segunda-feira, outubro 22, 2012

Os mandatos operários de Cléber e Amanda: uma oportunidade que não deve ser perdida

No primeiro turno das eleições municipais, se expressou um sintomático crescimento da esquerda (que analisamos mais detidamente na declaração da LER-QI). É necessário, em primeiro lugar, fazer a distinção entre PSOL e PSTU. Aquele, teve um expressivo aumento eleitoral, dobrando o número de vereadores, conquistando uma prefeitura e elegendo seu primeiro vereador na maior cidade do país. O PSTU, por outro lado, teve vitórias muito menos expressivas, do ponto de vista quantitativo, elegendo dois vereadores em capitais (Amanda Gurgel em Natal e Cléber Rabelo em Belém).

A trajetória acelerada e sem freios do PSOL rumo a ser "sócio menor" do regime burguês apodrecido

Contudo, do ponto de vista qualitativo não há comparação possível. O PSOL dá passos cada vez mais firmes rumo a ser nada mais do que mais um partido de um regime podre, a ala esquerda da miséria que a "democracia" burguesa pode nos oferecer. "Mas será que você não está exagerando? O PSOL participa de lutas, de movimentos sociais etc" poderiam objetar-me. Bom, como marxista, que procura olhar para as coisas (e aí também os partidos) como de fato são (e não como dizem ser!) e extrair as lições de uma realidade necessariamente contraditória, afirmo com toda a certeza que o PSOL segue um caminho decidido para ser uma perna bamba e "socialista" do regime burguês. Mesmo que muitos em suas fileiras, até os de suas alas mais à direita, como é o MES (Movimento de Esquerda Socialista), reinvidiquem Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa e Gramsci, sua prática nada tem a ver com os ensinamentos e a vida destes revolucionários. Colocam em prática aquilo que Lênin já apontou em 1917: "Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para 'consolo' das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o. A burguesia e os oportunistas do movimento operário se unem presentemente para infligir ao marxismo um tal 'tratamento'. Esquece-se, esbate-se, desvirtua-se o lado revolucionário, a essência revolucionária da doutrina, a sua alma revolucionária. Exalta-se e coloca-se em primeiro plano o que é ou parece aceitável para a burguesia. Todos os sociais-patriotas (não riam!) são, agora, marxistas." Tristemente, o PSOL está muitíssimo mais próximo dos detratores em vida de Lênin, como os mecheviques e os socialdemocratas alemães, do que de Lênin e sua doutrina...

É exatamente naquela fatia que Lênin classificou como "os oportunistas do movimento operário" que se encaixa o PSOL (ainda que possam existir indivíduos que são exceção, mas que no conjunto do partido não apenas não fazem diferença como colocam suas posições de esquerda para "lavar a cara" dos oportunistas de carreira; a estes, só resta abandonar o partido ou subordinarem-se às direções oportunistas). São oportunistas porque sua reivindicação fajuta de Lênin, sua atuação no movimento operário, estão sempre subordinados a melhor eleger parlamentares, a melhor aparecer como o partido da "ética" e "contra a corrupção". O que "esquecem" os oportunistas do PSOL é que, neste mesmo texto de Lênin supracitado, ele aponta, com vastas citações de Marx, a impossibilidade de um Estado burguês "ético" e sem corrupção. Isso porque, como afirma Lênin (baseado em Marx): "O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes.O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classe são inconciliáveis." E, apontando o que faziam os oportunistas de sua época: "De um lado, os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena burguesia, obrigados, sob a pressão de fatos históricos incontestáveis, a reconhecer que o estado não existe senão onde existem as contradições e a luta de classes, "corrigem" Marx de maneira a fazê-lo dizer que o Estado é o órgão da conciliação das classes. Para Marx, o Estado não poderia surgir nem subsistir se a conciliação das classes fosse possível.".

Os oportunistas "clássicos" da Segunda Internacional formularam com todas as letras esta concepção, de que o Estado poderia "conciliar" as classes e, desta forma, seria possível atingir o socialismo por vias pacíficas e por meio de reformas graduais. A história demonstrou seu erro diversas vezes. Aqui ao lado, no Chile, temos um exemplo trágico e inesquecível no reformismo de Salvador Allende, um reformista honesto que acabou por preparar o ascenso do fascismo em seu país entregando um ministério a Pinochet, que mais tarde seria o autor do golpe militar, para "acalmar" a burguesia raivosa. Foi mais um fracasso da concepção do Estado como órgão conciliador das classes. Hoje, o PSOL repete a mesma concepção, ainda que, nos discursos, muitas vezes diga que não. Enquanto os revolucionários honestamente dizem que bebem na fonte dos grandes dirigentes do movimento comunista que nos antecederam, os oportunistas sempre afirmam estarem inventando "o novo". Allende falava da "via chilena" para o socialismo, sem lembrar que esta via fora em primeiro lugar a do oportunismo alemão; o PSOL diz que é um "partido novo", requentando estas mesmas táticas.

Mas, enquanto afirma ser um "partido necessário", vemos que sua trajetória não é mais que uma paródia dos grandes partidos de massa reformistas. Antes que possuam alguma expressão, sua degeneração oportunista é patente. Primeiro foram as doações da Taurus e Gerdau (fabricante de armas e monopólio do aço - analisamos esta doação neste artigo ) para a campanha de Luciana Genro à prefeitura de Porto Alegre, que vão contra um princípio elementar do marxismo: a independência de classe (como defender os interesses dos trabalhadores sendo financiado pela burguesia?). Também votaram seus parlamentares diretamente contra direitos dos trabalhadores, quando votaram a favor do Supersimples. Agora, até mesmo seu verniz de "ético" e "anti-corrupção" vai por água abaixo, quando um membro da sua Direção Nacional, Martiniano Cavalcante, comprovadamente recebeu 200 mil reais de Carlinhos Cachoeira (Vale lembrar que Martiniano é da corrente interna MTL, a mesma que dirige a oposição ao Sintusp em São Paulo, e que ele chegou a disputar a vaga de candidato a presidente com Plínio de Arruda Sampaio, sendo apoiado pelo MES). Em cidades como Macapá e Belém, o PSOL está recebendo apoio do DEM, PTB, PSDB. Seu ex-candidato a presidente recentemente declarou apoio a Serra, enquanto a direção municipal não vê nenhuma diferença entre o voto nulo e o voto em Haddad... o que sobra para o PSOL? E deixamos a pergunta para os que ainda tem esperança neste partido: o que poderia frear este curso acelerado rumo a ser um novo "mini PT"?
Veja o apoio de Lula ao candidato do PSOL em Belém:

 

O PSTU tem nas mãos a chance de colocar seus mandatos a serviço da luta de classes, mas para isso deve mudar a perspectiva destas vitórias táticas!

Deixando claro porque o PSOL, ainda que seu avanço eleitoral contraditoriamente represente algo progressista, NÃO é uma alternativa para os trabalhadores, passemos ao PSTU e seus novos vereadores. O PSTU é um partido operário, não recebe dinheiro da burguesia, defende em seu programa a revolução socialista e a ditadura do proletariado. Só por isso, já tem um abismo de distância com o partido pequeno-burguês e oportunista que é o PSOL. Contudo, não é de hoje que discutimos como o PSTU se distancia da herança revolucionária de Trotsky, apoiando candidaturas de conciliação de classes e justificando com todo tipo de malabarismo teórico. Sobre isso, vale ler este artigo, que desenvolve bem as questões de princípio envolvidas.
Agora, o PSTU rompe a frente eleitoral em Belém, sob o pretexto de que recebe o apoio de Lula. Para o PSTU, magicamente isto foi um salto de qualidade em relação a receber dinheiro da burguesia e fazer frente com o partido que é uma base sólida de sustentação do governo e uma das maiores "patas" da burocracia sindical no país, o PCdoB de Aldo Rabelo. Veja abaixo o vídeo do vereador eleito do PSTU explicando a ruptura:


E aí, se convenceu? Eu não...ele diz que havia um "critério de classe" na composição da frente. E onde vai a grana do empresariado que apoiou no primeiro turno neste tal "critério de classe", que só para o PSTU existia? Infelizmente, tenho que concordar com um colega da Letras, ex-militante do PSTU, que coloca esta postura do PSTU como extremamente oportunista, diante do fato de que seu objetivo central, a eleição de Cláber, está atingido. Não pode haver outra explicação, pois o curso oporunista da campanha de Edmilson seguiu plenamente coerente; quem não teve a coerência necessária a um partido operário foi o PSTU. Além disso, sob que base se justifica o voto crítico que continuam chamando em Edmilson? Cléber se cala quanto a este fator, nada secundário.

Contudo, estas contradições não anulam a notoriedade da eleição, de Cléber, mas, principalmente, de Amanda Gurgel. Com estes dois mandatos operários, os companheiros do PSTU estão convocados a transformar a tribuna do parlamente burguês num espaço de denuncia incansável do regime, do capitalismo, de apoio às lutas de todos os setores explorados e oprimidos, dos trabalhadores e da juventude. Mas será que o PSTU está neste caminho? Neste ponto, queria apontar a seguinte contradição. Este é o discurso da vitória de Amanda Gurgel, até pouco tempo a capa de entrada do site do PSTU:


Este discurso foi pronunciado para a militância do PSTU. Bem classista, né? Denuncia o regime, fala que é um mandato coletivo a serviço das lutas, diz que o parlamento é o território inimigo, que "o nosso lugar é a luta". Que diferença do discurso que Amanda tem feito para as massas, no horário eleitoral.


Onde está a crítica feroz ao regime ao dizer que "precisamos de mudança na câmara" e "contra o poder econômico temos a força das ideias". Na campanha de Belém, PSTU vai mais longe com o Slogan "Belém para os trabalhadores", como se uma eleição pudesse fazer Belém estar de fato a serviço dos trabalhadores! Isso é o contrário de como os revolucionários devem usar o parlamento, como diz Lênin, para acabar com as ilusões da massas de que ali se pode obter grandes "vitórias". 

A conquista de um lugar no parlamento, espero que os companheiros do PSTU a coloquem a serviço de um programa classista. Como exemplo, coloco o mandato dos deputados trabalhadores da fábrica sem patrões, Zanon, na Argentina. Veja a diferença de seu programa eleitoral:



Um recorte de classe, que defende a expropriação do petróleo sobre controle operário, coloca o mandato ligado a sua luta na fábrica. Espero que Amanda e Cléber passem a fazer este tipo de discurso, para ajudar a avançar a consciência dos trabalhadores (o que, muitas vezes, significa chocar-se com ela!)

