terça-feira, julho 02, 2013

O "povo" acordou. Um debate com ideias que estão nas ruas.


As ideias dominantes de um tempo foram sempre
apenas as ideias da classe dominante.

- Karl Marx e Friederich Engels, Manifesto do Partido Comunista.

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.

- Frase dos estudantes franceses nas lutas de maio de 1968.

         Centenas de milhares estão nas ruas por todo o país. Dobramos os governos do PT , PSDB e PMDB, e revertemos o aumento das tarifas em dezenas de cidades. O “povo” acordou. As aspas estão aí porque para entendermos o que está acontecendo, é preciso compreender de que povo estamos falando. Só assim podemos saber para onde nosso movimento vai, e inclusive tentar influenciar os seus rumos.
Nós, marxistas, analisamos as coisas a partir de suas condições materiais de existência: ou seja, tentamos entender como as ideias que surgem estão relacionadas às condições concretas de seu surgimento, as circunstâncias históricas que motivaram sua existência. Neste sentido pensamos também o “povo”: entendemos que a população da nossa sociedade é marcada, entre tantas coisas, por uma divisão fundamental: as classes sociais. As pessoas pertencem a uma ou outra classe social conforme seu papel na produção de tudo o que existe em nossa sociedade, ou seja, conforme as condições materiais de sua existência. E seus objetivos, seu modo de ver e pensar o mundo, estão sem dúvida bastante condicionados a isto (ainda que existam mil e uma outras influências que podem ser também determinantes).
Desde que existe o capitalismo, são duas as classes fundamentais da nossa sociedade, cujos interesses estão em oposição. Há os que vendem a sua força de trabalho para um patrão em troca de um salário: estes pertencem à classe trabalhadora, ou proletariado. E há os que são patrões, que empregam a força de trabalho de outras pessoas e em troca lhes dão um salário, ficando com a maior parte do resultado do trabalho de seus empregados (lucro): estes são a burguesia, a classe dominante em nossa sociedade do ponto de vista tanto político quanto econômico. O interesse da burguesia é manter a sociedade tal como ela é, para assim manter seu lucro e sua exploração sobre os trabalhadores; já o proletariado só pode se libertar de sua própria exploração acabando com o capitalismo e colocando a produção social como um bem coletivo. Entre estas duas classes fundamentais, há um meio termo nada desprezível numericamente de pessoas que trabalham “por conta própria”, sem vender sua força de trabalho para um patrão mas também sem explorar o trabalho alheio. A estes chamamos de pequena burguesia, e incluem desde profissionais liberais como médicos e advogados, passando por camelôs e donos de pequenos negócios, até pequenos agricultores. As multidões que saem às ruas hoje nos protestos não são homogêneas em sua composição de classe, e incluem tanto a classe trabalhadora como a pequena-burguesia, que por conta desta diferença de classe têm interesses distintos nas manifestações. Algumas consequências disto foram bem tratadas no texto de Iuri Tonelo. Nós, marxistas, tomamos partido da classe trabalhadora no conflito que existe entre as classes sociais, pois entendemos que a dinâmica de nossa sociedade coloca como tarefa desta classe dirigir a luta contra esta sociedade de exploração e miséria, libertando a si própria e ao restante da humanidade.
                O objetivo deste texto é tentar abordar algumas das principais ideias que têm surgido nestas manifestações, não apenas em consequência da heterogeneidade de classe dos manifestantes, mas principalmente porque carregam muito do senso comum que se forjou na geração que hoje está nas ruas. Uma geração que não viu revoluções. Algumas destas são as ideias que aprendemos com nossas famílias, nas escolas, na televisão, nos jornais. Enfim, são as ideias dominantes da nossa sociedade, e que são transmitidas pelas instituições sociais criadas e controladas pela burguesia; e por isto transmitem valores que, de uma forma ou de outra, atendem a seus interesses. Por isto, mesmo os trabalhadores são educados com valores contrários aos seus próprios interesses, com os mesmos valores de seus patrões que vivem de explorá-los. O objetivo aqui é abrir um debate franco com muitos dos que carregam algumas destas ideias, para discutir como elas podem – muitas vezes ao contrário do que desejam aqueles que as defendem – significar um atraso para o movimento que sai às ruas querendo lutar por uma sociedade melhor. Na verdade, justamente porque algumas destas ideias defendem os interesses dos patrões, muitas vezes elas são pontos de apoio dentro das manifestações para o conservadorismo de tudo aquilo que estamos querendo combater. Não à toa, são incentivadas pela imprensa, que por ser de propriedade da burguesia, expressa as ideias que são do interesse dela.

“Verás que um filho teu não foge à luta”




Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo (...)

- Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista


As bandeiras do Brasil, as caras pintadas de verde e amarelo, centenas cantando o hino nacional ou músicas e palavras de ordem que expressam orgulho de ser brasileiro. Todos vimos muitas cenas como estas em todos os protestos. Mas, qual o problema de levantarmos com orgulho a bandeira de nosso país? Bom, depende da circunstância.

As nações não existiram sempre, são uma invenção relativamente recente na história da humanidade. Elas surgem junto com o domínio político da burguesia, que, para facilitar suas transações econômicas, precisava de uma unidade monetária, alfandegária, linguística, territorial, bem como de uma organização unificada com leis e forças armadas (Estado) para defender seus interesses contra outros burgueses na competição por mercados. Contudo, mais do que um simples território unificado, a ideia de nação passou a servir como uma forma de identidade de um povo, mas não uma identidade qualquer: o fundamental para a burguesia na ideia de “nação” é fazer com que a classe trabalhadora, a quem ela explora cotidianamente, veja em seu patrão e carrasco que lhe arranca o couro e lhe dá um salário de fome, um “irmão” ao invés de um inimigo de classe. E no trabalhador que sofre a mesma exploração que ele em outro país, um “inimigo” ao invés de um irmão de classe. Assim, os trabalhadores se sentem mais propensos a se juntar àqueles que os exploram para defender os interesses destes contra seus irmãos trabalhadores de outro país, e isto aparece disfarçado sob o manto do patriotismo. Como se o trabalhador estivesse defendendo o interesse da nação (e, assim, dele mesmo) e não o interesse de seus patrões.
 É por isto que o que Marx e Engels diziam em 1848 continua valendo até hoje: “Aos comunistas tem, além disso, sido censurado que querem abolir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar o que não têm. Na medida em que o proletariado tem primeiro de conquistar para si a dominação política, de se elevar a classe dirigente da nação, de se constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo nenhum no sentido da burguesia. Os isolamentos e as oposições nacionais dos povos vão desaparecendo já cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as relações de vida que lhe correspondem. A dominação do proletariado fá-los-á desaparecer ainda mais. A unidade de ação, pelo menos dos países civilizados, é uma das primeiras condições da sua libertação. À medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a exploração de uma nação por outra. Com [a queda da] oposição das classes no interior da nação cai a posição hostil das nações entre si”.
Ou seja, o interesse histórico da classe trabalhadora por uma humanidade livre, de acabar com a exploração do trabalho e de um homem por outro, passa necessariamente por acabar com a divisão entre países, que só serve aos burgueses e às suas disputas. É por isto que um dos princípios fundamentais do comunismo é o internacionalismo, o entendimento que a luta dos trabalhadores brasileiros é a mesma luta dos trabalhadores de qualquer parte do mundo e, assim, devemos nos apoiar mutuamente. Por isto que defendemos a solidariedade ativa às lutas do povo egípcio, sírio, líbio, turco, grego e outros contra seus governos que os reprimem, pois quanto mais fortalecida estiver a luta deles, mais estará a nossa e vice-versa.
Contudo, nem sempre o nacionalismo possui um sentido conservador, tal como no caso da burguesia que reivindica sua pátria para arregimentar os trabalhadores para se colocar contra os trabalhadores de outro país. Como disse o revolucionário marxista Leon Trotsky: “Quando o pequeno camponês ou o operário falam de defesa da pátria, falam da defesa de sua casa, de sua família e da família de outrem contra a invasão, contra as bombas, contra os gases asfixiantes. O capitalista e seu jornalista entendem por defesa da pátria a conquista de colônias e mercados, a extensão, pela pilhagem, da parte ‘nacional’ da renda mundial. O pacifismo e o patriotismo burgueses são mentiras completas. No pacifismo e no patriotismo dos oprimidos há um germe progressista que é necessário saber compreender para daí tirar as conclusões revolucionárias necessárias. É necessário saber dirigir estas duas formas de pacifismo e de patriotismo uma contra a outra.”
Por isto, não é possível concordar com os que jogam em um mesmo saco de “fascistas” todos os que levam um sentimento nacionalista para um ato de rua. Se é verdade que há aqueles que neste nacionalismo carregam o germe do reacionarismo e mesmo grupos fascistas, também há milhares que reivindicam um sentimento progressista de que as demandas populares devem ser conquistadas nas ruas pelo “povo brasileiro” organizado, em contraposição às instituições apodrecidas do regime político burguês. Ou seja, é, contraditoriamente, uma forma de contrapor o “povo” ao Estado burguês (como dizia uma pichação na  Avenida Paulista:  “até quando o governo será contra o povo?”). Contudo, mesmo este sentimento progressista dos que levam nas bandeiras do Brasil as suas demandas por mais investimentos na saúde e educação, abre um espaço para que o nacionalismo junte em um mesmo saco os manifestantes que querem um Brasil “mais cívico e ordeiro” e aqueles que defendem sair às ruas e lutar de forma independente contra a polícia e os governos. O sentimento nacionalista é facilmente capitalizado pela direita e pela burguesia. É assim que discursos como os de Dilma se aproveitam deste sentimento nacionalista para tentar botar “panos quentes” nos protestos. Por isto, é necessário explicar pacientemente aos que reivindicam o sentimento nacionalista o porquê de nosso combate a ele.

