCC e tá lendo isto, eu só queria dizer que te acho um imbecil. Se você tivesse reparado um pouco em vez de só enfiar no seu cérebro de ervilha a opinião pré-fabricada do senso comum, teria notado que só morreram PMs. SÓ POLÍCIA, entendeu animal? Não mataram nenhum adolescente de classe média que vive no percurso jardins-paulista-pinheiros-butantã-centro-vilamariana-perdizes. Aliás, teria notado também que os ataques foram na PERIFERIA, lugar que você não frequenta. Tudo bem, pra não dizer que eu menti, morreu também um bombeiro. Mas, tecnicamente, ele é da polícia também. E devia ter um uniforme parecido além de tudo. Quanto ao resto, não posso dizer que eu não sinto uma certa satisfação, e, às vezes, inveja. Quem já não teve vontade de matar um policial cuzão a pauladas? Eu sei que eu já, muitas vezes. É claro que eu me recrimino por esta vontade tão horrível, afinal o gambé é só mais um filho da puta explorado, com uma família e tudo mais. Bom, mas aí é só visitar umas comunidades de PM no orkut que eu até fico com vontade de ver eles morrendo de novo. E queimar uns ônibus, porra, taí outra coisa que eu também sempre quis fazer.
Mas enquanto o pessoal fica se borrando de medo do PCC, não causa nenhum alarde os grupos de policiais encapuzados que saíram matando quatro ou cinco vezes mais pessoas indiscriminadamente pelas periferias.
A primeira coisa que eu pensei na segunda-feira, quando começou o pânico generalizado foi aquela velha frase da Rosinha: Socialismo ou barbárie. Enfim, acho que a escolha tá feita né, num adianta chorar sobre o leite derramado. Enquanto isso o filho da puta, hipócrita, ex-arena que governa alegremente São Paulo tem a coragem de colocar a culpa na porra da elite branca. Vai tomar no cu, caralho, olha no espelho e na sua carteira seu merda. Deviam colocar ele pra ser agente penitenciário por um mês, isso ia dar um bom reality show.
E a frase mais ouvida na minha semana foi o velho e bom chavão: "direitos humanos para humanos direitos."
Revolução meu cu. O que pega agora pro povo marginalizado é se enfiar no capitalismo em grande estilo e pegar sua fatia do bolo através de mega-corporações de narcotraficantes. Depois da gaviões e do PCC em SP e do mengão e do CV no Rio, quem vai querer outra coisa? As mobilizações de massa são estas meus amigos: nem trotskistas com quartas internacionais, nem UJS e stalinismo, nem Passe-Livre porra nenhuma. O povo pobre tá aí, lutando pra não se foder na cadeia e sobrevivendo da droga que você vai lá comprar no fim de semana. A grande luta é entre a corporação A e a B. Enquanto os colarinhos brancos ficam assistindo, quem vai se foder são os peõs do lado branco e negro: os PMs que se fodem na rua e os pau-mandado que entopem as cadeias. Não tem espaço pra mais nada neste duelo de titãs.
A cada dia que eu vivo neste mundo eu tenho mais vontade de cair fora.
Mas enquanto o pessoal fica se borrando de medo do PCC, não causa nenhum alarde os grupos de policiais encapuzados que saíram matando quatro ou cinco vezes mais pessoas indiscriminadamente pelas periferias.
A primeira coisa que eu pensei na segunda-feira, quando começou o pânico generalizado foi aquela velha frase da Rosinha: Socialismo ou barbárie. Enfim, acho que a escolha tá feita né, num adianta chorar sobre o leite derramado. Enquanto isso o filho da puta, hipócrita, ex-arena que governa alegremente São Paulo tem a coragem de colocar a culpa na porra da elite branca. Vai tomar no cu, caralho, olha no espelho e na sua carteira seu merda. Deviam colocar ele pra ser agente penitenciário por um mês, isso ia dar um bom reality show.
E a frase mais ouvida na minha semana foi o velho e bom chavão: "direitos humanos para humanos direitos."