Seguimos entusiasmados e ansiosos com os primeiros mandatos operários e independentes na tribuna burguesa do Brasil neste século, enquant avança uma crise internacional. Que o PSTU coloque estes mandatos a serviço da luta de classes, e isso será um grande trunfo nas mãos da classe trabalhadora! Uma nova trincheira, que pode ser útil na guerra de classes desde que usada como um posto avançado no território inimigo para lutar por nossas posições, sem recuar um passo sequer!
Avante!


terça-feira, outubro 09, 2012

Lo que importa: uma elegia a Camila Radwanski




“Há os que lutam um dia, e são bons;
Há os que lutam um ano, e são melhores;
Há os que lutam muitos anos, e são muitos bons;
Porém, há os que lutam toda uma vida; estes são os imprescindíveis.”
- Bertolt Brecht

“Cuando yo muera, no me llores en la tumba fria.
Buscame en las luchas del pueblo, soy viento de libertad”
- Anônimo

Minha geração nasceu em uma época triste; uma época de ceticismo, descrença e desesperança. Crescemos e formamos nossa consciência em um tempo em que se dizia que o pior do mundo era o único mundo possível. Nos ensinaram a crer nisso. Nos ensinaram que o melhor era pensar em nós mesmos, em nossa sorte. Que a vida era cada um por si.

Não foi a primeira vez que o mundo tornou-se sombrio para os que tinham esperança. Em todos os momentos em que isso ocorreu, os revolucionários foram tão fundamentais quanto sempre. Para nadar contra a corrente, para manter viva a chama-piloto que poderia incendiar o mundo quando ele se enchesse de indignação novamente. Para semear para o futuro a colheita que nunca veriam.

Camila foi desta geração. Nasceu e cresceu em uma camada social privilegiada, cercada pelos filhos dos ricos, pelo quais não passava a pobreza do mundo. Mas eram parte da miséria também, pois não é só aos trabalhadores, aos explorados que atinge a miséria. A pobreza de nossa época é psíquica, é moral, é subjetiva, e de todos os tipos. Os meios mais abastados materialmente sofrem também desta miséria, que enche a vida de um vazio insuportável.

Ela nunca se ligou aos que optavam por uma vida de mais do mesmo. Por seus caminhos tortuosos e difíceis, Camila penou pela miséria do mundo, a conheceu e sofreu com ela. Não se conformava, não aceitava, não abaixava a cabeça. Era uma pária naquele meio, como os que anseiam por mudança verdadeira têm sido uma pária neste mundo recente. Era uma estranha no ninho que procurava, com seus próprios meios, lutar contra uma vida de miséria. A miséria material, esta ela não conheceu. As outras, estavam com ela o tempo todo; viveu mergulhada nesta miséria psíquica de nosso tempo. Por formas e caminhos para os quais ainda não dispomos de instrumentos para mapear, ela foi profundamente golpeada por esta miséria; forjou sua própria subjetividade na luta contra isto.

A luta revolucionária, para alguém que penou tanto ao se deparar com tanta brutalidade, é um caminho quase natural. E ela fez disso seu sentido. Quando a conheci, cada fibra do seu ser já era tomada pela ambição revolucionária, de virar esta miséria de ponta-cabeça a golpes duros e bem orientados. Não há quem me convença de que não foi isto que a orientou durante a parte mais difícil e mais gratificante de sua vida; de que foi esta meta que a manteve viva, pulsando, lutando até o último segundo.



O sofrimento do mundo penetrou nas veias da Camila. Tornou seu psiquismo doente, abalado, destroçado em alguns aspectos. Como o corpo de um trabalhador que exerce as funções mais penosas se gasta, se destrói aos poucos, tornando-se uma máquina rota muito antes do tempo, assim penso que aconteceu com o psiquismo desta pessoa a quem tanto amei. Não tenho meios para prova-lo, mas é o que sinto. Que a podridão do mundo, a mesma que a encheu de vigor para lutar, é a que lhe dava pesadelos e vozes, enchia seus dias de dor e tristeza.

Ela não se rendeu. Do pouco e intenso tempo que a conheci, esta é uma certeza que carrego. Cada gesto seu era uma preparação para o futuro revolucionário. Quando muitos em volta acreditavam que Camila estava longe da luta, eu discutia com ela cotidianamente e em detalhes os nossos planos, os equívocos, o que era necessário mudar para avançar em nossa pequena organização revolucionária. Através de meus pensamentos e ações, em cada conversa nossa, ela aportava para a construção de uma organização que se prepara para mudar o mundo. Em cada conversa nossa, ela preparava a si mesma para poder se colocar de corpo e alma a serviço da revolução; de resto, a vida não valeria o esforço de ser mantida.

Nos anos que precederam, Camila foi ativa de diversas formas nesta luta. Quanto aos sonhos que tinha para um mundo melhor – do que gostaria de fazer se fosse livre – também soube colocá-los a serviço desta luta. Queria fazer cinema, fotografar, criar. Fez com isto, por exemplo, esta belíssima foto para a capa da segunda revista Estratégia Internacional Brasil, publicação da LER-QI.



Quando estudava na PUC, participou da criação do grupo de mulheres Pão e Rosas, que se colocava a tarefa de lutar contra todas as formas de opressão que as mulheres sofrem, mas tomando em suas mãos em primeiro lugar as demandas das mulheres trabalhadoras e a partir de uma perspectiva marxista. Em toda a sua militância, a questão da luta contra a opressão às mulheres e aos homossexuais sempre foi um dos aspectos que destacou sua atuação. Não apenas porque Camila sofreu estes dois tipos de opressão na pele, mas fundamentalmente por seu instinto de sempre se ligar aos setores mais explorados e oprimidos, uma marca dos melhores revolucionários.

Um dos legados importantes que nos deixa para continuarmos nossa luta são as traduções que fez para o livro “Lutadoras: histórias de mulheres que fizeram história”, para nossas revistas, jornais etc. 



Vinha sendo pioneira em abrir a discussão em nossa organização com mais profundidade sobre os direitos dos LGBTTI e a opressão contra este setor da sociedade. Uma de suas contribuições que me marcou foi o texto escrito junto com a camarada Fernanda sobre a aprovação do casamento igualitário para homossexuais na Argentina: “Casamentohomossexual é aprovado na Argentina: E no Brasil, quando vamos arrancar estedireito?”

A sua condição de saúde, contudo, sempre foi um obstáculo muito concreto ao seu desenvolvimento pleno como militante revolucionária, e isso era algo que a deixava profundamente triste. Seguiu lutando, como pôde. Recentemente, vinha discutindo mais solidamente como voltar à militância plena e organizada na LER-QI. Sempre que a encontrava este assunto não faltava nas nossas conversas, era uma angústia sua e minha pensarmos como poderia atender a todas as exigências de uma vida militante. Andava propondo de militar a partir de nossa editora, tomando mais tarefas de tradução, porque isso era algo que poderia fazer em casa, mesmo se não estivesse bem. Enfim, em cada palavra sua, na forma como tratava a LER-QI como “nós”, mesmo quando estava afastada, tudo deixava claro que a luta revolucionária era o pilar fundamental para lutar por uma vida que, apesar de todos os percalços, mantinha de pé a luta para seguir adiante.

Além da saudade imensa e incontornável de sua presença insubstituível, Camila deixa um bocado de lições aos revolucionários. Que, se Trotsky dizia, nem só de política vive o homem, podemos dizer até mesmo que nem só de política vive um partido. É necessário, e isso aprendia com Camila sempre, sabermos ouvir e entender as pessoas. Aprendemos, ao olhar sua vida e sua luta para se dedicar até o fim à revolução, o que é verdadeiramente ser um revolucionário. O que a matou, no fim, foi ver-se impossibilitada de entregar-se tão completamente quanto era seu desejo. “Lo que importa”, dizia seu álbum de fotos com retratos de lutas nas quais tomou parte, com obras de arte em homenagem à revolução. Camila sabia que, em um mundo devastado e quando nós mesmos nos encontramos devastados, o que realmente importa é lutar por um mundo novo e uma humanidade livre; é entregar nossa vida a esta causa, que é o melhor que uma pessoa pode fazer hoje. Ela deu sua vida a esta causa, integralmente. Traduziu em cada fibra do seu ser o sentido das palavras de Trotsky em seu discurso de fundação da IV Internacional: “O partido exige-nos uma entrega total e completa. Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido significa encontrar a si mesmo. Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão”.



Aos seis meses de sua partida, continuamos carregando, hoje e sempre, a tristeza infinita por sua morte; mas esta dor é herdeira de sua certeza: se esta vida vale a pena ser vivida, é para lutar com todas as forças para que ela se transforme em algo distinto.

Camila Radwanski presente! Hoje e sempre!


quinta-feira, outubro 04, 2012

A arte revolucionária e independente não pode ser "reduto" nem de Serra e nem de Haddad!




Foi divulgado no Facebook um e-mail de um membro da Cia Os Satyros de teatro que mostra o que todos já sabem: sua ligação orgânica e umbilical com o PSDB e, particularmente, com Serra. Eis a peça:

"Assunto: [psdbcultura] socorro!
Enviada: 03/10/2012 21:25

Queridos,
Sexta vai ter uma manifestação aqui na Roosevelt, organizada a partir do Face. Na verdade, eles se dizem apartidários, mas cheguei a noticia de que vêem em nome do PT. Precisamos fazer alguma coisa e com urgência. Não sei, talvez nos reunirmos pessoalmente. Amanha, vcs poderiam? Tipo na hora do almoço? Podíamos nos encontrar na Roosevelt. É importante!!! E urgente!!! Socorro!

SAtyros Um, meio dia, pode ser?
É muito, muito importante.
Inclusive, não irei a minha aula na USP só por causa disso, ok?

Vamos acabar com "eles" e mostrar q a arte é reduto do Serra!

Podem trazer pessoas, vamos nós organizar!!!

No inicio tb não dei bola.
No convite, inclusive, eles afirmam q é "apartidário", embora seja contra Russomanno.
No entanto, to vendo um bando de petistas se organizando.
Acho q precisamos nós unir.

