IV
Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
terça-feira, dezembro 27, 2005
III
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
II
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
domingo, dezembro 25, 2005
Ainda iriam passar cerca de quatro horas naquele buraco sujo, segundo os cálculos imprecisos de Pedro. Mas para sua cabeça, naquele estado, quarenta minutos ou quatro horas seriam difíceis de distinguir. Alternava o foco da sua atenção entre os diversos pontos de dor no seu corpo, ora sentindo seu pé latejando, provavelmente com algum osso quebrado, ora sentindo as feridas no rosto, cujo sangramento não estancado tingia de vermelho sua camiseta velha e o chão da cela. Felizmente, os gritos e insultos do Ferreira se tornavam um zumbido distante e sem importância na sua consciência anuviada pelas drogas.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Quero sugestões pro meu conto de natal.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
terça-feira, dezembro 06, 2005
As últimas temporadas de Simpsons, não sei se devido ao desgaste de mais de quinze anos, ou à queda da qualidade dos roteiristas, ou ao meu gradual processo de enranzinzamento e perda de humor, me pareceram sempre muito piores do que as primeiras.
No entanto, hoje eu vi um episódio sensacional. O burns resolve ficar popular e compra toda a mídia da cidade, menos o jornalzinho que a Lisa faz. No fim do episódio a Lisa diz pro Homer que aprendeu que um jornalzinho não pode mudar este mundo ruim. Daí aparece um monte de gente com seus próprios jornaizinhos, e a Lisa vê que ensinou as pessoas a acreditarem no poder da mídia alternativa.
Mas enfim, tudo isso só pra dizer a última frase do Homer, que foi o foda do episódio:
Agora não tem mais um tirano controlando a imprensa, mas mil malucos distribuindo suas opiniões sem nenhuma importância.
Lembra algo?
No entanto, hoje eu vi um episódio sensacional. O burns resolve ficar popular e compra toda a mídia da cidade, menos o jornalzinho que a Lisa faz. No fim do episódio a Lisa diz pro Homer que aprendeu que um jornalzinho não pode mudar este mundo ruim. Daí aparece um monte de gente com seus próprios jornaizinhos, e a Lisa vê que ensinou as pessoas a acreditarem no poder da mídia alternativa.
Mas enfim, tudo isso só pra dizer a última frase do Homer, que foi o foda do episódio:
Agora não tem mais um tirano controlando a imprensa, mas mil malucos distribuindo suas opiniões sem nenhuma importância.
Lembra algo?
Just for the record...
Estava relendo um trabalho meu sobre a formação do império russo, e fiquei pensando sobre como as pessoas são engraçadas. Sei lá, aí vai um trecho. Dúvido que interesse a muita gente, mas isso é problema de vcs:
O domínio tártaro que se estendeu por séculos na Rússia teve conseqüências profundas na vida cultural de seu povo. Um dos fatores mais importantes a se observar neste período é o isolamento em relação à Europa pelo qual Rus passa. Apenas Novgórod e Pskov mantiveram algumas relações com cidades setentrionais alemãs. Todo o desenvolvimento cultural que havia no período anterior ao advento dos mongóis sucumbiu diante de sua dominação. O artesanato, por exemplo, até então bem desenvolvido, regrediu significativamente. Nas palavras de Púchkin: “Os tártaros conquistaram a Rússia, mas não nos ofereceram a álgebra nem Aristóteles”. As crônicas e escritos religiosos da época também demonstraram a influência negativa que a dominação tártara exerceu sobre o mundo cultural da Rússia. Os negócios e as cidades também foram prejudicados, e isto tudo se deve essencialmente aos métodos da dominação mongol. Além da produção cultural, a cultura política russa também sofreu grande influência, que ajudou a construir a mentalidade absolutista e autocrática da Rússia.
Estava relendo um trabalho meu sobre a formação do império russo, e fiquei pensando sobre como as pessoas são engraçadas. Sei lá, aí vai um trecho. Dúvido que interesse a muita gente, mas isso é problema de vcs:
O domínio tártaro que se estendeu por séculos na Rússia teve conseqüências profundas na vida cultural de seu povo. Um dos fatores mais importantes a se observar neste período é o isolamento em relação à Europa pelo qual Rus passa. Apenas Novgórod e Pskov mantiveram algumas relações com cidades setentrionais alemãs. Todo o desenvolvimento cultural que havia no período anterior ao advento dos mongóis sucumbiu diante de sua dominação. O artesanato, por exemplo, até então bem desenvolvido, regrediu significativamente. Nas palavras de Púchkin: “Os tártaros conquistaram a Rússia, mas não nos ofereceram a álgebra nem Aristóteles”. As crônicas e escritos religiosos da época também demonstraram a influência negativa que a dominação tártara exerceu sobre o mundo cultural da Rússia. Os negócios e as cidades também foram prejudicados, e isto tudo se deve essencialmente aos métodos da dominação mongol. Além da produção cultural, a cultura política russa também sofreu grande influência, que ajudou a construir a mentalidade absolutista e autocrática da Rússia.
