Você lembra da primeira vez que se sentiu angustiado?
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.
terça-feira, maio 31, 2005
terça-feira, maio 24, 2005
quinta-feira, maio 12, 2005
Havia as tomado como uma prostituta sem valor, a quem se dá uns trocados e julga não dever mais nada. Pelo serviço prestado, alguns trocados. Recebidos com a fome de quem não existe sem aquele resto de misericórdia. Pois é disso que dependiam elas, as palavras, de um pouco de crença, de um crédito alheio. Se ninguém lhes desse valor, elas nunca serviriam de nada. As palavras se alimentavam de bocas, de saliva, de línguas, de tradições orais, de papéis, de canetas, de livros, de escritos, de histórias, documentos, promessas, juras. As palavras se alimentavam da comunicação, da carência, da eterna necessidade de se aproximar do outro, de tocar as mentes e os corações daqueles que estão separados por espaços, tempos e intempéries. E foi para aproximar o que os corpos, gestos e intenções não podiam, que aquelas palavras foram pronunciadas.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.
quarta-feira, abril 27, 2005
quinta-feira, abril 14, 2005
Podia quebrar o despertador, mas não podia fazer o tempo parar.
Podia pedir demissão, mas não podia deixar de trabalhar.
Podia tapar os ouvidos, mas não podia deixar de ouvir.
Podia fechar os olhos, mas não podia deixar de ver.
Podia dormir mais, mas não podia extinguir o sono.
Podia comer mais, mas não podia extinguir a fome.
Podia alterar, mas não podia transformar.
Podia conquistar, mas não podia ser Rei.
Podia melhorar, mas não podia ser bom.
Podia correr, mas não podia escapar.
Podia pensar, mas não podia fazer.
Podia parecer, mas não podia ser.
Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo roda gigante
Roda moinho, pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Podia pedir demissão, mas não podia deixar de trabalhar.
Podia tapar os ouvidos, mas não podia deixar de ouvir.
Podia fechar os olhos, mas não podia deixar de ver.
Podia dormir mais, mas não podia extinguir o sono.
Podia comer mais, mas não podia extinguir a fome.
Podia alterar, mas não podia transformar.
Podia conquistar, mas não podia ser Rei.
Podia melhorar, mas não podia ser bom.
Podia correr, mas não podia escapar.
Podia pensar, mas não podia fazer.
Podia parecer, mas não podia ser.
Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo roda gigante
Roda moinho, pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
segunda-feira, abril 11, 2005
A Terri Schiavo, o Papa e um príncipe de Um-Lugar-Qualquer-Que-Eu-Não-Lembro-O-Nome morreram.
Mas eu não estou nem aí. E não estou nem aí pra não estar nem aí. E não estou nem aí se você não está nem aí.
Eu estou sempre preso dentro da minha cabeça, e todos os lugares que eu possa visitar também estão. E na verdade, não importa onde eu estou, o que eu estou fazendo ou o que acontece. Porque a minha cabeça é um lugar pequeno, escuro e repetitivo, e eu não vou sair dela nunca. E eu sei que nunca estive em todos os lugares da minha cabeça, e também que nem todos os lugares estiveram na minha cabeça. Eu gosto de imaginar minha cabeça como um lugar grande, colorido, divertido e cheio de surpresas. Mas na verdade ela já estava pronta muito antes de eu nascer, velha e chata como sempre vai ser. Eu não sei fazer as coisas direito, e acho que já me acostumei com isso. É só mais uma daquelas coisas da minha cabeça. Daí eu tento endireitar todas as coisas erradas que venho fazendo e finalmente acho que elas estão certas. Mas na verdade elas estão erradas de outro jeito. Acertar as coisas é só errar no sentido contrário.
Meios termos fedem. Intensidade enjoa, dá náuseas, acaba e fica com cheiro de perfume vagabundo e ressaca.
A sinceridade é um lugar-comum, e a mentira é uma caverna triste e solitária.
Na minha cabeça, eu já vi o seu rosto mil vezes. Dá trabalho cuidar de uma memória até ela não gastar. O fácil é deixar todas as coisas velhas, ruins, sujas e opacas. A vida é translucida pra uns e transparente pra outros, mas no fim dá na mesma.
Se você não gosta de mim, eu não sei porque chega tão perto. Sempre chegam pertopertopertodemais.
Eu sou só um velho rabugento. Mas uma vez um amigo disse que eu oscilo entre a impulsividade e a depressão de uma maneira meio aleatória, caótica e divertida. É bom conseguir acreditar que se é pelo menos um pouco imprevisível e interessante. Vou tentar guardar isto na cabeça, e com sorte amanhã eu vou ter esquecido tudo de ruim que eu fiz comigo mesmo e com os outros. Com sorte vou ter esquecido que sou igual a todo mundo e vou lembrar que tem muita coisa ainda pra fazer. Com sorte, vou achar que a vida não é um disco riscado em um refrão meloso e idiota.
Mas eu não estou nem aí. E não estou nem aí pra não estar nem aí. E não estou nem aí se você não está nem aí.
Eu estou sempre preso dentro da minha cabeça, e todos os lugares que eu possa visitar também estão. E na verdade, não importa onde eu estou, o que eu estou fazendo ou o que acontece. Porque a minha cabeça é um lugar pequeno, escuro e repetitivo, e eu não vou sair dela nunca. E eu sei que nunca estive em todos os lugares da minha cabeça, e também que nem todos os lugares estiveram na minha cabeça. Eu gosto de imaginar minha cabeça como um lugar grande, colorido, divertido e cheio de surpresas. Mas na verdade ela já estava pronta muito antes de eu nascer, velha e chata como sempre vai ser. Eu não sei fazer as coisas direito, e acho que já me acostumei com isso. É só mais uma daquelas coisas da minha cabeça. Daí eu tento endireitar todas as coisas erradas que venho fazendo e finalmente acho que elas estão certas. Mas na verdade elas estão erradas de outro jeito. Acertar as coisas é só errar no sentido contrário.
Meios termos fedem. Intensidade enjoa, dá náuseas, acaba e fica com cheiro de perfume vagabundo e ressaca.
A sinceridade é um lugar-comum, e a mentira é uma caverna triste e solitária.
