sexta-feira, setembro 27, 2013

Piquete do Brás: o dia em que os terceirizados disciplinaram a burocracia sindical

Companheira do call center em apoio à greve dos bancários

São seis horas da manhã quando vou chegando ao piquete do Brás; um grande prédio no qual funciona uma agência mas cuja principal função é administrativa e de sede de um grande call center da Caixa Econômica. Já sabia que seria um piquete diferente do último que participei, o piquete da Sete de Abril no primeiro dia de greve. Algumas mudanças importantes haviam ocorrido desde aquele dia. O piquete da Sete, modesto em suas proporções, havia aberto uma via há muito fechada nas greves dos bancários de São Paulo: a da ação independente e auto-organizada dos trabalhadores a partir das bases. O significado simbólico disto e, principalmente, o potencial latente na hipótese de que este pequeno exemplo se generalize e se torne uma ação comum em toda a categoria ou em parte significativa dela foi algo que caiu como uma bomba no água parada da passividade construída cuidadosamente por décadas da burocracia da CUT. A pequena pedra atingiu esta água e formou ondulações que foram se espalhando por toda a categoria, agitando estas águas calmas. Agora, estas ondinhas chegavam no Brás, já maiores do que no lugar onde a pedra atingiu a superfície da água.

No segundo dia da greve, quando o piquete do Avante Bancários fechou o prédio da Sé, os resultados das perturbações na água parada da burocracia cutista já se notavam. Uma gerente disse: "fiquei sabendo do que vocês fizeram ontem na Sete e não acreditei que era verdade. Agora estou vendo que é." Sim, é verdade. É uma oposição pequena, minúscula. A direção majoritária do PT adora "se gabar" deste fato; nisto, não estão sozinhos: a "oposição majoritária" do Movimento Nacional de Oposição Bancária (MNOB), dirigida pelo PSTU, também se arroga o direito de desprezar aquilo que costumam qualificar como "seita": as agrupações menores de oposição, em sua visão sempre ultra-esquerdistas (ainda que raramente se dediquem a decifrar o conteúdo desta sua crítica). Esta oposição era a pedrinha caindo na água. As pequenas expressões da passividade já mostravam a novidade de tudo aquilo: enquanto estávamos no piquete da Sete no primeiro dia, o camarada Edu ligou pro seu sindicato pedindo um advogado para nos ajudar com a polícia. A secretaria do sindicato tenta entender o que está acontecendo: "Vocês estão no piquete?", pergunta. "Isso", responde Edu. "Mas você trabalha na Caixa?", supreende-se a secretária pela primeira vez, já que os piquetes dos bancários são há décadas feito pelos "terceirizados", gente contratada pelo sindicato para "fazer um bico" piquetando as agências enquanto os bancários vão pras colônias de férias com desconto da APCEF. Edu confirma: ele trabalha na Caixa. "Mas você trabalha nesta agência mesmo?", pergunta a inconformada secretária. Onde já se viu isto? Um bancário fazer um piquete em seu local de trabalho? Ora, mas isto sem dúvida não era coisa do sindicato... é, não era mesmo. Ainda assim, a desconfiada secretária mandou um advogado para averiguar aquela estranha situação de trabalhadores protagonizando a sua própria greve.

Pasmem, ó "históricos" dirigentes do movimento de bancários! Pasme, ó "histórica" oposição bancária: estas pequenas "seitas ultra-esquerdistas", reunidas no Avante Bancários, mudaram alguma coisa na "greve de calendário", com direito a promoção na colônia de férias, piqueteiros "terceirizados", censura a falas na assembleia e o todo o tipo de burocrateadas bárbaras que se possa imaginar na rotina de um punhado de ratos velhos que mama nas tetas do imposto sindical, deitados em berço esplêndido. O piquete da Sé, logo após o da Sete de Abril, mostrou que não se tratava de um importuno episódio: a oposição pela base estava nascendo pra valer. Era necessário mexer o traseiro acomodado da cadeira de burocrata para conter esta semente da discórdia, pronta a brotar no seio do movimento operário e sindical dos bancários. Dito e feito, porque macaco velho da burocracia não vai abandonar "a luta" (leia-se, seus cargos bem remunerados do sindicato) pra um punhado de moleques aparecerem como um setor combativo na "sua" greve: no piquete da Avenida Paulista, o terceiro da greve, lá estava o sindicato e, seguindo-o como "uma sombra à esquerda", o MNOB. Sobre este piquete, não posso dizer muito além disso, porque não estava lá.

Mas era este o cenário político da greve quando me dirigi, na manhã de ontem, para o prédio do Brás. No metrô, já vi algo que podia indicar uma mudança: um militante do PSTU, estudante da USP, sentado no mesmo vagão que eu. "Vai pro piquete, o PSTU está colocando seus estudantes para apoiar", pensei, entusiasmado, sentindo a mudança no ar. Mas quando o trem passou pela Sé, meu engano se desfez quando ele desceu; devia estar indo pro trabalho. Por isto, não pensei que seria nada diferente quando desci no Brás e avistei, do outro lado da rua, Altino, presidente do Sindicato dos Metroviários e militante do PSTU. "Deve estar indo pra outro lugar...". Desta vez, subestimei-os: Altino estava indo para o piquete. E quando cheguei lá, muitos rostos desconhecidos estavam já em frente aos quatro acessos ao prédio.

Altino, presidente do Sindicato dos Metroviários, no piquete do Brás

Aos poucos, com a ajuda de meus camaradas, fui conhecendo suas filiações partidárias, sindicais, ideológicas: diretores do sindicato do PT e da CUT, oposicionistas do PSTU, militantes da ASS, MR e outras agrupações que compõem conosco o Avante Bancários. No total, mesmo com esta "disposição para a luta" demonstrada pela direção e oposição, nossa "pequena seita ultra-esquerdista" ainda era maioria no piquete, e a única organização que havia mobilizado a juventude e os estudantes para apoiar ativamente a luta. Segundo me informaram, poucos efetivos trabalhavam no prédio; mas cerca de mil terceirizados do Call Center se dividiam pelos turnos. E logo começaram a chegar. A imensa maioria eram mulheres, jovens e negras: os rostos de sempre quando falamos dos trabalhos mais precarizados. E é disto que se trata no call center de um banco: setecentos e poucos reais por mês, cinco e cinquenta de vale alimentação, sem direito a faltas, sem direito a pausas para ir no banheiro, tempo contado em vinte minutos para o almoço (com 500 funcionários e 3 microondas para esquentar a comida!), assédio moral generalizado, metas de vendas sem comissão (mas com "brindes", como ingressos pro cinemark!), vale creche de 130 reais (que era necessário comprovar a necessidade todo mês com firma reconhecida em cartório!)... enfim, mesmo a lista apenas das coisas que ouvi hoje já é grande demais para colocar aqui, mas acho que deu pra entender o espírito da coisa. Tudo isto para vender a pessoas coisas que elas não querem e não precisam, tentando bater mil metas que não interessam a nenhum ser humano exceto os banqueiros e seus comparsas.

As primeiras trabalhadoras se surpreenderam pelo fato de que não as deixaríamos entrar: afinal, a greve era dos bancários, e elas eram do call center. Enquanto conversávamos tranquilamente com elas, tentando dizer porque deveria ser uma luta de todos e a necessidade de unificação, os burocratas do sindicato chegaram junto querendo "mostrar serviço" no piquete, tratando-as da mesma forma que tratariam um efetivo fura-greve, sem agressões mas de forma impositiva, simplesmente informando que não iriam entrar... Contudo, bem distinto foi a postura que vi estes senhores terem alguns minutos depois, quando apareceu o gerente geral do prédio, ou ainda com o gerente de pessoal que já estava dentro do prédio antes das quinze pras seis, quando o piquete começou: muitas piadinhas amigáveis, risadas, uma relação curiosamente fraternal para quem está do outro lado da greve. E era assim: os militantes do MNOB extremamente cordiais com aqueles mesmos burocratas que vetam a palavra aos bancários nas assembleias utilizando bate-paus contratados do sindicato; os diretores do sindicato, por sua vez, extremamente amáveis com a chefia que impõe metas, assédio moral, super-exploração sobre os funcionários. Vendo aquilo, parecia até que a greve e o piquete eram uma encenação para eles, uma obrigação a cumprir no dia, depois da qual todos poderiam perfeitamente se sentar numa mesma mesa de bar para uma boa conversa. Se é isto que é luta de classes, eu acho que toda minha "inexperiência" me ensinou coisas bem malucas e esquisitas nas greves da USP ou nas leituras da história do movimento revolucionário que talvez tenham que ser rebatizadas com algum outro nome!

Terceirizadas do call center do turno da manhã começam a se juntar na praça em frente ao prédio
As trabalhadoras terceirizadas foram para o outro lado da rua e começaram a se juntar por lá, primeiro cinco, depois quinze...logo eram centenas. São umas sete da manhã quando a burocracia liga o "seu" som. Se no primeiro dia de greve tivemos que recorrer ao Centro Acadêmico de Letras da USP para poder ter uma mera caixa de som no piquete da Sete, ontem o cenário era um bocado diferente. Uma tenda montada em frente ao prédio com duas belas caixas de som apoiadas em pedestais; microfone, mesa de som, um operador para o equipamento; além disso, ganhamos lanchinhos (suquinho de caixinha, sanduíche de peito de peru com queijo e maçã, tudo embaladinho num saquinho), café e água à vontade.
Lanchinho também "terceirizado" do sindicato para o piquete

É triste como todo o aparato do sindicato é na realidade de seus diretores (leia-se burocratas), estando à disposição quando eles querem. Comendo aquele lanchinho me lembrei do simples "x-greve" do sintusp: um pão com manteiga, ou mortadela, ou queijo ou um patê. Nos dias "de luxo", era com salsicha. Comíamos todos juntos, trabalhadores e estudantes, terceirizados e efetivos, e até mesmo os poucos professores que apareciam por lá. Na greve dos bancários, contudo, os terceirizados do outro lado da rua não receberam uma sacolinha com lanchinho... até nas pequenas coisas o sindicato naturaliza a divisão da classe.

Abre-se o microfone e o primeiro a falar é um burocrata jovem, em formação ainda. Sua fala, bastante ruim em geral, me chamou a atenção pelo conteúdo de sua denúncia à terceirização: centrava-se no questionamento à Lei Mabel (PL 4330), cujo objetivo é o de ampliar a terceirização para as chamadas "atividades fim", ou seja, tirá-la do âmbito das funções que a justiça burguesa resolveu classificar como "menos importantes", como a limpeza, segurança, call center e passar para bancários diretamente, no caso desta categoria, impondo uma nova divisão que passa da já aplicada hoje no seio da categoria para uma nova que divide até mesmo os que dentro de uma categoria exercem uma mesma função. É evidente que o combate à Lei Mabel é uma tarefa fundamental de qualquer trabalhador, mas o relevante neste caso é o corporativismo do burocrata da CUT, que pensa apenas na sua "base eleitoral" que pode perder o emprego por causa da nova lei. E as centenas ali do outro lado da rua, para quem a Lei Mabel não muda nada e que hoje já sofrem os efeitos da terceirização? Para eles algumas palavras ao vento sobre como é duro seu trabalho...

Edison, delegado sindical da Caixa e militante da LER-QI e da agrupação Uma Classe, pega o microfone em seguida para se dirigir justamente às terceirizadas, falando da necessidade de unificar a luta e que o sindicato passe a lutar pela efetivação sem concurso público, garantindo os mesmos direitos e salários para as trabalhadoras do call center. A fala é aplaudida por elas, mas moderadamente. Acho que pensaram que se tratava de mais um demagogo sindical ou algo assim. Contudo, depois que passamos conversando pessoalmente com elas nos pequenos grupos, alguma coisa parece mudar.