Ivam Cabral
Enviado via iPad"


Isto, em si, não é novidade. Todos sabem que há uma troca de favores por ali. A SP Escola de Teatro, feita por Serra, é fruto direto desta maracutaia. E a própria existência dos Satyros é uma demonstração da lamentável servilidade a que podem chegar certos "artistas" em sua tentativa de conseguir as migalhas da "elite ilustrada". E a Praça Roosevelt, por sua vez, virou o símbolo desta mediocridade. De arte, não sobra muito por ali, com uma ou outra honrosa exceção. O que há de sobra é gente querendo "ver e ser vista" com sua produção artística servil e insossa; querendo pagar de "intelectual e artista". A última vez - última mesmo! - que pisei no teatro d'Os Satyros foi para ver "Os 120 dias de Sodoma". Só para algum leitor da Veja entediado, que resolveu trocar sua novela habitual por um programa mais "intelectual", aquela imbecilidade pode representar algo interessante. Pobre Marquês de Sade, que teve sua obra transformada em bibelô para colorir as noites da burguesia paulistana. Não se poderia esperar algo distinto de quem quer requentar as fórmulas prontas de ontem para ser louvado pela mediocridade intelectual de hoje. Este é o único tipo de "artista" - estes que fazem o teatro de Miguel Falabela na escala do semiamadorismo - que poderia proferir o excremento verbal de que "A arte é reduto do Serra". É o servilismo artístico em sua expressão política.

Contudo, o que me incomoda muito mais é um expressivo setor do movimento de teatro de grupo em São Paulo, muitos com uma produção artística muito rica e interessante, e que no plano teórico reivindica o marxismo, afirma se colocar politicamente ao lado dos explorados, mas que chega na hora da eleição, mal saem de sua peça "revolucionária" e se colocam a fazer uma campanha deslavada para o petismo. Muitos dos mesmos que ontem ocuparam a Funarte, exigindo políticas públicas para a cultura e contra o corte de verbas que reduziu o orçamento da arte de 0,2% para 0,06% do PIB, hoje saem a defender o voto no mesmo partido que fez este criminoso ataque à já indigente verba cultural. Grupos que nas suas peças combatem a ditadura e seus resquícios, mas que depois colocam isto na gaveta para votar e chamar publicamente o voto em Haddad, que está abraçado ao governador biônico da ditadura Paulo Maluf, que colocou a "Rota na rua" e foi um dos responsáveis pela criação do cemitério clandestino de Perus, onde se enterraram sabe-se lá quantos lutadores e militantes assassinados e torturados brutalmente pela ditadura. São estes grupos de teatro que dizem defender uma cultura universal, popular, para os trabalhadores e o povo, mas chamam voto no Haddad que foi um dos grandes privatizadores da educação através do ProUni, e promoveu a precarização das universidades com a expansão sem verbas do REUNI.

Passa da hora dos grupos de teatro que reivindicam o teatro épico de Brecht, fundado no materialismo dialético de Marx e Engels, entenderem de uma vez por todas que este teatro revolucionário é fruto indissociável de uma luta política à morte contra a burguesia, pela independência política da classe trabalhadora, pela revolução socialista e pela ditadura do proletariado! É hora de tomar em suas mãos o marxismo não apenas como uma formulação estética ou uma declaração de posições em abstrato que se desmancham na primeira prova concreta da realidade! O marxismo é, antes de mais nada e sobretudo, a ferramente política de luta da classe trabalhadora na longa batalha pela emancipação da humanidade. Negociar alguns editais ou leis progressistas com o partido que se tornou o principal sustentáculo da burguesia no Brasil, levando a cabo ataques severos à classe trabalhadora, com corte de pontos de grevistas, repressões às greves nas universidades e canteiros de obras, conluio com as oligarquias centenárias do latifúndio e a grande burguesia monopolista do capital financeiro é dar as costas para o marxismo! É dar as costas para a luta para a possibilidade de uma arte verdadeiramente independente e livre! Para uma sociedade em que todos possam efetivamente ter tempo, educação, disposição para fazer e desfrutar da arte, sem a opressão e a exploração que sufocam a humanidade hoje.

A arte não é reduto da burguesia reacionária que está representada nas eleições por Serra e Russomano. Tampouco pode ser reduto da burguesia "light" que faz uma ou outra concessão com a mão esquerda enquanto golpeia os trabalhadores, a juventude, os artistas, as mulheres, os negros e homossexuais com sua mão direita, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade. Olhemos para trás, companheiros artistas, para aqueles que nos inspiram no campo artístico, e aprendamos também com suas atitudes políticas, que em nenhum momento se dissociaram de sua arte: Maiakóvski foi um ardente combatente ao lado dos bolcheviques, o único partido que foi capaz de permanecer fiel aos interesses da classe trabalhadora e do socialismo e levar a revolução à vitória; Brecht extraiu seu teatro dialético em grande medida de suas experiências ao lado da classe trabalhadora, tendo sido delegado no conselho operário de Munique, um órgão equivalente ao soviete, que organizava de forma independente da burguesia os trabalhadores; André Breton se aliou ao Partido Comunista Francês pela luta antiimperialista na guerra de Marrocos, mas rompeu com este por ver que não apenas sufocava a arte com a mordaça do "realismo socialista", mas também pelo beco sem saída de suas políticas de aliança com a burguesia "democrática" contra o fascismo. Foi aliado da luta pela política operária independente mesmo quando esta esteve em minoria na Oposição de Esquerda e na IV Internacional. Escreveu com Leon Trotsky o manifesto "Por uma Arte Revolucionária e Independente", cujas linhas ainda tem muito a ensinar para os trabalhadores da cultura de hoje como travar uma luta por uma arte livre e emancipada.

A arte que queremos tem que ser revolucionária e independente! E para isso deve ser independente de todas as frações da burguesia: não é reduto de Serra, nem de Kassab, nem de Haddad ou Marta Suplicy! A arte deve ser o reduto de apoio ativo e incondicional às lutas dos trabalhadores por uma sociedade sem classes! Retomemos o lema da FIARI: "A independência da arte para a revolução; A revolução, para a libertação definitiva da arte!"

A greve dos "quarteirizados" da Façon


 
Na terça-feira estive no galpão da companhia Alstom, companhia contratada pelo metrô de São Paulo como "parceira" na expansão do metrô. Para quem não sabe, a Alstom está envolvida em um escândalo de propinas nas licitações do metrô, um caso bastante exemplar de como funciona a democracia dos ricos, na qual o transporte público é um lixo para a população em nome de garantir os interesses dos polpudos lucros das empresas.
A Alstom contrata empresas terceirizadas para suas obras; uma destas é a empresa Façon, cujos trabalhadores estão há dois meses sem receber salários e há um ano sem o pagamento de seus direitos, como INSS e FGTS. A empresa declarou falência, alegando não poder pagar, diante do que os trabalhadores entraram em greve e ocuparam um galpão com materiais da Alstom. Para quem acompanhou a greve dxs terceirizadxs da União no ano passado na USP, ou o conflito da BKM, ou inúmeras outras lutas de terceirizados que se desenvolveram na universidade com o apoio ativo do Sintusp, a manobra da Façon não é novidade: os patrões, além de ignorarem direitos elementares dos trabalhadores, ainda decretam falência para se esquivarem de pagar salários, recisão de contrato etc.
Desde o primeiro dia, a LER-QI, a corrente Metroviários pela Base e a Juventude às Ruas foram prestar apoio ativo à luta dos trabalhadores da Façon, sendo consequente com o programa revolucionário de unidade da classe trabalhadora, de aliança operário-estudantil e com a estratégia de se ligar aos setores mais explorados e oprimidos da classe, que são aqueles que estarão na linha de frente da luta revolucionária, pois como disse Marx "nada tem a perder senão seus grilhões". Foi buscando fortalecer esta aliança que levamos um dos companheiros em greve à plenária da juventude, para que contasse sobre sua luta. É também com este espírito que temos acompanhado de perto esta luta, pensando em como, com nossas modestas forças, podemos contribuir para que triunfe.
O Sindicato dos Metroviários, hoje dirigido por PSOL, PSTU e independentes, também compareceu à greve. A princípio tímido, temeroso de causar "conflitos" com a direção do sindicato "oficial" dos trabalhadores da Façon (o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, dirigido pela burocracia patronal da Força Sindical, a mais pelega de todas as centrais), o Sindicado dos Metroviários aos poucos ganhou confiança porque os próprios trabalhadores da Façon lhes afiançaram a palavra, colocando de canto os burocratas da Força.
 