Na minha cabeça, eu já vi o seu rosto mil vezes. Dá trabalho cuidar de uma memória até ela não gastar. O fácil é deixar todas as coisas velhas, ruins, sujas e opacas. A vida é translucida pra uns e transparente pra outros, mas no fim dá na mesma.
Se você não gosta de mim, eu não sei porque chega tão perto. Sempre chegam pertopertopertodemais.
Eu sou só um velho rabugento. Mas uma vez um amigo disse que eu oscilo entre a impulsividade e a depressão de uma maneira meio aleatória, caótica e divertida. É bom conseguir acreditar que se é pelo menos um pouco imprevisível e interessante. Vou tentar guardar isto na cabeça, e com sorte amanhã eu vou ter esquecido tudo de ruim que eu fiz comigo mesmo e com os outros. Com sorte vou ter esquecido que sou igual a todo mundo e vou lembrar que tem muita coisa ainda pra fazer. Com sorte, vou achar que a vida não é um disco riscado em um refrão meloso e idiota.
quinta-feira, março 24, 2005
A Poesia irá nos redimir
Numa manhã cinza e triste eu me lembrei do poeta, daquele que tantas vezes inspirou tantos de nós a continuarmos seguindo nossas vidas. Suas palavras, profundas, sempre nos apoiaram e nos deram forças. Em homenagem a ele, aqui vai meu humilde esforço poético. Quem dera um dia atingir o patamar de sua genialidade, mas ele está além de nossos alcances, além dos pobre mortais que o admiram.
Atrás de um chute
Não importa se só possui
o que não tem importância
O Jorge já sabe
Somos um porquinho-da-índia sem infância
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Depois de um trago
Eu trago um relógio
E molho a pélvis
E moldo a lembrança
Você é belíssima
sua mãe é belíssima
que importa um trago
Bis
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Para contemplar
Para radicalizar
Para pestanejar e fazer estrago
Depois de um trago
Em minha tarefa poética eu fui auxiliado e acessorado por:
http://www.mundoperfeito.com.br/
Numa manhã cinza e triste eu me lembrei do poeta, daquele que tantas vezes inspirou tantos de nós a continuarmos seguindo nossas vidas. Suas palavras, profundas, sempre nos apoiaram e nos deram forças. Em homenagem a ele, aqui vai meu humilde esforço poético. Quem dera um dia atingir o patamar de sua genialidade, mas ele está além de nossos alcances, além dos pobre mortais que o admiram.
Atrás de um chute
Não importa se só possui
o que não tem importância
O Jorge já sabe
Somos um porquinho-da-índia sem infância
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Depois de um trago
Eu trago um relógio
E molho a pélvis
E moldo a lembrança
Você é belíssima
sua mãe é belíssima
que importa um trago
Bis
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Para contemplar
Para radicalizar
Para pestanejar e fazer estrago
Depois de um trago
Em minha tarefa poética eu fui auxiliado e acessorado por:
http://www.mundoperfeito.com.br/
sábado, março 19, 2005
Quando ele acordou suas mãos transpiravam muito, de um jeito anormal. O lençol empapado. O olho dele coçava. Durante o dia, o olho sempre coçava. Quando ficava nervoso, deste jeito de num saber as coisas, de num saber o que fazer, ficava enfiando o dedo no olho até ficar bem vermelho. Ele sempre lacrimejava. Ele sempre chorava também, mas dava pra fingir que estava lacrimejando. Às vezes ele chorava era de saudades das coisas, mas de vez em quando era medo. Muitas vezes ele chorava de indecisão ou de angustia. Ele não contava muito pra ninguém. Às vezes, quando chorava, era de saudades de coisas que não tinham acontecido. Às vezes era de medo das coisas nunca acontecerem, outras era de medo delas acontecerem mesmo. Chorava também porque se sentia incapaz. Porque tinha muita coisa bonita no mundo, e ele não conseguia dar conta de tudo. Chorava porque via as coisas bonitas escapando pelos seus dedos. Chorava porque às vezes era beleza demais. Porque às vezes as coisas grandes e bonitas são menos bonitas do que as coisas pequenas, que acontecem só uma vez ou outra e são tão preciosas. Chorava de medo de esquecer, de perder as coisas bonitas e pequenas. Ou de medo de deixar elas escaparem, de nunca ficar sabendo que elas poderiam ter acontecido, e daí elas não iam acontecer mesmo. Chorava de medo de nunca conseguir dizer pras pessoas o quanto gostava delas, o quanto elas eram importantes. Chorava de medo de que se conseguisse dizer, elas não acreditarem, ou passarem a não gostar dele por causa disso. Chorava de medo de não poder dizer a verdade sempre, e de não conseguir saber a diferença entre a hora de dizer a verdade e a hora de mentir. E de não saber mentir direito. De não saber a diferença entre um exagero e uma mentira. Das coisas que eram verdade pra ele não serem pros outros. Chorava porque às vezes ele dizia uma verdade, mas que no mundo das outras pessoas era uma mentira. Daí ele parava de saber a diferença entere a mentira e a verdade, e parava de saber o que dizer. Daí ele ficava com medo de falar, com medo de fazer tudo errado. Chorava de medo do mundo ser muito complicado pra ele, ou dele ser muito complicado pro mundo. Ou das pessoas serem muito complicadas umas com as outras, de não poderem ser sinceras porque às vezes se você gosta muito o melhor jeito de mostrar isto é dizer uma mentira, ou exagerar, ou não falar nada. Chorava de medo de não saber o melhor jeito de mostrar isto. Gostar das pessoas é complicado.
