sábado, setembro 20, 2014

Da luta que nos faz

As palavras nunca são suficientes para conseguir expressar aquilo que sentimos. Mas tem vezes que parece que elas não dão nem pro começo. É assim que eu me sinto diante da vitória da greve dos trabalhadores da USP. O triunfo de uma batalha, ainda pequena, ainda defensiva, mas que é imensa. E que sinto como minha, como parte da luta que é a minha vida. Sinto como minha ao lado desses herois de toda uma classe, que deram uma lição aos seus irmãos e a seus inimigos.



Lembro do arrepio me percorrendo enquanto filmava mais de mil trabalhadores votando o início da greve no vão do prédio da história, no dia 27 de maio. Uma onda se gestava ali, e que por sua vez já havia sido impulsionada pela ressaca das ondas anteriores: as ondas de junho e as dos garis, que arrastaram o país em sua correnteza e deram um belo caldo nos governos e patrões.

Mas na maré que criava o empuxo dessa onda havia também outras influências profundas. Há quatro anos os trabalhadores da USP não faziam uma greve, e para quem olhava a calma superfície parecia que a água não voltaria a se mexer. Mas as aparências enganam, e não é com um ou outro ataque de um reitor-capacho enfiado goela abaixo por um governador, nem com um ou dois prêmios cala-boca, que se destrói uma tradição consolidada por décadas de lutas. E os trabalhadores da USP têm uma tradição que corre na sua história, no sangue de sua classe, nos cabelos brancos dos diretores de seu sindicato; uma história que se confunde à história dos últimos grandes embates de classe desse país.



Uma boa semente, para brotar, só precisa de um solo fértil. Nada mais. Foi esse solo fértil que estava encoberto que surgiu quando o reitor Marco Antonio Zago e sua arrogância decretaram o arrocho salarial com o não-reajuste de 0%. Uma fera adormecida despertou, e a estrondosa votação de greve no dia 27 de maio foi apenas seu primeiro rugido. Diga-se, aliás, que bastante insuficiente para amedrontar seus inimigos, que têm, eles também, uma tradição e uma força imensa.

O segredo dos trabalhadores da USP estava no que não se via. O que eles mesmos não conheciam. Estava em mulheres e homens que, até ontem, viviam vidas normais, trabalhando na universidade e tocando seus demais projetos pessoais. Só que situações extraordinárias mudam as pessoas extraordinariamente. E não precisou mais do que o estalar dessa greve, algumas reuniões nas unidades, reuniões do comando de greve e atos para que alguns lembrassem e muitos descobrissem algo que passam a nossa vida inteira tentando esconder de nós: podemos ser sujeitos de nosso destino. Essa ideia estava ali no ar, na cabeça de muitos, mas precisava tomar corpo e mostrar que merecia existir não apenas como ideia, mas como ação.



Hoje, seus patrões que os olhem com desconfiança, porque cada um deles sabe - na prática - que a força que cada patrão tem para mandar em alguma coisa não vem senão do trabalho de cada um que ele explora. E o equilíbrio que sustenta essa relação parasitária parece inabalável, indestrutível, como um dogma, como a "ordem natural das coisas". Mas ele é um tronco devorado por cupins, oco e podre por dentro, frágil e que pode ceder a um golpe certeiro. A dominação se sustenta no poder das armas, das leis, da grana. Mas, antes de tudo, ela se sustenta na crença de que é impossível as coisas serem de forma diferente. Quando, em junho, arrancamos vinte centavos das tarifas, esses vinte centavos não mudaram a vida das pessoas. Mas a ideia de que é possível arrancá-los mudou tudo.

Os trabalhadores da USP arrancaram um aumento que não cobre a inflação que devora seus salários. Depois de 116 dias de luta incansável, com grandes sacrifícios pessoais, eles conseguiram um reajuste escalonado de 5,2% e um abono de 28,6%. É pouco perto do que é necessário para viver nesse mundo, para pagar o aluguel, as contas, as compras, as despesas, as dívidas, as faturas. Pouco importa: esses 5,2% tem o cheiro do medo dos patrões diante da força dos trabalhadores organizados; eles são o retrato da reitoria e do governo de joelhos, com todas as suas leis e armas, diante dos trabalhadores que tudo produzem.

Eu vi pessoas que andavam enfiadas em suas vidas, soterradas por um mar de rotina e exploração. E aprenderam a olhar para o lado, a ver em seu colega de corredor um companheiro que estará ali para apoiá-lo nas batalhas mais duras; um irmão de classe. Aprenderam que as barras das prisões nas quais nos jogam são forjadas sobre mentiras, quando levaram seu companheiro Fábio. Mas que essas grades também foram erguidas sobre nosso trabalho, e que podemos dobrá-las.

A vitória ensinou a lutar. E hoje ela é imensa, e, como a primeira de muitos desses lutadores, ela sempre será imensa na memória. Mas logo olharemos para trás pensando como ela é pequena diante dos novos triunfos que virão. E virão porque, um dia, essas mulheres e homens aprenderam que podiam lutar, que podiam ser os donos de seu destino. Eu me orgulho de estar entre esses e travar essa luta ao seu lado.


sexta-feira, setembro 19, 2014

quarta-feira, setembro 17, 2014

A polícia só está fazendo o seu trabalho

Hoje, na correria do dia, só vi a televisão de relance. Mas uma frase era repetida como um mantra hipnótico aos telespectadores:

"A polícia só está fazendo o seu trabalho."



Sim, é verdade. A polícia estava fazendo seu trabalho. Qual era ele? Atacar 300 famílias, crianças, mulheres grávidas, velhos, todos, todos, todos. Para defender um dos valores mais importantes dessa sociedade: a sagrada propriedade privada.

A mídia passou o dia registrando imagens. E ela escolhia bem o que iria de pano de fundo ao seu mantra. A voz, em tom de revolta, repetia: "A polícia só está fazendo seu trabalho. Há manifestantes atacando ela." Os manifestantes atacavam ela, e as imagens não mentem: mostravam pedaços de sofá, pedaços de cama, pedras, pedaços de pau voando pelas janelas do prédio em cima da polícia.

As janelas de um hotel abandonado no centro da maior e mais populosa cidade do país, uma das maiores do mundo, cuspiam pedaços de móveis enquanto a polícia descarregava suas bombas. O hotel, abandonado há mais de dez anos; as famílias, jogando seus poucos pertences em cima dos soldados para se defender.

Uma telespectadora, minha nova colega de trabalho, manifestou-se na copa do meu trabalho, onde eu assistia às cenas: "um monte de gente pagando aluguel, trabalhador tudo morando na periferia, e esses vagabundo querem morar no centro, e de graça."

Isso. Os trabalhadores moram na periferia e pagam aluguéis caros. Porque no centro há hotéis abandonados há mais de dez anos, esperando a especulação imobiliária valorizá-los mais, enquanto isso os proprietários ganham seu dinheiro cobrando aluguéis caros dos trabalhadores que moram na periferia. E eles só podem fazer tudo isso porque há uma polícia para "só fazer o seu trabalho" de defender seus hotéis abandonados, e porque muitos trabalhadores olham outros apanhando na televisão por ocupar um hotel abandonado e concordam, não com eles, mas com a polícia, que "está só fazendo seu trabalho".



Outras imagens passavam: um homem, visivelmente bêbado, dançava em frente à tropa de choque armada em prontidão. "O manifestante provoca a polícia", diz o narrador. Dois policiais saem da formação, prendem o homem e retornam. Assisti essa imagem mais umas três vezes em meu intervalo de quinze minutos do trabalho. Era, como o pedaço de cama voando pela janela, mais uma dessas provas de que, enquanto "a polícia só estava fazendo seu trabalho", manifestantes atacavam-na, violentamente, com o resto de seus pertences.

Isso, na visão de minha colega, tornou-se mais um argumento: "Olha lá, jogando cama, quem é que joga as suas coisas na rua desse jeito?". Era uma pergunta retórica, mas a resposta estava bem clara na tela: as pessoas que têm sua moradia ameaçada jogam suas coisas na rua, na cabeça de quem ameaça seu direito de morar. Quem não joga suas coisas é quem não precisa disso pra tentar resistir...

Eu não respondi à colega, mas teve quem o fizesse, ainda que não se dirigindo a ela diretamente, mas a todos ali: disse que morou em uma área ocupada durante o governo Quércia, que fora expulso e que o dono do imóvel devia mais de dez anos de impostos. Essa, invariavelmente, é a história de todos os imóveis ocupados. A mulher fez que não era com ela. Ela estava em seu intervalo, mas a cabeça estava cheia: fazia naquele dia hora-extra para ganhar um troco a mais. Eu não sei porque ela queria o troco a mais da hora extra, mas sei o que permite a ela fazer hora-extra: que faltem funcionários para atender a demanda da estação; que os que trabalham não recebam o suficiente e precisem fazer hora-extra; que alguns dos que ali trabalham chamem de "vagabundos" os que apanham da polícia "que só está fazendo seu trabalho", mas não digam nada dos que enchem seus bolsos roubando a empresa pública na qual trabalham. E, é claro, também  não esqueçamos dos policiais que "só fizeram seu trabalho" ao atacar, tal qual àquelas famílias no centro, os seus colegas em greve há cerca de três meses, garantindo a continuidade dessas condições de trabalho.