Taís, delegada sindical da Sé e militante do Uma Classe, conversa com as terceirizadas
A próxima fala é bastante aplaudida quando se refere às condições de trabalho dos terceirizados. As trabalhadoras do outro lado da rua começam a ver que aquele evento pode não se tratar apenas de uma paralisação dos bancários que as deixe do lado de fora, mas pode ser uma oportunidade para que, sob a cobertura democrática da greve de uma categoria mais forte e estável, elas possam começar a colocar suas demandas e construir uma unidade. Mas não é apenas nelas que se opera uma mudança: mais uma vez os macacos velhos da burocracia veem que é o momento de relocalizar seu discurso velho e gasto. Como uma ameba fagocitando ao seu redor, os burocratas sentem a ameaça de centenas de trabalhadoras simpatizando com a "seita ultra-esquerdista" e o perigoso potencial desta união, e começam a incorporar no seu discurso a luta pelos direitos dos terceirizados.

O piquete vai se mostrando como uma frente-única com um delicado balanço de forças, na qual existe um constante tensionamento entre as forças políticas que a compõem para disputar seus rumos; nós conseguimos ir empurrando o sindicato à esquerda em seu discurso, mas sem esquecer em nenhum momento que se tratam de agentes da burguesia no movimento operário; nos aproveitamos das brechas: nossa camarada Virgínia é vetada de fazer uma fala pelo Pão e Rosas; Edison pega o microfone para falar e passa para nossa camarada. O burocrata não pode - pelo menos naquele espaço - arrancar o microfone à força de sua mão. Um sorrisinho irônico e um tapinha nas costas de Edison são a sua resposta, como quem diz: "aproveita aqui que você pode fazer isto, e espera até a assembleia pra ver quem que manda". Meu camarada permanece impassível, sem responder nada à provocação. São sutilezas que denotam um abismo entre as concepções de nossa organização e a de outras; a convivência pacífica do PSTU com a burocracia sindical denota isto: tapinhas nas costas de um lado a outro, acordos feitos por cima. Edison se aproveita da correlação de forças favorável que é garantida não por nossa pequena corrente, mas pelas centenas de trabalhadoras do outro lado da rua. É assim que os revolucionários "negociam": apoiando-se na força que os próprios trabalhadores tem para garantir espaços em que se manifestem suas demandas; o PSTU, pelo contrário, conta com a força dos aparatos e negocia o que estes lhe permitem. Por isto é capaz de dirigir oposições tão imensas quanto inofensivas, não só em bancários mas em outras categorias fundamentais como a de professores. Por isto sobem em palanques e carros de som abraçando nossos inimigos de classe, como o Paulinho da Força. Não compreendem que temos, sim, que fazer frentes-únicas com estes burocratas, mas que seu principal objetivo é desmascará-los, e que justamente por isto estas frentes-únicas não podem se formar a partir de acordos "por cima", baseados em quem tem mais ou menos aparatos sindicais, mas devem ser formadas a partir das bases, a partir da força que tem os trabalhadores para impor que os burocratas tenham que "fazer uma pose" mais de esquerda em nome de manter seus cargos.



Era exatamente isto o que acontecia no piquete do Brás: uma correlação de forças inusitada era garantida para nossa pequena agrupação na frente-única graças às centenas de terceirizadas que se aglomeravam na praça; elas garantiam que pudéssemos falar e o que podíamos falar. Edison, por exemplo, não chega em sua fala a expor os podres da burocracia sindical abertamente, mas na verdade o faz em forma de exigência: "Trabalhou em banco, bancário é, diz o lema", ele se apóia aqui nas palavras ao vento do próprio sindicato, "é preciso colocar em prática, e para isto temos que lutar pela efetivação dos terceirizados sem concurso público". Ele não deixa de falar que o sindicato é formado por burocratas parasitas porque está capitulando, mas porque a correlação de forças não permite que o faça, e isto porque as trabalhadoras do outro lado da rua - ao menos em sua maioria - não sabem ainda que o sindicato dos bancários é formado por parasitas; falta-lhes a experiência para que saibam disto. Neste caso, a atuação de um revolucionário é para acelerar esta experiência, mostrando nos fatos que a burocracia não quer efetivamente defender os terceirizados. Dissesse o Edison: "Este sindicato dos bancários é composto por uma burocracia governista e pelega, que não move uma palha sequer para defender efetivamente os interesses dos terceirizados!", esta fala jogaria em favor dos burocratas e serviria para não mais do que o consumo próprio da consciência de seu falante, que poderia se consolar dizendo "puxa, como sou de esquerda!". As trabalhadoras não iriam achar o sindicato mais pelego por causa disso, mesmo porque em seguida os burocratas fariam falas inflamadas em defesa de seus direitos (como de fato o fizeram) e a maioria das trabalhadoras pensaria: "nossa, aquele cara que falou antes era meio louco, né?" E seria muito mais fácil para o sindicato simplesmente não dar mais o microfone para o Edison, porque as trabalhadoras se sentiriam bem pouco propensas a defender seu direito de falar.

Quando Edison se apóia no lema do próprio sindicato e, se possível, nas palavras dos próprios burocratas, e aponta que para ser consequente com isto o sindicato deve defender a efetivação, então ele coloca os burocratas contra a parede: eles podem defender a efetivação no microfone, e isto é uma nova arma para exigir deles a prática e denunciá-la se não for feita; ou eles podem manter suas palavras ao vento sem a efetivação, e aí torna-se mais fácil mostrar para os trabalhadores que são palavras ao vento. E quem disciplina o sindicato é a unidade entre as trabalhadoras terceirizadas do outro lado da rua, e a expressão consciente de suas demandas através de um programa, feita nas falas de Edison, Taís, Virgínia e outros camaradas que, neste caso, estão em uma situação em que o sindicato dificilmente poderá chamá-los de "seita ultra-esquerdista", mas, pelo contrário, tem é que assimilar muito de seu discurso para ficar "bem na fita" com as centenas de trabalhadoras do outro lado da rua.

E é por isto mesmo que chegam ao ponto, em outra circunstância impensável, de abrir o microfone para que uma das próprias trabalhadoras se manifeste. E que manifestação! Quando a trabalhadora toma o microfone em suas mãos, palavras há muito guardadas para serem ditas aos quatro ventos saem com uma fluência extraordinária. As condições de trabalho absurdas a que são submetidas estas mulheres subitamente se espalham pelos quatro cantos da praça através da caixa de som do sindicato. As mulheres do call center, acostumadas a terem sua voz calada e seus direitos esmagados sob o peso da patronal, vibravam ao ouvir seu suplício diário ecoar na voz da sua companheira. Os burocratas do sindicato, calados, acompanhavam as trabalhadoras para não serem atropelados por elas...



Depois, o gerente do call center aparece na porta de entrada das trabalhadoras (sim, até uma porta diferente de entrada elas têm!) e tenta avaliar a "razoabilidade" dos grevistas: "Olha, eu tenho uma empresa que presta serviço aí e as trabalhadoras precisam entrar". "Então, não vai dar, estamos em greve." respondemos tranquilamente. "Sim, mas a greve é dos bancários, elas são de outra empresa." Edison dá uma de "joão-sem-braço" e explica ao senhor gerente o be-á-bá do seu trabalho de explorador, deixando didaticamente claro que se o fulano ajoelhasse e implorasse não faria a menor diferença: "Só que esta coisa de ter outra empresa é o que o banco faz pra dividir e enfraquecer a nossa luta, então não vai poder entrar." O gerente entendeu o recado, e sem nenhuma sombra de diplomacia dá às costas aos seus inimigos e vai procurar outros meios de resolver os problemas. Afinal, ele não se tornou gerente por insistir em métodos ineficazes de resolução dos problemas.

Gerente do call center tenta usar seu telefone para fazer um milagre e explorar as trabalhadoras mesmo com o prédio fechado...ele não conseguiu, tadinho, e teve que dispensar elas.
Assim, o dia transcorre, e os burocratas do sindicato, tomado de uma incrível consciência de classe, cercam as terceirizadas de solidariedade, de atenção, como se desde sempre tivessem se importado com seus problemas. Vejo-os anotando seus problemas, garantindo assistência... sinto-me na necessidade de alertá-las sobre o que há de fundo em "tanta amizade". Contudo, a conversa que tenho com as que conheci mostra que elas já estão é bem calejadas com a burocracia. Falam de experiências com seu próprio sindicato e quando explico porque está tendo piquete ali, por causa da pressão do Avante Bancários, ela dizem: "É, dá pra ver mesmo porque nenhum outro dia de greve teve piquete aqui." Me perguntam se no dia seguinte o piquete vai continuar e, por mais que eu queira dizer que sim, nossas forças ainda não podem garantir isto. Continuaremos no piquete rotativo, pelo menos por enquanto...

Sindicato dá lanche para as trabalhadoras terceirizadas que ficaram por ali, como parte da "súbita consciência de classe" dos burocratas da CUT.
Quando estamos ali em frente ao prédio, de repente recebemos um bilhete jogado pela janela: é um pedido de socorro. Em algum momento que não se sabe onde, e por alguma porta que não se sabe qual, os patrões conseguiram colocar as trabalhadoras terceirizadas da Brasanitas, empresa de limpeza e manutenção que atua no prédio, para dentro. E, claro, exercendo seu direito de patrão não iriam deixá-las ir embora pelo mero fato que que todo o prédio estava fechado e não havia mais ninguém lá dentro, tornando o trabalho delas absolutamente dispensável. Ora, se o patrão pagou, ele quer o trabalho feito, mesmo que não haja trabalho para fazer! Infelizmente, não tínhamos como resgatar os poucos trabalhadores que lá dentro eram obrigados a cumprir seu turno... eles saíram apenas algumas horas depois.

Bilhete dos trabalhadores da Brasanitas que foram forçados a permanecer dentro do prédio pela patronal
No turno da tarde, o mesmo se repete. Centenas de trabalhadoras se juntam, a gerente se descabela tentando fazer todo mundo entrar, e no fim são todas dispensadas. Eu, neste momento, acompanho tudo por informes, porque estou na entrada lateral, onde não acontece muita coisa fora uma ou outra pessoa que tenta entrar de carro e é dispensada por nós. Converso com companheiros sobre a greve, sobre a revolução russa, sobre o movimento estudantil e vejo o dia passar no nosso posto de guarda.

Turno da tarde do call center se junta em frente ao prédio.
No fim da tarde vamos embora. Como no piquete da Sete, este não foi mais um mero dia de paralisação de um prédio. Para além dos milhões em prejuízo que demos ao banco, algo mais importante aconteceu ali: uma aliança pequena, pontual, entre estudantes, trabalhadores efetivos e terceirizados; uma aliança entre revolucionários e trabalhadores precarizados; uma aliança que, em seu pequeno momento, disciplinou uma poderosa burocracia no controle de um imenso aparato, a defender os interesses dos terceirizados para não perder o bonde. É pequena, mas é um exemplo. Um exemplo de que quando colocamos o marxismo em prática, na luta de classes, com uma atuação e uma estratégia para vencer, mesmo um grupo tão pequeno que é abertamente chamado de "seita ultra-esquerdista" pode fazer a diferença. E, sem dúvida, esta pequena diferença foi só o começo. E uma boa parte das trabalhadoras que ali estiveram mudaram sua cabeça e irão por mais. Nós estaremos ao seu lado, ombro a ombro, em cada pequeno combate, construindo a ferramenta que vai poder levar esta luta à vitória: o partido revolucionário.