Às vezes, ele queria falar mas não dava certo. Ele pensava nas coisas e quando os pensamentos viravam palavras eles viravam outras coisas. E às vezes ele falava sem querer, porque não sabia o que mais podia fazer. Ou, depois, ele queria falar mas acabava ficando quieto. Daí então ele enchia a boca de unhas, que mordia até que os dedos ficavam todos lascados e sangrando. Às vezes tinha vontade de se bater também, mas isto acontecia menos. Ele ficava chateado porque as unhas que ele comia quando não sabia o que fazer demoravam muito pra crescer, e ele precisava muitas vezes comer as unhas. Ele queria que suas unhas crescessem mais rápido ou que ele tivesse mais unhas. Ou então ele queria saber o que fazer, porque daí ele não ia ter que comer tantas unhas. Ele queria que lembrar das pessoas fosse sempre bom, e nunca dolorido. Ele queria que as coiasas que ele falasse fossem sempre as certas, e as que ele fizesse também. Ele achava idiota que muitas vezes amar alguém fizesse as pessoas sofrerem, porque ele achava que era uma destas coisas que tinha que deixar as pessoas felizes. Mas ele também percebeu que, de um jeito ou de outro, sempre acabava deixando as pessoas tristes também. Ele amava muito as pessoas, e chorava por causa disso também. E também porque ele achava que as pessoas não entendiam isso muito. Ou se entendiam, não parecia que entendiam. Ele achava que ia ser bom se as pessoas conseguissem se comunicar melhor. Ele achava muito ruim isso das pessoas não se entenderem direito.
Mas ele também achava difícil isto de ter que pensar tanto nas coisas e delas darem trabalho. O sol já estava alto e ele tinha muito o que fazer. Mas o mundo era complicado demais, e nos seus sonhos tudo acontecia sem ele ter que pensar. Secou as mãos no lençol e dormiu. Deixou a vida pra depois.
Às vezes, ele queria falar mas não dava certo. Ele pensava nas coisas e quando os pensamentos viravam palavras eles viravam outras coisas. E às vezes ele falava sem querer, porque não sabia o que mais podia fazer. Ou, depois, ele queria falar mas acabava ficando quieto. Daí então ele enchia a boca de unhas, que mordia até que os dedos ficavam todos lascados e sangrando. Às vezes tinha vontade de se bater também, mas isto acontecia menos. Ele ficava chateado porque as unhas que ele comia quando não sabia o que fazer demoravam muito pra crescer, e ele precisava muitas vezes comer as unhas. Ele queria que suas unhas crescessem mais rápido ou que ele tivesse mais unhas. Ou então ele queria saber o que fazer, porque daí ele não ia ter que comer tantas unhas. Ele queria que lembrar das pessoas fosse sempre bom, e nunca dolorido. Ele queria que as coiasas que ele falasse fossem sempre as certas, e as que ele fizesse também. Ele achava idiota que muitas vezes amar alguém fizesse as pessoas sofrerem, porque ele achava que era uma destas coisas que tinha que deixar as pessoas felizes. Mas ele também percebeu que, de um jeito ou de outro, sempre acabava deixando as pessoas tristes também. Ele amava muito as pessoas, e chorava por causa disso também. E também porque ele achava que as pessoas não entendiam isso muito. Ou se entendiam, não parecia que entendiam. Ele achava que ia ser bom se as pessoas conseguissem se comunicar melhor. Ele achava muito ruim isso das pessoas não se entenderem direito.
Mas ele também achava difícil isto de ter que pensar tanto nas coisas e delas darem trabalho. O sol já estava alto e ele tinha muito o que fazer. Mas o mundo era complicado demais, e nos seus sonhos tudo acontecia sem ele ter que pensar. Secou as mãos no lençol e dormiu. Deixou a vida pra depois.
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
Vamos brincar de uma coisa que eu não brinco faz tempo. Funciona assim, eu pego um pedaço de um conto meu grande o suficiente pra encher o saco de qualquer um e posto aqui.
Todos os Reinos se fazem, todos os Reinos se ruem.
Nos escombros dos velhos Reinos, nas cinzas das antigas Vidas, nas sombras dos esquecidos Amores, sempre se criarão novas Vidas, novos Amores, que erguerão novos Reinos.
As grandes batalhas nunca serão as de Sangue e Espada. Elas serão de Corações e Mentes. As grandes guerras não se travam em vastos campos, mas sim, dentro dos Corações.
Pois o mais imponente Castelo ou Palácio será sempre uma carcaça sem valor, se suas paredes não abrigarem o Amor e Lealdade dos Corações.
A Vida não surge com a ascensão do primeiro Rei, nem há de se apagar com a queda da última Rainha. A Vida é persistente e teimosa, capaz de se arrastar por cantos escuros para voltar em esplendor. E ela não há de pertencer a ninguém, nem submeter seu poder a nenhuma ganância.
O Poder é uma ficção dos homens, mas a Vida é uma Verdade do mundo.
Quanto ao Amor, ninguém saberá jamais.
Estas palavras já existiam, muito antes que se soubesse do primeiro Reino erguido sob o testemunho dos astros eternos, pairando sobre as cabeças mortais. Quem primeiro as havia proferido, ninguém sabia. Mas um Rei uma vez disse, e muitos concordaram, que eram apenas palavras e, como tal, estavam fadadas a se desvanecerem nas areias do Tempo. Se o Tempo consumia florestas, oceanos, Reis e Rainhas, havia de consumir palavras ditas ao acaso. Um dia não significariam nada, para ninguém. E neste dia, quem as proclamou não existiria nem mesmo nas mais derradeiras canções do mais soturno bardo, e nunca poderia recriar a força que suas palavras um dia possuíram.
No entanto, havia quem discordasse deste Rei, vendo nestas palavras algo de verdadeiro e imortal. Havia quem acreditasse que estas palavras não teriam sido cunhadas por meras mãos mortais, mas sim por alguém que via as tramas invisíveis que criavam e desfaziam os Amores e os Reinados. E eram palavras que deveriam permanecer guardadas com zelo e observadas quando qualquer decisão importante devesse ser tomada. Principalmente, pelo governante de um Reino.
Um dos que valorizavam estas palavras era um jovem de poucas aventuras e sem grandes feitos heróicos. Ele gostava de palavras, pois as palavras viravam pensamentos. Os pensamentos, por sua vez, originam as idéias. E este jovem sempre acreditou que as idéias e emoções tinham uma relação estreita, mais valiosa do que era costumeiro acreditar na terra onde ele nasceu. Idéias originam Amores, Amores originam Idéias. Era isto e algo mais. Idealizar era isto para ele: transformar idéias em sentimentos, em Amores, que eram os cavalos a puxar as carruagens das ações. Era isto, o jovem pensava, que erguia e derrubava os Reinos e os Corações. Era isto que criava as histórias e, por fim, as transformava em Lendas. Idealizar era, em si, o ato supremo de criar o Amor. Ele especulava muito sobre o Amor, pensando de que maneira ele se criava e se desfazia e até que ponto os Corações podiam se unir. Muitos de seus dias e noites dedicaram-se a isto: pensar nas idéias e nos sentimentos; pensar nos Corações e nos pensamentos.
