terça-feira, agosto 30, 2005
O menino que usava camisetas brancas e meias pretas sempre iguais teve um sonho metalinguístico. Dormiu em sua cama, na mesma hora e do mesmo jeito que dormia todas as noites, com um copo d'água, dentes escovados, pijama verde de flanela e toda a vontade de que a noite não chegasse ao fim, porque ao fim da noite sempre vem o longo dia, tão mais longo que a noite e tão mais longe da vida. No seu sonho, que veio na forma de um despertar pro dia, o menino andava naquele simulacro de vida-do-dia-normal que a nossa cabeça faz quando estamos dormindo. Mas a nossa cabeça, assim como o menino (apesar de usar camisetas brancas e meias pretas sempre iguais) não gosta de mesmices, rotinas, relógios, ponteiros ou de leis da física e outras coisas que a gente vê nos filmes e nos livros da escola, e foi por isso que neste sonho o menino tinha camisetas pretas e meias brancas. E o menino entrou na escola, não do jeito que as pessoas chamam de "de verdade", porque deste jeito ele estava na sua cama, de olhos fechados e de pijama, e "de verdade" ninguém vai à escola desse jeito. Mas no seu sonho, ou seja, aquilo que as pessoas chamam "de mentira" ou "de faz-de-conta", o menino do sonho entrou na escola com camiseta preta e meias brancas. Mas o menino de "faz-de-conta", quando sentou na carteira não assistiu aula. Ele dormiu, e no seu sonho usava camiseta branca e meias pretas.
domingo, agosto 28, 2005
Meu pai, arrumando uns lixos no quarto dele, achou uma sensacional tabela de interesses que foi desenvolvida durante o meu curso vocacional (não, não me pergunte porque caralhos eu fiz uma idiotice destas. Faz parte de um passado negro da minha vida, meus pais insistiram muito e eu estudava na escola mais escrota do mundo). Esta tabela foi desenvolvida a partir de um teste de assinalar, mais ou menos que nem aqueles que tem na Capricho pra vc ver se o seu namorado te chifra ou se vc é uma vagabunda na moda. Os meus interesses, segundo o teste, são assim ó:
Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%
Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.
Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%
Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.
segunda-feira, agosto 22, 2005
Eu sei que já disse milhares de vezes, pra mim mesmo, pros outros, pra todos e pra ninguém, que eu nunca fiz nada disso por você. Não há nada mais ridículo (e aqui neste ponto eu peço que me concedam a legítima licença poética do exagero desmesurado) do que alguém que se importa tanto fingindo o descaso e a indiferença.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.
quinta-feira, agosto 18, 2005
eu sei que não ando utilizando este fértil espaço de comunicação com frequencia, mas mando aí um link bacana pra vcs.
http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp
Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI
www.midiaindependente.org
beijinhos.
http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp
Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI
www.midiaindependente.org
beijinhos.
domingo, julho 10, 2005
sábado, julho 02, 2005
Sentado na sarjeta com o sol de domingo ferindo os olhos e queimando a pele. Quis que todos os dias fossem cinzas, fossem frios, fossem de chuva, fossem de vento. Sentado na sarjeta, vendo as crianças jogando bola na praça da frente, os moleques de bicicleta, os namorados no banco da praça, o mendigo de cachaça em riste entoando a canção da vida. Quis que tudo fosse morte e desolamento, quis rasgar a hipocrisia da vida com suas próprias mãos...mas elas estavam cansadas demais para fazerem qualquer coisa. Quis lembrar a cada pessoa que sorria que a vida era solidão e sofrimento, que a felicidade era fugaz. Quis lembrar que cada sorriso é mais tênue que a chama de uma vela em meio a uma nevasca. As pessoas, felizes, eram pura ignorância. Tristes, eram descartáveis.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.
quinta-feira, junho 23, 2005
terça-feira, junho 21, 2005
Hoje eu fiz uma coisa que valeu muito a pena, e que me deu um tipo de esperança diferente. É sempre bom parar e ouvir uma pessoa bacana falando, uma pessoa que pode até pensar muitas coisas parecidas com você, mas que sente o mundo de uma maneira essencialmente diferente. Uma pessoa que, na verdade, tem tudo em comum e tudo de diferente. E uma história de uma vida pra contar. É bom saber que tem gente que passa a vida lutando por coisas que eu acredito, chega lá pra frente feliz pra caralho e tendo a certeza absoluta de que tudo valeu a pena completamente. É bom saber, por exemplo, que tem gente que luta uma vida inteira contra o capitalismo e ainda consegue chegar ao sessenta anos acreditando na humanidade e, pasmem, na não-violência.
