quarta-feira, julho 12, 2017

Não chego

A tocar, a sentir

Um raio tênue que seja, de luz ou calor

A dissipar esse inverno, essa dor

Que estira meus músculos. Tesos, cansados

A fatiga de gritar contra o vento, a nevasca

Entra gélida pela minha garganta, corta minha voz, meus pedidos

Que jamais foram ouvidos. Teus ouvidos surdos, incapazes de saber

Que onde há uma voz que grita por teu nome, há também um clamor de vida

Uma busca incessante por regurgitar todo esse ódio do mundo, essa grossa e espessa baba

Que nos cobre de nojo, de ódio, de tédio e indiferença. Toda essa merda que você permitiu que tomasse seu coração, que tomasse seu cérebro e te fizesse uma imbecil como tudo aquilo que você jurou combater.

Olho nos teus olhos, pela minha memória, e já não mais te vejo. Alguma vez te conheci, ou você sempre esteve enfiada nessa montanha de lixo que a gente é obrigado a chamar de vida, mesmo sabendo que não é, mesmo sabendo que é a morte que se arrasta por nós, que se arrasta incessantemente pelos anos sofridos que comem e roem cada fio de esperança.

Você já soube alguma vez que no teu espelho se reflete esse monstro? Esse, que você vê lá fora e em mim, mas que nunca, jamais viu que está em você, que está em tudo que toca, que cheira, que sente.

Em tudo que pulsa e que há de morrer. Não, ninguém está impune. Nem eu nem você.

A diferença é que minha morte, minha dor, eu aprendi a dividir, a sentir com o outro, a aplacar meus julgamentos que já há muito tempo não considero impenetráveis, irredutíveis, irrefreáveis.

É essa vulnerabilidade e a consciência dessa dor, da imensa falibilidade de nossos sentidos, de nosso julgamento e de nossas tentativas. É a possibilidade de dividir isso com outras criaturas falhas e imperfeitas, sem ser dominado pelo ódio e pela alteridade impenetrável. É essa, essa pequena brecha de nossa solidão tão abrangente e que a tudo cobre, é o que chamamos de amor.

E foi apenas isso que quis te ofertar. Mas a porta estava fechada, e sempre estará.

quinta-feira, abril 06, 2017

Há cinco anos de sua morte, mais uma carta para ninguém



Em três dias serão cinco anos, e venho aqui para escrever como se você fosse ler. Você não vai.

Faz tempo, muito tempo que não falo sobre essa ferida. Eu falo, mas não falo. Não assim. Sobre esse presente eterno, que com tanta frequência me faz sentir como se não houvesse passado um dia sequer. Ultimamente, parece que o tempo volta, volta mais pra perto. Porque tudo tem sido tão difícil, tão áspero.

Era mais fácil transformar a dor em ódio, o ódio em luta. O seu caminho me vem, cada vez mais palpável, mais verossímil, mais meu, como quando eu era menor. Só que com o duro realismo do adulto. 

Mais algumas pessoas amadas e conhecidas seguiram por ele nesses anos. Eduardo Rosa e Márcia Mello foram os mais próximos. Pessoas incríveis que um mundo assim, tal como ele é, verdadeiramente nunca mereceu; como a você.

Outros amados tentaram, uma delas em uma triste lembrança do aniversário de sua ida; mas escaparam, escaparam dessa vez como você escapou de tantas. Por quanto tempo? Nunca deixo de pensar nessa breve janela em que te conheci. Por um triz, desde que você escapou da penúltima vez. Como poderia ter escapado da última...

Um dirigente revolucionário, mais um camarada, também tomou esse caminho. Um duro golpe nas mentiras auto-complacentes de quem ainda acha que há "imunidade revolucionária"para a crueza do mundo.

Conheci outras companhias, mentoras, ombros decisivos nas horas vagas que, décadas antes, haviam partido também. Sylvia Plath e Ana Cristina César foram meus amores, com suas vidas, mortes e dores. Ironicamente, as duas bem perto da minha idade. Mais perto da minha do que da sua, que hoje está eternizadamente jovem, tal como elas.

Também o filho de um camarada tão bom, tão forte e determinado, partiu, em mais um triste lembrete de nossa impotência para salvarmos uns aos outros, por melhores que sejamos.

E, há dias, mais uma, a mais jovem, uma garota que também buscava mudar o mundo; o mundo a venceu, e com isso, mais uma vez, venceu a todos nós. Hoje foi enterrada, e eu que nunca a conheci penso nela lembrando de você e de todas essas dores.

As pequenas coisas ainda não se apagaram, e as decisões que pareciam pequenas, mas que poderiam ser decisivas para vencer mais uma batalha (por quanto tempo nunca se sabe) se tornam por vezes fantasmas imensos, muito maiores do que eram há alguns anos. Eles me acompanham dia a dia. As coisas que não fiz, as palavras que não disse são um tormento que carrego.

Seu pai, que carregou certamente muitos fantasmas, não quis ou não pode (se há diferença) ficar muito tempo depois que você partiu.

E também quem mais me ouviu e lutou comigo contra os meus martírios, tantas vezes invisíveis para todos, também partiu, me deixando uma vez mais órfão de amparos nesse mundo frio.

Alegrias e esperanças se corroeram, não resistiram à inclemente prova do tempo. Tudo se desmancha, deixando seu amargo. Sua solidão. A triste constatação da efemeridade de tudo que tive com sua morte parece cada vez mais ser a sensação mais sólida e confiável na vida. Pessoas somem, sem deixar rastros, exceto as dores da partida que carregamos em memórias solitárias. Com o coração calejado pela sua perda eterna e repetida, tomo esses acréscimos de dor com cada vez mais cinismo e resignação.

Eu sigo mancando, talvez mais do que nunca. Se luto, mais e com mais força que antes, é uma luta desesperada, como jamais foi. Sem gradil, sem cordão de segurança, quase de olhos vendados, esmurro o mundo que me esmaga, ando nessa corda bamba. Jogo para o alto tudo que me segura, e sigo em frente. Não paro, não vou parar. Por você eu não paro, e por todos esses que perdemos e perderemos na luta. Há cinco anos, sigo com a ferida aberta, e abrindo-se, e digo a mim mesmo que não é preciso saber se é possível vencer para lutar. O corpo, a cada dia, um campo de batalha mais e mais difícil de se enfrentar.

Eu não segurei sua mão como devia, e ninguém segura nada como deve. Fazemos as coisas como podemos, e sempre podemos mal e precariamente. Precariamente, como você se agarrou à vida, e nós nos agarramos um ao outro. Eu sigo agarrado, precariamente, à sua mão que não existe mais. À vida que não tivemos. Ao intervalo fugaz que chamamos de nosso - que eu, na verdade, chamo sozinho, pois você não chama mais nada, exceto em memórias fantasiadas.

Não há volta, nem há salvação. Cada vez mais sinto que é necessário pedalar, porque a cada leve desacelerada sinto a bicicleta bambeando e ameaçando tombar. Sinto muito sua falta, e às vezes te invejo. Às vezes já não sinto mais a aceitação resignada de minha impotência, mas verdadeiramente o conforto de você poder ter acabado com aquela ou essa dor infinita que não merece ser chamada de vida. 






segunda-feira, agosto 15, 2016

A nossa responsabilidade é grande

No rádio, numa noite triste,
ordinariamente triste na cidade
a mulher interrompe minha tristeza de mim mesmo
com sua voz no rádio ela falava
com seu jeito técnico e indiferente
e os especialistas se jorrando em números

da subnutrição dos guarani-kaiowáa
da fome das crianças
dos pais que não comem para alimentar os filhos,
da impossibilidade de cultivar
e da falta de renda para comprar
da marca cotidiana da fome
do suicídio, da vida roubada
tudo tinha o nome preciso, técnico, despersonalizante
de insegurança alimentar
tudo bem documentado
o frio assassinato de um povo

mas logo minhas lágrimas são deixadas como loucas
a rolar sozinhas, porque os guarani-kaiowaa já não existem
deixaram aquele rádio e a mente de seus ouvintes
morrendo de fome no distante Mato Grosso do Sul

agora a locutora fala sobre o grande jogo
o vôlei entre brasil e frança
que se o brasil perde é desclassificado
"a nossa responsabilidade é grande", diz a locutora
com o vôlei, a nossa responsabilidade é grande.

segunda-feira, agosto 08, 2016



Cheguei perto só uma vez, pelo canto dos teus olhos, tuas letras. Tão perto e tão distante; quis tocar tua vida, teus sonhos, tuas angústias, dúvidas, medos, porquês. Mas apenas senti tuas palavras, daqui de longe, de onde não consigo cheirar teu cabelo, tua pele.