Ele via naquelas misteriosas palavras proferidas em um passado remoto, este poder mágico, ao mesmo tempo criador e transformador. Eram palavras que suscitavam algo, e ele sabia que não eram todos que pensavam assim. Seriam as palavras, de fato, apenas seqüências mortas de letras, incapazes e estéreis? Não, sem dúvida as palavras eram portais de poder infinito. Portais para dentro dos Corações e mentes, e tudo se faria através delas. Mas de nada valia o poder das palavras se ninguém acreditasse nelas. O poder estava em acreditar, esta era a maior conclusão a que ele havia chegado.
No pequeno vilarejo onde vivia, o jovem tinha alguns bons amigos e levava uma vida simples. Nada de guerras ou Reis ambiciosos, nada de conflitos ou disputas. Nos seus dias tranqüilos, o jovem tinha muito tempo para pensar nestas coisas, e muitas vezes tentava compartilhar seus pensamentos com algum companheiro, mas a resposta quase sempre era a mesma. Com um sorriso de escárnio e comiseração estampado nos seus rostos, todos lhe diziam que faltava algo fundamental para que ele pudesse afirmar com tanta autoridade sobre Corações e Amores: ao pobre jovem, faltava um verdadeiro Amor. Ele sempre se zangava com esta resposta, que considerava demasiadamente simplória. Ora, não é preciso ser um Rei para poder julgar se as atitudes de um Rei são justas ou não. Não é preciso ser perfurado por uma espada para saber que a frieza de sua lâmina é capaz de causar a dor e extinguir o brilho de uma vida. Por que seria preciso um verdadeiro Amor para saber o que o causa, qual é o seu poder e como ele funciona? Dentro de si o jovem tinha a certeza de que os que lhe diziam isto é que se encontravam verdadeiramente iludidos, pois o Amor que eles julgavam tão essencial para compreender esta questão os havia cegado completamente e isto impedia que o enxergassem objetivamente, como um objeto de contemplações e estudos, que poderia ser entendido como outro qualquer. Afinal, estes que criticavam suas idéias, nunca surgiram com outras idéias para contrapor às suas. A maioria simplesmente dizia que tentar entender o verdadeiro Amor era estupidez, perda de tempo, como seria tentar movimentar o sol com suas próprias mãos.
Foi na véspera do casamento de seu melhor amigo, que a decisão de partir finalmente foi forte o suficiente para lhe arrancar de seu povoado. Era uma noite quente de verão, os dois estavam sentados perto do bosque, vendo as estrelas e conversando. Eram tempos magros na aldeia, o clima severo havia acabado com muitas plantações e as dificuldades para alimentar tantas bocas famintas se faziam presentes no dia-a-dia de todas as famílias. Definitivamente, não era uma boa época para casamentos ou filhos. Estas coisas significavam mais despesas, que poderiam perfeitamente ser adiadas para uma época de maior fartura. Insistentemente o jovem dizia isto para seu amigo.
- Eu já coloquei todos os meus argumentos à sua disposição, com os quais você concordou prontamente, e já se fez mais do que evidente o fato de que o casamento complicará sua vida. Passará mais tempo trabalhando e mesmo assim isto pode não ser o suficiente para garantir seu sustento. Se tiverem filhos então, não sei como conseguirá mantê-los. Explique-me por que você não adia o casamento, pelo menos até a próxima colheita?
O amigo sorria ao responder a pergunta para ele. Sabia que tudo o que ele dizia era verdade, mas isto não abalava sua felicidade.
- Caso-me porque é isto que devo fazer. Se os tempos são de fome, sobreviveremos juntos a eles. Não há porque me preocupar, nós vamos passar por isto. Eu sei que você não entende isto, você ainda não é capaz de entender o que me dá forças.
- Forças? Como você diz que isto dá forças ao seu Coração? Isto apenas está cegando você, fazendo com que tome decisões precipitadas e inconseqüentes. E quando esta loucura se abrandar, como eu sei que o Tempo há de fazer, então perceberá os erros que cometeu. Mas então será tarde demais, e vendo os seus próprios erros julgará que a culpa por eles é daquela que conquistou seu Coração e fez com que perdesse seu caminho. E aquilo que um dia você chamou de verdadeiro Amor tornar-se-á lentamente em ódio velado e você estará amarrado a isto, fadado a carregar pelo resto de sua vida o resultado de um momento de insensatez. E criará seus filhos, frutos daquele Amor que um dia sentiu, apenas para que no futuro eles venham a cometer o mesmo erro. Você diz que o amor é incompreensível, mas o que é verdadeiramente incompreensível é sua atitude diante dele. Por que você não deseja compreender o Amor e se libertar de suas armadilhas? Não me desagrada que você viva um Amor, mas seria muito mais feliz se o vivesse com prudência.
- Não somos nós que devemos compreender o Amor, mas ele que deve nos compreender. Não há prudência na fome de um recém-nascido que sorve o leite de sua mãe, não há prudência no sono de alguém que não dorme há uma semana. Não há prudência no vôo de um pássaro ou nos homens quando respiram o ar que lhes alimenta a Vida. Um dia meu amigo, eu sei que você há de compreender que no Amor, assim como em outras situações, a prudência é uma mentira e um erro. O Amor existe por si e para si e não deve satisfações a você nem a ninguém. Ele não tem um porque ou um como, pois ele é o porquê e o como.
- Apenas palavras de um cego que não deseja enxergar. Você tem sido usado por este Amor como todos nós sempre temos sido. É assim que governantes tiranos se aproveitam de seu povo e o exploram, recebendo em troca juras de lealdade. Os Reis são homens que souberam dominar os Corações e usá-los para seu proveito, impiedosos Conquistadores de Corações. Seus súditos, cegos, apenas lhes entregam seus Corações para serem governados. Meu amigo, eu não nasci neste povoado para ter meu Coração escravizado por ninguém. Eu lhe desejo uma boa sorte em sua vida, mas meu caminho é diferente. Tomo as rédeas de meu Destino em minhas próprias mãos e um dia você há de ouvir sobre mim de novo, pois eu sei o valor das Palavras, dos Corações e das Mentes. Eu farei as pessoas acreditarem em mim, do mesmo modo que você acredita em seu Amor.
