"atualiza o blog! Atualiza o blog!"
É. Fácil falar quando não se tem milhares de coisas pra fazer. Enfim, ninguém gosta de escritores que produzem exasperadamente só para atender o mercado editorial. Então eu atualizo agora com meu glamouroso atraso. A parte triste de verdade é que não tem nada que eu realmente tenha vontade de escrever, pra mim nem pros outros. Acho que eu preciso de um pouco de tédio, reclusão, melancolia, solidão ou sei lá o que pra ter vontade de escrever de novo. Nem tenho tido tempo de ficar de saco cheio da faculdade, que dirá de reclamar dela. Não que eu não esteja de saco cheio dela, mas tenho tido tão poucas oportunidades de ir à aula que fica meio injusto dizer que é ela que atrapalha minha vida. E agora, ainda com um monte de trabalhos atrasados e faltas acumuladas, talvez seja mas fácil retomar estas reclamações.
É um bocado irônico ficar na correria pra fazer vários atos pelo passe-livre, queimar catracas, fechar ruas, conversar com pessoas sobre a injustiça do mundo, dos transportes, do capitalismo e blábláblá enquanto eu sinto um desânimo tão grande em relação a todas as coisas.
Acho que na minha próxima encarnação talvez eu devesse ser um animalzinho burro e feliz, como um poodle ou uma paty.
E deste jeito eu ainda vou levar tantos anos pra me formar...cada dia eu tenho menos vontade de dar aula ou de fazer qualquer outra coisa.
segunda-feira, outubro 31, 2005
segunda-feira, outubro 10, 2005
terça-feira, setembro 27, 2005
quinta-feira, setembro 22, 2005
Eu vi no jornal uma mulher, devia ter uns sessenta anos, que foi pra cadeia por quatro meses por roubar um queijo e dois pacotes de bolacha no supermercado pro filho poder comer. Na saída do supermercado, o segurança chutou ela e depois levou pra delegacia.
Eu realmente não entendo quem acha este mundo um lugar bom. Espero conseguir fazer isto um dia.
Só pra reforçar, uma amostra grátis:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=116578&tid=23328184
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=150746
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=79398
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=195250
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=808422
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sexta-feira, setembro 16, 2005
Eu me sinto agora (apenas neste momento) como se pudesse ter uma noite repousante de sono depois de anos acordado. Isso é porque eu consegui sentar e escrever de verdade. E tá aqui o meu conto de Natal que fiquei devendo do ano passado.
Violetas
Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Violetas
Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Ela era feita de futuro, da matéria-prima rústica que se encontra nos escombros, nas profundezas, nos berços, nas montanhas, nos esboços e rascunhos, que surgem da beleza espontânea das primeiras idéias frescas que vêm ao mundo. Ela era feita de possibilidades, da esperança mais cândida, daquele tipo que não se tornou um lugar comum, uma palavra gasta prostituída na boca de um farsante. Ela era feita de um amanhã que se concretiza a cada dia em um hoje cheio de tudo, de um dia que encontra as coisas por elas mesmas, autênticas e com a ousadia destemida de quem não se importa em parar pra se preocupar.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
terça-feira, agosto 30, 2005
O menino que usava camisetas brancas e meias pretas sempre iguais teve um sonho metalinguístico. Dormiu em sua cama, na mesma hora e do mesmo jeito que dormia todas as noites, com um copo d'água, dentes escovados, pijama verde de flanela e toda a vontade de que a noite não chegasse ao fim, porque ao fim da noite sempre vem o longo dia, tão mais longo que a noite e tão mais longe da vida. No seu sonho, que veio na forma de um despertar pro dia, o menino andava naquele simulacro de vida-do-dia-normal que a nossa cabeça faz quando estamos dormindo. Mas a nossa cabeça, assim como o menino (apesar de usar camisetas brancas e meias pretas sempre iguais) não gosta de mesmices, rotinas, relógios, ponteiros ou de leis da física e outras coisas que a gente vê nos filmes e nos livros da escola, e foi por isso que neste sonho o menino tinha camisetas pretas e meias brancas. E o menino entrou na escola, não do jeito que as pessoas chamam de "de verdade", porque deste jeito ele estava na sua cama, de olhos fechados e de pijama, e "de verdade" ninguém vai à escola desse jeito. Mas no seu sonho, ou seja, aquilo que as pessoas chamam "de mentira" ou "de faz-de-conta", o menino do sonho entrou na escola com camiseta preta e meias brancas. Mas o menino de "faz-de-conta", quando sentou na carteira não assistiu aula. Ele dormiu, e no seu sonho usava camiseta branca e meias pretas.
