quinta-feira, abril 16, 2020

Nas madrugadas
você chora no seu sono?

Entre páginas do capital
e cenários de horror pandêmicos
seu rosto reluz nos meus sonhos
num sono profundo que quer dizer não

Nas manhãs, me agarro a páginas
Há algo de você no horizonte
no combate duro contra a exploração
contra as mortes que se proliferam
vejo seu rosto, distante

O meu tempo é tão falho?
Por que o quarto está tão frio?
Você chora no seu sono?

Todas minhas falhas expostas
um gosto amargo na boca
enquanto o desespero toma conta.
E por que algo tão bom
simplesmente não pode funcionar mais?

O amor vai nos separar uma vez mais






quarta-feira, abril 15, 2020

Quando o sol voltar

Haverá peixes no mar quando o sol voltar
e todos comerão fartamente
sorrindo.

Repito isso no canto
escuro, frio, úmido,
da minha mente

Em meio à chuva e ao vento
tento recolher pedaços
ruínas de barcos
num quebra-cabeça impossível

A fome sufoca, engasga o pensamento
turva a visão, embaça o futuro
que se confunde com a lama presente
não se vê, não se sonha

Me jogo ao mar com escombros
chocando a quilha contra as ondas
imensas, intransponíves
me afogo na tormenta

Haverá sol?
Não sei
mas aguardo o dia de te ver
quando o sol voltar

segunda-feira, abril 13, 2020

No cais

No cais eu me sento
do amanhecer ao anoitecer
olhando o horizonte.

Por ali passam pernas, pessoas,
vendedores apregoam mercadorias
indiferentes à minha presença miúda.

Ninguém nota que no caderno, rabisco
palavras largadas, que carregam o peso da vida
e sonho com formas de jogar tudo pro alto

A cabeça está baixa, mas os olhos não
fixos na linha do horizonte
esperam os barcos

Anoitece

No cais,
uma alma incendiada
espera.

quinta-feira, abril 09, 2020

Um porto que não há

Volto a esse lugar, cemitério dos meus sentimentos, pra chorar sozinho.

Os barcos vem atracar na minha costa, mas não sei erguer um porto. Não sei dar âncoras.
Meu peito dilacerado transborda enquanto vejo o sol se por no horizonte azul.
A noite se espalha, escurece minha vista

Eu já não sei se os barcos continuam aqui, tudo é escuro
tudo que vejo é a noite, e contra o fundo preto da minha consciência
ainda imagino as velas em riste, com as quais desejo ainda navegar o mundo

Rompi com o mundo, queimei meus navios
mas já não tenho onde pousar meus sonhos
me afogo

Sob aquela luz vermelha, contemplo meu crime
alma incendiada sob o calor da minha
queimada, em trapos

tudo que queria era construir um porto
mas como posso se estou à deriva?

quarta-feira, abril 08, 2020

Carta de outro mundo

O mundo está um caos. E está só começando. As coisas vão ficar feias, e os capitalistas já sabem disso. No meio disso tudo, vão se completar oito anos da sua partida. É terrível sentir como sua presença é algo tão distante, como já é muito difícil sentir você por perto. Você está lá, sempre nos meus pensamentos, sempre nas minhas palavras. E eu queria que você pudesse viver aqui, em meio a esse que vai ser o maior desafio das nossas vidas até hoje.

Como você estaria hoje? Formada em pedagogia, atuando como professora. Nesse momento, com as aulas suspensas. Te imagino construindo os comitês, ajudando na organização das novas iniciativas nas redes, militando no seu computador, com uma long neck de Heineken e um cigarrinho ao lado. A Pagu no seu colo.

Conversas online, você me xingando, esbravejando com sua voz aguda e gesticulando. 

A vida que não foi continua não sendo. E, hoje, dezenas de milhares de vidas sendo interrompidas, como a sua foi. Por esse sistema social miserável em que vivemos. Vidas que não serão, pessoas sendo incineradas nas ruas do Equador, como lixo descartável. No maior país imperialista do mundo, o recorde de mortes. Imagino seu ódio e sua tristeza. O mundo te atingia demais, e talvez fosse difícil pra você esse momento. Eu me imagino ao seu lado tentando ajudar a transformar a dor em raiva, em luta.

Minha vida pessoal continua o caos, e penso em você alternando palavras carinhosas, "ah, lindo, não fica assim", com momentos de raiva, em que você me xingaria por me meter nessas situações "ah, pardal". O cheirinho dos seus cachos, misturado ao do seu Marlboro. Sua pele macia, marcada pelas cicatrizes aqui e ali. 

É terrível pensar como vidas se acabam por momentos decisivos que poderiam não existir. Sua vida, ainda penso às vezes no que poderia ter prolongado ela. E hoje, a angústia de ver milhares de vidas que acabam a cada dia. Sonhei que tentava ajudar as pessoas com remédios que não foram ainda liberados; e que nem serão produzidos em quantidade suficiente, se forem. O capitalismo segue matando, segue mutilando nossas vidas.

Você ainda é minha companheira nessa luta. Ainda é minha companheira em cada dor, e eu ainda luto para que a dor seja coragem. Eu não sei se falei aqui, nessa espécie de túmulo/confessionário virtual, que encontrei Andreia, a sua analista. Ela estava ali, como por acaso, no meio do caminho em que comecei a traçar com a sua ajuda, um caminho complementar e paralelo para tentar ser companheiro de dores e de descobertas das pessoas, e que sigo lutando para unificar com a luta revolucionária. Foi bonito e emocionante encontrá-la. Compartilhei com ela um pouco do destino trágico que se abateu sobre sua família também. Algo que poderia parecer um triste acaso, mas que acho que nem nós psicanalistas, nem nós marxistas, vemos como acaso. Acho que ela ficou feliz. Não me reconheceu prontamente, só quando eu disse a ela quem era. Pareceu acender a luz de algo adormecido ali. É claro que você marcou decisivamente a vida dela também.

Eu sigo também lutando por me revolucionar. Dou passos adiante, mas, confesso, dou passos atrás também. Suas palavras doloridas ainda me marcam. Tento aprender com os erros que cometi com você. Tento me apoiar nos acertos, nos momentos em que aprendemos juntos.

Amanhã serão oito anos completos de sua partida. Já não penso em você todos os dias, ainda que sei que sua marca indelével está lá, a cada passo. O sentimento de falta, de impotência, eu sei que a dimensão mais profunda dele até hoje eu tive com a sua morte. Mas ao longo desses anos fui aprendendo que faz parte da condição humana. Pelo menos dessa humanidade que conhecemos. E, talvez, isso me ajude a encarar de forma mais "harmônica" a falta que você faz na minha vida. Mas não é verdade que sei lidar com a falta, porque se não, não seria também parte dessa humanidade claudicante. Eu continuo errando, mas continuo andando. Hoje passo menos dias abatido, jogado na cama. Hoje penso muito menos em como seria seguir seus passos. Me fortaleci, sem dúvida. Como apostava que você poderia se fortalecer para permanecer aqui. Mas nem todas as batalhas vencemos. Ainda tenho vontade de pedir seu perdão, mesmo depois de tudo.