Revolução meu cu. O que pega agora pro povo marginalizado é se enfiar no capitalismo em grande estilo e pegar sua fatia do bolo através de mega-corporações de narcotraficantes. Depois da gaviões e do PCC em SP e do mengão e do CV no Rio, quem vai querer outra coisa? As mobilizações de massa são estas meus amigos: nem trotskistas com quartas internacionais, nem UJS e stalinismo, nem Passe-Livre porra nenhuma. O povo pobre tá aí, lutando pra não se foder na cadeia e sobrevivendo da droga que você vai lá comprar no fim de semana. A grande luta é entre a corporação A e a B. Enquanto os colarinhos brancos ficam assistindo, quem vai se foder são os peõs do lado branco e negro: os PMs que se fodem na rua e os pau-mandado que entopem as cadeias. Não tem espaço pra mais nada neste duelo de titãs.
A cada dia que eu vivo neste mundo eu tenho mais vontade de cair fora.
sábado, abril 08, 2006
Hahahah!
Eu me divirto muito, viu.
Olha só o post que eu encontrei no orkut hoje:
minha amiga se filiou bêbada
A UJS sabe fazer festa, uma das táticas de filiar membros. Certa vez, numa festa da UJS, minha amiga bebeu muito e no outro dia para sua surpresa ela estava filiada a UJS. Lógico, ressacas passam!!!!
Eu me divirto muito, viu.
Olha só o post que eu encontrei no orkut hoje:
minha amiga se filiou bêbada
A UJS sabe fazer festa, uma das táticas de filiar membros. Certa vez, numa festa da UJS, minha amiga bebeu muito e no outro dia para sua surpresa ela estava filiada a UJS. Lógico, ressacas passam!!!!
quinta-feira, março 30, 2006
domingo, março 19, 2006

Eu acho absolutamente genial a inabalável vontade de viver e ser feliz de certas pessoas. Eu queria poder abraçá-las.
Frank, I didn't make this card, but it could have been me. I just burst into tears.To the person who made that secret:When I was four years old, my father punched me in the face for the first time. When I was five we moved to a new town, where everybody hated me because I had red hair. I had no friends until I was eighteen years old. I began cutting and starving at six years old. At 12 I was sexually assaulted. At fourteen I nearly had my eye torn out when it was hit by a stone. By the time I left for university I weighed 70lbs. Six months later I weighed 64lbs. A year after that I was resuscitated in hospital, and spent six months fighting to get my memory back and stay at university. My first boyfriend starved and abused me. My second boyfriend ignored me then cheated on me. My best friend killed himself last year. A couple of months ago I was assaulted for the second time. Thank you for helping me see that I'm not alone. I'm not the only one.I'm 12 days away from finishing my PhD. I have a friend helping me to get my series of books published.I spent 21 years of my life fighting between trying to die and trying to stay alive. Thank you for saying what I wanted to say, but am too scared to. I'm excited, because my life is about to begin, because of who I'm becoming. I'm 27 years old.
-UK
quarta-feira, março 15, 2006
sábado, março 04, 2006
sexta-feira, janeiro 27, 2006
sábado, janeiro 21, 2006
De repente me bateu uma saudade.
De coisas que tive e das que não tive.
Das que poderia ter tido e das que não poderia.
Das coisas que eu ainda vou ter e das que nunca terei.
E o arrependimento.
De coisas que fiz, que não fiz.
E daquelas que ainda não fiz ou nunca farei.
Quero pintar com uma aquarela ridícula os espaços pretos e brancos daqui e dali.
Às vezes eu acho que vou lembrar como.
De coisas que tive e das que não tive.
Das que poderia ter tido e das que não poderia.
Das coisas que eu ainda vou ter e das que nunca terei.
E o arrependimento.
De coisas que fiz, que não fiz.
E daquelas que ainda não fiz ou nunca farei.
Quero pintar com uma aquarela ridícula os espaços pretos e brancos daqui e dali.
Às vezes eu acho que vou lembrar como.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
IV
Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.
Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.
terça-feira, dezembro 27, 2005
III
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
II
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
domingo, dezembro 25, 2005
Ainda iriam passar cerca de quatro horas naquele buraco sujo, segundo os cálculos imprecisos de Pedro. Mas para sua cabeça, naquele estado, quarenta minutos ou quatro horas seriam difíceis de distinguir. Alternava o foco da sua atenção entre os diversos pontos de dor no seu corpo, ora sentindo seu pé latejando, provavelmente com algum osso quebrado, ora sentindo as feridas no rosto, cujo sangramento não estancado tingia de vermelho sua camiseta velha e o chão da cela. Felizmente, os gritos e insultos do Ferreira se tornavam um zumbido distante e sem importância na sua consciência anuviada pelas drogas.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Quero sugestões pro meu conto de natal.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
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