Juventude às Ruas guardando a porta lateral do prédio da Caixa.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Uma greve, uma reação



Sete horas da manhã na porta da Agência Sete de Abril, no centro de São Paulo. Primeiro dia de greve dos bancários em todo o país, uma chuva cobre a cidade desde a madrugada, e minha casa amanheceu sem luz. Em uma manhã tão boa para ficar embaixo dos cobertores, eu e mais alguns camaradas da Juventude às Ruas da USP e Metroviários pela Base fomos apoiar os trabalhadores da Sete, que desde 2011 passaram a combater a passividade construída por décadas de uma direção sindical parasitária e acomodada, que está lado a lado com o governo que há mais de dez anos garante lucros recordes para os banqueiros brasileiros.

A burocracia sindical da CUT está há décadas encastelada no sindicato graças à estrutura sindical que existe no Brasil desde a época de Getúlio Vargas e suas reformas sindicais que atrelaram os sindicatos ao Estado, e também aos parasitas que hegemonizaram o PT, transformando um dos maiores partidos de trabalhadores criado no país em um mero aplicador das políticas da burguesia. Parasitas bem remunerados, que há anos não trabalham e vivem do imposto sindical e de fazer acordos com a patronal, fazendo de tudo para impedir a organização política independente dos bancários. Suas greves de calendário são uma triste rotina do movimento sindical brasileiro. Nelas, o sindicato contrata funcionários para fazer sua "greve terceirizada": eles passam nas agências, colam adesivos de greve e faixas, às vezes colocam um "piqueteiro terceirizado" para ficar na frente da agência por 50 reais! E só para ilustrar a seriedade com a qual estes dirigentes encaram a mobilização dos bancários, por uma "coincidência" incrível a APCEF (Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal) está fazendo uma "promoção relâmpago" das suas colônias de férias na semana em que se inicia a greve!!! Por isto, quando dizemos que é uma passividade construída, não estamos dizendo à toa: o interesse material dos parasitas do sindicato é que os trabalhadores continuem reféns de suas negociações com a patronal sem nenhuma interferência da base, e colocarão todos os seus recursos a serviço de atingir este fim. Mais uma mostra disso é a "democracia" que garantem nas assembleias dos bancários, contratando bate-paus para impedirem os trabalhadores de falarem e, quando a correlação de forças não permite que impeçam a oposição de se manifestar, eles colocam seus "funcionários" para vaiar, como na assembleia do dia 12/09.

A Sete de Abril quer ser tudo o que a burocracia petista não quer: uma agência que se organize desde a base para colocar os trabalhadores como sujeitos de sua greve; uma agência que faça de seus bancários verdadeiros tribunos do povo, lutando contra a precarização do atendimento aos clientes e unificando a luta salarial pela luta política contra os banqueiros seus governos que defendem seus lucros a ferro e fogo; uma agência em que os efetivos lutem pela unificação com os terceirizados, por sua efetivação e contra a super-exploração dos trabalhadores das lotéricas que tem que cumprir função de bancários por um terço dos salários; uma agência que combata a burocracia sindical e a polícia, resgatando os métodos históricos de luta dos trabalhadores; uma agência, enfim, que ultrapasse as greves fajutas das data-base e alce a luta pontual dos bancários a um verdadeiro embate entre classes: bancários e clientes contra banqueiros e governos. Foi com esta moral e este método que paramos a sétima agência mais lucrativa da Caixa em todo o país, para desgosto dos capitalistas, dos burocratas, dos policiais, dos reacionários.

É por isso que participar do Piquete da Sete é uma experiência tão recompensadora e desafiadora. E não tardou para que a combatividade dos trabalhadores da Sete e do Avante Bancários provocasse a reação dos que veem na luta dos trabalhadores uma ameaça. Aproxima-se do piquete uma senhora, que manifesta seu desejo de entrar. Nós, como fizemos em todos os casos anteriores, explicamos que a agência está fechada, e ainda indicamos que na da República está funcionando o auto-atendimento. Quase todos que passaram por lá agradeceram a informação e andaram um quarteirão para utilizar a outra agência (entupindo os fura-greves de trabalho extra). Mas não esta senhora. Para ela, é uma questão de princípios, de direito, de dignidade. Se as máquinas estão ligadas, ela tem o direito de entrar. Nós explicamos, calma e pacientemente, que não: os funcionários estão em greve. Mas é o caixa-automático, explica ela. Mas ele é operado por pessoas, explicamos nós.

O diálogo chegou ao seu limite, ela não vai arredar pé de seu "direito", e anuncia que respeita o direito de greve dos trabalhadores e que eles devem respeitar o dela. Como ela própria afirmou posteriormente, sua posição cabe no chavão: o meu direito acaba onde começa o direito do outro. É assim que a burguesia liberal cunhou sua noção de liberdade, pois os direitos dos trabalhadores de uma vida digna acabam onde começa o direito à propriedade privada. Para os comunistas é o inverso: o meu direito começa onde começa a liberdade e o direito do outro. A liberdade entre os indivíduos não é fruto de uma competição, mas de uma cooperação, onde a sua liberdade me torna mais livre e vice-versa. Um pensamento tão simples e verdadeiro, que contudo nunca caberia na cabeça daquela mulher, moldada por um mundo com muitos direitos para poucos e poucos direitos para muitos.

Ela pega seu telefone. Adivinhando sua intenção, eu lhe informo: "tem uma viatura ali do outro lado da rua". É exatamente para lá que ela vai. Nos divertimos vendo a cara de desgosto do policial que tem sua ociosidade interrompida pela mulher que se recusa a andar mais um quarteirão para usar o caixa eletrônico (é uma questão de direitos!). Depois de um tempo e muita encheção de saco, ela convence o policial a "servir e proteger"...o direito de afrontar uma greve. Chegam mais viaturas, os policiais se aproximam, pedem pelo líder. Nosso camarada Edison, militante da LER-QI e do Uma Classe, delegado sindical da Sete, se apresenta.


Ouvimos a boa e velha ladainha que todos os coxinhas devem aprender no seu manual de adestramento de cães de guarda: a greve é um direito que ele não contesta; mas ele está lá para fazer cumprir a lei, e a mulher tem o direito de entrar. Ele, inclusive, também garante o direito dos bancários fazerem greve (será que ele realmente espera que alguém acredite nisso?). Escolhemos um argumento bastante simples e compreensível: não adianta ela usar o caixa, os operadores deles não vão trabalhar. O policial retruca: "Mas o caixa é automático". Sim, mas alguém opera ele! "Ah, você quer dizer que quando alguém pede dinheiro fica uma pessoa ali pra dar o dinheiro?" Provavelmente o policial, em toda a exuberância do funcionamento de seu cérebro de assassino fardado, imaginava um homem - talvez um anão - dentro da máquina enfiando cédulas. O coitado não consegue imaginar a diferença entre "automático" e "mágico"; não entende que a máquina não fabrica dinheiro, não processa os depósitos, e não prescinde do trabalho de um ser humano que a opere. Este argumento custou a entrar em sua cabeça. Minha vontade - evidentemente e infelizmente não realizada - foi de lhe dizer: "bom, chamam sua pistola de automática, mas mesmo assim precisam de um imbecil como você operando ela para que possa matar. É a mesma coisa com o caixa: ele chama automático mas são pessoas que operam ele. A diferença é que ele não mata e é operado por trabalhadores, não por assassinos". Acho que seria didático e ele entenderia na hora, mas me custaria mais problemas do que tentar fazê-lo entender por outras formas mais sutis.

Por trás desta pequena "ingenuidade" do soldado servidor da lei está, no entanto, algo muito mais significativo do que a sua mesquinha estupidez: está o processo ideológico que desde sempre se utilizou para esconder a verdade elementar de que a produção de tudo o que existe depende exclusivamente do trabalho de mulheres e homens explorados cotidianamente. Começa com o fetiche da mercadoria, em que o trabalho humano aplicado na produção de todas as coisas está distante de nossos olhos e de nossa mente: as coisas parecem surgir como um passe de mágica (como o dinheiro no caixa-eletrônico!); nos últimos trinta anos, o discurso permanece o mesmo mas ganha nova roupagem: as máquinas fazem tudo, não há mais trabalhadores. Procura-se dizer que a classe trabalhadora não existe mais. A academia vomita este senso comum burguês como uma verdade inabalável. A polícia o mastiga de forma rudimentar no piquete da Sete, enquanto ameaça levar todo mundo pra delegacia. Mas quando os trabalhadores decidem se organizar e passam a confiar nas suas próprias forças, já não é mais tão fácil convencê-los de que eles não podem. Eles descobrem que podem muito mais do que sempre lhes disseram.

Em meio ao discurso da mulher, que agora se revelou uma advogada (tá explicada a fixação pelos "direitos"!), repassa seus argumentos. Exclama, entusiasmada: "vocês não sabem a força que têm, deveriam estar em outro lugar." Mas acho que quem não sabia a força do piquete da sete era ela... "Eu nem discuto o direito de greve de vocês, mas tem que respeitar o meu direito. Se o caixa está ligado, eu tenho direito de usar". Ou seja: respeito o direito de greve, contanto que ele não paralise a produção; em outras palavras, respeito seu direito contanto que ele não sirva para nada. Ela não discutiu mesmo o direito de greve: para fazer isto ela contou com a polícia; eles teriam argumentos mais persuasivos...

Mas o verdadeiro conteúdo social de sua revolta se expressou mesmo na seguinte colocação: "Se estivesse fechado o banco, aí seria outra coisa. Mas vocês que estão impedindo a passagem!" Ah! Agora eu entendi! Se fosse a patronal fechando o banco e impedindo os clientes de usar o serviço, não tem problema. O problema mesmo é que os trabalhadores estavam se organizando para parar o banco; o problema mesmo é que os trabalhadores tiveram a petulância de afirmar que são eles os produtores, e por isto podem controlar a produção. Por isto ela não podia andar um quarteirão a mais para usar o caixa eletrônico! Porque a realidade é que é uma questão de classe, e não de quarteirões ou "direitos" em abstrato. Com sua licença, chamo aqui o camarada Lenin e um trecho de seu texto "Sobre as Greves" para explicar melhor:

"Mas as greves, por emanarem da própria natureza da sociedade capitalista, significam o começo da luta da classe operária contra esta estrutura da sociedade. Quando operários despojados que agem individualmente enfrentam os potentados capitalistas, isso equivale à completa escravização dos operários. Quando, porém, estes operários desapossados se unem, a coisa muda. Não há riquezas que os capitalistas possam aproveitar se estes não encontram operários dispostos a trabalhar com os instrumentos e materiais dos capitalistas e a produzir novas riquezas. Quando os operários enfrentam sozinhos os patrões continuam sendo verdadeiros escravos, que trabalham eternamente para um estranho, por um pedaço de pão, como assalariados eternamente submissos e silenciosos. Mas quando os operários levantam juntos suas reivindicações e se negam a submeter-se a quem tem a bolsa de ouro, deixam então de ser escravos, convertem-se em homens e começam a exigir que seu trabalho não sirva somente para enriquecer a um punhado de parasitas, mas que permita aos trabalhadores viver como pessoas. Os escravos começam a apresentar a reivindicação de se transformar em donos: trabalhar e viver não como queiram os latifundiários e capitalistas, mas como queiram os próprios trabalhadores. As greves infundem sempre tal espanto aos capitalistas porque começam a fazer vacilar seu domínio. “Todas as rodas detêm-se, se assim o quer teu braço vigoroso”, diz sobre a classe operária uma canção dos operários alemães. Com efeito, as fábricas, as propriedades dos latifundiários, as máquinas, as ferrovias, etc, etc, são, por assim dizer, rodas de uma enorme engrenagem: esta engrenagem fornece diferentes produtos, transforma-os, distribui-os onde necessário. Toda esta engrenagem é movida pelo operário, que cultiva a terra, extrai o mineral, elabora as mercadorias nas fábricas, constrói casas, oficinas e ferrovias. Quando os operários se negam a trabalhar, todo esse mecanismo ameaça paralisar-se. Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários, que proclamam seus direitos com força crescente. Cada greve lembra aos operários que sua situação não é desesperada e que não estão sós."
E é por isso que o pequenino exemplo do Piquete da Sete tem que ser combatido tão decididamente, e logo eram quatro a cinco viaturas em cima de nós. Tomam o RG de Edison bem como o meu, pedido pelo coxa porque eu estava filmando ele "sem autorização". Ameaças, intimidações: "Quantos são? Ah, quatro viaturas dá pra levar todo mundo." Os bancários da Sete conseguem convencer a gerente geral a trancar a porta da agência, e nós liberamos a entrada para que a mulher passe. Triunfalmente, a advogada avança rumo à porta e aperta o botão para abrí-la: nada acontece. "Não é justo! Vocês pediram para eles trancarem!" Pobre reacionária...vai para casa com uma lição: a unidade dos trabalhadores tem força política concreta, que nem sempre a força das armas pode derrotar. A verdade é que a gerente da agência foi obrigada a fechar a porta porque dependia dos trabalhadores para tudo, e não lhe restava opção neste caso a não ser ceder. Não só é justo, como é necessário que os trabalhadores imponham sua força sobre quem os explora.