O intervalo terminou. Ela foi fazer a hora-extra, eu fui continuar treinando meu novo ofício. A polícia, enquanto isso, continuou fazendo seu trabalho. E fez exemplarmente: no final do dia, São Paulo tinha 300 famílias a mais na rua, mais de 80 novos presos, e algumas dezenas de feridos. Diante disso, é de assustar que ainda tenha muita gente, de direita ou de esquerda, que diga que a polícia é despreparada. Nada disso: nossa polícia é muito bem preparada, e ela só está fazendo o seu trabalho.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Seis sentidos




Decisões que fizemos
que nos fizeram
cicatrizes
no couro da alma
as marcas
de tudo aquilo que já foi sentido

tateamos
as escolhas parecem poucas
o tempo parece pouco
a vida parece pouca
e nos dá rasteiras
mas sabemos
que não adianta apenas olhar pro chão,
sentido.

É preciso arrancar alegria ao futuro
se, nos teus sonhos, teus impulsos ganham a carne do teu desejo
invadem tua percepção, teus sentidos,

saiba que ali, do outro lado do sonho,
há um outro alguém que desenha nas nuvens também
uma fantasia, um futuro, emaranhados,
buscando uma vida plena de sentido.

Botar abaixo os medos, as idealizações,
seguir sereno, fazendo da vida uma labuta diária,
segurando os impulsos, cavalgando os sonhos,
enchendo-lhes de realidade.
Olho adiante, pra você e o futuro,
caminho nesse sentido.

Lembrando como é sentir,
consigo olhar para frente, pro futuro,
com a cabeça erguida, posição de sentido.

As escolhas são nossas.
E o futuro pode nos pertencer.

"É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles."

- Lenin.





Chegança

Amanhã começo a trabalhar como metroviário na estação Tietê do metrô.
Sim, dá um frio na barriga. Como poderia não dar?

O que achei mais legal é pensar em como vou estar num dos lugares onde mais passam as pessoas que chegam a essa cidade, de todos os cantos do país. Dezenas de milhares de pessoas que desembarcam com sonhos, expectativas, esperanças, projetos... que vêm muitas vezes trazendo o pouco-tudo que têm nesse mundo, chegando sem nem saber direito o que é um metrô, o que é uma São Paulo, o que é esse monstro filho daquilo que chamamos curiosamente de civilização.

É triste, muitas vezes. São pessoas que em alguns casos serão recebidas por essa cidade indiferente como "o homem que virou suco". Mas elas estão vindo para vender sua força de trabalho, tentar arrumar alguém que pague um salário um pouco melhor para poderem tentar a vida. E vão engrossando as fileiras daqueles que trarão o amanhã para esse mundo, sobre os escombros desse mundo velho. Aqui, muitas vezes, sua cabeça encontrará novas ideias, novos sonhos, e nada nunca mais será o mesmo que antes.

É uma honra poder recebê-los. Espero que eu esteja à altura dessa tarefa, e possa ajudar, só um pouquinho, a essa mudança ser tranquila.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Desejo

"(...) existem muitas pessoas 
que pensam como revolucionários
 e sentem como filisteus."

- Leon Trotski, Literatura e Revolução

Anseio
vazio
no peito um aperto
um buraco negro
dragando 
pensamentos, sentimentos, horas, dias, rotinas.

Anseio
na cabeça não param
compromissos, horários, contextos,
é tudo desejo.

Em mim, também, a anatomia ficou louca:
sou só coração.

Nas circunvoluções emaranhadas de teu cérebro,
nas páginas nunca escritas de teus diários,
nos teus sonhos indecifráveis:
onde se escondem teus desejos?

Quem coloca a vida a prova,
o faz por paixão.

Como pode esse amanhã que não é teu
instigar esse desejo violento?
Em que hoje que mora esse seu embrião de futuro?
De que gestação acalentada por teus sonhos virá a poesia?

Olhando em volta, às vezes se vê
bandeiras vermelhas autômatas,
recortes remastigados e repisados em panfletos de hoje (ontem?)
um emprego sem salário para dizer que fez sua parte,
e depois de um dia de trabalho estúpido,
deitar a cabeça cansada um pouco menos culpada.
Para quê?

O mundo é muito maior do que uma fórmula gasta e requentada
na qual um sorriso desolado diz:  "foi o que deu pra fazer".
É necessário o sentimento do mundo 
para torná-lo parte de nossas veias, de nossos sonhos e pesadelos,
é necessário o ódio visceral para vomitá-lo sobre nossos inimigos,
Só se pode mudar a vida
fazendo das nossas bandeiras o estandarte do desejo.

Esse sonho gasto e sem paixão
que a eles centralizou feito bobos
em mais uma morna reunião.
Com os braços em riste, como os de um espantalho,
repetiu no microfone mais esta receita pronta.
Isso não é digno desse nome: sonho.

Os sonhos são aqueles construídos do desejo
no frigir dos dias, das dores, dos feitos.
Os sonhos são aqueles que vi na senhora que empurrava
o escudo do policial armado até os dentes.
No braço que lançou seu ódio encarnado em uma pedra
e nos olhos que ardiam enquanto se chutava as bombas.
Os sonhos estão nas vozes que gritam sem esmorecer,
que passam as noites acordadas na apreensão de não saber,
que não arregam diante do incerto,
que arriscam o pouco de hoje pelo talvez do amanhã.
E sabem que temos um mundo inteiro a ganhar.

Os desejos não estão só no calor das batalhas.
Eles estão na poesia, e por ela lutamos,
na sua rotina, entre o um e o outro,
ela se esconde, e é necessário espremê-la das pedras
só o desejo pode extraí-la dos esconderijos improváveis
e transformá-la no porquê de nossos dias.

Não há natureza, exceto o desejo.
Ele é teu pai, tua mãe, teu guia. 
Nas lutas, nos teus braços, o encontro.
Sempre, a me levar pela mão.
Veloz, vagaroso, confuso e lúcido.

quarta-feira, setembro 10, 2014

Desamparo

É verdade que às vezes a felicidade é mesquinha.
E isso é também porque esse mundo, o mais mesquinho que fizeram, ensina a felidade mesquinha, forçada, de sorriso amarelo, de egoísmo.

Quem não é feliz é um fracassado, um perdedor, o que não competiu, não pisou o suficiente nos outros e não venceu na vida. O que não é feliz não tem uma família como aquela, da margarina, não tem um bom carro e um bom emprego. Ele não vai ao Pão de Açúcar, que, como sabemos, é lugar de gente feliz. A felicidade é um produto que te vendem caro a cada esquina.

E num mundo assim, mesmo quem não é feliz desse jeito, tem pouco tempo para olhar para o lado. Tem pouco sentimento para ser empático. Tem pouca paciência e carinho para as lágrimas dos outros.

A verdade é que gente que não sofreu sabe entender muito pouco sobre o sofrimento. Ele é um mistério indecifrável, porque não pode ser traduzido plenamente em palavras. As palavras explicam, mas não fazem sentir algo que nunca passou pela sua vida. É como tentar explicar uma cor a um cego de nascença.

Volta e meia bato a cabeça nessa questão. As pessoas mais lindas e sensíveis que conheci, que sabiam verdadeiramente ouvir o outro, eram as que sofreram, e muito. Outras pessoas que conheci, mesmo lutando pelo melhor do mundo, tratam o sofrimento alheio como uma dor de cabeça ou uma farpa no dedão. Não o fazem por mal.

A felicidade é burra, com frequência.

É preciso coragem para encarar as dores de frente. Cada vez mais, em um mundo que quer nos vender o alívio instântaneo para tudo. Tome isso e passou. As dores nos fazem como somos. Há uma frase de Tolstói que dizia: "Todas as famílias felizes se parecem. As infelizes o são cada uma a sua maneira.". Essa frase é de Anna Karenina, um dos livros mais belos sobre uma mulher que sofre fundamentalmente porque vive em um mundo nojento, patriarcal, horrível.

Mas saber as causas sociais de nossos sofrimentos não os aliviam, sequer os explicam de fato. Por isso, são mais belas as pessoas que sabem sofrer. Seu entendimento da dor está além de esquemas sociológicos abstratos. Não se trata aqui de nenhuma exaltação do sofrer, como faziam os românticos do "mal do século". Nada disso. Luto por um mundo onde todos possam ser felizes ao máximo. Mas sofrer e escavar nosso sofrimento, procurar em suas raízes o que há de mais íntimo nele. Ouvir, entender, ser capaz de abraçar o sofrimento de outro. Isso nos torna mais humanos.

Saber que não é com soluções mágicas que resolveremos os problemas nossos nem de ninguém. Que às vezes é necessário apenas sentar e chorar, junto ou sozinho. Que às vezes, e não são poucas, as dores serão imensas demais para nossas pequenas mãos. Que essas dores e tristezas podem vir, arrebatadoras, e levar de nós as pessoas mais queridas e que mais amamos. Elas se vão, para sempre. E nós, ficamos aqui, com um pedaço imenso de dor que é nossa herança. Aprendemos. Essa dor nos faz o que somos. E, sim, ela nos faz mais humanos. E, mesmo que eu não possa aplacar sua dor, saiba que você pode chorar ao meu lado.

terça-feira, setembro 09, 2014

De pé





Na linha do piquete são os primeiros,
na madrugada fria enfrentaram cacetetes
levantaram suas bandeiras
e cantaram, com fúria, inalando o gás espesso
olhos vermelhos, ardendo, a lacrimejar.

Longas reuniões, jornais, livros,
a teoria, o estudo, a estratégia
que se tornam a carne viva da batalha
do áspero choque entre as classes
o embate parteiro do futuro.

