sexta-feira, abril 23, 2004

Eu escrevi um mini-conto, olha só:

Rotina

Ontem, quando acordei, algo horrível havia me acontecido:
Nada.



Acho que ele ainda precisa de melhoras. O título alternativo que eu pensei para ele é "Gregor Samsa às avessas".
Cada vez mais acho que este negócio é coisa de escritor frustrado, especialmente cronista ou poeta.
Acho que faz sentido eu não estar escrevendo muito aqui.
Bom, sei lá, até outra hora.

quinta-feira, abril 08, 2004

Quando parecer que a vida não tem mais nada de bom a lhe oferecer, procure consolo e refúgio no braço dos velhos e bons amigos.
Hoje passei o dia jogando Shadowrun.
Ontem passei a madrugada jogando Super Metroid.

segunda-feira, abril 05, 2004

Quando eu tenho algum tempo pra fazer as coisas, eu perco toda a minha disposição para fazê-las.

sábado, março 27, 2004

Desde que eu comecei a escrever redações para vestibulares, há milhões e milhões de anos atrás, eu procurei aprender o que o corretor queria que eu escrevesse, pois obviamente era bem diferente do que eu gostaria de escrever.
Quando eu achei que tinha aprendido as coisas funcionavam mais ou menos assim:
1- Todas as minhas redações tinham exatamente a mesma estrutura: um parágrafo de introdução, um de desenvolvimento, e um de conclusão.

2- Todos os meus professores diziam sempre: não use os clichês de sempre, os corretores não gostam. Depois de um tempo eu consegui entender o que isto queria dizer: use os mesmo clichês de sempre, de um modo que não pareça que você está usando-os.

3-Dê os argumentos mais óbvios e evidentes, justificando bem direitinho suas opiniões.

4- Não dê suas opiniões, caso você tenha alguma opinião que não seja absolutamente superficial e que pode ser plenamente explicada em trinta linhas. Escolha um ponto de vista simples e defenda-o claramente. Use argumentos claros e óbvios. Como um jornalista faria.

5- NUNCA use recursos estilísticos ousados e não tente fazer alguma coisa que não poderia ser encontrada na Veja ou na Folha de São Paulo.

6- Nunca ultrapasse os espaços, use uma letra legível, use a pontuação como uma pessoa normal e que sabe escrever, lembre-se sempre de colocar o título, não erre a ortografia.

7- Nada de títulos muito inventivos. Que ele faça uma clara referência ao seu texto e, se for um joguinho de palavras "esperto", melhor.

Se você seguir mais ou menos todos estes mandamentos do escritor otário, é bem provável que você não tire menos de oito na redação.
Eram estas as minhas pretensões quando me defrontava com redações em vestibular, e foi esta minha pretenção quando me deparei com um tema absurdamente difícil para uma exposição em trinta linhas no vestibular deste ano. Joguei minhas baboseiras lá e pronto.
Eis que um tempo depois eu recebo uma carta da fuvest e blá, blá, blá. Minha teoria para o sucesso do escritor bobão está confirmada, e minha redação destaca-se entre as 50 "melhores" da fuvest.
Se você quiser aprender a escrever como um corretor e uma professora gostam, vai lá no www.fuvest.br e confere a minha, é o exemplo 21.
Além disto, pode-se concluir que as pessoas que prestam vestibular não desenvolveram satisfatoriamente a habilidade de enrolar corretores, porque minha redação é um verdadeiro lixo, mesmo para os meus padrões de redação de vestibular.
Ironicamente, é a primeira vez que algo que eu escrevi recebe algum reconhecimento de uma comissão julgadora, e é justamente algo que eu acho extremamente medíocre. Talvez eu esteja predestinado a ser brilhantemente medíocre. Talvez devesse viver disto e escrever o que eu gosto paralelamente.

Mudando de assunto, a diversão do fim de semana é:
Simpósio sobre suicídio :-)

quinta-feira, março 25, 2004

Eu sou uma doença auto-imune.
A cada dia produzindo anticorpos contra tudo aquilo que constrói minha vida.
Destruindo o que me cria, eliminando o que me sustenta.
Meus pensamentos são macrófagos que fagocitam minha esperança, minhas vontades, meus acertos. Lenta e iompiedosamente lisando a fina parede que os mantém integros.
Enzimas que corroem meus tecidos mentais.
Minha vida desfazendo-se em massa amorfa, inevitavelmente, a cada dia.
Minha vida metamorfoseando-se em arrastada angustia, que se prolonga e se alastra em um dolorido desejo da morte que não virá.
A agonia da destruição causada por mim.


Everybody Hurts

When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you're sure you've had enough of this life, well hang on
Don't let yourself go, 'cause everybody cries and everybody hurts sometimes

Sometimes everything is wrong. Now it's time to sing along
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you've had too much of this life, well hang on

'Cause everybody hurts. Take comfort in your friends
Everybody hurts. Don't throw your hand. Oh, no. Don't throw your hand
If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone

If you're on your own in this life, the days and nights are long,
When you think you've had too much of this life to hang on

Well, everybody hurts sometimes,
Everybody cries. And everybody hurts sometimes
And everybody hurts sometimes. So, hold on, hold on
Hold on, hold on, hold on, hold on, hold on, hold on
Everybody hurts. You are not alone


quarta-feira, março 24, 2004

Dez anos de Maria

Prazer.
Você é um idiota.
Te odeio.
Nunca.
Nunca.
Nunca.
Só desta vez.
É a última vez.
Até que você é legal.
Te adoro.
Te amo.
Eu preciso de você.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te odeio.
Te amo.
Te amo.
Te odeio.
Te amo.
Te odeio.
Te adoro.
Te odeio.
Você é um idiota.
O que eu fiz com a minha vida?
Te odeio.
Te odeio.
Te odeio.
Até nunca mais.

terça-feira, março 23, 2004

Certas vezes, a única maneira de lidar com um problema é ignorá-lo ao máximo.
Muitas coisas são difíceis de se ignorar.
Hoje eu declaro guerra ao amor e à esperança.
Bem-vinda novamente Melancolia, que sua estada seja frutífera e produtiva.
Já estava estranhando esta timidez retraída, que nunca foi pertinente a esta velha companheira.