Hoje em minha janela brilha o sol. E o coração se põe triste a contemplar a cidade. Ele ainda se pergunta porque você se foi.

segunda-feira, abril 15, 2019

"Ela já morreu"

Às vezes a gente não sabe o tamanho das nossas próprias dores. O que a gente aperta no nosso inconsciente, e segue a cada dia, pode ser do tamanho do mundo.

A sombra de um objeto perdido que recai sobre o nosso eu, a perda do objeto se transformando em uma perda do eu. Essa era a forma como Freud falou da melancolia. Ela é um luto por uma perda que nunca acaba, que se torna maior do que o eu, e acaba com nossa capacidade de investir em outras coisas.

Imagine sentir que tudo que você ama é absolutamente efêmero, que não se sustenta, que seus desejos e paixões são um castelo de areia pronto a ruir - e ele rui a cada dia. Que tudo que é sólido se desmancha, mas basta para isso um minuto.

Uma das imagens mais fortes que F. usou para falar do psiquismo é a de um cristal, que se constitui ao longo de um processo mas contém em sua estrutura pontos frágeis, pontos de ruptura, que são, no entanto, completamente invisíveis quando esse cristal está inteiro. Mas, com o choque, ele se racha, justamente naqueles pontos de fragilidade que se encontravam ocultos. Todos nós temos nossas fissuras, e os choques nos fazem "regredir" para onde estas rachaduras do eu sempre estiveram.

Sete anos se passaram, e há cerca de duas semanas eu me deparei em análise interrogado sobre se eu poderia me permitir deixar que ela morresse. Se eu poderia ir adiante.

"Se eu esquecer ela, é como se ela fosse morrer de verdade." - tal foi o ato falho na minha fala, que era como um pedido para ouvir, com uma nova contundência, a verdade que meu inconsciente se recusa a assimilar.

"Ela já morreu".

Foram essas as palavras que com um baque surdo se chocaram rudemente com essa sombra da perda que às vezes parece sufocar tudo, sem que eu sequer saiba de onde isso vem. Que faz com que tudo no mundo tenha gosto de cinzas. Que nenhum edifício possa se erguer em meio a escombros que se acumulam.

Ela já morreu. E eu não posso morrer junto.

sábado, março 09, 2019

Minha tia, mãe da Kandura



A morte coloca as coisas em perspectiva. Ainda que nosso luto esteja amarrado, contido, restrito e sedado pelas correntes econômicas da exploração, pelas amarras ideológicas e científicas de seus manuais médicos, ele se esgueira e resiste em nossa mente, como nós nesse mundo.

Há quase uma semana meu luto por minha tia Selma vem se esgueirando pelos seus caminhos particulares. Tenho lido sobre ela, sobre seu trabalho, sobre sua vida, coisas que nunca li. E sinto uma ausência muito estranha.

Às vezes sinto inveja das pessoas que mandam as fotos e vídeos, que escrevem coisas bonitas sobre seu trabalho. No começo dos anos 90, quando eu tinha uns cinco anos, minha tia se foi de São Paulo, ao lado do seu companheiro de vida e de arte, Edgard, para bem longe dessa cidade cinza. Teresina, depois Manaus, foram os lugares onde decidiram viver, criar e sonhar.

Eu vi minha tia pouco, muito pouco, com ela vivendo do outro lado do país. Curiosamente, existia uma afinidade que perpassava a distância, e sobrepujava o contato rarefeito que tínhamos. Eu admirava, sem dúvida, suas escolhas. Ela quis fazer teatro, e durante dez anos pertenceu a um grupo que fez história em São Paulo, o Ventoforte, fundado e dirigido por Ilo Krugli. Disse que ali foi seu momento de formação artística, seu momento mais importante nesse caminho. Mas ela decidiu ir para o norte, onde viver de teatro, fazer o teatro era um desafio ainda maior.

"Manaus tem uma herança maldita de matar as pessoas que realmente querem fazer alguma coisa por elas, e eu continuo aqui se o preço for morrer", ela havia dito em uma entrevista recente, no ano passado. Queria mudar as pessoas por meio do teatro, e levar o teatro onde ele não chegava. Peregrinou pelo Rio Negro indo às comunidades indígenas, aprendendo e ensinando, levando sua palhaça Kandura às praças, aos teatros, às aldeias.

Um dos meus maiores pesares nesse momento é não ter nenhuma lembrança da minha tia exercendo seu ofício, sua paixão. Tenho uma vaga lembrança, uma imagem mental embaçada, de uma apresentação sua no que imagino que era o Ventoforte. Eu tinha uns cinco anos. Depois, nunca mais vi. Nem quando esteve em São Paulo apresentando a peça de sua Kandura. Ela não me chamou, nem eu pedi que chamasse. É difícil saber porque, acho que nos acostumamos tanto a essa distância que parecia que não importava. Ela soube de relance, creio, e um pouco em algumas conversas que tivemos, que fui me apaixonando pelo teatro como ela. Escolhendo o caminho da militância, nunca consegui o tempo e a dedicação que o fazer teatral exige. Mas me tornei pesquisador, e é meu ofício remoer a história do teatro revolucionário pra dizer pras pessoas que ele existiu e deve existir.

E, remoendo a história dos fazedores de teatro do século passado, da Alemanha, da Rússia, dos EUA, não me esforcei o suficiente pra ir até Manaus e ver o maravilhoso trabalho que fazia minha tia, Selma Bustamante. Agora, fico ouvindo as memórias dos outros, os depoimentos, vídeos, fotos, e só posso sentir o orgulho dessa pessoa que fez do teatro não apenas um trabalho seu, mas uma forma de amar os outros e o mundo, de mudar a vida das pessoas.



As memórias que tenho dela e dos nossos poucos momentos juntos não são do teatro. Lembro-me de como me apresentava às pessoas como seu filho, enganando a todos com nossa semelhança física. Mas o estranho é que essa semelhança nunca me pareceu ser só física, mas algo em nosso caráter. O otimismo e a alegria contagiante da minha tia, que falava pelos cotovelos, a aproximava de meu pai, mas não de mim. Mas algo de um inconformismo intrínseco, de uma empáfia, uma irritação incalável frente aos opressores, sempre me pareceu ser um traço profundo em comum. Sim, é verdade que algo disso corre no sangue de muitos da família. Mas há algo ali, um pouco distinto que sentia me aproximar dela. Não sei se é um tipo de asco ao convencional, ou se é algo que invento. Não sei se é o mesmo que a atraiu para a arte e para Manaus, e que me fez rechaçar a Medicina com seus arrogantes aspirantes e me levou às Letras e ao comunismo.

Talvez não seja nada de fato, mas o que inventamos também é verdade. A tristeza que sinto frente à partida precoce da minha tia é estranhamente desproporcional ao tempo que compartilhávamos juntos, e o que sinto é de verdade, mesmo se não puder compreendê-lo.

Há, claro, também uma raiva que me toma por perceber o sentido trágico de sua morte. Um câncer parece a quase todos hoje um acidente, um (in)fortuito mal que acomete qualquer um - em geral sem explicação que dê conta de atribuir a isso qualquer sentido maior do que a má sorte individual. É mal de comunista, no entanto, desse materialismo dialético teimoso e raivoso que é "a crítica radical de tudo que existe", nunca se conformar com o que pareça acaso. Uma investigação profunda e fisiológica, uma anamnese às avessas, poderia provavelmente mostrar o que adoeceu minha tia. Não está a meu alcance. Mas o que, sim, está, é ver a profunda falsidade da "cura" que essa medicina lhe ofereceu. Quimios e radioterapias arrebataram sua qualidade de vida, mas supostamente haviam-na curado. Foram cinco anos até que se provasse que não, e um fulminante "novo" câncer lhe matasse em cerca de duas semanas de evolução, desde os primeiros sintomas visíveis.

É engraçado, porque a impotência de nosso conhecimento nos impede de derrotar o inimigo e ter uma estratégia para isso, mas não impede a nossa rebeldia e revolta. Minha tia, também nisso, não foi dócil. Desde o começo, rejeitava o tratamento que queriam lhe impingir. Sem radioterapia, era seu primeiro protesto. Acabou cedendo, porque o peso da medicina é demais pra uma cabeça suportar. Eu vi, com ódio, como sua saúde se degenerou nos dias antes de sua morte. Vi, lembrando da impotência calculada dessa medicina, que em nome de lucros impede que se desenvolvam tratamentos muito mais inteligentes, uma ciência digna desse nome, para que se salvem milhares, milhões de pessoas como minha tia. Ela foi, também, assassinada pela impotência e pela fraude de um conhecimento médico cujo verdadeiro propósito está longe de ser curar; mas que cumpre com nível ótimo seu objetivo de gerar lucros.

Os maiores herdeiros de minha tia, eu não tive sequer o privilégio de conhecê-los. São os órfãos que ficam no "Baião de Dois", seu grupo de teatro. São seus alunos, seus colegas de teatro. São os que sabem, com uma profundidade que infelizmente não me é acessível, a imensidão do legado que essa pessoa fundamental deixou por aí, no teatro amazonense. A eles estendo minhas invisíveis condolências, centenas de quilômetros distante, pois sem nos conhecermos dividimos a dor dessa perda, e os saúdo pois serão eles que continuarão o que ela fazia dia a dia, o que a movia e a apaixonava. De minha parte, fico com o pouco, mas imenso, legado que me cabe. A paixão pelo teatro e o inconformismo que eram a base comum, além de nossos laços de parentesco, eu prometo levar adiante. E espero que possa ainda aprender e descobrir muito mais sobre uma pessoa que gostaria de ter conhecido muito mais em vida, mas cuja herança vai criar raízes profundas no Amazonas e pelo Brasil afora.

Aí uma entrevista com ela, do ano passado:

domingo, agosto 05, 2018

Hoje sonhei com você.
Não havia as duras palavras, o ódio e as lágrimas.
Havia só eu e você, como as coisas deveriam ser.

Hoje, e ontem, e amanhã, eu sinto uma dor que não posso lhe dizer.
Porque essa dor eu devo engolir a cada dia novamente,
com mais uma dose do cotidiano cinza desse mundo
que massacra toda tentativa de amar.

Eu levo esse amor como uma farsa
por que quem acreditaria nisso
que alguém tão vil,
tão sujo,
indesculpavelmente mesquinho,
possa ainda assim amar?

sábado, abril 14, 2018

As flores ceifadas de nosso jardim

Seis anos. Mais uma vez queria lhe dizer coisas que não posso. Digo-as à tela, a essas páginas esquecidas.

Durante esse ano minha dor e a ausência inescapável tiveram uma companhia, triste e inesperada. Nas palavras de quem sofreu talvez a mais dura das perdas, a perda de uma filha. Uma pequena flor, um broto arrancado, sem florescer, a raiz arrancada de uma Violeta que não pudemos ver crescer.

E quantas vezes não chorei na dor da partida da Violeta, na dor impossível de uma mãe que tão subitamente se vê sem a criança que acalentou com toda sua dedicação. Quantas vezes não vi nessa dor um espelho da minha.

O amadurecer de uma dor, o luto, é uma coisa que não se mede. Me indigno ainda e sempre com as réguas de uma medicina que quer marcar os dias e contar os prazos de nossa dor. 15 dias, é o tempo que nos é permitido sofrer (e olhe lá, porque você precisa trabalhar enquanto sofre).

Essa medida imensurável é um mistério que nos engole: quanto tempo vai demorar pra que eu consiga voltar a viver? E é uma ambiguidade terrível, que nas palavras da Marília vi tal como em mim mesmo. Será que poder viver novamente não é uma traição? Se a dor se transforma, não estou deixando para trás algo que deveria estar marcado a ferro e fogo, e sempre, e tanto? A gente se marca na pele para dizer que estamos marcados na alma. Uma marca que não se apaga.

E a gente sabe que não vai esquecer, que não vai passar. E não demora muito pra entender que a dor não vai embora. E olha um pouco indignado pro mundo, indignado porque, diferente da gente, ele não parou de girar. As pessoas vão vivendo suas vidas. No primeiro mês, todo mundo falava, todo mundo lembrava. Depois vai passando, vai ficando uma dor só nossa. E é como se tivéssemos parado no tempo.

De certa forma, sempre vamos ficar parados no tempo. Quando me pego chorando por um luto que já tem seis anos, como se tivesse sido ontem o dia da partida, já não me surpreendo que um pedaço meu ficou nessa dor. Que eu inteiro fiquei nessa dor, que não passa nem vai passar. A dor pode matar, e se a gente deixar ela nos leva embora. Eu vi, de longe, os seus pais partirem. E sempre me perguntei o quanto disso não era a dor que ficou. A dor que você já sabia que ia deixar pra trás quando partisse.

Eu vejo a força da Marília na luta por seguir a vida. Sem conseguir sorrir do mesmo jeito, mas sem se dobrar diante da dor. Uma coragem imensa, na qual me inspiro. Às vezes a gente já nem sabe mais porque resiste, mas resiste. Tem um pedaço de vida na gente que teima em viver.

Escrever é uma forma de tentar sobreviver. E mais uma vez eu vi muito da minha dor, nos textos que iam tentando dar forma, dar sentido pra esse sofrimento. Todos os dias. Depois a cada mês. Depois, uma hora, acaba passando um dia sem. E aí a gente até se sente culpado. Como se estivesse esquecendo. Como se tivesse deixando pra trás aquela dor, que, parece, é a única coisa que sobrou pra gente se apegar. Se perdermos a dor, perdemos tudo que nos restou. A gente quase se sente culpado por estar vivo. E por ter deixado escapar um sorriso em algum momento. Como pude sorrir? Como pude deixar de escrever naquele dia, mesmo tendo lembrado, como pude deixar pra depois? Ou não escrever? A gente sente às vezes que se não fala disso está deixando o mundo esquecer, e deixando o que ainda temos daquela pessoa partir.

Às vezes dá vontade de não ter continuado. Às vezes a gente ainda é só dor. E, não, passar ela não passa. Mas é como se se diluísse nessa coisa chamada tempo, que queira ou não vai se infiltrando e comendo pelas beiradas. Quando arrancam as flores do nosso jardim, ele nunca mais é o mesmo. A gente pode plantar outras. A gente pode regar aquele espaço vazio com as palavras que destilamos dessa dor. A gente faz o possível para viver. Mas mesmo com o tempo se infiltrando, aos poucos, por entre essa dor que tudo toma. Mesmo com as coisas da vida lutando até arrancar um sorriso. Mesmo que de fora olhem e digam que a gente já tá melhor, quando a gente olha para dentro muitas vezes a certeza é de que não estamos. É como tentar diluir óleo jogando água no copo. Eles não se misturam. Permanece ali, inteiro. Escondida, mas viva, está essa dor.

Conseguir viver, apesar de tudo, talvez seja nossa melhor homenagem. Essas flores arrancadas de nosso jardim sempre terão ali seu lugar, onde nada mais vai crescer. Mas cultivamos sementes de esperança e de vida. E elas crescem também por vocês.



The powers that be
That force us to live like we doBring me to my kneesWhen I see what they've done to you

Well, I'll die as I stand here todayKnowing that deep in my heartThey'll fall to ruin one dayFor making us part

I found a picture of you, o-o-oh, o-o-ohThose were the happiest days of my lifeLike a break in the battle was your part, o-o-oh, o-o-ohIn the wretched life of a lonely heart


Now I'm back on the train, yeah
O-oh, back on the chain gang

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Dolores



Não sei se alguma vez me senti tão triste pela morte de uma pessoa que nunca conheci pessoalmente. Mas hoje me sinto como se tivessem arrancado um pedaço da minha vida; esse pedaço era Dolores O'Riordan, uma voz com quem cresci e que me ajudou a me tornar a pessoa que sou, me deu um pedaço do tecido com o qual costurei a vida.

Ela era jovem, e subitamente não é mais. Estancou no tempo, está morta e deixou três filhos além de uma legião de fãs, entre os quais um bom tanto de gente deve estar triste e sentindo órfão como estou.

Eu sempre desprezei muito o sentimento de idolatria e tietagem. Não gosto de ficar investigando detalhes da vida de pessoas públicas que admiro; nunca vi sentido em um autógrafo. E talvez por estranhar essa bizarra sensação de proximidade com as “estrelas” da indústria cultural, algo que chega a níveis doentios na tal “sociedade do espetáculo”, eu acho estranho me sentir assim.

Nunca troquei uma palavra com Dolores, ela nunca soube da minha existência. E, no entanto, sua voz me consolou em momentos tristes, difíceis, de ódio mais do que a voz de qualquer pessoa que eu ame. Suas músicas foram a trilha sonora de momentos felizes; de desilusões amorosas. Da minha adolescência e da minha vida adulta. Uma presença constante, desde meus doze anos.

Eu também tive momentos de afastamento, quando gostei menos dos “novos” discos, primeiro o
“Bury the hatchet” em 99 (quando eu tinha quinze anos e Cranberries já era uma “velha banda” na minha curta vida) e depois ainda mais o “Wake up and smell the coffe”. Depois, com o tempo fiz as pazes e aprendi a gostar das novas músicas, que foram encontrando seus significados nas minhas experiências. Os próprios membros do Cranberries tiveram seu “tempo”, dissolvendo o grupo entre 2003 e 2009. Tal como eles, não aguentei ficar muito tempo longe da banda.

Pouquíssimos músicos ressoaram tanto e tão significativamente nos meus ouvidos. Gosto de muitas músicas diferentes, mas consigo facilmente destacar quatro bandas as quais me apeguei de um jeito muito mais intenso: Queen, Cranberries, Garbage e Sleater Kinney. As músicas as quais sempre recorro, como uma volta para casa. Como um abraço de um amigo quando você precisa.

As causas da morte de Dolores não foram divulgadas. Mas certamente foram terríveis e brutais, para tirar uma vida tão jovem e florescente, aos 46 anos, num quarto de hotel durante uma viagem para gravações. Como é inevitável, eu, como qualquer pessoa, me pergunto. A maldita palavra ressoa como uma pergunta na minha cabeça quase ao mesmo tempo em que recebo o baque pesado e inesperado da notícia de sua morte. Suicídio? Com fama, talento, fortuna e filhos que eram “a sua salvação”, como ela mesmo dizia, Dolores teve sua cota de merda desse mundo asqueroso. Abuso sexual na infância que levou a transtornos alimentares, um “colapso” e, depois, um diagnóstico – mais um número da nossa lista – de transtorno bipolar. Em 2014 e 2016 foi acusada de agressão em supostos ataques maníacos.

Não sei nada sobre sua vida pessoal, nem quero na verdade, transformar isso em objeto de especulação. Mas sei que a morte de Dolores, um dos maiores talentos musicais de sua geração e em minha opinião a mais linda voz dela, muito provavelmente, é mais uma dos infindáveis crimes dessa sociedade doente. Não são coisas "casuais" ou infortúnios que lhe ocorreram. São crimes bárbaros, são a marca desse mundo. Ela sofreu a brutalidade que é reservada às mulheres. Sua mente, adoecida, foi submetida aos procedimentos monstruosos que criamos. A bizarra forma como a arte é explorada como uma mercadoria de alta lucratividade, e os artistas muitas vezes são destruídos por essa engrenagem da indústria cultural, também cobrou um preço alto de Dolores. Ela disse que, no auge da fama do Cranberries, ela se sentia “realmente doente e estragada... eu me sentia como um fantoche, um objeto." De uma forma ou de outra, ela, como tantos, foi sendo envenenada de uma forma que ninguém nunca mais deveria ser. E eu lamento, por tudo isso, ainda mais sua tristíssima morte. 


Once you ruled my mind,
I thought you'd always be there.
And I'll always hold on to your face.
But everything changes in time,
And the answers are not always fair.
And I hope you've gone to a better place.

Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I know that you've gone to a better place.
Cordell [x7]

Your lover and baby will cry,
But your presence will always remain,
Is this how it was meant to be?
You meant something more to me,
That what many people will see,
And to hell with the endless dream.

Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
We all will depart and decay,
And we all will return to a better place.
Cordell [x7]

Era uma vez, você reinava em minha mente,

Eu pensei que você sempre estaria ali.

E eu sempre lembrarei de seu rosto.

Mas tudo muda com o tempo,

E as respostas não são sempre justas.

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.



Cordell,
O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.

O tempo dirá,

O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu sei que você foi para um lugar melhor.

Cordell [x7]




O seu amante e seu filho irão chorar,

Mas sua presença permanecerá para sempre,

Era assim que deveria ser?

Você significava algo a mais para mim,

Mais do que muitas pessoas verão,

E para o inferno com o sonho sem fim.




Cordell,
O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.

O tempo dirá,

O tempo dirá,

Todos nós iremos partir e decair,

E nós vamos todos retornar para um lugar melhor.

Cordell [x7]

quinta-feira, janeiro 11, 2018

Queria que um grito bastasse
para dizer tudo que não me cabe
tudo o que nesse mundo de merda
diz não à vida, à liberdade

Mas há muito para um grito
e minha voz, rouca, já nem gritar consegue
sufoca

Abafa em meio ao caos, em meio à ordem
imposta.
Em meio ao quinhão que te cobram,
e já não resta um tostão
nem para pagar o amargo trago
que ao fim do dia te faria esquecer a dor
e anestesiar os músculos cansados
e a mente entorpecer
para que possa ao menos parar de pensar
e começar outro dia.

Não há grito que dê conta de dizer essa dor
Não há dor que dê conta de doer essa vida
Não há vida que dê conta de morrer essa morte
que já há muito tempo se tornou
maior e mais forte
do que você possa dizer

Quando morre mais um
e mais um e mais um
caindo ao teu lado
já não há mais surpresa
e nem grito, nem lágrima
um corpo morto que cai
como o teu, que continua

já não há mais grito, nem dor, nem surpresa
nem morte há mais, porque já é igual a vida
E já não há o que dizer

e por isso não digo

quarta-feira, janeiro 10, 2018

a mim

Pare e diga foda-se
foda-se a tudo ao redor
que te acossa, te importuna
te exige e não te larga, e te apressa

Diga a tudo que é necessário, nem que seja às vezes
pertecencer-se.

Exigir, em um mundo que nada nos permite
que ao menos nós, essa coisa degradada
agredida, explorada, estreitada, destruída,
mas que ainda devemos chamar de “eu”,

que essa coisa nos pertença.
Que possamos tomá-la,
rejeitar o mundo que a demanda por inteiro

E dizer não
foda-se você
o que você quer de mim
o que você pensa de mim
o que você pensa que eu quero de mim
ou de você
ou de qualquer coisa que seja

foda-se.
Eu preciso de mim.
Sem satisfações,
sem explicações,
sem demandas,
sem exigências.

É preciso um pouco de ilusão nessa vida
a ilusão, por um segundo,
de que podemos pertencer a nós mesmos
e a mais ninguém


O pensamento mais assombroso que pode haver é a imensidão da vida, a sua potencialidade infinita, e o contraste com a miséria e a estreiteza dolorosa do que vive a imensa maioria da humanidade.

O planeta é mesmo uma prisão suja.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

I- Infância

Demorei um bom tempo até descobrir o que me incomodava mesmo, quer dizer, que tipo de gente eu era afinal. Quando moleque, já era uma criança esquisita. Claro que não era assim que me chamavam os adultos, com seus bem treinados eufemismos cretinos para tentar ridiculamente mostrar uns pros outros que sabem fingir que não veem o óbvio. Ou que o óbvio não é aquilo, mas outra coisa complicada que inventaram para ficar no seu lugar. As crianças, que ainda não tinham sido estragadas por esse hábito social que é a base dessa montanha de merda a que deram o nome de “civilização”, eram mais honestas ao menos. Elas sim diziam francamente que eu era esquisito.

Não é que as crianças fossem melhores, longe de mim achar isso. As crianças são mais nítidas, são transparentes, como se não tivessem ainda tido tempo de nutrir essa espessa camada com a qual cobrimos a monstruosa verdade do que queremos. A sua crueldade se vê a céu aberto, elas dizem como desprezam os demais, como querem apenas satisfazer suas próprias necessidades mais imediatas e individuais; e quando o fazem, são duramente repreendidas pelos adultos, que vão aos poucos lhes incutindo a capacidade, ou melhor, a imprescindível habilidade de mentir para o “bom convívio”. Quando se cresce, a dura sinceridade das crianças já está devidamente esmagada sob um disfarce que apresentamos como nossa cara; até que nós mesmos acreditamos que somos essa mentira que apresentamos para os demais.

Não satisfeitos em mentir uns para os outros e para si mesmo sobre o que são, os adultos também precisam mentir a si mesmos sobre as crianças e o que elas são, dizendo que são “puras”, “ingênuas”, “sem maldade”. Essa última mentira, repetida à exaustão, e cujas frequentes tentativas de se desmentir são combatidas com a maior violência e virulência, é absolutamente necessária para manter a absurda ideia de que, no fundo, somos todos “bons”, e não feitos essencialmente daquilo que se convencionou chamar de “egoísmo” e condenar de maneira hipócrita – enquanto nossa “criança interior” continua cuidadosamente o cultivando.

De todo modo, quando era criança o meu convívio social se dava, em grande parte, com outras crianças, que com sua brutal sinceridade e sua autêntica crueldade tão tipicamente humanas me fizeram logo perceber – e não poder esquecer disso por um segundo sequer – que eu era uma criança esquisita. As formas de polidez, os eufemismos e os atenuamentos para falar da minha condição particular ficavam reservados aos adultos em seus diálogos: professores, pais, seus amigos. Enquanto isso, eu recebia ostensivamente de meus colegas, essas “flores primaveris” do jardim-da-infância, a implacável marca da distinção, como a marca a ferro na testa do louco ou do criminoso do vilarejo para dizer a todos quem ele é.

Músicas eram cantadas para mim com a intenção de me humilhar. Agressões e provocações eram um passatempo que trazia muita alegria para as crianças ao redor. O prazer “puro” e “ingênuo” de se sentir superior ao inferiorizar outro ser humano, esse se manifestava sem disfarces na relação das demais crianças comigo. Contrariamente ao que se pode pensar, eu creio que devo muito a esses pequenos carrascos: me ensinaram de forma precoce e inequívoca o sentido da humanidade e do convívio social.

O constante castigo por se ser como se é pode apresentar diferentes resultados em quem os sofre. É claro que nada daquilo me agradava, e não deixava de sofrer sentindo em mim um grande alvo para as zombarias infantis de todos os colegas. Mas, bom, eu não era o único. Sempre há outros desajustados, outros esquisitos para serem vitimados pela ditadura da “normalidade social”. Se na boca dos adultos o comportamento duro das crianças com seus colegas “diferentes” ganha uma condenação formal, por baixo desse discurso há um sentimento de gratidão: a crueldade, que muitas vezes ganha em intensidade e ousadia na fase adolescente, cumpre um papel social indispensável nesse mundo. Em primeiro lugar, ensinar a quem não se encaixa qual é o seu lugar. Em segundo lugar, tentar conformá-los aos estreitos padrões aceitos socialmente. Claro, mesmo quando a humilhação impele aos excluídos que se conformem para poderem ser aceitos, nem sempre eles conseguem. Mesmo assim, cumprem um papel: o de exemplo.

Era esse o caso de uma outra criança que teve a desgraça de habitar a mesma escola que eu. Pedro tinha uma lesão cerebral congênita, o que lhe trazia muitas marcas distintivas que as demais crianças simplesmente não conseguiriam “deixar barato”. O déficit intelectual, se fosse o único sintoma, poderia ter ficado despercebido, pelo menos, quem sabe, até a adolescência. Mas o rosto de Pedro trazia estampada a diferença; seus movimentos, mais lerdos e imprecisos, e realizados a um custo muito mais elevado do que os das outras crianças, eram os trejeitos “perfeitos” para que alguns colegas que já mostravam o talento para buscar avidamente a admiração de todos e o “brilho” público pudessem fazer o seu “show”. E, assim, imitavam Pedro arrancando gargalhadas das demais crianças, que se regozijavam rindo do menino defeituoso.

Outra característica de Pedro que garantia grande alegria aos pequenos era sua irritabilidade, e a forma como se comportava ao ficar nervoso. Corando como um pimentão, ele soltava grunhidos, se agitava todo e batia os braços e mãos. Às vezes se tornava mais agressivo e arremessava objetos, o que dava um ar a mais de “desafio” a quem se postava como a estrela do show ao ir lidar com o estranho animal que intrigava a todos, como o domador de leões do circo. Lembro-me de uma vez, que passando esses limites, a frustração de Pedro chegou à sua bexiga e o fez urinar nas calças. É claro que foi o delírio das crianças, e apenas com muito tempo e repreensões da professora o apelido de “mijão” deixou de ser o nome mais utilizado para designar Pedro.

Ele não me inspirava simpatia, mas aprendi muito vendo esse colega que dividia comigo o infortúnio de ser desajustado e, para minha sorte, fazia com que eu quase parecesse normal em contraste com ele. Éramos, de fato, muitíssimo diferentes, mas na realidade pouco importa. O que importava mesmo é que não éramos iguais aos outros. E ele, atormentado por sua estranheza, procurava em vão formas de se adaptar, de parecer mais normal. Pedro não queria ser diferente, e, obviamente, os adultos deviam lhe dizer bobagens como “você não é diferente”, ou “você é especial”, tentando alimentar nele a ilusão de que poderia em algum momento fazer parte do mundo das crianças que lhe humilhavam. A crueldade infantil, como sempre, era consciente ou inconscientemente ignorada pelos adultos.

Eu rapidamente entendi que o caminho mais rápido para conseguir ser aceito era mostrar a sua própria capacidade de humilhar alguém outro. Essa opção estava ao alcance da minha mão: tivesse eu um dia qualquer, bem no meio do pátio ou dentro da sala, à vista de todos, acabado com Pedro ou com alguma outra criança desprevenida, as coisas certamente mudariam para mim. Ainda que não fosse aceito, teria imposto ao menos um respeito, uma hierarquia que facilitaria minha vida. Eu não era uma criança mirrada e fraca, o que me deixava também aberta a possibilidade de escolher um de meus algozes e torcer-lhe o braço, enfiar sua cara na terra, abaixar-lhe as calças ou fazer qualquer outra pequena crueldade que o destituísse de seu posto de “superior”. Poderia passar a ser uma criança temida, ao menos, o que me daria uma vida mais tranquila na escola.

É claro que naquele momento eu não tinha uma clareza tão racional disso tudo; não havia ainda compreendido que a crueldade e a humilhação têm suas próprias regras bem estabelecidas não apenas entre as crianças – quando começamos a aprendê-las – mas também no mundo adulto. De toda a forma, eu já sentia tudo isso, e lembro-me mesmo de considerar essas possibilidades. Por que então não fiz nenhuma delas?

Bom, a verdade é que rapidamente tomei um caminho muito distinto de Pedro: o seu sofrimento gerado pela humilhação alheia lhe instigou à triste conclusão da auto-humilhação. Quanto mais lhe diziam inferior, mais ele acreditava, mais invejava as crianças normais e desejava ser aceito por elas. Essa é, eu creio a regra fundamental para que o mundo se mantenha assim: os humilhados admiram seus humilhadores, desejando ser eles; e enquanto desejarem ser eles, aceitarão as humilhações procurando um caminho inexistente para que possam, como nos seus sonhos, passarem a ser eles mesmos os humilhadores. Toda a crueldade que despejavam em Pedro ele acrescentava àquela que já existia dentro dele, e a cultivava secretamente. Ninguém o percebia, mas eu passei a ver como aquela criança estúpida e chorona lentamente se transformava naquilo que o estavam moldando.

Incapaz de encontrar uma criança a quem ele mesmo pudesse agredir, insultar ou fazer algo para se mostrar ou sentir superior, Pedro procurou outros lugares onde pudesse expressar seu ódio e sua crueldade que se alimentavam cotidianamente daquilo que as outras crianças faziam com ele. Os desenhos que fazia se tornavam mais violentos, sempre com pessoas se partindo, sangue, objetos pontiagudos, gritos. Nas suas brincadeiras solitárias, ele descontava em bonecos ou blocos de montar o seu ódio. Batia com força os brinquedos e muitas vezes era advertido pela professora por estragar algum que fosse mais delicado. Era ali que ia se depositando o ódio e a frustração de Pedro, enquanto crescia seu triste desejo por ser normal, por ser como as crianças que lhe humilhavam.

Mas é claro que o poço que estava sendo cavado nele era fundo demais para que apenas desenhos e bonecos pudessem extravazar tanto rancor. Mesmo porque o pensamento de Pedro era pouco dado a abstrações, era limitado e concreto; ele precisava ver diante de si sofrimento que expiasse sua própria dor. Então ele procurou coisas vivas. No pátio, destruiu um formigueiro com violência, pisoteando. Seu rosto tinha uma expressão de satisfação que nunca havia visto. Passou a gastar seu tempo em minuciosas buscas por insetos em meio à terra e as plantas, e quando os encontrava exercitava sua crueldade destruindo-os da forma mais criativa que pudesse. Os adultos não se davam conta, talvez muito preocupados em manter sua historinha de que as crianças eram todas boazinhas, talvez tentando fingir que Pedro poderia ser “mais um” com seus colegas e que logo iriam parar os episódios de perseguição.

Mas logo eles perceberam que havia “algo errado”. Foi quando Pedro pegou um martelo de bater carne escondido da cozinha de sua casa e resolveu partir para algo “mais elaborado”, vendo o que poderia fazer com um dos filhotes que sua cachorra havia parido recentemente. Eu imagino a satisafação de Pedro ao ouvir os ganidos do filhote enquanto o destruía com aquele martelo. De alguma forma, deveria ser como tirar um peso de seu ombro, das próprias “marteladas” que havia recebido tantas vezes dos colegas. Quase não vi mais Pedro depois disso. Ele acabou saindo da escola, sei lá o que inventaram que seria “melhor” para ele. Dúvido, de toda forma, que tenham conseguido fazer alguma coisa por aquela criança. O que se expressava ali naquela escola, e depois nele descontando da forma que pudesse em insetos e bichos, era uma lei do mundo dos homens.

Comigo as coisas foram diferentes, eu não era como o Pedro. Não porque fosse melhor, claro que não. Apenas muitos anos depois fui entender que, na realidade, havia muito em comum na forma como “sobrevivemos” àquilo. Talvez eu tenha tido apenas sorte – será? – de que eu não precisava de martelos de verdade ou de bichinhos mais indefesos para expiar meu ódio e frustração. Eu nunca tentei ser aceito, talvez porque consegui de alguma forma ir assimilando ali mesmo, naquelas precoces primeiras lições, que aquilo tudo era podre, podre demais. E que, se era verdade que não conseguiria escapar – o que, é claro, eu ainda não sabia – eu ia encontrando recursos dentro de mim para explorar esse ódio. Eu passei a desprezar os que me humilhavam; não queria ser como eles, nem queria ser aceito. De alguma forma, era motivo de orgulho para mim ser excluído: em minha cabeça, isso significava que eu era melhor que eles.


Esse desprezo era o meu “martelo”, na verdade: pude sobreviver sem precisar ver um filhote despedaçado sob meus golpes, mas por outro lado talvez o ódio que Pedro expiava naqueles golpes fosse muito mais simples, muito mais autêntico e purificador. Como essa crueldade “pura” das crianças, a forma que ele encontrou era também mais limpa, mais direta, porque era assim que ele lidava com o mundo. O meu ódio se fincou em mim e ali construiu sua fortaleza, e dali nunca mais saiu.     

sábado, janeiro 06, 2018

Eu fico fritando – talvez na melhor das hipóteses, porque às vezes já nem isso me sinto muito capaz de fazer – e tentando entender o que aconteceu. Como aconteceu, quando aconteceu. Como eu fiquei desse jeito. Eu olho pra trás e pra agora, tento fantasiar qualquer coisa que me entusiasme para que eu possa acreditar numa resposta mágica, pelo menos isso, uma esperança de que não precisa ser sempre assim.

Será que aconteceu uma hora que nem percebi nada? E aí de repente eu estava assim. Será que foi aos poucos? E aí fico revendo os anos, as escolhas, as coisas que fazia e que fiz. Será que foi ali, naquele momento decisivo em que ela morreu e “tudo mudou”? Mas, o pior de tudo é: será que não tem nada de “ficar assim”, será que na real eu sempre fui assim, e o presente é só uma cela suja de onde não consigo olhar para fora, e na qual fantasio que há um lugar longe dali onde tudo é bom, bonito e... sei lá, esperançoso ao menos. E cada presente sempre foi assim, mas quando essa cela se move aos poucos junto comigo ao longo dessa nossa abstração chamada “tempo” eu não consigo perceber que ela se move e deixa do lado de fora tudo o que acredito que eu deveria ser, fazer, viver.

Não – eu repito pra mim – não é isso. Eu lembro oras, lembro das coisas que fazia. Ora, eu escrevia, aqui mesmo, eu refletia, eu planejava, eu enfrentava as coisas. Eu tocava. Eu me interessava. Eu me apaixonava pela vida, pelos seus desafios, pelas suas novidades, seus mistérios. É claro que há um “fora” desse lugar em que me meti. É claro que eu vim de lá.

Veio? Nas suas tardes intermináveis de infância, nas quais a descoberta da palavra “tédio” foi quase uma epifania para expressar uma angústia infantil sempre presente. A incapacidade de levar qualquer tipo de paixão até o segundo degrau de uma longa escada. O precoce ódio da humanidade, a descoberta de sua insuficiência.

As amizades, você diz. Elas eram uma diferença substancial. Esse isolamento impenetrável de onde não consigo me comunicar com ninguém; essa impaciência com tudo, todos, comigo, com os outros: isso não era assim. Ou era? Claro, havia tempo livre, havia distração a rodo. Isso, é nítido, é sim um presente que as crianças podem desfrutar. A ausência de preocupações sérias. Ainda que, em retrospectiva, algum adulto que pudesse passear pela sua cabeça infantil certamente poderia ficar assombrado com algumas questões bem pouco infantis que já te atormentavam. A carapaça que você criou pôde ter brechas pelo contato com os semelhantes. O que acontece que nem os que mais se assemelham agora te parecem semelhantes? Por que não há contato?


As palavras já não te saem. São mecânicas, forçadas, se as consegue a custo arrancar dos dedos. São obrigatórias. A vida é um beco sem saída. Se consegue se perguntar, logo o ímpeto esmorece frente à brutal muralha de um cinza infinito, que pinta uniformemente, o fora e o dentro se confundindo, a vida e a morte indistintas. Às vezes chora, e quer pedir desculpas por todos com quem invariavelmente falhou. Os amigos que abandonou, as namoradas que decepcionou, a família a qual não pertence, os camaradas a quem trai com seu interior ressecado de onde não brota nenhum futuro. Nenhuma insignificância pode te salvar de si mesmo. Dorme e já não consegue sonhar. Corta-se, e não escorre sangue. Tua vida gangrenou. E, balbuciando esse lixo, agora já apenas por uma ilusória busca de sentido, de alívio, já não sabe o que faz. Nem porque.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Quantos "melhores amigos", quantos "amores da sua vida" te escaparam entre os dedos?

terça-feira, outubro 17, 2017

links efêmeros

Só nessa semana vi duas pessoas postando mensagens com teor muito parecido em seus perfis no Facebook, mais ou menos assim: elas pediam desculpas a seus amigos por não estarem presentes, não estarem respondendo ou não os estarem procurando. Dizendo que a ausência não significava descaso, mas sim uma incapacidade de procurar as pessoas movida pela depressão. Um trecho dizia assim:

"sinto falta de todos, minha ausência não é descaso.

Depressão é um negócio intenso que te faz desabar. Você desaparece dos outros, para os outros e muitas vezes para você mesmo.
Se eu não te respondi, não te procurei, não apareci, não significa que não me importo. As vezes só significa que sair na rua me é insuportável, que falar com pessoas aumenta minha ansiedade.
Amo todos vocês e sinto falta. Espero logo poder voltar"

Me identifiquei muito com o espírito dessas mensagens. Nenhuma das duas são amigas próximas; mas são pessoas por quem tenho uma consideração grande, ainda que distante. Elas tocaram num ponto que vinha martelando em mim, sobre como é horrível esse sentimento de solidão na depressão, mas que ao mesmo tempo é a solidão que é gerada pelo isolamento auto-imposto, pela incapacidade de se mover em direção ao outro. São diferentes as pessoas e diferentes seus sentimentos, mas a incapacidade de contato social é muito parecida.

Isso me fez pensar também sobre as relações de amizade que temos. Acho que em parte é por estar mais velho. Morando entre duas metrópoles. Mas tem também a ver com o capitalismo degradado e vestido em suas roupagens de redes sociais. A ausência/presença é constante. Ninguém mais sente sua falta porque você parece estar sempre presente por meio de seus perfis. A própria solidão é comunicada por postagens no Facebook, e devidamente curtida e comentada. Você já pode estar sozinho acompanhado. E jamais estar acompanhado de fato. Eu sei de tudo o que acontece na vida de amigos que não vejo há mais de uma década - poderiam ser eles meus amigos? - e no entanto não consigo contar até dez os amigos que vejo a cada mês, ou a cada bimestre, ou mais...

Há uma perversidade profunda a ser explorada nessa solidão de novo tipo, em seus mil aspectos. Muito além inclusive do evidente narcisismo da felicidade compulsória, já repisado como mais uma "denúncia para consumo imediato", mas sempre pouco refletido em seu verdadeiro significado. A companhia compulsória de aplicativos, redes, mensagens constantes não nos deixam mais ficar sozinhos. Se ficamos, postamos uma mensagem pública nas redes explicando nossa solidão. Mas ela está lá, sempre. E talvez seja por isso muito mais difícil se comunicar.

Sera só eu que sinto essa dificuldade crescente? Será que tem a ver com minha cabeça apenas, que as palavras não me saem mais? Que não consigo sequer mais escrever direito, e falar então para alguém algo direta e sinceramente sobre o que sinto é um abismo intransponível?

Eu sempre fui e não fui tímido. Fui e não fui solitário. Na adolescência, pelo menos, contava sempre com amigos íntimos a quem sabia poder recorrer. Hoje posso supostamente contar com mil pessoas, e não conto com ninguém de fato. Minhas relações tornaram-se cada vez mais pragmáticas e superficiais.

Quando me tornei uma figura pública no movimento estudantil, meio que me acostumei a ser duramente hostilizado, a ser alvo de boatos estúpidos criados por gente com quem nunca havia trocado uma palavra. Mas pouco me deixava atingir por isso. Hoje, contudo, destruir uma pessoa na esfera pública permanente em que todos vivemos, chamada Facebook, se tornou incrivelmente fácil. Tudo o que você fala ou faz, independentemente de qualquer coisa, pode e será alvo de escrutínio e impiedoso julgamento público.

As relações, por outro lado, supostamente amarradas pelo laço virtual das timelines, são cada vez mais efêmeras, fugazes. Poucas coisas me abalaram tanto quanto o corte abrupto, irreversível e inexplicado de duas relações que considerava basilares em minha vida. De gente que eu realmente olhava nos olhos e dizia amar. Foi uma dura lição de que acabar com relações - será uma questão geracional? - tornou-se o "unmatch" da vida. Te bloqueio no face, no whatsapp, e fim. Nada há a ser explicado. Posso te jogar meia dúzia de jargões sobre porque "não sou obrigado", e o copo plástico descartável em que você se transformou vai pro lixo. E já não consigo superar distância nenhuma. A vida é um punhado de "matchs" que de um dia pro outro se desfazem. E com os que perduram anos, dezenas de anos, os encontros precários, esparsos, dão a oportunidade de trocar frivolidades e amenidades ao vivo, ao invés de pelas timelines.

A depressão virou condição elementar de vida, cíclica, entranhada, imanente, intrínseca.
Comunica-se por recado, ganha-se abraços virtuais.
E tudo que é sólido se desmancha nas redes.

sábado, outubro 14, 2017

Pós-solidão


As maravilhas digitais dessa vida:
Soube da viagem de Carla,
Acompanhei em vídeo os primeiros passos do filho do jaime,
Pude estar lado a lado do sofrimento de Sandra quando ela perdeu sua mãe,
Mesmo do outro lado do mundo, conheci a família do Pedro, os amores de Rita, as dores de Fábio, as alegrias de Cláudio.
Tudo isso enquanto passava cinco semanas em casa, sem sair do quarto, sem tomar banho, sem falar uma palavra.
Que mundo incrível onde não precisamos ver, encostar, falar com ninguém e mesmo assim estamos cercados de milhares de amigos.

sexta-feira, julho 14, 2017

Minha parte mais secreta te ofereço
Sem cerimônias, sem adereços
Procuro, inverto, vou ao começo

Tua voz em escritas à distância
Teu rosto, teu toque, palavras entranhas
Despedidas suaves eu peço: que seja só o começo

Essa tarde estranha, essa poeira malsã
Eu não estou só querida solidão
Eu esqueço que eu me lembro disso

Você não está só
Coisas mais estranhas aconteceram, eu sei
Pessoas se apaixonam por vozes, programas
Pessoas sozinhas e loucas até as entranhas
Esse mundo arrancou nossa sanidade
Ao contrário
Nela eu encontro você
Me espere. Me escute.
Respiro nesse silêncio como nunca antes





quarta-feira, julho 12, 2017

Ódio, angústia, ansiedade e esse vazio
Tuas garras no meu peito arrancam um desespero sem fim.

Choro sem lágrimas, sem sangue.

Essa inércia é meu grito ensurdecedor que não se faz ouvir em nenhuma parte.

Estendo a mão. Não sei para onde.

Estas palavras estúpidas não me salvam. Não salvam nada nem ninguém.

Nessa vida medíocre só seguimos sozinhos, desolados, tentando à toa ignorar que tudo é silêncio e cinzas.

Que tudo o que existe é só o desespero de inventarmos algo que nos impeça de ouvir o eco de nossa própria voz ressoando nesse abismo.

Eu grito teu nome, mas, como tudo mais, ele não existe.

Escrevo essas palavras para ninguém. Invento meus pensamentos absurdos e finjo saber que não sei de algo que não há.

É isso, essa dor de saber que não há simplesmente nada a ser descoberto. Cada inútil invenção de vida já estava morta, seca, estéril e ressentida antes de sair dos lábios de seu criador. Um farsante como todos os outros. A farsa que é viver, sonhar e rebelar-se contra a própria inutilidade de estar vivo.