Contra a corrupção






O moderno poder de Estado é apenas uma comissão 

que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa
.
-Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista

                É inegável que dentre as inúmeras pautas que passaram a ser levantadas nos protestos, a do combate à corrupção é uma das que tem grande peso e destaque (em particular nos atos centrais onde predomina a pequena-burguesia). Isto não apenas porque é, de fato, uma das mais levantadas pelos manifestantes oriundos da pequena-burguesia, mas também porque tem um respaldo inclusive entre a classe trabalhadora, e ainda porque a mídia burguesa faz questão de dar mais destaque a esta pauta do que a outras. Isto ocorre porque a pauta da corrupção é bastante ampla, difusa, e por isto pode facilmente ser capitalizada também pela direita burguesa. Exemplo expressivo disto é o vídeo de Flávio Bolsonaro, representante da camada mais reacionária da política brasileira, que diz – entre tantas baboseiras e mentiras deslavadas – que “o PT é o partido mais corrupto do Brasil”, e que “este protesto tem que continuar nas urnas”. Ou seja, Bolsonaro procura canalizar a revolta das ruas para eleger os representantes mais de direita da burguesia nas eleições de 2014. O que Bolsonaro quer ocultar em seu discurso é que, se o PT é comprovadamente um partido cheio de escândalos de corrupção, como mensaleiros, sanguessugas, entre tantos outros, o PSDB, o DEM e todos os partidos do regime tem suas mãos sujas com a lama da corrupção. É necessário entender que a corrupção é inerente ao sistema capitalista e a todos seus regimes de governo.
                O combate à corrupção é uma pauta legítima, que canaliza uma grande revolta contra os governos e mesmo contra o regime e os partidos da ordem, e faz muito mal a esquerda que julga esta pauta como “de direita” e deixa para Veja, Bolsonaro, Estadão a sua reivindicação. O fundamental é justamente desmascararmos estes canalhas reacionários que se colocam como “arautos da ética”, chegando à raiz deste problema. E a questão não é de governo ou mesmo de regime, mas sim do Estado burguês. É necessário compreendermos que enquanto tivermos um Estado a serviço de uma classe parasita e exploradora, a corrupção será inerente a ele. O PT, que por décadas procurou ser o partido da ética, hoje justifica sua corrupção dizendo que é necessário sujar as mãos para fazer política. Esta ideia tornou-se senso comum, e por isto muitos manifestantes afirmam que seu protesto “não é político”. Temos que combater a ideia de que a política institucional da burguesia seja compreendida como a única forma de fazer política. É necessário disputarmos aos olhos das massas e dos trabalhadores a necessidade de fazermos uma política revolucionária, que acabe com a corrupção da única forma possível: acabando com o sistema que lhe dá origem e sustentação.
Esta disputa entre uma política institucional ou revolucionária não é nova, e esteve presente também  na própria história do PT, que surgiu do movimento das greves operárias do final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, e que eram sim muitíssimo políticas e com um forte potencial revolucionário. Dentro do PT, contudo, uma ala influente dirigida por Lula procurava fazer de tudo para separar o “sindical” do “político”, dizendo que as greves não eram contra a ditadura mas apenas por salários (escondendo que o arrocho era fruto da política dos militares), separando as lutas por regiões, por fábricas, por ramos da indústria. Um pouco desta história pode ser conhecida aqui. Isto é exatamente o contrário do que propõe o marxismo. Um dos principais dirigentes revolucionários marxistas, Lenin, afirmava que o papel dos revolucionários é atuar em cada pequena luta sindical, elevando o patamar destas à luta política contra o regime. Marx e Engels também afirmaram que “Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que (...) nos diversos estágios do desenvolvimento pelos quais a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total”. Ou seja, uma luta salarial representa um interesse particular e legítimo dos trabalhadores, mas é necessário que entendamos que o que ganhamos em uma luta salarial hoje, a inflação e o arrocho salarial comerão dos salários amanhã. Por isto nossa luta deve olhar para o todo.
Assim, a linha política que hegemonizou o PT com a ala de Lula, Genoíno, Zé Dirceu, Suplicy e outros que defendiam a via parlamentar de mudanças, só pode servir ao interesse da burguesia, de isolar as lutas dos trabalhadores para manter seu domínio político. A única política que pode servir aos interesses da libertação dos trabalhadores e, consequentemente, de toda a humanidade, é uma política revolucionária que seja feita nas ruas, nas barricadas, nas greves, nos instrumentos de auto-organização dos trabalhadores e das massas para que, a partir desta organização, possamos derrubar este Estado corrupto e corruptor da burguesia para colocar no poder os trabalhadores.
Esta lição foi ensinada pela primeira vez pelos revolucionários da Comuna de Paris, em 1871, quando os trabalhadores tomaram o poder pela primeira vez, derrubando o governo em Paris e elegendo seus próprios representantes entre eles. Estes não ganharam salários imensos e desfrutaram de privilégios como nossos parlamentares, juízes e governantes. Ganhavam o mesmo que um trabalhador comum e seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento. Nem tinham dezenas de cargos comissionados com salários altíssimos. Não havia um “presidente” ou “prefeito”, mas um governo composto por todos estes representantes. O nível de privilégio que tem os parasitas de nosso congresso pode ser visto neste artigo de Leandro Ventura. Se hoje os partidos burgueses propõem uma miserável “reforma política” plebiscitária, nós devemos dizer que nossas demandas para acabar com os privilégios e a roubalheira dos empresários e políticos e democratizar o país não cabem nas perguntas de um plebiscito montado por eles mesmos! Queremos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, com representantes eleitos nos locais de trabalho e na qual todos possam se candidatar, para fazer uma reforma radical deste regime e acabar com todas as negociatas entre os políticos burgueses e os empresários! Só assim podemos acabar com a corrupção de fato.

 “Sem partido! Sem partido!”



O pior analfabeto é o analfabeto político. (...)
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.(...)
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos,
 que é o político vigarista, pilantra, corrupto
 e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

- Bertolt Brecht, O Analfabeto Político

                O rechaço aos governantes e a seus partidos tomou uma face distorcida em muitas manifestações, com pessoas que gritavam “sem partido” a organizações de esquerda e dos trabalhadores. Como dissemos acima, o rechaço aos partidos que constituem este regime apodrecido é mais do que justo, pois são eles que mantém esta ordem de uma sociedade miserável em nome do lucro de poucos. Mas é fundamental colocarmos um critério em nosso rechaço, ou se cometerá uma enorme injustiça aos principais aliados dos que lutam nas ruas por mudanças profundas na sociedade. Um partido nada mais é do que uma forma organizativa, um grupo de pessoas que se aglutina coletivamente para poder atuar politicamente na sociedade. Esta forma organizativa pode ser preenchida com conteúdos sociais muito distintos, que sem dúvida se expressarão na forma como este partido se organiza também. A burguesia se agrupa em diversos partidos para disputar seus interesses na sociedade, mas, sendo estes partidos representantes desta classe parasitária, nunca nenhum deles poderá representar os interesses dos trabalhadores e da população mais pobre. São os partidos que representam interesses de banqueiros, de empresários, que não apenas se candidatam por estes partidos (como o ex-vice-presidente José de Alencar, grande industrial cujas relações com o poder lhe garantiam negócios privilegiados) mas também financiam suas campanhas para garantir seus interesses. Em geral são regidos por alguns grandes “caciques” representantes de oligarquias regionais e frações da burguesia, como Sarneys, ACMs, Malufs, Calheiros, Collors...ou por caudilhos que por terem grande destaque abafam toda a democracia interna de um partido em nome de seus acordos com este ou aquele setor da burguesia, como é no caso de Lula.
                Se a burguesia se organiza em partidos para lutar por seus interesses, é porque reconhece nesta forma uma grande eficiência de organização. Por que os trabalhadores, que querem lutar pela derrubada deste sistema, não deveriam também se associar para fazer sua política nas fábricas, nos bairros operários, nas escolas? A sua política, contudo, não é e nem pode ser a mesma da burguesia. Os partidos burgueses disputam e fazem acordos entre si para abocanhar um pedaço deste regime apodrecido e corrupto. Os trabalhadores devem se organizar em partidos para uma política revolucionária, que possa acabar com este Estado corrupto e corruptor. Nem a sua forma organizativa pode ser a mesma, com alguns “donos” do partido e muitos braços ou funcionários. Os trabalhadores que se organizam em um partido que lute pelos interesses de sua classe não o fazem por quererem privilégios ou por ambições pessoais, mas sim porque sua compreensão política dá um salto e ele passa a ver que a miséria de sua própria vida não é individual e nem se pode acabar com ela individualmente, mas que é necessário se organizar unificadamente com seus companheiros de classe com uma estratégia para mudar a sociedade. Por isto, os partidos operários devem prezar sempre pela mais ampla democracia interna, para que as bases do partido tenham controle sobre seus dirigentes. Defendemos o princípio formulado por Lenin, denominado “centralismo democrático”, que foi sintetizado com a seguinte máxima de garantir a mais ampla democracia na discussão e a mais estrita unidade na ação.
                Por isto, quando alguém se revolta contra um partido ou uma organização operária, está na verdade combatendo um aliado contra este sistema. Os partidos operários não são o mesmo que os partidos burgueses, e não devem ser tratados da mesma forma. Mesmo a juventude e os trabalhadores que não se organizem em partidos devem entender e respeitar os que se organizam como seus aliados, e tratar as eventuais diferenças políticas a partir de debates de ideias, que são saudáveis, necessários e ajudam o movimento em seu conjunto a avançar, mas devem saber que a luta contra os governos e os partidos burgueses é uma meta em comum.
Há, evidentemente, confusões que podem surgir nesta distinção entre partidos burgueses ou partidos operários. O PT, por exemplo, leva a palavra “trabalhadores” em seu nome. E, de fato, surgiu como uma organização dos trabalhadores a partir de suas greves e mobilizações. Contudo, o setor que o hegemonizou, como dissemos antes, foi o de Lula, que apostava justamente na via institucional de disputa da política a partir das eleições, dos cargos, das comissões, dos financiamentos privados. Conforme o PT se aprofundou neste caminho, ele foi progressivamente deixando de lado qualquer vestígio de política operária. Destruiu qualquer vestígio de democracia interna, acabando com os comitês de base, tornando seus dirigentes sindicais em burocratas bem remunerados e em conluio com os empresários, e alçando Lula cada vez mais como um grande caudilho que manda no partido. Associou-se aos grandes burgueses e aos partidos que os representam. Com sua ascensão ao poder do Estado como governantes no poder executivo, reprimiram energicamente a mobilização independente dos trabalhadores, já na gestão Erundina na prefeitura de São Paulo reprimiram greves de motoristas de ônibus, por exemplo. Hoje, enviam a Força de Segurança Nacional para reprimir greves nas obras do PAC, assassinar índios, reprimir manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Por isto que para os marxistas a prática é o critério da verdade: de defesa dos trabalhadores, no PT só sobrou o nome. Não é este partido que deve estar ao nosso lado nas manifestações. Ainda assim, contra a direita fascista que os ataque, defenderemos seu direito de organização. Mas entendemos e apoiamos o repúdio dos trabalhadores que foram traídos pelo partido que construíram.
O PSOL, hoje, começa a dar os primeiros passos no mesmo rumo do PT, seguindo uma via de disputa na política institucional. Seus parlamentares já votaram leis que retiram direitos dos trabalhadores, como foi o Super-Simples. Já se associaram com partidos burgueses, como o DEM nas eleições de Macapá. Também seguiram o curso de elevar figuras parlamentares a caudilhos, como foi com Heloísa Helena, que hoje se liga a Marina Silva. Não é um partido dos trabalhadores, mas um partido eclético que tenta aglutinar em seu interior interesses de classe distintos. Mas mesmo com todos estes problemas, o PSOL possui em sua base uma parcela de juventude e trabalhadores honestos, muitos dos quais estão nas ruas lutando ao nosso lado. Seu direito à organização deve ser defendido, sem que por isto se diminuam as enormes diferenças políticas que nos separam.
Defender a possibilidade dos trabalhadores e a juventude de se organizarem em sindicatos e partidos é defender nosso próprio direito de lutar, de nos manifestarmos e de fazermos frente ao enorme poder de organização da burguesia e de seus políticos corruptos e parasitas. Sem partidos, nossa organização nunca será capaz de derrubar os poderosos e seus canhões.