King of Pain


There’s a little black spot on the sun today
It’s the same old thing as yesterday
There’s a black hat caught in a high tree top
There’s a flag-pole rag and the wind won’t stop

I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running ’round my brain
I guess I’m always hoping that you’ll end this reign
But it’s my destiny to be the king of pain
There’s a little black spot on the sun today
That’s my soul up there
It’s the same old thing as yesterday
That’s my soul up there
There’s a black hat caught in a high tree top
That’s my soul up there
There’s a flag-pole rag and the wind won’t stop
That’s my soul up there
I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running ’round my brain
I guess I’m always hoping that you’ll end this reign
But it’s my destiny to be the king of pain
There’s a fossil that’s trapped in a high cliff wall
That’s my soul up there
There’s a dead salmon frozen in a waterfall
That’s my soul up there
There’s a blue whale beached by a springtime’s ebb
That’s my soul up there
There’s a butterfly trapped in a spider’s web
That’s my soul up there
I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running ’round my brain
I guess I’m always hoping that you’ll end this reign
But it’s my destiny to be the king of pain
There’s a king on a throne with his eyes torn out
There’s a blind man looking for a shadow of doubt
There’s a rich man sleeping on a golden bed
There’s a skeleton choking on a crust of bread
King of pain

There’s a red fox torn by a huntsman’s pack
That’s my soul up there
There’s a black-winged gull with a broken back
That’s my soul up there
There’s a little black spot on the sun today
It’s the same old thing as yesterday

I have stood here before in the pouring rain
With the world turning circles running ’round my brain
I guess I always thought you could end this reign
But it’s my destiny to be the king of pain
King of pain
King of pain
King of pain
I’ll always be king of pain

sábado, março 13, 2004

Viver é uma arte. A mais completa delas.
Tenho temas aos montes para posts mimimi, mas além de não estar em um estado de espírito apropriado, acho que já tive minha cota de comentários me mandando tomar no cu :-P
Mas só pra constar, continuo com problemas pra resolver minha vida. E sempre tem alguém bem intencionado com um conselho pra ajudar. "Larga a medicina, letras é muito mais a sua cara". "Larga a letras, você sempre quis ser psiquiatra". "Faz os dois, você consegue e no fim vai valer a pena". Ou simplesmente "Vai tomar no cu". O foda é que todos eles tem razão. Mas eu não estou com vontade de pensar nisto agora.

My Favorite Things Lyrics

Raindrops on roses and whiskers on kittens
Bright copper kettles and warm woollen mittens
Brown paper packages tied up with string,
These are a few of my favorite things.

Cream colored ponies and crisp apple strudel,
Door bells and sleigh bells and schnitzel with noodles
Wild geese that fly with the moon on their wings,
These are a few of my favorite things.

Girls in white dresses and blue satin sashes,
Snow-flakes that stay on my nose and eye-lashes,
Silver white win-ters that melt into spring,
These are a few of my favorite things,

When the dog bites,
When the bee stings,
When I'm feeling sad,
I simply remember my favorite things,
And then I don't feel, so bad.

(Repeat song)

quarta-feira, março 10, 2004

Melhorou...
Ando muito instável, preciso me distrair e manter a cabeça ocupada. Pelo menos isto não anda difícil de fazer, pena que na maior parte do tempo não é com coisas agradáveis.
Estou apaixonado.
Amores a primeira vista costumam ser os mais cruéis.
Espero que eu sobreviva.
Acho que minha melancolia me consumiu de uma maneira tão podre e doentia que está prestes a explodir em um amontoado irracional de ódio descontrolado.
Eu só queria poder colocar, por um dia que fosse, dentro da minha cabeça pra você ver como ela parece por dentro. Talvez assim você pudesse me explicar.
Talvez assim você olhasse mais pra você mesmo.
Passar seis meses assistindo alguém não se compara a passar um dia sendo alguém.
É fácil, sempre foi e sempre vai ser, desdenhar do que alguém sente. É difícil saber quantas mentiras são necessárias pra construir uma verdade, e como e triste ver uma verdade destruindo por completo um castelo bem forjado de mentiras, deixando-o completamente desabrigado diante de uma realidade, quem me dera, fosse também uma mentira fácil de rasgar.
Suas verdades são fáceis, e pode apostar que eu me dei ao trabalho de conhecê-las, eu as conhecia antes de você.
Espero que um dia, antes de abusar do poder que você tem nas mãos, você se dê ao trabalho de conhecer outras verdades.
Seis meses, um mês. Uma semana, um dia, poucos segundos. É tempo o que você quer? É tempo que eu te tirei?
Você pode dar sua vida em um segundo, mas não poderia nunca tomá-la de volta da mesma maneira que a entregou.
Nem em um mês de desprezo, nem em um ano de torturas.
Eu não quero, de novo, acreditar tanto no egoísmo do amor.
Eu não quero acreditar que todo amor não passa de amor próprio.
Eu não quero deixar de acreditar nas segundas chances.
Eu me lembro das tentativas, dos esforços, da persistência. Eu não quero ser o único a lembrar que, um mês pra lá vale o mesmo que um mês pra cá. E que eu tive minha parcela de tempo, e que eu precisava cobrar um pouco dele.
Eu acho que vou explodir. Eu não aguento mais ser eu mesmo. Ou eu só não aguento mais ter que pensar tanto e tanto e tanto, e ter a horrível e solitária idéia de que sou o único a pensar e a lembrar pra sempre.

sábado, março 06, 2004

Pontos altos do dia (em ordem cronológica):

-Aula de saúde coletiva com um vídeo sobre saúde direcionado à população, apresentado pela Regina Duarte, no qual eu tive o privilégio de aprender QUATRO vezes SEGUIDAS como fazer o soro caseiro, e de quebra ainda aprendi que existem bichinhos pequenininhos que chamam micróbios e que podem dar doenças, como tosse comprida ou cocô mole. Vivendo e aprendendo né?