Tendo dito estas palavras, o jovem tirou de seu pescoço o pingente que pela vida inteira usou, e entregou a seu amigo.
- Não se esqueça de mim, pois eu não me esquecerei de ti. Este é meu presente de casamento. Como sabe, nada tenho que possa lhe garantir riquezas e sustento para sua família, como eu gostaria de poder garantir. O melhor que posso lhe dar é meu pingente, que para mim vale muito. Que ele mantenha perto de seu Coração o desejo que eu tenho que você seja feliz.
Então eles se abraçaram. O amigo sabia que seria a última vez que veria o jovem e sabia que nada do que dissesse o faria desistir de sua partida. Ele o conhecia bem o suficiente para saber que este dia chegaria, pois não era àquele lugar que o Coração do jovem pertencia. Ele devia procurar seu próprio Destino. Quando se olharam demoradamente uma última vez antes da partida, lágrimas escorriam dos olhos de ambos. Mas eles também sorriam, pois sabiam que os dois estavam partindo para o Destino que haviam escolhido para si.
O jovem saiu da cidade levando pouca coisa consigo e sem avisar mais ninguém, pois sabia que os outros não entenderiam seus motivos se tentasse explicá-los. Enquanto saia para um mundo que desconhecia, ele ainda pensava sobre as palavras de seu amigo e sobre o Amor. Pensou nas palavras antigas, que diziam que o Poder é uma ficção dos homens e a Vida é uma verdade do mundo. Quanto ao amor, ninguém jamais saberá. “Eu sei”, pensou o jovem. “O Amor é uma ficção dos homens, que eles criam e torna-se maior do que eles próprios. É uma ficção criada para enganarem a si mesmos, e que foge ao controle depois de feita. E, sendo uma ficção, qualquer um que o entenda pode criá-lo e usá-lo. As pessoas se submetem incondicionalmente aos Amores e aos desejos de seus Corações, e elas idealizam sem nem ao menos se darem conta disto. As Palavras são Poder, os Corações são Poder, os Amores são Poder. Se as pessoas querem realmente se enganar criando estas ficções, então eu não serei uma delas. Não me subjugarei de uma maneira tão deliberada. Como diziam as velhas palavras, a Vida é capaz de se arrastar por cantos escuros e voltar em esplendor. Ela não há de se pertencer a ninguém e nem se submeter a nenhuma ganância. A minha vida certamente não se submeterá.”
Com o Coração amargurado, o jovem decidiu que o Amor seria seu instrumento, seria seu para usá-lo. Se todos se subjugavam ao Amor, ele seria um dos poucos que subjugavam o próprio Amor para desfrutar verdadeiramente de seus benefícios. E foi assim que, quando saiu do povoado, o jovem já havia se transformado em um Caçador de Corações.
Todos os Reinos se fazem, todos os Reinos se ruem.
Nos escombros dos velhos Reinos, nas cinzas das antigas Vidas, nas sombras dos esquecidos Amores, sempre se criarão novas Vidas, novos Amores, que erguerão novos Reinos.
As grandes batalhas nunca serão as de Sangue e Espada. Elas serão de Corações e Mentes. As grandes guerras não se travam em vastos campos, mas sim, dentro dos Corações.
Pois o mais imponente Castelo ou Palácio será sempre uma carcaça sem valor, se suas paredes não abrigarem o Amor e Lealdade dos Corações.
A Vida não surge com a ascensão do primeiro Rei, nem há de se apagar com a queda da última Rainha. A Vida é persistente e teimosa, capaz de se arrastar por cantos escuros para voltar em esplendor. E ela não há de pertencer a ninguém, nem submeter seu poder a nenhuma ganância.
O Poder é uma ficção dos homens, mas a Vida é uma Verdade do mundo.
Quanto ao Amor, ninguém saberá jamais.
Estas palavras já existiam, muito antes que se soubesse do primeiro Reino erguido sob o testemunho dos astros eternos, pairando sobre as cabeças mortais. Quem primeiro as havia proferido, ninguém sabia. Mas um Rei uma vez disse, e muitos concordaram, que eram apenas palavras e, como tal, estavam fadadas a se desvanecerem nas areias do Tempo. Se o Tempo consumia florestas, oceanos, Reis e Rainhas, havia de consumir palavras ditas ao acaso. Um dia não significariam nada, para ninguém. E neste dia, quem as proclamou não existiria nem mesmo nas mais derradeiras canções do mais soturno bardo, e nunca poderia recriar a força que suas palavras um dia possuíram.
No entanto, havia quem discordasse deste Rei, vendo nestas palavras algo de verdadeiro e imortal. Havia quem acreditasse que estas palavras não teriam sido cunhadas por meras mãos mortais, mas sim por alguém que via as tramas invisíveis que criavam e desfaziam os Amores e os Reinados. E eram palavras que deveriam permanecer guardadas com zelo e observadas quando qualquer decisão importante devesse ser tomada. Principalmente, pelo governante de um Reino.
Um dos que valorizavam estas palavras era um jovem de poucas aventuras e sem grandes feitos heróicos. Ele gostava de palavras, pois as palavras viravam pensamentos. Os pensamentos, por sua vez, originam as idéias. E este jovem sempre acreditou que as idéias e emoções tinham uma relação estreita, mais valiosa do que era costumeiro acreditar na terra onde ele nasceu. Idéias originam Amores, Amores originam Idéias. Era isto e algo mais. Idealizar era isto para ele: transformar idéias em sentimentos, em Amores, que eram os cavalos a puxar as carruagens das ações. Era isto, o jovem pensava, que erguia e derrubava os Reinos e os Corações. Era isto que criava as histórias e, por fim, as transformava em Lendas. Idealizar era, em si, o ato supremo de criar o Amor. Ele especulava muito sobre o Amor, pensando de que maneira ele se criava e se desfazia e até que ponto os Corações podiam se unir. Muitos de seus dias e noites dedicaram-se a isto: pensar nas idéias e nos sentimentos; pensar nos Corações e nos pensamentos.
Ele via naquelas misteriosas palavras proferidas em um passado remoto, este poder mágico, ao mesmo tempo criador e transformador. Eram palavras que suscitavam algo, e ele sabia que não eram todos que pensavam assim. Seriam as palavras, de fato, apenas seqüências mortas de letras, incapazes e estéreis? Não, sem dúvida as palavras eram portais de poder infinito. Portais para dentro dos Corações e mentes, e tudo se faria através delas. Mas de nada valia o poder das palavras se ninguém acreditasse nelas. O poder estava em acreditar, esta era a maior conclusão a que ele havia chegado.
No pequeno vilarejo onde vivia, o jovem tinha alguns bons amigos e levava uma vida simples. Nada de guerras ou Reis ambiciosos, nada de conflitos ou disputas. Nos seus dias tranqüilos, o jovem tinha muito tempo para pensar nestas coisas, e muitas vezes tentava compartilhar seus pensamentos com algum companheiro, mas a resposta quase sempre era a mesma. Com um sorriso de escárnio e comiseração estampado nos seus rostos, todos lhe diziam que faltava algo fundamental para que ele pudesse afirmar com tanta autoridade sobre Corações e Amores: ao pobre jovem, faltava um verdadeiro Amor. Ele sempre se zangava com esta resposta, que considerava demasiadamente simplória. Ora, não é preciso ser um Rei para poder julgar se as atitudes de um Rei são justas ou não. Não é preciso ser perfurado por uma espada para saber que a frieza de sua lâmina é capaz de causar a dor e extinguir o brilho de uma vida. Por que seria preciso um verdadeiro Amor para saber o que o causa, qual é o seu poder e como ele funciona? Dentro de si o jovem tinha a certeza de que os que lhe diziam isto é que se encontravam verdadeiramente iludidos, pois o Amor que eles julgavam tão essencial para compreender esta questão os havia cegado completamente e isto impedia que o enxergassem objetivamente, como um objeto de contemplações e estudos, que poderia ser entendido como outro qualquer. Afinal, estes que criticavam suas idéias, nunca surgiram com outras idéias para contrapor às suas. A maioria simplesmente dizia que tentar entender o verdadeiro Amor era estupidez, perda de tempo, como seria tentar movimentar o sol com suas próprias mãos.
Foi na véspera do casamento de seu melhor amigo, que a decisão de partir finalmente foi forte o suficiente para lhe arrancar de seu povoado. Era uma noite quente de verão, os dois estavam sentados perto do bosque, vendo as estrelas e conversando. Eram tempos magros na aldeia, o clima severo havia acabado com muitas plantações e as dificuldades para alimentar tantas bocas famintas se faziam presentes no dia-a-dia de todas as famílias. Definitivamente, não era uma boa época para casamentos ou filhos. Estas coisas significavam mais despesas, que poderiam perfeitamente ser adiadas para uma época de maior fartura. Insistentemente o jovem dizia isto para seu amigo.
- Eu já coloquei todos os meus argumentos à sua disposição, com os quais você concordou prontamente, e já se fez mais do que evidente o fato de que o casamento complicará sua vida. Passará mais tempo trabalhando e mesmo assim isto pode não ser o suficiente para garantir seu sustento. Se tiverem filhos então, não sei como conseguirá mantê-los. Explique-me por que você não adia o casamento, pelo menos até a próxima colheita?
O amigo sorria ao responder a pergunta para ele. Sabia que tudo o que ele dizia era verdade, mas isto não abalava sua felicidade.
- Caso-me porque é isto que devo fazer. Se os tempos são de fome, sobreviveremos juntos a eles. Não há porque me preocupar, nós vamos passar por isto. Eu sei que você não entende isto, você ainda não é capaz de entender o que me dá forças.
- Forças? Como você diz que isto dá forças ao seu Coração? Isto apenas está cegando você, fazendo com que tome decisões precipitadas e inconseqüentes. E quando esta loucura se abrandar, como eu sei que o Tempo há de fazer, então perceberá os erros que cometeu. Mas então será tarde demais, e vendo os seus próprios erros julgará que a culpa por eles é daquela que conquistou seu Coração e fez com que perdesse seu caminho. E aquilo que um dia você chamou de verdadeiro Amor tornar-se-á lentamente em ódio velado e você estará amarrado a isto, fadado a carregar pelo resto de sua vida o resultado de um momento de insensatez. E criará seus filhos, frutos daquele Amor que um dia sentiu, apenas para que no futuro eles venham a cometer o mesmo erro. Você diz que o amor é incompreensível, mas o que é verdadeiramente incompreensível é sua atitude diante dele. Por que você não deseja compreender o Amor e se libertar de suas armadilhas? Não me desagrada que você viva um Amor, mas seria muito mais feliz se o vivesse com prudência.
- Não somos nós que devemos compreender o Amor, mas ele que deve nos compreender. Não há prudência na fome de um recém-nascido que sorve o leite de sua mãe, não há prudência no sono de alguém que não dorme há uma semana. Não há prudência no vôo de um pássaro ou nos homens quando respiram o ar que lhes alimenta a Vida. Um dia meu amigo, eu sei que você há de compreender que no Amor, assim como em outras situações, a prudência é uma mentira e um erro. O Amor existe por si e para si e não deve satisfações a você nem a ninguém. Ele não tem um porque ou um como, pois ele é o porquê e o como.
- Apenas palavras de um cego que não deseja enxergar. Você tem sido usado por este Amor como todos nós sempre temos sido. É assim que governantes tiranos se aproveitam de seu povo e o exploram, recebendo em troca juras de lealdade. Os Reis são homens que souberam dominar os Corações e usá-los para seu proveito, impiedosos Conquistadores de Corações. Seus súditos, cegos, apenas lhes entregam seus Corações para serem governados. Meu amigo, eu não nasci neste povoado para ter meu Coração escravizado por ninguém. Eu lhe desejo uma boa sorte em sua vida, mas meu caminho é diferente. Tomo as rédeas de meu Destino em minhas próprias mãos e um dia você há de ouvir sobre mim de novo, pois eu sei o valor das Palavras, dos Corações e das Mentes. Eu farei as pessoas acreditarem em mim, do mesmo modo que você acredita em seu Amor.
Tendo dito estas palavras, o jovem tirou de seu pescoço o pingente que pela vida inteira usou, e entregou a seu amigo.
- Não se esqueça de mim, pois eu não me esquecerei de ti. Este é meu presente de casamento. Como sabe, nada tenho que possa lhe garantir riquezas e sustento para sua família, como eu gostaria de poder garantir. O melhor que posso lhe dar é meu pingente, que para mim vale muito. Que ele mantenha perto de seu Coração o desejo que eu tenho que você seja feliz.
Então eles se abraçaram. O amigo sabia que seria a última vez que veria o jovem e sabia que nada do que dissesse o faria desistir de sua partida. Ele o conhecia bem o suficiente para saber que este dia chegaria, pois não era àquele lugar que o Coração do jovem pertencia. Ele devia procurar seu próprio Destino. Quando se olharam demoradamente uma última vez antes da partida, lágrimas escorriam dos olhos de ambos. Mas eles também sorriam, pois sabiam que os dois estavam partindo para o Destino que haviam escolhido para si.
O jovem saiu da cidade levando pouca coisa consigo e sem avisar mais ninguém, pois sabia que os outros não entenderiam seus motivos se tentasse explicá-los. Enquanto saia para um mundo que desconhecia, ele ainda pensava sobre as palavras de seu amigo e sobre o Amor. Pensou nas palavras antigas, que diziam que o Poder é uma ficção dos homens e a Vida é uma verdade do mundo. Quanto ao amor, ninguém jamais saberá. “Eu sei”, pensou o jovem. “O Amor é uma ficção dos homens, que eles criam e torna-se maior do que eles próprios. É uma ficção criada para enganarem a si mesmos, e que foge ao controle depois de feita. E, sendo uma ficção, qualquer um que o entenda pode criá-lo e usá-lo. As pessoas se submetem incondicionalmente aos Amores e aos desejos de seus Corações, e elas idealizam sem nem ao menos se darem conta disto. As Palavras são Poder, os Corações são Poder, os Amores são Poder. Se as pessoas querem realmente se enganar criando estas ficções, então eu não serei uma delas. Não me subjugarei de uma maneira tão deliberada. Como diziam as velhas palavras, a Vida é capaz de se arrastar por cantos escuros e voltar em esplendor. Ela não há de se pertencer a ninguém e nem se submeter a nenhuma ganância. A minha vida certamente não se submeterá.”
Com o Coração amargurado, o jovem decidiu que o Amor seria seu instrumento, seria seu para usá-lo. Se todos se subjugavam ao Amor, ele seria um dos poucos que subjugavam o próprio Amor para desfrutar verdadeiramente de seus benefícios. E foi assim que, quando saiu do povoado, o jovem já havia se transformado em um Caçador de Corações.
domingo, fevereiro 13, 2005
Pra todos aqueles que estão meio melancólicos.
Pra todos aqueles que estão meio apaixonados, cujas vidas vivem em sonhos.
Pra todos aqueles que gostam de dormir, e deixar a realidade pra trás.
Dream a little dream of me
Stars shining bright above you.
Night breezes seem to whisper, 'I love you,'
Birds singing in the sycamore tree.
Dream a little dream of me.
Say nighty-night and kiss me.
Just hold me tight and tell me you'll miss me.
While I'm alone and blue as can be,
Dream a little dream of me.
Stars fading, but I linger on, dear,
Still craving your kiss.
I'm longing to linger 'till dawn, dear,
Just saying this:
Sweet dreams 'till sunbeams find you,
Sweet dreams that leave all worries behind you.
But in your dreams, whatever they be.
Dream a little dream of me.
Pra todos aqueles que estão meio apaixonados, cujas vidas vivem em sonhos.
Pra todos aqueles que gostam de dormir, e deixar a realidade pra trás.
Dream a little dream of me
Stars shining bright above you.
Night breezes seem to whisper, 'I love you,'
Birds singing in the sycamore tree.
Dream a little dream of me.
Say nighty-night and kiss me.
Just hold me tight and tell me you'll miss me.
While I'm alone and blue as can be,
Dream a little dream of me.
Stars fading, but I linger on, dear,
Still craving your kiss.
I'm longing to linger 'till dawn, dear,
Just saying this:
Sweet dreams 'till sunbeams find you,
Sweet dreams that leave all worries behind you.
But in your dreams, whatever they be.
Dream a little dream of me.
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
terça-feira, fevereiro 01, 2005
Cinzas.
São as verdades de ontem, espalhadas sobre sua vida.
Lágrimas secas tem gosto de sal, tem gosto de sangue.
O sangue tem gosto de vida. Tudo o que é vivo sangra e chora.
O gosto de sal nunca vai embora.
Você pode mentir. Você pode dizer que tudo tem gosto de nada.
A verdade é que as alegrias podem não ter mais gosto de nada.
Mas o gosto de sal fica, ele nunca vai embora.
Cinzas.
O passado é feito de cinzas. A vida é feita de passado.
São as verdades de ontem, espalhadas sobre sua vida.
Lágrimas secas tem gosto de sal, tem gosto de sangue.
O sangue tem gosto de vida. Tudo o que é vivo sangra e chora.
O gosto de sal nunca vai embora.
Você pode mentir. Você pode dizer que tudo tem gosto de nada.
A verdade é que as alegrias podem não ter mais gosto de nada.
Mas o gosto de sal fica, ele nunca vai embora.
Cinzas.
O passado é feito de cinzas. A vida é feita de passado.
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Hoje eu só tenho uma coisa muito bonita e verdadeira pra dizer pra vocês.
Dostoievski é foda.
Tadinho do Oscar Wild, ele até parece uma criancinha de cinco anos tentando ser malvado com suas histórias. Eu sei que a comparação não é pertinente, mas ela é minha e para mim, então se você não gostou não me enche.
Dostoievski é foda.
Tadinho do Oscar Wild, ele até parece uma criancinha de cinco anos tentando ser malvado com suas histórias. Eu sei que a comparação não é pertinente, mas ela é minha e para mim, então se você não gostou não me enche.
domingo, janeiro 23, 2005
Pessoas que não iam beber já beberam.
Pessoas que não iam se drogar já se drogaram.
Pessoas que não iam fumar já fumam.
Pessoas que não iam beijar já beijaram.
Pessoas que não iam fazer sexo já fazem.
Pessoas que não iam namorar já namoraram.
Namoros que não iam terminar já terminaram.
Amizades que não iam terminar já terminaram.
Idéias que não iam morrer já morreram.
Valores que não sumiriam já sumiram.
Pessoas que nunca seriam amigas já são.
Pessoas que nunca iam deixar de se amar já se odiaram.
As coisas que aconteceram há muito tempo na nossa vida aconteceram quando outras coisas que aconteceram na nossa vida já haviam acontecido há muito tempo.
As pessoas que conhecemos muito bem e há muito tempo ainda eram desconhecidas quando conhecemos outras pessoas que conhecemos há muito tempo.
Já temos carros, casas, empregos, faculdades, filhos, eletrodomésticos, lembranças estúpidas.
Já sabemos que podemos ficar um ano ou mais sem ver alguém, e que as coisas podem não mudar.
Já sabemos que quando as coisas mudam elas ficam iguais.
Já não temos pressa de nada.
As coisas não são mais surpreendentes de verdade.
Paramos de ficar maiores e começamos a ficar mais velhos.
Pessoas que não iam se drogar já se drogaram.
Pessoas que não iam fumar já fumam.
Pessoas que não iam beijar já beijaram.
Pessoas que não iam fazer sexo já fazem.
Pessoas que não iam namorar já namoraram.
Namoros que não iam terminar já terminaram.
Amizades que não iam terminar já terminaram.
Idéias que não iam morrer já morreram.
Valores que não sumiriam já sumiram.
Pessoas que nunca seriam amigas já são.
Pessoas que nunca iam deixar de se amar já se odiaram.
As coisas que aconteceram há muito tempo na nossa vida aconteceram quando outras coisas que aconteceram na nossa vida já haviam acontecido há muito tempo.
As pessoas que conhecemos muito bem e há muito tempo ainda eram desconhecidas quando conhecemos outras pessoas que conhecemos há muito tempo.
Já temos carros, casas, empregos, faculdades, filhos, eletrodomésticos, lembranças estúpidas.
Já sabemos que podemos ficar um ano ou mais sem ver alguém, e que as coisas podem não mudar.
Já sabemos que quando as coisas mudam elas ficam iguais.
Já não temos pressa de nada.
As coisas não são mais surpreendentes de verdade.
Paramos de ficar maiores e começamos a ficar mais velhos.
quinta-feira, janeiro 20, 2005
É sempre curioso ver as definições que a gente ganha por aí. E ficar tentando descobrir de onde elas vieram. Mas tudo bem, a gente sabe que a língua é uma construção social e que o uso dos termos ao longo da história pode redefinir seu significado. Então eis minha sugestão.
Falso Manipulador: moleque idiota que paga um mico na sarjeta do bar.
Pronto, agora é mais condizente com minha singela personalidade.
Espero que um dia eu pelo menos alcance o status de manipulador verdadeiro. Falso manipulador parece nome pra um idiota que tenta manipular os outros e não consegue.
Falso Manipulador: moleque idiota que paga um mico na sarjeta do bar.
Pronto, agora é mais condizente com minha singela personalidade.
Espero que um dia eu pelo menos alcance o status de manipulador verdadeiro. Falso manipulador parece nome pra um idiota que tenta manipular os outros e não consegue.
segunda-feira, janeiro 17, 2005
sexta-feira, dezembro 31, 2004
Caralho, que ano...
O conto de natal vai ter que sair, é questão de honra. Mesmo que não seja pro natal e nem pra este ano. Já comecei a escrever, mas a greve tá tirando o atraso até agora em cima das minhas costas. Falta de computador em casa, ainda não consegui me adaptar a tantas mudanças tão rápido. Falta emprego, falta tempo, falta glamour e um monte de coisa. Mas dá pra tirar de letra, eu sei que dá.
Daí eu vou colocar o conto aqui em breve. Assim que terminar meus dois trabalhos que tenho que entregar no dia 3 e escrever ele em um computador generosamente emprestado (talvez o do Bueno, onde eu escrevo este post e que vai me ajudar a digitar os trabalhos).
Férias...fôlego pra 2005, que provavelmente vai ser muito mais foda que 2004, que por sua vez foi muito mais foda que 2003, que por sua vez foi muito mais foda que 2002...
O conto de natal vai ter que sair, é questão de honra. Mesmo que não seja pro natal e nem pra este ano. Já comecei a escrever, mas a greve tá tirando o atraso até agora em cima das minhas costas. Falta de computador em casa, ainda não consegui me adaptar a tantas mudanças tão rápido. Falta emprego, falta tempo, falta glamour e um monte de coisa. Mas dá pra tirar de letra, eu sei que dá.
Daí eu vou colocar o conto aqui em breve. Assim que terminar meus dois trabalhos que tenho que entregar no dia 3 e escrever ele em um computador generosamente emprestado (talvez o do Bueno, onde eu escrevo este post e que vai me ajudar a digitar os trabalhos).
Férias...fôlego pra 2005, que provavelmente vai ser muito mais foda que 2004, que por sua vez foi muito mais foda que 2003, que por sua vez foi muito mais foda que 2002...
domingo, dezembro 12, 2004
sexta-feira, novembro 05, 2004
Eu sempre achei isto:
Ser criança é muito mais divertido.
Amanhã, sábado, tem uma festa na minha casa de arrecadação de fundos para campanha da chapa para DCE que a gente apóia. Cinco reais para entrar e qualquer bebida é um real. Eu ficaria feliz se alguns amiguinhos de fora da usp estivessem por lá.
Meu cérebro é um gerador de crises.
Ser criança é muito mais divertido.
Amanhã, sábado, tem uma festa na minha casa de arrecadação de fundos para campanha da chapa para DCE que a gente apóia. Cinco reais para entrar e qualquer bebida é um real. Eu ficaria feliz se alguns amiguinhos de fora da usp estivessem por lá.
Meu cérebro é um gerador de crises.
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