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org
Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org
Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...
sábado, junho 04, 2005
Você pode até chamar de uma tristeza saudosista idiota, mas eu te digo que é mais do que isso. São as coisas sendo corroídas, sempre do mesmo jeito.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.
terça-feira, maio 31, 2005
Você lembra da primeira vez que se sentiu angustiado?
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.
terça-feira, maio 24, 2005
quinta-feira, maio 12, 2005
Havia as tomado como uma prostituta sem valor, a quem se dá uns trocados e julga não dever mais nada. Pelo serviço prestado, alguns trocados. Recebidos com a fome de quem não existe sem aquele resto de misericórdia. Pois é disso que dependiam elas, as palavras, de um pouco de crença, de um crédito alheio. Se ninguém lhes desse valor, elas nunca serviriam de nada. As palavras se alimentavam de bocas, de saliva, de línguas, de tradições orais, de papéis, de canetas, de livros, de escritos, de histórias, documentos, promessas, juras. As palavras se alimentavam da comunicação, da carência, da eterna necessidade de se aproximar do outro, de tocar as mentes e os corações daqueles que estão separados por espaços, tempos e intempéries. E foi para aproximar o que os corpos, gestos e intenções não podiam, que aquelas palavras foram pronunciadas.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
quarta-feira, abril 27, 2005
quinta-feira, abril 14, 2005
Podia quebrar o despertador, mas não podia fazer o tempo parar.
Podia pedir demissão, mas não podia deixar de trabalhar.
Podia tapar os ouvidos, mas não podia deixar de ouvir.
Podia fechar os olhos, mas não podia deixar de ver.
Podia dormir mais, mas não podia extinguir o sono.
Podia comer mais, mas não podia extinguir a fome.
Podia alterar, mas não podia transformar.
Podia conquistar, mas não podia ser Rei.
Podia melhorar, mas não podia ser bom.
Podia correr, mas não podia escapar.
Podia pensar, mas não podia fazer.
Podia parecer, mas não podia ser.
Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo roda gigante
Roda moinho, pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Podia pedir demissão, mas não podia deixar de trabalhar.
Podia tapar os ouvidos, mas não podia deixar de ouvir.
Podia fechar os olhos, mas não podia deixar de ver.
Podia dormir mais, mas não podia extinguir o sono.
Podia comer mais, mas não podia extinguir a fome.
Podia alterar, mas não podia transformar.
Podia conquistar, mas não podia ser Rei.
Podia melhorar, mas não podia ser bom.
Podia correr, mas não podia escapar.
Podia pensar, mas não podia fazer.
Podia parecer, mas não podia ser.
Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo roda gigante
Roda moinho, pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
segunda-feira, abril 11, 2005
A Terri Schiavo, o Papa e um príncipe de Um-Lugar-Qualquer-Que-Eu-Não-Lembro-O-Nome morreram.
Mas eu não estou nem aí. E não estou nem aí pra não estar nem aí. E não estou nem aí se você não está nem aí.
Eu estou sempre preso dentro da minha cabeça, e todos os lugares que eu possa visitar também estão. E na verdade, não importa onde eu estou, o que eu estou fazendo ou o que acontece. Porque a minha cabeça é um lugar pequeno, escuro e repetitivo, e eu não vou sair dela nunca. E eu sei que nunca estive em todos os lugares da minha cabeça, e também que nem todos os lugares estiveram na minha cabeça. Eu gosto de imaginar minha cabeça como um lugar grande, colorido, divertido e cheio de surpresas. Mas na verdade ela já estava pronta muito antes de eu nascer, velha e chata como sempre vai ser. Eu não sei fazer as coisas direito, e acho que já me acostumei com isso. É só mais uma daquelas coisas da minha cabeça. Daí eu tento endireitar todas as coisas erradas que venho fazendo e finalmente acho que elas estão certas. Mas na verdade elas estão erradas de outro jeito. Acertar as coisas é só errar no sentido contrário.
