sábado, maio 17, 2014

Em memória de Nelson: mais um irmão de classe a vingar

Não conheci Nelson. Era operário metalúrgico e, como a maioria dos trabalhadores, deixou seus anos e sua saúde na linha de produção, na labuta de cada dia, aumentando a fortuna de um patrão qualquer. Aposentado por invalidez, praticamente surdo e cego, Nelson foi reposto sem mais considerações, como mais uma peça gasta da máquina que faz o capital girar. Outro operário entrou em seu lugar para suportar o pesado fardo da exploração.

Nelson passou seus últimos anos em casa, e enfrentou as consequências tardias da brutalidade com que o ritmo da fábrica extraiu dia-a-dia sua energia num trabalho febril. Contraiu câncer, doença que certamente também era consequência de seu trabalho. Se fosse rico, ele teria acesso ao mais avançado da nossa técnica semi-bárbara das terapias químicas e radiológicas em pouco tempo. Uma medicina tão fundada no lucro e numa visão selvagem de saúde e doença que muitas vezes tem um tratamento mais doloroso e letal do que a própria patologia, mesmo para os que podem pagar seus exorbitantes preços. Mas Nelson não era rico: era um trabalhador aposentado, um peão de fábrica sujeito ao que tivesse a saúde pública a lhe oferecer. E o que ela lhe ofereceu foi espera, uma espera que permitiu à doença se alastrar irrestritamente por seu corpo, debilitar sua saúde cada vez mais.

Longos meses depois, Nelson iniciou seu tratamento. Quando foi internado, para fazer uma cirurgia relativamente simples e sem grandes riscos, continuou seu calvário pela sistema de "saúde" pública contraindo infecções hospitalares e sofrendo todo tipo de negligências por parte do hospital, dos médicos, e mesmo aqueles que provavelmente gostariam de lhe oferecer o melhor tratamento possível não podiam, pois eram eles mesmos, como trabalhadores da saúde, peças sendo gastas pela exploração cotidiana, como fora seu paciente antes de adoecer. Muitos endureceram e se insensibilizaram diante do sofrimento dos pacientes como a única forma de sobreviver psiquicamente em meio a tanta dor e impotência.

Foram três infecções hospitalares que contraiu, agravando progressivamente seu estado de saúde de maneira avassaladora e irreversível. Sua família, impotente, assistia o sistema de saúde assassinar lentamente aquele que para eles não era uma peça gasta, mas uma pessoa que amavam. Nas estatísticas, M. era um número. Para nós, era um irmão de classe. Ele ontem não resistiu mais ao lento e doloroso processo de destruição a que lhe submeteram, e seu corpo cedeu. Sua morte entrou para a história como mais um dos incontáveis crimes do capitalismo contra os explorados e oprimidos do mundo. Para minha camarada e amiga, sua filha, este crime entrará em sua consciência e sua história como uma marca a ferro e fogo da crueldade desse mundo podre. O assassinato de seu pai será uma dor eterna, mas também a cicatriz de uma luta que levamos todos os dias. Uma luta ao lado de cada Nelson que foi assassinado, de cada explorado, oprimido, mutilado, assassinado por este mundo cão. Uma luta contra cada patrão miserável que impõe a dor às famílias, a cada trabalhador, em nome de suas festas luxuosas, suas mansões, helicópteros e iates.

Para a burguesia, a morte de Nelson é mais um número em uma estatística sem importância. Para nós é a morte de um irmão de classe, de um de nossas fileiras, e não passará impune. Por ele e por todos os outros, marchamos a cada dia. Junto a minha camarada e amiga, sigo em luta e tento dividir com ela como puder a tristeza de perder um pai de uma forma tão brutal. Seu ódio é nosso, e nosso ódio é o combustível que vai nos colocar de pé a cada dia para combater, para fugir a cada hesitação e vacilo, para enfrentar cada dificuldade que se coloque no caminho com coragem, paciência e perseverança, pois sabemos que qualquer luta e qualquer sacrifício vale a pena para não viver em mundo podre como esse de cabeça baixa, aceitando passivamente que a cada dia este tipo de sofrimento se repita infinitamente em cada lar operário, em cada família na periferia, em cada um que perde sua vida e que poderia ainda estar aqui. Para nós, marxistas, a paz não está na vida após a morte - Nelson se foi, não existe mais e não tem alma imortal. A herança e o legado de sua vida - além da marca que deixou em cada um que o conheceu - é a luta para que não deixemos sua morte em vão, e saber que sua vida foi a dura história de mais um membro da classe que irá dar o passo definitivo para emancipar a humanidade, para que nunca mais alguém passe por isso novamente. É, sem dúvida, uma forma gloriosa de permanecer na história.

sexta-feira, maio 16, 2014

A eleição da Apeoesp e "um jeitinho petista de ver a vida"

Semana passada fui atuar como fiscal na eleição da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo. A intenção era ajudar nossos camaradas dos Professores pela Base a garantir que a rotineira prática da fraude eleitoral, que a chapa 1 (PT e PCdoB) utiliza para se manter na direção há décadas, fosse, no mínimo, mais difícil para eles.

Bebel e seus amigos.

Maria Isabel Noronha, a "Bebel", apesar desse "meigo" apelido, é uma burocrata de carteirinha que está confortavelmente acomodada na direção do sindicato há muitos anos, e a mais de uma década não pisa numa sala de aula, vivendo do salário dos professores que a sustentam através do imposto sindical. Ano passado, Bebel e sua gangue colocoram a polícia para reprimir os professores e escoltar seu carro de som para fora da assembleia, depois de manobrar descaradamente quando mais de 60% dos professores presentes recusaram a proposta do sindicato de acabar com a greve sem nada nas mãos.

A PM, amiga da Bebel, ajuda o carro de som dos burocratas a sair da Paulista.
 
E eis que eu e mais algumas dezenas de camaradas fomos obrigados a dividir um dia de eleição ao lado dos "companheiros" que integram a chapa 1 da Bebel, como mesários e fiscais. Um dia que prometia ser longo...

Eu e mais um companheiro do Professores pela Base ficamos junto com três apoiadores da chapa 1. Eram bastante simpáticos e amenos conosco. Ao longo do dia, pude conversar bastante com eles. Eram dois mais jovens, e uma outra de bastante tempo na categoria. E pude aprender um pouco sobre como pensam os "petistas da base". Eram todos da CNB/Articulação, a corrente majoritária do PT, aquela mesma do Lula, Dilma e mensaleiros de alto escalão. Mas, sendo esta corrente aglutinada muito mais ao redor de interesses materiais do que ideológicos, eles faziam parte de um grupo dissidente aos burocratas de sua mesma corrente que dirigem a subsede Norte da Apeoesp, ligados à Nilcéia, uma "Bebel de segundo escalão", que há anos está lá parasitando a subsede. Ela, que atua como uma burocrata "cachorro louco", foi responsável pelas fraudes e seu "braço direito" tentou agredir uma camarada nossa e furou o pneu de um de nossos carros. O bê-á-bá dos burocratas sindicais.

Professor conta a Nilcéia sua opinião sobre ela, logo após a votação fraudada de fim de greve em 2013.

Já os petistas que me acompanharam na urna estavam em outro estado de espírito. Tendo sido passados pra trás pelo grupo da Nilcéia, eles haviam retirado seus candidatos à subsede para pressionar a burocrata local. Portanto, para eles era ótimo que fossemos bem na eleição, pois assim mostrariam para Nilcéia como o apoio deles é importante para ganhar votos e poderiam exigir uma "fatia maior do bolo". E é exatamente assim que a política funciona entre eles: acordos de interesses para conseguir um pouco mais de poder e privilégios. Nada que tenha a ver com o interesse dos trabalhadores, claro. Isso tudo, obviamente, com o devido verniz "democrático e popular" para agradar a base. Tudo em nome da boa "governabilidade". O mesário que tinha uma origem mais claramente pequeno-burguesa - vamos chamá-lo de Roberto para não expor o petista que tão amavelmente se abriu comigo - colocava as coisas assim, bem honestamente: ele tinha um cargo de diretor de recursos humanos em uma Diretoria de Ensino municipal - uma boa boquinha no governo petista do Haddad. Tinha uma vida tranquila com seu companheiro, guiava sua vida pelos ideais de uma religião não-monoteísta e muito progressista, desfrutava os pequenos prazeres da vida, como sua coleção de perfumes (um autêntico apreciador, um bon vivant). Havia sido bem votado na última eleição. Disse nos respeitar, porque, segundo ele, estávamos "todos lutando pela mesma causa", mas "com táticas diferentes". Ao longo do dia disse como estava ali militando, pois a remuneração que receberia como mesário era muito menor do que a de seu dia perdido na DER.

A realidade dele era um bocado diferente da do fiscal, vamos chama-lo de Wellington, que, também militante do PT, tinha uma origem de classe nitidamente mais proletária do que a de seus dois colegas. Ele contou-me brevemente sua história militante: começou a militar no PCdoB, fazendo campanha para João Felício, um burocrata da Apeoesp que havia galgado os degraus a um cargo no parlamento. Disse que lhe prometeram pagar pela campanha, mas que no final não recebeu um centavo. E, ainda, que os seus "chefes" conseguiram cargos de assessores, mas o pessoal que estava no dia-a-dia da campanha não conseguiu nada. Ficou abandonado por seus dirigentes... depois disso ele passou a militar no PT, mas disse que na outra campanha não atuou e o burocrata não conseguiu se eleger. Falou ainda que depois ingressou sem ajuda nenhuma em uma universidade privada, onde cursou história, e que durante esse tempo não recebeu nenhum auxílio do partido. E agora estava ali, fazendo a campanha pra chapa 1.

Achei muito interessante a história desses "companheiros", porque estou acostumado a pensar em dois tipos de petistas: os grandes burocratas e traidores de classe, como os dirigentes da CUT ou o Lula; e os pequeno-burgueses acomodados "progressistas", cuja mentalidade política é perfeitamente expressa pelo petismo, mas que não tem nenhum "interesse material" no triunfo do PT, como meu pai. Ali, pude conviver com um tipo diferente, os "aspirantes a burocratas": uma geração que não é aquela que construiu o PT como um partido de trabalhadores pela base e se desiludiu; nem mesmo os que se tornaram os serviçais diretos da burguesia. É, na verdade, uma geração que começou a militar no PT já completamente degenerado, e que foi educada na política como sendo um lugar onde tentar garantir seus interesses privados; cuja militância se iniciou e se formou em campanhas eleitorais, que não associa em nenhum momento a política à luta de classes, mas sim a acordos aqui e ali. É o autêntico corpo e alma do PT de hoje: um deles é um "pequeno burocrata" com um carguinho; o outro, um peão que entra ali querendo ver se consegue ganhar alguma coisa, uma migalha que caia da mesa dos de cima. Ambos se confortam na ideia de que "militam pela esquerda", "contra os tucanos" ou coisas assim.

O significado do termo "militância" para essa gente nada tem a ver com o que é para nós, que viemos da tradição revolucionária, dos bolcheviques. Lembro-me sempre de uma passagem de "Minha Vida", a autobiografia de Trotsky, em que ele fala sobre quando conheceu os membros do Partido Socialista americano, que classificava como "cavalheiros que dividem seu tempo livre entre a ópera e o Partido". A luta que Lenin deu para a conformação de um partido revolucionário, a que levou à divisão entre "bolcheviques" e "mencheviques" tinha a ver com isso: gente que via a luta revolucionária como o motivo central de sua vida, e gente que a achava "bonita" e tinha "um certo interessse" em leva-la a frente, quando não tivesse algo "mais importante" para fazer. É por isso que cada militante bolchevique vale dez reformistas ou centristas: é alguém que está convicto de levar sua luta adiante, custe o que custar.

Professores pela Base: os que levaram a luta anti-burocrática na eleição da Apeoesp.

Outro dia, quando escrevi um texto que falava um pouco sobre minha trajetória militante, um amigo "marxista de academia", um cara honesto, comentou que meu texto "poderia ter sido escrito pelo Dalai Lama", se trocasse o Partido pela religião. Interessante, lembrei-me de quando militava no Movimento Passe Livre e alguém levantou a ideia de cotizações (contribuições financeiras regulares dos militantes para a organização), e um anarquista disse que isso era "o dízimo", "coisa de Igreja" etc. Dessas analogias formais vive a ideia destes autonimistas, que, no fundo, têm algo em comum com os petistas: a militância é para eles "um passatempo". Eles cuidam de seus empregos, de suas carreiras acadêmicas, de seus casamentos... e, quando dá tempo, militam. E acham (ou não pensam muito nisso) que assim vão mudar o mundo.

É curioso como estas tendências não se desenvolvem e criam raízes no movimento operário, senão pela via da cooptação de dirigentes e quadros. Para os trabalhadores, a militância só pode ter o significado de um compromisso de vida: eles não tem "tempo de lazer" para gastar com uma militância de aparências. Cada segundo gasto em uma atividade partidária é um sacrifício pessoal em uma vida dura. E só a ideia de uma mudança de fato da sociedade pode ganhar estes setores. Para um pequeno-burguês, não é necessário se comprometer de corpo e alma com a ideia da revolução, pois, em última instância, sua vida não está mal hoje... é só sua consciência que "sofre" com a miséria alheia. Por isso, inclusive, é tão fácil para ele encher a boca para reivindicar o "avanço" dos governos do PT, já que não é o dele que está na reta. Em épocas de relativa "paz social", estas ideias de "avanços graduais" florescem inclusive no seio da classe trabalhadora. Mas, então, ela não precisa militar mesmo. E o campo político fica sendo o destes pequenos e grandes arrivistas, e dos políticos burgueses profissionais. Mas quando a luta de classes se acirra, a coisa muda radicalmente: este "jeitinho petista de ver a vida" se encontra cada vez mais espremido pelos dois campos opostos que se fortalecem: a linha dura da burguesia de aumentar mais e mais a miséria dos trabalhadores; ou uma política revolucionária que consiga mudar as coisas de fato.

E aí, muito pouco vai sobrar para aqueles que fazem a sua política procurando uma "boquinha" no banquete da burocracia sindical...

quinta-feira, abril 10, 2014

Um dia de lutas, pela sua memória

Hoje foi um dia longo, duro e muito bom. Estive com meus camaradas no ato dos vigilantes da USP, trabalhadores da empresa Atlântico Sul, que estavam protestando em frente à reitoria por estarem com seus salários há mais de um mês atrasados. Chegamos lá vindo de nossa campanha para o DCE, a qual deixamos de lado nas urnas para colocar em prática o programa que levantamos - único motivo pelo qual participamos das eleições - de aliança com os trabalhadores em suas lutas, de defesa da efetivação dos terceirizados sem concurso. Nos aproximamos do ato sob uma salva de palmas dos trabalhadores, que imediatamente reconheceram e se fortaleceram com o apoio dos estudantes, mesmo que fossemos poucos.

Ali, pude aprender da melhor forma que há para aprender: com os trabalhadores em luta, organizados, conscientes de que são capazes de dobrar seus patrões. Vi ali muitos trabalhadores que pela primeira vez se organizavam, ainda hesitantes às vezes, mas que tornavam-se pouco a pouco sujeitos políticos de suas vidas e seus destinos; tornavam-se membros conscientes de sua própria classe. Orgulhei-me de podermos estar ao seu lado, e ao mesmo tempo me envergonhei de fazer parte de um movimento estudantil que prefere se agarrar às urnas como se isso fosse mais importante do que a vida real que acontecia ali, mais importante do que uma luta de trabalhadores que despertavam, pela primeira vez, para a vida política; trabalhadores ao lado dos quais nós, estudantes, poderíamos aprender; a quem poderíamos apoiar e, quem sabe, efetivamente fazer alguma diferença para o desfecho de sua greve. Ajudamos como pudemos: com cartazes, palavras no microfone, comprando comida para que eles pudessem aguentar ali firmes as horas de enrolação que a negociação da reitoria e da empresa impunham a eles. Enfim, saíram dali com o compromisso de pagamento para o dia 15, a ser feito pela própria USP, já que esta confia tanto na empresa que ela própria contratou que sequer irá repassar o dinheiro a esta, com medo de que eles não paguem os trabalhadores e não resolvam o problema daquela incômoda greve, ali, bem na frente da reitoria. Este compromisso feito pela reitoria é duvidoso; mas os trabalhadores saíram também com um outro compromisso, este de nossa parte e plenamente confiável: o de que, se necessário, voltaremos no dia 15, e com mais estudantes para apoiá-los.

À tarde, entreguei correndo minha dissertação de mestrado, a qual espero que possa ser uma modesta contribuição para a classe trabalhadora no resgate de sua história, de sua luta, da apropriação das ferramentas que precisamos para mudar este mundo.

E à noite, pudemos ouvir valorosos companheiros trabalhadores que foram em uma atividade de nossa chapa para nos apoiar, para compartilharmos nossa luta. Um camarada trabalhador do bandejão, onde os trabalhadores têm seu corpo literalmente destruído pelo trabalho massacrante; um camarada da indústria metalúrgia, que nos contou como foi que tomou contato com sua história, a história de sua classe, e que apoiava os estudantes que estavam ali para lutar por uma universidade a serviço desta classe; um camarada trabalhador, negro, do ABC, que falou sobre o orgulho de apoiar uma chapa que se colocava nesta luta, ao lado de cada trabalhador explorado; um camarada bancário, que contou sobre a importância da juventude que apoiou ativamente os piquetes de bancários na greve do ano passado (veja os posts anteriores aqui no blog que falo um pouco desta luta), e como isso fez toda a diferença para ajudar a acabar com o roteiro da "greve de fachada" da burocracia sindical da CUT.

E, por último e mais fundamental, pudemos ouvir um companheiro gari, vindo diretamente da sua experiência de greve no ABC, onde participou da comissão eleita pelos próprios trabalhadores, que enfrentou a justiça burguesa que julgou a greve ilegal, enfrentou seu sindicato pelego que queria acabar com a greve, e conquistou novamente para aqueles trabalhadores a ideia de que podem se organizar, podem lutar e podem vencer. 

Foi um dia de campanha para o DCE. Mas digo com muito orgulho que foi uma campanha completamente diferente de qualquer outra chapa dessa esquerda apática, acomodada e cética que temos hoje por aí. Foi um dia de estar ao lado da classe trabalhadora em luta, de aprender com ela. De reafirmar com exemplos concretos a convicção de que é esta classe - a que tudo produz - a força social que é verdadeiramente capaz de enterrar a burguesia e esse mundo miserável que ela sustenta à custa de muita dor e exploração.

Mas não é porque foi um dia de luta que eu me esqueci que há exatos dois anos eu perdia uma das pessoas que mais amei - que mais amo - nesta vida. E, voltando para casa, pude chorar sua ausência. Chorei-a porque ela teria visto o que acontece hoje como nós temos visto: com os olhos brilhando de entusiasmo pela promessa do novo. Ombro a ombro com cada um desses guerreiros da nossa classe que toma para si, de um dia para o outro, a tarefa de serem sujeitos de sua própria história. Foi um dia digno de sua memória. Não um dia de lamentar apenas, mas de celebrar e lutar aquilo pelo que ela viveu e lutou. Se há uma coisa nessa vida que apaixonou a Camila, que lhe deu forças para lutar contra seus fantasmas, era a luta por um mundo sem exploração e opressão. Eu me lembro, como se fosse ontem, de seus olhos brilhando quando ela parava e escutava, realmente escutava, o que lhe dizia um trabalhador. Ela ouvia, em todas as partes, e aprendia com a clase trabalhadora a cada dia. Tinha a humildade e a paixão de uma autêntica revolucionária. Muito diferente dos que hoje eu vi, panfletando indiferentemente, como se nada estivesse acontecendo, enquanto há poucos metros um gari, um combatente de linha de frente de sua classe, contava como ele perdeu uma promoção porque preferiu ir à luta. Contar como abriu mão de seu aumento, de seu conforto individual, para se colocar na luta por algo que é muito maior: pelo bem coletivo, pela satisfação de saber que - derrotado ou vitorioso - ele lutou pelo que era certo. Que não enfiou o rabo entre as pernas e saiu de cabeça baixa, mesmo que isso fosse dar a ele e sua família, ao seu filho de apenas um ano, uma vida mais confortável e digna. Porque há os que se contentam com o pouco que conseguem espremer da miséria, e há os que querem lutar por um mundo em que ninguém passe por humilhação, sofrimento, exploração; e, por esta causa, estão dispostos a abrir mão de ganhos individuais.

Camila, como o gari que hoje ouvimos, era uma dessas pessoas. Há quem tenha lido montanhas de livros marxistas, mas que não tem um grama dessa coragem, dessa disposição de lutar. Esses, nunca serão revolucionários. Os revolucionários são os que colocam em prática aquilo em que acreditam, e que, tendo lido apenas um panfleto, ou ouvido de orelhada qualquer coisa sobre a luta, transformam aquilo em combustível para combater, em argumentos para motivas seus companheiros de classe ou para jogar na cara do patrão e do burocrata sindical. A mulher que amei foi uma pessoa assim: ela lutou, a cada dia, para viver; e viveu, a cada dia, para lutar contra essa sociedade miserável. Nem todas as lutas vencemos. Nós todos, eu, ela, sua família, seus amigos, seus camaradas, perdemos essa luta que era a sua vida cedo demais. Com apenas vinte e seis anos perdemos uma grande guerreira, uma verdadeira revolucionária, que via a vida com os olhos dos que sofrem e que dariam tudo, tudo o que têm, sem hesitar um segundo, para mudar esse mundo, não para si, mas para todos.

Neste dia de luta, cami, não a esqueci. Como nunca a esqueço em nenhum dia, independente de como ele seja. Me alegro, no entanto, mesmo entre as lágrimas de saudades, de saber que o dia em que completa dois anos de sua partida, foi um dia de celebrar as lutas e de colocá-las em prática. Não há homenagem melhor para você.


sexta-feira, março 28, 2014

O patriarcado é um estupro à humanidade



Sei que não foram poucos os que, como eu, ficaram enojados, revoltados e tristes demais ao ver hoje estampada nos jornais a divulgação dos resultados da pesquisa do IPEA que, entre outras atrocidades, afirmava que a maior parte da população brasileira (65%) acredita que se uma mulher está usando uma roupa que mostra o corpo, ela "merece ser atacada", ou que "se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros", ou ainda que as mulheres casadas devem satisfazer seus maridos na cama, com ou sem vontade (27%, ou 38,5% se incluirmos os que concordam "parcialmente"), ou que existe "mulher para casar" (54,9%).

São resultados escandalosos, que atestam o que qualquer um que preste atenção na realidade ao seu redor pode facilmente verificar: vivemos em uma sociedade incrivelmente machista, em que as mulheres estão constantemente submetidas a diversas ameaças e abusos: agressões físicas, estupros, humilhações, abusos verbais, salários menores, mortes por abortos clandestinos, assédios morais, sexuais, constrangimentos de todo tipo. 

As agressões costumam ocorrer em casa: pais, padrastos, irmãos, cunhados, esposos, namorados... acontecem aí porque as mulheres são consideradas "propriedade" dos homens; porque se ensina, para homens e mulheres, desde a mais tenra idade, que as mulheres tem que aprender seu lugar, serem comportadas, obedientes, responsáveis, fiéis, companheiras, carinhosas, submissas.



As mulheres são menos gente - é isso que nos ensinam. E o mais assombroso é que inclusive as mulheres aprendem e reproduzem isto. 

Diante disso, penso na reação que muitas pessoas que conheço terão - partindo da noção de que a maior parte delas faz parte dos que não concordam com tais afirmações. Muitas se sentirão desiludidas, decepcionadas, céticas: a humanidade não presta, não tem jeito, foda-se tudo; outras dirão que é necessário "cortar o pinto" de todo mundo que concorda com as afirmações (como cortarão o pinto das mulheres, que são 66% dos que responderam a pesquisa?). Outras, ainda, dirão que é necessário fortalecer o "empoderamento" das mulheres, conquistando mais "mulheres no poder" como Dilma ou Bachelet.

Realmente, à primeira vista é mais do que compreensível que dê um baita desânimo... sei que muita gente olharia pra mim e diria: "olha só, você que é comunista, que fala em revolução da classe trabalhadora, mas então: não são estes os trabalhadores, são eles que responderam a pesquisa. Aliás, a pesquisa aponta que conforme sobe o nível de escolaridade, diminuem estas posições - portanto, são os trabalhadores que mais concordam com isso. Viu só," - dirá esta pessoa, ainda por cima acreditando que sou eu que me acho "iluminado" - "sua ideia é ingênua: nenhuma revolução de trabalhadores pode combater o machismo".

Sim, é verdade: a classe operária é profundamente machista. Pudera: são eles as principais vítimas de todo tipo de ideologia burguesa. A própria pesquisa aponta o efeito disso: "Por trás das afirmações, apontam os pesquisadores, está a ideia de que a mulher somente pode encontrar a plenitude em uma relação estável com um homem – ou que deve ser recatada sem almejar uma vida de solteira com muitos parceiros. Essa ideia, segundo o estudo, tem influência marcante da religião: católicos têm chances 1,5 vez maior de concordar com a afirmação de que toda mulher sonha em casar, e os evangélicos, 1,8." E não é, desde sempre, a religião a principal forma ideológica de dominação?

A pesquisa, na verdade, aponta para a correção das ideias marxistas; foi Marx que disse que "as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias de sua classe dominante". Pois bem: o resultado desta pesquisa é o resultado do lixo ideológico que é enfiado dia e noite na cabeça de todos, e é feito assim porque assim convém que seja feito pela burguesia - inclusive e sobretudo pelas "mulheres empoderadas" como Dilma, Bachelet, Merkel...

Metade da humanidade com salários rebaixados, fazendo trabalhos domésticos não remunerados, submetida e subjulgada e, portanto, mais facilmente dominável, explorável. Isso é a felicidade da burguesia, tudo o que ela precisa. As mulheres, objetificadas, são sua "prenda" para quem faz seu serviço sujo: para a polícia que estupra nas favelas, nos "pinheirinhos"; para as tropas de ocupação nos "Haitis"; para seus exércitos imperialistas que impõem sua vontade em todos os cantos. As mulheres são o "belo ornamento" na casa de um burguês, e a mão de obra gratuita na casa do operário. E a violência - quando não basta o convencimento - é a melhor forma de tentar mantê-las caladas.



O que esta pesquisa mostra é que, sim, precisamos de uma revolução que vire este mundo de cabeça para baixo. O que ela mostra, também, é que tomar o poder das mãos da burguesia não basta - isso é só o começo da mudança. É a partir de tomar o poder que efetivamente poderemos fazer as primeiras mudanças mais drásticas na vida das mulheres, colocando o Estado operário para garantir cada direito que hoje o capitalismo lhes nega; para educar as massas com valores radicalmente distintos do que hoje lhes ensinam as Igrejas, a televisão, a escola capitalista. Se fosse possível mudar radicalmente o que todos pensam sem tomar o poder, então poderíamos ser todos professores ou pregadores. Não: precisamos desde hoje ter uma vanguarda consciente da necessidade de lutar pela emancipação da humanidade; mulheres à frente, homens ombro a ombro, combatendo todo tipo de opressão e machismo. Nenhum ser humano é verdadeiramente livre enquanto outro é oprimido. E não há como mudar a mentalidade de uma sociedade de conjunto se todos os meios de produção, reprodução, divulgação de ideias estão nas mãos de uma classe cujo interesse é perpetuar a opressão, pois isto lhe garante manter o poder e seus lucros.

O que estou falando não é um mero exercício de imaginação. Aliás, aproveitando, convido a conhecerem um extraordinário livro que fala sobre a experiência mais avançada de emancipação das mulheres em uma sociedade, que se deu justamente na criação do primeiro Estado operário do mundo - a Rússia pós revolução bolchevique. Tive a oportunidade de ajudar com a tradução deste livro, que lançaremos em breve. Haverá debates em Minas, Rio e São Paulo com sua autora, que pesquisou profundamente os arquivos soviétivos e analisou em extensão a experiência de centenas de mulheres e a forma como o estado soviétido abordava questões como o divórcio, aborto, pensão alimentícia, emprego feminino etc. Este livro dá uma vaga ideia do tipo de transformação social que pode ocorrer na vida das mulheres se a luta por sua emancipação estiver atrelada à única via que pode abrir o caminho para sua libertação plena: a revolução socialista.



Para concluir, deixo aqui um trecho de uma biografia de John Reed - autor que pesquiso em meu mestrado - que relata um depoimento que estava sendo feito a uma comissão formada pelo Senado dos EUA, em 1919, cuja finalidade era investigar a "terrível" influência dos bolcheviques no país:

"Quais são as formas e requerimentos para casamentos e divórcios sob o governo soviético na Rússia?", perguntou o Major Humes.

"Uma simples declaração perante o comissário apropriado de que querem se casar ou de que querem se divorciar."

"Eles têm quantas esposas quiserem?"

"De forma rotativa," respondeu Stevenson.

"A poligamia é reconhecida?" Insistiu Humes.

Stevenson esquivou-se. "Eu não sei a respeito de poligamia. Não estudei tão a fundo sua sociedade."

Nelson, sempre um pouco lento mas enormemente persistente, não deixou a questão sumir. "Isto é," ele disse, "um homem pode se casar e então se divorciar quando estiver cansado e então tomar outra esposa?"

"Precisamente."

"E seguir com esta operação?"

"Sim."

"Você sabe se eles ensinam amor livre?" perguntou Overman.

"Eles ensinam," assegurou Stevenson.

Este absurdo interrogatório ocorreu, e foi retirado das atas do senado americano. Deixo, em resposta a ele, um texto escrito 71 anos antes, por Karl Marx e Friederich Engels:

Mas vós, comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres, grita-nos toda a burguesia em coro.

O burguês vê na mulher um mero instrumento de produção. Ouve dizer que os instrumentos de produção devem ser explorados comunitariamente, e naturalmente não pode pensar senão que a comunidade virá igualmente a ser o destino das mulheres.

Não suspeita que se trata precisamente de suprimir a posição das mulheres como meros instrumentos de produção.

De resto, não há nada mais ridículo do que a moralíssima indignação dos nossos burgueses acerca da pretensa comunidade oficial de mulheres dos comunistas. Os comunistas não precisam de introduzir a comunidade de mulheres; ela existiu quase sempre.

Os nossos burgueses, não contentes com o facto de que as mulheres e as filhas dos seus proletários estão à sua disposição, para nem sequer falar da prostituição oficial, acham um prazer capital em seduzir as esposas uns dos outros.

O casamento burguês é na realidade a comunidade das esposas. Quando muito poder-se-ia censurar aos comunistas quererem introduzir uma comunidade de mulheres franca, oficial, onde há uma hipocritamente escondida. É de resto evidente que com a supressão das relações de produção actuais desaparece também a comunidade de mulheres que dela decorre, ou seja, a prostituição oficial e não oficial.


sábado, março 08, 2014

Greve dos garis: um exemplo que vai fazer história!

Os proletários não têm nada a perder 
a não ser as suas correntes. 
Têm um mundo inteiro a ganhar.

- Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto do Partido Comunista

Os que mais sofreram com o velho são os que lutarão
 com mais empenho e abnegação pelo novo.

- Leon Trotsky.



Olho as fotos das manifestações dos garis no Rio e penso: nunca em minha vida vi uma foto no Brasil com tantos negros juntos. A manifestação parecia uma insurgência de escravos insurretos transportada diretamente para as ruas do Rio. E eles, alcançando a herança de seus ancestrais que colocaram de pé os quilombos e assassinaram senhores de escravo, cantavam "chega de escravidão!".

Não é para menos: fazendo um trabalho dos mais duros, recebiam um salário de 800 reais. Seus relatos das condições de trabalho são assustadores: baratas encontradas no pão do "cafézinho", banheiros insalubres, todo tipo de condição degradante e absurda. Eles disseram chega.

Seu espírito ao tomar as ruas era o de uma nova época, uma que a minha geração não testemunhara ainda. Era a força de trabalhadores que acreditam na sua capacidade de lutar e de vencer. De gente que não se cala diante de um prefeito, da mídia, de um sindicato pelego, de ameaças e demissões. De gente que não tem medo de lutar, porque sabe que só tem a ganhar levando até o fim o seu combate.



Eles venceram, depois de apenas oito dias de greve, ficou claro para o governo que não havia como sustentar seu combate. As mentiras, as ameaças, as ilegalidades não foram suficientes. Cada passo da luta dos garis foi correto para levá-los à vitória.

Não se dobraram diante de seu sindicato, dirigido não por trabalhadores, mas por parasitas que sobrevivem às custas do imposto sindical e se alimentam da miséria dos trabalhadores, do sangue e suor de cada um que passa os dias limpando as ruas de sol a sol. Estes burocratas já não sabem o que é pegar uma vassoura. Do que eles entendem, é de reuniões a portas fechadas com os patrões, com cafezinhos, tapinhas nas costas, sorrisos, palavras amigáveis. Estes burocratas, acostumados a seu longo reinado, não sonhariam com o que esperava eles neste carnaval. E, por isto, cumpriram seu roteiro de todos os anos: um acordinho ridículo, mal disfarçado sob o nome de "luta" em seu site ou em algum boletim qualquer. Pronto: os trabalhadores voltariam a seu lugar - explorados, oprimidos, calados, varrendo as ruas. E eles poderiam voltar à sua mamata de cada dia, vivendo com um salário dezenas de vezes maior do que o de qualquer gari. 

Sua arrogância era tanta, que quando chamaram uma assembleia pelas suas costas, os parasitas do sindicato não sentiram necessidade de comparecer. Sem seus recursos materiais e sua "legitimidade" de direção, não sairia qualquer assembleia. Mas saiu. "Tudo bem", pensaram os parasitas. "Fechamos aqui um acordo com o governo e o patrão, e amanhã tá todo mundo de volta às vassouras." Nada disso: os garis foram à greve e não reconheceram a negociação fajuta dos burocratas. Esta foi a primeira vitória dos garis: mesmo que sua greve não conquistasse nenhuma das demandas econômicas, ao passar por cima destes vendidos eles mostraram que era sujeitos de sua própria luta. Eram ELES, os garis organizados em suas assembleias, quem diziam o que queriam.



Foram às ruas, em pleno carnaval. Sua tática de aproveitar um dos feriados que enche o Rio de turistas e volta os olhos do mundo para a cidade foi impecável: mostraram com isso que sabem o exato objetivo de uma greve - golpear os patrões onde mais lhe dói, mostrar ao máximo como sem os trabalhadores eles não são nada, não podem nada. O prefeito, desesperado, procura seus aliados mais importantes: a polícia e a imprensa. Bota a guarda para vigiar trabalhadores e ajudar a direção da empresa a assediá-los. Como nos tempos da chibata e do pelourinho, a Comlurb e Eduardo Paes querem colocar os trabalhadores negros para serví-los submetendo-os pela força física. Mas a greve não para. A imprensa mostra as ruas sujas, diz que não há greve, dá toda a voz à empresa, ao prefeito, ao sindicato; e nenhum espaço para os garis falarem de suas condições de trabalho degradantes, de seu salário de fome.


Eles não se intimidam. Desde o começo, nossa pequena organização se colocou a tarefa que qualquer revolucionário digno deste nome se colocaria: estar ombro a ombro com os garis nesta luta. Nossos camaradas no Rio tiveram o privilégio de aprender a cada dia a lição destes trabalhadores que, sem nenhuma organização prévia ou apoio, ousou enfrentar o mundo. Nós, aqui em São Paulo, mesmo não podendo estar presentes fisicamente, nos apaixonamos por esta luta desde o primeiro momento. E procuramos todas as formas a nosso alcance para ajudar. Divulgação na internet para quebrar o cerco da mídia, organizamos manifestações de solidariedade primeiro em nossos locais de trabalho e estudo. Pouca coisa, muito simples, mas o que estava a nossa mão: fotos com cartazes em apoio à greve. Na USP, no Metrô, nas escolas onde lecionamos. E, mesmo com poucas forças, deu resultado. Nossa manifestação apareceu no Estadão, no UOL e em outros meios. Fomos além e organizamos atos de rua em Campinas e São Paulo, fechando por alguns momentos a Avenida Paulista com pouco mais de cinquenta pessoas.

Trabalhadores da manutenção do metrô de SP em apoio à greve dos garis
Uma das coisas que temos em comum com estes garis, cuja luta tomamos com todas as nossas forças para nós mesmos, é a ousadia; saber que o maior erro que podemos cometer é subestimar nossas forças e dar a vitória para nosso inimigo de antemão, sem sequer lutar. Podemos, e frequentemente vamos, sair derrotados das lutas. Mas aprendemos e nos fortalecemos com cada combate, e mesmo nas quedas que sofremos. A esquerda brasileira não sabe desta lição; e por isto, sem acreditar na possibilidade dos garis lutarem, ousarem, enfrentarem o mundo, foram tranquilamente pular seu carnaval. O apoio poderia ser outro se organizações muito maiores que as nossas, como PSOL e PSTU, colocassem desde o dia 1 de março suas forças para fazer medidas de solidariedades como estas. Não importa. Não era isto que impediria que lutássemos, e muitíssimo menos que os garis saíssem às ruas, enfrentando todas as probabilidades de uma derrota.



E o governo estava disposto a impor esta derrota a todo custo: assim, demitiu por cartas e mensagens de texto no celular mil trabalhadores, dizendo que os substituiria. O governo e os patrões, quando o calo aperta, não têm medo de passar por cima das leis que eles mesmos fazem, como o direito constitucional de greve. Sabem que os juízes jogam no seu time. E sabem que a demissão de um afeta todos os trabalhadores, com medo de perderem seu emprego.

A segunda vitória fundamental da greve dos garis foi esta: não abaixar a cabeça diante de todos os ataques de seus inimigos. Saber que, se o cerco aperta, é necessário fortalecer as posições, procurar mais aliados, e seguir o combate se houver forças para tanto. Seguiram em luta. Começaram a furar o cerco e ganhar o apoio de diversos setores da população. Quando terminou o carnaval, a esquerda "de férias" voltou para a realidade e viu que esta greve era pra valer, e que era necessário apoiá-la. Ainda que o tenham feito de forma rotineira, como quem cumpre um velho calendário gasto, este apoio ajudou também.

Os garis não se dobraram. Estavam dispostos a lutar até o fim. Como os negros insurretos do Quilombo dos Palmares, que resistiu até a última gota de sangue contra a escravidão, e lutou quando já não havia esperança de vitória. Porque, uma vez que se sente o gosto de liberdade, de ser sujeito de sua própria história, já não se quer mais voltar atrás. E este sentimento, que cala fundo no peito de um trabalhador que toma consciência de que é ele quem bota este mundo pra funcionar, faz com que entendamos que frequentemente é melhor ser derrotado com a cabeça erguida do que seguir olhando para baixo. 

Esta determinação é que fez o que parecia impossível a apenas oito dias: os garis derrotaram a arrogância do prefeito, que publicamente declarava que era um "motim" que seria derrotado a qualquer momento. Conseguiram o aumento de seu salário, de R$800,00 para R$1.100,00, com aumento do ticket refeição de doze para vinte reais. E impuseram que não houvesse nenhuma demissão. Nas matérias na imprensa, se dizia: "garis saem insatisfeitos com o resultado." E é esta a terceira, e a maior vitória desta greve: saber que uma batalha que se vence contra os donos deste mundo é apenas um sinal de que sua dominação se sustenta, antes de mais nada, na mentira de que são invencíveis. Eles não são; e sem os trabalhadores, os patrões não são nada. A vitória dos garis no Rio entrará para a história da luta da classe operária no Brasil como a aurora de um novo despertar de consciência, de uma classe que começa a acordar de um longo e profundo sono, a lentamente tomar consciência de seu poder, de sua capacidade de se organizar e tomar para si a tarefa de se libertar e, junto consigo, libertar o conjunto da humanidade.

Não é nada menos do que isso o legado da greve dos garis do Rio de Janeiro, que transformou este carnaval em um momento para ser lembrado. 

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Exorcismo dos resíduos

Nesta semana comecei algo que há muito tempo adiava, e que provavelmente mudará minha vida bastante. E que, espero, possa ajudar outras pessoas a mudarem as suas. Eu comecei a estudar psicanálise, com o intuito - entre outros - de poder clinicar.

A aula inaugural, dada pela professora Teresa, com experiência de décadas de atendimento no SUS, me fez pensar muito sobre esta decisão e este mundo no qual me proponho a ajudar as pessoas a conhecerem e melhorarem seu sofrimento psíquico. Ela, que hoje trabalha no projeto "Braços Abertos" da prefeitura, falou muito sobre como é tentar ajudar as pessoas a partir das instituições públicas.

No começo da década passada, houve no Brasil uma reforma psiquiátrica. Algumas práticas medievais foram abolidas, entre elas os hospitais psiquiátricos onde os pacientes ficavam confinados como em presídios, frequentemente submetidos a torturas e maus tratos. Em seu lugar, vieram os CAPS (Centro de Atendimento Psico-Social), que são hospitais-dia. Ou seja, os pacientes não ficam internados, apenas os frequentam durante o dia. Houve inúmeras mudanças no sentido de humanizar o atendimento a pacientes psiquiátricos.

Contudo, o que a fala de Teresa revelou é que tais mudanças foram insuficientes em todos os sentidos. Estas mudanças não afetaram a lógica de um tratamento fundado em uma moral do produtivismo, na qual as pessoas são meramente as portadoras de uma mercadoria imprescindível para o capitalismo: sua força de trabalho. O olhar de nossa sociedade sobre o sofrimento psíquico está fundado neste valor - como colocar as pessoas "em ordem" para que possam novamente trabalhar, produzir, vender seu trabalho.

Claro, Teresa não colocou nestas palavras. Mas ela falou sobre o conflito entre a institucionalidade e o tratamento. Falou sobre os manuais que dizem que os pacientes devem ser acolhidos e tratados deste ou daquele jeito. Falou sobre a necessidade que se cria de distinguir a equipe de saúde (os "normais") dos pacientes (os "malucos") através de diferenças nas roupas, nos banheiros que usam, na comida que comem, nos talheres que usam. A falta de tempo para conhecer, entender, viver as diferenças psíquicas do paciente, passando com ele pelo tempo que seja necessário para que avance de acordo com seu ritmo e sua vivência. Todo este tempo é comprimido pelas regras da normatização da saúde mental, pela psiquiatria que medicaliza tudo de forma pasteurizada, para que os pacientes possam "melhorar logo" para produzir e não ser mais um "peso morto" para a sociedade.

A reforma psiquiátrica, ao mudar tudo externamente para manter a mesma lógica de funcionamento, inverteu o lado do confinamento. Ouvimos nossa professora contar sobre as pessoas que são confinadas do lado de fora do CAPS, como o paciente que, por se comportar de maneira inadequada, podia entrar apenas na hora de sua sessão. Ou outro, que por mais de seis meses vinha, tomando três ônibus, e sentava-se no meio fio, do lado de fora do prédio. E só foi atendido quando um estagiário passou meses a seu lado, do lado de fora do prédio. Ela falou sobre um morador de rua, que cobria-se com papelões, e morava em frente à secretaria de saúde. Confinado nas ruas. Quantos não estão confinados nas ruas? Confinados na solidão? Confinados na invisibilidade?

Teresa falou sobre a extrema especialização do tratamento psíquico, que levou a que, quando ela trabalhava com pacientes soro-positivos (portadores de HIV), se falasse sobre um "perfil dos portadores de HIV", da mesma forma que hoje se fala de um "perfil dos usuários de drogas". Toda a especialização torna-se, assim, uma padronização, que destitui o paciente de suas experiências singulares e trata-o como mais um na fila. Esta ideia da normatização às pressas e a todo custo ficou particularmente evidente quando Teresa falou sobre as entrevistas de triagem, feitas quando o paciente ingressa para seu tratamento no CAPS. O olhar viciado do médico, do psicólogo, passa a pensar, a cada palavra que é dita pela pessoa a sua frente, na única função: "para onde vou encaminhá-lo?". Tratamento de drogas, violência, etc. Cada problema tem um especialista para onde se encaminha o problema adequado à sua formação. Fragmenta-se um psiquismo, enquadra-se ele em um problema a ser resolvido, encaminha-se para o especialista correto. Próximo! Assim se monta o fordismo das patologias psíquicas na saúde pública brasileira.

Uma entrevista de triagem jogou na cara de Teresa o absurdo desta prática. Uma mulher entre e lhe diz que sua família foi vítima de uma chacina. Que chegou em casa, viu seus filhos mortos no chão, o sangue espalhado por todas as paredes. Teresa parou, impactada. Fez ligações, procurou o lugar que melhor poderia tratar aquele caso tão grave, de uma violência tão brutal. Encaminhou-a. Anos depois, ela conta aos novos estudantes de psicanálise esta história. Ela não conta apenas uma, nem duas vezes; a mulher da chacina é uma constante em seu discurso, uma marca permanente da angústia. Por que eu fui incapaz de ouvir a mulher sobre a chacina? Esta pergunta ecoa na cabeça de Teresa há mais de vinte anos. Ela não foi capaz de lidar com o horror desta experiência, era dor demais para ela carregar, ela teve que passar para frente. Mas a verdade é que não pôde: o preço de encaminhar aquela paciente foi levar para sempre sua memória, a memória de uma pessoa com quem conversou uma vez apenas, e a sombra daquele horror tão brutal que havia vivido.

Décadas de atendimento na saúde pública trouxeram a Teresa muitas histórias de dores e sofrimentos. De pessoas que chegavam tão "estropiadas" no hospital, no CAPS, que ela não sabia nem por onde começar. E ela nos falou sobre como os terapeutas levam os resquícios de seus pacientes, de seus sofrimentos, de cada caso que veem. E sobre como ela escreveu sua tese como uma forma de exorcizar estes resquícios, uma sublimação de tanto sofrimento que se acumulava sobre seus ombros. Eu também escrevo para exorcizar meus resíduos. Mas Teresa sabe que isto não é suficiente; e ela fala, a cada vez que fala em público, ela relembra a mulher que lhe contou sobre a família morta na chacina. Um resíduo que ela carrega para sempre.

Isso me fez pensar muito sobre as minhas escolhas. Sobre os resíduos, sobre o sofrimento humano que carregamos nos ombros. O discurso de Teresa falava sobre as instituições, sobre os confinamentos, mas ele passava ao largo da causa estrutural de todos estes males - o mal fundamental que leva a que todas estas estruturas sociais operem assim; o capitalismo. Minha escolha de vida foi por enfrentar o sofrimento humano combatendo aquilo que hoje é sua maior fonte. E por isto decidi ser um revolucionário, para ir à raiz dos sofrimentos deste mundo.

Mas aconteceu disso não me ser suficiente. E fiquei pensando sobre os resíduos que carrego comigo, os resíduos que nunca conseguimos exorcizar. Quando ela falava sobre as instituições e seu funcionamento, eu me lembrava de quando fui a uma. Não era um CAPS, era uma clínica particular, onde fui visitar uma pessoa que amava, e que subitamente descobri internada. As regras, no entanto, não eram menos rígidas por se tratar de uma instituição privada. Não se entrava de celular, não se entrava com livros antes que fossem aprovados para leitura. Os horários de visita, de ligações, de refeições eram estritos. Nenhum tipo de envolvimento amoroso entre pacientes. Nenhum objeto perigoso nos quartos. Tudo sob controle. O controle dá segurança aos pacientes, e é parte do que muitos deles buscam na instituição. As memórias desta instituição me pesam sobre os ombros, um resíduo que não consigo apagar. A musiquinha que tocava ao telefone, que tocou quando liguei lá pela primeira vez, sem saber que ligava para uma clínica psiquiátrica onde minha namorada, cujo paradeiro eu não sabia há um mês, estava internada. Os almoços que passei lá, os rostos dos pacientes, os detalhes daqueles dias em que ia visitá-la.

A vida nos impõe seus caminhos. A decisão que tomei de lutar por um mundo onde se possam superar os sofrimentos não fez com que eles se atenuassem na luta de cada dia. E eu vi o sofrimento, inadiável, iniludível, carregar a Camila para a morte, sem que pudéssemos fazer o suficiente para mantê-la aqui. Sua escolha de vida era a mesma que a minha, era uma revolucionária. Os sofrimentos lhe tocavam profundamente; ela os entendia, porque ela também sofria. Um psicanalista de um livro que li disse que uma das coisas importantes para ser um terapeuta é ter sofrido. Eu acho pertinente esta observação. Cami sempre foi sensível ao sofrimento alheio, e quando ela estava internada eu a vi feliz. Ela sentiu-se em casa, tornou-se amiga de outros pacientes, sentiu em sua vida o sentido de tocar o sofrimento dos outros. Isto, a luta para penetrar o sofrimento psíquico de cada um, somava-se dialeticamente à luta pelo projeto coletivo de acabar com o sofrimento da humanidade. Mas este projeto não se concluiu, sua vida foi breve demais para isto.

Eu levo os resíduos de seu sofrimento comigo. Teresa sempre se perguntará porque teve de encaminhar a mulher cuja família morreu numa chacina. Eu sempre carregarei comigo muitas perguntas e muitas dores da morte da Cami, em quem penso a cada dia de minha vida. A dor que carrego me aproxima do sofrimento humano, me impele, me faz querer ser parte de encarar a dificuldade de socorrer aqueles a quem a institucionalidade capitalista não dará atenção, e sempre confinará - seja nos muros de seus hospitais psiquiátricos, seja para fora de seus CAPS, ou em qualquer outro tipo de marginalidade. Quero ser uma pequena parte da luta por instituições novas, em que a dura e árdua luta de cada dia não nos torne cegos, incapazes de ter tempo e espaço para a dor do próximo. Para que possamos, no decorrer de nossa luta, nos tornarmos mais humanos, mais capazes de solidarizar-nos com a dor alheia, mais capazes de suportar em nossos ombros os resíduos que, enfim, serão também mais uma motivação para lutarmos por um mundo onde se sofra menos.

sábado, fevereiro 15, 2014

O assassinato de Santiago e as saudades do Estado Novo

Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
- Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.

Santiago Andrade: a única morte de um trabalhador que comoveu toda a burguesia do país
Não se fala em outro assunto no país. Não há nada mais importante, mais comovente, mais mobilizador para este Brasil do que um cinegrafista que morreu, vitimado por um rojão. O Jornal Nacional se "comove", a Dilma se "comove". Por que é uma morte que "comove" tanto, se neste país a vida - especificamente a de trabalhadores como Santiago Andrade - é um artigo tão barato? Se somos campeões em mortes por acidente de trabalho, em mortes pela violência policial, e não há toda esta comoção? Onde estava esta comoção quando morreu Douglas em BH, durante protesto na Copa das Confederações, ao tentar fugir das bombas da PM? Ou quando morreu uma gari em Belém por inalar os gases desta polícia? Ou quando foi "suicidado" Kaique? Quando mataram Amarildo? Quando a bala de borracha da PM cegou o repórter Sérgio Silva, e pouco depois o jovem Vitor? Quando morreu atropelado um camelô, no mesmo protesto em que Santiago foi atingido, ao ser atropelado quando fugia das bombas da PM? Quando morrem operários na construção dos estádios da copa? Quando foi baleado Fabrício no ato contra a copa em São Paulo? Quando "justiceiros" amarraram e torturaram um jovem negro a um poste no Rio? Tantas mortes, tanta injustiça, e tão pouca comoção na imprensa e nos governos! De onde ela vem, bem agora?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que este não foi o primeiro assunto que tomou unanimemente os meios de comunicação neste ano. Primeiro foram os rolezinhos, que deixaram a burguesia de cabelo em pé, chegando a pautar uma reunião ministerial extraordinária do governo de Dilma. A pauta do governo, então, era "entender" o que queriam os jovens, enquanto a parte mais reacionária da burguesia pedia sangue, através, por exemplo, de sua mais nova testa-de-ferro, a porta-voz da escandalizada "burguesia socialite", a """""jornalista""""" Rachel Sheherazade. O "entender" do governo quer dizer, na realidade, colocar em prática uma das especialidades do PT: cooptar; ganhar os organizadores dos rolezinhos com cargos e dinheiro, e receber em troca todos os votos que estes podem angariar. E mandaram lá o primeiro escalão do governismo em matéria de cooptação e formação de burocratas juvenis - no caso, o PCdoB, partido que dirige o braço do governo petista no movimento estudantil, a UJS, que implementa sua política através da UNE, financiada com alguns bons milhões de dinheiro do Estado. Só que desta vez o tiro saiu pela culatra... Cooptação ou repressão, são apenas duas formas distintas da burguesia tentar segurar o rojão. A atenção que foi dispensada aos rolezinhos era o prenuncio do pavor da burguesia diante de uma inelutável verdade: este país já não é o mesmo depois do ano passado, e está um bocado mais difícil para os de cima seguirem governando, explorando e oprimindo como antes. Era preciso fazer algo.

Globo dedica um editorial do Jornal Nacional à sua "comoção" pela morte de Santiago

A burguesia tem seus métodos. Cada fração dela tenta agir de uma forma - cooptar, reprimir etc. - para atingir seus fins. E, inclusive, eles se estapeiam pelo poder, como vemos com PT e PSDB, por exemplo. Mas, por instinto de classe, quando o deles está na reta, eles podem se juntar em torno de alguma tática em comum contra seu maior inimigo - os trabalhadores e os explorados. E a morte do cinegrafista da Bandeirantes foi um prato cheio para que uma classe que tem medo do futuro pudesse tentar erguer algumas barricadas ideológicas que protejam sua velha e carcomida dominação. A barricada ideológica consiste em tentar convencer os oprimidos e explorados de que a violência que os ameaça é a dos outros oprimidos e explorados, e não a deles, opressores e exploradores. De que a violência que os ameaça não é o desemprego, os baixos salários, a falta de condições de atendimento nos hospitais, a precariedade das escolas, os ônibus caros e lotados, o metrô-lata-de-sardinha que quebra a cada dia mais, a polícia que mata todo dia na quebrada. A violência que os ameaça é um cara com um rojão, que matou um cinegrafista e pode matar qualquer um. E, veja só, este cara com um rojão não é só um: são milhares! Eles saem às ruas, putos da vida porque enfrentam todos os dias a mesma merda que você passa - transporte lotado, trabalho duro o dia inteiro pra enriquecer o patrão, exploração até arrancar o couro, racismo, machismo, homofobia e uma vida dura - e saem com rojões assassinos que podem acertar qualquer um, inclusive... você! E não para por aí: eles não são amadores - estes assassinos com rojões são recrutados por partidos organizados que os aliciam com 150 reais para que eles saiam matando aleatoriamente. Veja bem, tome cuidado: da próxima vez que você estiver puto com o ônibus caro e lotado, lembre-se que você poderia estar sendo assassinado por um manifestante com um rojão! Melhor agradecer!

E, pra sua sorte, nossos governantes já têm todas as providências prontas para serem tomadas: mais polícia, mais armas, mais leis que qualifiquem as pessoas que saem nas ruas dizendo que o ônibus é uma merda como o que eles realmente são - terroristas! É, isso mesmo: o blogueiro Paulo Henrique Amorim bem que já vinha dizendo que os black blocs eram terroristas. A FIFA e a Dilma bem que já tinham aprovado aquela leizinha esperta para a Copa que garantia que não só estes terroristas, mas também os terroristas trabalhadores que fizessem greve recebessem a sua lição. Agora, é só aprovar mais esta nova lei e o povo trabalhador não vai mais ter o que temer: os vagabundos de rojão vão todos pra cadeia; os que reclamarem de qualquer coisa vão todos para a cadeia. E você, bem, você já pode voltar pra sua vida tranquila e segura: um salário que não chega até o fim do mês, um emprego que você não sabe até quando vai ter, um busão caro onde você vai e volta esmagado por três horas, uma polícia que pode te matar ou te descer o cacete porque você é preto e pobre. Ufa! Não tem mais nada a temer!

Então, vamos lá, repetir algumas coisas que já estão aí sendo ditas por muita gente, mas infelizmente é muita gente que não tem nem a Rede Globo, nem a Folha de São Paulo pra dizer estas coisas, então é bem possível que você ou as pessoas que você conhece ainda não tenham ouvido porque suas vozes não chegam muito longe (como a deste precário blog). Primeiro: você já viu o vídeo do cara que soltou o rojão e comparou bem de pertinho com a foto do cara que foi preso na Bahia? Ok, pode ser que ele tenha se bronzeado bastante, mudado de cabelo, colocado um óculos, sei lá... as pessoas mudam, né? Tá, então vamos para outra coisa: você sabe quem é o advogado que está defendendo eles? É um cara que defende pessoas ligadas às milícias no Rio de Janeiro. Sim, as mílicias, sabe, aqueles grupos formados por policiais que dominam territórios na cidade onde controlam o tráfico, cobram "proteção" das pessoas, regem bairros e favelas inteiras com métodos do fascismo. Bom, e como este cara que defende grupos de extrema direita formados por policiais foi defender manifestantes que estavam em um ato de esquerda? Pelo "amor ao trabalho", diz ele. Que bonito, né? Outra coisa: o primeiro cara preso, que entregou seu colega a quem deu o rojão, tem o mesmo advogado do outro. Você não acha esquisito? Um cara é preso, seu advogado diz pra ele assim: "entrega seu amigo que eles aliviam pra você". Tá, o cara vai lá e entrega. O outro é preso e fala "bom, aquele advogado que falou pro meu amigo me entregar pra polícia parece um cara gente fina. Acho que vou querer que ele me defenda também." Em seguida, vem um monte de declarações bombásticas, uma mais ridícula que a outra: que eles são envolvidos com o deputado Marcelo Freixo do PSOL. Olha, eu não tenho lá muita afinidade política com o Freixo, mas posso te dizer que ele é bem conhecido por... combater as milícias no Rio! Coincidência, né? Depois dizem que os manifestantes recebem 150 reais para "quebrar tudo". Isso já ultrapassa o limite do ridículo. Qual o sentido de pagar alguém para ir a um ato quebrar tudo? O que um partido ganha com isso? Acusam os partidos legalizados que participam das manifestações, PSOL e PSTU, de "comprar" manifestantes. A troco de quê? Quem comprou? Será, pense você, que o advogado dos milicianos - cujo principal adversário político neste momento é o Freixo - não poderia, por acaso, orientar seus "clientes" a dizer que eles foram aliciados para que a pena sobre eles fosse mais branda? Eu vou a manifestações há pelo menos dez anos, eu conheço muito bem PSOL e PSTU porque eles são meus principais adversários políticos todos os dias na universidade e fora dela há um bom tempo. Eu sei muito bem os podres que são capazes de fazer. E, acredite, não só eles não pagariam a ninguém pra ir na manifestação, como se o fizessem não faria sentido algum. Será que é tão difícil acreditar que as pessoas saem às ruas porque elas acreditam em algo? Por que querem mudar este mundo de merda?

Mas esta historinha da carochinha, bem mal contadinha mas mesmo assim reproduzida como verdade em cada jornal e canal de televisão deste país - devidamente acompanhada por um montão de lágrimas de crocodilo pela morte de um trabalhador que não ganhou sequer o mínimo de segurança para trabalhar por parte de seus patrões - me lembrou de uma outra historinha parecida, de tão mal contada, e com uma solução já prontinha também. Foi em 1937. Nosso querido presidente da república, o "pai dos pobres", Getúlio Vargas "descobriu" um plano dos comunistas para... dominar o país! Veja só, este plano da Internacional Comunista (sic!) previa incendiar prédios públicos (será que eles usariam rojões?), saques, destruição, sequestro de governantes e figuras importantes, enfim, transformar o país num caos! Era o Plano Cohen, vindo de Moscou para aterrorizar a população de bem. Mas, ainda bem, o "pai dos pobres" tinha a solução para isso: uma leve ditadurazinha, com suspensão dos direitos civis, das eleições, uma constituição nova feita a gosto do ditador. Houve quem não gostasse, claro, sempre há os que querem baderna. Mas os integralistas, por exemplo, foram imediatamente fazer uma manifestação para apoiar o Vargas. Felizmente, triunfou a ordem, e a ditadura do Estado Novo de Vargas foi até 1945, tranquilamente prendendo, torturando e assassinando comunistas, operários, enfim, todos aqueles que não concordassem que o país ia muito bem, como, aliás, vai até hoje. Em 1945 o general Goes Monteiro revelou publicamente que o plano Cohen era uma farsa, (Uau! Quem diria!!!) montada pelo governo para justificar sua ditadura.

E, ainda bem, hoje também podemos contar com a eficácia da polícia civil, que concluiu a investigação em tempo recorde. Podemos contar com a confissão destes marginais - devidamente assessorados por seu advogado defensor de milicianos e amante de seu trabalho - que acabaram nos revelando que por trás de toda esta baderna estão os terríveis comunistas (nossa, mas eles não cansam?). E ainda bem que, como nos anos 30, a solução já está pronta, na forma de uma maravilhosa lei contra o terrorismo. Tudo o que cabe a nós, cidadãos de bem, é apoiar nossos governantes neste decidido combate aos maus elementos da nação! Tudo pelo progresso e contra os vândalos!


sábado, fevereiro 08, 2014

Militantes (para você que não me respondeu)

O partido exige-nos uma entrega total e completa. 
Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; 
para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido 
significa encontrar a si mesmo.  Sim, nosso partido nos toma por inteiro. 
Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar 
da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas 
uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão.

- Leon Trotsky, discurso de fundação da IV Internacional, 1938

Os homens fazem a sua própria história, 
mas não a fazem como querem, 
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha
 e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,
 legadas e transmitidas pelo passado.

- Karl Marx, O dezoito de Brumário de Luis Bonaparte, 1852

Me convenci de que o socialismo não só era possível, mas também necessário, há dez anos. Contudo, demorei ainda mais cinco nos para chegar à conclusão de que não basta querer o socialismo e defendê-lo em minhas atitudes individuais ou minhas ideias - é necessário ter uma estratégia fundada na teoria e provada na realidade para que possamos chegar nele, e fazer de cada dia uma escrupulosa batalha para que possamos traduzir esta estratégia em táticas, em ações feitas em função de um plano maior, para que consigamos derrubar um inimigo que é imenso, e que não vai ceder sem dar todas as suas forças para resistir à queda.

Não fui eu, nem muito menos a organização na qual milito que inventamos a estratégia que adotamos nesta guerra. Na verdade, não foi nenhuma mulher ou homem isoladamente. Esta estratégia é, ela mesma, o fruto da luta de milhões de trabalhadores, explorados, lutadores, que deram suas vidas em combate contra o capital. Há, dentre estes, alguns que tiveram a oportunidade de poder sintetizar com grande sucesso os erros e acertos, a teoria e a estratégia que pode nos ajudar a avançar. Dentre estes não podemos esquecer os nomes de Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Rosa. Todos estes, em maior ou menor grau, passaram apuros e sofreram riscos e privações para poder nos legar este conhecimento, esta luta. Trotsky e Rosa foram assassinados por gente que não matou apenas a eles, mas também estrangulou os partidos que ajudaram a construir com a militância de suas vidas. Marx viu sua filha morrer de fome; Lenin viveu na clandestinidade e sofreu um atentado que quase o matou. São esforços e privações que estão muito além do que hoje sofremos.

Nem por isto tornar-se um revolucionário hoje é uma tarefa fácil.Quando pela primeira vez tomei contato com a organização na qual eu milito hoje, a Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional, nem me passava pela cabeça a ideia de dedicar minha vida à construção de um partido revolucionário, não só no Brasil, mas em escala mundial. Me parecia, como ainda parece à maioria da humanidade hoje, uma ideia absurda, maluca, completamente desprovida de inteligência ou de entendimento sobre a realidade. Era um punhado de gente - literalmente um punhado - a maioria alguns estudantes de origem pequeno-burguesa, que se propunha a nada menos do que derrubar o Estado e instaurar uma ditadura da classe trabalhadora. "Que viagem!", pensava eu.

Eu não vou me propor aqui a tentar explicar para ninguém porque esta ideia não me parece mais absurda, porque não tenho a pretensão de convencer alguém em um post de blog: a mim, foram necessários cinco anos para que me convencesse. E não foram poucos destes que hoje chamo de camaradas - alguns que infelizmente já não estão mais em nossas fileiras - que conversaram comigo pacientemente. Mas não foram apenas eles que me convenceram: foi principalmente o fato de que eventualmente tive a humildade de admitir para mim mesmo que eu não sabia nada da história da luta da classe trabalhadora, e que tudo o que eu repetia como um papagaio era fundado em duas coisas - a primeira, como já disse acima, no aparente absurdo da ideia que eles propunham. A segunda, em repetir os preconceitos e falsas verdades que haviam me enfiado goela abaixo sem que eu nem percebesse.

E eu li, li, e li. Procurei ler aqueles que estiveram nas revoluções, que participaram e escreveram sobre elas. Li os anarquistas, e descobri uma carência de fundamentos teóricos que levaram a práticas trágicas. Li John Reed e descobri que antes disso nada sabia sobre os dez dias que abalaram o mundo, ou sobre quem era e o que faziam aqueles que se denominavam bolcheviques. Mas não me contentei com esta versão apenas e fui ler o que diziam os inimigos dos trabalhadores: li mais de mil páginas do historiador liberal inglês Orlando Figes, que procura sustentar - através de uma minuciosa pesquisa extremamente bem documentada - a posição de que os bolcheviques eram assassinos sanguinários. Li as polêmicas de Marx e Bakunin, de Rosa e Bernstein, de Lenin e os mencheviques, de Trotsky e os stalinistas, e também com os liberais. Li os autonomistas: John Holloway e sua teoria de mudar o mundo sem tomar o poder; Hakim Bey e suas zonas autônomas; Cornelius Castoriadis e sua crítica quase metafísica ao trotskismo. Li Malatesta, Kropotkin, Maurício Tragtenberg., Makhno, Victor Serge. E li ainda muito pouco.

E, ainda sim, a leitura não foi tudo o que bastou para me convencer. Uma das coisas que aprendi lendo - e depois fazendo - com Marx, foi que a prática é o critério da verdade. E que podemos ler uma montanha de coisas e isto não torna nossa prática revolucionária. Mas ao longo dos anos conheci a prática de muitas correntes que se propõem a atuar na realidade para transformá-la. Nunca tive o espírito diletante, antes peco pelo contrário, fazendo antes de pensar o suficiente. E foi assim que comecei a ser um ativista, em 2004, entrando de cabeça em uma greve que em um mês foi capaz de limpar da minha cabeça uma porção do lixo que dezenove anos de liberalismo burguês haviam enfiado e marcado na minha concepção de mundo. O que ficou, no entanto, foi suficiente para me afastar do marxismo e me jogar em uma agrupação populista semi-autonomista, o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL). Nesta agrupação, acompanhei com desconfiança o processo de fundação do PSOL. Fui vendo, ao longo dos anos, a tragédia do PT - um partido feito por trabalhadores em luta contra a ditadura que foi traído por um punhado de burocratas social-democratas - ser repetida na farsa do PSOL - um pequeno racha daquele dirigido por parlamentares que repetiam sua estratégia de "socialismo" parlamentar. Vi a sua messiânica Heloísa Helena defender leis que atacavam os trabalhadores, militar ao lado da Igreja contra o direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo, e em seguida abandonar o barco porque ela perdia seu espaço de caudilha dentro dele e procurava ventos mais à direita. Mas, muito antes que tudo isto se concretizasse, já tinha abandonado os companheiros do MTL em seu projeto fracassado ao sentir que não era este o caminho.

O lixo burguês que me foi enfiado na cabeça, como falei, não se dissipou todo de uma vez - nem se dissipará por inteiro enquanto eu viver, afinal, não posso ser uma pessoa que não pertence a seu tempo. Uma das piores heranças desta porcaria ideológica era o individualismo, a ideia de que somos algo tão especial que imaginar que alguém possa ter algum tipo de autoridade sobre você é uma aberração. É a individualidade mais burguesa que se possa imaginar, a ideia da auto-suficiência. E foi vítima dela que virei um anarquista e fui militar no Movimento Passe-Livre, onde tudo se decidia por consenso e imperava a mentira de que não há dirigentes (cujo resultado é criar pequenos burocratas que dirigem sem serem legitimados pelo coletivo). A esta ideia do "indivíduo livre" somavam-se outros preconceitos que me colocaram lá: de que os partidos inibem a criatividade, a individualidade, transformam seus adeptos em repetidores de palavras dos dirigentes, sem espírito crítico ou capacidade de pensarem por si próprios. Esta ideia é ima gêmea daquela da individualidade "a todo custo", e que remete profundamente às ideias que os românticos - primeiros artistas da época burguesa - criaram lá no século XVIII e XIX.

Mas a realidade é persistente, e foi me mostrando o quão mesquinha era este tipo de militância, e que tinha em si a mesma prepotência que eu carregava quando era um adolescente petista: substitui a história por mistificações e preconceitos - quem diria, burgueses. Foi mais um ano ali para que eu aprendesse isto. E depois, quantas experiências me foram necessárias: a luta em solidariedade ao povo de Oaxaca, que numa pobre província do México conseguiu se organizar para derrubar seu governo, tomar as emissoras de televisão e criar seu governo próprio, dirigido por organizações sindicais e populares. A esquerda brasileira, por incrível que pareça, parecia um túmulo: ninguém falava disto. Os sindicatos dirigidos pelo PSTU calavam; os parlamentares do PSOL calavam. Apenas um pequenino grupo, quase inexistente, colocou suas pequenas forças para fazer de tudo o que pudesse para apoiar aquela luta. E eu me juntei a eles. Era a LER-QI. Depois, em 2007, a greve da USP me mostrou na prática como se portavam os "libertários" autonomistas que dirigiam tudo como um punhado de "burocratinhas mirins". E a realidade me ensinou a necessidade da auto-organização, tal como eu lera nos escritos sobre a revolução russa. E, naquele momento, apenas uma pequenina organização - quase sem influência na greve - defendia esta importante tradição. Esta era a LER-QI.

Foram anos que me mostraram como a teoria e a prática distintas, revolucionárias, se fundiam, não sem erros - e muitos! - em uma das organizações políticas que conheci. E, quem diria, era uma organização pequenina, cheia de estudantes e ainda engatinhando para ter trabalhadores em suas fileiras. Fruto de uma expulsão do PSTU em 2000, que, juntando-se à tradição de camaradas argentinos do PTS, fundaram em apenas cinco pessoas esta organização. Sim, era penosa a escolha de militar em uma organização tão pequena. Mas não era por acaso que era numa organização tão pequena se expressava o melhor da tradição revolucionária, e olha que eu não estava em qualquer lugar deste país tão grande: eu estava na USP, um lugar bastante propenso a servir de ninho para organizações de esquerda. A tradição do trotskismo principista, que representa em nossa época a continuidade dos melhores ensinamentos de séculos de luta da classe operária e dos explorados de todo mundo, teve que nos ser importada da Argentina, e coube a este punhado de cinco camaradas, que não se intimidaram diante da absurda dificuldade de sua tarefa, tentar transformar estas ideias em força material. E, como disse Brandão, um dos fundadores deste grupo, no recente encontro de trabalhadores que fizemos e que reuniu 800 pessoas, se em doze anos aqueles cinco puderam chegar a estes 800, podemos fazer em muito menos tempo que estes 800 possam ser milhares.

Não, eu não queria ter que partir de tão longe, mas os homens não fazem a história como querem, mas sim como lhes foi dado fazer a partir da herança do passado. O passado recente é de derrotas colossais da classe trabalhadora. Por isto partimos de tão longe. E isto, sim, implica em sacrifícios. Não como os daqueles que foram assassinados ou viveram na clandestinidade. Pelo menos ainda não. Mas queremos preparar mulheres e homens à altura deste tipo de tarefa, deste tipo de sacrifício. Pessoas que tenham a consciência de que nosso sacrifício pessoal, ou daqueles que amamos, é um preço pequeno a se pagar por uma esperança que seja de emancipar a humanidade desta espessa camada de miséria que a cobre. Miséria material, moral, espiritual, intelectual, física. Uma miséria que as futuras gerações não merecem, como nós não teríamos merecido.

E, sim, às vezes abrimos mão de nossos fins de semana; pode até ser, em alguns casos, de quatro domingos por mês. Temos que construir bases materiais para nossa militância, formas de divulgar nossas ideias. A burguesia tem o mundo à sua disposição: as televisões, os provedores de internet, a posse das redes sociais, os jornais, as imprensas, as escolas, as igrejas...enfim, tudo. Nós, com muito custo, com uma parte do salário de cada um de nossos militantes, conseguimos colocar de pé nossas casas socialistas, onde fazemos reuniões, palestras, debates, cursos, festas. Conseguimos, com muito suor, manter um site, alguns blogs (como este), nosso jornal, que levamos e tentamos vender àqueles em que temos a confiança de que podem estar ao nosso lado para defender estas ideias. Estes jornais, quando os vendemos, não tiramos lucro algum dele; pelo contrário: é nossa contribuição financeira voluntária que é capaz de fazer com que estas ideias se materializem em papel, que levamos clandestinamente para vender nas fábricas, que vendemos aos nossos contatos nas universidades, escolas, locais de trabalho. Nossos militantes passam madrugadas em claro, entre um dia de trabalho e outro, para poder diagramar, escrever, revisar este jornal. Ele é, para nós, com todas as suas debilidades, um motivo de orgulho. E nos orgulhamos de levá-lo embaixo do braço para vender àqueles em que confiamos que poderemos discutir estas ideias.

Discutimos, pacientemente, com cada pessoa próxima a nós porque achamos que podemos e devemos mudar nossas vidas, nosso mundo. Que vale a pena militar em uma pequena organização com a ambição de construir um partido mundial que possa derrubar cada Estado burguês que oprime a humanidade em cada canto deste planeta. E também lutamos, aos tropeços, com tantos erros, com tantas dificuldades, para poder mudar em nós mesmos o que queremos mudar no mundo inteiro. Para poder fazer de nossa organização um pequeno embrião de uma sociedade distinta, onde as pessoas possam se relacionar de forma diferente. Isto implica em desenvolver a habilidade de se auto-criticar sempre que possível. Em fazer balanços duros de nossos erros, de ver onde carregamos ainda os preconceitos que queremos destruir. Em como podemos ajudar nossos camaradas. Aprender a ouvir críticas e saber que elas não servem para nos desmoralizarmos, mas para podermos ser pessoas melhores. E que nos tornamos pessoas melhores para poder lutar mais para mudar este mundo.

Erramos, e muito. Somos jovens, poucos, inexperientes. E as críticas que recebemos, se feitas de boa fé, são para nós um grande presente, pois nos permitem avançar e revolucionar a nossa organização e a nós mesmos, que somos os tijolos que constroem seu edifício. Contudo, também temos que nos acostumar a ouvir calúnias, críticas feitas com o propósito de destruir, de desmoralizar, críticas feitas por ressentimento ou mesquinhez. E, infelizmente, às vezes temos que ouvir estas críticas de pessoas que julgamos que poderiam estar ao nosso lado nesta luta. Às vezes, são golpes duros. Às vezes vemos um camarada valioso abandonar a militância. São muitos os motivos que podem levar a isto e temos que ser serenos para avaliar os nossos problemas, as pressões da vida, poder aprender com nossas derrotas também. E não nos derrubarmos. Como disse Che, um camarada que deu sua vida pela luta, mesmo que com uma estratégia incorreta, precisamos aprender a ser duros; mas sem perder nossa ternura jamais. É difícil. Muitos de nós endurecem e perdem a ternura. Muitos não conseguem endurecer. Mas continuaremos tentando. Continuaremos combatendo todas as críticas feitas para nos destruir, aprendendo com os adversários de boa fé, e avançando para dar a contribuição que pudermos nesta difícil e imprescindível tarefa de emancipar a humanidade. E seremos cada vez mais.