terça-feira, setembro 11, 2012

5 meses: você é minha dor

Foram 5 meses desde sua morte. Nos dois anos que estivémos juntos, ficamos no máximo um mês sem nos ver. Resolvi hoje escrever como se fosse para você, ainda que nunca vá ler minhas palavras. Já pensei muitas vezes sobre o conforto das pesssoas que acreditam em qualquer tipo de sobrevivência, se eu seria mais feliz com esta ilusão. Acho que as pessoas precisam de conforto, sim, todas elas. Mas esta possibilidade de acreditar na sua existência simplesmente não existe para mim; até me sinto meio idiota escrevendo para "você". Isso não significa que eu não tenha algo para me apegar, para me confortar da terrível perda. Já sabe: é pensar que a sua breve vida e a minha estão a serviço de algo maior; que um dia a humanidade vai sair de sua pré-história, e que sua morte e sua vida não terão sido em vão.
Acho que nestes cinco meses a grande questão tem sido entender sua morte. Não no sentido mais, digamos, "simples", de pensar porque você resolveu acabar com sua vida. Isso não é tão misterioso para mim, ainda que as causas do seu sofrimento sejam (como até para você). Entender sua morte é fazer com que ela faça um sentido maior, se encaixe em algum lugar minimamente aceitável para tornar a perspectiva de nunca mais te ver menos insuportável. 
Há duas partes nisso, acho: é possível encontrar um lugar para a sua morte. Mas isso não faz dela algo simples ou confortável. A dor, como eu já entendi há algum tempo, permanece. Entender a sua morte é entender como esta dor vai fazer parte da minha vida daqui pra frente.
A dor muda, tem vários lados, várias formas. Ainda é muito difícil para mim, mas espero que um dia consiga, lembrar de você e me alegrar. Ficar feliz de poder ter compartilhado o tempo que tivemos juntos. Ainda não sou capaz; sua lembrança é terrivelmente dolorosa, ela me lembra da sua ausência com muita intensidade. Mas já há algo que sou capaz de fazer e que antes era apenas uma vontade: transformar esta dor em motivação. Sentí-la como minha própria ferida do que é o capital e a sociedade em que vivemos.
Nunca pretendi, e aliás sempre combati, aqueles que viram na sua morte uma expressão crua e mecânica da torpeza do capitalismo; é reduzir demais a sua dor, não entender suas múltiplas causas e determinações. Mas também é impossível entendê-la sem ver a podridão deste mundo. E sem pensar que se as coisas fossem outras, poderíamos ter te ajudado muito mais.
Há algumas pessoas, tão longe, que tem me ajudado a entender o lugar disso: Tala e Natalia. Me surpreendeu a falta que elas sentem de você. São pessoas que carregarão, como eu, sua memória a cada dia. Que sentem sua falta a cada dia, ainda que há muitos anos não pudessem mais conviver com você. Não é à toa. São pessoas que conviveram com você ali onde era mais árduo; que acharam em você a possibilidade de um outro mundo, uma outra vida, de gente que não era como aquela expressão mais profunda da degradação moral e humana que o capitalismo impõe às classes dominantes também. Você é um símbolo, que elas vão carregar pra sempre. Você é uma esperança, que vive para além de si mesma.
Para mim também: foi, é e será uma dor e uma esperança. A dor de ainda viver em um mundo tão torpe; a esperança e a motivação para seguir lutando e mudá-lo. Sei que você viu em mim também a motivação para lutar, que viu em mim a possibilidade de mudar coisas que te incomodavam até mesmo entre camaradas. Que apostava em mim. E eu vou dar o melhor de mim para honrar sua memória, que é também a memória de tantas e tantos que tombaram em combate.
Eu te amo, para sempre. Aos cinco meses, carrego sua dor comigo todos os dias; mas também sua esperança. Elas nunca vão me abandonar.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Resignar-se ao tamanho de humano



