sexta-feira, setembro 20, 2013
Uma greve, uma reação
Sete horas da manhã na porta da Agência Sete de Abril, no centro de São Paulo. Primeiro dia de greve dos bancários em todo o país, uma chuva cobre a cidade desde a madrugada, e minha casa amanheceu sem luz. Em uma manhã tão boa para ficar embaixo dos cobertores, eu e mais alguns camaradas da Juventude às Ruas da USP e Metroviários pela Base fomos apoiar os trabalhadores da Sete, que desde 2011 passaram a combater a passividade construída por décadas de uma direção sindical parasitária e acomodada, que está lado a lado com o governo que há mais de dez anos garante lucros recordes para os banqueiros brasileiros.
A burocracia sindical da CUT está há décadas encastelada no sindicato graças à estrutura sindical que existe no Brasil desde a época de Getúlio Vargas e suas reformas sindicais que atrelaram os sindicatos ao Estado, e também aos parasitas que hegemonizaram o PT, transformando um dos maiores partidos de trabalhadores criado no país em um mero aplicador das políticas da burguesia. Parasitas bem remunerados, que há anos não trabalham e vivem do imposto sindical e de fazer acordos com a patronal, fazendo de tudo para impedir a organização política independente dos bancários. Suas greves de calendário são uma triste rotina do movimento sindical brasileiro. Nelas, o sindicato contrata funcionários para fazer sua "greve terceirizada": eles passam nas agências, colam adesivos de greve e faixas, às vezes colocam um "piqueteiro terceirizado" para ficar na frente da agência por 50 reais! E só para ilustrar a seriedade com a qual estes dirigentes encaram a mobilização dos bancários, por uma "coincidência" incrível a APCEF (Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal) está fazendo uma "promoção relâmpago" das suas colônias de férias na semana em que se inicia a greve!!! Por isto, quando dizemos que é uma passividade construída, não estamos dizendo à toa: o interesse material dos parasitas do sindicato é que os trabalhadores continuem reféns de suas negociações com a patronal sem nenhuma interferência da base, e colocarão todos os seus recursos a serviço de atingir este fim. Mais uma mostra disso é a "democracia" que garantem nas assembleias dos bancários, contratando bate-paus para impedirem os trabalhadores de falarem e, quando a correlação de forças não permite que impeçam a oposição de se manifestar, eles colocam seus "funcionários" para vaiar, como na assembleia do dia 12/09.
A Sete de Abril quer ser tudo o que a burocracia petista não quer: uma agência que se organize desde a base para colocar os trabalhadores como sujeitos de sua greve; uma agência que faça de seus bancários verdadeiros tribunos do povo, lutando contra a precarização do atendimento aos clientes e unificando a luta salarial pela luta política contra os banqueiros seus governos que defendem seus lucros a ferro e fogo; uma agência em que os efetivos lutem pela unificação com os terceirizados, por sua efetivação e contra a super-exploração dos trabalhadores das lotéricas que tem que cumprir função de bancários por um terço dos salários; uma agência que combata a burocracia sindical e a polícia, resgatando os métodos históricos de luta dos trabalhadores; uma agência, enfim, que ultrapasse as greves fajutas das data-base e alce a luta pontual dos bancários a um verdadeiro embate entre classes: bancários e clientes contra banqueiros e governos. Foi com esta moral e este método que paramos a sétima agência mais lucrativa da Caixa em todo o país, para desgosto dos capitalistas, dos burocratas, dos policiais, dos reacionários.
É por isso que participar do Piquete da Sete é uma experiência tão recompensadora e desafiadora. E não tardou para que a combatividade dos trabalhadores da Sete e do Avante Bancários provocasse a reação dos que veem na luta dos trabalhadores uma ameaça. Aproxima-se do piquete uma senhora, que manifesta seu desejo de entrar. Nós, como fizemos em todos os casos anteriores, explicamos que a agência está fechada, e ainda indicamos que na da República está funcionando o auto-atendimento. Quase todos que passaram por lá agradeceram a informação e andaram um quarteirão para utilizar a outra agência (entupindo os fura-greves de trabalho extra). Mas não esta senhora. Para ela, é uma questão de princípios, de direito, de dignidade. Se as máquinas estão ligadas, ela tem o direito de entrar. Nós explicamos, calma e pacientemente, que não: os funcionários estão em greve. Mas é o caixa-automático, explica ela. Mas ele é operado por pessoas, explicamos nós.
O diálogo chegou ao seu limite, ela não vai arredar pé de seu "direito", e anuncia que respeita o direito de greve dos trabalhadores e que eles devem respeitar o dela. Como ela própria afirmou posteriormente, sua posição cabe no chavão: o meu direito acaba onde começa o direito do outro. É assim que a burguesia liberal cunhou sua noção de liberdade, pois os direitos dos trabalhadores de uma vida digna acabam onde começa o direito à propriedade privada. Para os comunistas é o inverso: o meu direito começa onde começa a liberdade e o direito do outro. A liberdade entre os indivíduos não é fruto de uma competição, mas de uma cooperação, onde a sua liberdade me torna mais livre e vice-versa. Um pensamento tão simples e verdadeiro, que contudo nunca caberia na cabeça daquela mulher, moldada por um mundo com muitos direitos para poucos e poucos direitos para muitos.
Ela pega seu telefone. Adivinhando sua intenção, eu lhe informo: "tem uma viatura ali do outro lado da rua". É exatamente para lá que ela vai. Nos divertimos vendo a cara de desgosto do policial que tem sua ociosidade interrompida pela mulher que se recusa a andar mais um quarteirão para usar o caixa eletrônico (é uma questão de direitos!). Depois de um tempo e muita encheção de saco, ela convence o policial a "servir e proteger"...o direito de afrontar uma greve. Chegam mais viaturas, os policiais se aproximam, pedem pelo líder. Nosso camarada Edison, militante da LER-QI e do Uma Classe, delegado sindical da Sete, se apresenta.
Ouvimos a boa e velha ladainha que todos os coxinhas devem aprender no seu manual de adestramento de cães de guarda: a greve é um direito que ele não contesta; mas ele está lá para fazer cumprir a lei, e a mulher tem o direito de entrar. Ele, inclusive, também garante o direito dos bancários fazerem greve (será que ele realmente espera que alguém acredite nisso?). Escolhemos um argumento bastante simples e compreensível: não adianta ela usar o caixa, os operadores deles não vão trabalhar. O policial retruca: "Mas o caixa é automático". Sim, mas alguém opera ele! "Ah, você quer dizer que quando alguém pede dinheiro fica uma pessoa ali pra dar o dinheiro?" Provavelmente o policial, em toda a exuberância do funcionamento de seu cérebro de assassino fardado, imaginava um homem - talvez um anão - dentro da máquina enfiando cédulas. O coitado não consegue imaginar a diferença entre "automático" e "mágico"; não entende que a máquina não fabrica dinheiro, não processa os depósitos, e não prescinde do trabalho de um ser humano que a opere. Este argumento custou a entrar em sua cabeça. Minha vontade - evidentemente e infelizmente não realizada - foi de lhe dizer: "bom, chamam sua pistola de automática, mas mesmo assim precisam de um imbecil como você operando ela para que possa matar. É a mesma coisa com o caixa: ele chama automático mas são pessoas que operam ele. A diferença é que ele não mata e é operado por trabalhadores, não por assassinos". Acho que seria didático e ele entenderia na hora, mas me custaria mais problemas do que tentar fazê-lo entender por outras formas mais sutis.
Por trás desta pequena "ingenuidade" do soldado servidor da lei está, no entanto, algo muito mais significativo do que a sua mesquinha estupidez: está o processo ideológico que desde sempre se utilizou para esconder a verdade elementar de que a produção de tudo o que existe depende exclusivamente do trabalho de mulheres e homens explorados cotidianamente. Começa com o fetiche da mercadoria, em que o trabalho humano aplicado na produção de todas as coisas está distante de nossos olhos e de nossa mente: as coisas parecem surgir como um passe de mágica (como o dinheiro no caixa-eletrônico!); nos últimos trinta anos, o discurso permanece o mesmo mas ganha nova roupagem: as máquinas fazem tudo, não há mais trabalhadores. Procura-se dizer que a classe trabalhadora não existe mais. A academia vomita este senso comum burguês como uma verdade inabalável. A polícia o mastiga de forma rudimentar no piquete da Sete, enquanto ameaça levar todo mundo pra delegacia. Mas quando os trabalhadores decidem se organizar e passam a confiar nas suas próprias forças, já não é mais tão fácil convencê-los de que eles não podem. Eles descobrem que podem muito mais do que sempre lhes disseram.
Em meio ao discurso da mulher, que agora se revelou uma advogada (tá explicada a fixação pelos "direitos"!), repassa seus argumentos. Exclama, entusiasmada: "vocês não sabem a força que têm, deveriam estar em outro lugar." Mas acho que quem não sabia a força do piquete da sete era ela... "Eu nem discuto o direito de greve de vocês, mas tem que respeitar o meu direito. Se o caixa está ligado, eu tenho direito de usar". Ou seja: respeito o direito de greve, contanto que ele não paralise a produção; em outras palavras, respeito seu direito contanto que ele não sirva para nada. Ela não discutiu mesmo o direito de greve: para fazer isto ela contou com a polícia; eles teriam argumentos mais persuasivos...