Meios termos fedem. Intensidade enjoa, dá náuseas, acaba e fica com cheiro de perfume vagabundo e ressaca.
A sinceridade é um lugar-comum, e a mentira é uma caverna triste e solitária.
Na minha cabeça, eu já vi o seu rosto mil vezes. Dá trabalho cuidar de uma memória até ela não gastar. O fácil é deixar todas as coisas velhas, ruins, sujas e opacas. A vida é translucida pra uns e transparente pra outros, mas no fim dá na mesma.
Se você não gosta de mim, eu não sei porque chega tão perto. Sempre chegam pertopertopertodemais.
Eu sou só um velho rabugento. Mas uma vez um amigo disse que eu oscilo entre a impulsividade e a depressão de uma maneira meio aleatória, caótica e divertida. É bom conseguir acreditar que se é pelo menos um pouco imprevisível e interessante. Vou tentar guardar isto na cabeça, e com sorte amanhã eu vou ter esquecido tudo de ruim que eu fiz comigo mesmo e com os outros. Com sorte vou ter esquecido que sou igual a todo mundo e vou lembrar que tem muita coisa ainda pra fazer. Com sorte, vou achar que a vida não é um disco riscado em um refrão meloso e idiota.
Mas eu não estou nem aí. E não estou nem aí pra não estar nem aí. E não estou nem aí se você não está nem aí.
Eu estou sempre preso dentro da minha cabeça, e todos os lugares que eu possa visitar também estão. E na verdade, não importa onde eu estou, o que eu estou fazendo ou o que acontece. Porque a minha cabeça é um lugar pequeno, escuro e repetitivo, e eu não vou sair dela nunca. E eu sei que nunca estive em todos os lugares da minha cabeça, e também que nem todos os lugares estiveram na minha cabeça. Eu gosto de imaginar minha cabeça como um lugar grande, colorido, divertido e cheio de surpresas. Mas na verdade ela já estava pronta muito antes de eu nascer, velha e chata como sempre vai ser. Eu não sei fazer as coisas direito, e acho que já me acostumei com isso. É só mais uma daquelas coisas da minha cabeça. Daí eu tento endireitar todas as coisas erradas que venho fazendo e finalmente acho que elas estão certas. Mas na verdade elas estão erradas de outro jeito. Acertar as coisas é só errar no sentido contrário.
Meios termos fedem. Intensidade enjoa, dá náuseas, acaba e fica com cheiro de perfume vagabundo e ressaca.
A sinceridade é um lugar-comum, e a mentira é uma caverna triste e solitária.
Na minha cabeça, eu já vi o seu rosto mil vezes. Dá trabalho cuidar de uma memória até ela não gastar. O fácil é deixar todas as coisas velhas, ruins, sujas e opacas. A vida é translucida pra uns e transparente pra outros, mas no fim dá na mesma.
Se você não gosta de mim, eu não sei porque chega tão perto. Sempre chegam pertopertopertodemais.
Eu sou só um velho rabugento. Mas uma vez um amigo disse que eu oscilo entre a impulsividade e a depressão de uma maneira meio aleatória, caótica e divertida. É bom conseguir acreditar que se é pelo menos um pouco imprevisível e interessante. Vou tentar guardar isto na cabeça, e com sorte amanhã eu vou ter esquecido tudo de ruim que eu fiz comigo mesmo e com os outros. Com sorte vou ter esquecido que sou igual a todo mundo e vou lembrar que tem muita coisa ainda pra fazer. Com sorte, vou achar que a vida não é um disco riscado em um refrão meloso e idiota.
quinta-feira, março 24, 2005
A Poesia irá nos redimir
Numa manhã cinza e triste eu me lembrei do poeta, daquele que tantas vezes inspirou tantos de nós a continuarmos seguindo nossas vidas. Suas palavras, profundas, sempre nos apoiaram e nos deram forças. Em homenagem a ele, aqui vai meu humilde esforço poético. Quem dera um dia atingir o patamar de sua genialidade, mas ele está além de nossos alcances, além dos pobre mortais que o admiram.