O dia tá frio, cinza e ruim.
Eu escrevo, escrevo, mas ainda estou na quarta página do meu trabalho. Não aguento mais. Provavelmente mais uma noite em claro.
Eu sou uma pessoa mesquinha, desmotivada, egoísta, rancorosa e ruim.
O Garbage acabou, era uma das minhas bandas preferidas.
Eu vi um filme ruim hoje na tv, e perdi um tempão do trabalho que devia estar fazendo.
Eu devia gostar mais da Rússia, ou de alguma coisa.
As férias estão chegando, e eu sempre acho que vou encontrar alguma coisa atrás da porta.
Se eu fosse você, não perdia mais tempo.
Você perde tempo?
Eu escrevo, escrevo, mas ainda estou na quarta página do meu trabalho. Não aguento mais. Provavelmente mais uma noite em claro.
Eu sou uma pessoa mesquinha, desmotivada, egoísta, rancorosa e ruim.
O Garbage acabou, era uma das minhas bandas preferidas.
Eu vi um filme ruim hoje na tv, e perdi um tempão do trabalho que devia estar fazendo.
Eu devia gostar mais da Rússia, ou de alguma coisa.
As férias estão chegando, e eu sempre acho que vou encontrar alguma coisa atrás da porta.
Se eu fosse você, não perdia mais tempo.
Você perde tempo?
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Eu tenho medo de mim.
Cada dia eu olho pras coisas e tenho mais raiva, nojo, desprezo, tristeza, desânimo, desgosto em relação a todas elas. Quando as pessoas falam, eu não gosto. Quando eu vejo programas, leio livros, penso em possibilidades, tudo é escroto. Eu não tenho mais respostas, perguntas, iniciativa, esperança, ambições, planos, metas, vontades.
A vida me parece a coisa mais idiota já inventada. E me parece a única.
Eu fico imaginando como eu vou estar daqui a trinta anos. Mas eu não consigo nem pensar em que merda que eu vou fazer pra amanhã.
As coisas que gosto, as poucas, são bacanas. Mas elas não podem me salvar e nem salvar o mundo.
eu não gosto deste post, e provavelmente não gosto dos seus comentários.
(Eu tenho vontade de ficar fazendo uma lista de coisas que me dão raiva, e ela cresce em velocidade exponencial. Odeio seus hábitos, gostos, gestos, pretensões. Que se fodam.)
Cada dia eu olho pras coisas e tenho mais raiva, nojo, desprezo, tristeza, desânimo, desgosto em relação a todas elas. Quando as pessoas falam, eu não gosto. Quando eu vejo programas, leio livros, penso em possibilidades, tudo é escroto. Eu não tenho mais respostas, perguntas, iniciativa, esperança, ambições, planos, metas, vontades.
A vida me parece a coisa mais idiota já inventada. E me parece a única.
Eu fico imaginando como eu vou estar daqui a trinta anos. Mas eu não consigo nem pensar em que merda que eu vou fazer pra amanhã.
As coisas que gosto, as poucas, são bacanas. Mas elas não podem me salvar e nem salvar o mundo.
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(Eu tenho vontade de ficar fazendo uma lista de coisas que me dão raiva, e ela cresce em velocidade exponencial. Odeio seus hábitos, gostos, gestos, pretensões. Que se fodam.)
segunda-feira, novembro 21, 2005
Pois bem, veja que beleza:
O professor de orçamento do meu pai, no MBA de administração hospitalar, estava falando sobre lucros. Ele estava discorrendo sobre empresas que investem no setor público e a lucratividade disso. Em geral, ele explicou, o lucro gira em torno de 20% ao ano. No entanto, ele começou a pesquisar um determinado setor: Transportes públicos. Ora, vejam a surpresa quando, eis que o senhor doutor da FGV descobre o seguinte: o retorno das empresas deste setor superaria os 100% anuais caso eles cobrassem uma tarifa de R$ 0,50. No entanto, o que constatamos é que não há tarifa que não custe três vezes este valor no sul e sudeste do país.
Logo, penso eu, seria de grande valia tal pesquisa para fundamentar certos argumentos muito úteis na nossa vida. Infelizmente um fato peculiar impede a conclusão da pesquisa do Prof. Dr: Ele recebe algumas ligações de novos amigos perguntando se ele estava interessado em falecer e, caso não estivesse, seria saudável pesquisar outras coisas por aí.
Já que não temos acesso à pesquisa, fica aí o relato do episódio como uma reflexão do dia.