Não saber, não prever, não conseguir, não poder. Somos limitados, muito menores do que o mundo e nossas vontades diante dele. Aprender isso pode ser lento e doloroso. Aprender que não está em nossas possibilidades aquilo que gostaríamos de ter feito. Olhar de frente nossas limitações, aceitá-las; resignar-se a elas.
Sim, resignar-se implica em deixar algo morrer. Resignar-se a nosso tamanho de humano implica em deixar morrer algo que não existe, que é a possibilidade de fazermos o que é impossível para nós. Parece fácil aceitar isto, não? Não é. É fácil entender, mas não aceitar. Aceitar significa, enfim, resignar-se. Implica em uma pequena morte de nós mesmos. Deixar morrer o impossível.
Este tem sido um de meus imensos desafios. A morte é provavelmente o maior muro diante de nossas possibilidades, de nosso pequenino tamanho de humano. Ela esfrega em nossa cara o quão impotente nós somos. Encarar a morte da cami implica em uma enorme resignação. Em resignar-me ao fato de que eu não sabia; de que não estava lá; de que não fiz aquela pequena coisa naquele dia ou aquela outra no outro.
Aceitar nosso tamanho de ser humano pode ser, às vezes, uma tarefa maior do que nós mesmos. Para cami, como para tantos que tiraram suas próprias vidas, foi impossível resignar-se. Se quando nos resignamos morremos um pouco a cada dia, muitas vezes quando nos suicidamos é porque já não podemos mais nos resignar. Chegou nosso limite. Cami não podia mais se resignar à vida que estava levando; se resignar diante das impossibilidades imensas que se erguiam, que a colocavam diante do tamanho humano dela, insuperável e que a impedia de viver a vida como ela gostaria. Não dava para se resignar.
Maiakóvski foi um homem que nunca se contentou com seu tamanho de homem. Como disse Trotsky após seu suicídio: "Maiakovsky, pronto para servir à sua época, pelos mais modestos trabalhos quotidianos, não podia aceitar uma rotina pseudo-revolucionária." Nem cami era capaz de aceitar uma rotina pseudo-revolucionária, ou uma pseudo-vida. Quando Maiakóvski viu sua vida e sua arte encurraladas diante da muralha da burocracia soviética, não pôde resignar-se. Tentou, é verdade: "No mês de janeiro deste ano, Maiakovsky, vencido pela lógica da situação, fez grande esforço para aderir, finalmente, à Associação Soviética dos Poetas Operários (VAPP), dois ou três meses antes de matar-se. Essa adesão não lhe trouxe nada. Retirou-lhe, pelo contrário, alguma coisa. Quando ele liquidou suas contas, tanto no plano pessoal quanto no político, e movimentou seu barco, os representantes da literatura burocrática, aqueles que estão à venda, exclamaram: 'inconcebível, incompreensível'. Demonstravam, assim, que não compreendiam tanto o grande poeta Maiakovsky como as contradições da época." Meteu uma bala na testa, porque não podia se resignar. Cami lutou, lutou e lutou. Disto sou testemunha. Lutou para ser uma revolucionária integralmente; lutou para ser coerente com o que acreditava. Venceu muitas batalhas; perdeu outras tantas. Mas uma hora viu-se obrigada a dar um passo atrás, a resignar-se àquilo que poderia fazer; a resignar-se a seu tamanho humano. Recusou-se. Era já resignação demais para alguém com nada mais e nada menos do que a ambição de mudar o mundo.
Suicidou-se, porque não pôde resignar-se.
A nós, que ficamos, resta resignar-nos a nosso tamanho de humanos. Ao tamanho de pessoas que não podiam prever, não podiam ajudar, não podiam evitar. Resta também resignar-nos à compreensão do tamanho de humano que cami tinha, e não censurá-la por não poder ser mais do que humana e nem querer se resignar ao tamanho humano que podia ter. É mais fácil falar do que fazer. Resignar-se é um suicídio cotidiano, porque temos que matar algo em nós mesmos. Suicidar-se é o fim da resignação. O nosso tamanho humano também limita até mesmo nossa possibilidade de nos resignar, pois é típico querermos ser muito mais do que podemos. Vamos aprendendo, a cada dia, a resignar-nos quando necessário.

segunda-feira, agosto 06, 2012

O direito à morte

Vi outro dia um filme, "Você não conhece Jack". Era um filme medíocre, mas sobre um homem bastante extraordinário, Jack Kevorkian. É um médico que ficou famoso e foi processado muitas vezes, e preso durante uns sete anos, por praticar a eutanásia. Eu descobri, vendo o filme, que tinha uma visão conservadora da eutanásia. Acreditava que se resumia a, quando uma pessoa estava sendo mantida viva por aparelhos, ou tinha uma doença terminal, que ela tivesse o direito de morrer. Estava equivocado. Aliás, o direito de desligar os aparelhos já existia no lugar onde Kevorkian morava. O que ele fazia era ajudar as pessoas a se suicidar, quando elas tivessem doenças que tornassem a vida delas impraticáveis. Isso não significa necessariamente doenças terminais. Muitos dos pacientes dele tinham doenças com as quais as pessoas poderiam permanecer vivas por muito tempo, talvez décadas. Mas sofriam, e tinham suas possibilidades de viver de fato gravemente restringidas. Viver não é respirar, comer, dormir e cagar. Aliás, vivemos em um mundo onde, infelizmente, quase todos são obrigados a sobreviver. Se vivemos, acho bastante discutível.