De onde não dá pra ver a lágrima se acumulando, ardida e devagar, no canto do teu olho. Ali onde tremula, vacila, hesita, antes de escorrer num piscar.

O olhar que vejo é o teu, mas não é. É o meu olhar olhando para o teu, tentando seu o teu, ser teu. Como sempre é, em qualquer amor. São todos inventados, são todos verdadeiros.

E o meu é teu. O meu sentimento, pelo qual já passei por cima, volta, volta e volta. Procura o teu, um pouco desesperado, é verdade. Paro, respiro, é difícil conter nossas invenções. As invenções que faço das tuas palavras, que destilam, concentram, se tornam meus sonhos. E ardem.

Como faço para tocar não só essas palavras? O que passa por dentro, pelo lado, por trás delas. Como faço para entrar por essa porta, que nunca sei se está aberta, entreaberta, ou se só me provoca e me inquieta à distância? Quero teus desejos, os protegidos da vida comum, brincando com os meus. Mas quero teus dias, duros, problemas, suas lágrimas. Quero só te dar um abraço forte no fim do dia e dizer: "eu tô aqui". E você saber que é de verdade. Verdade como o seu olhar, pelo qual eu olho. E meu olhar, que é teu.

sexta-feira, julho 29, 2016

Sonhando

As noites são raras.
Raras noites em que podemos tocar as estrelas
em que nossa língua toca os sonhos
que guardamos
represados
no peito

em um copo e outro
passando em revista
as dúvidas
largando na sobriedade
uma timidez persistente
me perco sem mapa 
na constelação que sobe
de ponto a ponto, 
nas costas de um sonho

sonhando retorno, mergulho
adormecido, desperto
me entrego
afago
sem mais

nas palavras nos perdemos
mas nos corpos
esses que falam a língua do desejo
encontramos o desejo 
da palavra
do toque
de tanto
de tudo

às vezes é melhor falar a língua do corpo
às vezes, às vezes, ela sabe mais
dos desejos que a palavra não alcança
se minhas palavras são pouco
para dizer esse desejo
te peço então
me tome
todo



Há muitas coisas que queria te dizer, mas não sei como...


sexta-feira, julho 15, 2016

Ímpia trinta e cinco

Trinta e cinco anos
com sorte, você chega lá
sem ser espancada, esfaqueada
queimada, desmembrada
violada, despida, escarrada, excomungada
um cadáver inerte jogado no mato ou na sarjeta
suicida ou louca, negada mil vezes
pela Sacrossanta Família
pela desonra de ter enfrentado
o valor Sagrado
de que identidade, amor e sexo
são apenas dois nesse mundo

Dois, e não mais. Como quis a Natureza.

Bruxas ao fogo. Hereges.

Quando as pessoas ardiam em grandes fogueiras
para purificar seus pecados
de lavar as mãos
de escrever com a mão esquerda
de dizer que a terra é redonda

Ou que Deus não existe
e que não é sua sua sabedoria infinita
que nos guia, nos determina, 
nos dá e tira a vida e suas regras, os homens e mulheres.

Dois e não mais. Como quis Deus.

Não se chegava aos trinta cinco
nos bons tempos
em que se respeitava e louvava
as vontades de Deus, tão maiores que as nossas
que o nosso sujo sonho de liberdade

Sem higiene, sem bactérias, sem frescuras
a boa e pura vida das pessoas simples
e tementes a Deus
a boa e pura vida de quem trabalha de sol a sol na lavoura
e queima tudo aquilo que não entende

Quem precisa de mais do que trinta e cinco anos
de uma vida tão pura, tão boa, tão fiel a si mesma
e a seu Deus, que sabiamente guia, de sol a sol
e que tudo mais vá para o inferno
e assim vivemos

Trinta e cinco, e não mais. Como quiseram, Deus e sua Natureza.

Teu corpo é a afronta, invoca a fúria
de um tesão proibido, reprimido
aquilo que não se entende, se mata
o que questiona a natureza que a natureza nunca nos deu
as regras ditadas aos corpos, aos nossos, que não nos pertencem
que vendemos tão barato às igrejas, aos patrões, ao estado
à uma ilusão fugaz de felicidade
ou a uma dura necessidade de sobrevivência

Ao fogo, Herege.

pela ousadia de querer seu corpo teu.
de sonhar que nós somos aquilo que de nós fazemos
e não o que foi prescrito pela Lei ancestral, incorruptível, incontestável
que nos impõe o dízimo, o salário, a repressão e a resignação

Isso e não mais, tal como as coisas são.

Você, que é sem nome, abominável, não sabe?

Não se pode ser aquilo que ninguém é
que não se ousa dizer, tocar, olhar
um corpo que foge à Lei

O gosto proibido de sua carne será expiado das impurezas
o sangue reluzindo na suja lâmina
para que eles, purificados, se esqueçam
de que também, no fundo, desejam ser
tudo que não podem. Tudo que é impuro.

Tudo que é não mais como quis Deus e sua Natureza.

Naquele tempo de trevas,
se alcançava os trinta e cinco com sorte

Trinta e cinco e não mais, como quis Deus.

Em nosso tempo de trevas, quem comete o pecado de ser o outro
o outro da identidade, da sexualidade, da norma natural
ditada pelo seu Deus,
ditada pela sociabilização,
pelos fenômenos intransponíveis do Ser e do Mundo
alcança os trinta e cinco com sorte.

Trinta e cinco e não mais, como quis Deus. 

sábado, março 05, 2016

Quem mandou você ser homem?

Viver é estar imerso em contradição e conflito. Os conflitos que nossa sociedade capitalista pode nos trazer são bastante desagradáveis. E eles começam antes, bem antes da gente nascer. Quando vimos ao mundo, já temos um lugar assentado nele, um lugar no desejo de um outro: de nossos pais, do estado, das instituições e estatísticas. Já decidem por nós muitas coisas sobre as quais não temos direito de opinar, e pelas quais teremos que lutar para poder fazer delas escolhas nossas.

Uma delas é que quando chegamos já temos um lugar na divisão sexual do mundo: nossa história social determinou que as pessoas fossem divididas em dois gêneros – homem ou mulher. E, assim, encaixaram você em um deles. Como tudo que é ideológico nesse mundo, essa divisão se coloca sob uma cobertura de “eterno, natural, permanente, imutável”: uma coisa que nasceu assim, permanecerá assim e continuará assim depois que você morrer. E, bem, olhando pro mundo, cheio de homens e mulheres, parece bem difícil dizer que não seja assim.


A divisão biológica entre machos e fêmeas


Para se apresentar como algo “natural”, e não como o que é: uma construção cultural e histórica, a divisão entre gêneros (que se coloca como divisão entre “sexos”, e vamos discutir essa diferença) tem que se colocar como pautada por questões que transcendem nossa vontade e nossa intervenção: ela se dá no corpo, está marcada por forças além de nosso controle já no nascimento. Vamos ver como, em 1933, Sigmund Freud, pai da psicanálise, discute essa determinação corporal em uma palestra intitulada “feminilidade”:

Ao deparar com um outro ser humano, a primeira distinção que fazem é “macho ou fêmea”, e estão habituados a fazer essa distinção com tranquila certeza. A ciência da anatomia partilha a sua certeza até determinado ponto e não muito além dele. Macho é o produto sexual masculino, o espermatozoide, e seu portador; fêmea é o óvulo e o organismo que o abriga. Nos dois sexos formaram-se órgãos que servem exclusivamente às funções sexuais, que provavelmente se desenvolveram em suas configurações diversas a partir da mesma disposição inata. Além disso, em ambos os sexos os demais órgãos, as formas do corpo e os tecidos, mostram influência pelo sexo, mas esta é inconstante e de medida variável, os chamados caracteres sexuais secundários. E a ciência também lhes diz algo que vai de encontro à suas expectativas, e que talvez se preste a confundir seus sentimentos. Ela lhes chama a atenção para o fato de que algumas partes do aparelho sexual masculino se acham igualmente no corpo da fêmea, ainda que em estado atrofiado, e o mesmo acontece no macho. Nisso ela vê sinais de bissexualidade, como se o indivíduo não fosse homem ou mulher, mas sempre as duas coisas, apenas um tanto mais de uma que da outra. Vocês são convidados a familiarizar-se com a ideia de que a proporção em que masculino e feminino se misturam, no ser individual, está sujeita a consideráveis variações. Mas como, excetuando casos raríssimos, apenas um tipo de produto sexual – óvulo ou sêmen – se acha presente numa pessoa, vocês devem ter dúvidas quanto ao significado decisivo desses elementos e concluir que o que constitui a masculinidade ou feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não pode apreender.