Quando estava na assembleia dos trabalhadores da Façon, ouvindo os informes sobre a reunião com a(s) empresa(s), o que mais me espantou, contudo, foi a tremenda cordialidade entre a burocracia da Força Sindical e a direção dos metroviários. A princípio me perguntei: por que um burocrata sindical está sendo tão amável com o Altino, militante do PSTU e presidente do Sindicato dos Metroviários? Ao longo da assembleia, contudo, foi ficando claro: para um desinformado, seria difícil apontar quem era o militante de um partido operário que reivindica a tradição do trotskismo, e o burocrata vendido de uma central sindical atrelada desde sua origem aos interesses patronais. O discurso deles era extremamente parecido e se focava exclusivamente nas questões legais e nas reuniões com a empresa, dizendo que era necessário seguir na luta mas que deveriam ter paciência, de que precisávamos negociar e ver como conseguir o pagamento dos salários. A única diferença foi que, em determinado momento, Altino abriu a palavra para Marisa, metroviária que é candidata a vereador pelo PSTU, e que travou uma luta pela denúncia do programa Zorra Total em seu quadro que incentiva o assédio sexual às mulheres nos vagões. Mas mesmo isso foi aceito com tranquilidade pelo burocrata: ele disse como era importante que Marisa se elegesse, que ela representava "a vanguarda da classe operária", e era uma lutadora.
A questão é que a forma de atuar nos sindicatos do PSTU gera muito pouco incômodo à burocracia, aliás, pinta-lhe até de democrática por estar tão aberta à oposição. Daí tanta cordialidade. Nestes momentos de luta, fica claríssima a distinção do PSTU entre um discurso vermelho, radical e socialista para seu jornal ou propaganda, e uma prática sindical rotineira e completamente adaptada aos limites da legalidade burguesa nos momentos de conflito. Na luta dos correios, quando a burocracia do PCdoB/CTB acabou com a greve de forma vergonhosa, a oposição do PSTU, que tem bastante peso, sequer abriu a boca para se pronunciar. Mais uma greve de calendário, para cumprir tabela...
Na sua intervenção na assembleia dos trabalhadores da Façon não havia nenhum incentivo à auto-organização dos trabalhadores, a medidas para conseguir apoio democrático e discutir com a população e outras categorias, a discutir a necessidade de efetivação dos terceirizados, à necessidade de unificação da classe, a discutir o avanço da crise e a necessidade de preparar os trabalhadores para novos ataques da burguesia. Mas não sejamos injustos: Altino convocou os trabalhadores da Façon para que comparecessem ao ato dos trabalhadores efetivos do metrô pela bandeira de aumento na PR. Na prática, o PSTU tem levado os setores mais precarizados e explorados para apoiar a luta dos setores com mais direitos, mais estabilidade e mais tendência à acomodação; um sindicalismo classista e combativo deveria travar a luta pelo oposto, colocando a estrutura do sindicato a lutar com vigor para que a categoria encampasse as bandeiras dos terceirizados, por sua efetivação! Mas, se sequer na linha amarela, os terceirizados mais próximos dos metroviários efetivos, esta luta é levada a sério, que dirá na luta dos "quarteirizados" da Façon! A luta ali se dá com o apoio formal e sentando com o ministério do trabalho para negociar as reivindicações...
Quanta diferença da luta dos terceirizados da União, em que o Sintusp (fundamentalmente a partir de sua ala trotskista de militantes da LER-QI) atuou ativamente não apenas para apoiar os trabalhadores em suas medidas de luta, como o piquete à reitoria da USP, mas também para incentivar sua auto-organização através da democracia operária, com assembleias, comissões etc. Buscando apoio dos estudantes nos cursos da USP, que foram fundamentais para a conquista dos salários; levando a discussão da necessidade de incorporação de todos os terceirizados sem concurso público; organizando com eles o bloco José Ferreira (em homenagem a um jovem trabalhador morto pelas condições de trabalho na Faculdade de Medicina) para participar do primeiro de maio na praça da Sé. Um sindicato como o dos metroviários, muito maior e num setor muito mais estratégico para o capital, teria condições de apoiar de formas muito mais efetivas.
É necessário que a partir destes exemplos os revolucionários avancem no debate em torno de suas práticas, táticas e estratégia para nos armarmos para a luta de classes e para os grandes conflitos que estão por vir. É preciso que lutemos por um sindicalismo revolucionário, para forjar o melhor da vanguarda de nossa classe em cada greve que, como disse Lenin, são nossas "escolas de guerra".

quinta-feira, setembro 27, 2012

Rodas, Sintusp, DCE e o CO sobre cotas

Na terça-feira, após a primeira reunião deliberativa do Conselho Universitário da USP (cuja sigla que o nomeia não é CU, como deveria, mas CO) que pautou a questão das cotas raciais, recebi um informe em primeira mão da discussão feita pela oligarquia da USP, o punhado de professores titulares que decide em nome de todos como gerir o orçamento de mais de 4 bilhões de reais da universidade.
O informe foi dado na reunião aberta da Juventude às Ruas pelo companheiro Pablito, diretor do Sintusp e representante dos funcionários no conselho (eles tem direito a dois!), e também militante da LER-QI. O que ele disse é escandaloso: diretores de unidade da universidade de "excelência", como da Faculdade de Filosofia de Ribeirão Preto ou da Escola Politécnica, dizendo que instituir cotas na universidade seria abrir uma ferida já cicatrizada na sociedade, ou ainda que o racismo no Brasil é mais cordial (sic!) do que em outros lugares. Apoiavam-se, como argumento "teórico", na obra de Gilberto Freyre, cuja ideologia reacionária da "democracia racial" é há décadas tratada com a devida seriedade como algo mistificador e absurdo pelos professores que merecem tal título. Ao lado desse, informou Pablito, desfilavam os argumentos mais sem fundamentos e do senso comum que possamos imaginar, como o bom e velho mantra da burguesia branca de que as cotas rebaixariam o nível das universidades; fato que, diga-se de passagem, já foi comprovado como falso não apenas pelo bom senso, mas também por pesquisas feitas com estudantes cotistas em diversas universidades. Um membro do conselho levou este argumento elitista e escroto ainda mais longe: disse que os estudantes vinham de escolas violentas, sem estarem acostumados ao clima de civilidade da USP, e que poderiam apresentar comportamento agressivo e inadequado ao ambiente universitário. Vê-se logo que, para a aristocracia anacrônica da USP, os negros e pobres são como animais enfurecidos e desordeiros, que devem ser mantidos apenas para limpar a sujeira dos prestigiados intelectuais da universidade. O informe do companheiro foi seguido pela notícia de que mais três jovens moradores da São Remo, favela que fica ao lado da universidade e de onde vêm grande parte dos trabalhadores mais precarizados desta, foram brutalmente assassinados pela polícia. Os "nobres conselheiros" que colocaram a nu suas posições racistas, certamente devem concordar com o "nobre governador" da Opus Dei, Alckmin, que afirmou quanto a mais uma chacina promovida pela PM: "Quem não reagiu está vivo". Ou seja, os jovens "violentos" e inadequados ao "ambiente universitário", só poderiam terminar assassinados pela polícia, cuja função é patrulhar o campus justamente para evitar que a "elite intelectual" do país tenham seus trabalhos acadêmicos perturbados pela ralé. Ainda bem que a polícia faz seu trabalho de exterminá-los cotidianamente!
Este informe da discussão do CO me deixou perturbado, furioso. Mas, ontem, ouvi outro informe sobre a mesma reunião, desta vez dado por Babi, estudante da Letras, diretora do Caell e DCE, e militante do MES/PSOL. O informe dizia que muitas posições se expressaram na reunião, diversas contrárias às cotas, mas muitas outras favoráveis. Que havia uma grande conquista, de um seminário sobre cotas a ser promovido pela universidade. Mas que o "único problema" é que a composição da mesa estava muito "aberta", porque eles não queriam nenhum estudante, e que o movimento tinha que se organizar para poder participar do seminário. Será que ela estava falando da mesma reunião que o Pablito foi? Para o DCE (ou pelo menos para o MES), a reunião foi uma "vitória" porque pautou as cotas, e o "único problema" é a mesa do seminário que a reitoria vai organizar!
Hoje, ao escutar o rádio, tive a oportunidade de ouvir ainda um terceiro informe, diretamente de João Grandino Rodas, no programa "Palavra do REItor". Segundo Rodas, a discussão no CO foi de "altíssimo nível", e, evidentemente se expressaram posições diferentes, mas "com muito respeito", diferente do que ocorre, inclusive, em plenário muito mais "excelsos" (que, para quem não fala a língua excelentissississimamente rebuscada do professor doutor Rodas, quer dizer ilustre) do que o CO. Rodas disse que há anos a questão da inclusão é pautada e debatida nas instâncias da USP (sic), tendo sido pautada já inclusive em um CO "não deliberativo" e agora em um "deliberativo" (e neste momento fez questão inclusive de explicar a diferença). Disse que após o debate de "alto nível" houve um "consenso" de que a "solução" (ele usou esta palavra) neste momento era construir um seminário. Em seguida, Rodas fez um tremendo elogio à civilidade do debate, muito rico e frutífero, e fez aí questão de elogiar a banda da Educafro, que do lado de fora da reitoria tocava animadamente. Disse que eles colocaram sua posição de maneira a contribuir para todos, e disse que ataques pessoais ou a pessoas devido ao cargo que ocupam em nada contribui para o debate. Falou que inclusive está pensando em chamar a Educafro para um espaço onde possam se apresentar para a universidade (vale lembrar a posição absurda da Educafro, que chamou apoio à candidatura de Rodas a REItor porque ele disse que iria pautar as cotas). De sua maneira pomposa, prolixa e grandiloquente, Rodas falou sobre como é importante pautarmos os debates de maneira atual, moderna, com respeito e etc.
Segundo a visão do magnífico REItor, certamente os negros escravizados teriam sido bem mais "modernos" e civilizados se tivessem manifestado seu desejo de liberdade com uma banda na porta da Casa Grande, ao invés de construir quilombos e resistir em armas às bandeiras. Não é à toa que, a despeito de suas diferenças, a estudante do MES e o REItor compartilhem da visão de que a discussão foi muito boa e avançou muito, enquanto Pablito, trabalhador e negro, ressaltou o reacionarismo absurdo dos professores da USP.
A discussão sobre cotas é difícil de ser feita nos termos corretos, e esta dificuldade é principalmente devida ao fato de que por décadas o movimento negro no Brasil (mesmo a parte que não foi diretamente cooptada pelo petismo e a institucionalidade mais mesquinha) tem como grande bandeira central a questão das cotas. Nos EUA, as cotas foram garantidas há décadas porque ali havia um movimento negro fortíssimo e organizado, com setores que tinham posições muito mais avançadas do que aqui. Mas as cotas não foram conquistadas porque eram suas principais bandeiras. Foi uma forma da burguesia fazer uma concessão que é também uma cooptação. Hoje, nos EUA, vemos uma fração da burguesia que é negra, e são os descendentes diretos da política de cotas. Mas em que pessoas como Condoleeza Rice ou Barack Obama fazem com que o povo negro seja mais livre? Eles são negros governando para o capitalismo racista dos brancos, e mantendo a exclusão da maior parte do povo negro (absolutamente necessária para o capitalismo) completamente intocada. É progressivo que uma parte dos negros possa entrar na universidade através das cotas? Sim, claro! Mas pensemos o seguinte: neste ano são cerca de 10.000 vagas na USP, com cerca de 155.000 inscritos na Fuvest. Vamos supor que a USP adotasse as cotas aprovadas pelo STF, de 50% para negros. Seriam 5.000 negros a mais na USP. Das 145.000 pessoas que ficariam, ainda assim, do lado de fora da universidade, quantos porcento são negros? Quantos porcento são filhos de trabalhadores? A educação é um direito que temos que defender através da luta, e não negociar as migalhas que a burguesia está disposta a nos dar. Temos que lutar para que todos os negros tenham direito a estar nas universidades, a ter uma escola decente no ensino fundamental e médio. A riqueza para isso já temos há muito tempo. A questão é decidir qual é a nossa luta: nos pautaremos pela miséria que achamos mais fácil arrancar da burguesia, ou pelo que é justo, necessário e possível conseguirmos através da luta e organização do povo negro ao lado da classe trabalhadora e da juventude?