Legalmente, ele não podia matar as pessoas. Mas colocava à disposição delas formas de se suicidarem, e as ajudava a morrer de forma tranquila e indolor. No primeiro caso, utilizou substâncias que eram injetadas e o coração da pessoa parava de bater. Contudo, depois do primeiro caso, teve sua licença médica cassada, e passou a utilizar um gás, se não me engano monóxido de carbono, que a pessoa inala e lentamente adormecia para não acordar mais. Obviamente, não demorou nada para que Kevorkian fosse perseguido e processado por centenas de religiosos. "A vida é escolha de Deus", entoavam em um ato uma multidão de religiosos no filme. Foi processado diversas vezes por "suicídio assistido".

Pensei bastante sobre o direito das pessoas morrerem. Há uma cena em que a polícia arromba a porta de um hotel e interrompe violentamente a entrevista de Kevorkian com uma paciente, dizendo que estavam lá para salvar a vida dela. A mulher, revoltada, dizia: "E quem pediu por isto?". No cristianismo, o suicídio é um crime, porque a sua vida não pertence a você, mas a Deus. O mesmo ocorre no aborto, em que a "vida" do feto pertence a Deus, e só ele pode interrompê-la. A nossa medicina se orienta por este dogma, essencialmente cristão: a vida é um valor absoluto, supremo, incontestável. E a missão dos médicos é preservar esta vida, a qualquer custo. Eles não estão a serviço de seus pacientes, mas a serviço de Deus, que estipulou que a vida é sagrada, e os médicos são seus todo poderosos sacerdotes, a serviço da manutenção deste valor sagrado.  Esta visão sobre a vida é completamente absurda, e leva a toda uma série de outras questões sobre as quais não vou escrever agora, mas que certamente merecem atenção. A diferença substancial de Kevorkian é que ele não estava a serviço de um ente abstrato e supremo que estabeleceu a Lei Sagrada da vida: ele estava a serviço de seus pacientes e do que fosse melhor para eles. E há momentos em que o melhor é morrer, por mais que isto seja tão difícil para nossa sociedade aceitar.

O filme, é claro, me fez pensar na pessoa que amo que tirou sua própria vida. Já escrevi anteriormente sobre o direito dela em relação à sua própria vida, sobre como seria absurdo eu ter raiva dela, e sobre como, quando ela própria me perguntou, eu disse que as pessoas tinham, sim, o direito de se suicidar e que nunca poderiam ser considerados egoístas por isso. Escrevi isso sob a lógica de que no mundo podre em que vivemos a nossa vida não nos pertence, e isso poderia nos levar a querer a morte. Contudo, a história de Kevorkian me fez pensar a mesma questão, mas não sob a perspectiva do direito à vida, e sim do direito à morte. Mesmo em uma sociedade sã as pessoas morrerão, e sofrerão de doenças, e terão problemas e angústias e tristezas. E elas devem ter direito a decidir sempre, sobre sua vida e sobre sua morte.

Cami decidiu sobre a sua morte. Uma das coisas que mais me dói é não ter podido me despedir dela; ela estava se despedindo de todos nós, mas só soubemos depois. Pelo fato de que vivemos em uma sociedade onde a morte é um tabu, onde as pessoas não tem sequer o direito de decidir se querem morrer, porque nem sua vida e nem sua morte lhes pertence, eu não pude saber que ela efetivamente estava pensando e pesando os prós e contras de continuar viva. Vi outro dia uma discussão sobre se seria ou não um ato de coragem o suicídio. Em primeiro lugar, vale dizer que não faz sentido tratar todos os diferentes suicídios como "o suicídio". Mas, diziam, nesta conversa, que não havia como reivindicar a "coragem" de um suicídio. Na época concordei, mas Kevorkian me convenceu do contrário. Eu ainda estava muito impregnado pela visão da vida como um valor absoluto. E ela não é. Cami decidiu sobre sua morte. Para isso, ela teve que vencer várias coisas. Em primeiro lugar o medo de morrer, que não é mais do que uma derivação direta do fato de que a morte é um tabu para nossa sociedade. Ela tinha medo de morrer, e ela o venceu. Ela teve que vencer um medo muito maior, que é o medo do sofrimento que causaria as pessoas que a amavam. Em outras palavras: vencer a sua culpa. Não existe um sentimento mais cristão do que a culpa, e não há nada que culpe mais um suicida do que a religião. Ela teve que decidir e executar tudo sozinha e em segredo. Como foi todo este processo, a dificuldade que foi, o grau de consciência que ela tinha quando executou, o sofrimento pelo qual passou para conseguir fazer isto, são todos segredos que ela levou consigo. Mas, sem dúvida, exigiu dela muita coragem. Coragem para tomar a decisão que ela achou necessária, e coragem para executá-la. 