-Bater o carro numa madame que não saber manobrar seu automóvel sem ocupar toda a rua e verificar se alguém vem vindo.

-Debate sobre diversidade sexual no auditório da história/geografia.

-Festança da letras em meio ao lamaçal formado pela chuva na frente do prédio da filosofia/sociais.

-Tomar uma meia de seda no Rei das Batidas com quatro homossexuais do sexo masculino.

-Terminar a maravilhosa programação da noite à meia noite.

-Não conseguir encontrar nenhuma das pessoas que queria.

-Chegar em casa e ligar o icq.

-Dar pau no icq.

-Abrir o icq2go.

-Dar pau no icq2go.

-Escrever um post cretino no blog e ir dormir em seguida, com a vã esperança de que o resto do fim de semana seja menos imbecil e que me dê forças para mais uma semana de rotina massacrante.

-Chegar à triste conclusão de que a grande esperança da minha vida concentra-se em um curso da FFLCH, com falta de professores e condições precárias. Se isto não der certo, rezar.

sexta-feira, março 05, 2004

Das músicas significativas (e, além disto, pra mim é uma das músicas que melhor retrata Changeling):

The Logical Song
(Supertramp)

When I was young, it seemed that life was so wonderful,
A miracle, oh it was beautiful, magical.
And all the birds in the trees, well they’d be singing so happily,
Joyfully, playfully watching me.
But then they send me away to teach me how to be sensible,
Logical, responsible, practical.
And they showed me a world where I could be so dependable,
Clinical, intellectual, cynical.

There are times when all the world’s asleep,
The questions run too deep
For such a simple man.
Won’t you please, please tell me what we’ve learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am.

Now watch what you say or they’ll be calling you a radical,
Liberal, fanatical, criminal.
Won’t you sign up your name, we’d like to feel you’re
Acceptable, respecable, presentable, a vegtable!

At night, when all the world’s asleep,
The questions run so deep
For such a simple man.
Won’t you please, please tell me what we’ve learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am.

terça-feira, março 02, 2004

Das ironias da vida:
Você pode fazer de tudo por uma pessoa, dedicar-se integralmente a realizar todos seus desejos e necessidades e ver esta pessoa grata e feliz. Provavelmente um dia esta pessoa vai estimá-lo muito menos do que a outro que nem ao menos se importa com a pessoa em questão.
Não acredita? Tenha filhos e espere um pouco, só para dar um exemplo simples.

Dos aniversários significativos:
Lou Reed fez 60 anos hoje.

Das músicas significativas pra mim:

Sail Away Sweet Sister

Hey little babe you're changing
Babe are you feeling sore?
It ain't no use in pretending
You don't wanna play no more

It's plain that you ain't no baby
What would your mother say?
You're all dressed up like a lady
How come you behave this way?

Sail away sweet sister
Sail across the sea
Maybe you'll find somebody
To love you half as much as me
My heart is always with you
No matter what you do
Sail away sweet sister
I'll always be in love with you

Forgive me for what I told you
My heart makes a fool of me
You know that I'll never hold you
I know that you gotta be free

Sail away sweet sister
Sail across the sea
Maybe you'll find somebody
To love you half as much as me
Take it the way you want it
But when they let you down my friend
Sail away sweet sister
Back to my arms again

Hot child don't you know you're young
You got your whole life ahead of you?
And you can throw it away too soon
Way too soon

Sail away sweet sister
Sail across the sea
Maybe you'll find somebody's
Gonna love you half as much as me
My heart is always with you
No matter what you do
Sail away sweet sister
I'll always be in love with you

Dos horários:
Não há tempo pra desenvolver idéias, tenho 30 minutos pra estar na usp.
tchau.