terça-feira, setembro 11, 2012

5 meses: você é minha dor

Foram 5 meses desde sua morte. Nos dois anos que estivémos juntos, ficamos no máximo um mês sem nos ver. Resolvi hoje escrever como se fosse para você, ainda que nunca vá ler minhas palavras. Já pensei muitas vezes sobre o conforto das pesssoas que acreditam em qualquer tipo de sobrevivência, se eu seria mais feliz com esta ilusão. Acho que as pessoas precisam de conforto, sim, todas elas. Mas esta possibilidade de acreditar na sua existência simplesmente não existe para mim; até me sinto meio idiota escrevendo para "você". Isso não significa que eu não tenha algo para me apegar, para me confortar da terrível perda. Já sabe: é pensar que a sua breve vida e a minha estão a serviço de algo maior; que um dia a humanidade vai sair de sua pré-história, e que sua morte e sua vida não terão sido em vão.
Acho que nestes cinco meses a grande questão tem sido entender sua morte. Não no sentido mais, digamos, "simples", de pensar porque você resolveu acabar com sua vida. Isso não é tão misterioso para mim, ainda que as causas do seu sofrimento sejam (como até para você). Entender sua morte é fazer com que ela faça um sentido maior, se encaixe em algum lugar minimamente aceitável para tornar a perspectiva de nunca mais te ver menos insuportável. 
Há duas partes nisso, acho: é possível encontrar um lugar para a sua morte. Mas isso não faz dela algo simples ou confortável. A dor, como eu já entendi há algum tempo, permanece. Entender a sua morte é entender como esta dor vai fazer parte da minha vida daqui pra frente.
A dor muda, tem vários lados, várias formas. Ainda é muito difícil para mim, mas espero que um dia consiga, lembrar de você e me alegrar. Ficar feliz de poder ter compartilhado o tempo que tivemos juntos. Ainda não sou capaz; sua lembrança é terrivelmente dolorosa, ela me lembra da sua ausência com muita intensidade. Mas já há algo que sou capaz de fazer e que antes era apenas uma vontade: transformar esta dor em motivação. Sentí-la como minha própria ferida do que é o capital e a sociedade em que vivemos.
Nunca pretendi, e aliás sempre combati, aqueles que viram na sua morte uma expressão crua e mecânica da torpeza do capitalismo; é reduzir demais a sua dor, não entender suas múltiplas causas e determinações. Mas também é impossível entendê-la sem ver a podridão deste mundo. E sem pensar que se as coisas fossem outras, poderíamos ter te ajudado muito mais.
Há algumas pessoas, tão longe, que tem me ajudado a entender o lugar disso: Tala e Natalia. Me surpreendeu a falta que elas sentem de você. São pessoas que carregarão, como eu, sua memória a cada dia. Que sentem sua falta a cada dia, ainda que há muitos anos não pudessem mais conviver com você. Não é à toa. São pessoas que conviveram com você ali onde era mais árduo; que acharam em você a possibilidade de um outro mundo, uma outra vida, de gente que não era como aquela expressão mais profunda da degradação moral e humana que o capitalismo impõe às classes dominantes também. Você é um símbolo, que elas vão carregar pra sempre. Você é uma esperança, que vive para além de si mesma.
Para mim também: foi, é e será uma dor e uma esperança. A dor de ainda viver em um mundo tão torpe; a esperança e a motivação para seguir lutando e mudá-lo. Sei que você viu em mim também a motivação para lutar, que viu em mim a possibilidade de mudar coisas que te incomodavam até mesmo entre camaradas. Que apostava em mim. E eu vou dar o melhor de mim para honrar sua memória, que é também a memória de tantas e tantos que tombaram em combate.
Eu te amo, para sempre. Aos cinco meses, carrego sua dor comigo todos os dias; mas também sua esperança. Elas nunca vão me abandonar.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Resignar-se ao tamanho de humano



Não saber, não prever, não conseguir, não poder. Somos limitados, muito menores do que o mundo e nossas vontades diante dele. Aprender isso pode ser lento e doloroso. Aprender que não está em nossas possibilidades aquilo que gostaríamos de ter feito. Olhar de frente nossas limitações, aceitá-las; resignar-se a elas.
Sim, resignar-se implica em deixar algo morrer. Resignar-se a nosso tamanho de humano implica em deixar morrer algo que não existe, que é a possibilidade de fazermos o que é impossível para nós. Parece fácil aceitar isto, não? Não é. É fácil entender, mas não aceitar. Aceitar significa, enfim, resignar-se. Implica em uma pequena morte de nós mesmos. Deixar morrer o impossível.
Este tem sido um de meus imensos desafios. A morte é provavelmente o maior muro diante de nossas possibilidades, de nosso pequenino tamanho de humano. Ela esfrega em nossa cara o quão impotente nós somos. Encarar a morte da cami implica em uma enorme resignação. Em resignar-me ao fato de que eu não sabia; de que não estava lá; de que não fiz aquela pequena coisa naquele dia ou aquela outra no outro.
Aceitar nosso tamanho de ser humano pode ser, às vezes, uma tarefa maior do que nós mesmos. Para cami, como para tantos que tiraram suas próprias vidas, foi impossível resignar-se. Se quando nos resignamos morremos um pouco a cada dia, muitas vezes quando nos suicidamos é porque já não podemos mais nos resignar. Chegou nosso limite. Cami não podia mais se resignar à vida que estava levando; se resignar diante das impossibilidades imensas que se erguiam, que a colocavam diante do tamanho humano dela, insuperável e que a impedia de viver a vida como ela gostaria. Não dava para se resignar.
Maiakóvski foi um homem que nunca se contentou com seu tamanho de homem. Como disse Trotsky após seu suicídio: "Maiakovsky, pronto para servir à sua época, pelos mais modestos trabalhos quotidianos, não podia aceitar uma rotina pseudo-revolucionária." Nem cami era capaz de aceitar uma rotina pseudo-revolucionária, ou uma pseudo-vida. Quando Maiakóvski viu sua vida e sua arte encurraladas diante da muralha da burocracia soviética, não pôde resignar-se. Tentou, é verdade: "No mês de janeiro deste ano, Maiakovsky, vencido pela lógica da situação, fez grande esforço para aderir, finalmente, à Associação Soviética dos Poetas Operários (VAPP), dois ou três meses antes de matar-se. Essa adesão não lhe trouxe nada. Retirou-lhe, pelo contrário, alguma coisa. Quando ele liquidou suas contas, tanto no plano pessoal quanto no político, e movimentou seu barco, os representantes da literatura burocrática, aqueles que estão à venda, exclamaram: 'inconcebível, incompreensível'. Demonstravam, assim, que não compreendiam tanto o grande poeta Maiakovsky como as contradições da época." Meteu uma bala na testa, porque não podia se resignar. Cami lutou, lutou e lutou. Disto sou testemunha. Lutou para ser uma revolucionária integralmente; lutou para ser coerente com o que acreditava. Venceu muitas batalhas; perdeu outras tantas. Mas uma hora viu-se obrigada a dar um passo atrás, a resignar-se àquilo que poderia fazer; a resignar-se a seu tamanho humano. Recusou-se. Era já resignação demais para alguém com nada mais e nada menos do que a ambição de mudar o mundo.
Suicidou-se, porque não pôde resignar-se.
A nós, que ficamos, resta resignar-nos a nosso tamanho de humanos. Ao tamanho de pessoas que não podiam prever, não podiam ajudar, não podiam evitar. Resta também resignar-nos à compreensão do tamanho de humano que cami tinha, e não censurá-la por não poder ser mais do que humana e nem querer se resignar ao tamanho humano que podia ter. É mais fácil falar do que fazer. Resignar-se é um suicídio cotidiano, porque temos que matar algo em nós mesmos. Suicidar-se é o fim da resignação. O nosso tamanho humano também limita até mesmo nossa possibilidade de nos resignar, pois é típico querermos ser muito mais do que podemos. Vamos aprendendo, a cada dia, a resignar-nos quando necessário.

segunda-feira, agosto 06, 2012

O direito à morte

Vi outro dia um filme, "Você não conhece Jack". Era um filme medíocre, mas sobre um homem bastante extraordinário, Jack Kevorkian. É um médico que ficou famoso e foi processado muitas vezes, e preso durante uns sete anos, por praticar a eutanásia. Eu descobri, vendo o filme, que tinha uma visão conservadora da eutanásia. Acreditava que se resumia a, quando uma pessoa estava sendo mantida viva por aparelhos, ou tinha uma doença terminal, que ela tivesse o direito de morrer. Estava equivocado. Aliás, o direito de desligar os aparelhos já existia no lugar onde Kevorkian morava. O que ele fazia era ajudar as pessoas a se suicidar, quando elas tivessem doenças que tornassem a vida delas impraticáveis. Isso não significa necessariamente doenças terminais. Muitos dos pacientes dele tinham doenças com as quais as pessoas poderiam permanecer vivas por muito tempo, talvez décadas. Mas sofriam, e tinham suas possibilidades de viver de fato gravemente restringidas. Viver não é respirar, comer, dormir e cagar. Aliás, vivemos em um mundo onde, infelizmente, quase todos são obrigados a sobreviver. Se vivemos, acho bastante discutível.

Legalmente, ele não podia matar as pessoas. Mas colocava à disposição delas formas de se suicidarem, e as ajudava a morrer de forma tranquila e indolor. No primeiro caso, utilizou substâncias que eram injetadas e o coração da pessoa parava de bater. Contudo, depois do primeiro caso, teve sua licença médica cassada, e passou a utilizar um gás, se não me engano monóxido de carbono, que a pessoa inala e lentamente adormecia para não acordar mais. Obviamente, não demorou nada para que Kevorkian fosse perseguido e processado por centenas de religiosos. "A vida é escolha de Deus", entoavam em um ato uma multidão de religiosos no filme. Foi processado diversas vezes por "suicídio assistido".