Mas o verdadeiro conteúdo social de sua revolta se expressou mesmo na seguinte colocação: "Se estivesse fechado o banco, aí seria outra coisa. Mas vocês que estão impedindo a passagem!" Ah! Agora eu entendi! Se fosse a patronal fechando o banco e impedindo os clientes de usar o serviço, não tem problema. O problema mesmo é que os trabalhadores estavam se organizando para parar o banco; o problema mesmo é que os trabalhadores tiveram a petulância de afirmar que são eles os produtores, e por isto podem controlar a produção. Por isto ela não podia andar um quarteirão a mais para usar o caixa eletrônico! Porque a realidade é que é uma questão de classe, e não de quarteirões ou "direitos" em abstrato. Com sua licença, chamo aqui o camarada Lenin e um trecho de seu texto "Sobre as Greves" para explicar melhor:
"Mas as greves, por emanarem da própria natureza da sociedade capitalista, significam o começo da luta da classe operária contra esta estrutura da sociedade. Quando operários despojados que agem individualmente enfrentam os potentados capitalistas, isso equivale à completa escravização dos operários. Quando, porém, estes operários desapossados se unem, a coisa muda. Não há riquezas que os capitalistas possam aproveitar se estes não encontram operários dispostos a trabalhar com os instrumentos e materiais dos capitalistas e a produzir novas riquezas. Quando os operários enfrentam sozinhos os patrões continuam sendo verdadeiros escravos, que trabalham eternamente para um estranho, por um pedaço de pão, como assalariados eternamente submissos e silenciosos. Mas quando os operários levantam juntos suas reivindicações e se negam a submeter-se a quem tem a bolsa de ouro, deixam então de ser escravos, convertem-se em homens e começam a exigir que seu trabalho não sirva somente para enriquecer a um punhado de parasitas, mas que permita aos trabalhadores viver como pessoas. Os escravos começam a apresentar a reivindicação de se transformar em donos: trabalhar e viver não como queiram os latifundiários e capitalistas, mas como queiram os próprios trabalhadores. As greves infundem sempre tal espanto aos capitalistas porque começam a fazer vacilar seu domínio. “Todas as rodas detêm-se, se assim o quer teu braço vigoroso”, diz sobre a classe operária uma canção dos operários alemães. Com efeito, as fábricas, as propriedades dos latifundiários, as máquinas, as ferrovias, etc, etc, são, por assim dizer, rodas de uma enorme engrenagem: esta engrenagem fornece diferentes produtos, transforma-os, distribui-os onde necessário. Toda esta engrenagem é movida pelo operário, que cultiva a terra, extrai o mineral, elabora as mercadorias nas fábricas, constrói casas, oficinas e ferrovias. Quando os operários se negam a trabalhar, todo esse mecanismo ameaça paralisar-se. Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários, que proclamam seus direitos com força crescente. Cada greve lembra aos operários que sua situação não é desesperada e que não estão sós."
E é por isso que o pequenino exemplo do Piquete da Sete tem que ser combatido tão decididamente, e logo eram quatro a cinco viaturas em cima de nós. Tomam o RG de Edison bem como o meu, pedido pelo coxa porque eu estava filmando ele "sem autorização". Ameaças, intimidações: "Quantos são? Ah, quatro viaturas dá pra levar todo mundo." Os bancários da Sete conseguem convencer a gerente geral a trancar a porta da agência, e nós liberamos a entrada para que a mulher passe. Triunfalmente, a advogada avança rumo à porta e aperta o botão para abrí-la: nada acontece. "Não é justo! Vocês pediram para eles trancarem!" Pobre reacionária...vai para casa com uma lição: a unidade dos trabalhadores tem força política concreta, que nem sempre a força das armas pode derrotar. A verdade é que a gerente da agência foi obrigada a fechar a porta porque dependia dos trabalhadores para tudo, e não lhe restava opção neste caso a não ser ceder. Não só é justo, como é necessário que os trabalhadores imponham sua força sobre quem os explora.
Mas não acaba por aí. Era uma questão de direitos, e por isso a advogada irá levar sua cruzada anti-greve até o fim: exige dos policiais que levem o delegado sindical para a delegacia para prestar esclarecimentos. Isto nos é informado, justamente quando Edison fazia uma fala no microfone aberto que nos acompanhou no piquete. A denúncia é imediata (em breve postaremos vídeos das falas) sobre a tentativa de cercear o direito de greve, e no microfone ela toma a Sete de Abril e intriga os passantes, que a esta altura se perguntavam o que era a confusão. Não é difícil para nenhum trabalhador honesto entender, e não foi difícil para Edison explicar aos que passavam ali no horário de almoço, que a greve dos bancários - se consegue passar por cima da burocracia sindical, da polícia e dos patrões - só pode beneficiar o conjunto da população pobre e dos trabalhadores. A denúncia da tentativa de prisão teve repercussão imediata, e o tenente-qualquer-coisa imediatamente aborda outro camarada nosso: "Não! Veja bem, não se trata de desrespeitar o direito de greve". Bom, é isso que está parecendo... Rapidamente os policiais retrocederam, entregaram contrariados nossos documentos e ouviram calados as denúncias do ataque ao direito de greve, à violência policial contra o povo negro muito bem colocada pela Marcela... Eles também aprenderam uma lição sobre correlação de forças...
Hoje, a greve e o Piquete da Sete deixam uma conquista que vai muito além de um dia de caixa eletrônico fechado; este dia é uma vitória moral destes trabalhadores e da juventude que esteve ao seu lado, saímos do piquete com disposição redobrada de continuar nos organizando a partir de cada local de trabalho e estudo, de transformar nossos pequenos triunfos em grandes exemplos, de lutar contra a polícia, os patrões, os governos e a burocracia sindical!
Todo apoio à greve dos bancários!
Pelo salário mínimo do DIEESE (cerca de R$ 2.700)!
Contratação imediata de funcionários para acabar com as incontáveis doenças causadas nos bancários pela superexploração e acabar com as intermináveis filas que enfrentam os trabalhadores nas agências!
Fim da terceirização nas agências e nas casas lotéricas, onde os trabalhadores são forçados a fazer o mesmo trabalho por um terço do salário! Efetivação de todos os terceirizados sem concurso!
Pelo fim do lucro dos banqueiros à custa de nosso suor! Estatização dos bancos sob controle dos trabalhadores! Crédito barato para todos os trabalhadores e o povo pobre! Fim das taxas absurdas!
Pelo direito de greve! Não à repressão da polícia aos piquetes! Fora burocracia dos sindicatos!
quinta-feira, agosto 29, 2013
Medicina, racismo e elitismo no Brasil: uma combinação de classe feita para matar
Me perdoem se for
preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada
doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível.
Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõem a
partir da aparência... coitada da nossa população. Será que eles
entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo.
- Michele
Borges, jornalista em seu Facebook.
Eu
estive lá, eu vi de perto quem são e como se formam as pessoas que
se juntaram por um instinto de auto-defesa corporativa para chamar os
médicos cubanos de “escravos”. Passei mais de um ano estudando
medicina com estas pessoas, e posso afirmar que foi uma experiência
que marcou minha vida. Me ensinou muito concretamente algo que eu
viria a aprender teoricamente apenas alguns anos depois: que a
sociedade em que vivemos é dividida em classes, com interesses
antagônicos e irreconciliáveis.
Quando
estive em uma faculdade privada de medicina, a Unisa, nos anos de
2003 e 2004 eu não era comunista. Estava muito longe disso. Era
petista, acreditava que a única possibilidade que restava à
humanidade era fazer do capitalismo o menos pior que ele pudesse ser.
A verdade é que eu pensava assim porque havia crescido e passado
toda a minha adolescência na bolha da pequena-burguesia, e isto me
impedia de ver o mundo tal como ele é; contudo, todo tipo de
alienação e limitação em minha visão política que eu pudesse
ter por conta de minha condição de classe era algo que se
relativizou muito quando entrei na medicina: para os parâmetros de
lá, eu era um subversivo total. Eu não sabia disto até o primeiro
dia de aula...
Meu
primeiro “ato subversivo” na faculdade foi ter cabelo comprido.
Segundo fui informado aos berros por um estudante do sexto ano, que
insistia também que eu “não tinha direito” de olhar para seu
rosto enquanto ele falava comigo porque eu era um “bixo”, o fato
de eu ter cabelo comprido não apenas não era uma “postura
adequada” para um profissional médico, como também um ato de
arrogância, afinal “quem eu pensava que era” para não cortar o
cabelo como todo mundo havia feito. Estas duas “acusações” me
foram repetidas algumas dezenas de vezes nos meus primeiros dias na
faculdade, quando eu era literalmente escoltado por dois seguranças
privados entre os três que haviam sido contratados pela faculdade
para “impedir trotes” depois que a Unisa foi processada pelos
pais de uma caloura, e que outro calouro teve queimaduras na virilha
após terem jogado querosene nele porque ele era um “bixo rebelde”.
Quando me acusavam de “arrogante” porque eu supostamente “me
achava melhor do que os que haviam cortado o cabelo”, a minha
resposta era bastante simples: “mas eu acho que ninguém deve ser
obrigado a cortar o cabelo”. Meus “superiores” da faculdade
ficavam estupefatos...acho que nunca tinham pensado em uma
possibilidade tão subversiva! Como assim? É a tradição! Você
entra, toma trotes e depois os aplica. Assim você aprende quem manda
e quem obedece. E você obedece para depois mandar. É a hierarquia.
O
racismo nojento que se expressou nos gritos de “escravos” contra
os médicos cubanos tampouco é incomum e para mim não foi novidade.
Basta dizer que os trotes contra os calouros são aplicados até o
dia 13 de maio, pois é o dia da “libertação dos escravos”. Na
visão dos estudantes de medicina, é claro, apenas uma “piadinha
inocente” com a carnificina secular à qual submeteram o povo negro.
Vou
poupá-los de um tanto de histórias semelhantes que seriam
suficientes para um livro e contar apenas mais dois episódios: um
deles se deu quando eu cometi o erro de ir a uma “confraternização”
da faculdade, fora do campus, onde eu estava totalmente à mercê dos
imbecis, cuja opinião sobre mim àquela altura (minha fama de “pau
no cu”, como eles diziam para se referir a quem não se adequasse
às suas regras e hierarquias, já havia corrido os quatro cantos da
faculdade) não devia ser nada melhor do que a que têm sobre os
médicos cubanos. Depois de ser submetido a algumas rodadas de
cerveja na cabeça, de ser obrigado a beber cerveja com meu próprio
cabelo cortado dentro dela, de ouvir todo tipo de insulto gritado e
cuspido em minhas orelhas, meus “superiores” me obrigaram a subir
em uma mesa para entoar o glorioso hino da faculdade tantas vezes
quantas fosse necessário até que todos os presentes se dispusessem
a me acompanhar. Faço questão de dividir a letra com vocês:
Pessoal!