Assim, Freud institui na psicanálise, a partir das descobertas da fisiologia, uma dúvida sobre esse elemento dado como certo: mesmo no plano do somático, do corpo físico, a fronteira entre macho e fêmea não é tão nítida quanto faz crer nossa cultura. Nas décadas posteriores a esse escrito freudiano a ciência avançou a ponto de mostrar que tal território entre a polaridade macho/fêmea era muito maior ainda do que podia se supor naquela época. O critério genético de distinção sexual, determinado pelo par de cromossomos XY para homens ou XX para mulheres foi colocado à prova pelas chamadas síndromes que traziam diferentes combinações cromossômicas, como a de Klinefelter (XXY), Turner (XO), Triplo X (XXX), La Chapele (XX macho), Swyer (XY fêmea) entre outras (XXYY, XXXY, XXXXY, XYY), demonstrando que tal critério carrega em si uma boa dose de normatividade arbitrária, ainda que tais condições genéticas sejam relativamente incomuns. Além destas condições genéticas, a medicina foi avançando em sua compreensão de outras condições fisiológicas que colocam em xeque os padrões considerados “normais” para delimitar homens e mulheres, como hiperplasia adrenal congênita, síndrome de insensibilidade aos andrógenos, deficiência de 5 alfa redutase, entre muitas outras (chegando a mais de 30) que podem dar características distintas à genitália, gônadas (glândulas produtoras de gametas – testículos ou ovários) ou a caracteres sexuais secundários, como voz, massa muscular, produção de pelos etc.

Antigamente, com um conhecimento médico ainda restrito, a condição de uma genitália ambígua era referida como hermafroditismo, termo ainda utilizado popularmente. Contudo, tal termo traz em si uma forte conotação pejorativa e uma carga de preconceitos e concepções equivocadas, e foi substituído tanto no jargão médico como entre as próprias pessoas pertencentes a esse segmento pelo termo intersexo ou DSD (Diferenças do Desenvolvimento Sexual). Entre as pessoas intersexo há quem hoje procure retomar o termo hermafrodita e ressignificá-lo, dando a ele um caráter distinto e mesmo como uma forma de combater o preconceito contra as pessoas intersexo, talvez de forma similar ao que se procura fazer com termos como "bicha", "viado" ou "sapatão". É difícil hoje estimar exatamente a frequência de pessoas intersexo na população, mesmo porque não há um consenso sobre quais condições fisiológicas são consideradas intersexo, já que muitas diferenças genéticas não apresentam diferenças no fenótipo (aparência externa) ou muitas condições de DSD se manifestam apenas na puberdade. Contudo, os dados que apontam para pessoas nascidas com uma genitália distinta da divisão padrão entre homem e mulher atestam um a cada 1500 ou 2000 nascimentos, o que mostra que não é uma condição tão rara quanto se costuma pensar. (Quem quiser saber um pouco mais pode ler aqui).

A primeira conclusão a que isso nos leva é que a divisão anatômica/fisiológica (ou seja, de “sexo”, tomando essa palavra como a parte biológica da divisão de gênero) para definir a binariedade homem/mulher é um mito. Pode-se dizer que a frequência de pessoas intersexo é muito baixa para ser considerada mais do que uma exceção, mas a realidade não é essa. Uma pessoa em cada 1500 não se encaixa sequer nos critérios biológicos de homem/mulher, e ignorar esse fato é uma violência contra essas pessoas. O que nos leva à segunda questão: a binariedade leva a mutilações físicas e danos psicológicos profundos cometidos contra as pessoas intersexo. Ainda hoje, o procedimento médico padrão é o de uma intervenção cirúrgica e hormonal em estágio extremamente precoce e de forma totalmente não consentida sobre essas pessoas (pois, afinal, como um bebê vai ter qualquer consentimento), nos quais médicos e pais “decidem” o sexo, e portanto o gênero, no qual essa criança será forçosamente recebida e enquadrada no mundo. A questão é que justamente por não haver nenhuma opção reconhecida em nossa sociedade por fora da binariedade homem/mulher, se afirma que o “menos traumático” para a criança intersexo é de ser sociabilizada de acordo com um gênero decidido à sua revelia, e que pode não ser condizente com a identidade de gênero que essa criança irá assumir posteriormente. E se cria um espectro de medo e vergonha para essa criança em relação à sua condição intersexo, que, se revelada aos amigos, professores, etc. poderia levar ao preconceito e estigmatização. Se ignora que a violência cometida por esses pais e médicos é a de impôr um corpo e um padrão a essa criança, e isso é induzido pela ideologia da binariedade de gênero.


O gênero para além do biológico


Ao falar das pessoas intersexo discutimos como o dado fisiológico é insuficiente para determinar o que são homens e mulheres, mas também pudemos ver que há algo que está além do biológico e que é tão imperativo em nossa sociedade que faz com que médicos e pais façam intervenções cirúrgicas e hormonais nas crianças para se adequar a esses padrões. Ou seja, em nossa sociedade somos obrigados a ser homens ou mulheres. Há apenas duas opções, e é a isso que chamamos binariedade. O que queremos apontar é que se chamamos de sexo essa característica fisiológica, o gênero (homem ou mulher, masculino ou feminino) está além disso, e envolve um lugar social em que a pessoa deve se inserir. Para iniciar essa discussão, voltemos à palestra de Freud, em 1933, quando ele passa do biológico ao psicológico na tentativa de questionar a feminilidade:

Estamos habituados a empregar “masculino” e “feminino” também como atributos psíquicos, e, da mesma forma, transpusemos a noção de bissexualidade para a vida psíquica. Dizemos, então, que uma pessoa, seja homem ou mulher, comporta-se de maneira masculina num ponto, e feminina em outro. Mas logo vocês verão que isso apenas significa ceder à anatomia e à convenção. Não podem dar nenhum conteúdo novo aos conceitos “masculino” e “feminino”. A distinção não é psicológica; quando falam em “masculino”, normalmente querem dizer “ativo”, e quando falam em “feminino”, “passivo”. É certo que existe essa relação. [em seguida Freud fala de analogias ao papel “ativo/passivo” de espermatozoides e óvulos, do ato sexual ou de espécies animais, analogias que constesta e que nos parecem tão inférteis que não as transcreveremos] Mesmo no âmbito da vida sexual humana vocês logo percebem como é insatisfatório identificar a conduta masculina com a atividade e a feminina com a passividade. Em todo sentido a mãe é ativa em relação ao filho, mesmo do ato de mamar podemos dizer tanto que ela dá de mamar à criança como que deixa a criança mamar. Quanto mais nos afastarmos do estrito âmbito sexual, mais nítido ficará esse “erro de superposição”

Assim, Freud conclui que é arbitrário atribuir às mulheres características como passividade e docilidade e atividade e agressividade aos homens como um dado inerente de sua psicologia. Também a filósofa Simone de Beauvoir, em seu profundo tratado “O Segundo Sexo”, se pergunta sobre o que determina o feminino e como foi que, em algum momento da história, o homem se impôs como dominador e instituiu o patriarcado. Procurando seus fundamentos na filosofia existencialista, ela vê em tempos primordiais a divisão do trabalho entre a manutenção da prole e a coleta para mulheres, e a caça para os homens; sendo esta mais exigente em termos de transcendência, já que o homem precisa de instrumentos, ferramentas, inventividade para poder sobrepujar obstáculos naturais, ela vê nisso um sentido onde a Existência transcende a Vida, e nisso um significado que o homem pode atribuir a si mesmo e a mulher não, já que sua função entregue à espécie a prendia excessivamente à prole. Ainda que excessivamente idealista, a meu ver, a explicação de Simone conflui com o questionamento de Freud no fundamental, e também com a concepção materialista e dialética: não há uma essência masculina ou feminina, seja essa fisiológica ou psíquica – as diferenças que instituímos aos papéis de gênero são criações culturais e históricas, fruto das circunstâncias.


A natureza, a técnica, o gênero


Há na relação entre cultura, história e natureza uma questão fundamental que o marxismo propõe: a forma como o ser humano produz e reproduz sua vida é essencial para sua própria percepção do mundo. Desde as concepções anímicas, que atribuíam a deuses representados pelas forças da natureza os eventos naturais, e que foram deixando de prevalecer conforma se aprofundava nossa compreensão de como operam as forças naturais para criar tais eventos, nós mudamos muito nossa concepção de mundo. É verdade que em determinado momento histórico a divisão sexual do trabalho correspondeu a uma necessidade: a maior força física que em geral os homens possuíam os tornavam mais aptos à caça e a proteção; a capacidade de gestar e amamentar das mulheres as tornavam mais aptas a cuidar da prole e das tarefas correlatas. Mas hoje não caçamos, nem dependemos da força física para sobreviver. Não é necessário, do ponto de vista físico, um desgaste tão grande do corpo feminino para o parto ou o cuidado com as crianças; claro que ainda existe essa questão, mas o nível de socialização que podemos ter para todo tipo de tarefas que ainda hoje são atribuídas socialmente às mulheres supera em muito a visão ideológica estreita que perdura para os papéis de gênero.