domingo, fevereiro 29, 2004

Aparentemente, de acordo com experimentos realizados hoje na ilustre residência em que me encontro, torna-se evidente que, por mais que um indivíduo se afogue em um insosso e gigantesco mar de tédio e desilusão consigo mesmo, é difícil que este venha a falecer naturalmente disto, levando em conta que algo tão infrutífero e trabalhoso como o suicídio não se encontra entre os possíveis planos de ação que o ser supra-citado possa vir a realizar eventualmente.
Tendo em vista que o marasmo que vem a inundar os dias do sujeito em questão deve-se a nada menos do que sua incompetência para liderar sua vida de uma maneira um pouco mais agradável do que o ato de ouvir a biblía narrada pelo Cid Moreira, ou retalhar seu corpo com uma gilete e mergulhar em uma banheira de ácido, em nenhum momento pode-se contar com a habilidade e perícia do indivíduo em transformar de tal forma a sua presente situação, levando-o, enfim, a uma situação prazeirosa e de grande conforto e diversão.
Portanto, a não ser que alguma ajuda suprema venha neste momento oportuno, a tendência é que o experimento realizado se prolongue indefinidamente, comprovando assim os resultados de uma vida idiota a longo prazo sobre a medíocre psique de tal desafortunada criatura.
Um "Manual prático para imbecis: Como viver sua vida sem ser um merda" viria a calhar. Além disto, apostando na alta probabilidade de que venham a existir outros seres com similar inabilidade para viverem suas vidas (em grau menor do que o indivíduo em questão, obvamente), torna provável que o autor de tal obra venha a enriquecer fartamente com os direitos autorais de tal obra.
Amanhã, teoricamente, é mais um novo começo. Ciclo básico de Letras, blá, blá, blá.
Eu tenho as coisas perfeitas, arranjadas, prontas, de mão beijada.
Estudo medicina sem nunca ter estudado que nem um condenado no cursinho, meus pais não se importam, até ficam felizes aliás, de pagar uma faculdade obscenamente cara para mim. Eu entrei em letras sem ter estudado um puto pra isto, e ainda entrei com umas setecentas vagas de folga.
O resto é fácil, pode ter certeza. Estudar um pouco a mais, um pouco de força de vontade, determinação. Eu poderia estudar lingüística, neurologia, psiquiatria e virar um neuropsicólogo. Trabalhar em pesquisa numa área maravilhosa e ainda de quebra ajudar um monte de gente. Pra citar só uma das inúmeras possibilidades.
Agora, o que eu tenho a fazer é evidente e nítido para mim. Organizar um bolão de apostas, quanto tempo eu levo pra jogar fora minhas chances de novo?
Eu nunca vou conseguir ser um daqueles intelectuais que abdicam de sua vida pessoal e estudam até não poder mais. Mas isto facilitaria minha vida enormemente.
Foda-se, eu não quero escrever nada, só não agüentava mais me encherem o saco pra atualizar o blog. Tá feito, pelo menos isto dá pra fazer sem jogar merda no ventilador.

domingo, fevereiro 08, 2004

O que eu devo pensar quando uma escritora fodona morre enquanto eu estou lendo um livro dela pela primeira vez?
Errar é humano, insistir no erro é burrice.
A única conclusão que posso tirar disto é que sou burro. Eu continuo fazendo o mesmo tipo de besteira eternamente. Por exemplo: sei que meu ano não começou lá grandes coisas e a tendência é piorar. Voluntariamente me meti em uma encrenca das grandes, vou entrar na minha terceira faculdade e, no caso de tentar fazer duas ao mesmo tempo, vou passar mais de doze horas do meu dia no maravilhoso e estimulante meio acadêmico. É óbvio que não vai dar certo e eu sempre soube disto. Vou ter que tomar uma decisão e vou adiar ela o máximo possível e, quando tomar, provavelmente vou me arrepender.
Enfim, eu vou empurrando tudo com a barriga até as coisas darem bem errado. E pra arranjar motivações, invento alguma esperança estúpida. No momento, minha esperança estúpida é que eu me apaixone pela letras e largue a medicina sem o menor peso na consciência, arranjando para mim uma nova e maravilhosa vida.
Eu não ando bom para entreter pessoas com textos em blog, a não ser que gostem de historinhas chatas e compridas.

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Boa, imbecil.
Eu sei mesmo como estragar minhas oportunidades.
Ah, Thaís, acho que vou começar uma contra-campanha, a favor dos blog herméticos. Eu já me sinto estúpido o suficiente sem ficar listando os motivos da minha imbecilidade.

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

Don't you want somebody to love?
(Jefferson Airplane)


When the truth is found to be lies
And all the joy within you dies

Don't you want somebody to love
Don't you need somebody to love
Wouldn't you love somebody to love
You better find somebody to love

When the garden flowers baby are dead yes
And your mind is full of red

Don't you want somebody to love
Don't you need somebody to love
Wouldn't you love somebody to love
You better find somebody to love

Your eyes, I say your eyes may look like his
But in your head baby I'm afraid you don't know where it is

Don't you want somebody to love
Don't you need somebody to love
Wouldn't you love somebody to love
You better find somebody to love

Tears are running ah running down your breast
And your friends baby they treat you like a guest

Don't you want somebody to love
Don't you need somebody to love
Wouldn't you love somebody to love
You better find somebody to love

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Último Post:

Rainha de Esplendor: Perdida em seu Lar

A jornada até o Palácio da Rainha de Espadas foi bem mais curta, e Coração de Boneca caminhou com um ânimo renovado. Pela primeira vez ele sabia para onde seguia, desde que deixara o Palácio de Cristal, há tanto tempo atrás. Seu Coração remoia-se em saudades, carregando a imagem de sua Rainha. Mas agora sua saudade o impulsionava, fazendo com que ele esquecesse das dores em suas pernas cansadas, e aproximando-o cada vez mais do Reino de Espadas.
A Rainha de Espadas não passava mais seus dias dentro de seu Palácio. Disfarçando como podia os seus encantos de Rainha, ela passava-se por uma andarilha nas vilas e povoados de seu Reino. Vestida em pobres andrajos ela circulava pelas ruas, que eram como veias e artérias correndo pelo Coração pulsante de seu Reino, trazendo e levando as vidas que construíam toda a maravilha de seu Reino, as pessoas que mantinham erguido seu Palácio e sustentavam sua criação. Ela peregrinava querendo encontrar algo, e ela estava perdida dentro de seu próprio lar. Dia após dia, ela vagou rumo às fronteiras de seu Reino, temendo cada vez mais pela sorte de seus domínios e pelos Corações de seus súditos.
Quando a Rainha de Espadas chegou no limite de seu Reinado, e estava tentando tomar a difícil decisão sobre deixar ou não o seu lar, ela encontrou um viajante que queria entrar no Reino de Espadas. No momento em que avistou aqueles olhos cansados e marejados, ela esqueceu-se de todo o resto. Coração de Boneca, por sua vez, sabia estar ainda longe do Palácio, pois o Reino de Espadas era extenso e a Rainha morava longe de suas fronteiras. Mas ele levava consigo o Coração da Rainha de Copas, que não se enganaria quanto a seus Desejos. E este Coração pulsou fortemente quando Coração de Boneca avistou uma mulher desconhecida, parada bem na fronteira do Reino de Espadas. Ele precisava descobrir quem ela era.
- Com licença, - Coração de Boneca disse cautelosamente, enquanto a própria Rainha tentava entender o que havia naquele estrangeiro que lhe abalava tanto. – eu estou procurando o Palácio da Rainha. Você pode me dizer para que direção ele fica?
Aquele disfarce nunca seria suficiente para enganar Coração de Boneca, que já havia percebido algo diferente no Coração daquela estranha. No entanto, mesmo que ele sentisse o Coração da Rainha de Copas tornando-se diferente perto daquela mulher, ele não conseguiu imaginar que ela era a Rainha de Espadas, tão longe de seu Palácio. E a Rainha de Espadas lutava consigo mesma agora. Por tanto tempo ela procurou ignorar aquele Vazio dentro de si, e agora os olhos de Coração de Boneca diziam a ela que aquele Vazio era maior do que ela havia pensado, e que o Coração dela não mais pertenceria apenas a ela própria. Seu Coração queria pertencer a Coração de Bonecas, que mais uma vez conquistava sem desejar isto.
- Quem é você? O que quer no Palácio? – Ela sabia que não havia mais como escapar. Sempre fora uma Rainha, uma Conquistadora de Corações, e por isto sabia reconhecer um Coração conquistado. E ela reconhecia agora, que seu próprio Coração fora irremediavelmente conquistado, e ela tinha medo. Ela temia pela segurança de um Reino, cujo Coração de sua governante agora dependia de um completo estranho.
- Eu sou Coração de Boneca, e procuro a Rainha de Espadas.
- Pois se procura a Rainha de Espadas, já a encontrou. – a Rainha retirou seu disfarce, e seus olhos derramavam Lágrimas que ela não podia conter. Algumas eram porque seu Coração pertencia ao Coração de Boneca, derramador das Lágrimas Eternas. Outras eram porque ela julgava-se derrotada de certa forma, acreditando que Coração de Bonecas havia viajado até o Reino de Espadas para conquistá-lo e para destroná-la. E, tendo seu Coração, isto não seria nenhum desafio. – E se é meu Coração que deseja, meu Reino que veio conquistar, então você já o tem. Você me venceu Coração de Boneca, e meu Coração agora é seu.
Coração de Boneca estava surpreso. E ele derramou Lágrimas, pois mais uma vez sua maldição o perseguia. Viajara tanto para buscar o Coração que sua Rainha precisava, e agora o Coração pertencia a ele. Mesmo assim, deveria levar o Desejo de sua Rainha.
- Eu não quero seu Reino e não quero nenhum Reino. Mas se o seu Coração foi conquistado, mesmo contra a minha vontade, então você atenderá meu pedido e virá comigo para o Reino de Copas, onde minha Rainha aguarda por você.
- Se assim você me pede, eu não posso negar. O Desejo de meu Coração é estar sempre ao seu lado. Mas eu espero que você não destrate o Coração que lhe foi entregue, e permita que depois de atender seu pedido eu retorne ao meu Reino, meu verdadeiro Lar, pois eu pertenço a este lugar e este lugar pertence a mim. Sem mim, os Corações de meus súditos sofrerão.
- Farei o possível para que você possa voltar para seu Reino, pois eu entendo bem o que é ter seu Coração distante do verdadeiro Lar.
A Rainha de Espadas e Coração de Boneca viajaram rapidamente para o Reino de Copas, nas carruagens da Rainha de Espadas. Durante a viagem eles puderam conversar muito, e a Rainha sempre insistia para que Coração de Boneca passasse a viver em seu Reino, ao seu lado. A Rainha de Espadas não tinha mais um Vazio, mas certamente não havia resolvido seus problemas. Estava agora, pela primeira vez, longe de seu Reino e seu Coração pertencia a alguém cujo Coração não pertencia a ela.

De volta ao Lar: Corações Entregues

A Senhora dos Farrapos sentiu um relampejo de vida voltar a brilhar nos frios corredores do Palácio de Cristal com a volta de Coração de Boneca ao Reino de Copas. Quando ele passou pela fronteira do Reino, a Rainha sentiu que ele se aproximava com o fragmento de seu Coração, e que ele trazia algo de sua Jornada. Ela sentiu um Coração Estrangeiro, e dentro dele havia ansiedade e angústia. Mas também havia alegria. No entanto, foi apenas no momento em que o Coração de Boneca colocou a Rainha de Espadas bem a sua frente, que a Rainha de Copas percebeu que, mesmo sem saber o que buscava, Coração de Boneca havia encontrado. Ela tinha algo que nem mesmo Coração de Boneca tinha, a Rainha de Espadas tinha o destino do Reino de Copas em suas mãos e nem sequer havia se esforçado para isto. O que a Rainha de Copas não sabia, é que aquele Coração já fora conquistado.
As Lágrimas que se derramavam pelo rosto da Rainha de Espadas eram cristalinas e puras, e prendiam em cada uma delas os Desejos da Rainha de Copas. Um Reino desconstruído se refletia nos gestos da Senhora dos Farrapos, um Reino que ambicionava trazer para si a vitalidade perfeita daquela Rainha. E a Rainha de Copas não hesitou ao ajoelhar-se diante da Rainha de Espadas e propor a união de seus Reinos. Mas em resposta, vieram apenas Lágrimas que a Rainha de Espadas havia juntado dentro de si. Ela não podia entregar seu Coração ou seu Reino para a Senhora dos Farrapos, pois eles nem ao menos pertenciam a ela verdadeiramente.
Os Reinos estavam separados. Um em ruínas, o outro perdido.