Mas não acaba por aí. Era uma questão de direitos, e por isso a advogada irá levar sua cruzada anti-greve até o fim: exige dos policiais que levem o delegado sindical para a delegacia para prestar esclarecimentos. Isto nos é informado, justamente quando Edison fazia uma fala no microfone aberto que nos acompanhou no piquete. A denúncia é imediata (em breve postaremos vídeos das falas) sobre a tentativa de cercear o direito de greve, e no microfone ela toma a Sete de Abril e intriga os passantes, que a esta altura se perguntavam o que era a confusão. Não é difícil para nenhum trabalhador honesto entender, e não foi difícil para Edison explicar aos que passavam ali no horário de almoço, que a greve dos bancários - se consegue passar por cima da burocracia sindical, da polícia e dos patrões - só pode beneficiar o conjunto da população pobre e dos trabalhadores. A denúncia da tentativa de prisão teve repercussão imediata, e o tenente-qualquer-coisa imediatamente aborda outro camarada nosso: "Não! Veja bem, não se trata de desrespeitar o direito de greve". Bom, é isso que está parecendo... Rapidamente os policiais retrocederam, entregaram contrariados nossos documentos e ouviram calados as denúncias do ataque ao direito de greve, à violência policial contra o povo negro muito bem colocada pela Marcela... Eles também aprenderam uma lição sobre correlação de forças...

Hoje, a greve e o Piquete da Sete deixam uma conquista que vai muito além de um dia de caixa eletrônico fechado; este dia é uma vitória moral destes trabalhadores e da juventude que esteve ao seu lado, saímos do piquete com disposição redobrada de continuar nos organizando a partir de cada local de trabalho e estudo, de transformar nossos pequenos triunfos em grandes exemplos, de lutar contra a polícia, os patrões, os governos e a burocracia sindical!

Todo apoio à greve dos bancários!

Pelo salário mínimo do DIEESE (cerca de R$ 2.700)!

Contratação imediata de funcionários para acabar com as incontáveis doenças causadas nos bancários pela superexploração e acabar com as intermináveis filas que enfrentam os trabalhadores nas agências!

Fim da terceirização nas agências e nas casas lotéricas, onde os trabalhadores são forçados a fazer o mesmo trabalho por um terço do salário! Efetivação de todos os terceirizados sem concurso!

Pelo fim do lucro dos banqueiros à custa de nosso suor! Estatização dos bancos sob controle dos trabalhadores! Crédito barato para todos os trabalhadores e o povo pobre! Fim das taxas absurdas!

Pelo direito de greve! Não à repressão da polícia aos piquetes! Fora burocracia dos sindicatos!

quinta-feira, agosto 29, 2013

Medicina, racismo e elitismo no Brasil: uma combinação de classe feita para matar



Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõem a partir da aparência... coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo.

- Michele Borges, jornalista em seu Facebook.

Eu estive lá, eu vi de perto quem são e como se formam as pessoas que se juntaram por um instinto de auto-defesa corporativa para chamar os médicos cubanos de “escravos”. Passei mais de um ano estudando medicina com estas pessoas, e posso afirmar que foi uma experiência que marcou minha vida. Me ensinou muito concretamente algo que eu viria a aprender teoricamente apenas alguns anos depois: que a sociedade em que vivemos é dividida em classes, com interesses antagônicos e irreconciliáveis.

Quando estive em uma faculdade privada de medicina, a Unisa, nos anos de 2003 e 2004 eu não era comunista. Estava muito longe disso. Era petista, acreditava que a única possibilidade que restava à humanidade era fazer do capitalismo o menos pior que ele pudesse ser. A verdade é que eu pensava assim porque havia crescido e passado toda a minha adolescência na bolha da pequena-burguesia, e isto me impedia de ver o mundo tal como ele é; contudo, todo tipo de alienação e limitação em minha visão política que eu pudesse ter por conta de minha condição de classe era algo que se relativizou muito quando entrei na medicina: para os parâmetros de lá, eu era um subversivo total. Eu não sabia disto até o primeiro dia de aula...

Meu primeiro “ato subversivo” na faculdade foi ter cabelo comprido. Segundo fui informado aos berros por um estudante do sexto ano, que insistia também que eu “não tinha direito” de olhar para seu rosto enquanto ele falava comigo porque eu era um “bixo”, o fato de eu ter cabelo comprido não apenas não era uma “postura adequada” para um profissional médico, como também um ato de arrogância, afinal “quem eu pensava que era” para não cortar o cabelo como todo mundo havia feito. Estas duas “acusações” me foram repetidas algumas dezenas de vezes nos meus primeiros dias na faculdade, quando eu era literalmente escoltado por dois seguranças privados entre os três que haviam sido contratados pela faculdade para “impedir trotes” depois que a Unisa foi processada pelos pais de uma caloura, e que outro calouro teve queimaduras na virilha após terem jogado querosene nele porque ele era um “bixo rebelde”. Quando me acusavam de “arrogante” porque eu supostamente “me achava melhor do que os que haviam cortado o cabelo”, a minha resposta era bastante simples: “mas eu acho que ninguém deve ser obrigado a cortar o cabelo”. Meus “superiores” da faculdade ficavam estupefatos...acho que nunca tinham pensado em uma possibilidade tão subversiva! Como assim? É a tradição! Você entra, toma trotes e depois os aplica. Assim você aprende quem manda e quem obedece. E você obedece para depois mandar. É a hierarquia.

O racismo nojento que se expressou nos gritos de “escravos” contra os médicos cubanos tampouco é incomum e para mim não foi novidade. Basta dizer que os trotes contra os calouros são aplicados até o dia 13 de maio, pois é o dia da “libertação dos escravos”. Na visão dos estudantes de medicina, é claro, apenas uma “piadinha inocente” com a carnificina secular à qual submeteram o povo negro.

Vou poupá-los de um tanto de histórias semelhantes que seriam suficientes para um livro e contar apenas mais dois episódios: um deles se deu quando eu cometi o erro de ir a uma “confraternização” da faculdade, fora do campus, onde eu estava totalmente à mercê dos imbecis, cuja opinião sobre mim àquela altura (minha fama de “pau no cu”, como eles diziam para se referir a quem não se adequasse às suas regras e hierarquias, já havia corrido os quatro cantos da faculdade) não devia ser nada melhor do que a que têm sobre os médicos cubanos. Depois de ser submetido a algumas rodadas de cerveja na cabeça, de ser obrigado a beber cerveja com meu próprio cabelo cortado dentro dela, de ouvir todo tipo de insulto gritado e cuspido em minhas orelhas, meus “superiores” me obrigaram a subir em uma mesa para entoar o glorioso hino da faculdade tantas vezes quantas fosse necessário até que todos os presentes se dispusessem a me acompanhar. Faço questão de dividir a letra com vocês:

Pessoal!
Xá! (o coro responde: Vasca!)
Xá! Vasca!
Xavasqui! Xavascá! Xavasqui e acolá!
Enfia o dedo nela que ela vai arreganhar!
O que? Arre-ga-nhar!
Na rima do pudendo (termo médico que designa a fissura formada pelos grandes lábios da vagina)
eu entrei mordendo!
É a Med Santo Amaro que está te fodendo!
Medicina! Santo Amaro! Hooool!

Havia umas tantas outras músicas que expressavam a sofisticação humana dos meus colegas. Vou reproduzir apenas mais uma, em homenagem à coruja loka – singelo símbolo da Atlética (o grande órgão venerado pelos estudantes):

A coruja bota no seu cu!
E goza, e goza, e goza na sua boca!
Loca! Loca, loca, loca, locaaa!
Coruja loca!

Em seguida, após eu passar pelo ritual de iniciação, a pose de oficial do exército foi deixada de lado por um dos veteranos, do sexto ano, que veio conversar comigo “sinceramente”. Disse-me que eu não podia ter aquele tipo de postura, que agora sim eu estava agindo de acordo, que nós precisávamos de união. “Você já ouviu falar da máfia de branco?” Ele disse. “Nós somos a máfia de branco. Se você precisar de ajuda, somos nós que estaremos lá para nos ajudarmos. Numa prova, quando tivermos que colar, somos nós que nos apoiaremos. Se acontecer alguma coisa com um paciente, somos nós que vamos ter que acobertar. Por isto precisamos ficar unidos”.

Sim, é isto: é uma corporação no sentido forte do termo. Eles defendem seus interesses. Por isto se unem para repelir os médicos cubanos que estão entrando em “seu território”. Por isto se unem para defender o Ato Médico para tirar os outros profissionais da saúde do “seu território”. Por isto fazem rituais de iniciação medievais, tais como se faz na polícia ou no exército, tais como os do Capitão Nascimento, para iniciar os “seus” em “sua corporação”. Eles realmente se consideram melhores do que todos os outros seres humanos, e não há exagero aqui. Apenas uma vez consegui conversar com estudantes de outro curso no campus, que abrigava todos os cursos de biológicas. Eles não sabiam que eu era estudante de medicina. Quando lhes disse, imediatamente queriam interromper a conversa: já conheciam este tipo de gente. Apenas se abriram novamente quando lhes confessei que eu também tinha desprezo pelos meus colegas de curso e vice-versa.

Há outra ocasião que quero compartilhar: a visita ao hospital ligado à universidade, o Hospital Geral do Grajaú (HGG), e a visita à unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) conveniado com a universidade. No hospital, pela primeira vez fui bem tratado por uma estudante do sexto ano. Era uma moça que talvez não tivesse contato ou não se importasse tanto com a minha “fama”. Ela me recebeu bem, me explicou tudo, foi extremamente gentil. Então, chegaram os pacientes. O HGG é hospital de referência da região, onde vão parar todos os casos minimamente graves. A estudante estava no último ano de seu internato, período em que é “obrigada” a atender no hospital. A rudeza com a qual ela recebeu o paciente me deixou atônito. Pegando a sonda que estava nele e a examinando rapidamente junto a uma papelada, ela identificou que já havia recebido o paciente e que indicara que ele marcasse uma consulta no ambulatório de especialidades da faculdade. “Eu não te mandei ir lá marcar a consulta? Por que você não foi? Por que voltou aqui?” O paciente, certamente intimidado em sua condição de trabalhador e pobre diante do poder implícito do jaleco e do título da “doutora” da “máfia de branco”, respondeu humildemente que ele havia tentado marcar a consulta, mas que eles tinham vagas somente para dali a três meses, e que ele precisava limpar a sonda antes disso, e que não tinha condições de esperar tanto. Perguntava se ela poderia fazer alguma coisa por ela. Mesmo que ela quisesse muito, o que estava longe de ser o caso, não poderia: esta é a principal agonia que eu antevia na minha profissão depois de estar formado - a impossibilidade de ajudar meus pacientes mesmo que fosse um médico competente, porque simplesmente não há nenhuma infraestrutura mínima para realizar o trabalho.