“Sem violência! Sem violência”



Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. 

Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.

- Bertolt Brecht, Sobre a violência


O que é roubar um banco comparado a fundar um?

- Bertolt Brecht, A ópera dos três vinténs


Desde a brutal repressão policial que ocorreu no ato em São Paulo, no dia 13 de junho, com mais de 250 presos e 100 feridos, o movimento deu um salto. Muitos passaram a apoiá-lo nem tanto pela redução do aumento, mas pela indignação de uma manifestação democrática ser reprimida de forma tão truculenta pela polícia. A partir deste momento, a própria mídia foi obrigada a mudar drasticamente seu discurso, que até então era de condenar de forma unânime as manifestações. A violência policial chocou de tal forma a pequena-burguesia que conforma grande parte da mal chamada “opinião pública”, que os veículos de imprensa foram obrigados a endurecer seu discurso contra a repressão. Ainda que procurassem a todo momento distorcer os fatos, dizendo que se tratavam de policiais “mal preparados” ou de “excessos”, tentando assim maquiar a conduta geral da polícia e fazer passar uma regra por uma exceção.

Para entendermos a polícia, precisamos compreender que, como afirma Lenin em “O Estado e a revolução”, “O exército permanente e a polícia são os principais instrumentos do poder governamental”. Ou seja, a função primordial da polícia, ao contrário do que nos ensinam, não é a de “proteger todos”, mas de proteger a propriedade privada e o Estado. Quando uma mobilização sai às ruas para questionar os lucros de empresários cujos acordos selados com o governo determinam o funcionamento do transporte na cidade, isto está gerando um embrião de questionamento à propriedade privada dos meios de transporte. A polícia e seu principal aliado no campo das ideias – a mídia controlada pela burguesia – farão seu trabalho: reprimir por um lado e deslegitimar o movimento por outro. Exemplo emblemático foi o discurso de Arnaldo Jabor após os primeiros atos, em que ele comparou os manifestantes ao crime organizado. A realidade é que o crime organizado tem muito mais em comum com a própria polícia, e quem lucra com este é a burguesia e os policiais que tem mil e um laços com o tráfico, como mostrou, por exemplo, esta reportagem da Bandeirantes.

A atuação da polícia, contudo, é muito mais repressiva justamente onde a miséria gerada pela burguesia se expressa com maior força: nas periferias e favelas, onde cotidianamente assassinam a juventude pobre e negra. Quando falamos em violência, precisamos, portanto, lembrar que o que há de mais violento em nossa sociedade é a miséria, a fome, a pobreza, as quais o Estado se esforça para manter com suas leis e sua polícia. Perto disto, é perfeitamente compreensível que as pessoas que são violentadas pelo Estado cotidianamente coloquem um pouco de sua fúria para fora de forma caótica quando os atos conseguem minimamente tomar as ruas contra este Estado. Por mais que não concordemos com este método pela sua ineficácia, o que repudiamos não é esta “violência”, mas sim o discurso da mídia burguesa que nada fala sobre Douglas Henrique, jovem metalúrgico morto nas manifestações, mas dá grande destaque a lixeiras reviradas na manifestação. Até figuras da própria mídia, quando não estão com o cabresto que lhes é imposto pelos donos das emissoras, concordam com isto, como vemos nesta entrevista com Ricardo Boechat.

Há que se diferenciar as “violências” dos manifestantes. Não é à toa que quando as manifestações se tornam massivas, o discurso da mídia muda completamente, como vemos nas esfarrapadas “desculpas” de Jabor (na verdade uma tentativa de se relocalizar e ainda “ensinar” aos manifestantes pelo que devem lutar, colocando as pautas de um típico comentarista de direita da globo). A mídia passa a querer criar um abismo entre os “manifestantes ordeiros e cidadãos” e os “vândalos, baderneiros, arruaceiros”. Jogar uma pedra contra a polícia é um embrião de auto-defesa. Conforme a luta nas ruas cresça, esta tendência terá que se organizar e se expressar efetivamente em milícias operárias e populares. Como afirma Lenin: “a sociedade civilizada está dividida em classes hostis e irreconciliáveis cujo armamento ‘espontâneo’ provocaria a luta armada. Forma-se o Estado; cria-se uma força especial, criam-se corpos armados, e cada revolução, destruindo o aparelho governamental, põe em evidência como a classe dominante se empenha em reconstituir, a seu serviço, corpos de homens armados, como a classe oprimida se empenha em criar uma nova organização do mesmo gênero, para pô-la ao serviço, não mais dos exploradores, mas dos explorados”.

Contudo, nem toda a violência é a legítima defesa contra a polícia. Quando se joga uma pedra na vidraça de um banco, é um pequeno protesto contra o saque cotidiano aos trabalhadores que é feito pela burguesia. Quando se faz uma pichação de protesto, é uma forma de colocar para fora uma voz que não tem onde se expressar na sociedade, é uma forma de luta. Mas a depredação caótica de casas, carros populares ou pequenos comércios afeta justamente aqueles que têm motivo para colocar seu ódio nas ruas: estamos atacando a nós mesmos e ajudando a criar um rechaço popular às manifestações ao invés de ganhar mais apoio. Isto não quer dizer que devemos, como nos sugere a Rede Globo ou os comandantes da polícia, entregar os manifestantes que façam isto. Eles podem estar equivocados, mas é um dos nossos, e temos que convencê-lo de seu erro; a polícia, por outro lado, é nossa inimiga, e contra ela devemos estar unidos.

A burguesia não tomou o poder das mãos da nobreza pacificamente, e nunca um tirano deixará seu poder “pela força do diálogo”. Como disse o abolicionista Luis Gama, “todo escravo que mata seu senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Nunca confundamos a violência do opressor com a resistência do oprimido. A nossa violência, dos que são explorados e oprimidos cotidianamente, deve se organizar para resistir aos ataques dos opressores e poder se transformar em força para mudar a sociedade e coloca-la de cabeça para baixo.

Agora é hora de nos organizarmos, avançarmos em nosso programa e nos colocarmos com a classe trabalhadora nas ruas para levar esta insatisfação que explodiu às suas últimas consequências, virando de cabeça pra baixo esta sociedade!

terça-feira, junho 18, 2013

Adeus, Sergio.




Ontem , enquanto nos preparávamos para ver as massas ressurgirem nas ruas deste país como há décadas não acontecia, deu seu último suspiro de vida um homem que pouco conheci, mas que muito representou em minha vida.

Há pouco mais de um ano partia sua filha Camila, uma das pessoas que mais amei e amo em minha vida. Durante todo o tempo em que convivi com Camila, quase nada conversei com Sergio. As relações entre eles eram dilaceradas e contraditórias, como geralmente o são as relações familiares neste mundo, em que são forçosamente cruzadas por uma série de horríveis conflitos que nossa sociedade doente impõe a elas. Esta relação entre eles, meio distante a contragosto deles mesmos, fazia com que eu mesmo não tivesse relação alguma com Sergio. Percebia nele ciúmes de sua filha e ele chegou até mesmo a proibir-me de dormir em sua casa depois que Camila passou a morar lá. Não tive rancor por isto, tive antes uma inquietação de ver como havia um fosso entre ambos que não se resolvia. O problema comigo era apenas uma pequena expressão disto.

Primeiro, achei que a relação de Camila era de indiferença ou ódio por seu pai, pois ao falar dele expressava rancor. Depois, vi que não. Que o rancor era amor distorcido. Doía nela ver o sofrimento de seu pai. Doía nela, como na relação com toda a sua família, ver a dor que seu próprio sofrimento psíquico causava nele. Ela se afastava também, talvez, como uma forma de protegê-lo de seu sofrimento, como muitas vezes fez comigo.

Mas eu percebi verdadeiramente como ela amava seu pai quando ele foi internado, pouco antes do suicídio de Cami, e quando vi como ela sofreu com isto. Como sofria de ver que ele tinha grande dificuldade em sua relação com o álcool. Como ela desejava que ele parasse de beber. Vi toda a profundidade de uma relação marcada por amor e sofrimento quando ela disse, um dia, transtornada, que ele podia “morrer logo pra acabar com isto”. O sofrimento dele também a fazia sofrer, e ela certamente sentia-se impotente por não saber como ajuda-lo.

Depois que Cami morreu, a postura de Sergio em relação a mim mudou. Só posso imaginar vagamente a dor que ele deve ter sentido ao ir com sua filha na ambulância e assistir ela, com apenas 26 anos, morrer. Uma morte causada por suas próprias mãos por não aguentar mais o sofrimento da vida. De longe, eu vi como ele ficou abalado. A última vez que vi Sergio foi no enterro de Camila. De todos da família, mesmo os que eu não conhecia, ele foi o mais formal e frio comigo. Não sei se era assim o seu jeito com as pessoas, acho que não. Acho que ele estava sofrendo muito e que havia entre nós um estranhamento. Eu também não sei lidar muito com as pessoas, em várias circunstâncias, e com ele isto se manifestava muito: eu tinha vergonha, constrangimento, sentia que minha presença o incomodava. Talvez a frieza tenha sido mais minha do que dele. A dificuldade que existia na relação entre ele e Cami havia se transformado em uma impossibilidade na minha relação com ele.

A mudança veio depois: conversávamos pelo facebook. Sergio passou a me chamar de filho, e a me dar conselhos que provavelmente queria dar a Camila. Como minha mãe faz, passou a criticar minha militância, dizendo que eu desejava coisas impossíveis, que os grandes revolucionários que me inspiram eram assassinos sanguinários. Discutíamos, fraternalmente, sabendo que nunca convenceríamos um ao outro. Ele me incentivava a estar próximo de meus amigos, de minha família: “isto sim é real”, dizia ele.

Aos olhos dele, eu provavelmente era um jovem ingênuo. O carinho que passou a demonstrar por mim era o carinho que sentia por sua filha, e que eu via como tinha dificuldade de se demonstrar na relação cotidiana entre eles, pelo menos durante o tempo em que acompanhei a relação entre os dois. Seus modos de ver o mundo eram distintos pelo vértice, mas eles pouco conseguiam conversar sobre isto. Quando ele criticava minha militância, estava criticando a de sua filha, que me orgulho de ter tido como minha camarada.

Ele me disse para ir a sua casa diversas vezes, lugar que foi a última morada de Cami. Que eu deveria pegar as coisas que quisesse para me lembrar dela. Fiquei sinceramente comovido com este convite, e prontamente aceitei. Muitas vezes disse que iria, mas nunca consegui colocar isto em prática. Tinha receio, é difícil dizer porque. Acho que tinha medo de ver a dor dele muito de perto, de não saber como estar perto dele, o que fazer. Contudo, minha intenção de ir era real, apenas esperava “o momento certo”. A minha dor por perder Cami é uma que permanecerá para sempre comigo, que faz parte do que sou e que para sempre mudou quem eu sou e serei. Hoje eu me esforço a cada dia para ser uma pessoa melhor, uma pessoa melhor como gostaria de ter sido com ela. Para ajudar quem eu amo como gostaria de ter ajudado ela, muito, muito mais do que fui capaz de ajudar. Levo dentro de mim as nossas conversas, os nossos dias juntos, tudo o que aprendi com ela. Sei do tamanho desta dor que carrego. A dor de um pai que perde uma filha, no entanto, só posso imaginá-la. Sinto em sua aproximação de mim uma tentativa de se aproximar um pouco mais de sua filha, do que ela acreditava, desejava e sentia.

Hoje, não posso mais aceitar seu convite. Não posso mais ir a sua casa, conversar com ele, conhece-lo melhor, trocar lembranças tão diferentes que teríamos sobre Cami, discutir e brigar a respeito do socialismo, do capitalismo, da revolução ou de sua impossibilidade. Sergio se foi. A notícia de seu câncer fulminante veio para mim como uma bomba, subitamente, poucos dias antes de sua morte. Seu filho Pedro me mandou uma mensagem, e eu, estupefato, nem consegui lhe responder. Eu não sabia que ele estava doente, e não pude lhe dar um adeus, como não pude dar adeus a Cami. Gostaria de tê-lo visto uma última vez, pois apesar de não termos sido próximos, a dor pela morte de sua filha, minha companheira, nos uniu de uma maneira muito peculiar. A união que se sente com alguém por perder uma pessoa em comum que se ama é difícil de entender e de explicar. Mas é algo muito real. A tristeza pela morte de sua filha foi uma dor pungente que o acompanhou até estes últimos dias.


Não posso deixar de pensar na ironia de que Sergio tenha partido justamente em um dia em que centenas de milhares saíram às ruas no Brasil, tomando o congresso nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, a sede do governo no Paraná e dizendo que o povo acordou na Avenida Paulista. É o começo do começo de um novo tempo que se manifesta em todo o mundo, em que eu acredito que há chances muito concretas de se efetivar a mudança social pela qual eu vivo, e pela qual viveu Camila. A mudança que Sergio dizia ser utópica, e a respeito da qual discutíamos e discutíamos. Toda vez que vejo uma fagulha da luta de classes brilhando, penso em Cami, em como queria que estivesse aqui ao nosso lado para ver e participar da possibilidade de um futuro novo. Agora, pensarei em Sergio também, em como queria que ele estivesse aqui para dizer: “viu só! Eu e sua filha não estávamos errados! É possível um mundo diferente!”. E continuo a dar minha vida para isto, para que seja possível um mundo onde, entre tantas mudanças que queremos, os sofrimentos pelos quais Sergio passou não aconteçam mais. Que ninguém mais precise ver sua filha tirar a própria vida. Que as relações entre as pessoas que se amam não sejam atravessadas por incomunicabilidades, por rusgas que nós, humanos ainda tão rudimentares de uma sociedade doente, criamos. Que ninguém precise mais sofrer com uma doença tão dolorosa e mortal sem ter a seu alcance uma medicina capaz de curá-la. Por uma humanidade mais livre, mais feliz, mais plena, mais humana. Sua memória acompanhará minhas lutas. Descanse em paz, Sergio.


sábado, junho 15, 2013

É necessário ir às ruas com uma estratégia para triunfar! Um debate necessário com o MPL




Na última quinta-feira, 13-06, o Movimento Passe-Livre (MPL) publicou no jornalFolha de S. Paulo um artigo intitulado “Por que estamos nas ruas”. Este texto, junto a outros materiais e posicionamentos públicos doMPL, leva a um necessário debate com este movimento sobre os rumos da crescente mobilização que vem ganhando as ruas aos milhares, e se tornando o mais importante fenômeno político de massas dos últimos anos no país. Não é possível triunfar sem uma estratégia correta, e nossos inimigos estão bem preparados; devemos discutir abertamente entre nós como seguir com nosso movimento.

Em primeiro lugar, cabe questionar a posição do MPL diante das mobilizações: em todos os últimos aumentos de tarifa, este movimento teve a iniciativa de convocar comitês abertos a voz e voto para que todos os que participam das mobilizações, bem como as entidades estudantis, sindicais e populares, e as organizações políticas, pudessem decidir os rumos do movimento. É verdade que em nenhum momento anterior se conseguiu massificar o movimento como está ocorrendo agora, por conta de uma conjuntura política nacional e internacional bastante distinta. Mas já nestes comitês, em 2006, 2011, se mostraram divergências táticas e estratégicas importantes para as mobilizações. No limite deste texto, não retomarei todas as polêmicas que surgiram e que continuam atuais. Coloco esta questão para apontar o problema fundamental da democracia de base no movimento. A ligação com as bases, com os que estão efetivamente mobilizados nas ruas, é um aspecto fundamental para massificar ainda mais o movimento e para que as distintas concepções políticas, as distintas propostas e estratégias, possam debater publicamente e serem colocadas à prova na prática.

Hoje, o MPL não convoca mais comitês abertos e vem dirigindo o movimento “por cima”, convocando atos pelo FB e com declarações na mídia. Na prática, isto leva a que atuem de forma burocrática com o movimento, como eles próprios corretamente criticaram em muitos momentos em relação a organizações governistas que levaram a desvios no movimento impedindo que chegassem à vitória, tal como foi o caso de UNE e UBES no episódio que ficou conhecido como “Revolta do Buzu”, quando houve o aumento de tarifas em Salvador em 2003. O MPL iniciou uma atuação deste tipo quando declaroupublicamente que aceitaria o acordo de “suspensão” do aumentodas tarifas por 45 dias proposto pelo Ministério Público de SãoPaulo, e cancelaria o ato já marcado para a última quinta-feira.

Em seguida, o MPL publica um texto na Folha de S. Paulo, órgão de imprensa que só abriu espaço para que este movimento se pronunciasse colocando apenas as suas próprias posições, graças aos massivos atos de rua. Depois, são convidados para uma entrevistano programa Roda Viva. Ou seja, mesmo que sejam chamados para falar “como MPL”, este é um espaço conseguido graças à força da mobilização, e, assim, deveria expressar as posições políticas do movimento de conjunto, e não de apenas uma das organizações políticas que o compõe. E, por fim, e mais grave, o prefeitoFernando Haddad convocou o MPL para uma reunião de negociaçãonesta terça-feira.

Independente da correção ou não das divergências que apresentamos, consideramos que a única forma correta de se decidir como proceder diante do acordo do ministério público, da mídia ou da reunião com o prefeito é através da democracia de base, em que se expressem os setores que hoje estão nas ruas, na linha de frente da luta. Por isto, é fundamental a criação de um comitê com um funcionamento democrático. Diante da magnitude da luta, um comitê aberto como o que foi feito nos últimos aumentos não poderia mais responder à necessidade de organização. É necessário um comitê que represente as posições das bases, e, portanto, com delegados que fossem eleitos a partir de discussões em cada escola, universidade, bairro ou local de trabalho que esteja se organizando para construir a mobilização. Só assim poderemos nos ligar cada vez mais à população, aos trabalhadores do transporte e massificar ainda mais nosso movimento.

Libertem nossos presos! Não há trégua enquanto houver repressão!

 
 
 
O movimento tem crescido exponencialmente. Graças a isto, os governos de Haddad e Alckmin se uniram para reprimir as manifestações de forma exemplar e impedir que nos apoiemos nos exemplos de PortoAlegre, Goiânia e Teresina para impor a revogação do aumento e transformemos São Paulo em um grande exemplo nacional da luta contra os aumentos de tarifa. Diante disto, já são centenas de manifestantes presos e feridos, sendo que mais de quinze já estão sendo processados por crimes como formação de quadrilha. A primeira tarefa de nosso movimento é a luta para que nenhum manifestante sofra nenhum tipo de criminalização ou repressão, e por isto precisamos colocar como primeira pauta a libertação de todos os presos e a anulação de todas as acusações feitas contra os que foram detidos. É necessário deixar claro para o governo que sem o atendimento desta demanda, não haverá negociação sobre nenhuma outra pauta. O MPL não apenas não tem colocado isto como pauta central do movimento (sequer citaram a repressão em seu artigo na Folha), como tem dado declarações na mídia com disparates como “arepressão da polícia é desproporcional” (e o que seria uma repressão proporcional?!). Pior de tudo, o MPL para se mostrar como "ordeiro", tem procurado se desvencilhar de "atos de vandalismo" com o argumento de que não aprovam estas "atitudes isoladas" que "não tem como controlar". Este discurso é funcional à mídia e ao governo para criminalizar manifestantes e reprimir. É fundamental levantar a bandeira contra a repressão como linha de frente do movimento, nos apoiando inclusive em recentes conquistas na luta contra a criminalização dos movimentos sociais, como foi a negativa do Juiz a respeito da denúncia de formação de quadrilha contra 72 estudantes e trabalhadores da USP feita pelo MP paulista.

A luta deve ir além dos vinte centavos! Tarifa “justa” de R$2,16, “Tarifa Zero” ou estatização sob controle dos trabalhadores e usuários?


Qualquer um que esteja nas ruas hoje pode dizer que nossa luta não é por vinte centavos da tarifa. Deter o aumento, que privará uma parte ainda maior da população de usar o transporte é uma questão fundamental. Mas a força e massificação de nosso movimento hoje nos permite ir por muito mais do que isto, além de que a própria brutal repressão do governo e da polícia transformou nosso movimento também em uma luta contra a criminalização estatal à organização política dos trabalhadores e da juventude.

O MPL há anos defende o projeto denominado Tarifa Zero, criado por Lúcio Gregori, Secretário de Transportes da gestão petista de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo. Hoje, colocam como pauta de seu movimento a demanda deste projeto, sem questionar em seu programa a questão crucial do controle privado do transporte público, tal como colocam em seu texto na Folha de S. Paulo: “Por isso defendemos a tarifa zero, que nada mais é do que uma forma indireta de bancar os custos do sistema, dividindo a conta entre todos, já que todos são beneficiados por ele.”. O próprio prefeito Fernando Haddad disse que não poderia reduzir a tarifa pois isto implicaria em aumentar o subsídio que a prefeitura desembolsa para as empresas privadas de ônibus (no ano passado foram R$ 821 milhões), e que neste ano o reajuste estava abaixo da inflação devido a isenções fiscais concedidas pelo governo Dilma a estes empresários e ao aumento do subsídio dado pelo governo municipal. Ora, o que Haddad está dizendo é que não pode reduzir as tarifas porque se não iria onerar o orçamento da prefeitura com mais subsídio. A isto o MPL responde dizendo que “a tarifa deve ser dividida entre todos” (subsídio de 100%, portanto) e ainda dizem que “Não somos nós que afirmamos que o aumento está abaixo da inflação sem considerar que, de 1994 para cá, com uma inflação acumulada em 332%, a tarifa deveria custar R$ 2,16 e o metrô, R$ 2,59”.

A tarifa não deveria custar R$2,16 de forma alguma! Só poderia custar isto se levássemos em conta, como Haddad e MPL o fazem, que o transporte continuará sendo fonte de lucro para empresários! Se queremos um transporte que possa ser de fato gratuito, precisamos estar nas ruas levantando a bandeira de estatização imediata de todas as empresas privadas de ônibus! Sem indenização e muito menos subsídio para os empresários parasitas, que ao longo de anos lucraram às custas de nosso direito ao transporte! O MPL se furta a levantar esta demanda, e enquanto na última quinta-feira apánhavamos da polícia nas ruas, Haddad anunciava a uma licitação no valor de R$46,3bilhões para renovas as concessões às empresas privadas por mais15 anos! E o MPL não diz uma palavra a respeito disto, nem levanta esta demanda em momento algum! Precisamos estatizar o transporte, mas não queremos que ele fique nas mãos dos governantes corruptos e suas maracutaias! Quem sabe as reais necessidades de transporte são os trabalhadores dos transportes e os usuários! Por isto, defendemos que a bandeira central de nosso movimento seja a ESTATIZAÇÃO SEM INDENIZAÇÃO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE SOB CONTROLE DOS TRABALHADORES E USUÁRIOS! Só desta forma podemos lutar de forma consequente pela bandeira de PASSE-LIVRE PARA A JUVENTUDE, ESTUDANTES E DESEMPREGADOS! E também pela REDUÇÃO RADICAL DAS TARIFAS!

Da “Tarifa Zero” ao desvio da luta para a "suspensão" do MP


Contudo, o que o MPL tem feito concretamente hoje na luta é muito aquém da luta pela Tarifa Zero ou até mesmo da suposta “tarifa justa” que, segundo eles, “deveria custar R$2,16”. Isto porque, falando de forma ilegítima em nome dos milhares que estão nas ruas, o MPL anunciou em uma audiência pública que suspenderia as manifestações caso a prefeitura aceitasse o acordo proposto pelo Ministério Público de São Paulo de “suspender” o aumento por 45 dias. Com isto, o MPL quer mostrar ao governo e a mídia que vem nos atacando virulentamente que não são “intransigentes” e estão “dispostos ao diálogo”. Mas, na verdade, se trata de um balde de água fria na luta. O MP quer interceder na luta para desmobilizar os milhares que estão nas ruas e garantir para Haddad e Alckmin um cenário mais favorável para o aumento. E o MPL, ao invés de apostar na mobilização independente dos trabalhadores e da juventude para dobrar o governo, aposta nos acordos “por cima” com as instituições do regime. Para nós da Juventude às Ruas e da LER-QI, isto é um grande equívoco: partimos da concepção de que a juventude e a classe trabalhadora devem confiar apenas em suas próprias forças, e não dar crédito à “boa vontade” das instituições do regime, seja o judiciário, o executivo ou o legislativo. Um exemplo recente que mostra o tamanho do equívoco de nos iludirmos com estas concessões (que na verdade só são feitas graças à força do movimento e para tentar desviar nossa luta sem que ela conquiste suas verdadeiras demandas), é o caso do Pinheirinho, em que a organização que dirigia as mobilizações em defesa dos moradores (PSTU), “cantou vitória” antes da hora com a decisão judicial de suspender a reintegração de posse e, assim, os moradores foram pegos de surpresa na madrugada pelo contingente policial.

É para impedir que o MPL ou qualquer outro “representante” ilegítimo de nosso movimento tente vender nossa mobilização por migalhas que precisamos de um Comitê democrático, formado por entidades sindicais, estudantis, organizações políticas e delegados eleitos em assembleias de base, para que possamos decidir coletivamente e de forma democrática, pelos que estão na luta, quais as nossas demandas, quais as nossas táticas e como vamos negociá-las com o governo.

Vamos às ruas apostando nas forças de nossa mobilização independente para derrotar a polícia, o governo e os empresários do transporte! Nenhuma ilusão no acordão do MP!

Por um Comitê democrático para decidir os rumos da mobilização!

Liberdade a nossos presos! Arquivamento de todas as acusações!

Estatização sem indenização das empresas de ônibus sob controle dos trabalhadores e usuários!

Passe-Livre para os estudantes, a juventude e os desempregados! Redução radical das tarifas!



sábado, fevereiro 16, 2013

Carta aberta de um estudante denunciado e suspenso, aos calouros da Letras


Caros calouros,

Queria antes de tudo dar as boas vindas a vocês a esta universidade. Vocês estão entrando em um curso que, apesar de seus imensos problemas, tem muitas coisas boas para quem souber aproveitar. Digo isto com a propriedade de quem ingressou no curso há algum tempo, fez a graduação e a licenciatura, e hoje cursa a pós-graduação. Estudar em uma universidade como a nossa deveria ser um direito de toda a população; afinal, todos a financiam através do ICMS – um imposto regressivo, ou seja, os pobres pagam proporcionalmente mais do que os ricos. Mas, como disse Kant: Todo direito que não é universal torna-se um privilégio. E, infelizmente, é esta a realidade das universidades públicas no Brasil hoje: são um privilégio para poucos.

Assim, acredito que quando ingressamos aqui assumimos também uma grande responsabilidade; de lutar para que esta universidade seja, de fato, pública em todos os seus sentidos. Isso significa questionarmos desde seu acesso – hoje negado à imensa maioria do povo trabalhador, dos pobres, dos negros, pelo vestibular, que nada mais é do que um filtro social travestido de uma prova que atestaria o “mérito” ou a “capacidade” de estudarmos aqui. Mas também questionarmos todo o resto: o conhecimento aqui produzido, seus critérios, a serviço de que(m) ele está, a forma como tudo é decidido na universidade e até mesmo o acesso ao espaço físico do campus Butantã.

Quando entrei aqui, conheci esta responsabilidade e, a partir de meu contato com o movimento estudantil, o movimento de trabalhadores, as greves em defesa da educação, fui progressivamente vendo a importância destas lutas e a necessidade de participar delas. Posso dizer que aprendi tanto ou mais fora das salas de aula do que dentro delas, vendo como se dá na prática a disputa por um projeto de universidade (ou, se quisermos usar um termo bastante expressivo, mas que é escondido de nós porque afirmam de maneira cínica ser “ultrapassado”, fui vendo como se dava a luta de classes dentro da universidade).

Foi por causa desta responsabilidade que fui preso, no dia 8 de novembro de 2011, junto a outras 71 pessoas, que incluíam estudantes, funcionários e apoiadores, na reintegração de posse levada a cabo na reitoria da USP por 400 policiais fortemente armados. A ocupação da reitoria da USP era contra a presença da polícia militar no campus, e os motivos dos estudantes foram sistematicamente deturpados pela mídia, pela reitoria e pelo governo. Alckmin, após nossa prisão, disse que precisávamos de uma “aula de democracia”.

Antes de entrar na USP eu acreditava, como talvez a maioria de vocês ainda acredite, que a polícia servia para proteger as pessoas. Contudo, descobri já no meu primeiro ano que seu papel é bem distinto: em uma sociedade dividida em classes sociais, onde alguns sobrevivem da exploração do trabalho de muitos, ela serve para manter as coisas tal como são: os pobres em seu lugar. Não à toa, a polícia de São Paulo é uma das mais assassinas do mundo. Aqui na USP ela entrou para reprimir o movimento estudantil e de trabalhadores, para legitimar medidas autoritárias e arbitrárias como a demissão inconstitucional (pois foi feita sem sequer um processo no ministério do trabalho e por motivos políticos) do diretor do Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp), o Brandão; ou a expulsão recente de seis estudantes que lutavam por mais vagas na moradia, um direito elementar de permanência estudantil que é a única forma de garantir o acesso de muitos à universidade. Contudo, fora da universidade a polícia é ainda pior; logo aqui ao nosso lado, na favela da São Remo, vizinha à USP, podemos ver exemplos cotidianos disso. No carnaval de 2007, Cícera, uma trabalhadora terceirizada da  lanchonete da Faculdade de Educação, recebeu uma “bala perdida” de um policial e morreu. A prova do crime “sumiu” dos arquivos da polícia e seu assassino foi inocentado pelo Estado. Neste ano, o adolescente Genilson, de apenas 15 anos, que era aluno de uma amiga minha em uma escola do Rio Pequeno, foi assassinado pela polícia também na São Remo. São pequenos exemplos de uma prática cotidiana de uma polícia que vem matando uma média de 16 pessoas por dia nos últimos meses, em especial a juventude pobre e negra das periferias (os mesmos que não podem estudar na USP).

Porque eu sou contra a presença desta polícia no campus, porque eu sou a favor da democratização da universidade, porque eu sou contra a violência praticada pela polícia nas periferias, porque eu defendo a liberdade de organização política de estudantes e trabalhadores, eu estou sendo acusado de forma completamente injusta pela reitoria e pelo ministério público. Aplicaram-me uma suspensão de cinco dias – e a outros colegas de quinze – com base no “código de ética” e em um decreto (52.906 de 1972 no Estatuto da USP, recomendo a leitura) que data da ditadura militar e proíbe na universidade manifestações políticas e “atentados à moral e aos bons costumes”. A aberração jurídica da denuncia do ministério público é gritante, com acusações absurdas de formação de quadrilha. Pois é assim que tratam agora quem não se cala e se manifesta contra o que é injusto.

Escrevo esta carta para vocês por alguns motivos: para esclarecer os motivos destas punições e a arbitrariedade e injustiça da acusação que pesa sobre mim e tantos outros; para chamar a que vocês, ingressando na universidade, não se esqueçam que hoje têm acesso a um privilégio que deveria ser um direito, e assumam a responsabilidade por isso; que saibam que o primeiro passo para lutar por democracia nesta universidade é a defesa dos que hoje são perseguidos por lutar por isso. E, por fim, e talvez mais importante: para que não tenham medo. Este é o principal objetivo de nossos acusadores: calar a voz dos que lutam. Intimidar, assustar e acuar todos os que possam protestar contra as arbitrariedades, autoritarismo e injustiça. Não se calem, não se resignem, não se tornem apáticos, e nem sejam cooptados pelos “privilégios” de estudar na USP. Por isso, chamo todos a se mobilizarem contra as punições hoje em curso, pela reintegração dos estudantes já expulsos e de Brandão.

Coloco-me à disposição para conversar com todos os que queiram.

Fernando Pardal.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O tempo em que se gesta uma vida

É difícil parar para pensar nela. Sempre foi, mas antes era inevitável, não havia escolha. Quando eu acordava, quando dormia, em qualquer momento que minha cabeça ficasse minimamente tranquila, sua memória vinha. Ironicamente, eu morria de medo de perder estas memórias, que eu julgava serem tudo o que me restou dela. Já não tenho mais medo de perder as memórias, e tampouco acho que foram tudo o que me sobrou dela. O que me fica da cami está profundo demais em minhas veias para que eu possa perder. O que me fica é muito mais do que esta tristeza que não se vai; aprendi a ser mais próximo do que quero que a humanidade seja; aprendi também a viver com a dor, com a saudade, com o arrependimento, com o incerto.

Pensei muito sobre sua morte, e muito em sua vida a partir da perspectiva desta morte. Muito em como o duro combate acabou por derrubar uma combatente que ainda tinha muito para dar, para viver, para descobrir, aprender e ensinar. Não tem jeito: o gosto da morte fica, amargo, intransponível. Creio que ficaria de toda forma, mas uma morte terrível como a da cami sem dúvida fica mais, e não dá pra não ser assim. Só que o tempo dá um certo equilíbrio às coisas. Coloca a tristeza em perspectiva, e eu vejo como ainda falta muito para que esta tristeza e esta dor fiquem no lugar certo diante do que foi sua vida, do que ela foi para mim e para o mundo em que teve a oportunidade de ser a pessoa maravilhosa que foi, ainda que muito, muito aquém do que deveria ter sido. Ela precisava ter sido mais, o meu desejo de que ela fosse mais nunca vai se esvair. Mas ele vai se aquietar um pouco, como já começou a se aquietar.

Nos primeiros meses não se sabe medir o tamanho da dor. A vida é luto, a vida é estúpida, amarga, sem sentido e horrível. Droga, droga, não queria que fosse assim. Passo alguns meses deixando ela ali, subjacente, latente na vida. Nunca a esqueço, mas quando a puxo pro primeiro plano é uma facada, uma ausência terrível. As lágrimas são um pequeno sinal de uma saudade que não dá para entender, não dá pra mesurar. A serenidade se esvai, me vem seu rosto, sua dor, sua saudade. Como posso te lembrar serena se não foi assim que partiu? Como posso te desejar uma memória serena se não foi isso que consegui compartilhar com você em vida?

Eu lembro de momentos tranquilos, do seu sorriso calmo. Eu lembro hoje do sorriso calmo, meio envergonhado, de quando eu olhava apaixonado. A fumaça subindo do canto da boca, de lado. A serenidade era um presente raro, mas nós o tivemos por alguns meses. Nós o roubamos uma vez ou outra. Lembro da última vez, a última vez que roubamos à vida um momento de calma, um momento nosso para sonhar com uma vida que ela não pôde ter. Sentados nas pedras, fomos felizes, juntos, uma última vez.

Eu lembro de vezes que consegui segurar sua dor entre as mãos, de ter certeza que ela iria ser menor do que a vida, do que a luta por mudar a vida. Lembro de ter sentido o tamanho imensurável de uma dor que era sua. Eu consegui te ouvir, consegui estar com você. A dor também tem seus momentos de serenidade, e me lembro de você afagando calmamente meus cabelos quando eu chorei também. Havia felicidade na cumplicidade da dor, do sentimento mais profundo e verdadeiro que era a dor. E quando ela era nossa.

Queria te dar um último abraço e sentir sua dor. É tarde, muito tarde. Sua dor foi enterrada. Ela deixou heranças, que se dividem em pequenos pedaços, em vários continentes e vidas, das pessoas que te amaram, que te choram e sofrem. Gestamos esta dor, por nove meses, em nossas vidas. O luto, o luto eterno passou. A luta pela vida é maior e vence. Mas a dor permanece, ali, para ser puxada pela mão à tona em noites como esta, em que te lembramos, em que beijamos as memórias dos momentos doces e das dores que dividimos com você. E esta dor que um dia foi sua e imensurável, que venceu a batalha pela vida e por mudá-la, se transformou em uma teia fina, invisível e insolúvel que liga estas pessoas. Pessoas que te conheceram em diferentes momentos, que te amaram de formas diferentes e com motivos diferentes. Te lembramos e lembramos sua dor. Lembramos seus sorrisos e coisas que cada um carrega, pequenos segredos. Com os fios desta teia tecemos sua memória em diferentes cores. Nenhum de nós te esquece, e nenhum pode te levar conosco. Levamos apenas estas memórias, estas mudanças que deixou em cada um de nós.

Em nove meses se gesta uma vida humana. São nove meses sem a sua vida. Parece uma eternidade desde que a vi pela última vez. Não achava que seria a última; queria um abraço, só um abraço... levo esta dor nas alegrias de hoje, nas lutas por um futuro melhor. Um futuro que possa perdoar o que somos hoje e o que fomos ontem. Ele vai vir, e carregará nossas memórias nele.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Na São Remo, o genocídio. Na imprensa, a hipocrisia


A polícia mais assassina do mundo e a política de militarização dos governos do PT e PSDB 

A Polícia Militar de São Paulo já ficou internacionalmente famosa por ser a segunda polícia mais assassina do mundo (a primeira é a do Rio de Janeiro!). Contudo, o que ela fazia antes empalideceu diante de sua atuação recente. A mídia, afoita, noticia dia e noite as mortes de policiais, mas omite números como o de que para cada policial morto, 41 civis são assassinados pela policia no Rio de Janeiro, isso no ano de 2007. Hoje, do jeito que a polícia de São Paulo está, esta proporção deve ser ainda maior. Por isso, quando se fala de "guerra civil", está se cometendo um equívoco: trata-se de genocídio sistemático de uma população que tem renda e cor: são os negros e pobres da periferia de São Paulo.

A operação saturação em Paraisópolis, que sitiou a favela com 600 policiais e o abuso sistemático de todos os direitos dos moradores, agora conta com um reforço de peso: a vitória de Haddad em São Paulo trouxe imediatamente a atenção do governo Dilma para fazer de São Paulo o novo foco de sua política de militarização das favelas com as UPPs, botando as forças de segurança nacional para reprimir cotidianamente os moradores. Dilma quer militarizar a Paraisópolis! 

Os moradores da São Remo que construíram e mantém a USP são atacados pela reitoria e o governo

Aqui ao lado da USP, na São Remo, onde moram muitos dos trabalhadores da universidade - e particularmente os que ocupam os trabalhos mais precarizados, os terceirizados - a situação é escandalosa. A história da favela da São Remo e do campus Butantã da USP estão umbilicalmente ligadas, pois aquela começou a ser erguida justamente pelos trabalhadores que construíram os prédios da universidade. Situada em um terreno que oficialmente pertence à universidade, não foi sem muita luta, contando inclusive com o importante apoio dos trabalhadores da USP, que os moradores da São Remo conseguiram se manter ali. Foi também graças à sua mobilização, ao lado dos moradores de outras partes do Butantã, Rio Pequeno etc, que se construiu o Hospital Universitário da USP (que, diga-se de passagem, a reitoria tem planos de privatizar através de uma OS, um tipo de privatização que Haddad apoiou enfaticamente em sua campanha). A universidade cresceu, as condições de emprego se precarizaram: implementou-se a terceirização na universidade, com trabalhadores que não tem acesso a direitos trabalhistas elementares. Um deles, o vale transporte. 

Muitas empresas contratam apenas pessoas que morem num raio de até dez quilômetros da universidade, pois assim não pagam o vale. Claro, há trabalhadores terceirizados que se deslocam de pontos extremos da cidade para a USP, e que são ainda obrigados a falsificar seu endereço para trabalhar em condições absurdas. Também por isso, são centenas os trabalhadores terceirizados da universidade que vêm das favelas da região: favela do jaguaré, Vila Dalva, São Remo... Muitos destes trabalhadores contavam com o circular como o único auxílio que tinham para se transportar até seus locais de trabalho. Rodas, com uma canetada, cortou os circulares e privatizou o sistema de transporte da USP através da implementação do BUSP (o transporte é feito pela SPTrans através das empresas privadas concessionárias e a "comunidade USP", da qual a reitoria faz questão de excluir os terceirizados, pode andar mediante o uso de um bilhete especial). Assim, da noite para o dia todos os terceirizados perderam o direito de andar de circular e ganharam alguns quilômetros a mais em seus trajetos diários. Isto representou também um outro ataque, pois os motoristas dos circulares foram desviados de sua função, e este cargo está extinto na universidade em nome da privatização. Para calar os estudantes diante disso, a reitoria estendeu o trajeto até o metrô (sendo que a própria reitoria vetou o projeto original do metrô que previa duas estações dentro do campus! Uma na Praça do Relógio e outra no HU).

Os trabalhadores terceirizados e moradores da São Remo já não tem direito a nada na universidade: não podem usar o CEPEUSP, as bibliotecas, nem sequer comer no bandejão. Apesar de terem construído a universidade e fazerem ela funcionar a cada dia, a universidade elitista e racista simplesmente os classifica como "elementos estranhos" (lembremos que um dos fundamentos para a demissão inconstitucional de Brandão, diretor do Sintusp, em 2008, foi ter defendido estes "elementos estranhos" à USP em suas mobilizações contra atraso de salários e direitos, uma das marcas inconfundíveis destas empresas parasitas na universidade). As humilhações e abusos a que estão submetidos estes trabalhadores cotidianamente foram escancaradas na greve da União em 2011.

Contudo, a reitoria não considera o suficiente manter esta semiescravidão para galgar os degraus dos rançosos e meritocráticos rankings internacionais: decidiram que era necessário tirá-los de suas casas, afinal, pega mal para uma universidade de excelência que todos vejam a pobreza e exploração sobre a qual ela se sustenta bem ali, a olhos vistos, colada no muro da universidade. Então veio o projeto de "reurbanização" da São Remo, que pretende desalojar todo mundo e fazer uma coisa, assim, mais USP pra ficar ali, né?

Nem todos sabem, mas a remoção já começou aos poucos! Com duzentas casas removidas, os moradores recebem um "auxílio" de 300 reais (como eu queria ver o Rodas morar com este dinheiro!). A resistência, por outro lado, também já está de pé, com o Sintusp e a Associação de Moradores da São Remo na linha de frente.

São Remo militarizada e a campanha reacionária da imprensa

Sob o pretexto do assassinato de um soldado da Rota, a polícia está mantendo um verdadeiro estado de sítio. De estudantes da  universidade que dão aulas nas escolas ao redor da USP, já soubemos de alguns casos de jovens, alunos seus, assassinados. Em geral, o único motivo é estarem na rua após o horário permitido pelo toque de recolher. O boletim do Sintusp de hoje noticia: "Uma companheira, funcionária da USP, que teve sua porta arrombada pelos coturnos dos soldados, pediu o mandato judicial e recebeu dois tapas no rosto de um policial que gritava: "está aqui!". Em várias outras casas, os policiais quebraram móveis, eletrodomésticos e, quando os moradores protestaram dizendo que eram trabalhadores, ouviram dos policiais que quem mora na favela e não paga IPTU é bandido"

Esta situação já perdura há semanas, mas agora se agravou muito com a ocupação das polícias civil e militar. Agora, a mídia está em polvorosa com sua campanha reacionária, em que unifica os "maconheiros da USP" com os "traficantes da São Remo" e clama histericamente pela polícia para reprimir ambos. Este artigo   de Dennis de Oliveira mostra bem a postura da mídia diante da São Remo. Os estudantes da USP, que no ano passado travaram uma luta exemplar contra a polícia, não podem se calar diante deste absurdo! Ontem, os estudantes da Letras começaram a dar uma resposta. Agora, é fundamental que cada estudante e cada entidade passem a construir a reunião de segunda-feira, às 16h, no Sintusp, em que estará presente a Associação de Moradores da São Remo, para podermos organizar uma resposta unificada e à altura da repressão policial que está ocorrendo! Todo apoio aos moradores da São Remo!


domingo, outubro 28, 2012

Professora Marilena, vamos aos fatos

Nesta semana, os petistas da USP realizaram um ato pró-Haddad. O ato foi encabeçado pelo próprio PT e pela Consulta Popular, que nesta eleição tem mostrado um papel vergonhoso de ser mais petistas que o próprio PT. Este post é para debater especificamente a fala da professora Marilena Chauí neste debate, que ao longo dos anos tem se mostrado como uma das maiores defensoras ideológicas do PT na USP (tendo chegado às raias do absurdo ao afirmar, durante a eleição de 2010, que o bolsa família era uma espécia de "via brasileira ao socialismo"). Então, antes de mais nada, aí vai a intervenção dela neste debate:



A Juventude às Ruas esteve presente no ato, panfletando sua declaração pelo voto nulo programático no segundo turno em São Paulo e com cartazes que diziam "não há mudança com Maluf nem com o dinheiro da OAS (empreitera que doou um milhão para a campanha de Haddad) e da burguesia". 