O professor de orçamento do meu pai, no MBA de administração hospitalar, estava falando sobre lucros. Ele estava discorrendo sobre empresas que investem no setor público e a lucratividade disso. Em geral, ele explicou, o lucro gira em torno de 20% ao ano. No entanto, ele começou a pesquisar um determinado setor: Transportes públicos. Ora, vejam a surpresa quando, eis que o senhor doutor da FGV descobre o seguinte: o retorno das empresas deste setor superaria os 100% anuais caso eles cobrassem uma tarifa de R$ 0,50. No entanto, o que constatamos é que não há tarifa que não custe três vezes este valor no sul e sudeste do país.
Logo, penso eu, seria de grande valia tal pesquisa para fundamentar certos argumentos muito úteis na nossa vida. Infelizmente um fato peculiar impede a conclusão da pesquisa do Prof. Dr: Ele recebe algumas ligações de novos amigos perguntando se ele estava interessado em falecer e, caso não estivesse, seria saudável pesquisar outras coisas por aí.
Já que não temos acesso à pesquisa, fica aí o relato do episódio como uma reflexão do dia.
sábado, novembro 19, 2005
Harlequim recomenda:
A Morta, peça do Oswald de Andrade do caralho. Um grupo muito bacana que tá apresentando, só dez reais a entrada.
Sexta e sábado às 21:00. É lá em Pinheiros, naquela rua que é uma travessa da Inácio pereira da Rocha e sai ali perto do Sacolão. O endereço é Rua Medeiros de Albuquerque 55.
Mas só fica em cartaz até 3 de Dezembro.
Vale a pena ir, de verdade.
A Morta, peça do Oswald de Andrade do caralho. Um grupo muito bacana que tá apresentando, só dez reais a entrada.
Sexta e sábado às 21:00. É lá em Pinheiros, naquela rua que é uma travessa da Inácio pereira da Rocha e sai ali perto do Sacolão. O endereço é Rua Medeiros de Albuquerque 55.
Mas só fica em cartaz até 3 de Dezembro.
Vale a pena ir, de verdade.
sábado, novembro 12, 2005
A hora das quatro me consome a vida, indiferente.
O vagar dos dias dissolve o sentido, qualquer que seja, daqueles cantos onde um dia enxergara reflexos da sua alma. Empalidecido, desgastado. Agora os dias eram foscos, e os caminhos, não importando onde fossem, já não eram dos pés de alguém que conhecesse. Amor, amizade e as outras palavras da mesquinha língua dos homens haviam se desgastado e perdido o clamor que a ingenuidade lhes conferira um dia. Embebidas da artificialidade que, esta sim, fulgurava em sua essência, nada mais comunicavam. Palavras, pensamentos, dias. Os olhos, quem dera tivessem se perfurado antes, com a intensidade que latejava em tudo: das asas de uma borboleta estúpida ao branco rígido do rigor mortis.
A alegria, outra das palavras prontas e estéreis, esta a achava em pequenos acontecimentos sem significado algum. Apenas por um momento, se vestiam com um sentido que parecia recriar algo que já nem mesmo sabia o que era. E, em alguns segundos, tentava ao menos se agarrar na nostalgia, pois lhe vagava pela mente anestesiada a tênue e ridícula impressão de que um dia já soube porque vivera tanto.
Nas manhãs havia o espelho. As imagens físicas não eram como a das palavras, idéias, sentimentos e sentidos: elas não se alteravam, exceto por esforço do tempo que as corroia. Era apenas o sentido que as recheava que se alterava conforme o ser olhante.
Tudo que um dia houvera havia se tornado sombras. Vivia ainda, quem sabe no porvir de vislumbres.
O vagar dos dias dissolve o sentido, qualquer que seja, daqueles cantos onde um dia enxergara reflexos da sua alma. Empalidecido, desgastado. Agora os dias eram foscos, e os caminhos, não importando onde fossem, já não eram dos pés de alguém que conhecesse. Amor, amizade e as outras palavras da mesquinha língua dos homens haviam se desgastado e perdido o clamor que a ingenuidade lhes conferira um dia. Embebidas da artificialidade que, esta sim, fulgurava em sua essência, nada mais comunicavam. Palavras, pensamentos, dias. Os olhos, quem dera tivessem se perfurado antes, com a intensidade que latejava em tudo: das asas de uma borboleta estúpida ao branco rígido do rigor mortis.
A alegria, outra das palavras prontas e estéreis, esta a achava em pequenos acontecimentos sem significado algum. Apenas por um momento, se vestiam com um sentido que parecia recriar algo que já nem mesmo sabia o que era. E, em alguns segundos, tentava ao menos se agarrar na nostalgia, pois lhe vagava pela mente anestesiada a tênue e ridícula impressão de que um dia já soube porque vivera tanto.
Nas manhãs havia o espelho. As imagens físicas não eram como a das palavras, idéias, sentimentos e sentidos: elas não se alteravam, exceto por esforço do tempo que as corroia. Era apenas o sentido que as recheava que se alterava conforme o ser olhante.
Tudo que um dia houvera havia se tornado sombras. Vivia ainda, quem sabe no porvir de vislumbres.
segunda-feira, outubro 31, 2005
"atualiza o blog! Atualiza o blog!"
É. Fácil falar quando não se tem milhares de coisas pra fazer. Enfim, ninguém gosta de escritores que produzem exasperadamente só para atender o mercado editorial. Então eu atualizo agora com meu glamouroso atraso. A parte triste de verdade é que não tem nada que eu realmente tenha vontade de escrever, pra mim nem pros outros. Acho que eu preciso de um pouco de tédio, reclusão, melancolia, solidão ou sei lá o que pra ter vontade de escrever de novo. Nem tenho tido tempo de ficar de saco cheio da faculdade, que dirá de reclamar dela. Não que eu não esteja de saco cheio dela, mas tenho tido tão poucas oportunidades de ir à aula que fica meio injusto dizer que é ela que atrapalha minha vida. E agora, ainda com um monte de trabalhos atrasados e faltas acumuladas, talvez seja mas fácil retomar estas reclamações.
É um bocado irônico ficar na correria pra fazer vários atos pelo passe-livre, queimar catracas, fechar ruas, conversar com pessoas sobre a injustiça do mundo, dos transportes, do capitalismo e blábláblá enquanto eu sinto um desânimo tão grande em relação a todas as coisas.
Acho que na minha próxima encarnação talvez eu devesse ser um animalzinho burro e feliz, como um poodle ou uma paty.
E deste jeito eu ainda vou levar tantos anos pra me formar...cada dia eu tenho menos vontade de dar aula ou de fazer qualquer outra coisa.
É. Fácil falar quando não se tem milhares de coisas pra fazer. Enfim, ninguém gosta de escritores que produzem exasperadamente só para atender o mercado editorial. Então eu atualizo agora com meu glamouroso atraso. A parte triste de verdade é que não tem nada que eu realmente tenha vontade de escrever, pra mim nem pros outros. Acho que eu preciso de um pouco de tédio, reclusão, melancolia, solidão ou sei lá o que pra ter vontade de escrever de novo. Nem tenho tido tempo de ficar de saco cheio da faculdade, que dirá de reclamar dela. Não que eu não esteja de saco cheio dela, mas tenho tido tão poucas oportunidades de ir à aula que fica meio injusto dizer que é ela que atrapalha minha vida. E agora, ainda com um monte de trabalhos atrasados e faltas acumuladas, talvez seja mas fácil retomar estas reclamações.
É um bocado irônico ficar na correria pra fazer vários atos pelo passe-livre, queimar catracas, fechar ruas, conversar com pessoas sobre a injustiça do mundo, dos transportes, do capitalismo e blábláblá enquanto eu sinto um desânimo tão grande em relação a todas as coisas.
Acho que na minha próxima encarnação talvez eu devesse ser um animalzinho burro e feliz, como um poodle ou uma paty.
E deste jeito eu ainda vou levar tantos anos pra me formar...cada dia eu tenho menos vontade de dar aula ou de fazer qualquer outra coisa.
segunda-feira, outubro 10, 2005
terça-feira, setembro 27, 2005
quinta-feira, setembro 22, 2005
Eu vi no jornal uma mulher, devia ter uns sessenta anos, que foi pra cadeia por quatro meses por roubar um queijo e dois pacotes de bolacha no supermercado pro filho poder comer. Na saída do supermercado, o segurança chutou ela e depois levou pra delegacia.
Eu realmente não entendo quem acha este mundo um lugar bom. Espero conseguir fazer isto um dia.
Só pra reforçar, uma amostra grátis:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=116578&tid=23328184
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=150746
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=79398
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=195250
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=808422
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sexta-feira, setembro 16, 2005
Eu me sinto agora (apenas neste momento) como se pudesse ter uma noite repousante de sono depois de anos acordado. Isso é porque eu consegui sentar e escrever de verdade. E tá aqui o meu conto de Natal que fiquei devendo do ano passado.
Violetas
Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Violetas
Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Ela era feita de futuro, da matéria-prima rústica que se encontra nos escombros, nas profundezas, nos berços, nas montanhas, nos esboços e rascunhos, que surgem da beleza espontânea das primeiras idéias frescas que vêm ao mundo. Ela era feita de possibilidades, da esperança mais cândida, daquele tipo que não se tornou um lugar comum, uma palavra gasta prostituída na boca de um farsante. Ela era feita de um amanhã que se concretiza a cada dia em um hoje cheio de tudo, de um dia que encontra as coisas por elas mesmas, autênticas e com a ousadia destemida de quem não se importa em parar pra se preocupar.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
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