Atrás de um chute
Não importa se só possui
o que não tem importância
O Jorge já sabe
Somos um porquinho-da-índia sem infância
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Depois de um trago
Eu trago um relógio
E molho a pélvis
E moldo a lembrança
Você é belíssima
sua mãe é belíssima
que importa um trago
Bis
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Para contemplar
Para radicalizar
Para pestanejar e fazer estrago
Depois de um trago
Em minha tarefa poética eu fui auxiliado e acessorado por:
http://www.mundoperfeito.com.br/
Numa manhã cinza e triste eu me lembrei do poeta, daquele que tantas vezes inspirou tantos de nós a continuarmos seguindo nossas vidas. Suas palavras, profundas, sempre nos apoiaram e nos deram forças. Em homenagem a ele, aqui vai meu humilde esforço poético. Quem dera um dia atingir o patamar de sua genialidade, mas ele está além de nossos alcances, além dos pobre mortais que o admiram.
Atrás de um chute
Não importa se só possui
o que não tem importância
O Jorge já sabe
Somos um porquinho-da-índia sem infância
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Depois de um trago
Eu trago um relógio
E molho a pélvis
E moldo a lembrança
Você é belíssima
sua mãe é belíssima
que importa um trago
Bis
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Para contemplar
Para radicalizar
Para pestanejar e fazer estrago
Depois de um trago
Em minha tarefa poética eu fui auxiliado e acessorado por:
http://www.mundoperfeito.com.br/
sábado, março 19, 2005
Quando ele acordou suas mãos transpiravam muito, de um jeito anormal. O lençol empapado. O olho dele coçava. Durante o dia, o olho sempre coçava. Quando ficava nervoso, deste jeito de num saber as coisas, de num saber o que fazer, ficava enfiando o dedo no olho até ficar bem vermelho. Ele sempre lacrimejava. Ele sempre chorava também, mas dava pra fingir que estava lacrimejando. Às vezes ele chorava era de saudades das coisas, mas de vez em quando era medo. Muitas vezes ele chorava de indecisão ou de angustia. Ele não contava muito pra ninguém. Às vezes, quando chorava, era de saudades de coisas que não tinham acontecido. Às vezes era de medo das coisas nunca acontecerem, outras era de medo delas acontecerem mesmo. Chorava também porque se sentia incapaz. Porque tinha muita coisa bonita no mundo, e ele não conseguia dar conta de tudo. Chorava porque via as coisas bonitas escapando pelos seus dedos. Chorava porque às vezes era beleza demais. Porque às vezes as coisas grandes e bonitas são menos bonitas do que as coisas pequenas, que acontecem só uma vez ou outra e são tão preciosas. Chorava de medo de esquecer, de perder as coisas bonitas e pequenas. Ou de medo de deixar elas escaparem, de nunca ficar sabendo que elas poderiam ter acontecido, e daí elas não iam acontecer mesmo. Chorava de medo de nunca conseguir dizer pras pessoas o quanto gostava delas, o quanto elas eram importantes. Chorava de medo de que se conseguisse dizer, elas não acreditarem, ou passarem a não gostar dele por causa disso. Chorava de medo de não poder dizer a verdade sempre, e de não conseguir saber a diferença entre a hora de dizer a verdade e a hora de mentir. E de não saber mentir direito. De não saber a diferença entre um exagero e uma mentira. Das coisas que eram verdade pra ele não serem pros outros. Chorava porque às vezes ele dizia uma verdade, mas que no mundo das outras pessoas era uma mentira. Daí ele parava de saber a diferença entere a mentira e a verdade, e parava de saber o que dizer. Daí ele ficava com medo de falar, com medo de fazer tudo errado. Chorava de medo do mundo ser muito complicado pra ele, ou dele ser muito complicado pro mundo. Ou das pessoas serem muito complicadas umas com as outras, de não poderem ser sinceras porque às vezes se você gosta muito o melhor jeito de mostrar isto é dizer uma mentira, ou exagerar, ou não falar nada. Chorava de medo de não saber o melhor jeito de mostrar isto. Gostar das pessoas é complicado.