domingo, agosto 28, 2005
Meu pai, arrumando uns lixos no quarto dele, achou uma sensacional tabela de interesses que foi desenvolvida durante o meu curso vocacional (não, não me pergunte porque caralhos eu fiz uma idiotice destas. Faz parte de um passado negro da minha vida, meus pais insistiram muito e eu estudava na escola mais escrota do mundo). Esta tabela foi desenvolvida a partir de um teste de assinalar, mais ou menos que nem aqueles que tem na Capricho pra vc ver se o seu namorado te chifra ou se vc é uma vagabunda na moda. Os meus interesses, segundo o teste, são assim ó:
Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%
Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.
Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%
Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.
segunda-feira, agosto 22, 2005
Eu sei que já disse milhares de vezes, pra mim mesmo, pros outros, pra todos e pra ninguém, que eu nunca fiz nada disso por você. Não há nada mais ridículo (e aqui neste ponto eu peço que me concedam a legítima licença poética do exagero desmesurado) do que alguém que se importa tanto fingindo o descaso e a indiferença.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.
quinta-feira, agosto 18, 2005
eu sei que não ando utilizando este fértil espaço de comunicação com frequencia, mas mando aí um link bacana pra vcs.
http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp
Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI
www.midiaindependente.org
beijinhos.
http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp
Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI
www.midiaindependente.org
beijinhos.
domingo, julho 10, 2005
sábado, julho 02, 2005
Sentado na sarjeta com o sol de domingo ferindo os olhos e queimando a pele. Quis que todos os dias fossem cinzas, fossem frios, fossem de chuva, fossem de vento. Sentado na sarjeta, vendo as crianças jogando bola na praça da frente, os moleques de bicicleta, os namorados no banco da praça, o mendigo de cachaça em riste entoando a canção da vida. Quis que tudo fosse morte e desolamento, quis rasgar a hipocrisia da vida com suas próprias mãos...mas elas estavam cansadas demais para fazerem qualquer coisa. Quis lembrar a cada pessoa que sorria que a vida era solidão e sofrimento, que a felicidade era fugaz. Quis lembrar que cada sorriso é mais tênue que a chama de uma vela em meio a uma nevasca. As pessoas, felizes, eram pura ignorância. Tristes, eram descartáveis.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.
quinta-feira, junho 23, 2005
terça-feira, junho 21, 2005
Hoje eu fiz uma coisa que valeu muito a pena, e que me deu um tipo de esperança diferente. É sempre bom parar e ouvir uma pessoa bacana falando, uma pessoa que pode até pensar muitas coisas parecidas com você, mas que sente o mundo de uma maneira essencialmente diferente. Uma pessoa que, na verdade, tem tudo em comum e tudo de diferente. E uma história de uma vida pra contar. É bom saber que tem gente que passa a vida lutando por coisas que eu acredito, chega lá pra frente feliz pra caralho e tendo a certeza absoluta de que tudo valeu a pena completamente. É bom saber, por exemplo, que tem gente que luta uma vida inteira contra o capitalismo e ainda consegue chegar ao sessenta anos acreditando na humanidade e, pasmem, na não-violência.
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org
Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org
Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...
sábado, junho 04, 2005
Você pode até chamar de uma tristeza saudosista idiota, mas eu te digo que é mais do que isso. São as coisas sendo corroídas, sempre do mesmo jeito.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.
terça-feira, maio 31, 2005
Você lembra da primeira vez que se sentiu angustiado?
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.
terça-feira, maio 24, 2005
quinta-feira, maio 12, 2005
Havia as tomado como uma prostituta sem valor, a quem se dá uns trocados e julga não dever mais nada. Pelo serviço prestado, alguns trocados. Recebidos com a fome de quem não existe sem aquele resto de misericórdia. Pois é disso que dependiam elas, as palavras, de um pouco de crença, de um crédito alheio. Se ninguém lhes desse valor, elas nunca serviriam de nada. As palavras se alimentavam de bocas, de saliva, de línguas, de tradições orais, de papéis, de canetas, de livros, de escritos, de histórias, documentos, promessas, juras. As palavras se alimentavam da comunicação, da carência, da eterna necessidade de se aproximar do outro, de tocar as mentes e os corações daqueles que estão separados por espaços, tempos e intempéries. E foi para aproximar o que os corpos, gestos e intenções não podiam, que aquelas palavras foram pronunciadas.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
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