A estudante conseguia habilmente ser gentil quando se dirigia a mim, de forma atenciosa perguntando se eu queria ajudar a trocar a sonda, e estúpida, rude, impaciente quando se dirigia ao paciente que “não entendia nada” das “ordens médicas”. Não posso deixar de lembrar dos médicos cubanos, negros, como os pacientes maltratados daquela interna. Negros “com cara de empregada”, a quem gente que paga alguns milhares de reais por mês para estudar numa faculdade privada de medicina está acostumada a tratar como uma categoria inferior de seres humanos. Assim que o paciente deixou o consultório, ela desabafou comigo: “Ainda bem que só faltam seis meses para eu sair daqui!”. Em seguida, se tudo desse certo, ela faria residência e abriria seu consultório particular, para nunca mais precisar encostar ou se dirigir a um negro ou um pobre na condição de paciente, e eles voltariam a ocupar o lugar invisível de subalternos que a médica desejava para eles em sua vida.

Quando fomos ao PSF, passamos em pequenos grupos de estudantes do primeiro ano nas casas da favela do Grajaú junto com a agente comunitária, recrutada entre os moradores dali mesmo. Imaginem vocês aqueles estudantes que provavelmente nunca entraram em um ônibus na vida, andando em uma favela. Depois de tantas visitas e tantas casas, a agente desabafou conosco: “Ainda bem que vocês estão vindo aqui, para ver como é. Nós precisamos muito de mais médicos aqui. O pessoal se forma e vai embora, nunca mais volta e nós ficamos sem médicos para nos atender.” Ela se afasta, um colega compartilha seus sentimentos íntimos conosco: “Ah, me desculpa, mas eu nunca trabalharia aqui.” Ele continuou seu discurso, mas acho que meu cérebro, após estes anos, preferiu bloqueá-lo de minhas memórias para me poupar um pouco. Hoje, lembrando disso, penso nos médicos que chamam os negros cubanos que deixaram seu país por um salário de R$10 mil reais, cuja metade será paga ao ministério da saúde de Cuba, de “escravos”. Quem trabalharia por esta miséria? Na visão deles, apenas os médicos negros, “escravos”, com “cara de empregada”. Será que eles sabem que isto é muito mais do que ganha a maior parte dos trabalhadores do Brasil? Será que eles se importam? O que meus colegas disseram já responde a estas perguntas.

Eu poderia continuar escrevendo muito, muito mesmo, sobre o que há de podre na medicina. Foram estas coisas que me fizeram largar o curso ainda no segundo ano. Eu não seria capaz de conviver com esta gente, com seu modo de pensar, de viver. Talvez eu ficasse deprimido, talvez fizesse um atentado ao estilo “jovem americano” entrando na faculdade e fuzilando a todos. Preferi sair. Amadurecendo minha visão política nos anos seguintes pude perceber as causas sociais que levam os médicos e a medicina a serem assim. Talvez esta experiência pessoal tenha ajudado a me empurrar um pouco mais rápido para o socialismo. O que sei é que trazer um punhado de médicos cubanos pode escancarar a mentalidade podre de nossos médicos, mas pouco ou quase nada pode fazer para ajudar a que o povo pobre e trabalhador a ter acesso a condições mínimas de saúde. E, sem dúvida, a mudança desta situação não virá pelas mãos de Dilma nem de nenhum governante a serviço deste Estado. Virar a medicina brasileira de cabeça para baixo é uma tarefa para a revolução operária e socialista.

segunda-feira, agosto 05, 2013

#Partiu Zanon!








 Posso dizer sem muito receio de errar que o período no qual cresceu minha geração foi um dos mais tristes e sombrios desde que se iniciou a história do capitalismo. Está certo que em relação a momentos como as guerras mundiais ou a crise dos 30, ou mesmo os primórdios do capitalismo industrial, grande parte das pessoas sofreu menos privações materiais ou sofrimento físico. Mas é uma geração da qual a burguesia roubou algo muito mais valioso do que qualquer privação material poderia impor: a possibilidade de acreditar em um mundo distinto, em um futuro melhor para a humanidade; s possibilidade de se ver enquanto sujeito da história e da superação da miséria da humanidade. A mim, pelo menos, nada parece mais assustador do que a ideia de que a história acabou – que, por incrível que pareça, teve nas décadas passadas seu breve período de apogeu e triunfo.
            Digo isto para tentar explicar um pouco que seja o que alguns jovens desta geração, alguns dos quais estas ideias pareciam inacreditáveis, podem sentir diante de uma  pequena – porém fundamental – trincheira no combate a esta derrota que a possibilidade de um futuro sofreu enquanto nascemos e crescemos. A trincheira da qual eu falo é fruto de um combate árduo que já dura mais de uma década, protagonizado por algumas centenas de operários e com o apoio imprescindível de uma camada mais ampla de estudantes, desempregados, indígenas, presidiários, donas de casa, enfim, de todo um setor da população que corretamente reconheceu na luta destes trabalhadores o seu próprio combate por uma vida mais digna. Trata-se de um pequeno exemplo da luta de classes – aquela que queriam nos fazer acreditar que havia desaparecido – na qual a classe que gesta dentro de si o futuro – o proletariado – conquistou para si e para os demais explorados e oprimidos do mundo, uma vitória.
            Foi na crise de 2001 na Argentina que isto começou. Com a queda de cinco presidentes, a revolta de amplos setores da classe média, uma crise econômica profunda e generalizada, centenas de fábricas foram ocupadas. O capital tratou mais uma vez de demonstrar sua força, maleabilidade e poder não apenas de repressão – acabando com diversas ocupações com o aparato policial – mas também de cooptação – tratando de impor a que muitas ocupações se tornassem cooperativas e os seus trabalhadores passassem a ser pequenos empreendedores, pequenos patrões e capitalistas. Em Zanon, fábrica de cerâmica localizada na província de Neuquén, no sul da Argentina, a história foi outra. Os trabalhadores ocuparam a fábrica, colocaram-na para produzir, resistiram bravamente todas as investidas da polícia, conquistaram o apoio do povo pobre, dos estudantes e dos indígenas. Um pequeno exemplo mostra a grandeza da luta: os presidiários de um presídio local decidiram apoiar a luta, e para isto fizeram greve de fome para doar sua própria comida aos trabalhadores de Zanon em luta.
            A fábrica virou patrimônio do povo, doando sua produção para a construção de hospitais e escolas que o governo se recusava a construir. Aumentou o número de postos de trabalho, empregando uma parte dos desempregados que apoiaram a luta dos operários. Estudantes da universidade se aliaram aos trabalhadores ajudando-os a gerir os aspectos da produção dos quais eram tolhidos no sistema patronal da divisão do trabalho entre o intelectual/técnico e o físico/produtivo, colocando de pé, assim, um verdadeiro pacto operário-universitário que mostra o potencial transformador da universidade quando ela coloca seu conhecimento a serviço dos trabalhadores. Os indígenas do povo Mapuche apoiaram os operários cedendo-lhes a matéria-prima, argila, que se encontrava em seu território e que antes era roubada pelo proprietário da fábrica.
            Após dez anos de luta, o povo de Neuquén e os operários de Zanon (rebatizada como FaSinPat – sigla para Fábrica Sem Patrões) conseguiram dobrar até mesmo o sagrado direito burguês da propriedade privada, e impuseram que se reconhecesse legalmente a expropriação da fábrica. Mas sua luta vai muito além dos limites de uma fábrica, pois os operários aprenderam no curso de sua luta que é necessário lutar por muito mais, que as injustiças não se iniciaram e não terminam nos portões de Zanon, e que tampouco é possível derrotá-las restringindo a luta. O primeiro passo foi retomar o Sindicato Ceramista de Neuquén das mãos da máfia que o controlava, uma verdadeira corja de burocratas sindicais que sustentavam-se fartamente fazendo do sindicato um mantenedor dos interesses patronais. Em Neuquén, como em qualquer parte do mundo, a tarefa de expulsar os burocratas dos sindicatos é fundamental para retomar um dos principais instrumentos de lutas dos trabalhadores. Para assegurar que o sindicato permanecesse assim, o estatuto do sindicato foi reformulado de forma a que seus dirigentes não gozassem de privilégios, e que tivessem o limite de um mandato sindical para que depois retornassem a seus postos de trabalho nas fábricas. Como ensinou Marx há um bocado de tempo, nossa consciência está em primeiro lugar determinada pelas nossas condições materiais de vida. Um dirigente sindical que receba um salário bem maior do que aquele que recebia na fábrica, e ainda por cima possa se manter por décadas fora da linha de produção se reelegendo indefinidamente como dirigente sindical, tem todos os motivos para se tornar um burocrata, que passará a vender os interesses dos trabalhadores aos patrões em nome de garantir seus próprios privilégios materiais. É o caso de quase todos os ratos parasitas da CUT, Força Sindical e outras centrais sindicais vendidas em nosso país.
            Vários anos depois, os operários deram mais um passo na luta contra seus inimigos de classe, desta vez conquistando um posto avançado dentro de território que, por sua própria natureza, é do inimigo: o parlamento de Neuquén. A partir da conformação de uma Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, na sigla em espanhol), composta pelo PTS (organização irmã da LER-QI, na qual eu milito aqui no Brasil), pelo PO e pela IS, se elegeram dois operários de Zanon para revezarem o mandato entre si e com mais um companheiro da IS. O primeiro ano foi ocupado pelo operário de Zanon, o companheiro Alejandro López, que não é de nenhum partido. Atualmente, está na bancada parlamentar Raul Godoy, também operário de Zanon e dirigente do PTS. Da mesma forma que no sindicato, o mandato parlamentar não poderia significar um privilégio material, e Godoy recebe o mesmo salário que recebia na fábrica, doando o restante para um fundo de lutas dos trabalhadores. Propôs também um projeto de lei que ficou conhecido nacionalmente, de que todos os parlamentares recebessem o mesmo salário que uma professora do ensino básico. Para nós, esta é uma atuação exemplar, que denuncia a podridão do regime político da burguesia e contrasta enormemente com o péssimo exemplo do parlamentar do PSOL Jean Wyllys, que recentemente defendeu publicamente o salário de R$ 26.000 que recebem os parlamentares aqui, como “justo”. Godoy também esteve recentemente na Grécia, conversando com os operários da fábrica Vio.Me – sob controle operário desde 2004 – para apoiar sua luta com a experiência de Zanon.
            Isto é apenas um pouquinho da história da luta de Zanon. Que por sua vez é ainda uma pequena, minúscula, vitória dos trabalhadores em sua luta contra o capital. Mas para nós, revolucionários que dedicamos nossas vidas a esta luta, a luta de Zanon é um grande exemplo. É isto que explica o plano de dez jovens que decidiram viajar em dois carros até o sul da Argentina para conhecer de perto esta experiência. Em Porto Alegre, os companheiros fizeram uma grande campanha financeira, organizando festas e arrecadações para poder custear sua viagem. E eu, quando fui convidado a fazer parte da viagem como parte da delegação da LER-QI, me senti privilegiado pela oportunidade de ir pessoalmente pela primeira vez ver o exemplo que meus camaradas do PTS dão em conjunto com os operários independentes em Zanon.
            Revezando-nos em cinco motoristas, partimos pelas estradas em uma comitiva de dez pessoas, entre paulistas e gaúchos; militantes da LER-QI e companheiros independentes; professores, estudantes e metroviários; todos com o objetivo comum de buscar o exemplo e a inspiração para seguirmos em nossas cidades e no dia-a-dia na luta coletiva e histórica de milhões de mulheres e homens contra o sistema de exploração e miséria em que vivemos.
            Mas no meio do caminho havia uma lebre. Eu, que estava dirigindo o carro, não me lembro de nada devido a uma pancada na cabeça. Só sei do que me contaram, que quando fui desviar da lebre, certamente por impulso, o carro capotou, ficando completamente destruído e ferindo três companheiros. Pelo estado em que o carro ficou, somos todos unânimes em afirmar que tivemos bastante sorte. Comigo, apenas uma mão quebrada e dois pontos na outra, além da batida na cabeça. Valéria teve um corte no rosto, uma pancada na cabeça e uma clavícula fraturada; também não foi nada muito grave. Mas, infelizmente, nossa companheira Paula teve ferimentos mais graves: fraturou a bacia e a vértebra lombar, L2, que por sorte não atingiu sua medula. O acidente na estrada da província de La Pampa, quando faltavam cerca de 400 km para chegarmos a Zanon,  transformou nossa viagem drasticamente.