Às vezes, ele queria falar mas não dava certo. Ele pensava nas coisas e quando os pensamentos viravam palavras eles viravam outras coisas. E às vezes ele falava sem querer, porque não sabia o que mais podia fazer. Ou, depois, ele queria falar mas acabava ficando quieto. Daí então ele enchia a boca de unhas, que mordia até que os dedos ficavam todos lascados e sangrando. Às vezes tinha vontade de se bater também, mas isto acontecia menos. Ele ficava chateado porque as unhas que ele comia quando não sabia o que fazer demoravam muito pra crescer, e ele precisava muitas vezes comer as unhas. Ele queria que suas unhas crescessem mais rápido ou que ele tivesse mais unhas. Ou então ele queria saber o que fazer, porque daí ele não ia ter que comer tantas unhas. Ele queria que lembrar das pessoas fosse sempre bom, e nunca dolorido. Ele queria que as coiasas que ele falasse fossem sempre as certas, e as que ele fizesse também. Ele achava idiota que muitas vezes amar alguém fizesse as pessoas sofrerem, porque ele achava que era uma destas coisas que tinha que deixar as pessoas felizes. Mas ele também percebeu que, de um jeito ou de outro, sempre acabava deixando as pessoas tristes também. Ele amava muito as pessoas, e chorava por causa disso também. E também porque ele achava que as pessoas não entendiam isso muito. Ou se entendiam, não parecia que entendiam. Ele achava que ia ser bom se as pessoas conseguissem se comunicar melhor. Ele achava muito ruim isso das pessoas não se entenderem direito.
Mas ele também achava difícil isto de ter que pensar tanto nas coisas e delas darem trabalho. O sol já estava alto e ele tinha muito o que fazer. Mas o mundo era complicado demais, e nos seus sonhos tudo acontecia sem ele ter que pensar. Secou as mãos no lençol e dormiu. Deixou a vida pra depois.
Às vezes, ele queria falar mas não dava certo. Ele pensava nas coisas e quando os pensamentos viravam palavras eles viravam outras coisas. E às vezes ele falava sem querer, porque não sabia o que mais podia fazer. Ou, depois, ele queria falar mas acabava ficando quieto. Daí então ele enchia a boca de unhas, que mordia até que os dedos ficavam todos lascados e sangrando. Às vezes tinha vontade de se bater também, mas isto acontecia menos. Ele ficava chateado porque as unhas que ele comia quando não sabia o que fazer demoravam muito pra crescer, e ele precisava muitas vezes comer as unhas. Ele queria que suas unhas crescessem mais rápido ou que ele tivesse mais unhas. Ou então ele queria saber o que fazer, porque daí ele não ia ter que comer tantas unhas. Ele queria que lembrar das pessoas fosse sempre bom, e nunca dolorido. Ele queria que as coiasas que ele falasse fossem sempre as certas, e as que ele fizesse também. Ele achava idiota que muitas vezes amar alguém fizesse as pessoas sofrerem, porque ele achava que era uma destas coisas que tinha que deixar as pessoas felizes. Mas ele também percebeu que, de um jeito ou de outro, sempre acabava deixando as pessoas tristes também. Ele amava muito as pessoas, e chorava por causa disso também. E também porque ele achava que as pessoas não entendiam isso muito. Ou se entendiam, não parecia que entendiam. Ele achava que ia ser bom se as pessoas conseguissem se comunicar melhor. Ele achava muito ruim isso das pessoas não se entenderem direito.
Mas ele também achava difícil isto de ter que pensar tanto nas coisas e delas darem trabalho. O sol já estava alto e ele tinha muito o que fazer. Mas o mundo era complicado demais, e nos seus sonhos tudo acontecia sem ele ter que pensar. Secou as mãos no lençol e dormiu. Deixou a vida pra depois.
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