Pensei bastante sobre o direito das pessoas morrerem. Há uma cena em que a polícia arromba a porta de um hotel e interrompe violentamente a entrevista de Kevorkian com uma paciente, dizendo que estavam lá para salvar a vida dela. A mulher, revoltada, dizia: "E quem pediu por isto?". No cristianismo, o suicídio é um crime, porque a sua vida não pertence a você, mas a Deus. O mesmo ocorre no aborto, em que a "vida" do feto pertence a Deus, e só ele pode interrompê-la. A nossa medicina se orienta por este dogma, essencialmente cristão: a vida é um valor absoluto, supremo, incontestável. E a missão dos médicos é preservar esta vida, a qualquer custo. Eles não estão a serviço de seus pacientes, mas a serviço de Deus, que estipulou que a vida é sagrada, e os médicos são seus todo poderosos sacerdotes, a serviço da manutenção deste valor sagrado.  Esta visão sobre a vida é completamente absurda, e leva a toda uma série de outras questões sobre as quais não vou escrever agora, mas que certamente merecem atenção. A diferença substancial de Kevorkian é que ele não estava a serviço de um ente abstrato e supremo que estabeleceu a Lei Sagrada da vida: ele estava a serviço de seus pacientes e do que fosse melhor para eles. E há momentos em que o melhor é morrer, por mais que isto seja tão difícil para nossa sociedade aceitar.

O filme, é claro, me fez pensar na pessoa que amo que tirou sua própria vida. Já escrevi anteriormente sobre o direito dela em relação à sua própria vida, sobre como seria absurdo eu ter raiva dela, e sobre como, quando ela própria me perguntou, eu disse que as pessoas tinham, sim, o direito de se suicidar e que nunca poderiam ser considerados egoístas por isso. Escrevi isso sob a lógica de que no mundo podre em que vivemos a nossa vida não nos pertence, e isso poderia nos levar a querer a morte. Contudo, a história de Kevorkian me fez pensar a mesma questão, mas não sob a perspectiva do direito à vida, e sim do direito à morte. Mesmo em uma sociedade sã as pessoas morrerão, e sofrerão de doenças, e terão problemas e angústias e tristezas. E elas devem ter direito a decidir sempre, sobre sua vida e sobre sua morte.

Cami decidiu sobre a sua morte. Uma das coisas que mais me dói é não ter podido me despedir dela; ela estava se despedindo de todos nós, mas só soubemos depois. Pelo fato de que vivemos em uma sociedade onde a morte é um tabu, onde as pessoas não tem sequer o direito de decidir se querem morrer, porque nem sua vida e nem sua morte lhes pertence, eu não pude saber que ela efetivamente estava pensando e pesando os prós e contras de continuar viva. Vi outro dia uma discussão sobre se seria ou não um ato de coragem o suicídio. Em primeiro lugar, vale dizer que não faz sentido tratar todos os diferentes suicídios como "o suicídio". Mas, diziam, nesta conversa, que não havia como reivindicar a "coragem" de um suicídio. Na época concordei, mas Kevorkian me convenceu do contrário. Eu ainda estava muito impregnado pela visão da vida como um valor absoluto. E ela não é. Cami decidiu sobre sua morte. Para isso, ela teve que vencer várias coisas. Em primeiro lugar o medo de morrer, que não é mais do que uma derivação direta do fato de que a morte é um tabu para nossa sociedade. Ela tinha medo de morrer, e ela o venceu. Ela teve que vencer um medo muito maior, que é o medo do sofrimento que causaria as pessoas que a amavam. Em outras palavras: vencer a sua culpa. Não existe um sentimento mais cristão do que a culpa, e não há nada que culpe mais um suicida do que a religião. Ela teve que decidir e executar tudo sozinha e em segredo. Como foi todo este processo, a dificuldade que foi, o grau de consciência que ela tinha quando executou, o sofrimento pelo qual passou para conseguir fazer isto, são todos segredos que ela levou consigo. Mas, sem dúvida, exigiu dela muita coragem. Coragem para tomar a decisão que ela achou necessária, e coragem para executá-la. 

Eu gostaria muito de ter dividido estes momentos com ela. No filme, em determinado momento chamam a mulher de um paciente de Kevorkian para testemunhar. Ela diz que durante nove meses tentou convencer o marido a não se suicidar, a permanecer vivo, e nestes nove meses ele dizia que o desejo dele era poder morrer. Em seu aniversário, quando a mulher lhe perguntou o que ele queria, ele disse que a única coisa que ela poderia lhe dar seria uma consulta com o Dr. Kevorkian. Ela, finalmente, cedeu ao desejo do marido. E esteve ao seu lado quando ele suavemente morreu. Eu queria este direito, e queria que a cami tivesse ele. Queria poder ouvir serenamente de sua boca que ela achava que já não dava mais; que as limitações que estavam cerceando a sua vida eram maiores do que suas possibilidades de superá-las. Que os pesadelos, as vozes, a angústia já eram demais para continuar. Eu gostaria do direito de conversar com ela e refutá-la, de dizer que ainda havia muita coisa que não tentamos, que era possível sim melhorar a vida dela, fazer com que ela conseguisse estudar, trabalhar, militar plenamente. Que eu estaria ao lado dela, que tudo daria certo. Gostaria de poder, ao longo do tempo, de ser dissuadido de minha visão de quem ama demais, ou de dissuadí-la de sua visão de quem sofre demais. Gostaria de poder sofrer pela sua futura ausência com ela em meus braços, de antecipar a dor da saudade. Gostaria de poder ajudá-la a preparar sua morte, de estar ao seu lado, de segurar sua mão e, acima de tudo, de apoiá-la. De poder olhar em seus olhos e dizer: se esta é, finalmente, sua decisão, eu te apoio. Pode partir tranquila. Gostaria, num plano mais egoísta, de não ter que viver até o fim da minha vida com dilacerante dúvida: se eu não tivesse desmarcado nosso encontro naquela noite, ela estaria viva?

A vida não é um valor em si; o valor da vida está em vivê-la, em poder usá-la para aquilo que ela serve. Afinal, é para isso que nós, comunistas, dedicamos nossas próprias vidas: porque vemos que em um mundo como o nosso, a maior parte da humanidade está privada de viver suas próprias vidas. Acredito que a maioria chega à conclusão de votar sua vida a esta luta por ter sentido na pele ou testemunhado muito de perto a impossibilidade da alegria sob o capitalismo. Não à toa, cami era uma de nós, e lutou o quanto pôde para libertar a humanidade do fardo pesado que a oprime. Ela sabia, melhor do que nós que ficamos, que se a possibilidade de viver está interditada por qualquer motivo, o propósito de estar vivo fica comprometido. Para que serve uma vida que não se pode desfrutar? Para gerar mais-valia? Para agradar a convicção religiosa de alguém? Para que os entes queridos não sofram? Mesmo a possibilidade de estar vivo para lutar por uma humanidade livre e emancipada, que é o meu propósito de vida e também era o dela, torna-se inviável em um determinado grau de sofrimento. Precisamos ter o mínimo de apego a nossa vida tal qual podemos vivê-la hoje. Não é possível viver apenas de futuro. 

Eu passei momentos bastante difíceis assistindo a cami em grandes sofrimentos, e eu sofri muito também por vê-la mal e não poder ajudá-la de forma suficiente. A minha dúvida, que nunca vou poder eliminar, é pensar que ela talvez ela poderia, sim, melhorar. Pois ela já havia estado melhor antes, ela já havia tentado morrer e depois disso passou por momentos felizes. Se ela tivesse morrido da última vez que tentou eu nunca a teria conhecido, nós nunca teríamos podido aproveitar nossos breves anos juntos. Por isso, mais um motivo para eu desejar que ela pudesse conversar comigo abertamente sobre isso; não só para ajudá-la a morrer, mas para questionar sobre sua certeza em relação a isso. É uma dúvida, porque eu não descarto a possibilidade de que o melhor para ela fosse realmente partir. E que, se isso era o melhor para ela, estou certo que seria também o melhor para quem a amava. Mas o maldito dogma que cerca nossa vida - que é metade cristão pela preciosidade" da vida para "Deus", mas também metade capitalista pois a nossa vida serve para produzir para os outros e não para ser desfrutada - me impediu de poder sequer conversar com ela sobre isso. Ela manteve seus planos em segredo.

Em uma entrevista, Kevorkian diz: "quando morrermos, vamos para o nada. Todos viemos do nada, era tão ruim assim?" Um pensamento simples e verdadeiro. Ela não está mais sofrendo, não há nada de ruim para ela agora. Ruim é para nós que ficamos. Ruim é pensar em como cami era jovem e, nos momentos certos, cheia de vida e de vontade de viver. Como era linda, inteligente, sensível, generosa, engraçada, revolucionária, cheia de um milhão de potencialidades. Ruim é pensar neste potencial extirpado, pelas raízes, bruscamente. Ruim é nossa impotência diante disso, e o fato de que sequer podemos compreender direito porque foi assim. E é muito ruim também que nem eu nem todos os outros que a amam e sentem intensamente sua falta termos podido compartilhar a sua decisão. Pessoas que gostariam tanto de tê-la visto mais uma vez, e que certamente ela também gostaria de poder ter visto. Ter alguém ao seu lado para tornar sua partida mais tranquila. Um dia, nossos descendentes viverão em uma sociedade onde a morte não seja um tabu, em que as pessoas serão livres para decidir morrer, se precisarem.