Cansaço, dores, doenças.
Gastando o sossego do inimigo
desesperado, toma teu salário, 
toma tuas bandeiras, 
toma teu companheiro e mete entre as grades.
Em rios de tinta ele esbraveja
te difama, te ameaça, te acusa dos crimes que foi ele quem cometeu.

Em vão. Seus piquetes desfeitos logo se reerguem.
Dos trapos fez novas bandeiras,
e seus jornais continuam passando de mão em mão,
gritando contra as mentiras de ontem.

Dizem que sua luta é contra o povo.
Mas sua mão generosa estendida está visível,
lutando por tudo o que eles negaram ao povo.

Ergueram contra sua luta paredes de leis,
a sapiência dos livros, a sagrada constituição,
mas sua luta é mais forte do que as leis,
e sua persistência muda as cláusulas pétreas.

Não arrega. 
O desespero e o suor transparecem nas janelas das torres,
a um passo firme de distância está a vitória.
Os ferimentos, por certo, existirão.
São duros, profundos. 
O inimigo lacerou tua carne.

Não importa, porque o mais valioso ele não pôde levar.
O seu tesouro é a história que fica, as marcas,
a certeza de que, enfim, pode se levantar,
e ao estender as mãos encontrará seus pares,
ombro a ombro, prontos a se erguer,
a perder de vista, a romper fronteiras.

Ali ao lado, os inimigos também tremem.
Tomam-lhe as fábricas, tomam-lhe as noites, tomam-lhe os lucros.
Nossos irmãos estão feridos, como nós.
Mas lutam. Tal qual os guerreiros negros que nos ensinaram,
junto com a história de nossa classe,
que a história não é dos que arregam.
Mas dos que sabem que todo futuro só é impossível
enquanto acreditarmos que ele seja.

Não esquece de sonhar.

A vida não é só dos que virão

Perco o passo
     Perco o prumo
          Perco o tino
              Perco o barco
                   Perco a hora

Só não perco da minha vista
essa vista que me perde
devaneio
nos teus sonhos
viram meus
nos meus sonhos

Adivinho sua vida
nas linhas que leio
sonho, sonho uma pessoa que não existe
- porque não existe outra forma de sonhar -
e me apaixono por esse sonhar,

você sonha em versos
nos seus versos me carrego
para aprender, como uma criança na vida
a sonhar também.

Não que tenha esquecido
mas meus sonhos se tornaram ásperos
os duros sonhos de quem enfrenta um mundo cão
os sonhos de quem luta por um mundo que não vai viver
e endurece. Endurece mas perde a ternura.

E não se deve perder a ternura, jamais.

Você é dura, e sonha.
E com vc eu aprendo,
devaneio.
Me leve, por favor,
que seja em um sonho, só um,
mas seu.

Não se preocupe.
Não quero aprisionar, não quero possuir, não quero domar nem dominar.
Não quero me completar, não quero uma cara-metade.
Endurecendo perdi também algumas ilusões que enfiaram goela abaixo,
ilusões imbecis para ver a vida com os olhos de um consumidor.
Eu não quero mais sonhos enlatados.
Quero o imprevisto.
E o meu sonho maior é coletivo.

Só quero pegar na sua mão, uma tarde, enquanto sentamos na grama.
Quero ouvir sua história, e ver suas covinhas desenhadas no fim de uma piada boba.
Passar a mão no seu cabelo, um carinho, um toque,
sentir as bochechas rubras e quentes de vergonha,
gaguejar umas palavras sem jeito, e ir construindo aos poucos as frases,
como essas que escrevo, que tomei de volta.
As frases que dirão esse futuro.
Quero encaixar algumas peças nesse quebra-cabeça que abri
e que me fascinou.

Quero apenas sentir que a vida não é só dos que virão.
Que hoje, também, podemos viver e sonhar.
E que podemos aprender isso a cada dia.

e tudo isso é solto, possuir é coisa de quem tem medo.
o exercício da coragem, da vida, do amor e da liberdade, mais do que nunca, é necessário.

domingo, setembro 07, 2014

indizível

Escrever os segredos
                   contá-los,
                aos poucos,
   sussurros no teclado.

sonhos que se escondem
nas covinhas de um sorriso
nas palavras que se engasgam
                      que tropeçam
                    que se roçam
                  nas reticências
               nos silêncios
            olhares de canto  
querendo dizer o indizível

Paciência
para retomar as palavras que um dia perdi
para sentí-las aos poucos
acariciando o incerto

seu sabor é novo
é perto
toco, com as pontas de suas letras
                         o que não digo
                 o que escapa
       o que me prende
e me liberta.

quinta-feira, setembro 04, 2014

A morte de mais um joão-ninguém



Ontem a greve da USP completou cem dias. Cem dias de uma luta heroica, contra a polícia, o governo e a mídia. Uma luta que começa motivada por um arrocho salarial, ou seja, um ataque às condições de trabalho na universidade, mas que em seu decorrer transcendeu em muito essa luta, mostrando que o arrocho salarial era apenas a ponta do iceberg. O ataque à universidade, por mais que ela seja hoje uma ilha de elitismo, é um ataque à população de conjunto, pois essas "reformas" irão elitizá-la cada vez mais e tirar o que ela ainda tem de público, como o atendimento no Hospital Universitário, que a reitoria pretende desvincular da universidade para, logo, passar às mãos de alguma empresa privada disfarçada de OS (organização social).

Para continuar a luta, os trabalhadores da USP e das estaduais paulistas fizeram um enorme ato, que foi até a porta da reunião de negociação com o Cruesp (Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) cantar a plenos pulmões aquilo que se tornou o lema dessa greve, tomado dos garis do Rio: Não tem arrego!

Mas esse texto não é sobre nada disso. É sobre algo que acontecia paralelamente, enquanto essa luta ocorre. É sobre um cadáver encontrado ao lado do bloco F do Crusp, virando logo uma "fofoca do dia" na universidade. Ou, mais precisamente, sobre a pessoa que se tornou, naquela madrugada fria, um cadáver que ficou ali estendido, por horas, tomando chuva, até que fosse encontrado.

A pessoa por trás desse corpo era João. Eu nunca conversei com ele, mas sempre o via por aí. As últimas vezes que em que o encontrei foi no acampamento que os trabalhadores da USP ergueram diante da imponente reitoria da universidade, como um marco de sua luta. João aparecia lá. A história dele eu não sabia. Como todo mundo que anda pela USP sabe, ali é um lugar em que circula uma grande quantidade de "loucos": Gautiê, Piauí, João...

Eles são gente que não tem lugar nessa sociedade. Não vendem seu trabalho, não geram mais-valia e, portanto, nessa sociedade não têm valor algum. São jogados à rua, jogados à sua própria sorte. São olhados de canto, com medo, pelas "pessoas de bem". Ficam na USP porque sabem que ali é, de certa forma, um lugar um pouco menos hostil, que ali existem muitos trabalhadores e estudantes que repudiam a presença da polícia, que para eles sempre representa um perigo. Que ali, muitas vezes encontrarão alguém disposto a conversar, a ceder uma bebiba, uma ponta de um baseado, alguma coisa que os lembre que eles também são gente, como os outros.

Essas pessoas não nasceram na condição de párias sociais. É esse mundo, de um jeito ou de outro, que os joga, pelas piores formas possíveis, nessa situação. Nossa sociedade fecha os olhos para isso, finge que não é com ela. É o "liberalismo aplicado à vida": cada um cuida do seu, e foda-se os problemas do vizinho. João é mais um destes, que não nasceu como um sujeito maltrapilho que andava pela USP. Eu não sei quase nada da sua vida. Mas sei que ele foi um professor da rede pública de ensino do estado de São Paulo, e que, como muitos outros, foi perseguido por lutar em defesa da educação pública. Na histórica greve de 2000, o governo de Mario Covas do PSDB, muitíssimo bem auxiliado pela burocracia sindical do PT que dirige o sindicato dos professores, conseguiu consolidar a correlação de forças que até hoje persiste nessa categoria: o governo os massacra, impõe novos ataques a cada dia, precariza impiedosamente todas as suas condições de trabalho.

Nenhuma categoria de trabalhadores é derrotada sem resistência. E os professores, hoje uma categoria que é marcada por muitas derrotas, resistiram bravamente. Essa resistência foi feita, como hoje a luta da USP, contra a polícia, o governo, a mídia. E tinham ainda um outro obstáculo, que era seu próprio sindicato. Os protagonistas dessa luta foram milhares de homens e mulheres que estavam - ao contrário dos diretores do sindicato - sofrendo a cada dia nas salas de aula a precarização de seu trabalho. Entre eles estava João. Para que o governo vencesse, ele precisou derrotar essas pessoas. E na greve de 2000 vieram muitas demissões. Caçaram a aposentadoria de Tonhão, um lutador que conheci também nas greves da USP, nas quais participa levando seu apoio. Exoneraram João.

O que aconteceu com João depois disso? Eu não sei. Não era seu amigo, nunca conversei com ele. Mas sei do que esse mundo é capaz para derrotar um peão que ousa levantar a cabeça para enfrentar seus patrões. E, o que quer que tenha passado pela vida de João depois de sua demissão por lutar, foi o que o levou a virar um peregrino da USP, andando maltrapilho por aí. Das pessoas que conversavam com ele, ouvi muitas coisas: que ele tinha momentos de lucidez, em que contava as histórias de sua luta, e outros de embriaguez - é muito provável que tenha se tornado alcóolatra. Sobre esses outros momentos, há histórias nada bonitas de João: que assediava as meninas, que ameaçava.