Assim, pôde-se perceber, nitidamente, que nossa presença incomodou os petistas, e uma parte da fala de Chauí procurava combater justamente nossa posição pelo voto nulo. Mas vamos por ordem.

A professora ressalta que, em sua visão, há três formas de recusar a política: a primeira é uma concepção teológica do poder, de que o poder emana de uma fonte religiosa, divina, dogmática. Depois, mais à frente, ela afirma que Haddad combateria isto, pois não está com "os Malafaia da vida" (em referência a Silas Malafia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que declarou seu apoio a Serra). Ora, muito curioso isto, pois NO MESMO DIA do debate na USP, o candidato de Chauí que supostamente combate os "dogmas religiosos" dos "Malafaias da vida", apareceu publicamente recebendo apoio de 20 líderes religiosos de 11 igrejas e nove entidades evangélicas. Olha a cara de alegria do futuro prefeito ao receber os ensinamentos de Deus:



Em troca, Haddad prometeu dar um basta na lei do PSIU que proíbe que os crentes façam quanto barulho quiserem com a pregação de suas ideologia, ops, teologia da prosperidade. A lei do PSIU é escrota e reacionária, mas Haddad vai acabar com ela para garantir o apoio dos crentes. Me diga, professora, onde está o combate aos dogmas religiosos? Nos últimos dias, milhares de crentes receberam instruções de seus pastores para votar na "mudança" de Haddad. Denunciamos isto no ato, prontamente: pode-se ouvir, após Chauí falar o nome de Malafaia, a Juventude às Ruas gritando: "Edir Macedo!", falando dos aliados de Haddad.

Em seguida, Chauí volta sua artilharia retórica diretamente contra a Juventude às Ruas, recorrendo a Maquiavel e falando sobre os "moralistas" que olham "o céu dos princípios" para ignorar a "prática verdadeira que ocorre na terra". Por trás da excelente oratória de Chauí, que aprendeu muito com o mais brilhante conselheiro da monarquia, o que ela está dizendo é simplesmente isso: em política, não se deve ter princípios, mas sim entrar de cabeça na lama da política burguesa. É uma demagogia pomposa em defesa de uma política suja e sem princípios. O mesmo argumento pode ser utilizado para justificar o mensalão do partido de Haddad. 

Vamos então olhar mais de perto a "prática concreta" e sem princípios que defende Chauí: o PT, em seu discurso (ou seja, no campo "utópico" dos princípios) diz governar para os pobres (há algumas décadas seria para os trabalhadores, mas hoje acham este discurso já muito "ultrapassado" e os trabalhadores ficam só no nome do partido mesmo). Na "prática concreta", contudo, o PT militarizou os canteiros de obras em Jirau, Suape e outras obras do PAC, impedindo o direito de greve dos setores mais explorados e precarizados do proletariado brasileiro; cortou o ponto de grevistas do funcionalismo federal; autorizou o despejo de centenas de Guarani-Kaiowá (que, no campo dos princípios, bem como no Facebook, os petistas continuam defendendo e se comovendo, mesmo que seja o seu governo aquele que está fazendo isto). No campo dos "princípios", o PT defende a educação pública; mas na "prática cotidiana", Haddad transferiu milhões das verbas publicas para os empresários da educação através do Prouni (calcula-se que com a verba de cada vaga no Prouni poderiam ser abertas três vagas em universidades federais. No campo dos "princípios", Haddad e o PT defendem a saúda pública; mas na "prática concreta" ele garante manter a privatização da saúde em São Paulo através das chamadas "Organizações Sociais" (OS), que são empresas privadas que administram os hospitais públicos, e lucram muito com isso enquanto milhares de pessoas padecem nas filas. No "céu dos princípios", o PT combate as oligarquias reacionárias, as heranças da ditadura, luta pelos direitos humanos; mas na "prática concreta", se alia com Maluf, o governador biônico da ditadura que é responsável pela criação da vala clandestina do cemitério de Perus, onde foram enterrados centenas de jovens negros, pobres, trabalhadores e militantes de esquerda torturados e assassinados pela ditadura; o Maluf do "Rouba mas faz", "estupra mas não mata" (afinal, ele também é um homem que faz a "política concreta", e, segundo sua própria análise, perto do PT é um comunista, pois ele sabe o quanto os banqueiros e empresários lucraram nos anos de Lula e Dilma no poder). No "céu dos princípios" o PT é lindo, mas na "prática concreta" governa para os empresários, para a burguesia, ao lado dos Sarneys, Collors e Malufs que em seus "princípios" tanto combateram.

Para Chauí, provavelmente o "céu dos princípíos" é para a sala de aula. Lá ela diz, como no debate, que "está com o bem e com a verdade". Já em sua prática política, ela está no vale tudo dos partidos podres do regime. Para os marxistas o critério é distinto: nossos princípios são o guia de nossa prática política cotidiana, e não um palavrório para nos consolar de uma prática concreta mesquinha. Quem de fato exerce uma separação entre os princípios e o cotidiano é o PT e seus ideólogos, como Chauí, que se contenta em falar sobre o socialismo e manter-se na lama da política burguesa. Nós, pelo contrário, nos apoiamos em exemplos como o de Lênin, que por décadas travou uma luta incansável para construir uma ferramenta política dos trabalhadores que, no momento correto, soube tomar o poder das mãos da burguesia. Que fez uma política persistente, consciente e planejada. Ao estouro da Primeira Guerra Mundial, praticamente todos os "marxistas" da Segunda Internacional souberam, como Chauí, abandonar o "céu dos princípios" do internacionalismo proletário para fazer a "prática concreta" de apoiar as "suas" burguesias nacionais na carnificina imperialista. Lênin e Trotsky, ao contrário, soube guiar sua política concreta pelos seus princípios, e, mesmo isolados e em minoria, defenderam a política correta, do internacionalismo proletário. Se reuniram, em 1915, na conferência internacionalista de Zimmerwald, pouco mais de uma dúzia de revolucionários, que eram tudo o que havia restado de marxismo principista, que lutava pela unidade dos trabalhadores contra a burguesia. Souberam ser minoria e lutar contra a "prática concreta" do social-chauvinismo.

Hoje, também, os revolucionários são uma pequena minoria. E, como em momentos passados na história, desdenham de nossa "incapacidade" de fazer política concreta, ou seja, de "estar com as massas" custe o que custas, seja lá com que política for. Ao discurso de Maquiavel de Marilena Chauí, os revolucionários opõem o discurso de Lênin, em "O que fazer?": "É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles"

Como disse a própria Chauí, a terceira maneira de se abster de fazer política é se dobrar diante da ideologia burguesa, "aceitar a tirania, a ditadura do imaginário dominante e não me colocar a altura de quebrá-lo, de rachá-lo de ponta a ponta". Sim, nos propomos exatamente a fazer isto, e não há nada mais distante de enfrentar o imaginário dominante do que votar em Haddad e "lavar as mãos". Chauí dá, como exemplo deste imaginário dominante, "a ideia de que a política é a ação de técnicos modernos, responsáveis e competentes que se apropriam de todo o espaço público para agir em nome dos interesses privados da classe dominante".

Vamos ver então um programa que apresenta um "técnico competente":




O discurso de Chauí é ideológico, porque falsifica o que é Haddad, seu projeto de governo, sua campanha. Para ganhar as eleições em São Paulo, Haddad se mostra como o "técnico competente" que vai resolver tudo com seu "Arco do Futuro", uma panacéia digna das grandes obras que "foi Maluf que fez". Os problemas, na campanha de Haddad, deixam de ser políticos para serem técnicos. Em verdade, o "Arco do Futuro" de Haddad irá beneficiar empreiteiras como a OAS, que "doou" (ou, mais precisamente, investiu) um milhão de reais na campanha de Haddad.

O argumento que cooroa a exposição de Chauí é o corporativismo universitário, que chama o voto em Haddad porque este é "professor da USP". Que importa isto para os trabalhadores e a população pobre de São Paulo?! Nada, e Chauí bem sabe disto, mas como está fazendo a "política concreta" na USP, irá recorrer ao sentimento corporativista dos estudantes ali presente para votar em um candidato que "nos represente". O Ministro da Educação, que ela reivindica que "paralisou" a privatização de Paulo Renato, foi o que privatizou as verbas públicas através do ProUni. A única coisa que Haddad "paralisou" foram as dezenas de universidades federais que entraram em greve neste ano contra a política de ensino precário de Haddad através do Reuni, em que os estudantes não tem salas de aula, bibliotecas, bandejões, alojamentos, professores (e estes não tem salários decentes).

Professora Chauí, nos mantemos no campo dos que lutam contra uma política que mantém milhões em uma vida de miséria, enquanto mantém a riqueza nas mãos de poucos. É isto que o PT, por vias distintas (e muitas vezes mais eficaz) daquelas do PSDB, tem feito ano após ano. Combatemos também os intelectuais vendidos, que tem colocado seu prestígio e seu mérito a serviço de produzir ideologia a serviço da dominação burguesa. É isso, infelizmente, que o discurso de Marilena Chauí fez nesta última semana, e tem feito ao longo de anos. Nossos princípios nós não abandonamos.