Xá! (o
coro responde: Vasca!)
Xá!
Vasca!
Xavasqui!
Xavascá! Xavasqui e acolá!
Enfia o
dedo nela que ela vai arreganhar!
O que?
Arre-ga-nhar!
Na rima
do pudendo (termo médico que designa a fissura formada pelos grandes
lábios da vagina)
eu entrei
mordendo!
É a Med Santo Amaro que está te fodendo!
É a Med Santo Amaro que está te fodendo!
Medicina!
Santo Amaro! Hooool!
Havia
umas tantas outras músicas que expressavam a sofisticação humana
dos meus colegas. Vou reproduzir apenas mais uma, em homenagem à
coruja loka – singelo símbolo da Atlética (o grande órgão
venerado pelos estudantes):
A coruja
bota no seu cu!
E goza, e
goza, e goza na sua boca!
Loca!
Loca, loca, loca, locaaa!
Coruja
loca!
Em
seguida, após eu passar pelo ritual de iniciação, a pose de
oficial do exército foi deixada de lado por um dos veteranos, do
sexto ano, que veio conversar comigo “sinceramente”. Disse-me que
eu não podia ter aquele tipo de postura, que agora sim eu estava
agindo de acordo, que nós precisávamos de união. “Você já
ouviu falar da máfia de branco?” Ele disse. “Nós somos a máfia
de branco. Se você precisar de ajuda, somos nós que estaremos lá
para nos ajudarmos. Numa prova, quando tivermos que colar, somos nós
que nos apoiaremos. Se acontecer alguma coisa com um paciente, somos
nós que vamos ter que acobertar. Por isto precisamos ficar unidos”.
Sim, é
isto: é uma corporação no sentido forte do termo. Eles defendem
seus interesses. Por isto se unem para repelir os médicos cubanos
que estão entrando em “seu território”. Por isto se unem para
defender o Ato Médico para tirar os outros profissionais da saúde
do “seu território”. Por isto fazem rituais de iniciação
medievais, tais como se faz na polícia ou no exército, tais como os
do Capitão Nascimento, para iniciar os “seus” em “sua
corporação”. Eles realmente se consideram melhores do que todos
os outros seres humanos, e não há exagero aqui. Apenas uma vez
consegui conversar com estudantes de outro curso no campus, que
abrigava todos os cursos de biológicas. Eles não sabiam que eu era
estudante de medicina. Quando lhes disse, imediatamente queriam
interromper a conversa: já conheciam este tipo de gente. Apenas se
abriram novamente quando lhes confessei que eu também tinha desprezo
pelos meus colegas de curso e vice-versa.
Há outra
ocasião que quero compartilhar: a visita ao hospital ligado à
universidade, o Hospital Geral do Grajaú (HGG), e a visita à
unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) conveniado com a
universidade. No hospital, pela primeira vez fui bem tratado por uma
estudante do sexto ano. Era uma moça que talvez não tivesse contato
ou não se importasse tanto com a minha “fama”. Ela me recebeu
bem, me explicou tudo, foi extremamente gentil. Então, chegaram os
pacientes. O HGG é hospital de referência da região, onde vão
parar todos os casos minimamente graves. A estudante estava no último ano de seu
internato, período em que é “obrigada” a atender no hospital. A
rudeza com a qual ela recebeu o paciente me deixou atônito. Pegando a sonda que estava nele e a examinando rapidamente junto a uma papelada, ela identificou que já
havia recebido o paciente e que indicara que ele marcasse uma
consulta no ambulatório de especialidades da faculdade. “Eu não
te mandei ir lá marcar a consulta? Por que você não foi? Por que
voltou aqui?” O paciente, certamente intimidado em sua condição
de trabalhador e pobre diante do poder implícito do jaleco e do
título da “doutora” da “máfia de branco”, respondeu
humildemente que ele havia tentado marcar a consulta, mas que eles
tinham vagas somente para dali a três meses, e que ele precisava
limpar a sonda antes disso, e que não tinha condições de esperar tanto. Perguntava se ela poderia fazer alguma coisa por ela. Mesmo que ela quisesse muito, o que estava longe de ser o caso, não poderia: esta é a principal agonia que eu antevia na minha profissão depois de estar formado - a impossibilidade de ajudar meus pacientes mesmo que fosse um médico competente, porque simplesmente não há nenhuma infraestrutura mínima para realizar o trabalho.
A
estudante conseguia habilmente ser gentil quando se dirigia a mim, de
forma atenciosa perguntando se eu queria ajudar a trocar a sonda, e
estúpida, rude, impaciente quando se dirigia ao paciente que “não
entendia nada” das “ordens médicas”. Não posso deixar de
lembrar dos médicos cubanos, negros, como os pacientes maltratados
daquela interna. Negros “com cara de empregada”, a quem gente que
paga alguns milhares de reais por mês para estudar numa faculdade
privada de medicina está acostumada a tratar como uma categoria
inferior de seres humanos. Assim que o paciente deixou o consultório,
ela desabafou comigo: “Ainda bem que só faltam seis meses para eu
sair daqui!”. Em seguida, se tudo desse certo, ela faria residência
e abriria seu consultório particular, para nunca mais precisar
encostar ou se dirigir a um negro ou um pobre na condição de
paciente, e eles voltariam a ocupar o lugar invisível de subalternos
que a médica desejava para eles em sua vida.
Quando
fomos ao PSF, passamos em pequenos grupos de estudantes do primeiro
ano nas casas da favela do Grajaú junto com a agente comunitária,
recrutada entre os moradores dali mesmo. Imaginem vocês aqueles
estudantes que provavelmente nunca entraram em um ônibus na vida,
andando em uma favela. Depois de tantas visitas e tantas casas, a
agente desabafou conosco: “Ainda bem que vocês estão vindo aqui,
para ver como é. Nós precisamos muito de mais médicos aqui. O
pessoal se forma e vai embora, nunca mais volta e nós ficamos sem
médicos para nos atender.” Ela se afasta, um colega compartilha
seus sentimentos íntimos conosco: “Ah, me desculpa, mas eu nunca
trabalharia aqui.” Ele continuou seu discurso, mas acho que meu
cérebro, após estes anos, preferiu bloqueá-lo de minhas memórias para me poupar um pouco. Hoje, lembrando
disso, penso nos médicos que chamam os negros cubanos que deixaram
seu país por um salário de R$10 mil reais, cuja metade será paga
ao ministério da saúde de Cuba, de “escravos”. Quem trabalharia
por esta miséria? Na visão deles, apenas os médicos negros,
“escravos”, com “cara de empregada”. Será que eles sabem que
isto é muito mais do que ganha a maior parte dos trabalhadores do
Brasil? Será que eles se importam? O que meus colegas disseram já
responde a estas perguntas.
Eu
poderia continuar escrevendo muito, muito mesmo, sobre o que há de
podre na medicina. Foram estas coisas que me fizeram largar o curso
ainda no segundo ano. Eu não seria capaz de conviver com esta gente,
com seu modo de pensar, de viver. Talvez eu ficasse deprimido, talvez
fizesse um atentado ao estilo “jovem americano” entrando na
faculdade e fuzilando a todos. Preferi sair. Amadurecendo minha visão
política nos anos seguintes pude perceber as causas sociais que
levam os médicos e a medicina a serem assim. Talvez esta experiência
pessoal tenha ajudado a me empurrar um pouco mais rápido para o
socialismo. O que sei é que trazer um punhado de médicos cubanos
pode escancarar a mentalidade podre de nossos médicos, mas pouco ou
quase nada pode fazer para ajudar a que o povo pobre e trabalhador a
ter acesso a condições mínimas de saúde. E, sem dúvida, a
mudança desta situação não virá pelas mãos de Dilma nem de
nenhum governante a serviço deste Estado. Virar a medicina
brasileira de cabeça para baixo é uma tarefa para a revolução
operária e socialista.
segunda-feira, agosto 05, 2013
#Partiu Zanon!
Posso dizer sem muito receio de
errar que o período no qual cresceu minha geração foi um dos mais tristes e
sombrios desde que se iniciou a história do capitalismo. Está certo que em
relação a momentos como as guerras mundiais ou a crise dos 30, ou mesmo os
primórdios do capitalismo industrial, grande parte das pessoas sofreu menos
privações materiais ou sofrimento físico. Mas é uma geração da qual a burguesia
roubou algo muito mais valioso do que qualquer privação material poderia impor:
a possibilidade de acreditar em um mundo distinto, em um futuro melhor para a
humanidade; s possibilidade de se ver enquanto sujeito da história e da
superação da miséria da humanidade. A mim, pelo menos, nada parece mais
assustador do que a ideia de que a história acabou – que, por incrível que
pareça, teve nas décadas passadas seu breve período de apogeu e triunfo.
Digo
isto para tentar explicar um pouco que seja o que alguns jovens desta geração,
alguns dos quais estas ideias pareciam inacreditáveis, podem sentir diante de
uma pequena – porém fundamental –
trincheira no combate a esta derrota que a possibilidade de um futuro sofreu
enquanto nascemos e crescemos. A trincheira da qual eu falo é fruto de um
combate árduo que já dura mais de uma década, protagonizado por algumas
centenas de operários e com o apoio imprescindível de uma camada mais ampla de
estudantes, desempregados, indígenas, presidiários, donas de casa, enfim, de
todo um setor da população que corretamente reconheceu na luta destes trabalhadores
o seu próprio combate por uma vida mais digna. Trata-se de um pequeno exemplo
da luta de classes – aquela que queriam nos fazer acreditar que havia
desaparecido – na qual a classe que gesta dentro de si o futuro – o
proletariado – conquistou para si e para os demais explorados e oprimidos do
mundo, uma vitória.