O Destino dos Corações: Sacrifícios e Ofertas

Mesmo sabendo o que lhe cabia fazer agora, e mesmo tendo se preparado durante toda a viagem de volta para fazê-lo, foi preciso uma noite a mais para Coração de Bonecas conseguir juntar a coragem para ir em frente até o fim, sem pensar mais no que poderia ter sido. Foi preciso assistir por mais uma noite sua Rainha, perdida em meio a um Reino desfeito. Foi preciso ver em seus olhos um Desejo que ardia, ver como ela precisava do Coração da Rainha de Espadas para reconstruir seus farrapos. Era um Desejo que ele conhecia bem, e ele sabia que só ele poderia garantir a junção dos Reinos. E foi então que, quando a Rainha de Copas finalmente conseguiu livrar-se de suas angústias e cair em um sono perturbado, Coração de Boneca foi até o Espelho das Almas fazer sua oferta.
Ninguém vive sem um Coração. Coração de Boneca não era uma exceção, e ele sabia disto. Mas ele sabia também que o Coração da Rainha de Espadas seguiria o seu, onde quer que ele fosse. Ele sabia que, quem quer que possuísse seu Coração, teria também o da Rainha de Espadas. E, com a ajuda do Espelho das Almas ele conseguiu cumprir seu objetivo. Antes do amanhecer, Coração de Boneca havia arrancado seu próprio Coração e ele era agora o segundo Coração da Rainha de Copas. Mas, ao contrário do que pensava, Coração de Boneca sobreviveu. Ainda havia restado para ele o fragmento do Coração que a Rainha de Copas lhe havia entregue. Ele pulsava, dentro de seu peito, mantendo-o ainda vivo. E, sendo o Coração de uma Rainha, entregue por vontade própria, ele foi suficiente para manter Coração de Boneca. Agora ele não era mais Coração de Boneca, pois este Coração era da Rainha de Copas. Ele era apenas um pedaço, ele era apenas Fragmentos de Copas.

Reinos Unidos, Farrapos Eternos

Possuindo o Coração de Boneca, a Rainha de Copas era também Senhora do Coração da Rainha de Espadas, que havia conquistado seu Coração de Copas. Os seus Reinos, tal como seus Corações, juntaram-se para formar o maior Reino já visto, sob o comando das duas Rainhas que fortaleciam-se unidas.
Fragmentos de Copas viveu neste novo Reino, como um herói que entregou seu próprio Coração para a Rainha de Copas. Ele não mais tinha um Coração de Boneca, nem derramava suas Lágrimas Eternas. Ele vivia agora dos fragmentos do Coração da Rainha, ele alimentava-se do que ela era. Sua vida era um pedaço da vida dela.
A Rainha de Copas reconstruiu seu Reino. Ela tinha tudo a seus pés, e conquistaria ainda muitos Corações. Ela sabia o que Coração de Boneca havia feito por ela, ele havia oferecido tudo o que ele era. E ele era, em última instância, o reflexo de tudo o que a Rainha de Copas havia conquistado e erguido, de tudo o que ela era e governava. Nunca nenhum outro Coração havia sido conquistado daquela forma, e a servido de maneira tão dedicada e incondicional. Por isto, ela olhava para ele como se ele fosse, de algum modo, tudo o que ela verdadeiramente possuía. Afinal, o Coração de Boneca que agora batia em seu peito, era mais próximo até mesmo do que o Coração conquistado da Rainha de Espadas. E nada poderia substituir a entrega que lhe fora feita por Coração de Boneca, nada poderia substituir suas Lágrimas Eternas que moravam dentro do seu peito. E ele era agora Fragmentos de Copas. Ele era em pedaços, pedaços dela própria. Ele era os farrapos do que fora e do que havia entregue; ele era os farrapos do Coração da Rainha de Copas. De uma maneira ou de outra, a Rainha de Copas eternamente seria a Senhora dos Farrapos. E Coração de Boneca estaria sempre com ela.

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Sexto Post:

Poder e Ambição: Conquistas na Morada dos Desejos

Algum tempo antes da chegada do viajante, ela já estava lá a sua espera. E quando ele colocou seus pés cansados da longa jornada pela primeira vez na Morada dos Desejos, sem nem ao menos saber onde entrava, o mundo inteiro pareceu condensar-se por um momento naqueles lábios rubros que se incendiavam na face pálida da Rainha de Ouros, parada bem à sua frente. Imediatamente, ele sentiu algo dentro de seu Coração, algo que o assustou, mas que também lhe causou uma admiração inexplicável. A Rainha de Ouros não perdia tempo, e já estava bem preparada para tentar aprisionar aquele Coração antes que a oportunidade fugisse entre seus dedos. Mas a verdade é que, de tudo que ela houvesse imaginado que encontraria ali na Morada dos Desejos, nada se comparava ao Coração de Bonecas. Apesar de manter sua pose impassível, por dentro ela reconheceu que se encontrava diante de um poder singular, dentro de uma criatura tão pequena, tão simples. E seu desejo por ele aumentou ainda mais. Ela queria ter todas aquelas Lágrimas e aquele Coração humilde sob seu comando, a seu serviço e às suas ordens. E queria que ele lhe fosse entregue por vontade própria, pois sabia que só assim o possuiria verdadeiramente.
A Rainha esperou alguns minutos em silêncio, enquanto via Coração de Boneca parado, olhando fixamente para ela, claramente confuso e assustado. Ela usou estes minutos, (se é que se poderiam chamar de minutos em um lugar como a Morada dos desejos, onde o Tempo não existe) para estudar bem a situação. Coração de Boneca lhe parecia a mais transparente das criaturas, com um óbvio desejo latente em cada gesto e intenção sua de completar uma missão ridícula e ingênua. Ele era simples e manipulável como um pequeno animal, contanto que acreditasse estar cada passo mais próximo de atingir seus simplórios objetivos. Mas a Rainha também sentiu uma ponta de ódio dentro de si, quando viu que além das intenções óbvias que estavam estampadas nele, o seu poder tornava seu Coração protegido de investidas poderosas e diretas; suas Lágrimas eram um escudo contra a hostilidade e a sedução da Rainha de Ouros, e ela soube que teria de usar outras formas de atingí-lo, especialmente as palavras. E depois de julgar que o recém-chegado estava bem confuso, debatendo-se em sua teia, a Rainha achou que era hora de aproximar seu ataque.
- Você veio do Reino de Copas não é mesmo?
O tom cuidadoso usado nas palavras era um perigo à parte, com a voz perfeita, aveludada da Rainha de Ouros, que penetrava e corria em direção ao Coração, apertando-o e envolvendo-o. Coração de Bonecas engoliu em seco, tentou responder duas vezes antes que pudesse finalmente encontrar uma voz tímida dentro de si e colocá-la para fora em algumas palavras bobas e desajeitadas.
- Vim. Quem é você? Que lugar é este? E como você sabe de onde eu vim?
- Eu sou a Rainha de Ouros, e você está na Morada dos Desejos. Não são muitos que conseguem chegar até aqui, sabia? Eu mesma tenho grande dificuldade de vir até a Morada, mas eu sabia que te encontraria aqui e resolvi me arriscar na jornada. Achei que valeria a pena, e espero que eu não tenha me enganado quanto a isto. – fez uma pequena pausa, olhando calculadamente de cima a baixo Coração de Boneca, com um olhar malicioso de desejo e uma pontada de desprezo fingido. – Sabe, eu detesto me enganar. E você já chega aqui subestimando meus poderes, acreditando que eu não perceberia algo tão simples quanto o fato de você ter vindo do Reino de Copas. Ora, as marcas da Rainha estão impressas em toda parte em você, em seu Coração tolo que está obviamente a serviço dela, tentando cumprir alguma missão que ela própria não teria coragem de realizar. Além disto, de que outro Reino poderia ter vindo uma criatura que derrama Lágrimas o tempo todo? –Seu sorriso abriu-se numa ligeira risada. – É tão típico da Rainha de Copas ter algo assim em seu Reino.
Coração de Boneca queria interrompê-la, dizer as coisas certas na hora certa, e defender sua Rainha que ele acreditava estar sendo insultada. Mas ele apenas permaneceu calado ouvindo a Rainha de Ouros terminar de falar.
- E vejo que você não é um emissário ou viajante qualquer. – sua expressão agora carregava uma ponta de surpresa e inveja, um olhar intimidador que parecia querer invadir o Coração de Boneca e lhe roubar algo lá dentro. E ele quase conseguia. – A Rainha deve confiar muito em você, para ter lhe entregue um pedaço de seu próprio Coração. Mesmo uma Rainha tão tola e ingênua quanto a Rainha de Copas sabe que não se faz tal coisa levianamente, que isto implica em grandes perigos. – A Rainha sentiu então que era hora de uma provocação mais contundente, ela precisava incitar emoções fortes no Coração daquele jovem tolo para poder conduzí-lo mais facilmente. Sempre usava emoções fortes como suas armas, os Corações ficam muito mais vulneráveis quando inebriados por uma paixão. Tornam-se cegos e imprudentes, prontos para uma boa armadilha. – Mas, pensando bem, talvez ela não confie tanto assim em você. Eu posso ver que você não possui inteiramente o Coração da Rainha de Copas. Seria você muito fraco para suportar o Coração de uma Rainha? Ou apenas incompetente para conseguir conquistá-lo? Por que, me diga, você não conquistou o Coração da Rainha? Mesmo tendo você entregado seu Coração cheio de Lágrimas ela não sentiu que poderia confiar em você? – permitiu-se uma pequena risada, sentindo que o Coração ao qual falava se enchia de emoções conflitantes, e que ela conseguira perturbá-lo exatamente como desejava. – Provavelmente ela apenas lhe deixou este pequeno pedaço para convencê-lo a se arriscar em alguma missão que sabia ser extremamente perigosa. Ela deve estar apenas lhe usando para conseguir alguma coisa a mais para enfeitar seu Reino de Copas. Apenas um brinquedo a serviço da vaidade de uma Rainha, mais um Coração perdido e ingênuo em meio aos seus súditos, que acredita um dia poder ser mais do que um servo. Pobre coitado, deve ter alimentado a ilusão a cada passo desde que saiu do Reino de Copas, de que voltaria com o que a Rainha lhe pediu e que finalmente conquistaria seu Coração.
Coração de Boneca não conseguia deixar de concordar com algumas coisas que a Rainha de Ouros falava. De algum modo, mesmo sem nunca ter conhecido ele, ela havia acertado um ferrão certeiro sobre suas maiores inseguranças. Obviamente ele não acreditava que a Rainha de Copas estivesse usando-o e manipulando daquela forma, mas muitas vezes ele realmente se sentia como se estivesse lutando inutilmente para pertencer à Rainha, para ter algum pedaço mínimo do Coração dela e ser algo que nunca poderia. Às vezes ele se flagrava agarrando-se à ingênua esperança de que poderia ter o Coração da Rainha para si, que poderia transformar as coisas. Mas ele sabia que não, e por isto as duras palavras da Rainha de Ouros rasgavam-no por dentro. Mas ele tinha a certeza de que seus medos deveriam pertencer apenas a ele próprio, e que ele não podia deixar uma desconhecida insultar sua Rainha desta forma. Além disto, ele ainda possuía um fragmento do Coração da Rainha de Copas. E isto era o suficiente para que ele conseguisse continuar em frente.
- Da mesma forma que entreguei meu Coração à Rainha de Copas por minha própria vontade, eu venho nesta missão com meus próprios motivos. A Rainha jamais me mandaria em alguma missão por vaidade, e se você tem coragem de dizer algo assim é porque desconhece o Coração da governante do Reino de Copas. Por isto, eu lhe digo que pare de ofender minha Rainha e deixe-me continuar em minha missão.
A Rainha de Ouros estava verdadeiramente admirada com Coração de Boneca. Agora admitia para si mesma, e apenas para si mesma, que em sua primeira impressão o havia subestimado. Enquanto ele lhe dizia aquelas palavras cheias de ódio e de determinação, enfrentava uma Rainha cara a cara sem hesitar, seus olhos não paravam de derramar Lágrimas. Por mais que ele não tivesse seu Coração cheio de certeza, ele o tinha repleto de determinação para enfrentar suas dúvidas. Ela não o venceria pelo medo. Ela poderia o derrotar facilmente, mas não era isto que desejava. A Rainha de Ouros tinha consigo mesma uma norma de conduta, de um modo bem particular, que não desrespeitava, apesar do que pudessem pensar todos os outros a respeito de sua integridade, e atacar Coração de Bonecas para derrotá-lo era algo que ela não faria. Mas ela não desistiria tão facilmente de conquistar seu Coração e tirá-lo da influência da Rainha de Copas.
- Alguma vez você já enxergou dentro de si mesmo? Eu enxergo seu Coração, e posso ver que ele é delicado e vulnerável. Mas eu também consigo enxergar o poder dentro dele. Um poder que você mesmo parece desconhecer. Eu sei que você colocou este poder nas mãos da Rainha de Copas, mas também sei que é capaz de retirá-lo, e que é capaz de conquistar milhares e de erguer Palácios com a força que há nele. – a Rainha de Ouros sabia que era inútil um confronto dissimulado, ela decidiu retirar suas máscaras. – Fique ao meu lado Coração de Boneca. Junte-se a mim em meu Reino, e eu lhe entregarei tudo o que a Rainha de Copas jamais lhe dará.
- Agradeço sua oferta, mas meu Coração já encontrou seu Reino, e minhas Lágrimas já foram secadas. As mágoas que carrego dentro de mim não são todas minhas, e eu caminho agora para poder apaziguá-las e retornar para o meu lar. Eu sei que eternamente buscarei por algo que não será meu, mas eu ao menos sei onde posso encontrar isto. Meu Coração, agora e sempre, pertence à Rainha de Copas, e esta escolha não é minha e não sou eu quem pode desfazê-la. Eu posso, sim, ver dentro de seu Coração também Rainha de Ouros, e sei que você também busca. Seus olhos não têm Lágrimas e sua força é maior do que a minha, mas ainda assim você busca como eu. Nossos Corações são outros, e você é a governante de seu Reino, onde todos os Corações te pertencem e te adoram. Sua busca, como a minha, é eterna, e isto nós temos em comum. Se você partiu de seu Reino e veio até a Morada dos Desejos buscando o que falta em seu Coração, eu espero que você encontre o quanto antes. Apenas lamento que não possa lhe ajudar, pois você veio aqui atrás de meu Coração, que é um Coração conquistado. E, se existe mesmo este poder em meu Coração que você diz e que eu sou incapaz de perceber, ele será então suficiente para que você me deixe. Ele servirá para que seus truques não sejam suficientes para me fazer esquecer que o meu Coração não pertence a mim mais do que ele pertence à Rainha de Copas. Você é uma Governante, e sua ambição é imortal. Eu não desejo Reinos ou poder, tudo o que eu desejo é reconstruir o que foi partido no Coração de minha Rainha.
A Rainha de Ouros sabia que era inútil. Sua frustração latejava em seu peito querendo dar vazão na forma de um ódio destrutivo, que acabasse de uma vez por todas com aquele Coração que ela não conquistaria, como se ele nunca houvesse existido. Mas nem isto ela pôde, pois desta vez ela havia sido derrotada. O seu Coração não fora conquistado e nem seu Reino perdido, mas ela sabia que era apenas porque Coração de Boneca não desejava isto. O que ela pensava que seria apenas mais uma simples conquista para a perfeição de seu Reino, revelava-se uma humilhante derrota na qual ela seria poupada. E ambos sabiam que ela poderia derrotar e esmagar Coração de Boneca em um piscar de olhos, se assim quisesse seu ganancioso Coração de Rainha. Mas a sua derrota era exatamente esta: ela não queria esmagar o Coração de Boneca. A Rainha, apesar de orgulhosa, sabia ser sensata quando era necessário.
- Muito bem Coração de Boneca, você tem minha permissão para continuar em sua missão em nome do Reino de Copas. O futuro é longo e os Corações mudam. Um dia nos reencontraremos, quando o Reino de Ouros for ainda mais poderoso, e meu Palácio será a verdadeira Morada dos Desejos. Até lá, persiga os Desejos de sua Rainha. Eu mesma guiarei seu Coração através deste lugar para que você encontre o que busca.
Coração de Bonecas deixou a Rainha de Ouros para trás com uma reverência, e alguns passos depois já não sabia se havia permanecido por alguns minutos ou por muitos anos na Morada dos Desejos. Mas ele soube que havia encontrado o que procurava, quando sentiu dentro de si o fragmento do Coração da Rainha de Copas agitar-se. E, dentro das névoas que envolveram seus pensamentos, Coração de Bonecas viu um lugar distante. Foi a Rainha de Ouros, ainda guiando-o em seus pensamentos, que lhe instruiu sobre sua visão. Os jardins perfeitos e o Palácio que se estendiam nos seus sonhos pertenciam a outro Reino. Eles eram o domínio da Rainha de Espadas, e os Desejos de sua Rainha buscavam por aquele lugar. Era lá o próximo destino em sua busca.