            Recebemos prontamente toda a ajuda dos poucos camaradas do PTS que militam em Santa Rosa, capital de La Pampa, que em plena campanha eleitoral se desdobraram em mil para nos ajudar. Imediatamente também a LER-QI e o PTS enviaram camaradas para ajudar em tudo o que fosse possível. Paula foi informada que precisava fazer uma cirurgia para colocar uma prótese no lugar da vértebra fraturada, que deveria ser feita o quanto antes pois qualquer movimento indevido poderia atingir sua medula, trazendo graves conseqüências e podendo mesmo deixá-la paraplégica. Contudo, se há uma coisa que não vale nada no capitalismo, é a vida de uma pessoa que não tem dinheiro. E este é o caso da minha companheira Paula, cuja cirurgia foi adiada já por três vezes, com o hospital inventando mil histórias absurdas e mentirosas, como de que a prótese precisaria vir de Buenos Aires, o que foi desmentido pelo próprio hospital ao cônsul brasileiro em uma ligação telefônica.
            Desde os primeiros momentos, Paula mostrou a força, a firmeza e a coragem de uma verdadeira revolucionária. Apesar da angústia de ficar presa à cama, praticamente imóvel, apesar das fortíssimas dores que sente e que os anestésicos só são capazes de aliviar parcialmente, apesar dos absurdos que o sistema público de saúde a está submetendo, Paula encara a sua situação de forma valente, apesar dos momentos inevitáveis de angustia, tristeza e desespero. Insistiu aos companheiros que estavam em condições que seguissem a viagem até Zanon para conhecer a fábrica, mesmo chorando porque não poderia ir com eles. Combinei, ao pé do seu leito, que não deixaremos de ir até lá quando ela estiver melhor. Em meio a sua dor, Paula não deixa em nenhum momento de sentir e manifestar gratidão pelos companheiros que estão se esforçando para ajudá-la, em especial a Silvia que desde o começo está ao seu lado no hospital, e sua mãe, que sem falar uma palavra de espanhol também está lá a seu lado.
            Em Porto Alegre, ocorre uma emocionante demonstração da solidariedade entre os lutadores, com o Centro Acadêmico de História da UFRGS, onde Paula estuda, organizando uma campanha financeira, e uma vigília no consulado da Argentina para pressionar os burocratas a que realizem logo a cirurgia da Paula. Aqui em São Paulo nós da LER-QI também estamos organizando uma comitiva para ir ao consulado. O cartunista Latuff também se solidarizou e fez uma charge denunciando o enorme descaso dos governos brasileiro e argentino com a situação da Paula.
            Se não pude conhecer Zanon nesta viagem, pude aprender muito mais na prática sobre a solidariedade de classe. A sensibilidade, a disponibilidade e a atenção dos camaradas do PTS, sejam os companheiros de La Pampa, seja do companheiro Juan que veio de Neuquén nos ajudar, é uma lição revolucionária. Sem nunca terem visto Paula  e nem nenhum de nós na vida, os camaradas fizeram de tudo para nos ajudar. Os laços que unem os revolucionários, e que os unem aos seus companheiros de classe, podem ser muito mais fortes do que qualquer amizade. O que nos une é um projeto de vida, uma luta em comum. Aprender a ser mais humano, contudo, é uma tarefa difícil neste mundo, e os camaradas sem dúvida me ajudaram muito nisto.
            As maiores lições e exemplos, contudo, quem deu foi a Paula, deitada em sua cama no hospital. Para além de todo o carinho que Paula tem com todos os que a ajudam, ela mostra uma grandeza de espírito imensurável ao não deixar que a dor que a aflige feche seus olhos para a exploração dos que estão ao seu redor. Em seu leito, escreveu no seu perfil no Facebook: “a situação dos enfermeiros e enfermeiras aqui é durissíma, chegam a trabalhar 5 dias direto, o hospital sempre lotado de situações horríveis, o meu caso não é nem de longe o mais grave, o esgotamento desses trabalhadores é visível, a galera que faz a limpeza do hospital é terceirizada, não preciso dizer que sendo assim trabalham pra caralho ganhando uma miséria e são na maioria mulheres, juntando lixo hospitalar que é perigosíssimo, e limpando os quartos e banheiros todos os dias correndo o risco de pegar infecções. Digo tudo isso porque essa luta que todas e todos vocês estão travando ultrapassa a pressão para que se agilize minha cirurgia que é urgente, mas nos demonstra a desumanização de todo um sistema, o quanto essa merda explora, mata, não está nem aí e oferece o mínimo para o ser humano poder seguindo sendo explorado, mal tratado em nome do lucro das figuras ilustres que estão bem confortáveis nesse momento tendo resolver um caso de descaso.”
            Quando leio isto penso que precisamos urgentemente de mais Paulas no mundo. Quando tudo isto passar, Paula ainda irá em algum momento conhecer Zanon. Mas, na verdade, o que há de melhor em Zanon já está dentro dela. E me orgulho de sua luta hoje e das que iremos travar lado a lado no futuro: a mesma luta dos operários de Zanon, da classe trabalhadora mundial e dos explorados deste mundo.      

  

terça-feira, julho 02, 2013

O "povo" acordou. Um debate com ideias que estão nas ruas.


As ideias dominantes de um tempo foram sempre
apenas as ideias da classe dominante.

- Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto do Partido Comunista.

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.

- Frase dos estudantes franceses nas lutas de maio de 1968.

         Centenas de milhares estão nas ruas por todo o país. Dobramos os governos do PT , PSDB e PMDB, e revertemos o aumento das tarifas em dezenas de cidades. O “povo” acordou. As aspas estão aí porque para entendermos o que está acontecendo, é preciso compreender de que povo estamos falando. Só assim podemos saber para onde nosso movimento vai, e inclusive tentar influenciar os seus rumos.
Nós, marxistas, analisamos as coisas a partir de suas condições materiais de existência: ou seja, tentamos entender como as ideias que surgem estão relacionadas às condições concretas de seu surgimento, as circunstâncias históricas que motivaram sua existência. Neste sentido pensamos também o “povo”: entendemos que a população da nossa sociedade é marcada, entre tantas coisas, por uma divisão fundamental: as classes sociais. As pessoas pertencem a uma ou outra classe social conforme seu papel na produção de tudo o que existe em nossa sociedade, ou seja, conforme as condições materiais de sua existência. E seus objetivos, seu modo de ver e pensar o mundo, estão sem dúvida bastante condicionados a isto (ainda que existam mil e uma outras influências que podem ser também determinantes).
Desde que existe o capitalismo, são duas as classes fundamentais da nossa sociedade, cujos interesses estão em oposição. Há os que vendem a sua força de trabalho para um patrão em troca de um salário: estes pertencem à classe trabalhadora, ou proletariado. E há os que são patrões, que empregam a força de trabalho de outras pessoas e em troca lhes dão um salário, ficando com a maior parte do resultado do trabalho de seus empregados (lucro): estes são a burguesia, a classe dominante em nossa sociedade do ponto de vista tanto político quanto econômico. O interesse da burguesia é manter a sociedade tal como ela é, para assim manter seu lucro e sua exploração sobre os trabalhadores; já o proletariado só pode se libertar de sua própria exploração acabando com o capitalismo e colocando a produção social como um bem coletivo. Entre estas duas classes fundamentais, há um meio termo nada desprezível numericamente de pessoas que trabalham “por conta própria”, sem vender sua força de trabalho para um patrão mas também sem explorar o trabalho alheio. A estes chamamos de pequena burguesia, e incluem desde profissionais liberais como médicos e advogados, passando por camelôs e donos de pequenos negócios, até pequenos agricultores. As multidões que saem às ruas hoje nos protestos não são homogêneas em sua composição de classe, e incluem tanto a classe trabalhadora como a pequena-burguesia, que por conta desta diferença de classe têm interesses distintos nas manifestações. Algumas consequências disto foram bem tratadas no texto de Iuri Tonelo. Nós, marxistas, tomamos partido da classe trabalhadora no conflito que existe entre as classes sociais, pois entendemos que a dinâmica de nossa sociedade coloca como tarefa desta classe dirigir a luta contra esta sociedade de exploração e miséria, libertando a si própria e ao restante da humanidade.
                O objetivo deste texto é tentar abordar algumas das principais ideias que têm surgido nestas manifestações, não apenas em consequência da heterogeneidade de classe dos manifestantes, mas principalmente porque carregam muito do senso comum que se forjou na geração que hoje está nas ruas. Uma geração que não viu revoluções. Algumas destas são as ideias que aprendemos com nossas famílias, nas escolas, na televisão, nos jornais. Enfim, são as ideias dominantes da nossa sociedade, e que são transmitidas pelas instituições sociais criadas e controladas pela burguesia; e por isto transmitem valores que, de uma forma ou de outra, atendem a seus interesses. Por isto, mesmo os trabalhadores são educados com valores contrários aos seus próprios interesses, com os mesmos valores de seus patrões que vivem de explorá-los. O objetivo aqui é abrir um debate franco com muitos dos que carregam algumas destas ideias, para discutir como elas podem – muitas vezes ao contrário do que desejam aqueles que as defendem – significar um atraso para o movimento que sai às ruas querendo lutar por uma sociedade melhor. Na verdade, justamente porque algumas destas ideias defendem os interesses dos patrões, muitas vezes elas são pontos de apoio dentro das manifestações para o conservadorismo de tudo aquilo que estamos querendo combater. Não à toa, são incentivadas pela imprensa, que por ser de propriedade da burguesia, expressa as ideias que são do interesse dela.

“Verás que um filho teu não foge à luta”




Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo (...)

- Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista


As bandeiras do Brasil, as caras pintadas de verde e amarelo, centenas cantando o hino nacional ou músicas e palavras de ordem que expressam orgulho de ser brasileiro. Todos vimos muitas cenas como estas em todos os protestos. Mas, qual o problema de levantarmos com orgulho a bandeira de nosso país? Bom, depende da circunstância.