Eu gostaria muito de ter dividido estes momentos com ela. No filme, em determinado momento chamam a mulher de um paciente de Kevorkian para testemunhar. Ela diz que durante nove meses tentou convencer o marido a não se suicidar, a permanecer vivo, e nestes nove meses ele dizia que o desejo dele era poder morrer. Em seu aniversário, quando a mulher lhe perguntou o que ele queria, ele disse que a única coisa que ela poderia lhe dar seria uma consulta com o Dr. Kevorkian. Ela, finalmente, cedeu ao desejo do marido. E esteve ao seu lado quando ele suavemente morreu. Eu queria este direito, e queria que a cami tivesse ele. Queria poder ouvir serenamente de sua boca que ela achava que já não dava mais; que as limitações que estavam cerceando a sua vida eram maiores do que suas possibilidades de superá-las. Que os pesadelos, as vozes, a angústia já eram demais para continuar. Eu gostaria do direito de conversar com ela e refutá-la, de dizer que ainda havia muita coisa que não tentamos, que era possível sim melhorar a vida dela, fazer com que ela conseguisse estudar, trabalhar, militar plenamente. Que eu estaria ao lado dela, que tudo daria certo. Gostaria de poder, ao longo do tempo, de ser dissuadido de minha visão de quem ama demais, ou de dissuadí-la de sua visão de quem sofre demais. Gostaria de poder sofrer pela sua futura ausência com ela em meus braços, de antecipar a dor da saudade. Gostaria de poder ajudá-la a preparar sua morte, de estar ao seu lado, de segurar sua mão e, acima de tudo, de apoiá-la. De poder olhar em seus olhos e dizer: se esta é, finalmente, sua decisão, eu te apoio. Pode partir tranquila. Gostaria, num plano mais egoísta, de não ter que viver até o fim da minha vida com dilacerante dúvida: se eu não tivesse desmarcado nosso encontro naquela noite, ela estaria viva?

A vida não é um valor em si; o valor da vida está em vivê-la, em poder usá-la para aquilo que ela serve. Afinal, é para isso que nós, comunistas, dedicamos nossas próprias vidas: porque vemos que em um mundo como o nosso, a maior parte da humanidade está privada de viver suas próprias vidas. Acredito que a maioria chega à conclusão de votar sua vida a esta luta por ter sentido na pele ou testemunhado muito de perto a impossibilidade da alegria sob o capitalismo. Não à toa, cami era uma de nós, e lutou o quanto pôde para libertar a humanidade do fardo pesado que a oprime. Ela sabia, melhor do que nós que ficamos, que se a possibilidade de viver está interditada por qualquer motivo, o propósito de estar vivo fica comprometido. Para que serve uma vida que não se pode desfrutar? Para gerar mais-valia? Para agradar a convicção religiosa de alguém? Para que os entes queridos não sofram? Mesmo a possibilidade de estar vivo para lutar por uma humanidade livre e emancipada, que é o meu propósito de vida e também era o dela, torna-se inviável em um determinado grau de sofrimento. Precisamos ter o mínimo de apego a nossa vida tal qual podemos vivê-la hoje. Não é possível viver apenas de futuro. 

Eu passei momentos bastante difíceis assistindo a cami em grandes sofrimentos, e eu sofri muito também por vê-la mal e não poder ajudá-la de forma suficiente. A minha dúvida, que nunca vou poder eliminar, é pensar que ela talvez ela poderia, sim, melhorar. Pois ela já havia estado melhor antes, ela já havia tentado morrer e depois disso passou por momentos felizes. Se ela tivesse morrido da última vez que tentou eu nunca a teria conhecido, nós nunca teríamos podido aproveitar nossos breves anos juntos. Por isso, mais um motivo para eu desejar que ela pudesse conversar comigo abertamente sobre isso; não só para ajudá-la a morrer, mas para questionar sobre sua certeza em relação a isso. É uma dúvida, porque eu não descarto a possibilidade de que o melhor para ela fosse realmente partir. E que, se isso era o melhor para ela, estou certo que seria também o melhor para quem a amava. Mas o maldito dogma que cerca nossa vida - que é metade cristão pela preciosidade" da vida para "Deus", mas também metade capitalista pois a nossa vida serve para produzir para os outros e não para ser desfrutada - me impediu de poder sequer conversar com ela sobre isso. Ela manteve seus planos em segredo.