Dou crédito a essas histórias porque as ouvi de muitas pessoas, inclusive pessoas em que confio. Mas não atribuo apenas a essas histórias o "mérito" por ter ouvido comentários como esse sobre a morte de João: "Sinceramente? Ainda bem que morreu. Foi tarde. Só metia medo nas pessoas. Não sei como permitiam uma pessoa dessas ficar solta pela USP e colocar medo nas estudantes."

Os comentários como esse devem ser feitos às dezenas nas conversas da USP. Quando não são públicas, como no caso acima, devem ser ainda piores. Não defendo em nenhuma instância a atitude de João de assediar as meninas, independente da forma como o fizesse. É uma dessas monstruosidades que ocorrem mil vezes por segundo em nosso mundo, um testemunho inequívoco da podridão de nossa sociedade. Isso, no entanto, está muito longe de ser tudo o que João era ou fez. A mesma sociedade que o ensinou a assediar as mulheres foi a que lhe tomou seu trabalho, seu sustento, lhe impôs uma vida de andarilho e alcoolatra. Sobre isso, essas vozes "revoltadas" calam. A mesma sociedade que ensinou João a assediar as mulheres é a que ensina cada estudante endinheirado da USP a fazer a mesma coisa; mas eles não são barbudos maltrapilhos que não tomam banho: são garotos perfumandos, com roupas caras, malhados da academia, que o fazem em festas open bar promovidas pelas suas atléticas, onde eles se embebedam sem o olhar condenador de sua sociedade, e onde podem tratar as mulheres como objetos sexuais sob a conivência de todos, inclusive de grande parte dos que se revoltavam com a forma como João assustava as estudantes.

Quando João deu o melhor de si para o mundo, que foi colocar em jogo o seu ganha-pão para defender uma escola digna para os filhos dos trabalhadores, ele foi punido com todo o "rigor da lei". Quando ele passou a ser um "vagabundo" andando pela USP, nenhuma instituição dessa sociedade se preocupou com isso. Quando ele morreu, largado, possivelmente de frio, no mesmo lugar em que estuda a elite desse país, que vai ali se formar para garantir a continuidade desse mundo tal como ele é, e de tudo o que fizeram com João durante sua vida, nesse momento muita gente lembra que João existiu. Não do que ele fez para transformar esse mundo; lembram-se da sua aparência assustadora. Comemoram sua morte. E, amanhã, já terão esquecido dele para sempre, embriangando-se com as possibilidades que a vida lhes oferece. As possibilidades que foram arrancadas brutalmente de João e de tantos bilhões de outros todos os dias.

Por todos esses, seguimos lutando. Para que ninguém mais morra, após ser derrotado em uma luta pelo mundo, largado no relento, tratado como alguém que não merece o melhor que a humanidade é capaz de criar. A greve da USP e tantas outras lutas que travamos, sem desistir, é por isso. E, se amanhã, algum lutador entre nós tiver o mesmo destino que João, que continuemos lutando, incansavelmente, para que isso nunca mais aconteça, e que às mortes de todos esses seja feita justiça.

terça-feira, setembro 02, 2014

Um canto na batalha

Essas linhas, foi você quem me deu,
e brotaram na noite mais improvável
bem no meio da batalha.

E na batalha, exaustos, continuamos.
Ela não tem tempo de parar para ouvir um lamento,
porque é o canto de todos, em uma voz.
Porque luta por um mundo.

Lutamos, sem saber se venceremos.

Mas hoje, por essa noite, eu sei que vencemos.
Eu, com meu canto, que pode ser feio,
mas que é um presente que você me deu, que é meu,
no meio da batalha.
Um canto de uma voz rouca, tímida, assustada.
Mas que ousa existir.

E não é assim que se fez também essa batalha?
Tantas vozes, que se julgavam mudas,
tomaram coragem, corpo, cresceram e gritaram.
Elas se impõem, destemidas.
O futuro é, finalmente, desconhecido novamente.
Não é mais uma interminável sucessão de ontens.

O resultado, por fim, já veio.
Era mentira o que eu disse:
foi essa batalha que soltou todas as vozes,
que fez dos escravos, sujeitos.
Ela tem lugar, em seu corpo, para todos os desafios.

A batalha libertou cada voz para poder gritar seu canto,
de luta ou de lamento.
E em meio a eles, encontrei nessa noite,
esse canto que você me deu.

De quem já não quer voltar atrás,
e nunca seguirá pelo caminho do meio.
Estendo-lhe a mão.

As vozes gritaram, rasgaram a rotina, os tímpanos dos que nos ensurdeceram por tanto tempo.
As nossas vozes.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Porque devemos apoiar a luta dos palestinos

Publicado originalmente no site da Liga Estratégia Revolucionária



Crianças israelenses escrevem mensagens como "com amor, de Israel" nos mísseis que serão lançados sobre Gaza.

1.902 mortos, 10.000 feridos. A maior parte civis e, destes, uma grande parcela de crianças. Esses são os números gerados pelos ataques de Israel aos palestinos na Faixa de Gaza. Quando você estiver lendo esse texto, esses números provavelmente já estarão desatualizados, pois o número cresce a cada hora.

Muito se lê e se ouve dizendo que Israel estaria exercendo seu “direito à legítima defesa”. Estaria contra-atacando para se proteger dos ataques do grupo Hamas, que alegam ser um grupo terrorista. Vejamos, em primeiro lugar, os “ataques” que Israel alega ter sofrido recentemente: seus bombardeios sobre Gaza se iniciaram após o sequestro e assassinato de três jovens israelenses; o governo de Israel afirmou ser responsabilidade do Hamas, mas não apresentou nenhuma prova disso, e o Hamas diz não ter participação nesse episódio. Isso, de acordo com o governo liderado pelo direitista Benjamin Netanyahu, do partido Likud, justificaria a destruição massiva que Israel tem levado adiante, destruindo escolas, hospitais, casas, matando dezenas de crianças e atingindo centenas de alvos não militares. Isso é a mais evidente demonstração do cinismo das declarações de que Israel está “se defendendo”.

Uma Palestina onde árabes, judeus e cristãos viviam em paz

Contudo, a questão é muito mais profunda. Para entendê-la, é necessário conhecer a história da Palestina e da criação do Estado de Israel. Nos limites desse artigo é impossível desenvolver todos os aspectos, mas queremos apontar o essencial. Já no século XIX, quando a região da Palestina fazia parte do Império Otomano, ali convivia pacificamente uma população de variada origem étnica e religiosa. A maioria eram árabes e muçulmanos, mas ao lado desses os cristãos e judeus coexistiam harmoniosamente.

Em muitas regiões do mundo os governos passaram a implementar políticas anti-semitas, ou seja, de perseguição aos judeus sob as mais variadas formas: desde leis que os segregavam, bairros e escolas separadas até o massacre físico. Um dos lugares em que essa política foi levada adiante de forma mais intensa foi na Rússia, onde foi aplicada pelo governo da monarquia (os tzares). Era uma política de Estado fazer os chamados “pogroms”, que eram massacres contra os judeus. Ali, como em toda a parte, os judeus era proibidos de cultivar a terra. Havia, no entanto, um povo que não os perseguia e não implementava essa proibição: o povo árabe. E, por isso mesmo, muitos e muitos judeus passaram a imigrar para a Palestina, onde podiam viver sem serem segregados.

O sionismo criado sob as asas do imperialismo

No fim do século XIX, Theodor Herzl fundou o movimento sionista, que defendia a criação de um Estado judaico, que a seu ver era a forma de acabar com a perseguição aos judeus. Esse movimento, inicialmente bastante minoritário entre os judeus e inexpressivo politicamente, ganhou o apoio do imperialismo britânico, que, após o fim da Primeira Guerra Mundial e o desmantelamento do Império Otomano, passou a gerir a Palestina como seu “protetorado”, a partir da divisão do espólio de guerra entre os países imperialistas.

Apoiou a imigração massiva de judeus para a palestina, mas não por querer “ajudar os judeus”, que já viviam ali tranquilamente, mas sim por querer criar um pólo sob sua influência em uma região estratégica. Como fim daSegunda Guerra e o ascenso do imperialismo americano, o movimento sionista troca de “padrinho” e se filia aos EUA, que, com o mesmo interesse militar, político e econômico, apoia a criação de Israel. Em 1948, valendo-se do trágico massacre aos judeus feito por Hitler na guerra, consegue difundir a ideologia da criação de Israel.

O sionismo tinha um lema para a Palestina: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Só que a Palestina não era uma terra sem povo: como dissemos, ali já era um local habitado por muitos povos, e, majoritariamente, os árabes. Quando a ONU aprova a resolução da criação do Estado de Israel estão dando o sinal verde para a criminosa política que já há algumas décadas era incentivada por EUA e Inglaterra: a expulsão dos árabes palestinos de suas casas. Para consagrar a criação de Israel, uma mílicia organizada pelo sionista Bem Gurion leva adiante a expulsão e o massacre de dezenas de aldeias, entre os quais o mais célebre é o de Dir Yassin, no qual 250 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram assassinadas.

Israel: um estado religioso e racista fundado no militarismo e expansionismo

Esse foi o método pelo qual Israel continuou se expandindo desde então: em dezenas de massacres, em guerras como a dos seis dias em 1967, foram tomando cada vez mais territórios às custas de milhares de mortes e milhões de exilados. Hoje, os palestinos exilados, que não têm direito de voltar às suas casas e estão espalhados pelo mundo, inclusive pelo Brasil, são cerca de 8 milhões. Isso só pode ser feito criando Israel como um Estado religioso, no qual os palestinos são discriminados por cerca de 30 leis, tal como ocorria com os judeus na Rússia tzarista.