quarta-feira, julho 04, 2012

Ela não é a pasta de dente

Ontem me peguei pensando que nossa dificuldade em assimilar a morte pode ser um mecanismo de autodefesa. Para suportar uma dor muito grande, dividimo-la em doses homeopáticas a perder de vista...a doer um pouco e sempre todo dia, todo dia, todo dia... Lembrar a cada dia, umas e outras e mais umas vezes. Entender novamente, e lembrar do que vai ficando na memória, do que vai decantando. Pensar mil vezes no significado do que foi dito, do que foi feito...e do que não foi.
Mas nossa mente é estúpida e teimosa, ela quer se apegar a qualquer coisa para não dizer o derradeiro adeus, que nunca, nunca vem pra quem ficou aqui, do lado de cá da morte.
Antes que eu me mudasse da casa dos meus pais, ela deixou um tubo de pasta de dente Colgate, um bem grande. Ela não gostava da pasta de dente que tinha, que ela achava muito fraca, e trouxe uma pra ela usar. Quando me mudei, o tudo de pasta de dente ficou para trás. Há poucos meses fomos lá, estava escovando os dentes, e ela me disse: "nossa, ainda não acabou esta pasta?". 
Pego-me olhando pra o tubo pela metade nos últimos meses, pensando como é triste que ele tenha durado aqui ainda mesmo quando ela já se foi; é assim com todas suas coisas espalhadas pelos cantos. Sua touca pendurada no banheiro; o doce de leite mexicano no armário da cozinha; as camisetas e outros presentes que me deu. Ia escovar os dentes e hesitava em usar a pasta de dentes, um pedacinho da vida dela que ficou para trás, que queria preservar ali, intocado.
E, do alto da minha racionalidade, ainda tenho que repetir para mim mesmo: ela não é uma pasta de dente; ela se foi, e isso daí não é nada. Penso em seu corpo, enterrado, em decomposição. Isto não é ela; ela já não existe, exceto pelo que existe dela em nós. O tanto que ela existe em nós pode ser discutido.
Mas uma coisa é certa: ela não é a pasta de dente. Eu posso escovar os dentes com a pasta e depois jogar o tubo vazio no lixo; ela não estará menos comigo por isso.

segunda-feira, julho 02, 2012

Soluços

"Quando a dor está lá há um tempo já, ela começa a se organizar. É menos insuportável, angustiante, prostador. É mais distinguível, tem partes, explicações. Dói mais aqui, ou certa memória, ou certo pensamento, ou certo jeito. As feridas, quando se fecham ou começam a se fechar, deixam marcas curiosas. Dizem, aprendi quando fui fazer minha tatuagem, que não se deve cutucar as casquinhas para não deixar marcas. Será que é por isso que sempre tive marcas? Bom, mas certas feridas se cutucam, é preciso que sejam cutucadas. Porque elas estão ali, elas estão abertas. Se nossas feridas não nos servirem para vermos onde nos machucamos e aprender algo com isso, de que servem nossas cicatrizes senão como tristes memórias de nossas quedas?"

Escrevi isto há pouco mais de um mês atrás, quando ia fazer dois meses do suicídio da cami; li poucos dias depois, e me pareceu estranho; hoje se aproximam os três meses de sua morte, e o trecho me soa absurdo. A dor não está nada organizada, a vida não está organizada. Ela é nublada, ela vem em soluços e solavancos.
A dor hoje costuma me pegar de surpresa, em meio a alguma vislumbrada ao passado que parece só mais uma das tantas que vêm involuntariamente todos os dias. Mas de repente ela se prolonga e se aprofunda. E isso vai se repetindo mais e mais, sempre que sobra um espacinho no cérebro. Começo a perceber que há uma mudança de qualidade. A saudade de um eterno imaginado vai misturando-se com a saudade de um cotidiano vivido. Vou entendendo novamente o que se disse, sobre o luto consistir em chorar cada pedacinho. Os pedacinhos de dor e saudade que vão nos vindo, vindo, vindo... Que tola minha mente, que em algum momento achou que entrava em uma curva descendente esta dor. Era uma calmaria antes da tempestade.
A ideia de sua morte hoje me parece mais absurda do que jamais fora. Quanto tempo leva para entender o tamanho de uma vida sem ela, o tamanho desta ausência? Quanto tempo leva para entender o que é pensar nela e nunca mais dizer "você"? Como faz pra caber em uma cabeça tão limitada, mundana, a ideia de que uma existência, uma consciência sem a qual eu não seria o que sou hoje, simplesmente se extinguiu? São ideias que cabem na boca, cabem nas palavras. Mas não cabem em meu entendimento. Não cabem nestas lágrimas que vêm em espasmos, e que não podem prolongar-se pelo tempo e a profundidade desta ausência. Neste deslumbramento diante do que era a vida, do que ela é; neste assombro diante de olhar para o mundo e ver o que ela é, o ponto de abandono a que chegou. De saber que a miséria que me enfia esta faca no peito é um esboço do que é a regra deste mundo.
Às vezes parece que carregar esta vida absurda, insólita, para um lugar que faça dela algo palpável e valoroso é um tiro no escuro. Somos pequeninas formigas cumprindo o destino de Sísifo, e carregando ladeira acima pedras imensas uma e outra vez mais.
Mas não é; saber que sua vida escorregou entre meus dedos, entre os dedos dela é algo de tirar o fôlego. E se esta pequenina morte, tão próxima e tão doída, é tão difícil de apalpar, ela é o mais próximo que consigo chegar diante do absurdo da realidade. Diante de milhões de mortes que são o combustível de um mundo morto-vivo. De uma fome que não quer dizer chega.
Sua voz me ressoa aos ouvidos, sinto na memória teus dedos pequeninos, teus cachos que me enlaçam em seu cheiro com cigarro. Vejo na noite seu vulto levantando-se para beber água. Não há nada ali, nem ilusões. Pego-me procurando na vida explicações, motivações, todos os fios do dia-a-dia levam-me de volta a esta fenda cavada em meu interior. Agarro-me nas palavras do velho camarada, que antes de ele mesmo meter uma bala na cabeça, cantou seu precursor no suicídio. Quem saberá por onde vamos amanhã?

A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"
(1) -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin
(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"
(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov
(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan
(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

(Tradução de Haroldo de Campos)
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1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.

2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).
3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.
4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
publicado no livro: "Maiakóvski - Poemas"
traduzido por Boris Schnaiderman,
Augusto de Campos e Haroldo de Campos
Editora Perspectiva

quarta-feira, junho 06, 2012

Por uma vida que nos pertença


Me perguntaram se tive raiva dela alguma vez. Raiva por ter partido, nos deixado com o sofrimento de sua ausência. Me lembrei de um simpósio que fui uma vez, sobre suicídio. Uma palestrante era uma psicanalista cujo filho tinha se suicidado, e ela disse que ela via dois filhos: o que ela amava, que havia perdido, e aquele do qual tinha raiva, que tinha levado ele. É uma resposta tão “fácil” quanto falsa. Não havia duas Camilas, mas apenas uma. Era a mesma pessoa que sorria mansamente e me falava com a voz macia e a que se contorcia em pesadelos; que me amava e que brigava comigo. Era a sua dor que a fazia ser tão sensível à dor alheia. Era a sua vontade de viver que fazia sua dor tão insuportável. Não há a Camila que eu amei sem o sofrimento que ela carregou; sua vida foi uma luta, até o fim. Ela era uma pessoa apenas, e quando me perguntaram se tive raiva dela a minha resposta foi não: eu nunca tive raiva dela por ter partido.
A vida de uma pessoa tem de ser sua. Os sofrimentos que este mundo podre incutiu a marteladas não eram dela, ao mesmo tempo que eram apenas dela e de mais ninguém. Eram imensos, e eram-lhe alheios; eram alheias suas causas, suas motivações e suas soluções. Ela nunca os dominou, e ninguém pôde ajudá-la suficientemente nesta tarefa que provou-se difícil demais para que fosse realizada. Os suicidas carregam uma dor que não é sua. Ainda que tragicamente seja sua, e de mais ninguém. Mas, enfim, a vida era dela. Com todas as dores que ela tinha e que não podíamos compartilhar, como poderia crer, em qualquer momento, que eu tivesse o direito de censurá-la por sua decisão derradeira? Não seria isso o mais egoísta dos gestos?
Ela me deixou as perguntas, pouco antes de partir. Perguntou-me se eu sentiria sua falta se ela morresse; e perguntou-me se eu achava egoísta o suicídio. Respondi a única coisa que poderia. Sim, claro que sentiria. E, obviamente, àquela altura eu era completamente incapaz de saber o quanto sentiria. Às vezes, acho que ainda sou incapaz de saber o quanto ainda sentirei sua falta enquanto eu viver. Quanto à outra pergunta, que mostrava que a decisão estava próxima, ainda que eu tenha sido tristemente incapaz de ver, eu respondi também a única coisa que poderia, que é o que disse acima. A vida de uma pessoa lhe pertence, e ela deve viver para si, e não para os outros. Foi o que eu disse, mas hoje percebo com mais clareza que não é assim. Na verdade, o que acontece é que vivemos em um mundo tão doente que nem nossa vida nos pertence, apenas algumas partes dela, e acho que pelo menos nossa morte deve nos pertencer. É isso o que eu lhe diria hoje. Pois se a vida da Cami lhe pertencesse plenamente, ela a teria levado adiante, a teria vivido como ela merecia viver. Mas não, apenas pedaços lhe pertenciam. Outros pertenciam àquele sofrimento imensurável, que não era dela também. E ela lutou, lutou com determinação para conseguir mais pedaços que lhe pertencessem. E depois de muito lutar, a resposta que pôde dar foi a morte. Uma resposta que nós, que ficamos, passaremos os dias a lamentar. Que sempre nos deixará a pergunta: poderia ter sido outra a reposta para tanta dor?
            Até o fim ela levou a pergunta: posso morrer? É meu direito causar este sofrimento a quem me ama? E até mesmo: será que sofrerão? Sim, ela nunca vai poder saber o quanto, mas sofremos. Eu e outros, sofremos a cada dia. E senti raiva já por várias vezes, nunca dela, mas de mim, por não ter podido ajudá-la mais. É uma raiva injusta também, porque a verdade é esta: não pude, não poderia. Se pudesse, teria feito qualquer coisa a meu alcance. Qualquer coisa, se soubesse que a morte estava ali na esquina. Mas ela sempre esteve, e sempre estaria se ela tivesse sobrevivido. Se as coisas fossem diferentes, eu estaria ali naquela noite derradeira. E provavelmente não teria sido a derradeira, e nem posso saber por quanto tempo mais ela viveria. Mas não teria sido isso que a salvaria. É muita pretensão ter tanta raiva de minhas ações. E me disseram uma verdade dolorosa: sentimos culpa porque é mais fácil do que enfrentarmos o sentimento da impotência.
            Mas se eu tivesse que responder de novo, responderia o mesmo para a pergunta que ela me fez: pode partir, se é esta a sua decisão. Faria de tudo para que ela decidisse outra coisa, mas a decisão não é minha. Sua morte, pelo menos, lhe pertence. As visões dogmáticas e carcomidas de mundo fazem isto: culpar o suicida por sua impossibilidade de levar a vida adiante, ou sua decisão de não levar. Tiram-lhe o direito de viver e, quando consegue surrupiar a seus carrascos ao menos o direito da morte, acusam-no também por isso. Enterram-no em um lugar distinto como marca do estigma, reservam-lhe suas fantasias metafísicas de punições eternas. Ignoram que é somente quando a sociedade chega ao extremo da dor e sofrimento que pode causar a uma pessoa, que a morte se torna uma saída factível. Os escravos se matavam contra sua escravidão; os operários chineses se matam contra sua escravidão. Quando a pessoa se mata é um ato de ódio, simultaneamente de impotência e de resistência. De indignação e de impossibilidade.
            Havia apenas uma Camila, e ela me foi tirada. Quem tomou a decisão de tirá-la de mim e de todos os outros que a amavam foi ela mesma; foi uma decisão à qual ela chegou por um caminho longo e tortuoso, e esta decisão não pode ser compreendida sem se olhar para este caminho. Não há culpa, nem raiva, nem nada que pese sobre seu cadáver ou sua memória. Talvez houvesse, se eu não tivesse acompanhado uma parte de seu caminho até a decisão, compreendesse menos porque ela a tomou. Há a tristeza inelutável de não ter vencido a batalha contra as dores que lhe impingiram. Quem pode julgar sua ação? Quem pode julgar a ação dos que a amavam, que lhe eram próximos, e que foram incapazes de antever? De ajudar? Quem poderia fazer diferente? Fica-nos uma culpa, mas não é nossa. É que é impossível ela ficar totalmente para quem lhe cabe, que é todo um mundo a ser vencido, então temos que tomá-la para nós para poder lhe dar um fim, transformá-la em algo.
            Fica um gosto amargo na vida. Que eu luto, cotidianamente, para transformar em consciência cristalina de que a vida de quem ficou tem que ser luta permanente, contra a morte, contra a expropriação das vidas que acontece cotidianamente. No sentido mais amplo que há. A luta contra as dores que matam, e matam pessoas que mereciam a vida. Todas as pessoas mereciam a vida, mas acontece que em diferentes graus, todas são expropriadas dela. Privadas de viver suas vidas plenamente por um mundo que nos arrasta por caminhos que não escolhemos, que não podemos escolher. Dores que embrutecem, que castram a vida de tantos que ficam. Há quem não se suicide, e ao longo de décadas morre e definha aos poucos, nem sempre vivendo, mas sobrevivendo como pode. Privados de suas próprias vidas. Há um ditado em inglês que diz: “It’s better to burn out than to fade away”. Algo como: É melhor incandescer do que esvanescer; é melhor queimar intensamente do que esmorecer aos poucos. Camila era boa demais em um mundo ruim demais. Sua morte é um alerta de que este mundo nos priva do que há de melhor nesta vida, que é vivê-la. Ela levou consigo um pedaço de minha vida também; o gosto amargo que fica é também um embrutecimento, uma necessidade de se anestesiar do sofrimento para continuar lutando; tê-lo no coração e não se paralisar por ele. Torna-me mais sensível, mas também mais bruto. A têmpera que é necessário ter para enfrentar os tempos que virão é uma faca de dois gumes. Pois outro alerta que ela me deixa é o de não estar anestesiado, de sentir o outro; uma lição profunda que me deu dia após dia e que não posso esquecer.
Penso sempre nos grandes que nos antecederam, que nos legaram as melhores armas para nossas lutas. Suas vidas foram provações atrás de provações. Prisões, perseguições, mortes, exílios. Marx viu a filha morrer de fome. Lênin viu, ainda jovem, seu irmão ser enforcado pelo tsarismo. Trotski viu sua família assassinada, fugiu ao redor do mundo, para morrer assassinado em sua casa. Rosa foi brutalmente assassinada com a conivência de seus antigos companheiros. Embruteço, mas permaneço. O gosto amargo desta morte é uma cicatriz que levo em uma luta que não é só minha, da qual sou uma parte ínfima; da qual ela também foi e ainda é parte, e na qual carrego o melhor de sua herança. É uma luta de toda a humanidade contra nosso embrutecimento coletivo, contra a expropriação da vida, contra a morte como uma saída factível. Para libertar. Hoje o tempo ainda é de fezes e maus poemas. Camila morreu na escuridão. Eu me sinto vivo assim: na escuridão. Mas é esta consciência que tem de nos levar para frente. Ainda haverão outros, muitos e muitos outros; eles poderão viver plenamente sobre um mundo pavimentado por nossa luta. Seria confortável alimentar-me de fantasias, mas não; abro os olhos, deixo-os bem abertos. Levo-a neles, a cada dia, a cada combate. Não podemos nos dar o luxo de nos deixar abater. 