Foi
na crise de 2001 na Argentina que isto começou. Com a queda de cinco
presidentes, a revolta de amplos setores da classe média, uma crise econômica
profunda e generalizada, centenas de fábricas foram ocupadas. O capital tratou
mais uma vez de demonstrar sua força, maleabilidade e poder não apenas de
repressão – acabando com diversas ocupações com o aparato policial – mas também
de cooptação – tratando de impor a que muitas ocupações se tornassem
cooperativas e os seus trabalhadores passassem a ser pequenos empreendedores,
pequenos patrões e capitalistas. Em Zanon, fábrica de cerâmica localizada na
província de Neuquén, no sul da Argentina, a história foi outra. Os
trabalhadores ocuparam a fábrica, colocaram-na para produzir, resistiram
bravamente todas as investidas da polícia, conquistaram o apoio do povo pobre,
dos estudantes e dos indígenas. Um pequeno exemplo mostra a grandeza da luta:
os presidiários de um presídio local decidiram apoiar a luta, e para isto
fizeram greve de fome para doar sua própria comida aos trabalhadores de Zanon
em luta.
A
fábrica virou patrimônio do povo, doando sua produção para a construção de
hospitais e escolas que o governo se recusava a construir. Aumentou o número de
postos de trabalho, empregando uma parte dos desempregados que apoiaram a luta
dos operários. Estudantes da universidade se aliaram aos trabalhadores
ajudando-os a gerir os aspectos da produção dos quais eram tolhidos no sistema
patronal da divisão do trabalho entre o intelectual/técnico e o
físico/produtivo, colocando de pé, assim, um verdadeiro pacto
operário-universitário que mostra o potencial transformador da universidade
quando ela coloca seu conhecimento a serviço dos trabalhadores. Os indígenas do
povo Mapuche apoiaram os operários cedendo-lhes a matéria-prima, argila, que se
encontrava em seu território e que antes era roubada pelo proprietário da
fábrica.
Após
dez anos de luta, o povo de Neuquén e os operários de Zanon (rebatizada como FaSinPat
– sigla para Fábrica Sem Patrões) conseguiram dobrar até mesmo o sagrado
direito burguês da propriedade privada, e impuseram que se reconhecesse
legalmente a expropriação da fábrica. Mas sua luta vai muito além dos limites
de uma fábrica, pois os operários aprenderam no curso de sua luta que é
necessário lutar por muito mais, que as injustiças não se iniciaram e não
terminam nos portões de Zanon, e que tampouco é possível derrotá-las
restringindo a luta. O primeiro passo foi retomar o Sindicato Ceramista de
Neuquén das mãos da máfia que o controlava, uma verdadeira corja de burocratas
sindicais que sustentavam-se fartamente fazendo do sindicato um mantenedor dos
interesses patronais. Em Neuquén, como em qualquer parte do mundo, a tarefa de
expulsar os burocratas dos sindicatos é fundamental para retomar um dos
principais instrumentos de lutas dos trabalhadores. Para assegurar que o
sindicato permanecesse assim, o estatuto do sindicato foi reformulado de forma
a que seus dirigentes não gozassem de privilégios, e que tivessem o limite de
um mandato sindical para que depois retornassem a seus postos de trabalho nas
fábricas. Como ensinou Marx há um bocado de tempo, nossa consciência está em
primeiro lugar determinada pelas nossas condições materiais de vida. Um
dirigente sindical que receba um salário bem maior do que aquele que recebia na
fábrica, e ainda por cima possa se manter por décadas fora da linha de produção
se reelegendo indefinidamente como dirigente sindical, tem todos os motivos
para se tornar um burocrata, que passará a vender os interesses dos
trabalhadores aos patrões em nome de garantir seus próprios privilégios
materiais. É o caso de quase todos os ratos parasitas da CUT, Força Sindical e
outras centrais sindicais vendidas em nosso país.
Vários
anos depois, os operários deram mais um passo na luta contra seus inimigos de
classe, desta vez conquistando um posto avançado dentro de território que, por
sua própria natureza, é do inimigo: o parlamento de Neuquén. A partir da
conformação de uma Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, na sigla em
espanhol), composta pelo PTS (organização
irmã da LER-QI, na qual eu milito aqui no
Brasil), pelo PO e pela IS, se elegeram dois operários de
Zanon para revezarem o mandato entre si e com mais um companheiro da IS. O
primeiro ano foi ocupado pelo operário de Zanon, o companheiro Alejandro López,
que não é de nenhum partido. Atualmente, está na bancada parlamentar Raul
Godoy, também operário de Zanon e dirigente do PTS. Da mesma forma que no
sindicato, o mandato parlamentar não poderia significar um privilégio material,
e Godoy recebe o mesmo salário que recebia na fábrica, doando o restante para
um fundo de lutas dos trabalhadores. Propôs também um projeto de lei que ficou
conhecido nacionalmente, de que todos os parlamentares recebessem o mesmo
salário que uma professora do ensino básico. Para nós, esta é uma atuação
exemplar, que denuncia a podridão do regime político da burguesia e contrasta
enormemente com o péssimo exemplo do
parlamentar do PSOL Jean Wyllys, que recentemente defendeu publicamente o
salário de R$ 26.000 que recebem os parlamentares aqui, como “justo”. Godoy
também esteve recentemente na Grécia, conversando
com os operários da fábrica Vio.Me – sob controle operário desde 2004 –
para apoiar sua luta com a experiência de Zanon.
Isto
é apenas um pouquinho da história da luta de Zanon. Que por sua vez é ainda uma
pequena, minúscula, vitória dos trabalhadores em sua luta contra o capital. Mas
para nós, revolucionários que dedicamos nossas vidas a esta luta, a luta de
Zanon é um grande exemplo. É isto que explica o plano de dez jovens que
decidiram viajar em dois carros até o sul da Argentina para conhecer de perto
esta experiência. Em Porto Alegre, os companheiros fizeram uma grande campanha financeira,
organizando festas e arrecadações para poder custear sua viagem. E eu, quando
fui convidado a fazer parte da viagem como parte da delegação da LER-QI, me
senti privilegiado pela oportunidade de ir pessoalmente pela primeira vez ver o
exemplo que meus camaradas do PTS dão em conjunto com os operários
independentes em Zanon.
Revezando-nos
em cinco motoristas, partimos pelas estradas em uma comitiva de dez pessoas,
entre paulistas e gaúchos; militantes da LER-QI e companheiros independentes;
professores, estudantes e metroviários; todos com o objetivo comum de buscar o
exemplo e a inspiração para seguirmos em nossas cidades e no dia-a-dia na luta
coletiva e histórica de milhões de mulheres e homens contra o sistema de
exploração e miséria em que vivemos.
Mas
no meio do caminho havia uma lebre. Eu, que estava dirigindo o carro, não me
lembro de nada devido a uma pancada na cabeça. Só sei do que me contaram, que
quando fui desviar da lebre, certamente por impulso, o carro capotou, ficando
completamente destruído e ferindo três companheiros. Pelo estado em que o
carro ficou, somos todos unânimes em afirmar que tivemos bastante sorte.
Comigo, apenas uma mão quebrada e dois pontos na outra, além da batida na
cabeça. Valéria teve um corte no rosto, uma pancada na cabeça e uma clavícula
fraturada; também não foi nada muito grave. Mas, infelizmente, nossa
companheira Paula teve ferimentos mais graves: fraturou a bacia e a vértebra
lombar, L2, que por sorte não atingiu sua medula. O acidente na estrada da província
de La Pampa, quando faltavam cerca de 400 km para chegarmos a Zanon, transformou nossa viagem drasticamente.
Recebemos
prontamente toda a ajuda dos poucos camaradas do PTS que militam em Santa Rosa,
capital de La Pampa, que em plena campanha eleitoral se desdobraram em mil para
nos ajudar. Imediatamente também a LER-QI e o PTS enviaram camaradas para
ajudar em tudo o que fosse possível. Paula foi informada que precisava fazer
uma cirurgia para colocar uma prótese no lugar da vértebra fraturada, que
deveria ser feita o quanto antes pois qualquer movimento indevido poderia
atingir sua medula, trazendo graves conseqüências e podendo mesmo deixá-la
paraplégica. Contudo, se há uma coisa que não vale nada no capitalismo, é a
vida de uma pessoa que não tem dinheiro. E este é o caso da minha companheira
Paula, cuja cirurgia foi adiada já por três vezes, com o hospital inventando
mil histórias absurdas e mentirosas, como de que a prótese precisaria vir de
Buenos Aires, o que foi desmentido pelo próprio hospital ao cônsul brasileiro
em uma ligação telefônica.
Desde
os primeiros momentos, Paula mostrou a força, a firmeza e a coragem de uma
verdadeira revolucionária. Apesar da angústia de ficar presa à cama,
praticamente imóvel, apesar das fortíssimas dores que sente e que os
anestésicos só são capazes de aliviar parcialmente, apesar dos absurdos que o
sistema público de saúde a está submetendo, Paula encara a sua situação de forma
valente, apesar dos momentos inevitáveis de angustia, tristeza e desespero.
Insistiu aos companheiros que estavam em condições que seguissem a viagem até
Zanon para conhecer a fábrica, mesmo chorando porque não poderia ir com eles.
Combinei, ao pé do seu leito, que não deixaremos de ir até lá quando ela
estiver melhor. Em meio a sua dor, Paula não deixa em nenhum momento de sentir
e manifestar gratidão pelos companheiros que estão se esforçando para ajudá-la,
em especial a Silvia que desde o começo está ao seu lado no hospital, e sua
mãe, que sem falar uma palavra de espanhol também está lá a seu lado.
Em
Porto Alegre, ocorre uma emocionante demonstração da solidariedade entre os
lutadores, com o Centro Acadêmico de História da UFRGS, onde Paula estuda,
organizando uma campanha financeira, e uma vigília no consulado da Argentina
para pressionar os burocratas a que realizem logo a cirurgia da Paula. Aqui em
São Paulo nós da LER-QI também estamos organizando uma comitiva para ir ao
consulado. O cartunista Latuff também se solidarizou e fez uma charge
denunciando o enorme descaso dos governos brasileiro e argentino com a situação
da Paula.
Se
não pude conhecer Zanon nesta viagem, pude aprender muito mais na prática sobre
a solidariedade de classe. A sensibilidade, a disponibilidade e a atenção dos
camaradas do PTS, sejam os companheiros de La Pampa, seja do companheiro Juan
que veio de Neuquén nos ajudar, é uma lição revolucionária. Sem nunca terem
visto Paula e nem nenhum de nós na vida,
os camaradas fizeram de tudo para nos ajudar. Os laços que unem os
revolucionários, e que os unem aos seus companheiros de classe, podem ser muito
mais fortes do que qualquer amizade. O que nos une é um projeto de vida, uma
luta em comum. Aprender a ser mais humano, contudo, é uma tarefa difícil neste
mundo, e os camaradas sem dúvida me ajudaram muito nisto.
As
maiores lições e exemplos, contudo, quem deu foi a Paula, deitada em sua cama
no hospital. Para além de todo o carinho que Paula tem com todos os que a
ajudam, ela mostra uma grandeza de espírito imensurável ao não deixar que a dor
que a aflige feche seus olhos para a exploração dos que estão ao seu redor. Em
seu leito, escreveu no seu perfil no Facebook: “a
situação dos enfermeiros e enfermeiras aqui é durissíma, chegam a trabalhar 5
dias direto, o hospital sempre lotado de situações horríveis, o meu caso não é
nem de longe o mais grave, o esgotamento desses trabalhadores é visível, a
galera que faz a limpeza do hospital é terceirizada, não preciso dizer que
sendo assim trabalham pra caralho ganhando uma miséria e são na maioria
mulheres, juntando lixo hospitalar que é perigosíssimo, e limpando os quartos e
banheiros todos os dias correndo o risco de pegar infecções. Digo tudo isso
porque essa luta que todas e todos vocês estão travando ultrapassa a pressão
para que se agilize minha cirurgia que é urgente, mas nos demonstra a
desumanização de todo um sistema, o quanto essa merda explora, mata, não está
nem aí e oferece o mínimo para o ser humano poder seguindo sendo explorado, mal
tratado em nome do lucro das figuras ilustres que estão bem confortáveis nesse
momento tendo resolver um caso de descaso.”
Quando leio isto penso que
precisamos urgentemente de mais Paulas no mundo. Quando tudo isto passar, Paula
ainda irá em algum momento conhecer Zanon. Mas, na verdade, o que há de melhor
em Zanon já está dentro dela. E me orgulho de sua luta hoje e das que iremos
travar lado a lado no futuro: a mesma luta dos operários de Zanon, da classe trabalhadora
mundial e dos explorados deste mundo.
terça-feira, julho 02, 2013
O "povo" acordou. Um debate com ideias que estão nas ruas.
As
ideias dominantes de um tempo foram sempre
apenas
as ideias da classe dominante.
-
Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto
do Partido Comunista.
O
que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.
-
Frase dos estudantes franceses nas lutas de maio de 1968.
Centenas
de milhares estão nas ruas por todo o país. Dobramos os governos do PT , PSDB e
PMDB, e revertemos o aumento das tarifas em dezenas de cidades. O “povo”
acordou. As aspas estão aí porque para entendermos o que está acontecendo, é
preciso compreender de que povo estamos falando. Só assim podemos saber para
onde nosso movimento vai, e inclusive tentar influenciar os seus rumos.
Nós,
marxistas, analisamos as coisas a partir de suas condições materiais de
existência: ou seja, tentamos entender como as ideias que surgem estão
relacionadas às condições concretas de seu surgimento, as circunstâncias
históricas que motivaram sua existência. Neste sentido pensamos também o
“povo”: entendemos que a população da nossa sociedade é marcada, entre tantas
coisas, por uma divisão fundamental: as classes sociais. As pessoas pertencem a
uma ou outra classe social conforme seu papel na produção de tudo o que existe
em nossa sociedade, ou seja, conforme as condições materiais de sua existência.
E seus objetivos, seu modo de ver e pensar o mundo, estão sem dúvida bastante condicionados
a isto (ainda que existam mil e uma outras influências que podem ser também determinantes).
Desde que
existe o capitalismo, são duas as classes fundamentais da nossa sociedade,
cujos interesses estão em oposição. Há os que vendem a sua força de trabalho
para um patrão em troca de um salário: estes pertencem à classe trabalhadora,
ou proletariado. E há os que são patrões, que empregam a força de trabalho de
outras pessoas e em troca lhes dão um salário, ficando com a maior parte do
resultado do trabalho de seus empregados (lucro): estes são a burguesia, a
classe dominante em nossa sociedade do ponto de vista tanto político quanto
econômico. O interesse da burguesia é manter a sociedade tal como ela é, para
assim manter seu lucro e sua exploração sobre os trabalhadores; já o proletariado
só pode se libertar de sua própria exploração acabando com o capitalismo e
colocando a produção social como um bem coletivo. Entre estas duas classes
fundamentais, há um meio termo nada desprezível numericamente de pessoas que
trabalham “por conta própria”, sem vender sua força de trabalho para um patrão
mas também sem explorar o trabalho alheio. A estes chamamos de pequena
burguesia, e incluem desde profissionais liberais como médicos e advogados,
passando por camelôs e donos de pequenos negócios, até pequenos agricultores.
As multidões que saem às ruas hoje nos protestos não são homogêneas em sua
composição de classe, e incluem tanto a classe trabalhadora como a
pequena-burguesia, que por conta desta diferença de classe têm interesses
distintos nas manifestações. Algumas consequências disto foram bem tratadas no texto de Iuri Tonelo. Nós, marxistas,
tomamos partido da classe trabalhadora no conflito que existe entre as classes
sociais, pois entendemos que a dinâmica de nossa sociedade coloca como tarefa
desta classe dirigir a luta contra esta sociedade de exploração e miséria,
libertando a si própria e ao restante da humanidade.
O
objetivo deste texto é tentar abordar algumas das principais ideias que têm
surgido nestas manifestações, não apenas em consequência da heterogeneidade de
classe dos manifestantes, mas principalmente porque carregam muito do senso
comum que se forjou na geração que hoje está nas ruas. Uma geração que não viu
revoluções. Algumas destas são as ideias que aprendemos com nossas famílias,
nas escolas, na televisão, nos jornais. Enfim, são as ideias dominantes da
nossa sociedade, e que são transmitidas pelas instituições sociais criadas e
controladas pela burguesia; e por isto transmitem valores que, de uma forma ou
de outra, atendem a seus interesses. Por isto, mesmo os trabalhadores são
educados com valores contrários aos seus próprios interesses, com os mesmos
valores de seus patrões que vivem de explorá-los. O objetivo aqui é abrir um
debate franco com muitos dos que carregam algumas destas ideias, para discutir
como elas podem – muitas vezes ao contrário do que desejam aqueles que as
defendem – significar um atraso para o movimento que sai às ruas querendo lutar
por uma sociedade melhor. Na verdade, justamente porque algumas destas ideias
defendem os interesses dos patrões, muitas vezes elas são pontos de apoio
dentro das manifestações para o conservadorismo de tudo aquilo que estamos
querendo combater. Não à toa, são incentivadas pela imprensa, que por ser de
propriedade da burguesia, expressa as ideias que são do interesse dela.
“Verás que um filho teu não foge à luta”
Os
comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de
que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e
fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do
proletariado todo (...)
-
Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista
As
bandeiras do Brasil, as caras pintadas de verde e amarelo, centenas cantando o
hino nacional ou músicas e palavras de ordem que expressam orgulho de ser
brasileiro. Todos vimos muitas cenas como estas em todos os protestos. Mas,
qual o problema de levantarmos com orgulho a bandeira de nosso país? Bom,
depende da circunstância.
As
nações não existiram sempre, são uma invenção relativamente recente na história
da humanidade. Elas surgem junto com o domínio político da burguesia, que, para
facilitar suas transações econômicas, precisava de uma unidade monetária,
alfandegária, linguística, territorial, bem como de uma organização unificada com
leis e forças armadas (Estado) para defender seus interesses contra outros
burgueses na competição por mercados. Contudo, mais do que um simples
território unificado, a ideia de nação passou a servir como uma forma de
identidade de um povo, mas não uma identidade qualquer: o fundamental para a
burguesia na ideia de “nação” é fazer com que a classe trabalhadora, a quem ela
explora cotidianamente, veja em seu patrão e carrasco que lhe arranca o couro e
lhe dá um salário de fome, um “irmão” ao invés de um inimigo de classe. E no
trabalhador que sofre a mesma exploração que ele em outro país, um “inimigo” ao
invés de um irmão de classe. Assim, os trabalhadores se sentem mais propensos a
se juntar àqueles que os exploram para defender os interesses destes contra
seus irmãos trabalhadores de outro país, e isto aparece disfarçado sob o manto
do patriotismo. Como se o trabalhador estivesse defendendo o interesse da nação
(e, assim, dele mesmo) e não o interesse de seus patrões.
É por isto que o que Marx e Engels diziam em
1848 continua valendo até hoje: “Aos comunistas tem, além disso, sido censurado que querem
abolir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria. Não se lhes pode
tirar o que não têm. Na medida em que o proletariado tem primeiro de conquistar
para si a dominação política, de se elevar a classe dirigente da nação, de se
constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo
nenhum no sentido da burguesia. Os isolamentos e as oposições nacionais dos
povos vão desaparecendo já cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia,
com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da
produção industrial e com as relações de vida que lhe correspondem. A dominação
do proletariado fá-los-á desaparecer ainda mais. A unidade de ação, pelo menos
dos países civilizados, é uma das primeiras condições da sua libertação. À
medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a
exploração de uma nação por outra. Com [a queda da] oposição das classes no
interior da nação cai a posição
hostil das nações entre si”.
Ou seja, o interesse histórico da classe trabalhadora por uma
humanidade livre, de acabar com a exploração do trabalho e de um homem por
outro, passa necessariamente por acabar com a divisão entre países, que só
serve aos burgueses e às suas disputas. É por isto que um dos princípios
fundamentais do comunismo é o internacionalismo, o entendimento que a luta dos
trabalhadores brasileiros é a mesma luta dos trabalhadores de qualquer parte do
mundo e, assim, devemos nos apoiar mutuamente. Por isto que defendemos a
solidariedade ativa às lutas do povo egípcio, sírio, líbio, turco, grego e
outros contra seus governos que os reprimem, pois quanto mais fortalecida
estiver a luta deles, mais estará a nossa e vice-versa.
Contudo, nem sempre o nacionalismo possui um sentido conservador,
tal como no caso da burguesia que reivindica sua pátria para arregimentar os
trabalhadores para se colocar contra os trabalhadores de outro país. Como disse
o revolucionário marxista Leon Trotsky: “Quando
o pequeno camponês ou o operário falam de defesa da pátria, falam da defesa de
sua casa, de sua família e da família de outrem contra a invasão, contra as
bombas, contra os gases asfixiantes. O capitalista e seu jornalista entendem
por defesa da pátria a conquista de colônias e mercados, a extensão, pela
pilhagem, da parte ‘nacional’ da renda mundial. O pacifismo e o patriotismo
burgueses são mentiras completas. No pacifismo e no patriotismo dos oprimidos
há um germe progressista que é necessário saber compreender para daí tirar as
conclusões revolucionárias necessárias. É necessário saber dirigir estas duas
formas de pacifismo e de patriotismo uma contra a outra.”
Por isto, não é possível concordar com os que jogam em um mesmo
saco de “fascistas” todos os que levam um sentimento nacionalista para um ato
de rua. Se é verdade que há aqueles que neste nacionalismo carregam o germe do
reacionarismo e mesmo grupos fascistas, também há milhares que reivindicam um
sentimento progressista de que as demandas populares devem ser conquistadas nas
ruas pelo “povo brasileiro” organizado, em contraposição às instituições
apodrecidas do regime político burguês. Ou seja, é, contraditoriamente, uma
forma de contrapor o “povo” ao Estado burguês (como dizia uma pichação na Avenida Paulista: “até quando o governo será contra o povo?”). Contudo,
mesmo este sentimento progressista dos que levam nas bandeiras do Brasil as
suas demandas por mais investimentos na saúde e educação, abre um espaço para
que o nacionalismo junte em um mesmo saco os manifestantes que querem um Brasil
“mais cívico e ordeiro” e aqueles que defendem sair às ruas e lutar de forma
independente contra a polícia e os governos. O sentimento nacionalista é
facilmente capitalizado pela direita e pela burguesia. É assim que discursos
como os de Dilma se aproveitam deste sentimento nacionalista para tentar botar
“panos quentes” nos protestos. Por isto, é necessário explicar pacientemente
aos que reivindicam o sentimento nacionalista o porquê de nosso combate a ele.
Contra a corrupção
O moderno poder de Estado é apenas uma comissão
que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa
.
-Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista
É inegável que dentre as
inúmeras pautas que passaram a ser levantadas nos protestos, a do combate à
corrupção é uma das que tem grande peso e destaque (em particular nos atos centrais
onde predomina a pequena-burguesia). Isto não apenas porque é, de fato, uma das
mais levantadas pelos manifestantes oriundos da pequena-burguesia, mas também
porque tem um respaldo inclusive entre a classe trabalhadora, e ainda porque a
mídia burguesa faz questão de dar mais destaque a esta pauta do que a outras.
Isto ocorre porque a pauta da corrupção é bastante ampla, difusa, e por isto
pode facilmente ser capitalizada também pela direita burguesa. Exemplo
expressivo disto é o vídeo
de Flávio Bolsonaro, representante da camada mais reacionária da política
brasileira, que diz – entre tantas baboseiras e mentiras deslavadas – que “o PT
é o partido mais corrupto do Brasil”, e que “este protesto tem que continuar nas
urnas”. Ou seja, Bolsonaro procura canalizar a revolta das ruas para eleger os
representantes mais de direita da burguesia nas eleições de 2014. O que
Bolsonaro quer ocultar em seu discurso é que, se o PT é comprovadamente um
partido cheio de escândalos de corrupção, como mensaleiros, sanguessugas, entre
tantos outros, o PSDB, o DEM e todos os partidos do regime tem suas mãos sujas
com a lama da corrupção. É necessário entender que a corrupção é inerente ao
sistema capitalista e a todos seus regimes de governo.
O combate à corrupção é uma
pauta legítima, que canaliza uma grande revolta contra os governos e mesmo contra
o regime e os partidos da ordem, e faz muito mal a esquerda que julga esta
pauta como “de direita” e deixa para Veja, Bolsonaro, Estadão a sua reivindicação.
O fundamental é justamente desmascararmos estes canalhas reacionários que se
colocam como “arautos da ética”, chegando à raiz deste problema. E a questão
não é de governo ou mesmo de regime, mas sim do Estado burguês. É necessário
compreendermos que enquanto tivermos um Estado a serviço de uma classe parasita
e exploradora, a corrupção será inerente a ele. O PT, que por décadas procurou
ser o partido da ética, hoje justifica sua corrupção dizendo que é necessário
sujar as mãos para fazer política. Esta ideia tornou-se senso comum, e por isto
muitos manifestantes afirmam que seu protesto “não é político”. Temos que
combater a ideia de que a política institucional da burguesia seja compreendida
como a única forma de fazer política. É necessário disputarmos aos olhos das
massas e dos trabalhadores a necessidade de fazermos uma política
revolucionária, que acabe com a corrupção da única forma possível: acabando com
o sistema que lhe dá origem e sustentação.
Esta disputa entre uma política institucional ou revolucionária não
é nova, e esteve presente também na
própria história do PT, que surgiu do movimento das greves operárias do final
dos anos 70 e início dos 80 do século passado, e que eram sim muitíssimo
políticas e com um forte potencial revolucionário. Dentro do PT, contudo, uma
ala influente dirigida por Lula procurava fazer de tudo para separar o “sindical”
do “político”, dizendo que as greves não eram contra a ditadura mas apenas por
salários (escondendo que o arrocho era fruto da política dos militares),
separando as lutas por regiões, por fábricas, por ramos da indústria. Um pouco
desta história pode ser conhecida aqui. Isto é exatamente o contrário do que propõe o marxismo. Um dos
principais dirigentes revolucionários marxistas, Lenin, afirmava que o papel
dos revolucionários é atuar em cada pequena luta sindical, elevando o patamar
destas à luta política contra o regime. Marx e Engels também afirmaram que “Os comunistas diferenciam-se dos demais
partidos proletários apenas pelo fato de que (...) nos diversos estágios do
desenvolvimento pelos quais a luta entre o proletariado e a burguesia passa,
representam sempre o interesse do movimento total”. Ou seja, uma luta
salarial representa um interesse particular e legítimo dos trabalhadores, mas é
necessário que entendamos que o que ganhamos em uma luta salarial hoje, a
inflação e o arrocho salarial comerão dos salários amanhã. Por isto nossa luta
deve olhar para o todo.
Assim, a linha política que hegemonizou o PT com a ala de Lula,
Genoíno, Zé Dirceu, Suplicy e outros que defendiam a via parlamentar de
mudanças, só pode servir ao interesse da burguesia, de isolar as lutas dos
trabalhadores para manter seu domínio político. A única política que pode
servir aos interesses da libertação dos trabalhadores e, consequentemente, de
toda a humanidade, é uma política revolucionária que seja feita nas ruas, nas
barricadas, nas greves, nos instrumentos de auto-organização dos trabalhadores
e das massas para que, a partir desta organização, possamos derrubar este
Estado corrupto e corruptor da burguesia para colocar no poder os
trabalhadores.
Esta lição foi ensinada pela primeira vez pelos revolucionários da
Comuna de Paris, em 1871, quando os trabalhadores tomaram o poder pela primeira
vez, derrubando o governo em Paris e elegendo seus próprios representantes
entre eles. Estes não ganharam salários imensos e desfrutaram de privilégios
como nossos parlamentares, juízes e governantes. Ganhavam o mesmo que um
trabalhador comum e seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento.
Nem tinham dezenas de cargos comissionados com salários altíssimos. Não havia
um “presidente” ou “prefeito”, mas um governo composto por todos estes
representantes. O nível de privilégio que tem os parasitas de nosso congresso pode
ser visto neste
artigo de Leandro Ventura. Se hoje os partidos
burgueses propõem uma miserável “reforma política” plebiscitária, nós devemos
dizer que nossas demandas para acabar com os privilégios e a roubalheira dos
empresários e políticos e democratizar o país não cabem nas perguntas de um
plebiscito montado por eles mesmos! Queremos uma Assembleia Constituinte Livre
e Soberana, com representantes eleitos nos locais de trabalho e na qual todos
possam se candidatar, para fazer uma reforma radical deste regime e acabar com
todas as negociatas entre os políticos burgueses e os empresários! Só assim
podemos acabar com a corrupção de fato.
“Sem
partido! Sem partido!”
O pior analfabeto é o analfabeto político. (...)
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.(...)
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.
- Bertolt Brecht, O Analfabeto Político
O
rechaço aos governantes e a seus partidos tomou uma face distorcida em muitas
manifestações, com pessoas que gritavam “sem partido” a organizações de
esquerda e dos trabalhadores. Como dissemos acima, o rechaço aos partidos que
constituem este regime apodrecido é mais do que justo, pois são eles que mantém
esta ordem de uma sociedade miserável em nome do lucro de poucos. Mas é
fundamental colocarmos um critério em nosso rechaço, ou se cometerá uma enorme
injustiça aos principais aliados dos que lutam nas ruas por mudanças profundas
na sociedade. Um partido nada mais é do que uma forma organizativa, um grupo de
pessoas que se aglutina coletivamente para poder atuar politicamente na
sociedade. Esta forma organizativa pode ser preenchida com conteúdos sociais
muito distintos, que sem dúvida se expressarão na forma como este partido se
organiza também. A burguesia se agrupa em diversos partidos para disputar seus
interesses na sociedade, mas, sendo estes partidos representantes desta classe
parasitária, nunca nenhum deles poderá representar os interesses dos
trabalhadores e da população mais pobre. São os partidos que representam
interesses de banqueiros, de empresários, que não apenas se candidatam por
estes partidos (como o ex-vice-presidente José de Alencar, grande industrial
cujas relações com o poder lhe garantiam negócios privilegiados) mas também
financiam suas campanhas para garantir seus interesses. Em geral são regidos
por alguns grandes “caciques” representantes de oligarquias regionais e frações
da burguesia, como Sarneys, ACMs, Malufs, Calheiros, Collors...ou por caudilhos
que por terem grande destaque abafam toda a democracia interna de um partido em
nome de seus acordos com este ou aquele setor da burguesia, como é no caso de
Lula.
Se
a burguesia se organiza em partidos para lutar por seus interesses, é porque
reconhece nesta forma uma grande eficiência de organização. Por que os
trabalhadores, que querem lutar pela derrubada deste sistema, não deveriam
também se associar para fazer sua política nas fábricas, nos bairros operários,
nas escolas? A sua política, contudo, não é e nem pode ser a mesma da
burguesia. Os partidos burgueses disputam e fazem acordos entre si para
abocanhar um pedaço deste regime apodrecido e corrupto. Os trabalhadores devem
se organizar em partidos para uma política revolucionária, que possa acabar com
este Estado corrupto e corruptor. Nem a sua forma organizativa pode ser a
mesma, com alguns “donos” do partido e muitos braços ou funcionários. Os
trabalhadores que se organizam em um partido que lute pelos interesses de sua
classe não o fazem por quererem privilégios ou por ambições pessoais, mas sim
porque sua compreensão política dá um salto e ele passa a ver que a miséria de
sua própria vida não é individual e nem se pode acabar com ela individualmente,
mas que é necessário se organizar unificadamente com seus companheiros de
classe com uma estratégia para mudar a sociedade. Por isto, os partidos
operários devem prezar sempre pela mais ampla democracia interna, para que as
bases do partido tenham controle sobre seus dirigentes. Defendemos o princípio
formulado por Lenin, denominado “centralismo democrático”, que foi sintetizado
com a seguinte máxima de garantir a mais ampla democracia na discussão e a mais
estrita unidade na ação.
Por
isto, quando alguém se revolta contra um partido ou uma organização operária,
está na verdade combatendo um aliado contra este sistema. Os partidos operários
não são o mesmo que os partidos burgueses, e não devem ser tratados da mesma
forma. Mesmo a juventude e os trabalhadores que não se organizem em partidos
devem entender e respeitar os que se organizam como seus aliados, e tratar as
eventuais diferenças políticas a partir de debates de ideias, que são
saudáveis, necessários e ajudam o movimento em seu conjunto a avançar, mas devem
saber que a luta contra os governos e os partidos burgueses é uma meta em
comum.
Há,
evidentemente, confusões que podem surgir nesta distinção entre partidos
burgueses ou partidos operários. O PT, por exemplo, leva a palavra
“trabalhadores” em seu nome. E, de fato, surgiu como uma organização dos
trabalhadores a partir de suas greves e mobilizações. Contudo, o setor que o
hegemonizou, como dissemos antes, foi o de Lula, que apostava justamente na via
institucional de disputa da política a partir das eleições, dos cargos, das
comissões, dos financiamentos privados. Conforme o PT se aprofundou neste
caminho, ele foi progressivamente deixando de lado qualquer vestígio de
política operária. Destruiu qualquer vestígio de democracia interna, acabando
com os comitês de base, tornando seus dirigentes sindicais em burocratas bem
remunerados e em conluio com os empresários, e alçando Lula cada vez mais como
um grande caudilho que manda no partido. Associou-se aos grandes burgueses e
aos partidos que os representam. Com sua ascensão ao poder do Estado como
governantes no poder executivo, reprimiram energicamente a mobilização
independente dos trabalhadores, já na gestão Erundina na prefeitura de São
Paulo reprimiram greves de motoristas de ônibus, por exemplo. Hoje, enviam a
Força de Segurança Nacional para reprimir greves nas obras do PAC, assassinar
índios, reprimir manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Por isto
que para os marxistas a prática é o critério da verdade: de defesa dos trabalhadores,
no PT só sobrou o nome. Não é este partido que deve estar ao nosso lado nas
manifestações. Ainda assim, contra a direita fascista que os ataque,
defenderemos seu direito de organização. Mas entendemos e apoiamos o repúdio
dos trabalhadores que foram traídos pelo partido que construíram.
O PSOL,
hoje, começa a dar os primeiros passos no mesmo rumo do PT, seguindo uma via de
disputa na política institucional. Seus parlamentares já votaram leis que
retiram direitos dos trabalhadores, como foi o Super-Simples. Já se associaram
com partidos burgueses, como o DEM nas eleições de Macapá. Também seguiram o
curso de elevar figuras parlamentares a caudilhos, como foi com Heloísa Helena,
que hoje se liga a Marina Silva. Não é um partido dos trabalhadores, mas um
partido eclético que tenta aglutinar em seu interior interesses de classe
distintos. Mas mesmo com todos estes problemas, o PSOL possui em sua base uma parcela
de juventude e trabalhadores honestos, muitos dos quais estão nas ruas lutando
ao nosso lado. Seu direito à organização deve ser defendido, sem que por isto
se diminuam as enormes diferenças políticas que nos separam.
Defender a
possibilidade dos trabalhadores e a juventude de se organizarem em sindicatos e
partidos é defender nosso próprio direito de lutar, de nos manifestarmos e de
fazermos frente ao enorme poder de organização da burguesia e de seus políticos
corruptos e parasitas. Sem partidos, nossa organização nunca será capaz de
derrubar os poderosos e seus canhões.
“Sem violência! Sem violência”
Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.
- Bertolt Brecht, Sobre a violência
O que é roubar um banco comparado a fundar um?
- Bertolt Brecht, A ópera dos três vinténs
Desde a brutal repressão policial que ocorreu no ato em São Paulo, no dia 13 de junho, com mais de 250 presos e 100 feridos, o movimento deu um salto. Muitos passaram a apoiá-lo nem tanto pela redução do aumento, mas pela indignação de uma manifestação democrática ser reprimida de forma tão truculenta pela polícia. A partir deste momento, a própria mídia foi obrigada a mudar drasticamente seu discurso, que até então era de condenar de forma unânime as manifestações. A violência policial chocou de tal forma a pequena-burguesia que conforma grande parte da mal chamada “opinião pública”, que os veículos de imprensa foram obrigados a endurecer seu discurso contra a repressão. Ainda que procurassem a todo momento distorcer os fatos, dizendo que se tratavam de policiais “mal preparados” ou de “excessos”, tentando assim maquiar a conduta geral da polícia e fazer passar uma regra por uma exceção.
Para entendermos a polícia, precisamos compreender que, como afirma Lenin em “O Estado e a revolução”, “O exército permanente e a polícia são os principais instrumentos do poder governamental”. Ou seja, a função primordial da polícia, ao contrário do que nos ensinam, não é a de “proteger todos”, mas de proteger a propriedade privada e o Estado. Quando uma mobilização sai às ruas para questionar os lucros de empresários cujos acordos selados com o governo determinam o funcionamento do transporte na cidade, isto está gerando um embrião de questionamento à propriedade privada dos meios de transporte. A polícia e seu principal aliado no campo das ideias – a mídia controlada pela burguesia – farão seu trabalho: reprimir por um lado e deslegitimar o movimento por outro. Exemplo emblemático foi o discurso de Arnaldo Jabor após os primeiros atos, em que ele comparou os manifestantes ao crime organizado. A realidade é que o crime organizado tem muito mais em comum com a própria polícia, e quem lucra com este é a burguesia e os policiais que tem mil e um laços com o tráfico, como mostrou, por exemplo, esta reportagem da Bandeirantes.
A atuação da polícia, contudo, é muito mais repressiva justamente onde a miséria gerada pela burguesia se expressa com maior força: nas periferias e favelas, onde cotidianamente assassinam a juventude pobre e negra. Quando falamos em violência, precisamos, portanto, lembrar que o que há de mais violento em nossa sociedade é a miséria, a fome, a pobreza, as quais o Estado se esforça para manter com suas leis e sua polícia. Perto disto, é perfeitamente compreensível que as pessoas que são violentadas pelo Estado cotidianamente coloquem um pouco de sua fúria para fora de forma caótica quando os atos conseguem minimamente tomar as ruas contra este Estado. Por mais que não concordemos com este método pela sua ineficácia, o que repudiamos não é esta “violência”, mas sim o discurso da mídia burguesa que nada fala sobre Douglas Henrique, jovem metalúrgico morto nas manifestações, mas dá grande destaque a lixeiras reviradas na manifestação. Até figuras da própria mídia, quando não estão com o cabresto que lhes é imposto pelos donos das emissoras, concordam com isto, como vemos nesta entrevista com Ricardo Boechat.
Há que se diferenciar as “violências” dos manifestantes. Não é à toa que quando as manifestações se tornam massivas, o discurso da mídia muda completamente, como vemos nas esfarrapadas “desculpas” de Jabor (na verdade uma tentativa de se relocalizar e ainda “ensinar” aos manifestantes pelo que devem lutar, colocando as pautas de um típico comentarista de direita da globo). A mídia passa a querer criar um abismo entre os “manifestantes ordeiros e cidadãos” e os “vândalos, baderneiros, arruaceiros”. Jogar uma pedra contra a polícia é um embrião de auto-defesa. Conforme a luta nas ruas cresça, esta tendência terá que se organizar e se expressar efetivamente em milícias operárias e populares. Como afirma Lenin: “a sociedade civilizada está dividida em classes hostis e irreconciliáveis cujo armamento ‘espontâneo’ provocaria a luta armada. Forma-se o Estado; cria-se uma força especial, criam-se corpos armados, e cada revolução, destruindo o aparelho governamental, põe em evidência como a classe dominante se empenha em reconstituir, a seu serviço, corpos de homens armados, como a classe oprimida se empenha em criar uma nova organização do mesmo gênero, para pô-la ao serviço, não mais dos exploradores, mas dos explorados”.
Contudo, nem toda a violência é a legítima defesa contra a polícia. Quando se joga uma pedra na vidraça de um banco, é um pequeno protesto contra o saque cotidiano aos trabalhadores que é feito pela burguesia. Quando se faz uma pichação de protesto, é uma forma de colocar para fora uma voz que não tem onde se expressar na sociedade, é uma forma de luta. Mas a depredação caótica de casas, carros populares ou pequenos comércios afeta justamente aqueles que têm motivo para colocar seu ódio nas ruas: estamos atacando a nós mesmos e ajudando a criar um rechaço popular às manifestações ao invés de ganhar mais apoio. Isto não quer dizer que devemos, como nos sugere a Rede Globo ou os comandantes da polícia, entregar os manifestantes que façam isto. Eles podem estar equivocados, mas é um dos nossos, e temos que convencê-lo de seu erro; a polícia, por outro lado, é nossa inimiga, e contra ela devemos estar unidos.
A burguesia não tomou o poder das mãos da nobreza pacificamente, e nunca um tirano deixará seu poder “pela força do diálogo”. Como disse o abolicionista Luis Gama, “todo escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Nunca confundamos a violência do opressor com a resistência do oprimido. A nossa violência, dos que são explorados e oprimidos cotidianamente, deve se organizar para resistir aos ataques dos opressores e poder se transformar em força para mudar a sociedade e coloca-la de cabeça para baixo.
Agora é hora de nos organizarmos, avançarmos em nosso programa e nos colocarmos com a classe trabalhadora nas ruas para levar esta insatisfação que explodiu às suas últimas consequências, virando de cabeça pra baixo esta sociedade!
terça-feira, junho 18, 2013
Adeus, Sergio.
Ontem , enquanto nos preparávamos
para ver as massas ressurgirem nas ruas deste país como há décadas não
acontecia, deu seu último suspiro de vida um homem que pouco conheci, mas que muito
representou em minha vida.
Há pouco mais de um ano partia
sua filha Camila, uma das pessoas que mais amei e amo em minha vida. Durante
todo o tempo em que convivi com Camila, quase nada conversei com Sergio. As
relações entre eles eram dilaceradas e contraditórias, como geralmente o são as
relações familiares neste mundo, em que são forçosamente cruzadas por uma série
de horríveis conflitos que nossa sociedade doente impõe a elas. Esta relação
entre eles, meio distante a contragosto deles mesmos, fazia com que eu mesmo
não tivesse relação alguma com Sergio. Percebia nele ciúmes de sua filha e ele
chegou até mesmo a proibir-me de dormir em sua casa depois que Camila passou a
morar lá. Não tive rancor por isto, tive antes uma inquietação de ver como havia
um fosso entre ambos que não se resolvia. O problema comigo era apenas uma
pequena expressão disto.
Primeiro, achei que a relação de
Camila era de indiferença ou ódio por seu pai, pois ao falar dele expressava
rancor. Depois, vi que não. Que o rancor era amor distorcido. Doía nela ver o
sofrimento de seu pai. Doía nela, como na relação com toda a sua família, ver a
dor que seu próprio sofrimento psíquico causava nele. Ela se afastava também,
talvez, como uma forma de protegê-lo de seu sofrimento, como muitas vezes fez
comigo.
Mas eu percebi verdadeiramente
como ela amava seu pai quando ele foi internado, pouco antes do suicídio de
Cami, e quando vi como ela sofreu com isto. Como sofria de ver que ele tinha
grande dificuldade em sua relação com o álcool. Como ela desejava que ele
parasse de beber. Vi toda a profundidade de uma relação marcada por amor e
sofrimento quando ela disse, um dia, transtornada, que ele podia “morrer logo
pra acabar com isto”. O sofrimento dele também a fazia sofrer, e ela certamente
sentia-se impotente por não saber como ajuda-lo.
Depois que Cami morreu, a postura
de Sergio em relação a mim mudou. Só posso imaginar vagamente a dor que ele
deve ter sentido ao ir com sua filha na ambulância e assistir ela, com apenas
26 anos, morrer. Uma morte causada por suas próprias mãos por não aguentar mais
o sofrimento da vida. De longe, eu vi como ele ficou abalado. A última vez que
vi Sergio foi no enterro de Camila. De todos da família, mesmo os que eu não
conhecia, ele foi o mais formal e frio comigo. Não sei se era assim o seu jeito
com as pessoas, acho que não. Acho que ele estava sofrendo muito e que havia
entre nós um estranhamento. Eu também não sei lidar muito com as pessoas, em
várias circunstâncias, e com ele isto se manifestava muito: eu tinha vergonha,
constrangimento, sentia que minha presença o incomodava. Talvez a frieza tenha
sido mais minha do que dele. A dificuldade que existia na relação entre ele e
Cami havia se transformado em uma impossibilidade na minha relação com ele.
A mudança veio depois:
conversávamos pelo facebook. Sergio passou a me chamar de filho, e a me dar
conselhos que provavelmente queria dar a Camila. Como minha mãe faz, passou a
criticar minha militância, dizendo que eu desejava coisas impossíveis, que os
grandes revolucionários que me inspiram eram assassinos sanguinários. Discutíamos,
fraternalmente, sabendo que nunca convenceríamos um ao outro. Ele me
incentivava a estar próximo de meus amigos, de minha família: “isto sim é real”,
dizia ele.
Aos olhos dele, eu provavelmente
era um jovem ingênuo. O carinho que passou a demonstrar por mim era o carinho
que sentia por sua filha, e que eu via como tinha dificuldade de se demonstrar
na relação cotidiana entre eles, pelo menos durante o tempo em que acompanhei a
relação entre os dois. Seus modos de ver o mundo eram distintos pelo vértice,
mas eles pouco conseguiam conversar sobre isto. Quando ele criticava minha
militância, estava criticando a de sua filha, que me orgulho de ter tido como
minha camarada.
Ele me disse para ir a sua casa
diversas vezes, lugar que foi a última morada de Cami. Que eu deveria pegar as
coisas que quisesse para me lembrar dela. Fiquei sinceramente comovido com este
convite, e prontamente aceitei. Muitas vezes disse que iria, mas nunca consegui
colocar isto em prática. Tinha receio, é difícil dizer porque. Acho que tinha
medo de ver a dor dele muito de perto, de não saber como estar perto dele, o
que fazer. Contudo, minha intenção de ir era real, apenas esperava “o momento
certo”. A minha dor por perder Cami é uma que permanecerá para sempre comigo,
que faz parte do que sou e que para sempre mudou quem eu sou e serei. Hoje eu
me esforço a cada dia para ser uma pessoa melhor, uma pessoa melhor como
gostaria de ter sido com ela. Para ajudar quem eu amo como gostaria de ter
ajudado ela, muito, muito mais do que fui capaz de ajudar. Levo dentro de mim
as nossas conversas, os nossos dias juntos, tudo o que aprendi com ela. Sei do
tamanho desta dor que carrego. A dor de um pai que perde uma filha, no entanto,
só posso imaginá-la. Sinto em sua aproximação de mim uma tentativa de se
aproximar um pouco mais de sua filha, do que ela acreditava, desejava e sentia.
Hoje, não posso mais aceitar seu
convite. Não posso mais ir a sua casa, conversar com ele, conhece-lo melhor,
trocar lembranças tão diferentes que teríamos sobre Cami, discutir e brigar a
respeito do socialismo, do capitalismo, da revolução ou de sua impossibilidade.
Sergio se foi. A notícia de seu câncer fulminante veio para mim como uma bomba,
subitamente, poucos dias antes de sua morte. Seu filho Pedro me mandou uma
mensagem, e eu, estupefato, nem consegui lhe responder. Eu não sabia que ele
estava doente, e não pude lhe dar um adeus, como não pude dar adeus a Cami.
Gostaria de tê-lo visto uma última vez, pois apesar de não termos sido
próximos, a dor pela morte de sua filha, minha companheira, nos uniu de uma
maneira muito peculiar. A união que se sente com alguém por perder uma pessoa
em comum que se ama é difícil de entender e de explicar. Mas é algo muito real.
A tristeza pela morte de sua filha foi uma dor pungente que o acompanhou até
estes últimos dias.
Não posso deixar de pensar na
ironia de que Sergio tenha partido justamente em um dia em que centenas de milhares
saíram às ruas no Brasil, tomando o congresso nacional, a Assembleia
Legislativa do Rio, a sede do governo no Paraná e dizendo que o povo acordou na
Avenida Paulista. É o começo do começo de um novo tempo que se manifesta em
todo o mundo, em que eu acredito que há chances muito concretas de se efetivar
a mudança social pela qual eu vivo, e pela qual viveu Camila. A mudança que
Sergio dizia ser utópica, e a respeito da qual discutíamos e discutíamos. Toda
vez que vejo uma fagulha da luta de classes brilhando, penso em Cami, em como
queria que estivesse aqui ao nosso lado para ver e participar da possibilidade
de um futuro novo. Agora, pensarei em Sergio também, em como queria que ele
estivesse aqui para dizer: “viu só! Eu e sua filha não estávamos errados! É
possível um mundo diferente!”. E continuo a dar minha vida para isto, para que
seja possível um mundo onde, entre tantas mudanças que queremos, os sofrimentos
pelos quais Sergio passou não aconteçam mais. Que ninguém mais precise ver sua
filha tirar a própria vida. Que as relações entre as pessoas que se amam não sejam
atravessadas por incomunicabilidades, por rusgas que nós, humanos ainda tão
rudimentares de uma sociedade doente, criamos. Que ninguém precise mais sofrer
com uma doença tão dolorosa e mortal sem ter a seu alcance uma medicina capaz
de curá-la. Por uma humanidade mais livre, mais feliz, mais plena, mais humana.
Sua memória acompanhará minhas lutas. Descanse em paz, Sergio.
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