Mais do que isso, para essa política expansionista se criou a ideia de “cidadão-soldado”, num país em que cerca de 20% do PIB vai para financiar o exército e todos os homens servem quatro anos nas forças armadas, e as mulheres três. Isso, somado à intensa propaganda sionista, deixou marcas profundas na ideologia do povo israelense: não é a toa que hoje vemos fenômenos como o “cinema de Sderot”, em que israelenses assistiam em cadeiras de praia e aplaudindo os bombardeios sobre Gaza, ou as crianças que escreviam “mensagens de amor” nas bombas e mísseis que eram jogados sobre o território. Cria-se uma ideologia fascista, na qual os árabes são vistos como “sub-humanos” para se justificar seu massacre. Os israelenses que resiste a esse processo de fascistização, como os jovens que se recusam a servir no exército ou alguns intelectuais, são completamente marginalizados em seu país como “traidores”.

Como resolver a questão?

Tudo isso é fundamental para entendermos que não é possível ver a questão como de “dois lados agressores” que estão, ambos, errados. Nem que Israel tem direito à defesa, ou que é necessário criar dois Estados, um palestino e um judaico. A base que sustenta Israel desde sua criação é uma ideologia imperialista, um expansionismo fundado numa ideologia racista de que os judeus são “o povo eleito” e por isso têm mais direitos do que os palestinos a existir, um Estado religioso e militarizado até a medula. Os próprios judeus ortodoxos dizem não concordar a existência de Israel, e têm protagonizado atos, ao lado de outras dezenas de manifestações ao redor do mundo que reuniram centenas de milhares, contra esse massacre.

A única forma de garantir uma existência pacífica para judeus e árabes na Palestina é a criação de um Estado único, uma Palestina que não seja racista. Para isso, no entanto, é fundamental se libertar da dominação do imperialismo, que tem ali um ponto de apoio fundamental para sua política de dominação no oriente médio. Por isso, somente a classe trabalhadora pode dar uma resposta a essa situação, os trabalhadores judeus e árabes podem criar um país que rume ao socialismo, se unificando com os trabalhadores de todos os países árabes na região para a criação de uma União de Estados Árabes Socialistas. Isso está em oposição à existência de Israel, mas também à solução igualmente reacionária proposta por Hamas, de um Estado árabe teocrático que voltaria seu racismo e discriminação contra os judeus. A criação de um Estado operário e socialista só pode se dar pela via da união dos trabalhadores árabes e judeus, fazendo, conjuntamente, uma revolução contra suas burguesias, que são as verdadeiras interessadas em que o massacre se perpetue.

E o Brasil com isso?

É criminoso que qualquer pessoa no mundo fique calada diante desse massacre, que não é de hoje, mas que ocorre há mais de sessenta anos. A diplomacia brasileira, diante disso, veio a público dizer que os ataques de Israel eram “desproporcionais”. O primeiro problema com essa afirmação é que não há nenhum tipo de ataque “proporcional” contra o povo palestino: toda agressão feita por Israel é um crime contra a humanidade.

Em segundo lugar, a postura “independente” do Brasil foi desmentida logo que a diplomacia israelense fez suas declarações asquerosas de que “o Brasil é um anão diplomático” e de que “desproporcional é sete a um”. Ogoverno brasileiro apressou-se em declarar que “reconhece o direito de defesa de Israel”, mostrando que é, sim, conivente com o massacre dos palestinos.



Mas é muito pior: o governo brasileiro é o quinto maior importador de armas de Israel no mundo. Essas armas são usadas para reprimir nas favelas. A polícia e exército brasileiro também recebem treinamento do exército de Israel. Esse é o nível de cumplicidade entre o governo brasileiro e o governo israelense. É necessário irmos às ruas, como ocorreram nos três atos já realizados em São Paulo, massificando cada vez mais nossas mobilizações para exigir que se encerre qualquer relação diplomática com Israel, e que acabe todo tipo de acordo militar entre os dois países.

sábado, julho 26, 2014

Palestina - uma luta pelo direito à vida


Você sabe o que é Nakba? É uma palavra árabe, significa "catástrofe". Essa é a palavra que os palestinos usam para designar a criação do Estado de Israel, em 1948. Esse evento levou à expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas casas, logo após um "exemplar" massacre em uma pequena aldeia palestina, Dir Yassin, em que mais de 250 pessoas, incluindo crianças, mulheres, idosos, são impiedosamente assassinados.

Os palestinos, após a resolução da ONU que aprova a criação de Israel, tentam resistir, tomam as ruas, decretam greve geral. O imperialismo inglês, que nesse momento controla o território, ajuda as forças sionistas a esmagar os protestos. Ben Gurion, líder do movimento sionista, arma os sionistas até os dentes para que estes imponham, à força, a expansão do território determinado pela ONU.

O lema do sionismo, "uma terra sem povo para um povo sem terra" foi a mentira através do qual se perpetuou um massacre por mais de seis décadas, fundado em um Estado militarizado até os dentes, no qual o serviço militar obrigatório de 3 anos para os homens e 2 para as mulheres é um pilar social. A chamada "defesa" do Estado de Israel é constituída sobre essa farsa, que hoje mantém milhares de palestinos reféns em Gaza e na Cisjordânia, e quase um milhão de refugiados espalhados pelo mundo, sem direito a retornar ao seu lado. Quando Israel foi aceita pela ONU, em 19, ela se comprometeu a garantir o retorno dos refugiados. Obviamente, uma farsa, que foi aceita e encoberta por essa organização "humanitária" do imperialismo. A ONU permaneceu e permanece decretando suas resoluções vazias, enquanto o massacre contra os palestinos continua. Para quem quiser saber melhor essa história, recomendo assistir esse filme.

No ato em São Paulo, menina leva cartaz: "Chega de matar as crianças de Gaza como eu".


É culpa dos dois lados? Um conflito entre dois povos em guerra? Não se trata de nada disso. Estudar a história da palestina deixa muito claro que se trata do exílio forçado de um povo e de seu massacre, feito com a conivência e o apoio da Inglaterra e, após 1945, dos EUA, mas com a cumplicidade dos demais países e governos capitalistas.

Hoje esse massacre chega a extremos. Não militares, pois é impraticável contabilizar todos os crimes cometidos por Israel contra os palestinos durante essas seis décadas. Mas chega a novos patamares ideológicos, com já muitas gerações tendo crescido sob a tutela da ideologia sionista e a educação militar e fascista que esse Estado dá aos seus cidadãos.

Eu vi essa educação expressa em uma amiga - talvez ex-amiga seja o termo mais correto - israelense, que se chocou ao ver minhas postagens no Facebook em defesa do povo palestino e contra Israel. É o Hammas que mata o povo palestino, me disse ela. O Hammas? Como? É o Hammas que joga mísseis sobre as casas de civis, que mantém os palestinos como reféns sem cidadania espremidos em uma pequena faixa de terra e isolados por um muro cheio de militares armados até os dentes? É o Hammas que expulsou centenas de milhares? É o Hammas que diz, como a extrema-direita israelense faz, que não existem civis palestinos, apenas terroristas e terroristas em potencial?

São "terroristas"? São "violentos"? Israel tem que "se defender"? Há um poema de Brecht chamado "Sobre a violência". Ele é assim:

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguem chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
E tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operarios na rua?



Você já viveu como um prisioneiro? Já teve seus familiares assassinados? Já foi um cidadão sem direitos? Já teve que apresentar seus documentos todos os dias para passar por uma vigilância militar e chegar ao seu trabalho? Teve seus antepassados expulsos de suas casas? Foi tratado como lixo, sido chamado de terrorista por tudo isso que lhe ocorreu? Não, né?

E se vivesse assim, você, toda sua família, todos os seus amigos, há décadas? O que você faria? Você sabe? Eu não sei, mas acho que, ainda que ineficaz, qualquer forma de tentar resistir a isso seria, no mínimo, legítima. Seja sequestrar um avião, tentar construir foguetes em sua casa, cavar túneis, jogar pedras contra tanques ou qualquer ato desesperado. Se isso é ser terrorista, qualquer ser humano está sujeito a ser um terrorista. Ou, como alternativa, a morrer de joelhos...

Por outro lado, como justificar que, quando se bombardeia um povo por uma suposta "legítima defesa", se sente em cadeiras de praia para assistir e aplaudir enquanto crianças são brutalmente assassinadas, escolas e hospitais são destruídos para pegar os "terroristas"? Que tipo de defesa é essa, em que professores universitários dizem que a única forma de conter os terroristas é estuprar suas mães e irmãs? Que tipo de defesa é essa em que cada cidadão é treinado para ser um assassino? Uma defesa que bombardeia crianças que jogam bola na praia, que ataca emissoras de televisão, que impede manifestações contra os ataques em seu território? Como alguém pode acreditar que isso é defesa? Como alguém pode achar que qualquer coisa que se faça contra isso não é em legítima defesa? Como alguém pode defender a existência de um Estado que, desde antes de ser criado, é responsável pela morte, sofrimento, exílio, racismo?

Ato em Londres. Na Grã Bretanha os atos contra os ataques de Israel chegaram a reunir cem mil em um dia.
Não é possível sustentar essa mentira, e por isso o apoio democrático aos palestinos, que lutam por nada mais do que seu direito a existir, a morar em sua terra, a não serem bombardeados, cresce exponencialmente no mundo inteiro. São centenas de milhares em dezenas de atos no mundo inteiro. Intelectuais e artistas como Sinead O'Connor, Massive Attack, Robert De Niro, Stephen Hawkings se somam à campanha. Enquanto isso, o massacre continua. A Nakba continua massacrando todo um povo, sem direito a viver. Não se pode dormir em paz enquanto isso continua.