As nações não existiram sempre, são uma invenção relativamente recente na história da humanidade. Elas surgem junto com o domínio político da burguesia, que, para facilitar suas transações econômicas, precisava de uma unidade monetária, alfandegária, linguística, territorial, bem como de uma organização unificada com leis e forças armadas (Estado) para defender seus interesses contra outros burgueses na competição por mercados. Contudo, mais do que um simples território unificado, a ideia de nação passou a servir como uma forma de identidade de um povo, mas não uma identidade qualquer: o fundamental para a burguesia na ideia de “nação” é fazer com que a classe trabalhadora, a quem ela explora cotidianamente, veja em seu patrão e carrasco que lhe arranca o couro e lhe dá um salário de fome, um “irmão” ao invés de um inimigo de classe. E no trabalhador que sofre a mesma exploração que ele em outro país, um “inimigo” ao invés de um irmão de classe. Assim, os trabalhadores se sentem mais propensos a se juntar àqueles que os exploram para defender os interesses destes contra seus irmãos trabalhadores de outro país, e isto aparece disfarçado sob o manto do patriotismo. Como se o trabalhador estivesse defendendo o interesse da nação (e, assim, dele mesmo) e não o interesse de seus patrões.
 É por isto que o que Marx e Engels diziam em 1848 continua valendo até hoje: “Aos comunistas tem, além disso, sido censurado que querem abolir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar o que não têm. Na medida em que o proletariado tem primeiro de conquistar para si a dominação política, de se elevar a classe dirigente da nação, de se constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo nenhum no sentido da burguesia. Os isolamentos e as oposições nacionais dos povos vão desaparecendo já cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as relações de vida que lhe correspondem. A dominação do proletariado fá-los-á desaparecer ainda mais. A unidade de ação, pelo menos dos países civilizados, é uma das primeiras condições da sua libertação. À medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a exploração de uma nação por outra. Com [a queda da] oposição das classes no interior da nação cai a posição hostil das nações entre si”.
Ou seja, o interesse histórico da classe trabalhadora por uma humanidade livre, de acabar com a exploração do trabalho e de um homem por outro, passa necessariamente por acabar com a divisão entre países, que só serve aos burgueses e às suas disputas. É por isto que um dos princípios fundamentais do comunismo é o internacionalismo, o entendimento que a luta dos trabalhadores brasileiros é a mesma luta dos trabalhadores de qualquer parte do mundo e, assim, devemos nos apoiar mutuamente. Por isto que defendemos a solidariedade ativa às lutas do povo egípcio, sírio, líbio, turco, grego e outros contra seus governos que os reprimem, pois quanto mais fortalecida estiver a luta deles, mais estará a nossa e vice-versa.
Contudo, nem sempre o nacionalismo possui um sentido conservador, tal como no caso da burguesia que reivindica sua pátria para arregimentar os trabalhadores para se colocar contra os trabalhadores de outro país. Como disse o revolucionário marxista Leon Trotsky: “Quando o pequeno camponês ou o operário falam de defesa da pátria, falam da defesa de sua casa, de sua família e da família de outrem contra a invasão, contra as bombas, contra os gases asfixiantes. O capitalista e seu jornalista entendem por defesa da pátria a conquista de colônias e mercados, a extensão, pela pilhagem, da parte ‘nacional’ da renda mundial. O pacifismo e o patriotismo burgueses são mentiras completas. No pacifismo e no patriotismo dos oprimidos há um germe progressista que é necessário saber compreender para daí tirar as conclusões revolucionárias necessárias. É necessário saber dirigir estas duas formas de pacifismo e de patriotismo uma contra a outra.”
Por isto, não é possível concordar com os que jogam em um mesmo saco de “fascistas” todos os que levam um sentimento nacionalista para um ato de rua. Se é verdade que há aqueles que neste nacionalismo carregam o germe do reacionarismo e mesmo grupos fascistas, também há milhares que reivindicam um sentimento progressista de que as demandas populares devem ser conquistadas nas ruas pelo “povo brasileiro” organizado, em contraposição às instituições apodrecidas do regime político burguês. Ou seja, é, contraditoriamente, uma forma de contrapor o “povo” ao Estado burguês (como dizia uma pichação na  Avenida Paulista:  “até quando o governo será contra o povo?”). Contudo, mesmo este sentimento progressista dos que levam nas bandeiras do Brasil as suas demandas por mais investimentos na saúde e educação, abre um espaço para que o nacionalismo junte em um mesmo saco os manifestantes que querem um Brasil “mais cívico e ordeiro” e aqueles que defendem sair às ruas e lutar de forma independente contra a polícia e os governos. O sentimento nacionalista é facilmente capitalizado pela direita e pela burguesia. É assim que discursos como os de Dilma se aproveitam deste sentimento nacionalista para tentar botar “panos quentes” nos protestos. Por isto, é necessário explicar pacientemente aos que reivindicam o sentimento nacionalista o porquê de nosso combate a ele.

Contra a corrupção






O moderno poder de Estado é apenas uma comissão 

que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa
.
-Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista

                É inegável que dentre as inúmeras pautas que passaram a ser levantadas nos protestos, a do combate à corrupção é uma das que tem grande peso e destaque (em particular nos atos centrais onde predomina a pequena-burguesia). Isto não apenas porque é, de fato, uma das mais levantadas pelos manifestantes oriundos da pequena-burguesia, mas também porque tem um respaldo inclusive entre a classe trabalhadora, e ainda porque a mídia burguesa faz questão de dar mais destaque a esta pauta do que a outras. Isto ocorre porque a pauta da corrupção é bastante ampla, difusa, e por isto pode facilmente ser capitalizada também pela direita burguesa. Exemplo expressivo disto é o vídeo de Flávio Bolsonaro, representante da camada mais reacionária da política brasileira, que diz – entre tantas baboseiras e mentiras deslavadas – que “o PT é o partido mais corrupto do Brasil”, e que “este protesto tem que continuar nas urnas”. Ou seja, Bolsonaro procura canalizar a revolta das ruas para eleger os representantes mais de direita da burguesia nas eleições de 2014. O que Bolsonaro quer ocultar em seu discurso é que, se o PT é comprovadamente um partido cheio de escândalos de corrupção, como mensaleiros, sanguessugas, entre tantos outros, o PSDB, o DEM e todos os partidos do regime tem suas mãos sujas com a lama da corrupção. É necessário entender que a corrupção é inerente ao sistema capitalista e a todos seus regimes de governo.
                O combate à corrupção é uma pauta legítima, que canaliza uma grande revolta contra os governos e mesmo contra o regime e os partidos da ordem, e faz muito mal a esquerda que julga esta pauta como “de direita” e deixa para Veja, Bolsonaro, Estadão a sua reivindicação. O fundamental é justamente desmascararmos estes canalhas reacionários que se colocam como “arautos da ética”, chegando à raiz deste problema. E a questão não é de governo ou mesmo de regime, mas sim do Estado burguês. É necessário compreendermos que enquanto tivermos um Estado a serviço de uma classe parasita e exploradora, a corrupção será inerente a ele. O PT, que por décadas procurou ser o partido da ética, hoje justifica sua corrupção dizendo que é necessário sujar as mãos para fazer política. Esta ideia tornou-se senso comum, e por isto muitos manifestantes afirmam que seu protesto “não é político”. Temos que combater a ideia de que a política institucional da burguesia seja compreendida como a única forma de fazer política. É necessário disputarmos aos olhos das massas e dos trabalhadores a necessidade de fazermos uma política revolucionária, que acabe com a corrupção da única forma possível: acabando com o sistema que lhe dá origem e sustentação.
Esta disputa entre uma política institucional ou revolucionária não é nova, e esteve presente também  na própria história do PT, que surgiu do movimento das greves operárias do final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, e que eram sim muitíssimo políticas e com um forte potencial revolucionário. Dentro do PT, contudo, uma ala influente dirigida por Lula procurava fazer de tudo para separar o “sindical” do “político”, dizendo que as greves não eram contra a ditadura mas apenas por salários (escondendo que o arrocho era fruto da política dos militares), separando as lutas por regiões, por fábricas, por ramos da indústria. Um pouco desta história pode ser conhecida aqui. Isto é exatamente o contrário do que propõe o marxismo. Um dos principais dirigentes revolucionários marxistas, Lenin, afirmava que o papel dos revolucionários é atuar em cada pequena luta sindical, elevando o patamar destas à luta política contra o regime. Marx e Engels também afirmaram que “Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que (...) nos diversos estágios do desenvolvimento pelos quais a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total”. Ou seja, uma luta salarial representa um interesse particular e legítimo dos trabalhadores, mas é necessário que entendamos que o que ganhamos em uma luta salarial hoje, a inflação e o arrocho salarial comerão dos salários amanhã. Por isto nossa luta deve olhar para o todo.
Assim, a linha política que hegemonizou o PT com a ala de Lula, Genoíno, Zé Dirceu, Suplicy e outros que defendiam a via parlamentar de mudanças, só pode servir ao interesse da burguesia, de isolar as lutas dos trabalhadores para manter seu domínio político. A única política que pode servir aos interesses da libertação dos trabalhadores e, consequentemente, de toda a humanidade, é uma política revolucionária que seja feita nas ruas, nas barricadas, nas greves, nos instrumentos de auto-organização dos trabalhadores e das massas para que, a partir desta organização, possamos derrubar este Estado corrupto e corruptor da burguesia para colocar no poder os trabalhadores.
Esta lição foi ensinada pela primeira vez pelos revolucionários da Comuna de Paris, em 1871, quando os trabalhadores tomaram o poder pela primeira vez, derrubando o governo em Paris e elegendo seus próprios representantes entre eles. Estes não ganharam salários imensos e desfrutaram de privilégios como nossos parlamentares, juízes e governantes. Ganhavam o mesmo que um trabalhador comum e seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento. Nem tinham dezenas de cargos comissionados com salários altíssimos. Não havia um “presidente” ou “prefeito”, mas um governo composto por todos estes representantes. O nível de privilégio que tem os parasitas de nosso congresso pode ser visto neste artigo de Leandro Ventura. Se hoje os partidos burgueses propõem uma miserável “reforma política” plebiscitária, nós devemos dizer que nossas demandas para acabar com os privilégios e a roubalheira dos empresários e políticos e democratizar o país não cabem nas perguntas de um plebiscito montado por eles mesmos! Queremos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, com representantes eleitos nos locais de trabalho e na qual todos possam se candidatar, para fazer uma reforma radical deste regime e acabar com todas as negociatas entre os políticos burgueses e os empresários! Só assim podemos acabar com a corrupção de fato.

 “Sem partido! Sem partido!”