Assim, conforme avança nosso domínio sobre as forças naturais e nossas técnicas de produção e reprodução da vida, torna-se cada vez mais nítido que a manutenção de papéis estritos para homens e mulheres, para o patriarcado, as diferenças salariais, os papéis no casamento, na aproximação sexual, no trabalho, no cuidado com os filhos, na vida afetiva, enfim, em tudo, é muito mais uma questão fundamental para a manutenção de nossa sociedade de exploração e miséria do que uma necessidade material em que é fundamental uma divisão do trabalho entre os sexos.

O mesmo podemos pensar em relação às características de nosso corpo. O desenvolvimento da medicina e da biologia tornam nosso controle sobre o próprio corpo muito mais preciso. Hoje é possível para uma pessoa trans - pelo menos do ponto de vista da técnica, pois o acesso a isso é uma questão política ainda muito mais atrasada - realizar intervenções em seu corpo para que esteja de acordo com sua identidade de gênero: cirurgias e TH (Terapia Hormonal) são apenas as mais conhecidas dessas intervenções. Hoje em dia estamos próximos inclusive da possibilidade da implantação de ovários e útero em mulheres trans.


A luta por liberdade dessas amarras


Não se reconhecer no gênero que lhe foi atribuído no seu nascimento, ou seja, ser uma pessoa trans, se configura como uma afronta às necessidades do status quo de manutenção dessa divisão estrita entre os papéis de gênero. Sexualidade (ser hetero, homo, bi, pan ou assexual) e gênero, ainda que sejam questões com muitas particularidades e distinções fundamentais, se permeiam enormemente nesse momento, pois o ódio e intolerância que ambas suscitam é justamente o de subverter essas regras estabelecidas a ferro e a fogo em nossa sociedade sobre como entendemos nossa identidade e nosso comportamento. As resistências para questionarmos os papéis de sexualidade e gênero são imensas: não à toa que o mesmo Freud que fez os questionamentos que colocamos acima estabelecia o feminino como “o continente obscuro” da psicanálise e permanecia, tanto em sua vida privada como na maior parte de suas concepções teóricas, como um perfeito patriarca misógino representante de seu gênero e sua classe social. Mesmo Simone de Bauvoir, que como mulher tinha muito menos interesses na manutenção desses papéis e chegou mesmo a desafiar padrões tão arraigados como o casamento monogâmico, não pôde escapar de reproduzir em suas relações amorosas muitos desses padrões sociais. Isso, longe de evidenciar uma mera “hipocrisia” de questionadores como Freud ou Beauvoir, explicita um fato fundamental que nunca podemos perder de vista: ninguém pode ser livre sozinho. A ideia da liberdade individual é uma das mais “marteladas” em nossa cabeça nessa sociedade capitalista e liberal, e ela é um engodo feito para melhor nos dominar.

Assim como a ideia de liberdade individual, as amarras da sexualidade heteronormativa, do patriarcado, da binariedade de gênero, são enfiadas goela abaixo das crianças desde a gestação. A família, a escola, a igreja e o estado são fábricas de neurose, porque enterram nossos desejos subjetivos sob uma espessa camada de proibições e normas sociais. As teorias procuram justificá-las de formas absurdas, como quando Freud assenta sua teoria (para justificar seus próprios privilégios, ainda que de forma inconsciente) sobre a ideia de que a repressão sexual é a base da cultura e da civilização. A ciência e o conhecimento, que também para atingir melhor seus fins ideológicos querem se apresentar como "supraideológicos" ou "neutros" (coisa que não existe), sempre se prestaram ao papel de legitimar os papéis sociais, e isso não é uma exclusividade de Freud. O conceito de loucura, por exemplo, sempre serviu em maior ou menor grau como uma forma de controle social e político - em alguns momentos de forma muitíssimo explícita como na URSS stalinista ou nos EUA dos anos 1960. A própria psicanálise, ao lado da psiquiatria, tristemente continuam a cumprir papel semelhante em relação à transexualidade, classificando-a como uma doença, seja sob o rótulo de transexualismo, disforia de gênero, psicose ou qualquer outro termo ou conceito que seja, assim como haviam feito antes em relação à homossexualidade. Claro que, sejamos justos, nem todos os profissionais dessas áreas cumprem esse papel, e, aliás, são aliados de suma importância aqueles que combatem essa visão hegemônica. Também cabe a nós não sermos maniqueístas em nossas avaliações, e sabermos por onde reivindicar e onde combater cada discussão e concepção que se apresente, como é o caso de Freud, que em tantos aspectos ajudou a discussão sobre a sexualidade a dar passos colossais em relação ao pensamento hegemônico de sua época, apesar de suas noções conservadoras em outros aspectos.

Conforme vislumbramos que as coisas não foram sempre assim, nem precisam ser, a luta por liberdade se torna mais acirrada, mais sangrenta e mais explícita. Sempre existiram pessoas intersexo, homossexuais, lésbicas, trans, bissexuais. Mas às vezes as grades eram tão firmes e bem construídas que eles sequer as viam, ou se viam não conseguiam enfrentar seu poder de contenção. Era uma luta surda que se desenvolvia de forma solitária e quase sempre invisível socialmente. Mas nem por isso menos mortal. Quantos morreram com sua sexualidade guardada, ou se manifestando de forma clandestina? Quantos assassinatos e suicídios estão nessa conta? Quantos procuraram em vão entender o que acontecia consigo, mas sem poder se enxergar em qualquer lugar de suas sociedades apenas amargaram uma dor impossível de se manifestar como luta social. Quando olhamos para o lado e enxergamos semelhantes, isso nos fortalece. Mas conforme saímos dos armários, a violenta reação neurótica de uma sociedade explode contra nós. 

Um exemplo disso é a triste estatística de que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo; e a estatística complementar feita pelo site pornográfico RedTube de que é o país que mais procura por vídeos pornográficos de travestis. A contradição aqui é apenas aparente: o desejo sexual reprimido sob a forma da binariedade e da heteronormatividade alimenta uma neurose que explode como violência, um sintoma social: matar o outro é uma forma de tentar matar em si mesmo o desejo proibido. Esse desejo pode se expressar apenas na clandestinidade da pornografia, na solidão jamais confessa de assistir os outros fazendo aquilo que você gostaria mais não pode. A liberdade de uma travesti que anda na rua expressando aquilo que é e deseja ser, pisoteando a clausura apertada da binariedade, é o que provoca a ira de um transfóbico. A fobia é o medo, e o medo se expressa como ódio. Ódio de quem é aquilo que você não ousa ser; medo de quem desafia os padrões aos quais você se apega com tanto afinco. Padrões que são muito mais frágeis do que parecem, e por isso mesmo precisam ser defendidos com tanto ódio e violência, pois podem cair por terra a qualquer momento. As histórias que mostram esse desejo recalcado estão a todo momento aparecendo diante de nós: ex-pastores que pregavam a “cura gay” de repente casam-se com um homem; ou dois presos americanos, condenados por assassinatos homofóbicos, e que recentemente tornaram-se o primeiro casal a oficializar um matrimônio gay no sistema penitenciário americano.


Queimando o armário



Escrever esse texto é, para mim, parte de entender essas prisões e lutar contra elas. Mas não como espectador, e sim como alguém que está se debatendo e tentando se livrar de grilhões. Como disse em outro texto, desde pequeno não me identifiquei jamais com o papel de gênero que me foi atribuído. Não me sinto homem, pelo menos em uns 70% do que esperam de mim como homem. Contudo, em uma sociedade como a nossa, não é somente a esse tipo de comportamento que não me adequo. Não desejo nenhum desses comportamentos. Nem me sinto como uma mulher, apesar de sempre ter, de forma mais ou menos explícita, me identificado mais com diversas questões do papel feminino do que do masculino. Mas esse último período me fez refletir sobre uma concepção de transgeneridade que estava muito arraigada em mim: a de que ela surge como algo “natural”, no sentido de que é um afeto, um desejo, um impulso incontrolável, e não algo que é também parte de uma construção consciente. Alguém designado como homem socialmente simplesmente sente que não é, e torna isso uma afirmação diante do mundo; e vice-versa. E na verdade muitas vezes as coisas acontecem assim, basta olharmos para as crianças trans, que antes de conseguirem escrever ou compreender ideias abstratas já têm perfeita compreensão de seu gênero, contrário àquele que lhe foi atribuído no nascimento. Mas isso não quer dizer que as coisas ocorrem sempre assim: as subjetividades caminham por formas muito diversas.