E você, vai fazer o que?


terça-feira, julho 22, 2014

Chega dos parasitas dessa “democracia dos ricos”


Vem se aproximando mais uma vez aquele momento no qual, a cada dois anos, nos dizem que decidimos o futuro do nosso país. À velha e gasta propaganda do “direito e dever de cidadão” que supostamente exercemos ao ir às urnas, se soma um nem-tão-novo discurso que diz que “o verdadeiro protesto é nas urnas”. Essas “lições” vêm do mesmo lugar, e essa última, em particular, se dirige à juventude que foi às ruas às centenas de milhares no ano passado e conseguiu barrar os aumentos das passagens; dirige-se também às dezenas de milhares de trabalhadores que fizeram greves, muitas vezes atropelando seus próprios sindicatos, e conseguiram em muitos casos conquistar aumentos significativos – em especial os garis do Rio.

A ideia que esse discurso quer enfiar em cada cabeça é que pode ser até justo e eficiente protestar na rua, mas que a verdadeira mudança, a que tem consistência e profundidade, está no “voto consciente”. E essa preocupação de reafirmar tantas vezes essa ideia surge porque todos vimos que, junto com a exigência de melhores serviços públicos, direitos e salários, acompanhava constantemente o tom geral de reprovação desses governos que estão aí. Os índices de aprovação dos governantes de plantão, fossem do PT, PSDB, PMDB ou outros, despencaram a níveis historicamente baixos. E por isso se gasta hoje tanta propaganda para tentar convencer cada um que o melhor é “votar certo”.

Mas quando paramos para ver e pensar no “voto certo”, a certeza de junho e das greves desse ano volta a se manifestar: com um ou com outro, amargamos as mesmas dificuldades. E, não só isso, mas continuam os mesmos acordos, a mesma corrupção, os mesmos privilégios para quem está “por cima” enquanto nós, os que “votamos consciente”, amargamos com uma vida cheia de dificuldades, sempre as mesmas e cada vez maiores. E vemos todos os políticos, seja qual for o partido, “dançando conforme a música”, cedendo aqui e ali para as mesmas velhas oligarquias, justificando cada passo igual ao de seus antecessores em nome da tal “governabilidade”. E o que é a “governabilidade” senão continuar cedendo aos interesses das mesmas empresas, dos mesmos bancos, dos mesmos setores conservadores, para fazer um governo que, em suma, não faz nada de novo, nem nada para quem precisa?

Não podemos mais continuar acreditando que tudo o que nos cabe é votar “no menos pior” e empurrar os problemas com a barriga, vendo cada dia estourar um escândalo de corrupção novo e nos acomodarmos em pensar que “política é isso mesmo”. Não! Em junho mostramos que a política que queremos é aquela que fazemos quando dizemos aos de cima “basta”! Basta de sapatear em nossos direitos em nome de seus privilégios. A política que necessitamos e que somos capazes de fazer é aquela que fizeram os garis do Rio quando disseram “basta”! Basta de direções pelegas nos sindicatos ligadas aos empresários nos dizerem que não podemos fazer greve. Basta de prefeitos como Eduardo Paes, do Rio, que vive uma vida de luxo, mas foi à televisão dizer que os garis em greve são “marginais” e não podem lutar por um salário digno. E mostramos que somos, sim, nós, trabalhadores e juventude, capazes de fazer a nossa política por cima da vontade deles.

Nessa eleição precisamos saber que essa vontade e capacidade de lutar por democracia precisa ser expressa também para determinarmos como funcionam os governos. Para que os que elegemos, e que hoje cinicamente se denominam “representantes do povo”, o sejam de fato, eles devem viver a vida do povo, e não como parasitas privilegiados às custas de nosso trabalho. Por isso, todo político eleito, todo assessor parlamentar e qualquer cargo de confiança, todo juiz, desembargador, magistrado deve deixar de ganha salários de dezenas de milhares de reais e passar a ganhar o mesmo que um professor da rede pública de ensino. Assim vão deixar de fazer demagogia com “a importância da educação”, pois verão na pele como vive um educador nesse país. Que passem a usar o transporte, educação e saúde públicas, como os trabalhadores, para sentirem na pele o drama que vive quem depende dos serviços públicos. Que os juízes que julgam as greves de garis, motoristas de ônibus e outras categorias abusivas sejam eleitos por voto popular.

Para que nossa representação seja muito mais democrática, efetiva e barata, temos que acabar com cargos do poder executivo, como presidente e governador. Esses cargos não servem para nada se não para negociar em melhores condições com determinados empresários e banqueiros, para fazer conchavos ao gosto desse e daquele partido. Que os poderes executivo e legislativo se unifiquem, e componham uma câmara única, acabando com o Senado. Na câmara dos deputados os representantes são eleitos de acordo com o número de votantes, mas cada estado tem um número mínimo e um máximo de deputados pré-estabelecidos, independente do número total de votantes, provocando uma distorção da votação em que nem todos tem o mesmo peso, pois se dilui o peso de cada voto nos locais mais populosos e, portanto, com maior concentração de trabalhadores, como São Paulo, em relação a estados menos populosos, como Acre. No Senado, essa distorção é ainda maior, pois são eleitos três senadores por estado, independente de seu tamanho ou sua população. Essa distorção é o que mais favorece que continuem no poder por décadas oligarquias regionais como os Sarneys do Maranhão e Amapá, os Collors em Alagoas, os Magalhães na Bahia, entre outros. Que o dinheiro que banca esses parasitas no Senado seja usado para os serviços públicos!

Além disso, não é justo que tenhamos que esperar quatro anos para tirar do poder alguém que vem agindo de forma contrária aos interesses da população. É necessário que os cargos eletivos sejam revogáveis, para que aqueles que vencem a eleição saibam que não podem fazer “o que quiser”.

Essas medidas, as mais básicas para que tenhamos um governo democrático, nunca serão votadas pelos próprios privilegiados que hoje fazem as leis e se beneficiam da corrupção e de suas mordomias. Para impor essas mudanças, temos que ver o exemplo das mobilizações recentes, e saber que só podem ser conquistadas pela nossa própria força. Por um governo dos próprios trabalhadores para os trabalhadores e o povo pobre!

quinta-feira, julho 03, 2014

Como conheci Fábio Hideki e porque lutar por sua liberdade



Me lembro bem da primeira vez que conversei com Fábio. Foi em 2007, no prédio das Ciências Sociais/Filosofia da USP. Ele era um cara expansivo, bem aberto, veio puxando assunto comigo e com minha camarada Flávia, que na época estudava lá também. Achei ele meio esquisitão, em vários sentidos. Era um nerd japonês da Poli, mas era de esquerda, ainda que bastante confuso nas coisas que falava. Dava pra ver que ele se sentia bastante isolado lá na Poli, e acho que era por isso que passeava ali pela Sociais.

Logo me acostumei com o Fábio por ali, conversava sempre com ele, e o que achava mais interessante nele era sua disposição absolutamente interminável por conversar, ouvir opiniões diferentes, pensar, rever suas próprias concepções. Isso permitia a Fábio que ele avançasse muito rapidamente em suas concepções políticas, porque apesar de ser bastante convicto do que falava, também nunca deixava de ouvir os outros. Conversava com todos os grupos políticos, ouvia todas as opiniões, nunca deixava de dizer o que achava, e nunca abria mão de uma opinião para agradar ninguém.

Me lembro bem de uma discussão que tivemos, em 2009, quando Fábio defendeu uma posição que considerei completamente absurda. Foi em meio à greve pela reintegração do Brandão, diretor do Sintusp demitido político ilegalmente pelo governo Alckmin devido à sua trajetória de luta. Era uma greve bastante dura, e tal como hoje, dirigida de forma muito democrática pelo Comando de Greve dos trabalhadores e pelas assembleias da categoria. Eu militava na LER-QI, organização da qual Brandão era membro e fundador, há poucos meses. 

Acompanhava muito de perto a greve, lutando para que os estudantes percebessem como era fundamental que defendessemos o Sintusp e os trabalhadores diante desse ataque. Era uma tarefa muito difícil: a USP é muito elitista, e era uma árdua tarefa explicar para um estudante porque ele deveria ser a favor de uma greve para reintegrar um peão da universidade. Fomos duramente atacados pela mídia. Os trabalhadores radicalizaram suas medidas, piquetaram o prédio da reitoria. A burocracia acadêmica e o governo não deixaram por menos, e o setor mais reacionário, aglutinado em torno da figura do então diretor da faculdade de direito, João Grandino Rodas, pressionou a reitora Suely Vilela para que ela chamasse a polícia. E, um belo dia, a reitoria amanheceu cercada pela polícia. Foi então que os estudantes se revoltaram e aderiram à greve, na qual levantaram a pauta contra a Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), uma forma de precarização do ensino transformando-o em ensino à distância. 


No Jornal do Campus em 2009, imagem de Fábio com o monitor na cabeça


Hideki era ativo na greve: podia-se vê-lo em todos os atos com sua sempre inusitada forma de protestar - andava com um monitor na cabeça, protestando contra o EaD (Ensino à Distância). Em determinado momento da greve, os trabalhadores tiveram uma excelente ideia para divulgar sua greve e arrecadar dinheiro para a luta: um grande show. E organizaram, no velódromo da USP, um show com Tom Zé, B-Negão, entre outros artistas solidários com a luta. Cobrando um ingresso de cinco reais, cuja renda seria destinada inteiramente ao fundo de greve, o Comando de Greve colocou de pé esta fantástica atividade de greve. Fábio veio me procurar para dizer que era contra (na época ele não era trabalhador da USP, apenas estudantes). "Contra?", me espantei, e questionei seu motivo. Ele disse que ao cobrar ingresso para entrar no velódromo, um espaço público dentro da universidade pública, os trabalhadores estavam incorrendo em um tipo de privatização do espaço. No meio da discussão, chegou a comparar com as festas realizadas pelo Grêmio Politécnico que também cobravam entrada no espaço. E disse que era contra a cobrança de ingresso em qualquer evento na USP, pois era um espaço público. Discuti com ele exaustivamente e, em alguns momentos, até exaltadamente. De nada valeram meus argumentos sobre como o dinheiro era para financiar justamente a luta em defesa da universidade pública, e que não tinha absolutamente nada a ver com uma festa da Poli ou qualquer tipo de privatização do espaço. Fábio não apenas não se convenceu, mas por alguns meses insistiu nessa discussão comigo e com todos os meus camaradas, justamente porque sabia que nossa organização fazia parte do Comando de Greve e era uma impulsionadora dessa política.

Imagino que hoje a opinião dele seria outra. Mas, não importa muito. Citei esse episódio porque acho ele emblemático das posturas de Fábio: ele é duro na queda, teimoso nas suas posições, convicto mesmo quando sua opinião é isolada; mas nunca se recusa a discussão. Com o tempo e seu envolvimento no movimento estudantil, foi tendo posições progressivamente à esquerda, e sempre assumiu claramente sua posição de oposição política às direções do movimento, PSOL e PSTU, e também sempre os questionou aberta e diretamente.

Lutando pela democratização da universidade


Fábio continuou sendo uma figura muito conhecida na USP, no movimento estudantil e de trabalhadores, e acredito que isso se deva a três características marcantes suas: sua excentricidade, com coisas como andar com o monitor na cabeça em 2009, com sua espada de treino de Kendô, ou com seu capacete de motoqueiro nos atos mais recentes; sua enorme comunicatividade e vontade de discutir com todos sobre tudo, e de conhecer todas as posições políticas e se posicionar sobre tudo; sua combatividade, de estar sempre presente nos mais diversos tipos de atos com uma assiduidade que praticamente não se encontra em ativistas políticos que não sejam militantes de organizações (e mesmo nesses nem sempre se encontra).

Acho que Fábio ter se tornado um trabalhador na USP foi um enorme ganho, para a categoria e para ele. Uma categoria com uma história e uma tradição de luta tem muito a ensinar a um jovem e bem disposto ativista político; e um jovem combativo como Fábio renova a disposição de luta da categoria e de sua vanguarda. Além disso, como atestam os depoimentos de companheiras do CESEB que trabalham ao lado de Fábio, como Nilma, ele é muito atencioso com os usuários do posto; não esperaria outra coisa dele.

Fábio foi preso injustamente, ilegalmente, de maneira absurda. Fiquei pasmo quando soube que estava sendo acusado de "líder dos black blocs"; acho que o primeiro impulso de qualquer um que conheça ele ao descobrir isso é de rir. Porque, por mais que ele já tenha hoje uma relativa experiência na militância política, de uma maneira curiosa Fábio sempre manteve um jeito inexplicavelmente ingênuo, inocente, amigável. Ele é o tipo de pessoa que não condenaria de forma alguma a ação dos black blocs, pois, diferente de organizações como o PSTU, sabe que é uma questão de princípio não contribuir em uma vírgula para a criminalização dos lutadores. Mas ele nunca tomaria parte nessas ações, pois tem maturidade política suficiente para saber de sua completa ineficácia e contraproducência para as causas que defende. Sendo assim, sua prisão me faz pensar em duas possibilidades: A polícia resolveu escolher um bode expiatório completamente aleatório apenas porque recebeu ordens de cima para fazer uma "prisão midiática" e ajudar Alckmin a "ficar bem na fita" com os setores mais conservadores do eleitorado paulista; ou, o serviço de inteligência da polícia é dos mais imbecis, precários e rudimentares que já existiram. A primeira possibilidade parece mais plausível.

Agora, a tarefa de qualquer ativista minimamente consequente, ou mesmo de qualquer pessoa democrática, é lutar pela liberdade de Fábio. Pouco importa se você o conhece, se você concorda com as opiniões dele, se você é amigo dele ou se acha Fábio um louco ultra-esquerdista ou um mala sem alça. Não é isso que está em jogo. Esta prisão é um salto de qualidade na criminalização dos movimentos sociais e lutadores, um teste de força do governo. Se ela passa, é um sólido passo para o avanço da repressão e da vigilância. É um passo atrás em qualquer âmbito democrático da nossa sociedade. É a permissão para que qualquer outra pessoa seja presa sob acusações forjadas e mantida em um presídio. Me preocupa muito que organizações importantes da esquerda como PSOL e PSTU não estejam percebendo a gravidade dessa questão e não estejam mexendo um dedo para lutar pela liberdade de Fábio. É hora de nos unirmos fortemente em uma grande luta para libertar Fábio Hideki. Todos somos Fábio.

terça-feira, julho 01, 2014

Sobre garis, metrô, eleições e a estratégia revolucionária que o PSTU não aprende

Cada passo do movimento real 
é mais importante do que uma dúzia de programas.

- Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha

Zé Maria do PSTU demonstra sua "estratégia revolucionária" sentando amigavelmente com a burocracia sindical.

Está completando um ano desde que nosso país passou por um abalo que mudou muita coisa. Não há quem na esquerda brasileira não afirme - à sua maneira - que junho foi um marco. E aí, isso coloca todas as organizações à prova, depois de décadas muito difíceis para qualquer um que se reivindique marxista e revolucionário - em particular para os que não apenas falam que são, mas que agem de acordo com isso. 

Nesse marco, vemos estourar uma das mais importantes greves no país: a dos metroviários de São Paulo. Importante pelo peso social de uma categoria que é responsável por 4 milhões de viagens por dia, sobretudo de trabalhadores indo e voltando de seus postos, colocando em ação a mais-valia, a reprodução do capital, o lucro de seus patrões. Parar isso não gera apenas um impacto econômico avassalador, mas faz com que todo o país, todos os explorados, prestem atenção no que está acontecendo ali. Uma categoria com uma tradição de luta que não é qualquer coisa, com um nível de sindicalização altíssimo e a possibilidade de ser um exemplo.

Isso, depois da vitória dos garis. O primeiro exemplo contundente de que há um setor da classe operária que aprendeu com junho, e não só aprendeu mas colocou em prática aquilo que viu. Contra a burocracia sindical e o governo. Nesse episódio, os dois maiores partidos da esquerda brasileira, PSTU e PSOL, ficaram de fora, olhando, como se não fosse com eles. Se em junho sua atuação foi marginal e insignificante, quando se trata de um setor da classe operária que sai em luta, torna-se ainda mais bizarro que essas organizações se coloquem no posto de deslumbrados espectadores. E, no final, batem palma para "mais uma vitória" e voltam para sua rotina: eleições sindicais, eleições estudantis, acordos de cúpula, uma grevinha pra constrar aqui e outra ali, e, pra coroar, as eleições burguesas - aí sim um lance que levam a sério (do seu jeito-adaptado-à-democracia-burguesa-de-ser).

O triste fato é: essa esquerda não aprendeu nada. Em junho não aprendeu nada; na greve dos garis não aprendeu nada; com seus próprios erros não aprende nada. Se alguém de dez anos atrás viajasse no tempo e visse como esses partidos atuam hoje, não veriam nenhuma diferença estrutural em tudo o que fazem; apenas alterações aqui e ali, mas sem nenhuma mudança significativa. Isso ficou TÃO nítido na principal iniciativa que o PSTU teve para "organizar" a classe trabalhadora desde junho: o encontro unidade de ação, em que fechou um "acordão" de cúpula com a "esquerda" da CUT - a CUT pode mais - e depois levou trabalhadores a um encontro para bater palmas para as decisões que haviam já tomado nos bastidores. Nada mais emblemático do que o espaço que abriram para os garis no tal encontro: uma saudação de dois minutos, que poderia muito bem nunca ter acontecido, já que não mudou uma vírgula de tudo o que estava sendo discutido ali. O "resultado" desse "vitorioso" encontro foi o desmoralizante ato do dia 12 de junho, em que a polícia reprimiu exemplarmente o ato na porta do sindicato dos metroviários e o PSTU fez o vergonhoso papel de impedir a entrada no sindicato de diversos setores que compunham o ato, como Black Blocs e algumas organizações de esquerda. Depois, como a "cereja do bolo", fechou pelas costas do restante do ato um acordo com a polícia para que todos saíssem calmamente do sindicato, sem faixas, bandeiras ou palavras de ordem, rumo ao metrô, e assim a polícia "permitiria" que dispersássemos o ato. Uma vergonha!

Isso simboliza bem o que foi "aprendido" pela esquerda de junho para cá. Mas, sem dúvida, não é o pior que ela mostra na sua prática. Vejamos: os garis, sem nenhuma direção organizada conseguiram: deflagrar greve em toda a categoria; eleger uma comissão de negociação em suas assembleias; enfrentar a repressão policial que chegou a vigiar os fura-greves, intimando os garis a retornarem ao trabalho; enfrentar as 300 demissões por parte do governo com disposição de fortalecer a luta; ganhar o apoio massivo da população; destituir nove membros de sua comissão eleita que havia decidido recuar diante das ofensivas do governo e da patronal; não recuar diante do retorno ao trabalho de uma grande parcela dos garis que teve medo diante da ofensiva patronal; impor à readmissão de todos os demitidos; impor um aumento salarial de 37% e mais diversos benefícios. Essa foi a maior vitória subjetiva da classe trabalhadora no Brasil em décadas! Agora, vejamos o que o PSTU aprendeu:

No metrô, onde o sindicato é co-dirigido por PSTU (maioria) e PSOL (minoria), eles queriam a todo custo segurar a greve até a véspera da copa, e com isso deixaram de lado a oportunidade de unificar com a espontânea e combativíssima greve dos rodoviários; pressionados por uma base furiosa, que assistiu aos rodoviários, garis e diversas categorias saírem à luta, o sindicato se relocalizou nos 45 do segundo tempo e, diante de uma assembleia massiva, propôs a greve no dia 5 de junho; desconsiderou a necessidade da preparação forte nas bases para essa greve e o enfrentamento que ela geraria, muito pelo contrário, alimentou sempre a ilusão de que seria fácil ganhar apenas pelo peso da categoria; boicotou a iniciativa que propunhamos de liberação de catracas, o que seria um elemento chave para ganhar o apoio da população como os garis (ainda mais do que teve, pois a população de fato apoiou a greve, a despeito das mentiras na mídia); não preparou a auto-organização pelas bases através de um comando de greve que pudesse organizar cada setor para a luta (a preparação das bases nos garis foi um elemento decisivo para a força da greve); não deu peso para organizar as medidas que poderiam melar o plano de contingência da empresa que colocou uma parte do metrô para funcionar com as chefias ocupando os postos de trabalho; vacilou para defender a continuidade da greve quando houve demissões; defendeu contra o retorno da greve no dia da estréia da copa do mundo. E, por fim, está fazendo um criminoso "corpo mole" na campanha pela reintegração dos 42 metroviários que foram demitidos, em grande parte, por culpa de sua política irresponsável. E para completar, a pitada cômica-se-não-fosse-trágica: na reunião dos delegados sindicais após a greve, a diretoria do sindicato teve a cara-de-pau de afirmar que a greve foi "vitoriosa"! Claro que foi: para a burguesia!

Há muitos aspectos que mereceriam ser desenvolvidos nesse balanço, e uma parte boa deles pode ser encontrado na declaração da LER-QI sobre a greve do metrô. Apenas citei esses elementos para ressaltar o absurdo contraste entre o que os garis fizeram - sem nenhum partido ou mesmo uma vanguarda experiente dirigindo a luta - e o papelão que o PSTU, um partido que se auto-denomina trotskista e carrega nas suas costas uma experiência de cerca de 40 anos como corrente no Brasil, fez à frente da luta dos metroviários. E aí, chamo a atenção para um documento recentemente publicado no site do PSTU, que está sendo uma verdadeira "sensação" entre a sua militância. Trata-se da carta de entrada para o partido de dois ex-dirigentes da Insurgência, corrente interna do PSOL. Ironicamente, o documento se chama "A estratégia revolucionária posta em questão". Vejamos então a "estratégia revolucionária" do PSTU.


Afirmam eles que tanto a revolução chinesa de 1949 quanto a revolução russa de 1917 foram "os caminhos dos socialistas ao poder", já que ambas "elevaram à destruição das instituições burguesas fundamentais, principalmente as Forças Armadas, em diversos processos revolucionários." Daí, já podemos ver a origem teórica de um erro concreto bastante grande do PSTU: esses ex-dirigentes da Insurgência e futuros dirigentes do PSTU resumem em seu texto a diferença entre a revolução bolchevique de 1917 e a revolução chinesa de 1949 a que a primeira foi "a insurreição urbana" e a segunda "a guerra de guerrilhas". Ambas, a seu ver "levaram os socialistas ao poder". Isso porque, para o alegre PSTU, baseado no absurdo balanço das revoluções do século XX feito pelo fundador de sua corrente, Nahuel Moreno, "todos os caminhos levam ao socialismo". Assim, pouco importa que na Rússia foi a classe operária, auto-organizada em Sovietes, que destruiu o Estado burguês e transformou seus sovietes nos órgãos dirigentes do primeiro estado operário, sendo estes dirigidos pela política do partido operário de Lenin e Trotski, baseados em uma amplíssima vanguarda da classe operária forjada não apenas pela teoria marxista mas por décadas de sua aplicação na luta contra o tzarismo. Enquanto na China, uma camarilha burocrática dirigida por Mao-Tsé Tung à frente de um exército camponês tomou o poder e, empurrada pela ação das massas, viu-se obrigada a avançar em medidas socialistas de expropriação da burguesia e dos latifundiários para que pudesse manter-se no poder como uma casta burocrática que expropriou o poder das mãos dos camponeses e trabalhadores por décadas. Para o PSTU, os dois casos "levaram os socialistas ao poder" (!!!) Conceitos marxistas e leninistas como auto-organização dos trabalhadores, hegemonia operária e partido revolucionário operário são meros "penduricalhos" na teoria do PSTU, pois, como definiu Moreno, uma revolução como a russa constitui uma "exceção histórica". Ora, se basta um exército camponês para fazer a revolução, PSTU, então para que construir um partido operário? Nos juntemos aos "anticapitalistas" da Insurgência e façamos o socialismo, não?

Bom, mas apesar de todo seu bonito discurso sobre a necessidade de destruir o Estado burguês, na prática o PSTU de fato se alia a "anticapitalistas amplos" bem piores do que a Insurgência. Sua crítica de fachada ao eleitoralismo nesse belo texto de efeito não discute que, enquanto ele era escrito, aqui no estado de São Paulo o PSTU fechava uma frente eleitoral com Gilberto Maringoni, amplamente conhecido como "o mais petista entre os militantes do PSOL". Podemos deixar então ao PSTU a pergunta: para além da retórica vermelha desse texto, onde está "a participação nas eleições burguesas e no Parlamento não mais como pontos de apoio táticos para a construção de um partido revolucionário e a mobilização das massas". Ou será que durante os recentes conflitos operários vimos os parlamentares do PSTU, Cléber e Amanda Gurgel, colocando seu mandato inteiramente a serviço de que fortalecessem a luta? Porque não estiveram em São Paulo apoiando ativamente a greve dos metroviários e rodoviários, ou no Rio apoiando a dos garis, para citarmos apenas alguns exemplos? O que temos visto é o PSTU se aliar com setores mais à direita do PSOL, quando não com partidos que fazem parte do governo burguês de Dilma, como o PCdoB, tudo em nome de conseguir sua "fatia do bolo" do Estado burguês contra o qual vociferam tão violentamente Luisa D'Ávola e Henrique Iglecio. E se hoje o PSTU afirma com tanta veemência que "pela experiência histórica da esquerda revolucionária, nós entendemos que entrar no futuro governo Syriza seria um grande equívoco, pois seria apoiar um novo governo de Frente Popular na Grécia, que, por ser dirigido por um partido reformista, contaria, muito provavelmente, com a presença de alas burguesas em sua composição." Parece muito curioso que o façam sem apresentar um balanço de seu absurdo apoio ao Syriza, inclusive polemizando contra a LER-QI e nossa organização internacional FT-QI, há pouquíssimo tempo atrás...

O que é mais alarmante, no entanto, não é a completa incoerência do discurso destes novos militantes com a prática cotidiana do PSTU. Mas sim que este texto é mais uma amostra - tão mais contundente quanto mais é um texto "celebrado" pela sua militância - do quanto o PSTU está de olhos fechados para a luta de classes. Desde junho para cá, a única citação de algum fato da realidade política brasileira no texto são... os Black Blocs! Depois das suas virulentas investidas de Zé Maria contra este setor, que beira a criminalização de suas ações; depois de seu criminoso fechamento das portas do sindicato quando a polícia atacava o ato em defesa dos metroviários no qual eles também estavam, agora a grande polêmica estratégica entre Insurgência e PSTU se resume a Black Blocs! Creio que está na hora de perguntar ao PSTU o porquê dessa fixação inexplicável pelos Black Blocs! Por que os novos militantes do PSTU não discutem nesse texto a aliança que fizeram com a Insurgência para enterrar a heroica greve dos professores no Rio de Janeiro em 2013, quando estes mostravam uma enorme disposição de luta e a direção do sindicato, nas mãos dessas organizações, sufocou a greve! Ou por que não existe um "a" sobre a atuação desse partido à frente da greve do metrô, quando demonstraram de forma acabada para todos o quanto foram incapazes de aprender uma vírgula das lições dos garis e foram a direção de uma greve que representou a primeira derrota contundente da classe operária no Brasil desde junho! Agora, o PSTU sai por aí reproduzindo a palavra de ordem dos garis, que foi tomada pelos metroviários e que o PSTU, dirigindo o sindicato dos metroviários, transformou em letra morta: "Não tem arrego". Depois de sua defesa contra a greve na assembleia de 11 de junho, essa palavra de ordem não tem como não soar ridícula na boca de um militante do PSTU. Falta aos novos militantes do PSTU, bem como aos velhos, pensar um pouco melhor em que consiste sua "estratégia revolucionária": será de debates teóricos com as posições do mandelismo, ou de sua atuação na luta de classes para construir uma alternativa revolucionária no Brasil e no mundo? Ou, trocando em miúdos: de que adianta toda essa "polêmica", se na prática o PSTU parece cada vez mais com o reformismo adaptado que ele crítica?