O pior analfabeto é o analfabeto político. (...)
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.(...)
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos,
 que é o político vigarista, pilantra, corrupto
 e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

- Bertolt Brecht, O Analfabeto Político

                O rechaço aos governantes e a seus partidos tomou uma face distorcida em muitas manifestações, com pessoas que gritavam “sem partido” a organizações de esquerda e dos trabalhadores. Como dissemos acima, o rechaço aos partidos que constituem este regime apodrecido é mais do que justo, pois são eles que mantém esta ordem de uma sociedade miserável em nome do lucro de poucos. Mas é fundamental colocarmos um critério em nosso rechaço, ou se cometerá uma enorme injustiça aos principais aliados dos que lutam nas ruas por mudanças profundas na sociedade. Um partido nada mais é do que uma forma organizativa, um grupo de pessoas que se aglutina coletivamente para poder atuar politicamente na sociedade. Esta forma organizativa pode ser preenchida com conteúdos sociais muito distintos, que sem dúvida se expressarão na forma como este partido se organiza também. A burguesia se agrupa em diversos partidos para disputar seus interesses na sociedade, mas, sendo estes partidos representantes desta classe parasitária, nunca nenhum deles poderá representar os interesses dos trabalhadores e da população mais pobre. São os partidos que representam interesses de banqueiros, de empresários, que não apenas se candidatam por estes partidos (como o ex-vice-presidente José de Alencar, grande industrial cujas relações com o poder lhe garantiam negócios privilegiados) mas também financiam suas campanhas para garantir seus interesses. Em geral são regidos por alguns grandes “caciques” representantes de oligarquias regionais e frações da burguesia, como Sarneys, ACMs, Malufs, Calheiros, Collors...ou por caudilhos que por terem grande destaque abafam toda a democracia interna de um partido em nome de seus acordos com este ou aquele setor da burguesia, como é no caso de Lula.
                Se a burguesia se organiza em partidos para lutar por seus interesses, é porque reconhece nesta forma uma grande eficiência de organização. Por que os trabalhadores, que querem lutar pela derrubada deste sistema, não deveriam também se associar para fazer sua política nas fábricas, nos bairros operários, nas escolas? A sua política, contudo, não é e nem pode ser a mesma da burguesia. Os partidos burgueses disputam e fazem acordos entre si para abocanhar um pedaço deste regime apodrecido e corrupto. Os trabalhadores devem se organizar em partidos para uma política revolucionária, que possa acabar com este Estado corrupto e corruptor. Nem a sua forma organizativa pode ser a mesma, com alguns “donos” do partido e muitos braços ou funcionários. Os trabalhadores que se organizam em um partido que lute pelos interesses de sua classe não o fazem por quererem privilégios ou por ambições pessoais, mas sim porque sua compreensão política dá um salto e ele passa a ver que a miséria de sua própria vida não é individual e nem se pode acabar com ela individualmente, mas que é necessário se organizar unificadamente com seus companheiros de classe com uma estratégia para mudar a sociedade. Por isto, os partidos operários devem prezar sempre pela mais ampla democracia interna, para que as bases do partido tenham controle sobre seus dirigentes. Defendemos o princípio formulado por Lenin, denominado “centralismo democrático”, que foi sintetizado com a seguinte máxima de garantir a mais ampla democracia na discussão e a mais estrita unidade na ação.
                Por isto, quando alguém se revolta contra um partido ou uma organização operária, está na verdade combatendo um aliado contra este sistema. Os partidos operários não são o mesmo que os partidos burgueses, e não devem ser tratados da mesma forma. Mesmo a juventude e os trabalhadores que não se organizem em partidos devem entender e respeitar os que se organizam como seus aliados, e tratar as eventuais diferenças políticas a partir de debates de ideias, que são saudáveis, necessários e ajudam o movimento em seu conjunto a avançar, mas devem saber que a luta contra os governos e os partidos burgueses é uma meta em comum.
Há, evidentemente, confusões que podem surgir nesta distinção entre partidos burgueses ou partidos operários. O PT, por exemplo, leva a palavra “trabalhadores” em seu nome. E, de fato, surgiu como uma organização dos trabalhadores a partir de suas greves e mobilizações. Contudo, o setor que o hegemonizou, como dissemos antes, foi o de Lula, que apostava justamente na via institucional de disputa da política a partir das eleições, dos cargos, das comissões, dos financiamentos privados. Conforme o PT se aprofundou neste caminho, ele foi progressivamente deixando de lado qualquer vestígio de política operária. Destruiu qualquer vestígio de democracia interna, acabando com os comitês de base, tornando seus dirigentes sindicais em burocratas bem remunerados e em conluio com os empresários, e alçando Lula cada vez mais como um grande caudilho que manda no partido. Associou-se aos grandes burgueses e aos partidos que os representam. Com sua ascensão ao poder do Estado como governantes no poder executivo, reprimiram energicamente a mobilização independente dos trabalhadores, já na gestão Erundina na prefeitura de São Paulo reprimiram greves de motoristas de ônibus, por exemplo. Hoje, enviam a Força de Segurança Nacional para reprimir greves nas obras do PAC, assassinar índios, reprimir manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Por isto que para os marxistas a prática é o critério da verdade: de defesa dos trabalhadores, no PT só sobrou o nome. Não é este partido que deve estar ao nosso lado nas manifestações. Ainda assim, contra a direita fascista que os ataque, defenderemos seu direito de organização. Mas entendemos e apoiamos o repúdio dos trabalhadores que foram traídos pelo partido que construíram.
O PSOL, hoje, começa a dar os primeiros passos no mesmo rumo do PT, seguindo uma via de disputa na política institucional. Seus parlamentares já votaram leis que retiram direitos dos trabalhadores, como foi o Super-Simples. Já se associaram com partidos burgueses, como o DEM nas eleições de Macapá. Também seguiram o curso de elevar figuras parlamentares a caudilhos, como foi com Heloísa Helena, que hoje se liga a Marina Silva. Não é um partido dos trabalhadores, mas um partido eclético que tenta aglutinar em seu interior interesses de classe distintos. Mas mesmo com todos estes problemas, o PSOL possui em sua base uma parcela de juventude e trabalhadores honestos, muitos dos quais estão nas ruas lutando ao nosso lado. Seu direito à organização deve ser defendido, sem que por isto se diminuam as enormes diferenças políticas que nos separam.
Defender a possibilidade dos trabalhadores e a juventude de se organizarem em sindicatos e partidos é defender nosso próprio direito de lutar, de nos manifestarmos e de fazermos frente ao enorme poder de organização da burguesia e de seus políticos corruptos e parasitas. Sem partidos, nossa organização nunca será capaz de derrubar os poderosos e seus canhões.

“Sem violência! Sem violência”



Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. 

Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.

- Bertolt Brecht, Sobre a violência


O que é roubar um banco comparado a fundar um?

- Bertolt Brecht, A ópera dos três vinténs


Desde a brutal repressão policial que ocorreu no ato em São Paulo, no dia 13 de junho, com mais de 250 presos e 100 feridos, o movimento deu um salto. Muitos passaram a apoiá-lo nem tanto pela redução do aumento, mas pela indignação de uma manifestação democrática ser reprimida de forma tão truculenta pela polícia. A partir deste momento, a própria mídia foi obrigada a mudar drasticamente seu discurso, que até então era de condenar de forma unânime as manifestações. A violência policial chocou de tal forma a pequena-burguesia que conforma grande parte da mal chamada “opinião pública”, que os veículos de imprensa foram obrigados a endurecer seu discurso contra a repressão. Ainda que procurassem a todo momento distorcer os fatos, dizendo que se tratavam de policiais “mal preparados” ou de “excessos”, tentando assim maquiar a conduta geral da polícia e fazer passar uma regra por uma exceção.

Para entendermos a polícia, precisamos compreender que, como afirma Lenin em “O Estado e a revolução”, “O exército permanente e a polícia são os principais instrumentos do poder governamental”. Ou seja, a função primordial da polícia, ao contrário do que nos ensinam, não é a de “proteger todos”, mas de proteger a propriedade privada e o Estado. Quando uma mobilização sai às ruas para questionar os lucros de empresários cujos acordos selados com o governo determinam o funcionamento do transporte na cidade, isto está gerando um embrião de questionamento à propriedade privada dos meios de transporte. A polícia e seu principal aliado no campo das ideias – a mídia controlada pela burguesia – farão seu trabalho: reprimir por um lado e deslegitimar o movimento por outro. Exemplo emblemático foi o discurso de Arnaldo Jabor após os primeiros atos, em que ele comparou os manifestantes ao crime organizado. A realidade é que o crime organizado tem muito mais em comum com a própria polícia, e quem lucra com este é a burguesia e os policiais que tem mil e um laços com o tráfico, como mostrou, por exemplo, esta reportagem da Bandeirantes.

A atuação da polícia, contudo, é muito mais repressiva justamente onde a miséria gerada pela burguesia se expressa com maior força: nas periferias e favelas, onde cotidianamente assassinam a juventude pobre e negra. Quando falamos em violência, precisamos, portanto, lembrar que o que há de mais violento em nossa sociedade é a miséria, a fome, a pobreza, as quais o Estado se esforça para manter com suas leis e sua polícia. Perto disto, é perfeitamente compreensível que as pessoas que são violentadas pelo Estado cotidianamente coloquem um pouco de sua fúria para fora de forma caótica quando os atos conseguem minimamente tomar as ruas contra este Estado. Por mais que não concordemos com este método pela sua ineficácia, o que repudiamos não é esta “violência”, mas sim o discurso da mídia burguesa que nada fala sobre Douglas Henrique, jovem metalúrgico morto nas manifestações, mas dá grande destaque a lixeiras reviradas na manifestação. Até figuras da própria mídia, quando não estão com o cabresto que lhes é imposto pelos donos das emissoras, concordam com isto, como vemos nesta entrevista com Ricardo Boechat.

Há que se diferenciar as “violências” dos manifestantes. Não é à toa que quando as manifestações se tornam massivas, o discurso da mídia muda completamente, como vemos nas esfarrapadas “desculpas” de Jabor (na verdade uma tentativa de se relocalizar e ainda “ensinar” aos manifestantes pelo que devem lutar, colocando as pautas de um típico comentarista de direita da globo). A mídia passa a querer criar um abismo entre os “manifestantes ordeiros e cidadãos” e os “vândalos, baderneiros, arruaceiros”. Jogar uma pedra contra a polícia é um embrião de auto-defesa. Conforme a luta nas ruas cresça, esta tendência terá que se organizar e se expressar efetivamente em milícias operárias e populares. Como afirma Lenin: “a sociedade civilizada está dividida em classes hostis e irreconciliáveis cujo armamento ‘espontâneo’ provocaria a luta armada. Forma-se o Estado; cria-se uma força especial, criam-se corpos armados, e cada revolução, destruindo o aparelho governamental, põe em evidência como a classe dominante se empenha em reconstituir, a seu serviço, corpos de homens armados, como a classe oprimida se empenha em criar uma nova organização do mesmo gênero, para pô-la ao serviço, não mais dos exploradores, mas dos explorados”.

Contudo, nem toda a violência é a legítima defesa contra a polícia. Quando se joga uma pedra na vidraça de um banco, é um pequeno protesto contra o saque cotidiano aos trabalhadores que é feito pela burguesia. Quando se faz uma pichação de protesto, é uma forma de colocar para fora uma voz que não tem onde se expressar na sociedade, é uma forma de luta. Mas a depredação caótica de casas, carros populares ou pequenos comércios afeta justamente aqueles que têm motivo para colocar seu ódio nas ruas: estamos atacando a nós mesmos e ajudando a criar um rechaço popular às manifestações ao invés de ganhar mais apoio. Isto não quer dizer que devemos, como nos sugere a Rede Globo ou os comandantes da polícia, entregar os manifestantes que façam isto. Eles podem estar equivocados, mas é um dos nossos, e temos que convencê-lo de seu erro; a polícia, por outro lado, é nossa inimiga, e contra ela devemos estar unidos.

A burguesia não tomou o poder das mãos da nobreza pacificamente, e nunca um tirano deixará seu poder “pela força do diálogo”. Como disse o abolicionista Luis Gama, “todo escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Nunca confundamos a violência do opressor com a resistência do oprimido. A nossa violência, dos que são explorados e oprimidos cotidianamente, deve se organizar para resistir aos ataques dos opressores e poder se transformar em força para mudar a sociedade e coloca-la de cabeça para baixo.

Agora é hora de nos organizarmos, avançarmos em nosso programa e nos colocarmos com a classe trabalhadora nas ruas para levar esta insatisfação que explodiu às suas últimas consequências, virando de cabeça pra baixo esta sociedade!