A pergunta que muitos têm me feito nesse período de investigação, eu também me fiz diversas vezes: não é muito “racional” esse seu questionamento? Sim, ele é. Mas nem por isso eu me sinto menos bonitx ou confortável quanto estou de vestido, maquiagem, unhas pintadas. Nem por isso me sinto menos à vontade ou identificado perto de mulheres do que de homens, e há muitos anos todas minhas amigas íntimas são mulheres. Me sinto preso, desconfortável, insultado até em situações masculinas, e me desinteresso profundamente por assuntos e comportamentos masculinos (como também por muitos femininos). O meu questionamento não poderia deixar de ser racional, como todos são. Temos ainda um vício, profundamente cartesiano e positivista, de separar as coisas em racionais e emocionais. Isso é uma merda. 

Eu sempre me senti desconfortável e com ódio desse mundo; foi só um questionamento racional, uma investigação teórica além de um comprometimento militante e afetivo, que me fez entender que esse ódio tinha muito mais vigor, sentido, profundidade quando recebeu o nome e a forma de comunismo, de marxismo. Penso em meu desconforto com meu papel de gênero de maneira análoga: sempre me incomodou profundamente; e pela primeira vez sinto encontrar algo que se encaixa como uma luva nesse desconforto, que dá nome e sentido a isso. É esse o lugar da transexualidade não-binária em minha subjetividade: estou me encontrando ao não me identificar como homem, nem como mulher. Sei que há algo de abstrato nisso, na medida em que as pessoas – pelo menos do jeito que minha aparência física é hoje – continuarão a me identificar como homem. Ler esse texto me ajudou bastante a pensar sobre isso, assim como conversar com pessoas maravilhosas não-binárias que conheci. E sei que serei, como já fui, hostilizado até mesmo por pessoas LGBT que, apesar de lutarem por liberdade, muitas vezes continuam, como todos nós, apegadas às suas caixinhas, às prisões nas quais encontram segurança para afirmar sua identidade. Bom, mas é isso que quis dizer quando afirmei que ninguém se torna livre sozinho; as jaulas do gênero vão continuar me perseguindo, como continuam com cada pessoa trans e mesmo com as cis desse mundo (esse texto fala bem sobre isso). Procuro o caminho para a liberdade em uma luta contínua, que é subjetiva, e política, e ao lado de pessoas que aprendo cada dia mais a amar, respeitar e admirar profundamente. Ser tratado como louco é algo a que já me habituei; e todos aqueles que buscam por liberdade em um mundo feito de jaulas devem aprender que não há outro caminho.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Você não pode usar vestido



Viado, bicha, menininha. Apelidos que recebia constantemente dos coleguinhas na minha escola do ensino fundamental, um reduto da pequena burguesia supostamente esclarecida de São Paulo. Comecei a receber apelidos assim lá pelos 12 anos, quando comecei a deixar o cabelo comprido. Acho que esse era o principal motivo, mas certamente meu comportamento destoante do modelo de masculinidade e do que esperavam de mim contribuía: não gostava de futebol nem esportes (exceto queimada), não era popular nem procurava ser, ficava no meu canto lendo livros. Era uma criança nerd.

Mais ou menos na mesma época passei a ser confundido com uma grande frequência com uma menina. Era uma idade em que a principal característica física distintiva entre os sexos é o cabelo, e eu havia escolhido ter o meu comprido. Nada de puberdade, de pelos no rosto, de voz grossa (essa não veio nunca) e muito menos de "atitudes de menino". Isso me incomodava, e eu não sabia o porquê. Depois fui entendendo. Não era porque era chamado de menina. Era porque aquilo vinha acompanhado de um deboche quando percebiam que eu não era. Era humilhante, eu me sentia mal. Contraditoriamente e, na verdade, complementarmente, fui adquirindo cada vez mais nojo de tudo aquilo que fui identificando como o comportamento masculino. Tinha amigos mais velhos, e me dava raiva e nojo ver alguns olhares e comentários sobre mulheres, tanto próximas quanto as que passavam na rua. Meus amigos mais próximos eram homens, mas de toda forma, estranhos.

Lembro um dia que comecei a me questionar sobre qual era o problema, afinal, de ser chamado de menina. Foi quando chegou uma professora nova, substituta, de Estudos Sociais (era assim que chamavam as aulas de história na minha escola). Ela tinha uma miopia bem grande, e estava lá em frente à sala. Eu levantei a mão para falar qualquer coisa. Ela me chamou de "princesa". As pessoas que alimentavam um ódio recíproco por mim imediatamente utilizaram aquilo pra me ridicularizar. Me senti humilhado. E com raiva dela.

Ela em poucos meses mudou muita coisa na minha cabeça. Ela viu que eu não me encaixava ali, e me ajudou a me descobrir. Me apresentou filmes como Easy Rider e livros como On the Road. Conversou comigo e me fez ver sentido em estudar as coisas que ensinava. Quando foi embora, ela era minha professora preferida. E me ajudou a ter orgulho de ser diferente. E a entender um pouco mais que não havia nada de ruim em ser chamado de menina. Ainda demorou um tempo pra que eu tivesse orgulho disso.


O tempo passou, eu cresci e parei de ser confundido com menina. As vezes que chamavam de "viado", "bixa" ou coisas do gênero também diminuíram. Me acostumei com a ideia de não gostar do comportamento "masculino", mas também aprendi que ele faz parte de todo um sistema social e um mundo do qual não gosto. E me decidi a lutar contra isso e tudo o que ele representa.

As questões de gênero e sexualidade fazem parte profunda e constante dessa luta. No país mais transfóbico do mundo, não tomar essa luta como causa fundamental é uma negligência imperdoável. Mas minha luta muda a minha vida também. E refletir mais profundamente sobre a trangeneridade, conviver com pessoas trans e, particularmente, conhecer o conceito de não binariedade foi criando coisas novas em mim. Quis, um dia, inocentemente me vestir de mulher. Como já havia feito em outras ocasiões, como festas à fantasia, aproveitei o carnaval para usar um vestido e maquiagem. Porque sim, em nossa moral hipócrita, há espaços onde se permite "se fantasiar" com roupas de homem e mulher livremente. Eu me senti bem, e me senti livre. Me senti bonitx. E o medo que sempre tive na minha infância de ser ridicularizado como gay ou mulher, que está presente no cotidiano de cada LGBT nesse mundo podre, eu pude deixá-lo um pouco de lado. Porque, sim, tenho medo. Tenho medo do julgamento dos outros sobre coisas que mal estou entendendo e experimentando. E fiquei feliz de poder experimentar, e de que tantas pessoas que amo simplesmente me acolheram tão prontamente. Foi o máximo.

Qual não foi minha surpresa ao compartilhar uma inocente postagem de uma garota criticando a proliferação de sabonetes íntimos femininos para impor uma suposta higiene às vaginas enquanto os pênis são "lindos e perfumados" naturalmente. Foi essa a postagem que compartilhei no facebook, e subitamente nos comentários começa uma enxurrada de hostilidade e insultos a mim. Disseram coisas como "Deixa de ser hipócrita passar um lapis de olho e se vestir como mulher não te autoriza a falar sobre essas questões", "Mano, para de assumir uma postura e de querer se apropriar de uma imagem e de um impacto que uma causa dessa tem...eu to é de saco cheio de ver vc pagando de mina quando é um burguês cis e HÉTERO", "Enquanto você se fantasia de mulher pra pagar de desconstruído, seu merda, minhas irmãs de luta estão sendo assassinadas nas esquinas." etc, etc, etc. Além disso, inventaram calúnias disparatadas contra mim, como a de que eu me passaria por uma mulher lésbica em aplicativos de celular para dar em cima de outras mulheres. Confesso que a enxurrada de comentários (feito por quatro pessoas) me abalou mais do que gostaria. Talvez porque já tive algum respeito e estima por duas delas, e ainda tinha por uma. Pessoas com quem já construi algo de militante, que a seu tempo foi importante. Por isso mesmo tentei, num primeiro momento, conversar e dialogar com seu ponto de vista. Mas não estavam ali para ouvir e falar, mas para hostilizar e humilhar, como quando na infância me chamavam de "viado" ou de "mulher". Mas agora não eram pessoas de classe média alta querendo me humilhar chamando-me de uma "minoria". Eram mulheres e um homem trans me chamando de oportunista e aproveitador por ser homem, branco, cis, hétero e querer me apropriar de uma luta alheia. Eu podia entender o que motivava aquilo, mas onde há calúnia e insultos dificilmente haverá um diálogo.

Eu não estava pagando de descontruído, pq não me desconstruo. Não sou um macho branco em desconstrução. Sou um ser humano em construção, permanente e cotidiana. Me esforço por me construir como revolucionário, nas grande e pequenas ações da minha vida. Isso passa por questionar cada valor que me ensinaram de machismo, homofobia e racismo, sim. Mas o essencial não é o que "desconstruo", mas o que faço do lugar em que nasci e do que vou fazendo de minhas ações e minhas escolhas. Me esforço para construir uma identidade diante do mundo. Ela é cis e hétero? Assim me encaixaram e eu me encaixei até então. Uma das pessoas, pensando talvez mais com a própria cabeça do que com os dogmas que querem classificar um outro (branco, hétero, cis) como o inimigo, comentou na publicação de sua amiga: e existe alguém puramente cis e hétero? Eu acho que as identidades de gênero e de sexualidade têm um propósito: resistir e lutar em um mundo em que se oprime e se explora. Mas seu propósito é esse. Quando se tornam camisas de força, prisões e rótulos, estão cumprindo um papel nefasto. O mundo em que defendo é um onde quem quiser usa a roupa que quiser, se identifica como quiser, transa com quem quiser. Um mundo de liberdade. Hoje nos organizamos para lutar e resistir. Minha identidade não é fixa e não é uma prisão. Quando e se uso vestidos ou qualquer roupa, é porque quero e me sinto bem daquele jeito. Em que momento nossa luta por resistência passou a ser uma competição de quem é mais o quê? De quem luta mais ou é mais oprimido? A quem eu preciso provar o que para que eu possa me vestir como me dê vontade? "Você é cis, não pode usar vestido". Sério? É pra isso que lutamos? Achei que um vestido era só uma peça de roupa, e que qualquer um deveria poder usar ou não usar a roupa que bem entenda. Mas não, segundo me disseram hoje, eu, homem, branco, hétero e cis, não posso usar um vestido, não posso pintar as unhas, não posso me maquiar. Como quando eu era pequeno não podia ter o cabelo comprido, pois isso era coisa de "viado". Um dia, quando criança, me enchi dessas provocações e simplesmente disse: E se sou gay, qual o problema? E dei um beijo no rosto de um amigo. Foi quando já tinha aprendido a ter orgulho de ser diferente daquela gente, e que o que eu realmente não tinha eram seus preconceitos.

Fico imaginando onde que essa gente acha que essa patrulha de gênero, vestimenta, sexualidade fortalece qualquer luta. Penso em gente que admiro, como a Laerte, que com seus cinquenta e tantos anos resolve assumir sua identidade de gênero feminina. Talvez essa gente que hoje me hostilizou fizesse uma inquisição se estivesse lá por perto no momento: "Ei, você, homem, branco, cis, hétero, classe média. Quem pensa que é para de um dia pro outro resolver usar vestidos? Resolver dizer que é mulher? Você quer roubar o protagonismo dos outros, quer se apropriar da luta alheia."

Laerte sabe mais, e resolveu fazer o que quis com seu corpo e sua identidade quando bem quis. E eu, se quero usar vestidos, uso. Não estou roubando luta de ninguém, mesmo porque luta não se rouba. Eu tenho é muitíssimo orgulho de estar ao lado dxs trans, dxs pretos, das mulheres, dxs indígenas na luta contra a opressão e exploração. E se hoje sou hétero, amanhã posso não ser; se hoje sou cis, amanhã posso não ser. E não devo satisfação alguma a essa ridícula polícia "militante de facebook" de sexualidade e gênero. Quem dera essa gente estivesse amanhã na linha de frente das lutas contra esse mundo podre que quer nos enquadrar em suas caixinhas limitadas, ao invés de estar em seus comentários de facebook querendo nos enquadrar também nas caixinhas e nos proibir de usar uma roupa ou passar uma maquiagem.

Estou com a Rosa, quando ela diz "Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e completamente livres." Essa é a minha bandeira, e ela eu não roubei de ninguém.

segunda-feira, novembro 16, 2015

Mais uma despedida

Às vezes parece mesmo que nunca acaba de caber mais dor no coração.

E que mundo maldito é esse que nos deixa, depois de uma vida de luta, de superação, de persistência, que nos deixa largados no canto, acuados, sem ver saída em nenhuma parte.

Esse mundo nos tirou ontem a Márcia Melo. Nesse meu ano, a segunda pessoa que eu estimava e que tirou sua própria vida. No ano de uma de suas amigas mais próximas, também foi a segunda pessoa. Nesse mundo que cerca a gente de miséria por tudo o que é lado, foi mais uma entre milhares.

Essa distância e impotência sempre calam fundo no peito. A última vez que falei com a Márcia faz uns dois anos. Ela era uma pessoa especial. Quando a conheci, tinha dezenove anos. E foi uma das pessoas que, com uma sensibilidade, inteligência e percepção raras, me deu um pouco do que eu precisava para ser gente.

Márcia teve que virar gente grande cedo. Com catorze anos saiu de casa para enfrentar o mundo. Casou, teve filha, separou, criou a filha, casou de novo, teve filha, enviuvou, criou a filha. Na unha. Na raça. Sem ajuda do estado, sem ajuda dos homens, sem ajuda desse mundo.

Lembro das conversas, café e cigarro. Lembro, tudo em perspectiva nova, das brigas com a filha mais nova. Que mundo cão. Que uma mulher incrível como essa se encontre nesse beco escuro, que tome a decisão mais dura. Que nos deixe, assim. Eu, mais uma vez, fiquei aqui sem poder dar um adeus. Sem poder ter dito a Márcia que, apesar da distância, apesar da dureza do mundo, apesar da minha inabilidade tão humana em estar perto, eu a amava. Apesar de nunca ter lhe dito, que pedaço tão grande de sua influência mora em mim.

Ela me encorajou, desde sempre, a procurar meu próprio caminho. Ela procurou; lutou, sofreu, perseverou: ela fez por onde para achar o seu caminho. Há quem vá dizer com desdém, como sempre, que ela fugiu. Há quem vá dizer de lado, que nada tem com isso. É desse tipo de hipocrisia, de indiferença mórbida, de insensibilidade obtusa, que são feitas as dores do mundo. Esse mundo podre se regozija ao nos ver passando por alto o que tomba ao nosso lado.

Há uns cinco  ou seis anos, eu, jovem e despreparado para qualquer coisa, conversei com a Márcia quando ela se postava à beira do precipício e olhava, pensando no salto. Não sei que diferença fiz pra ela naquele momento; mas sei que ela não pulou, e que aquilo foi uma das marcas profundas que ela deixou em mim. Não sabia que o suicídio seria uma ferida tão longitudinal e perene na minha vida, sempre me colocando frente à dor desse mundo. Já intuía a sabedoria sofrida que se escondia naquela mulher tão jovem, tão velha, tão cansada, tão dura.

Onde o caminho de Márcia a levou? No que dependeu dela, sei que cada passo foi batalhado e valeu. Mas o peso desse mundo é demais para uma mulher, independentemente do quão incrível e forte possa ser, carregar sozinha nas costas. Essa morte é mais uma dor que carrego comigo. Que sei que há mulheres que levam em sua luta a inspiração desse combate duro, árido, mas sem trégua e vacilação, que foi a vida da Márcia. Nós a colocamos na conta de todo esse sofrimento, e não vamos perdoar ou esquecer. Nem vamos deixar de amar o que você foi para nós, mesmo que só nesses breves intervalos que conseguimos furar o cerco dessa lama que nos cobre.

E, nas últimas vezes que conversamos, foi sobre as lutas de 2013. Márcia se entusiasmou, sentiu a vida fluir com a tomada das ruas. Se separou de amigos, conservadores, espumantes raivosos. Ela estava ao lado da vida, da juventude, da luta. Nos aproximamos novamente com isso, e a força dela era mais uma vez uma inspiração, dessa vez no calor da luta. Sua morte é a contracara disso. É o sinal, paradoxal, de que Márcia não se resignaria a ser uma velha abandonada no canto, tratada como louca, tratada como quem não sabe do que a vida é feita. Ela não se resignou, mas não viu outra saída. É essa saída que temos que procurar; a saída desse beco escuro, desse mundo torpe.

terça-feira, agosto 25, 2015

jazida



Ansiedade bruta, dura angústia no gargalo da vida
desse escombro de passado
desejo renhido recalcado
a ruína daquele rosto, decomposto
o gosto amargo de não aspirar
à vida, a essa pulsão entranhada
voltada para dentro dessa caverna escura
desse ventre não me sai nada
é seco, cinza,
recua
uma esperança natimorta
um grito sufocado, surdo,
garganta cortada por onde vaza o ar sem virar voz, sem virar som
não há onda nessa costa, a margem ressecada
nenhuma lembrança escapa desse cemitério de desejos
nenhuma esperança se alimenta dessa matéria inorgânica

terça-feira, junho 23, 2015

Helena

Nunca aproveitamos como deveríamos a presença das pessoas que amamos, que admiramos, que nos inspiram e nos movem. Esse gosto amargo que fica, já aprendi na prática, é inevitável quando estamos diante da morte de alguém que ocupa esse lugar para nós. Não só isso, mas também o sentimento dilacerante da impotência, o reduzido tamanho e poder de qualquer de nossas ações diante da inevitável e incontornável morte.