terça-feira, maio 22, 2012

A dor e as cicatrizes


Toda cicatriz começa com uma ferida. Quanto mais profunda for a ferida, mais marcante será a cicatriz. Uma marca, irremovível, que muda para sempre sua feição; que deixa à mostra, visível e exposta, uma parte de você. Que coloca ali aos olhos do mundo uma pergunta: de onde vem esta marca? O que ela representa? O que ela muda?
As feridas podem ser omitidas. As cicatrizes não, estão estampadas em nosso corpo. Cobrimo-las com roupas, adereços. Para trabalharmos, para podermos estar em uma sociedade que finge não haver feridas, para evitarmos as perguntas, cobrimo-las com band-aids, com mentiras.
Feridas em nosso psiquismo deixam cicatrizes também; algumas, ainda que mais visíveis e indisfarçáveis, são mais fáceis de cobrir com mentiras. Quem vê nossa mente em funcionamento raramente se pergunta como suas marcas surgiram. Nossos segredos são nossas feridas, nossas cicatrizes estão ali: visíveis e invisíveis para quem quer que nos veja. A nossa história nos torna, em um mundo doente e distorcido, tal qual um retrato de Dorian Gray, uma forma disforme por baixo de uma fachada de mentiras.
Quando a morte em sua nudez me rasgou uma ferida pulsante e aberta, algumas pessoas me abriram a história de suas cicatrizes. Como as crianças que comparam seus ferimentos, eu ouvi sobre as feridas, invisíveis em um mundo onde há tanta dor, que quase toda ela nos passa despercebida.
Aline, no dia em que bebia para aplacar a dor – o álcool, no fim das contas, assim como todas as drogas de hoje, só pode ter tamanha popularidade explicada pelo anestesiamento do corpo e da mente que ele promove – me revelou, com um sorriso torto, entre uma cerveja e outra que servia em nossa mesa, sua própria ferida; invisível. Eu lhe abri a minha primeiro: uma pessoa que amava de uma forma ainda inaudita havia morrido, colocando para fora em um último ato de sofrimento o seu silêncio final; enfim, as dores sobrepujaram a força para vencê-las. Aline revelou-me que havia tentado pôr fim às suas próprias dores também; cinco vezes. Me deparei com o choque de pensar nas cicatrizes invisíveis que desfilam todos os dias diante de nossos olhos anestesiados. Pouco depois, ainda com a ferida aberta, ouvi uma palavra de consolo com uma lógica absurda, tanto quanto o próprio mundo que a gerou. “Você vai conseguir passar por isso. Eu já passei quatro vezes.” Uma pessoa que amo, que viveu perto de mim a vida inteira. Quatro pessoas de sua família cometeram suicídio. Andou com suas cicatrizes coladas aos meus olhos por décadas, e eu simplesmente não vi as feridas que as causaram. Por onde quer que se repare, não com os olhos anestesiados pela demente naturalização da dor de um mundo torpe, mas com os olhos de quem possa vislumbrar um mundo onde possamos ser humanos de fato, veremos as cicatrizes deixadas por tantas e tantas feridas. Ignoramo-las, dia após dia, para podermos prestar atenção ao que é desimportante e que nos permite sobreviver. E agradecer – pois não nos resta outra saída – a cachaça de graça que a gente tem que engolir.
Quero sentir no corpo a dor que me mata por dentro. Foi isso que ela me disse uma vez. Sentia dor demais para caber dentro de si; dor demais para uma pessoa. Cicatrizes cobriam sua pele, cobriam sua vida. Eu me marquei com seu nome, querendo me ferir, querendo deixar em mim a cicatriz de sua morte, de sua vida apagada por um mundo triste. Ela ia ao encontro da dor, foi à Bósnia ver até onde pode chegar a barbárie humana. Um mundo tão doente, em que não vemos as feridas e nem mesmo as cicatrizes, uma verdadeira máquina de destruição humana em curso. Campos de estupro em massa, cerca de 70% da população masculina dizimada. Uma cicatriz gigante, que rasga a feição de um povo, de gerações. Ela foi, para ver o sofrimento de perto.
Uma cicatriz, hoje quase apagada, foi nossa primeira aliança. A cicatriz que fiz em mim, hoje ainda uma ferida, fechando-se, foi meu presente de despedida. Para mim mesmo, pois seus olhos fechados, matéria inerte em decomposição, já não veem mais nada. A dor foi boa, pois eu sentia no corpo a dor que me mata por dentro. Mas foi curta e passou. A ferida no corpo está cicatrizando. A ferida em minha mente permanece aberta, pulsante. Uma parte da dor foi enterrada com ela; uma parte que a ninguém era acessível. Outra, nos deixa de herança; uma herança difícil de administrar.
O desafio é permanecer de olhos bem abertos. Ver as feridas, as cicatrizes. Questioná-las, enfrentá-las. E não deixar que elas nos paralisem. Não deixar que elas nos matem. Fazer das cicatrizes a pintura de guerra contra o mundo que as fabrica em uma escala imensurável. Nossas cicatrizes são pequenas diante do mundo. E o mundo, pequeno diante de tantas feridas. Perdemos batalhas a cada dia. E destas derrotas, precisamos pavimentar o caminho para vencer. Não para nós mesmos, já desfigurados por tantas marcas. Mas para aqueles que ainda não foram marcados, feito gado, com o ferro em brasa de um mundo que se apropria daquilo que poderíamos ser para nos levar ao abatedouro. Quero tomar suas cicatrizes para mim, para erguê-las como uma bandeira vermelha de indignação. Sua voz, mesmo extinta, não se calará diante de tanta dor. Carrego estampada na mente a frase de nosso camarada, que não teve poucas cicatrizes em sua luta: “aqueles que lutam com mais energia e persistência pelo novo são os que mais sofreram com o velho.” E a vida dela, a morte dela, minha cicatriz.

Momento num café


Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta