segunda-feira, janeiro 15, 2018

Dolores



Não sei se alguma vez me senti tão triste pela morte de uma pessoa que nunca conheci pessoalmente. Mas hoje me sinto como se tivessem arrancado um pedaço da minha vida; esse pedaço era Dolores O'Riordan, uma voz com quem cresci e que me ajudou a me tornar a pessoa que sou, me deu um pedaço do tecido com o qual costurei a vida.

Ela era jovem, e subitamente não é mais. Estancou no tempo, está morta e deixou três filhos além de uma legião de fãs, entre os quais um bom tanto de gente deve estar triste e sentindo órfão como estou.

Eu sempre desprezei muito o sentimento de idolatria e tietagem. Não gosto de ficar investigando detalhes da vida de pessoas públicas que admiro; nunca vi sentido em um autógrafo. E talvez por estranhar essa bizarra sensação de proximidade com as “estrelas” da indústria cultural, algo que chega a níveis doentios na tal “sociedade do espetáculo”, eu acho estranho me sentir assim.

Nunca troquei uma palavra com Dolores, ela nunca soube da minha existência. E, no entanto, sua voz me consolou em momentos tristes, difíceis, de ódio mais do que a voz de qualquer pessoa que eu ame. Suas músicas foram a trilha sonora de momentos felizes; de desilusões amorosas. Da minha adolescência e da minha vida adulta. Uma presença constante, desde meus doze anos.

Eu também tive momentos de afastamento, quando gostei menos dos “novos” discos, primeiro o
“Bury the hatchet” em 99 (quando eu tinha quinze anos e Cranberries já era uma “velha banda” na minha curta vida) e depois ainda mais o “Wake up and smell the coffe”. Depois, com o tempo fiz as pazes e aprendi a gostar das novas músicas, que foram encontrando seus significados nas minhas experiências. Os próprios membros do Cranberries tiveram seu “tempo”, dissolvendo o grupo entre 2003 e 2009. Tal como eles, não aguentei ficar muito tempo longe da banda.

Pouquíssimos músicos ressoaram tanto e tão significativamente nos meus ouvidos. Gosto de muitas músicas diferentes, mas consigo facilmente destacar quatro bandas as quais me apeguei de um jeito muito mais intenso: Queen, Cranberries, Garbage e Sleater Kinney. As músicas as quais sempre recorro, como uma volta para casa. Como um abraço de um amigo quando você precisa.

As causas da morte de Dolores não foram divulgadas. Mas certamente foram terríveis e brutais, para tirar uma vida tão jovem e florescente, aos 46 anos, num quarto de hotel durante uma viagem para gravações. Como é inevitável, eu, como qualquer pessoa, me pergunto. A maldita palavra ressoa como uma pergunta na minha cabeça quase ao mesmo tempo em que recebo o baque pesado e inesperado da notícia de sua morte. Suicídio? Com fama, talento, fortuna e filhos que eram “a sua salvação”, como ela mesmo dizia, Dolores teve sua cota de merda desse mundo asqueroso. Abuso sexual na infância que levou a transtornos alimentares, um “colapso” e, depois, um diagnóstico – mais um número da nossa lista – de transtorno bipolar. Em 2014 e 2016 foi acusada de agressão em supostos ataques maníacos.

Não sei nada sobre sua vida pessoal, nem quero na verdade, transformar isso em objeto de especulação. Mas sei que a morte de Dolores, um dos maiores talentos musicais de sua geração e em minha opinião a mais linda voz dela, muito provavelmente, é mais uma dos infindáveis crimes dessa sociedade doente. Não são coisas "casuais" ou infortúnios que lhe ocorreram. São crimes bárbaros, são a marca desse mundo. Ela sofreu a brutalidade que é reservada às mulheres. Sua mente, adoecida, foi submetida aos procedimentos monstruosos que criamos. A bizarra forma como a arte é explorada como uma mercadoria de alta lucratividade, e os artistas muitas vezes são destruídos por essa engrenagem da indústria cultural, também cobrou um preço alto de Dolores. Ela disse que, no auge da fama do Cranberries, ela se sentia “realmente doente e estragada... eu me sentia como um fantoche, um objeto." De uma forma ou de outra, ela, como tantos, foi sendo envenenada de uma forma que ninguém nunca mais deveria ser. E eu lamento, por tudo isso, ainda mais sua tristíssima morte. 


Once you ruled my mind,
I thought you'd always be there.
And I'll always hold on to your face.
But everything changes in time,
And the answers are not always fair.
And I hope you've gone to a better place.

Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I know that you've gone to a better place.
Cordell [x7]

Your lover and baby will cry,
But your presence will always remain,
Is this how it was meant to be?
You meant something more to me,
That what many people will see,
And to hell with the endless dream.

Cordell,
Time will tell,
They say that you've passed away,
And I hope you've gone to a better place.
Time will tell,
Time will tell,
We all will depart and decay,
And we all will return to a better place.
Cordell [x7]

Era uma vez, você reinava em minha mente,

Eu pensei que você sempre estaria ali.

E eu sempre lembrarei de seu rosto.

Mas tudo muda com o tempo,

E as respostas não são sempre justas.

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.



Cordell,
O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.

O tempo dirá,

O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu sei que você foi para um lugar melhor.

Cordell [x7]




O seu amante e seu filho irão chorar,

Mas sua presença permanecerá para sempre,

Era assim que deveria ser?

Você significava algo a mais para mim,

Mais do que muitas pessoas verão,

E para o inferno com o sonho sem fim.




Cordell,
O tempo dirá,

Disseram que você morreu,

E eu espero que você tenha ido para um lugar melhor.

O tempo dirá,

O tempo dirá,

Todos nós iremos partir e decair,

E nós vamos todos retornar para um lugar melhor.

Cordell [x7]

quinta-feira, janeiro 11, 2018

Queria que um grito bastasse
para dizer tudo que não me cabe
tudo o que nesse mundo de merda
diz não à vida, à liberdade

Mas há muito para um grito
e minha voz, rouca, já nem gritar consegue
sufoca

Abafa em meio ao caos, em meio à ordem
imposta.
Em meio ao quinhão que te cobram,
e já não resta um tostão
nem para pagar o amargo trago
que ao fim do dia te faria esquecer a dor
e anestesiar os músculos cansados
e a mente entorpecer
para que possa ao menos parar de pensar
e começar outro dia.

Não há grito que dê conta de dizer essa dor
Não há dor que dê conta de doer essa vida
Não há vida que dê conta de morrer essa morte
que já há muito tempo se tornou
maior e mais forte
do que você possa dizer

Quando morre mais um
e mais um e mais um
caindo ao teu lado
já não há mais surpresa
e nem grito, nem lágrima
um corpo morto que cai
como o teu, que continua

já não há mais grito, nem dor, nem surpresa
nem morte há mais, porque já é igual a vida
E já não há o que dizer

e por isso não digo

quarta-feira, janeiro 10, 2018

a mim

Pare e diga foda-se
foda-se a tudo ao redor
que te acossa, te importuna
te exige e não te larga, e te apressa

Diga a tudo que é necessário, nem que seja às vezes
pertecencer-se.

Exigir, em um mundo que nada nos permite
que ao menos nós, essa coisa degradada
agredida, explorada, estreitada, destruída,
mas que ainda devemos chamar de “eu”,

que essa coisa nos pertença.
Que possamos tomá-la,
rejeitar o mundo que a demanda por inteiro

E dizer não
foda-se você
o que você quer de mim
o que você pensa de mim
o que você pensa que eu quero de mim
ou de você
ou de qualquer coisa que seja

foda-se.
Eu preciso de mim.
Sem satisfações,
sem explicações,
sem demandas,
sem exigências.

É preciso um pouco de ilusão nessa vida
a ilusão, por um segundo,
de que podemos pertencer a nós mesmos
e a mais ninguém


O pensamento mais assombroso que pode haver é a imensidão da vida, a sua potencialidade infinita, e o contraste com a miséria e a estreiteza dolorosa do que vive a imensa maioria da humanidade.

O planeta é mesmo uma prisão suja.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

I- Infância

Demorei um bom tempo até descobrir o que me incomodava mesmo, quer dizer, que tipo de gente eu era afinal. Quando moleque, já era uma criança esquisita. Claro que não era assim que me chamavam os adultos, com seus bem treinados eufemismos cretinos para tentar ridiculamente mostrar uns pros outros que sabem fingir que não veem o óbvio. Ou que o óbvio não é aquilo, mas outra coisa complicada que inventaram para ficar no seu lugar. As crianças, que ainda não tinham sido estragadas por esse hábito social que é a base dessa montanha de merda a que deram o nome de “civilização”, eram mais honestas ao menos. Elas sim diziam francamente que eu era esquisito.

Não é que as crianças fossem melhores, longe de mim achar isso. As crianças são mais nítidas, são transparentes, como se não tivessem ainda tido tempo de nutrir essa espessa camada com a qual cobrimos a monstruosa verdade do que queremos. A sua crueldade se vê a céu aberto, elas dizem como desprezam os demais, como querem apenas satisfazer suas próprias necessidades mais imediatas e individuais; e quando o fazem, são duramente repreendidas pelos adultos, que vão aos poucos lhes incutindo a capacidade, ou melhor, a imprescindível habilidade de mentir para o “bom convívio”. Quando se cresce, a dura sinceridade das crianças já está devidamente esmagada sob um disfarce que apresentamos como nossa cara; até que nós mesmos acreditamos que somos essa mentira que apresentamos para os demais.

Não satisfeitos em mentir uns para os outros e para si mesmo sobre o que são, os adultos também precisam mentir a si mesmos sobre as crianças e o que elas são, dizendo que são “puras”, “ingênuas”, “sem maldade”. Essa última mentira, repetida à exaustão, e cujas frequentes tentativas de se desmentir são combatidas com a maior violência e virulência, é absolutamente necessária para manter a absurda ideia de que, no fundo, somos todos “bons”, e não feitos essencialmente daquilo que se convencionou chamar de “egoísmo” e condenar de maneira hipócrita – enquanto nossa “criança interior” continua cuidadosamente o cultivando.

De todo modo, quando era criança o meu convívio social se dava, em grande parte, com outras crianças, que com sua brutal sinceridade e sua autêntica crueldade tão tipicamente humanas me fizeram logo perceber – e não poder esquecer disso por um segundo sequer – que eu era uma criança esquisita. As formas de polidez, os eufemismos e os atenuamentos para falar da minha condição particular ficavam reservados aos adultos em seus diálogos: professores, pais, seus amigos. Enquanto isso, eu recebia ostensivamente de meus colegas, essas “flores primaveris” do jardim-da-infância, a implacável marca da distinção, como a marca a ferro na testa do louco ou do criminoso do vilarejo para dizer a todos quem ele é.

Músicas eram cantadas para mim com a intenção de me humilhar. Agressões e provocações eram um passatempo que trazia muita alegria para as crianças ao redor. O prazer “puro” e “ingênuo” de se sentir superior ao inferiorizar outro ser humano, esse se manifestava sem disfarces na relação das demais crianças comigo. Contrariamente ao que se pode pensar, eu creio que devo muito a esses pequenos carrascos: me ensinaram de forma precoce e inequívoca o sentido da humanidade e do convívio social.

O constante castigo por se ser como se é pode apresentar diferentes resultados em quem os sofre. É claro que nada daquilo me agradava, e não deixava de sofrer sentindo em mim um grande alvo para as zombarias infantis de todos os colegas. Mas, bom, eu não era o único. Sempre há outros desajustados, outros esquisitos para serem vitimados pela ditadura da “normalidade social”. Se na boca dos adultos o comportamento duro das crianças com seus colegas “diferentes” ganha uma condenação formal, por baixo desse discurso há um sentimento de gratidão: a crueldade, que muitas vezes ganha em intensidade e ousadia na fase adolescente, cumpre um papel social indispensável nesse mundo. Em primeiro lugar, ensinar a quem não se encaixa qual é o seu lugar. Em segundo lugar, tentar conformá-los aos estreitos padrões aceitos socialmente. Claro, mesmo quando a humilhação impele aos excluídos que se conformem para poderem ser aceitos, nem sempre eles conseguem. Mesmo assim, cumprem um papel: o de exemplo.

Era esse o caso de uma outra criança que teve a desgraça de habitar a mesma escola que eu. Pedro tinha uma lesão cerebral congênita, o que lhe trazia muitas marcas distintivas que as demais crianças simplesmente não conseguiriam “deixar barato”. O déficit intelectual, se fosse o único sintoma, poderia ter ficado despercebido, pelo menos, quem sabe, até a adolescência. Mas o rosto de Pedro trazia estampada a diferença; seus movimentos, mais lerdos e imprecisos, e realizados a um custo muito mais elevado do que os das outras crianças, eram os trejeitos “perfeitos” para que alguns colegas que já mostravam o talento para buscar avidamente a admiração de todos e o “brilho” público pudessem fazer o seu “show”. E, assim, imitavam Pedro arrancando gargalhadas das demais crianças, que se regozijavam rindo do menino defeituoso.

Outra característica de Pedro que garantia grande alegria aos pequenos era sua irritabilidade, e a forma como se comportava ao ficar nervoso. Corando como um pimentão, ele soltava grunhidos, se agitava todo e batia os braços e mãos. Às vezes se tornava mais agressivo e arremessava objetos, o que dava um ar a mais de “desafio” a quem se postava como a estrela do show ao ir lidar com o estranho animal que intrigava a todos, como o domador de leões do circo. Lembro-me de uma vez, que passando esses limites, a frustração de Pedro chegou à sua bexiga e o fez urinar nas calças. É claro que foi o delírio das crianças, e apenas com muito tempo e repreensões da professora o apelido de “mijão” deixou de ser o nome mais utilizado para designar Pedro.

Ele não me inspirava simpatia, mas aprendi muito vendo esse colega que dividia comigo o infortúnio de ser desajustado e, para minha sorte, fazia com que eu quase parecesse normal em contraste com ele. Éramos, de fato, muitíssimo diferentes, mas na realidade pouco importa. O que importava mesmo é que não éramos iguais aos outros. E ele, atormentado por sua estranheza, procurava em vão formas de se adaptar, de parecer mais normal. Pedro não queria ser diferente, e, obviamente, os adultos deviam lhe dizer bobagens como “você não é diferente”, ou “você é especial”, tentando alimentar nele a ilusão de que poderia em algum momento fazer parte do mundo das crianças que lhe humilhavam. A crueldade infantil, como sempre, era consciente ou inconscientemente ignorada pelos adultos.

Eu rapidamente entendi que o caminho mais rápido para conseguir ser aceito era mostrar a sua própria capacidade de humilhar alguém outro. Essa opção estava ao alcance da minha mão: tivesse eu um dia qualquer, bem no meio do pátio ou dentro da sala, à vista de todos, acabado com Pedro ou com alguma outra criança desprevenida, as coisas certamente mudariam para mim. Ainda que não fosse aceito, teria imposto ao menos um respeito, uma hierarquia que facilitaria minha vida. Eu não era uma criança mirrada e fraca, o que me deixava também aberta a possibilidade de escolher um de meus algozes e torcer-lhe o braço, enfiar sua cara na terra, abaixar-lhe as calças ou fazer qualquer outra pequena crueldade que o destituísse de seu posto de “superior”. Poderia passar a ser uma criança temida, ao menos, o que me daria uma vida mais tranquila na escola.

É claro que naquele momento eu não tinha uma clareza tão racional disso tudo; não havia ainda compreendido que a crueldade e a humilhação têm suas próprias regras bem estabelecidas não apenas entre as crianças – quando começamos a aprendê-las – mas também no mundo adulto. De toda a forma, eu já sentia tudo isso, e lembro-me mesmo de considerar essas possibilidades. Por que então não fiz nenhuma delas?

Bom, a verdade é que rapidamente tomei um caminho muito distinto de Pedro: o seu sofrimento gerado pela humilhação alheia lhe instigou à triste conclusão da auto-humilhação. Quanto mais lhe diziam inferior, mais ele acreditava, mais invejava as crianças normais e desejava ser aceito por elas. Essa é, eu creio a regra fundamental para que o mundo se mantenha assim: os humilhados admiram seus humilhadores, desejando ser eles; e enquanto desejarem ser eles, aceitarão as humilhações procurando um caminho inexistente para que possam, como nos seus sonhos, passarem a ser eles mesmos os humilhadores. Toda a crueldade que despejavam em Pedro ele acrescentava àquela que já existia dentro dele, e a cultivava secretamente. Ninguém o percebia, mas eu passei a ver como aquela criança estúpida e chorona lentamente se transformava naquilo que o estavam moldando.

Incapaz de encontrar uma criança a quem ele mesmo pudesse agredir, insultar ou fazer algo para se mostrar ou sentir superior, Pedro procurou outros lugares onde pudesse expressar seu ódio e sua crueldade que se alimentavam cotidianamente daquilo que as outras crianças faziam com ele. Os desenhos que fazia se tornavam mais violentos, sempre com pessoas se partindo, sangue, objetos pontiagudos, gritos. Nas suas brincadeiras solitárias, ele descontava em bonecos ou blocos de montar o seu ódio. Batia com força os brinquedos e muitas vezes era advertido pela professora por estragar algum que fosse mais delicado. Era ali que ia se depositando o ódio e a frustração de Pedro, enquanto crescia seu triste desejo por ser normal, por ser como as crianças que lhe humilhavam.

Mas é claro que o poço que estava sendo cavado nele era fundo demais para que apenas desenhos e bonecos pudessem extravazar tanto rancor. Mesmo porque o pensamento de Pedro era pouco dado a abstrações, era limitado e concreto; ele precisava ver diante de si sofrimento que expiasse sua própria dor. Então ele procurou coisas vivas. No pátio, destruiu um formigueiro com violência, pisoteando. Seu rosto tinha uma expressão de satisfação que nunca havia visto. Passou a gastar seu tempo em minuciosas buscas por insetos em meio à terra e as plantas, e quando os encontrava exercitava sua crueldade destruindo-os da forma mais criativa que pudesse. Os adultos não se davam conta, talvez muito preocupados em manter sua historinha de que as crianças eram todas boazinhas, talvez tentando fingir que Pedro poderia ser “mais um” com seus colegas e que logo iriam parar os episódios de perseguição.

Mas logo eles perceberam que havia “algo errado”. Foi quando Pedro pegou um martelo de bater carne escondido da cozinha de sua casa e resolveu partir para algo “mais elaborado”, vendo o que poderia fazer com um dos filhotes que sua cachorra havia parido recentemente. Eu imagino a satisafação de Pedro ao ouvir os ganidos do filhote enquanto o destruía com aquele martelo. De alguma forma, deveria ser como tirar um peso de seu ombro, das próprias “marteladas” que havia recebido tantas vezes dos colegas. Quase não vi mais Pedro depois disso. Ele acabou saindo da escola, sei lá o que inventaram que seria “melhor” para ele. Dúvido, de toda forma, que tenham conseguido fazer alguma coisa por aquela criança. O que se expressava ali naquela escola, e depois nele descontando da forma que pudesse em insetos e bichos, era uma lei do mundo dos homens.

Comigo as coisas foram diferentes, eu não era como o Pedro. Não porque fosse melhor, claro que não. Apenas muitos anos depois fui entender que, na realidade, havia muito em comum na forma como “sobrevivemos” àquilo. Talvez eu tenha tido apenas sorte – será? – de que eu não precisava de martelos de verdade ou de bichinhos mais indefesos para expiar meu ódio e frustração. Eu nunca tentei ser aceito, talvez porque consegui de alguma forma ir assimilando ali mesmo, naquelas precoces primeiras lições, que aquilo tudo era podre, podre demais. E que, se era verdade que não conseguiria escapar – o que, é claro, eu ainda não sabia – eu ia encontrando recursos dentro de mim para explorar esse ódio. Eu passei a desprezar os que me humilhavam; não queria ser como eles, nem queria ser aceito. De alguma forma, era motivo de orgulho para mim ser excluído: em minha cabeça, isso significava que eu era melhor que eles.


Esse desprezo era o meu “martelo”, na verdade: pude sobreviver sem precisar ver um filhote despedaçado sob meus golpes, mas por outro lado talvez o ódio que Pedro expiava naqueles golpes fosse muito mais simples, muito mais autêntico e purificador. Como essa crueldade “pura” das crianças, a forma que ele encontrou era também mais limpa, mais direta, porque era assim que ele lidava com o mundo. O meu ódio se fincou em mim e ali construiu sua fortaleza, e dali nunca mais saiu.     

sábado, janeiro 06, 2018

Eu fico fritando – talvez na melhor das hipóteses, porque às vezes já nem isso me sinto muito capaz de fazer – e tentando entender o que aconteceu. Como aconteceu, quando aconteceu. Como eu fiquei desse jeito. Eu olho pra trás e pra agora, tento fantasiar qualquer coisa que me entusiasme para que eu possa acreditar numa resposta mágica, pelo menos isso, uma esperança de que não precisa ser sempre assim.

Será que aconteceu uma hora que nem percebi nada? E aí de repente eu estava assim. Será que foi aos poucos? E aí fico revendo os anos, as escolhas, as coisas que fazia e que fiz. Será que foi ali, naquele momento decisivo em que ela morreu e “tudo mudou”? Mas, o pior de tudo é: será que não tem nada de “ficar assim”, será que na real eu sempre fui assim, e o presente é só uma cela suja de onde não consigo olhar para fora, e na qual fantasio que há um lugar longe dali onde tudo é bom, bonito e... sei lá, esperançoso ao menos. E cada presente sempre foi assim, mas quando essa cela se move aos poucos junto comigo ao longo dessa nossa abstração chamada “tempo” eu não consigo perceber que ela se move e deixa do lado de fora tudo o que acredito que eu deveria ser, fazer, viver.

Não – eu repito pra mim – não é isso. Eu lembro oras, lembro das coisas que fazia. Ora, eu escrevia, aqui mesmo, eu refletia, eu planejava, eu enfrentava as coisas. Eu tocava. Eu me interessava. Eu me apaixonava pela vida, pelos seus desafios, pelas suas novidades, seus mistérios. É claro que há um “fora” desse lugar em que me meti. É claro que eu vim de lá.

Veio? Nas suas tardes intermináveis de infância, nas quais a descoberta da palavra “tédio” foi quase uma epifania para expressar uma angústia infantil sempre presente. A incapacidade de levar qualquer tipo de paixão até o segundo degrau de uma longa escada. O precoce ódio da humanidade, a descoberta de sua insuficiência.

As amizades, você diz. Elas eram uma diferença substancial. Esse isolamento impenetrável de onde não consigo me comunicar com ninguém; essa impaciência com tudo, todos, comigo, com os outros: isso não era assim. Ou era? Claro, havia tempo livre, havia distração a rodo. Isso, é nítido, é sim um presente que as crianças podem desfrutar. A ausência de preocupações sérias. Ainda que, em retrospectiva, algum adulto que pudesse passear pela sua cabeça infantil certamente poderia ficar assombrado com algumas questões bem pouco infantis que já te atormentavam. A carapaça que você criou pôde ter brechas pelo contato com os semelhantes. O que acontece que nem os que mais se assemelham agora te parecem semelhantes? Por que não há contato?


As palavras já não te saem. São mecânicas, forçadas, se as consegue a custo arrancar dos dedos. São obrigatórias. A vida é um beco sem saída. Se consegue se perguntar, logo o ímpeto esmorece frente à brutal muralha de um cinza infinito, que pinta uniformemente, o fora e o dentro se confundindo, a vida e a morte indistintas. Às vezes chora, e quer pedir desculpas por todos com quem invariavelmente falhou. Os amigos que abandonou, as namoradas que decepcionou, a família a qual não pertence, os camaradas a quem trai com seu interior ressecado de onde não brota nenhum futuro. Nenhuma insignificância pode te salvar de si mesmo. Dorme e já não consegue sonhar. Corta-se, e não escorre sangue. Tua vida gangrenou. E, balbuciando esse lixo, agora já apenas por uma ilusória busca de sentido, de alívio, já não sabe o que faz. Nem porque.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Quantos "melhores amigos", quantos "amores da sua vida" te escaparam entre os dedos?

terça-feira, outubro 17, 2017

links efêmeros

Só nessa semana vi duas pessoas postando mensagens com teor muito parecido em seus perfis no Facebook, mais ou menos assim: elas pediam desculpas a seus amigos por não estarem presentes, não estarem respondendo ou não os estarem procurando. Dizendo que a ausência não significava descaso, mas sim uma incapacidade de procurar as pessoas movida pela depressão. Um trecho dizia assim:

"sinto falta de todos, minha ausência não é descaso.

Depressão é um negócio intenso que te faz desabar. Você desaparece dos outros, para os outros e muitas vezes para você mesmo.
Se eu não te respondi, não te procurei, não apareci, não significa que não me importo. As vezes só significa que sair na rua me é insuportável, que falar com pessoas aumenta minha ansiedade.
Amo todos vocês e sinto falta. Espero logo poder voltar"

Me identifiquei muito com o espírito dessas mensagens. Nenhuma das duas são amigas próximas; mas são pessoas por quem tenho uma consideração grande, ainda que distante. Elas tocaram num ponto que vinha martelando em mim, sobre como é horrível esse sentimento de solidão na depressão, mas que ao mesmo tempo é a solidão que é gerada pelo isolamento auto-imposto, pela incapacidade de se mover em direção ao outro. São diferentes as pessoas e diferentes seus sentimentos, mas a incapacidade de contato social é muito parecida.

Isso me fez pensar também sobre as relações de amizade que temos. Acho que em parte é por estar mais velho. Morando entre duas metrópoles. Mas tem também a ver com o capitalismo degradado e vestido em suas roupagens de redes sociais. A ausência/presença é constante. Ninguém mais sente sua falta porque você parece estar sempre presente por meio de seus perfis. A própria solidão é comunicada por postagens no Facebook, e devidamente curtida e comentada. Você já pode estar sozinho acompanhado. E jamais estar acompanhado de fato. Eu sei de tudo o que acontece na vida de amigos que não vejo há mais de uma década - poderiam ser eles meus amigos? - e no entanto não consigo contar até dez os amigos que vejo a cada mês, ou a cada bimestre, ou mais...

Há uma perversidade profunda a ser explorada nessa solidão de novo tipo, em seus mil aspectos. Muito além inclusive do evidente narcisismo da felicidade compulsória, já repisado como mais uma "denúncia para consumo imediato", mas sempre pouco refletido em seu verdadeiro significado. A companhia compulsória de aplicativos, redes, mensagens constantes não nos deixam mais ficar sozinhos. Se ficamos, postamos uma mensagem pública nas redes explicando nossa solidão. Mas ela está lá, sempre. E talvez seja por isso muito mais difícil se comunicar.

Sera só eu que sinto essa dificuldade crescente? Será que tem a ver com minha cabeça apenas, que as palavras não me saem mais? Que não consigo sequer mais escrever direito, e falar então para alguém algo direta e sinceramente sobre o que sinto é um abismo intransponível?

Eu sempre fui e não fui tímido. Fui e não fui solitário. Na adolescência, pelo menos, contava sempre com amigos íntimos a quem sabia poder recorrer. Hoje posso supostamente contar com mil pessoas, e não conto com ninguém de fato. Minhas relações tornaram-se cada vez mais pragmáticas e superficiais.

Quando me tornei uma figura pública no movimento estudantil, meio que me acostumei a ser duramente hostilizado, a ser alvo de boatos estúpidos criados por gente com quem nunca havia trocado uma palavra. Mas pouco me deixava atingir por isso. Hoje, contudo, destruir uma pessoa na esfera pública permanente em que todos vivemos, chamada Facebook, se tornou incrivelmente fácil. Tudo o que você fala ou faz, independentemente de qualquer coisa, pode e será alvo de escrutínio e impiedoso julgamento público.

As relações, por outro lado, supostamente amarradas pelo laço virtual das timelines, são cada vez mais efêmeras, fugazes. Poucas coisas me abalaram tanto quanto o corte abrupto, irreversível e inexplicado de duas relações que considerava basilares em minha vida. De gente que eu realmente olhava nos olhos e dizia amar. Foi uma dura lição de que acabar com relações - será uma questão geracional? - tornou-se o "unmatch" da vida. Te bloqueio no face, no whatsapp, e fim. Nada há a ser explicado. Posso te jogar meia dúzia de jargões sobre porque "não sou obrigado", e o copo plástico descartável em que você se transformou vai pro lixo. E já não consigo superar distância nenhuma. A vida é um punhado de "matchs" que de um dia pro outro se desfazem. E com os que perduram anos, dezenas de anos, os encontros precários, esparsos, dão a oportunidade de trocar frivolidades e amenidades ao vivo, ao invés de pelas timelines.

A depressão virou condição elementar de vida, cíclica, entranhada, imanente, intrínseca.
Comunica-se por recado, ganha-se abraços virtuais.
E tudo que é sólido se desmancha nas redes.

sábado, outubro 14, 2017

Pós-solidão


As maravilhas digitais dessa vida:
Soube da viagem de Carla,
Acompanhei em vídeo os primeiros passos do filho do jaime,
Pude estar lado a lado do sofrimento de Sandra quando ela perdeu sua mãe,
Mesmo do outro lado do mundo, conheci a família do Pedro, os amores de Rita, as dores de Fábio, as alegrias de Cláudio.
Tudo isso enquanto passava cinco semanas em casa, sem sair do quarto, sem tomar banho, sem falar uma palavra.
Que mundo incrível onde não precisamos ver, encostar, falar com ninguém e mesmo assim estamos cercados de milhares de amigos.

sexta-feira, julho 14, 2017

Minha parte mais secreta te ofereço
Sem cerimônias, sem adereços
Procuro, inverto, vou ao começo

Tua voz em escritas à distância
Teu rosto, teu toque, palavras entranhas
Despedidas suaves eu peço: que seja só o começo

Essa tarde estranha, essa poeira malsã
Eu não estou só querida solidão
Eu esqueço que eu me lembro disso

Você não está só
Coisas mais estranhas aconteceram, eu sei
Pessoas se apaixonam por vozes, programas
Pessoas sozinhas e loucas até as entranhas
Esse mundo arrancou nossa sanidade
Ao contrário
Nela eu encontro você
Me espere. Me escute.
Respiro nesse silêncio como nunca antes





quarta-feira, julho 12, 2017

Ódio, angústia, ansiedade e esse vazio
Tuas garras no meu peito arrancam um desespero sem fim.

Choro sem lágrimas, sem sangue.

Essa inércia é meu grito ensurdecedor que não se faz ouvir em nenhuma parte.

Estendo a mão. Não sei para onde.

Estas palavras estúpidas não me salvam. Não salvam nada nem ninguém.

Nessa vida medíocre só seguimos sozinhos, desolados, tentando à toa ignorar que tudo é silêncio e cinzas.

Que tudo o que existe é só o desespero de inventarmos algo que nos impeça de ouvir o eco de nossa própria voz ressoando nesse abismo.

Eu grito teu nome, mas, como tudo mais, ele não existe.

Escrevo essas palavras para ninguém. Invento meus pensamentos absurdos e finjo saber que não sei de algo que não há.

É isso, essa dor de saber que não há simplesmente nada a ser descoberto. Cada inútil invenção de vida já estava morta, seca, estéril e ressentida antes de sair dos lábios de seu criador. Um farsante como todos os outros. A farsa que é viver, sonhar e rebelar-se contra a própria inutilidade de estar vivo.


Não chego

A tocar, a sentir

Um raio tênue que seja, de luz ou calor

A dissipar esse inverno, essa dor

Que estira meus músculos. Tesos, cansados

A fatiga de gritar contra o vento, a nevasca

Entra gélida pela minha garganta, corta minha voz, meus pedidos

Que jamais foram ouvidos. Teus ouvidos surdos, incapazes de saber

Que onde há uma voz que grita por teu nome, há também um clamor de vida

Uma busca incessante por regurgitar todo esse ódio do mundo, essa grossa e espessa baba

Que nos cobre de nojo, de ódio, de tédio e indiferença. Toda essa merda que você permitiu que tomasse seu coração, que tomasse seu cérebro e te fizesse uma imbecil como tudo aquilo que você jurou combater.

Olho nos teus olhos, pela minha memória, e já não mais te vejo. Alguma vez te conheci, ou você sempre esteve enfiada nessa montanha de lixo que a gente é obrigado a chamar de vida, mesmo sabendo que não é, mesmo sabendo que é a morte que se arrasta por nós, que se arrasta incessantemente pelos anos sofridos que comem e roem cada fio de esperança.

Você já soube alguma vez que no teu espelho se reflete esse monstro? Esse, que você vê lá fora e em mim, mas que nunca, jamais viu que está em você, que está em tudo que toca, que cheira, que sente.

Em tudo que pulsa e que há de morrer. Não, ninguém está impune. Nem eu nem você.

A diferença é que minha morte, minha dor, eu aprendi a dividir, a sentir com o outro, a aplacar meus julgamentos que já há muito tempo não considero impenetráveis, irredutíveis, irrefreáveis.

É essa vulnerabilidade e a consciência dessa dor, da imensa falibilidade de nossos sentidos, de nosso julgamento e de nossas tentativas. É a possibilidade de dividir isso com outras criaturas falhas e imperfeitas, sem ser dominado pelo ódio e pela alteridade impenetrável. É essa, essa pequena brecha de nossa solidão tão abrangente e que a tudo cobre, é o que chamamos de amor.

E foi apenas isso que quis te ofertar. Mas a porta estava fechada, e sempre estará.

quinta-feira, abril 06, 2017

Há cinco anos de sua morte, mais uma carta para ninguém



Em três dias serão cinco anos, e venho aqui para escrever como se você fosse ler. Você não vai.

Faz tempo, muito tempo que não falo sobre essa ferida. Eu falo, mas não falo. Não assim. Sobre esse presente eterno, que com tanta frequência me faz sentir como se não houvesse passado um dia sequer. Ultimamente, parece que o tempo volta, volta mais pra perto. Porque tudo tem sido tão difícil, tão áspero.

Era mais fácil transformar a dor em ódio, o ódio em luta. O seu caminho me vem, cada vez mais palpável, mais verossímil, mais meu, como quando eu era menor. Só que com o duro realismo do adulto. 

Mais algumas pessoas amadas e conhecidas seguiram por ele nesses anos. Eduardo Rosa e Márcia Mello foram os mais próximos. Pessoas incríveis que um mundo assim, tal como ele é, verdadeiramente nunca mereceu; como a você.

Outros amados tentaram, uma delas em uma triste lembrança do aniversário de sua ida; mas escaparam, escaparam dessa vez como você escapou de tantas. Por quanto tempo? Nunca deixo de pensar nessa breve janela em que te conheci. Por um triz, desde que você escapou da penúltima vez. Como poderia ter escapado da última...

Um dirigente revolucionário, mais um camarada, também tomou esse caminho. Um duro golpe nas mentiras auto-complacentes de quem ainda acha que há "imunidade revolucionária"para a crueza do mundo.

Conheci outras companhias, mentoras, ombros decisivos nas horas vagas que, décadas antes, haviam partido também. Sylvia Plath e Ana Cristina César foram meus amores, com suas vidas, mortes e dores. Ironicamente, as duas bem perto da minha idade. Mais perto da minha do que da sua, que hoje está eternizadamente jovem, tal como elas.

Também o filho de um camarada tão bom, tão forte e determinado, partiu, em mais um triste lembrete de nossa impotência para salvarmos uns aos outros, por melhores que sejamos.

E, há dias, mais uma, a mais jovem, uma garota que também buscava mudar o mundo; o mundo a venceu, e com isso, mais uma vez, venceu a todos nós. Hoje foi enterrada, e eu que nunca a conheci penso nela lembrando de você e de todas essas dores.

As pequenas coisas ainda não se apagaram, e as decisões que pareciam pequenas, mas que poderiam ser decisivas para vencer mais uma batalha (por quanto tempo nunca se sabe) se tornam por vezes fantasmas imensos, muito maiores do que eram há alguns anos. Eles me acompanham dia a dia. As coisas que não fiz, as palavras que não disse são um tormento que carrego.

Seu pai, que carregou certamente muitos fantasmas, não quis ou não pode (se há diferença) ficar muito tempo depois que você partiu.

E também quem mais me ouviu e lutou comigo contra os meus martírios, tantas vezes invisíveis para todos, também partiu, me deixando uma vez mais órfão de amparos nesse mundo frio.

Alegrias e esperanças se corroeram, não resistiram à inclemente prova do tempo. Tudo se desmancha, deixando seu amargo. Sua solidão. A triste constatação da efemeridade de tudo que tive com sua morte parece cada vez mais ser a sensação mais sólida e confiável na vida. Pessoas somem, sem deixar rastros, exceto as dores da partida que carregamos em memórias solitárias. Com o coração calejado pela sua perda eterna e repetida, tomo esses acréscimos de dor com cada vez mais cinismo e resignação.

Eu sigo mancando, talvez mais do que nunca. Se luto, mais e com mais força que antes, é uma luta desesperada, como jamais foi. Sem gradil, sem cordão de segurança, quase de olhos vendados, esmurro o mundo que me esmaga, ando nessa corda bamba. Jogo para o alto tudo que me segura, e sigo em frente. Não paro, não vou parar. Por você eu não paro, e por todos esses que perdemos e perderemos na luta. Há cinco anos, sigo com a ferida aberta, e abrindo-se, e digo a mim mesmo que não é preciso saber se é possível vencer para lutar. O corpo, a cada dia, um campo de batalha mais e mais difícil de se enfrentar.

Eu não segurei sua mão como devia, e ninguém segura nada como deve. Fazemos as coisas como podemos, e sempre podemos mal e precariamente. Precariamente, como você se agarrou à vida, e nós nos agarramos um ao outro. Eu sigo agarrado, precariamente, à sua mão que não existe mais. À vida que não tivemos. Ao intervalo fugaz que chamamos de nosso - que eu, na verdade, chamo sozinho, pois você não chama mais nada, exceto em memórias fantasiadas.

Não há volta, nem há salvação. Cada vez mais sinto que é necessário pedalar, porque a cada leve desacelerada sinto a bicicleta bambeando e ameaçando tombar. Sinto muito sua falta, e às vezes te invejo. Às vezes já não sinto mais a aceitação resignada de minha impotência, mas verdadeiramente o conforto de você poder ter acabado com aquela ou essa dor infinita que não merece ser chamada de vida. 






segunda-feira, agosto 15, 2016

A nossa responsabilidade é grande

No rádio, numa noite triste,
ordinariamente triste na cidade
a mulher interrompe minha tristeza de mim mesmo
com sua voz no rádio ela falava
com seu jeito técnico e indiferente
e os especialistas se jorrando em números

da subnutrição dos guarani-kaiowáa
da fome das crianças
dos pais que não comem para alimentar os filhos,
da impossibilidade de cultivar
e da falta de renda para comprar
da marca cotidiana da fome
do suicídio, da vida roubada
tudo tinha o nome preciso, técnico, despersonalizante
de insegurança alimentar
tudo bem documentado
o frio assassinato de um povo

mas logo minhas lágrimas são deixadas como loucas
a rolar sozinhas, porque os guarani-kaiowaa já não existem
deixaram aquele rádio e a mente de seus ouvintes
morrendo de fome no distante Mato Grosso do Sul

agora a locutora fala sobre o grande jogo
o vôlei entre brasil e frança
que se o brasil perde é desclassificado
"a nossa responsabilidade é grande", diz a locutora
com o vôlei, a nossa responsabilidade é grande.

segunda-feira, agosto 08, 2016



Cheguei perto só uma vez, pelo canto dos teus olhos, tuas letras. Tão perto e tão distante; quis tocar tua vida, teus sonhos, tuas angústias, dúvidas, medos, porquês. Mas apenas senti tuas palavras, daqui de longe, de onde não consigo cheirar teu cabelo, tua pele.

De onde não dá pra ver a lágrima se acumulando, ardida e devagar, no canto do teu olho. Ali onde tremula, vacila, hesita, antes de escorrer num piscar.

O olhar que vejo é o teu, mas não é. É o meu olhar olhando para o teu, tentando seu o teu, ser teu. Como sempre é, em qualquer amor. São todos inventados, são todos verdadeiros.

E o meu é teu. O meu sentimento, pelo qual já passei por cima, volta, volta e volta. Procura o teu, um pouco desesperado, é verdade. Paro, respiro, é difícil conter nossas invenções. As invenções que faço das tuas palavras, que destilam, concentram, se tornam meus sonhos. E ardem.

Como faço para tocar não só essas palavras? O que passa por dentro, pelo lado, por trás delas. Como faço para entrar por essa porta, que nunca sei se está aberta, entreaberta, ou se só me provoca e me inquieta à distância? Quero teus desejos, os protegidos da vida comum, brincando com os meus. Mas quero teus dias, duros, problemas, suas lágrimas. Quero só te dar um abraço forte no fim do dia e dizer: "eu tô aqui". E você saber que é de verdade. Verdade como o seu olhar, pelo qual eu olho. E meu olhar, que é teu.

sexta-feira, julho 29, 2016

Sonhando

As noites são raras.
Raras noites em que podemos tocar as estrelas
em que nossa língua toca os sonhos
que guardamos
represados
no peito

em um copo e outro
passando em revista
as dúvidas
largando na sobriedade
uma timidez persistente
me perco sem mapa 
na constelação que sobe
de ponto a ponto, 
nas costas de um sonho

sonhando retorno, mergulho
adormecido, desperto
me entrego
afago
sem mais

nas palavras nos perdemos
mas nos corpos
esses que falam a língua do desejo
encontramos o desejo 
da palavra
do toque
de tanto
de tudo

às vezes é melhor falar a língua do corpo
às vezes, às vezes, ela sabe mais
dos desejos que a palavra não alcança
se minhas palavras são pouco
para dizer esse desejo
te peço então
me tome
todo



Há muitas coisas que queria te dizer, mas não sei como...


sexta-feira, julho 15, 2016

Ímpia trinta e cinco

Trinta e cinco anos
com sorte, você chega lá
sem ser espancada, esfaqueada
queimada, desmembrada
violada, despida, escarrada, excomungada
um cadáver inerte jogado no mato ou na sarjeta
suicida ou louca, negada mil vezes
pela Sacrossanta Família
pela desonra de ter enfrentado
o valor Sagrado
de que identidade, amor e sexo
são apenas dois nesse mundo

Dois, e não mais. Como quis a Natureza.

Bruxas ao fogo. Hereges.

Quando as pessoas ardiam em grandes fogueiras
para purificar seus pecados
de lavar as mãos
de escrever com a mão esquerda
de dizer que a terra é redonda

Ou que Deus não existe
e que não é sua sua sabedoria infinita
que nos guia, nos determina, 
nos dá e tira a vida e suas regras, os homens e mulheres.

Dois e não mais. Como quis Deus.

Não se chegava aos trinta cinco
nos bons tempos
em que se respeitava e louvava
as vontades de Deus, tão maiores que as nossas
que o nosso sujo sonho de liberdade

Sem higiene, sem bactérias, sem frescuras
a boa e pura vida das pessoas simples
e tementes a Deus
a boa e pura vida de quem trabalha de sol a sol na lavoura
e queima tudo aquilo que não entende

Quem precisa de mais do que trinta e cinco anos
de uma vida tão pura, tão boa, tão fiel a si mesma
e a seu Deus, que sabiamente guia, de sol a sol
e que tudo mais vá para o inferno
e assim vivemos

Trinta e cinco, e não mais. Como quiseram, Deus e sua Natureza.

Teu corpo é a afronta, invoca a fúria
de um tesão proibido, reprimido
aquilo que não se entende, se mata
o que questiona a natureza que a natureza nunca nos deu
as regras ditadas aos corpos, aos nossos, que não nos pertencem
que vendemos tão barato às igrejas, aos patrões, ao estado
à uma ilusão fugaz de felicidade
ou a uma dura necessidade de sobrevivência

Ao fogo, Herege.

pela ousadia de querer seu corpo teu.
de sonhar que nós somos aquilo que de nós fazemos
e não o que foi prescrito pela Lei ancestral, incorruptível, incontestável
que nos impõe o dízimo, o salário, a repressão e a resignação

Isso e não mais, tal como as coisas são.

Você, que é sem nome, abominável, não sabe?

Não se pode ser aquilo que ninguém é
que não se ousa dizer, tocar, olhar
um corpo que foge à Lei

O gosto proibido de sua carne será expiado das impurezas
o sangue reluzindo na suja lâmina
para que eles, purificados, se esqueçam
de que também, no fundo, desejam ser
tudo que não podem. Tudo que é impuro.

Tudo que é não mais como quis Deus e sua Natureza.

Naquele tempo de trevas,
se alcançava os trinta e cinco com sorte

Trinta e cinco e não mais, como quis Deus.

Em nosso tempo de trevas, quem comete o pecado de ser o outro
o outro da identidade, da sexualidade, da norma natural
ditada pelo seu Deus,
ditada pela sociabilização,
pelos fenômenos intransponíveis do Ser e do Mundo
alcança os trinta e cinco com sorte.

Trinta e cinco e não mais, como quis Deus. 

sábado, março 05, 2016

Quem mandou você ser homem?

Viver é estar imerso em contradição e conflito. Os conflitos que nossa sociedade capitalista pode nos trazer são bastante desagradáveis. E eles começam antes, bem antes da gente nascer. Quando vimos ao mundo, já temos um lugar assentado nele, um lugar no desejo de um outro: de nossos pais, do estado, das instituições e estatísticas. Já decidem por nós muitas coisas sobre as quais não temos direito de opinar, e pelas quais teremos que lutar para poder fazer delas escolhas nossas.

Uma delas é que quando chegamos já temos um lugar na divisão sexual do mundo: nossa história social determinou que as pessoas fossem divididas em dois gêneros – homem ou mulher. E, assim, encaixaram você em um deles. Como tudo que é ideológico nesse mundo, essa divisão se coloca sob uma cobertura de “eterno, natural, permanente, imutável”: uma coisa que nasceu assim, permanecerá assim e continuará assim depois que você morrer. E, bem, olhando pro mundo, cheio de homens e mulheres, parece bem difícil dizer que não seja assim.


A divisão biológica entre machos e fêmeas


Para se apresentar como algo “natural”, e não como o que é: uma construção cultural e histórica, a divisão entre gêneros (que se coloca como divisão entre “sexos”, e vamos discutir essa diferença) tem que se colocar como pautada por questões que transcendem nossa vontade e nossa intervenção: ela se dá no corpo, está marcada por forças além de nosso controle já no nascimento. Vamos ver como, em 1933, Sigmund Freud, pai da psicanálise, discute essa determinação corporal em uma palestra intitulada “feminilidade”:

Ao deparar com um outro ser humano, a primeira distinção que fazem é “macho ou fêmea”, e estão habituados a fazer essa distinção com tranquila certeza. A ciência da anatomia partilha a sua certeza até determinado ponto e não muito além dele. Macho é o produto sexual masculino, o espermatozoide, e seu portador; fêmea é o óvulo e o organismo que o abriga. Nos dois sexos formaram-se órgãos que servem exclusivamente às funções sexuais, que provavelmente se desenvolveram em suas configurações diversas a partir da mesma disposição inata. Além disso, em ambos os sexos os demais órgãos, as formas do corpo e os tecidos, mostram influência pelo sexo, mas esta é inconstante e de medida variável, os chamados caracteres sexuais secundários. E a ciência também lhes diz algo que vai de encontro à suas expectativas, e que talvez se preste a confundir seus sentimentos. Ela lhes chama a atenção para o fato de que algumas partes do aparelho sexual masculino se acham igualmente no corpo da fêmea, ainda que em estado atrofiado, e o mesmo acontece no macho. Nisso ela vê sinais de bissexualidade, como se o indivíduo não fosse homem ou mulher, mas sempre as duas coisas, apenas um tanto mais de uma que da outra. Vocês são convidados a familiarizar-se com a ideia de que a proporção em que masculino e feminino se misturam, no ser individual, está sujeita a consideráveis variações. Mas como, excetuando casos raríssimos, apenas um tipo de produto sexual – óvulo ou sêmen – se acha presente numa pessoa, vocês devem ter dúvidas quanto ao significado decisivo desses elementos e concluir que o que constitui a masculinidade ou feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não pode apreender.


Assim, Freud institui na psicanálise, a partir das descobertas da fisiologia, uma dúvida sobre esse elemento dado como certo: mesmo no plano do somático, do corpo físico, a fronteira entre macho e fêmea não é tão nítida quanto faz crer nossa cultura. Nas décadas posteriores a esse escrito freudiano a ciência avançou a ponto de mostrar que tal território entre a polaridade macho/fêmea era muito maior ainda do que podia se supor naquela época. O critério genético de distinção sexual, determinado pelo par de cromossomos XY para homens ou XX para mulheres foi colocado à prova pelas chamadas síndromes que traziam diferentes combinações cromossômicas, como a de Klinefelter (XXY), Turner (XO), Triplo X (XXX), La Chapele (XX macho), Swyer (XY fêmea) entre outras (XXYY, XXXY, XXXXY, XYY), demonstrando que tal critério carrega em si uma boa dose de normatividade arbitrária, ainda que tais condições genéticas sejam relativamente incomuns. Além destas condições genéticas, a medicina foi avançando em sua compreensão de outras condições fisiológicas que colocam em xeque os padrões considerados “normais” para delimitar homens e mulheres, como hiperplasia adrenal congênita, síndrome de insensibilidade aos andrógenos, deficiência de 5 alfa redutase, entre muitas outras (chegando a mais de 30) que podem dar características distintas à genitália, gônadas (glândulas produtoras de gametas – testículos ou ovários) ou a caracteres sexuais secundários, como voz, massa muscular, produção de pelos etc.

Antigamente, com um conhecimento médico ainda restrito, a condição de uma genitália ambígua era referida como hermafroditismo, termo ainda utilizado popularmente. Contudo, tal termo traz em si uma forte conotação pejorativa e uma carga de preconceitos e concepções equivocadas, e foi substituído tanto no jargão médico como entre as próprias pessoas pertencentes a esse segmento pelo termo intersexo ou DSD (Diferenças do Desenvolvimento Sexual). Entre as pessoas intersexo há quem hoje procure retomar o termo hermafrodita e ressignificá-lo, dando a ele um caráter distinto e mesmo como uma forma de combater o preconceito contra as pessoas intersexo, talvez de forma similar ao que se procura fazer com termos como "bicha", "viado" ou "sapatão". É difícil hoje estimar exatamente a frequência de pessoas intersexo na população, mesmo porque não há um consenso sobre quais condições fisiológicas são consideradas intersexo, já que muitas diferenças genéticas não apresentam diferenças no fenótipo (aparência externa) ou muitas condições de DSD se manifestam apenas na puberdade. Contudo, os dados que apontam para pessoas nascidas com uma genitália distinta da divisão padrão entre homem e mulher atestam um a cada 1500 ou 2000 nascimentos, o que mostra que não é uma condição tão rara quanto se costuma pensar. (Quem quiser saber um pouco mais pode ler aqui).

A primeira conclusão a que isso nos leva é que a divisão anatômica/fisiológica (ou seja, de “sexo”, tomando essa palavra como a parte biológica da divisão de gênero) para definir a binariedade homem/mulher é um mito. Pode-se dizer que a frequência de pessoas intersexo é muito baixa para ser considerada mais do que uma exceção, mas a realidade não é essa. Uma pessoa em cada 1500 não se encaixa sequer nos critérios biológicos de homem/mulher, e ignorar esse fato é uma violência contra essas pessoas. O que nos leva à segunda questão: a binariedade leva a mutilações físicas e danos psicológicos profundos cometidos contra as pessoas intersexo. Ainda hoje, o procedimento médico padrão é o de uma intervenção cirúrgica e hormonal em estágio extremamente precoce e de forma totalmente não consentida sobre essas pessoas (pois, afinal, como um bebê vai ter qualquer consentimento), nos quais médicos e pais “decidem” o sexo, e portanto o gênero, no qual essa criança será forçosamente recebida e enquadrada no mundo. A questão é que justamente por não haver nenhuma opção reconhecida em nossa sociedade por fora da binariedade homem/mulher, se afirma que o “menos traumático” para a criança intersexo é de ser sociabilizada de acordo com um gênero decidido à sua revelia, e que pode não ser condizente com a identidade de gênero que essa criança irá assumir posteriormente. E se cria um espectro de medo e vergonha para essa criança em relação à sua condição intersexo, que, se revelada aos amigos, professores, etc. poderia levar ao preconceito e estigmatização. Se ignora que a violência cometida por esses pais e médicos é a de impôr um corpo e um padrão a essa criança, e isso é induzido pela ideologia da binariedade de gênero.


O gênero para além do biológico


Ao falar das pessoas intersexo discutimos como o dado fisiológico é insuficiente para determinar o que são homens e mulheres, mas também pudemos ver que há algo que está além do biológico e que é tão imperativo em nossa sociedade que faz com que médicos e pais façam intervenções cirúrgicas e hormonais nas crianças para se adequar a esses padrões. Ou seja, em nossa sociedade somos obrigados a ser homens ou mulheres. Há apenas duas opções, e é a isso que chamamos binariedade. O que queremos apontar é que se chamamos de sexo essa característica fisiológica, o gênero (homem ou mulher, masculino ou feminino) está além disso, e envolve um lugar social em que a pessoa deve se inserir. Para iniciar essa discussão, voltemos à palestra de Freud, em 1933, quando ele passa do biológico ao psicológico na tentativa de questionar a feminilidade:

Estamos habituados a empregar “masculino” e “feminino” também como atributos psíquicos, e, da mesma forma, transpusemos a noção de bissexualidade para a vida psíquica. Dizemos, então, que uma pessoa, seja homem ou mulher, comporta-se de maneira masculina num ponto, e feminina em outro. Mas logo vocês verão que isso apenas significa ceder à anatomia e à convenção. Não podem dar nenhum conteúdo novo aos conceitos “masculino” e “feminino”. A distinção não é psicológica; quando falam em “masculino”, normalmente querem dizer “ativo”, e quando falam em “feminino”, “passivo”. É certo que existe essa relação. [em seguida Freud fala de analogias ao papel “ativo/passivo” de espermatozoides e óvulos, do ato sexual ou de espécies animais, analogias que constesta e que nos parecem tão inférteis que não as transcreveremos] Mesmo no âmbito da vida sexual humana vocês logo percebem como é insatisfatório identificar a conduta masculina com a atividade e a feminina com a passividade. Em todo sentido a mãe é ativa em relação ao filho, mesmo do ato de mamar podemos dizer tanto que ela dá de mamar à criança como que deixa a criança mamar. Quanto mais nos afastarmos do estrito âmbito sexual, mais nítido ficará esse “erro de superposição”

Assim, Freud conclui que é arbitrário atribuir às mulheres características como passividade e docilidade e atividade e agressividade aos homens como um dado inerente de sua psicologia. Também a filósofa Simone de Beauvoir, em seu profundo tratado “O Segundo Sexo”, se pergunta sobre o que determina o feminino e como foi que, em algum momento da história, o homem se impôs como dominador e instituiu o patriarcado. Procurando seus fundamentos na filosofia existencialista, ela vê em tempos primordiais a divisão do trabalho entre a manutenção da prole e a coleta para mulheres, e a caça para os homens; sendo esta mais exigente em termos de transcendência, já que o homem precisa de instrumentos, ferramentas, inventividade para poder sobrepujar obstáculos naturais, ela vê nisso um sentido onde a Existência transcende a Vida, e nisso um significado que o homem pode atribuir a si mesmo e a mulher não, já que sua função entregue à espécie a prendia excessivamente à prole. Ainda que excessivamente idealista, a meu ver, a explicação de Simone conflui com o questionamento de Freud no fundamental, e também com a concepção materialista e dialética: não há uma essência masculina ou feminina, seja essa fisiológica ou psíquica – as diferenças que instituímos aos papéis de gênero são criações culturais e históricas, fruto das circunstâncias.


A natureza, a técnica, o gênero


Há na relação entre cultura, história e natureza uma questão fundamental que o marxismo propõe: a forma como o ser humano produz e reproduz sua vida é essencial para sua própria percepção do mundo. Desde as concepções anímicas, que atribuíam a deuses representados pelas forças da natureza os eventos naturais, e que foram deixando de prevalecer conforma se aprofundava nossa compreensão de como operam as forças naturais para criar tais eventos, nós mudamos muito nossa concepção de mundo. É verdade que em determinado momento histórico a divisão sexual do trabalho correspondeu a uma necessidade: a maior força física que em geral os homens possuíam os tornavam mais aptos à caça e a proteção; a capacidade de gestar e amamentar das mulheres as tornavam mais aptas a cuidar da prole e das tarefas correlatas. Mas hoje não caçamos, nem dependemos da força física para sobreviver. Não é necessário, do ponto de vista físico, um desgaste tão grande do corpo feminino para o parto ou o cuidado com as crianças; claro que ainda existe essa questão, mas o nível de socialização que podemos ter para todo tipo de tarefas que ainda hoje são atribuídas socialmente às mulheres supera em muito a visão ideológica estreita que perdura para os papéis de gênero.

Assim, conforme avança nosso domínio sobre as forças naturais e nossas técnicas de produção e reprodução da vida, torna-se cada vez mais nítido que a manutenção de papéis estritos para homens e mulheres, para o patriarcado, as diferenças salariais, os papéis no casamento, na aproximação sexual, no trabalho, no cuidado com os filhos, na vida afetiva, enfim, em tudo, é muito mais uma questão fundamental para a manutenção de nossa sociedade de exploração e miséria do que uma necessidade material em que é fundamental uma divisão do trabalho entre os sexos.

O mesmo podemos pensar em relação às características de nosso corpo. O desenvolvimento da medicina e da biologia tornam nosso controle sobre o próprio corpo muito mais preciso. Hoje é possível para uma pessoa trans - pelo menos do ponto de vista da técnica, pois o acesso a isso é uma questão política ainda muito mais atrasada - realizar intervenções em seu corpo para que esteja de acordo com sua identidade de gênero: cirurgias e TH (Terapia Hormonal) são apenas as mais conhecidas dessas intervenções. Hoje em dia estamos próximos inclusive da possibilidade da implantação de ovários e útero em mulheres trans.


A luta por liberdade dessas amarras


Não se reconhecer no gênero que lhe foi atribuído no seu nascimento, ou seja, ser uma pessoa trans, se configura como uma afronta às necessidades do status quo de manutenção dessa divisão estrita entre os papéis de gênero. Sexualidade (ser hetero, homo, bi, pan ou assexual) e gênero, ainda que sejam questões com muitas particularidades e distinções fundamentais, se permeiam enormemente nesse momento, pois o ódio e intolerância que ambas suscitam é justamente o de subverter essas regras estabelecidas a ferro e a fogo em nossa sociedade sobre como entendemos nossa identidade e nosso comportamento. As resistências para questionarmos os papéis de sexualidade e gênero são imensas: não à toa que o mesmo Freud que fez os questionamentos que colocamos acima estabelecia o feminino como “o continente obscuro” da psicanálise e permanecia, tanto em sua vida privada como na maior parte de suas concepções teóricas, como um perfeito patriarca misógino representante de seu gênero e sua classe social. Mesmo Simone de Bauvoir, que como mulher tinha muito menos interesses na manutenção desses papéis e chegou mesmo a desafiar padrões tão arraigados como o casamento monogâmico, não pôde escapar de reproduzir em suas relações amorosas muitos desses padrões sociais. Isso, longe de evidenciar uma mera “hipocrisia” de questionadores como Freud ou Beauvoir, explicita um fato fundamental que nunca podemos perder de vista: ninguém pode ser livre sozinho. A ideia da liberdade individual é uma das mais “marteladas” em nossa cabeça nessa sociedade capitalista e liberal, e ela é um engodo feito para melhor nos dominar.

Assim como a ideia de liberdade individual, as amarras da sexualidade heteronormativa, do patriarcado, da binariedade de gênero, são enfiadas goela abaixo das crianças desde a gestação. A família, a escola, a igreja e o estado são fábricas de neurose, porque enterram nossos desejos subjetivos sob uma espessa camada de proibições e normas sociais. As teorias procuram justificá-las de formas absurdas, como quando Freud assenta sua teoria (para justificar seus próprios privilégios, ainda que de forma inconsciente) sobre a ideia de que a repressão sexual é a base da cultura e da civilização. A ciência e o conhecimento, que também para atingir melhor seus fins ideológicos querem se apresentar como "supraideológicos" ou "neutros" (coisa que não existe), sempre se prestaram ao papel de legitimar os papéis sociais, e isso não é uma exclusividade de Freud. O conceito de loucura, por exemplo, sempre serviu em maior ou menor grau como uma forma de controle social e político - em alguns momentos de forma muitíssimo explícita como na URSS stalinista ou nos EUA dos anos 1960. A própria psicanálise, ao lado da psiquiatria, tristemente continuam a cumprir papel semelhante em relação à transexualidade, classificando-a como uma doença, seja sob o rótulo de transexualismo, disforia de gênero, psicose ou qualquer outro termo ou conceito que seja, assim como haviam feito antes em relação à homossexualidade. Claro que, sejamos justos, nem todos os profissionais dessas áreas cumprem esse papel, e, aliás, são aliados de suma importância aqueles que combatem essa visão hegemônica. Também cabe a nós não sermos maniqueístas em nossas avaliações, e sabermos por onde reivindicar e onde combater cada discussão e concepção que se apresente, como é o caso de Freud, que em tantos aspectos ajudou a discussão sobre a sexualidade a dar passos colossais em relação ao pensamento hegemônico de sua época, apesar de suas noções conservadoras em outros aspectos.

Conforme vislumbramos que as coisas não foram sempre assim, nem precisam ser, a luta por liberdade se torna mais acirrada, mais sangrenta e mais explícita. Sempre existiram pessoas intersexo, homossexuais, lésbicas, trans, bissexuais. Mas às vezes as grades eram tão firmes e bem construídas que eles sequer as viam, ou se viam não conseguiam enfrentar seu poder de contenção. Era uma luta surda que se desenvolvia de forma solitária e quase sempre invisível socialmente. Mas nem por isso menos mortal. Quantos morreram com sua sexualidade guardada, ou se manifestando de forma clandestina? Quantos assassinatos e suicídios estão nessa conta? Quantos procuraram em vão entender o que acontecia consigo, mas sem poder se enxergar em qualquer lugar de suas sociedades apenas amargaram uma dor impossível de se manifestar como luta social. Quando olhamos para o lado e enxergamos semelhantes, isso nos fortalece. Mas conforme saímos dos armários, a violenta reação neurótica de uma sociedade explode contra nós. 

Um exemplo disso é a triste estatística de que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo; e a estatística complementar feita pelo site pornográfico RedTube de que é o país que mais procura por vídeos pornográficos de travestis. A contradição aqui é apenas aparente: o desejo sexual reprimido sob a forma da binariedade e da heteronormatividade alimenta uma neurose que explode como violência, um sintoma social: matar o outro é uma forma de tentar matar em si mesmo o desejo proibido. Esse desejo pode se expressar apenas na clandestinidade da pornografia, na solidão jamais confessa de assistir os outros fazendo aquilo que você gostaria mais não pode. A liberdade de uma travesti que anda na rua expressando aquilo que é e deseja ser, pisoteando a clausura apertada da binariedade, é o que provoca a ira de um transfóbico. A fobia é o medo, e o medo se expressa como ódio. Ódio de quem é aquilo que você não ousa ser; medo de quem desafia os padrões aos quais você se apega com tanto afinco. Padrões que são muito mais frágeis do que parecem, e por isso mesmo precisam ser defendidos com tanto ódio e violência, pois podem cair por terra a qualquer momento. As histórias que mostram esse desejo recalcado estão a todo momento aparecendo diante de nós: ex-pastores que pregavam a “cura gay” de repente casam-se com um homem; ou dois presos americanos, condenados por assassinatos homofóbicos, e que recentemente tornaram-se o primeiro casal a oficializar um matrimônio gay no sistema penitenciário americano.


Queimando o armário



Escrever esse texto é, para mim, parte de entender essas prisões e lutar contra elas. Mas não como espectador, e sim como alguém que está se debatendo e tentando se livrar de grilhões. Como disse em outro texto, desde pequeno não me identifiquei jamais com o papel de gênero que me foi atribuído. Não me sinto homem, pelo menos em uns 70% do que esperam de mim como homem. Contudo, em uma sociedade como a nossa, não é somente a esse tipo de comportamento que não me adequo. Não desejo nenhum desses comportamentos. Nem me sinto como uma mulher, apesar de sempre ter, de forma mais ou menos explícita, me identificado mais com diversas questões do papel feminino do que do masculino. Mas esse último período me fez refletir sobre uma concepção de transgeneridade que estava muito arraigada em mim: a de que ela surge como algo “natural”, no sentido de que é um afeto, um desejo, um impulso incontrolável, e não algo que é também parte de uma construção consciente. Alguém designado como homem socialmente simplesmente sente que não é, e torna isso uma afirmação diante do mundo; e vice-versa. E na verdade muitas vezes as coisas acontecem assim, basta olharmos para as crianças trans, que antes de conseguirem escrever ou compreender ideias abstratas já têm perfeita compreensão de seu gênero, contrário àquele que lhe foi atribuído no nascimento. Mas isso não quer dizer que as coisas ocorrem sempre assim: as subjetividades caminham por formas muito diversas.

A pergunta que muitos têm me feito nesse período de investigação, eu também me fiz diversas vezes: não é muito “racional” esse seu questionamento? Sim, ele é. Mas nem por isso eu me sinto menos bonitx ou confortável quanto estou de vestido, maquiagem, unhas pintadas. Nem por isso me sinto menos à vontade ou identificado perto de mulheres do que de homens, e há muitos anos todas minhas amigas íntimas são mulheres. Me sinto preso, desconfortável, insultado até em situações masculinas, e me desinteresso profundamente por assuntos e comportamentos masculinos (como também por muitos femininos). O meu questionamento não poderia deixar de ser racional, como todos são. Temos ainda um vício, profundamente cartesiano e positivista, de separar as coisas em racionais e emocionais. Isso é uma merda. 

Eu sempre me senti desconfortável e com ódio desse mundo; foi só um questionamento racional, uma investigação teórica além de um comprometimento militante e afetivo, que me fez entender que esse ódio tinha muito mais vigor, sentido, profundidade quando recebeu o nome e a forma de comunismo, de marxismo. Penso em meu desconforto com meu papel de gênero de maneira análoga: sempre me incomodou profundamente; e pela primeira vez sinto encontrar algo que se encaixa como uma luva nesse desconforto, que dá nome e sentido a isso. É esse o lugar da transexualidade não-binária em minha subjetividade: estou me encontrando ao não me identificar como homem, nem como mulher. Sei que há algo de abstrato nisso, na medida em que as pessoas – pelo menos do jeito que minha aparência física é hoje – continuarão a me identificar como homem. Ler esse texto me ajudou bastante a pensar sobre isso, assim como conversar com pessoas maravilhosas não-binárias que conheci. E sei que serei, como já fui, hostilizado até mesmo por pessoas LGBT que, apesar de lutarem por liberdade, muitas vezes continuam, como todos nós, apegadas às suas caixinhas, às prisões nas quais encontram segurança para afirmar sua identidade. Bom, mas é isso que quis dizer quando afirmei que ninguém se torna livre sozinho; as jaulas do gênero vão continuar me perseguindo, como continuam com cada pessoa trans e mesmo com as cis desse mundo (esse texto fala bem sobre isso). Procuro o caminho para a liberdade em uma luta contínua, que é subjetiva, e política, e ao lado de pessoas que aprendo cada dia mais a amar, respeitar e admirar profundamente. Ser tratado como louco é algo a que já me habituei; e todos aqueles que buscam por liberdade em um mundo feito de jaulas devem aprender que não há outro caminho.