Há tudo isso no luto, na dor da perda e da separação. Mas há algo de diferente na dor de uma separação como a que estou vivendo agora, uma sensação que surge da particularidade dessa relação, que é a relação entre analista e analisando. Foram cinco anos em que vivi essa relação; cinco dos mais intensos, duros, fundamentais. Cinco anos em que transformei muita coisa em mim mesmo. Mudanças que simplesmente não consigo imaginar sem minha relação com essa pessoa, que em cada passo e hesitação me ajudou a contemplar o que há de mais esquivo e secreto dentro de mim, nos meus desejos, no meu inconsciente.

Eu conhecia muito Helena, pela mudança profunda que ajudou a operar em mim, pela dedicação e habilidade com que exercia seu difícil e desafiador trabalho. Pela sua perspicácia e sensibilidade. Mas não conhecia Helena em absoluto, pois não sei de seus gostos, seus hábitos, seus ódios e amores, as pequenas coisas de seu dia-a-dia. Poderíamos ter sido amigos, fosse o nosso encontro em diferentes circunstâncias, e talvez eu a conhecesse e não-conhecesse ao contrário. Mas nosso encontro foi na investigação analítica, espaço no qual é o paciente que tem a centralidade, e o analista encontra-se em um papel de ajudante na investigação psíquica. Ele está nos bastidores, opera as câmeras, os cenários, a iluminação. Faz o espetáculo acontecer, mas fora da cena. Em termos ideias, Freud disse que "O médico [leia-se, analista] deve ser opaco para o analisando, e, tal como um espelho, não mostrar senão o que lhe é mostrado".

Isso é apenas uma imagem, pois pessoas-espelho e pessoas-opacas não existem, e nem seria o analista bem sucedido em seu trabalho se apenas refletisse o que lhe é dito, se não conduzisse e instigasse. As décadas de estudo, dedicação, prática e conhecimento que antecederam meu encontro com Helena deram-lhe a capacidade admirável de ver, por vezes nas palavras mais aparentemente insignificantes, o sentido profundo de minha subjetividade. E, com firmeza e suavidade, conduzir e andar ao lado, sendo a companheira dessa descoberta do que sou. Calar-se e ouvir atentamente; falar, questionar e desafiar quando necessário. Descobrir junto a mim.

A caminhada se faz a dois, e não há nada "neutro" em uma relação analista-analisando. É uma combinação entre duas pessoas, e, como tal, não pode existir outra como aquela. Certa vez, quando eu conversava com Helena sobre essa relação, e sobre o critério para uma pessoa encontrar um "bom analista", ela me ilustrou essa relação com a metáfora de um relacionamento amoroso. O analista não vai ser bom para alguém "apenas" porque é inteligente, experiente, culto, perspicaz; nem será ruim "apenas" porque é novato, inseguro, hesitante. Há uma afinidade, uma empatia, que é fundamental para que se construa a relação, para que ela seja bem sucedida e se solidifique, que traga seus frutos. Cada processo de análise é, portanto, único.

A minha relação com Helena era muito bem sucedida. E, se, por um lado, me dói não ter feito parte de sua "vida pessoal", me faz falta ter lhe dado um abraço e lhe dito um sincero "obrigado" antes que ela partisse, por outro sei que fiz parte do mais profundo do que essa excepcional mulher foi. Acredito, tal como Marx, que o que há de mais propriamente humano é o trabalho: por meio dele alteramos a realidade, interferimos no mundo, mudamos nossa consciência e nossas condições de vida. Helena dedicou sua vida ao trabalho de analista, no qual se tornou excelente. Eu dividi esse, e nenhum outro, aspecto de sua vida: o seu trabalho, sua característica mais profundamente humana. Sua dedicação e seu amor pelo que fazia podem ser medidos por esse cuidado: quatro dias antes de sua morte, ela se dedicou a sentar com uma grande amiga e colega e lhe passar os contatos de seus pacientes, e uma indicação escolhida a dedo de alguém que poderia continuar (mais correto seria dizer "iniciar um novo") trabalho de análise com esses seus "órfãos". Era esse o tamanho da centralidade, da dedicação, que Helena tinha com seu trabalho. E o que sou hoje, é, também, o resultado de seu trabalho.

Por isso, por mais que não conheça a família, os filhos, os detalhes de Helena, posso dizer que me relacionei com ela de forma tão profunda como ela se relacionou comigo; ela, que sabia tantos detalhes íntimos de minha vida, de meu passado, de meus desejos, como talvez nenhuma outra pessoa saiba. Sua morte me dilacera, mais uma vez. É um pedaço arrancado de mim, um luto que, passados poucos dias de sua morte, mal comecei a fazer. Diante dessa dor tão abrangente e multidimensional, dessa tarefa imensa e angustiante da separação, uma coisa me consola: a transformação que o trabalho dedicado, persistente e paciente de Helena ajudou a operar em mim é uma herança profunda que carrego dela. Ou seja, aquilo que sou e que posso fazer é a marca que, através de mim, ela deixa no mundo. Assim como será com seus demais pacientes. Ela foi a pessoa que efetivamente me mostrou, passando por cima de tantos e tão arraigados preconceitos, o potencial transformador da psicanálise. E me ajudou também a conhecer, na prática, que é necessário, enfim, muito mais do que dogmas, fórmulas prontas e esquemas prontos para ser subversivo, transformador, revolucionário. Ela morreu serena, sóbria, consciente. Espero, da mesma forma, seguir adiante com o que levo de sua intervenção nesse mundo.

quarta-feira, abril 15, 2015

A morte à espreita - Algumas se ganha, algumas se perde

Ligo o celular, que ficou uma hora carregando enquanto estava na análise.
Uma hora em cinco mensagens.

17:03 - Pards.
17:38 - Preciso de ajuda!
17:39 - Tô em completo desespero!
18:04 - Adeus Pards!
18:05 - Eu te amo!

Primeira coisa. Olho em volta, procuro táxis, na mão incerta o telefone disca. Besteira, seis da tarde o táxi demora mais nas ruas entupidas, corro pro ponto, entro no ônibus espremido. Consegui o primeiro contato ainda na rua. A voz, pastosa, chorosa, me atende.

O que você fez?
Tomei uns comprimidos.
Quantos?

Não te escuto, não te escuto. A ligação cai. A mão no bolso procura o bilhete único, a mochila grande atrapalha enquanto me espremo deseducadamente entre as pessoas, sem me importar. Caixa postal, passo o bilhete no leitor, rediscando. Chama. Alô? Quantos você tomou? Não te escuto, cai. Mensagens.

18:10 - Vem aqui em casa.
18:10 - Não to te ouvindo.
18:15 - Já tem gente vindo.
18:15 - Obrigado!

Ligo de novo. Ela quer despistar. Quem está indo? Estou indo também. Deixa a porta aberta. Me espremo grosseiramente, o ônibus dispara pelo corredor. Ligo pro meu irmão, psiquiatra, repetidas vezes. Nada. É muito devagar. Tudo é devagar. Estou calmo, na verdade. Só é devagar. A minha vida me preparou para estar calmo agora. Foi um bom preparo, e sei que dessa vez é só fazer tudo certo. Entre um ponto e outro, uma corrida. Entro no segundo ônibus. Devem ser uns quinze, vinte minutos até o portão. Está aberto, discretamente destrancado. Ótimo. Ótimo sinal.

Encontro ela no chuveiro, a cara grogue, sentada sob a água que cai. Fecho a torneira, estendo a toalha. Se seca, se veste. Procuro táxi, ligo, falo com os outros que estão vindo. Consigo um carro emprestado. Vamos. São mais uns vinte minutos. Falo com meu irmão, ele tranquiliza: não é algo que cada minuto conta. Tudo bem, já sabia, mas sempre é bom ouvir o que já sabemos nessas horas; ouvir dez vezes. Minha cabeça, no fundo, já está preocupada com o amanhã. Tirar os comprimidos é a parte mais fácil. Vamos. Cerca de uma hora após as mensagens, ela está na sala para expelir os comprimidos.

Já posso sentar. Chorar. Consegui; conseguimos. Ela vai viver. Por quanto tempo? Eu não sei ainda, mas essa noite ela vai viver. A dor daquele dia, há exatos três anos, volta sobre meu corpo tenso. Os fantasmas adormecidos me voltam. Os tempos se misturam. Nessa tarde ela me pediu para ir com ela ao médico; eu não pude, não tive tempo. Não fui só eu, mais um e mais outro não puderam. Estava tudo bem naquela hora, mas de repente veio o desespero. As mensagens vieram, o desespero de quem ainda acredita que é possível vencer a si mesmo e um arroubo de desesperança, de dor lancinante. A vida, escondida, clama. Vimos, corremos, chegamos. Três anos antes, ela havia me chamado também. Eu não pude, eu dei bolo, eu dei um cano, eu não fui. Eu recebi mensagens, duras, ásperas. Egoísta, era do que ela me chamou. Me doeu, como sempre. Melhor conversar depois, com calma. Não sabia: não tinha depois. Eu não estava lá. Não teve conversa. Não teve ajuda. A ambulância, o pai, tentaram levar ela. Mas naquela vez não era a primeira, tinha experiência e decisão. Aquele momento se tornou tudo, e não teria o arrependimento. Teria a morte. O arrependimento, se houvesse, não era mais dela. Ela dormia, pela primeira vez sem os pesadelos, nenhum deles.

Foram cerca de dez horas naquela noite, antes que ela pudesse acordar e dizer que não conseguia acreditar que tinha feito aquilo. Ela queria. Queria querer viver. Quantas vezes me "confortei" pensando que a morte estava à espreita? Que se naquela noite estivesse lá, que se tivesse conseguido impedir, que a morte estava à espreita, ainda; imensa, onipotente, iniludível, inevitável. As suas duras palavras ressoavam. Os gestos, as músicas que deixou, o silêncio. A morte venceu, dessa vez. Foram vinte e seis anos até seu triunfo; decisivo, derradeiro. E agora? O que vencia era a vida? Uma prorrogação? Uma chance, um intervalo, uma vida. A morte, à espreita, naquela enfermaria, naquele mundo sórdido. A morte, sobre cada um e todos, e sempre. Nesse mundo, que é feito mais de morte que de vida.

Penso agora no hospital, imaginário, ela acordando. Seria diferente. Uma alegria amaríssima. Pois seria, sem uma triste sombra de dúvida, acompanhada da frustração de seu olhar. "Mais uma vez não consegui", seria o gosto de seu despertar. De quem seria a alegria? Seria talvez, uma alegria egoísta de quem quer manter alguém aqui "apesar de tudo"? A morte estava à espreita já há tempo demais. Tempo demais para que pudéssemos vencer de verdade. O corpo, ele pode ser mantido por anos, décadas. Mas é preciso acreditar que ainda é possível querer viver. Que é possível derrotar os pesadelos, as vozes, as angustias, as tristezas. O peso a esmagar. Por isso, fui solidário. Por isso que disse que não há egoísmo em partir. Por isso, talvez, o preço da alegria nesse hospital - essa alegria que nunca tivemos - fosse grande demais para se pagar. A alegria só é verdadeira quando pode, ainda que posteriormente, ser compartilhada com alguém ainda capaz de olhar para trás e dizer: ainda bem que não consegui. Do contrário, a morte venceu mais uma vez. Seria vida? Seria a luta cotidiana, como todas as outras, apenas com a morte à espreita?

A morte está à espreita, ainda, e sempre. Nessa tarde, poderíamos ter perdido. Mesmo com chances bem melhores de ganharmos, no jogo sempre há o acaso. E poderíamos ter perdido. Vencemos, mas é uma vitória efêmera se não conseguimos seguir lutando, uma vez e sempre. Não pelo corpo, mas pelo espírito. Não por um, mas por todos. Pela ideia, para que ela seja verdadeira, de que, apesar de hoje, apesar de tudo, é possível. É possível querer viver. Não há dia que não se trave essa luta.

terça-feira, abril 14, 2015

Sorriso pré-pronto

misture com sua merda de dia
ferva

em três minutos está pronto.

quarta-feira, abril 08, 2015

Aprender a separação

Três anos se passaram.

Eu perdi cabelo, ganhei peso, terminei o mestrado, mudei de casa, mudei de emprego, comecei a estudar psicanálise, terminei relacionamentos, comecei relacionamentos, parei de tomar remédios, mudei, fiquei o mesmo.


Você não.
Continua cristalizada, eternizada há três anos atrás. Sua carne desfeita, roída por vermes, seu rosto a existir naquelas memórias, as poucas, as persistentes. Seus sonhos, parados, estáticos, por serem sonhados. O tempo não passa mais.

Em três anos continuo a te sonhar, a te chorar. Você continua a ser minha dor, secreta, que diuturnamente me pega a contragolpe, me volta aguda, no nervo, num relance. Num cabelo cacheado, num cheiro, num livro, num filme, num sorriso de alguém novo, num soprar de fumaça. Num desafio a ser feito.

Porra. Queria te contar as novidades... não dá. Não tem mais novidades para você. Você ficaria feliz com elas, eu sei. Com sua voz meio estridente, seu jeito atrapalhado de falar, quantas críticas boas já teriam escapado de sua boca; quantas vezes teria se animado, apesar de tudo, e teria tomado a frente de novo. Aqueles momentos que faziam tudo valer a pena. Sei que eles ficaram ofuscados para você, mas sei também como eles existiam, eram muitos, e o quanto me alegro de ter compartilhado uma porção deles com você. Penso no que estaria fazendo. Estaria ainda na USP? No México? Estudando psicanálise comigo, aprofundando nossa parceria tão forte?

Em cada conquista, em cada passo adiante, você falta. E está lá. Ainda é quem me dá força pra tomar a batalha em dois fronts, no político e no psíquico. Continuo dando a luta que aprendi com você, carregando um sonho que tivemos juntos. Queria ser quadridimensional como um Dr. Manhattan, para poder voltar, tocar seus cachos, seu rosto, suas cicatrizes. Sentir você uma vez mais. Te dizer esse "obrigado" eternamente entalado na minha garganta.

Que merda. Essa dor aqui, indissoluta, indissolúvel, que se mistura aos poucos nesses anos que vão vindo, que vão trazendo uma montanha de coisas, coisas que se acumulam, por cima das velhas memórias, por cima, por cima do que sinto. Do que te sinto. Dessa dor, desse sonho, basilar, subjacente a tudo o que sou e que existe para mim. Esse sonho interrompido, como um suspiro, que, afinal, é do que a vida - não só a sua - é feita, sempre. Esse suspiro entrecortado, abafado pelo ruído de um mundo que nos interrompe.

Lembro que tinha medo de te esquecer. Medo desse futuro tão grande sem você. É horrível pensar que o tempo que decorreu desde que você foi embora é já maior do que o tempo que passei contigo. O tempo que passei com sua ausência é maior que o tempo ao seu lado. Já não consigo mais nem parar um pouco e remoer o passado. Esse luto inconcluso, esse luto permanente.

Esses anos, cada dia, foram de aprender a separação. A separação que nunca termina, que não tem fim. Um aprendizado que, de repente, parece que tenho que começar de novo e de novo, sempre. Não te deixo para trás. Cada coisa nova trás uma ponta de você, dessa marca decantada em mim que é uma parte do que você é agora. Porque agora você é apenas e tão somente as marcas que deixou para trás, e nisso há um orgulho que carrego junto a essa dor: o orgulho de saber que te carrego em tantas marcas; que no que você mudou em mim, você mudou o mundo, e por isso não desisto. Um passo adiante é uma marca sua, que você assina comigo. Que em tantos desencontros faiscaram, angustiaram.

É indelével a dor de ter falhado, de ser humano, de ver no passado o erro que todos carregamos - o erro de sermos, apenas. Os sentimentos mais estúpidos vêm e vão; às vezes, e com frequência, tudo o que sou capaz de fazer é ignorá-los. A vida me dá cada vez menos tempo para visitar a sua memória, e por isso ela, irreprimível, vem me pegar a contragolpe em uma besteira qualquer do dia. Me pego te lembrando, secretamente, no busão, na bilheteria, numa conversa com alguém que nem imagina que você está ali também presente; gente que não te conheceu, que não faz ideia do quanto de mim é também você; do quanto de você vive em mim. Me pego sussurrando desculpas a você, a uma pessoa que não existe. Desculpas por tudo o que não tinha como fazer; desculpas por não ser o que nenhuma pessoa pode ser; e, mesmo sabendo disso tudo, ainda queria encostar no seu ombro e poder sussurrar: "desculpa". Ou, "eu te amo", o que daria na mesma.

Nesses três anos sinto a dor da sua ausência, a marca da sua presença. Não me esqueço, não perdoo esse mundo, e te garanto, ainda e uma vez mais, que não foi em vão que o repouso para suas dores teve que ser tão drástico, tão súbito, tão incontido. Ainda te amamos. Sempre. E não esqueço que você nunca me esqueceria.