Em uma entrevista, Kevorkian diz: "quando morrermos, vamos para o nada. Todos viemos do nada, era tão ruim assim?" Um pensamento simples e verdadeiro. Ela não está mais sofrendo, não há nada de ruim para ela agora. Ruim é para nós que ficamos. Ruim é pensar em como cami era jovem e, nos momentos certos, cheia de vida e de vontade de viver. Como era linda, inteligente, sensível, generosa, engraçada, revolucionária, cheia de um milhão de potencialidades. Ruim é pensar neste potencial extirpado, pelas raízes, bruscamente. Ruim é nossa impotência diante disso, e o fato de que sequer podemos compreender direito porque foi assim. E é muito ruim também que nem eu nem todos os outros que a amam e sentem intensamente sua falta termos podido compartilhar a sua decisão. Pessoas que gostariam tanto de tê-la visto mais uma vez, e que certamente ela também gostaria de poder ter visto. Ter alguém ao seu lado para tornar sua partida mais tranquila. Um dia, nossos descendentes viverão em uma sociedade onde a morte não seja um tabu, em que as pessoas serão livres para decidir morrer, se precisarem.

quarta-feira, julho 04, 2012

Ela não é a pasta de dente

Ontem me peguei pensando que nossa dificuldade em assimilar a morte pode ser um mecanismo de autodefesa. Para suportar uma dor muito grande, dividimo-la em doses homeopáticas a perder de vista...a doer um pouco e sempre todo dia, todo dia, todo dia... Lembrar a cada dia, umas e outras e mais umas vezes. Entender novamente, e lembrar do que vai ficando na memória, do que vai decantando. Pensar mil vezes no significado do que foi dito, do que foi feito...e do que não foi.
Mas nossa mente é estúpida e teimosa, ela quer se apegar a qualquer coisa para não dizer o derradeiro adeus, que nunca, nunca vem pra quem ficou aqui, do lado de cá da morte.
Antes que eu me mudasse da casa dos meus pais, ela deixou um tubo de pasta de dente Colgate, um bem grande. Ela não gostava da pasta de dente que tinha, que ela achava muito fraca, e trouxe uma pra ela usar. Quando me mudei, o tudo de pasta de dente ficou para trás. Há poucos meses fomos lá, estava escovando os dentes, e ela me disse: "nossa, ainda não acabou esta pasta?". 
Pego-me olhando pra o tubo pela metade nos últimos meses, pensando como é triste que ele tenha durado aqui ainda mesmo quando ela já se foi; é assim com todas suas coisas espalhadas pelos cantos. Sua touca pendurada no banheiro; o doce de leite mexicano no armário da cozinha; as camisetas e outros presentes que me deu. Ia escovar os dentes e hesitava em usar a pasta de dentes, um pedacinho da vida dela que ficou para trás, que queria preservar ali, intocado.
E, do alto da minha racionalidade, ainda tenho que repetir para mim mesmo: ela não é uma pasta de dente; ela se foi, e isso daí não é nada. Penso em seu corpo, enterrado, em decomposição. Isto não é ela; ela já não existe, exceto pelo que existe dela em nós. O tanto que ela existe em nós pode ser discutido.
Mas uma coisa é certa: ela não é a pasta de dente. Eu posso escovar os dentes com a pasta e depois jogar o tubo vazio no lixo; ela não estará menos comigo por isso.

segunda-feira, julho 02, 2012

Soluços

"Quando a dor está lá há um tempo já, ela começa a se organizar. É menos insuportável, angustiante, prostador. É mais distinguível, tem partes, explicações. Dói mais aqui, ou certa memória, ou certo pensamento, ou certo jeito. As feridas, quando se fecham ou começam a se fechar, deixam marcas curiosas. Dizem, aprendi quando fui fazer minha tatuagem, que não se deve cutucar as casquinhas para não deixar marcas. Será que é por isso que sempre tive marcas? Bom, mas certas feridas se cutucam, é preciso que sejam cutucadas. Porque elas estão ali, elas estão abertas. Se nossas feridas não nos servirem para vermos onde nos machucamos e aprender algo com isso, de que servem nossas cicatrizes senão como tristes memórias de nossas quedas?"

Escrevi isto há pouco mais de um mês atrás, quando ia fazer dois meses do suicídio da cami; li poucos dias depois, e me pareceu estranho; hoje se aproximam os três meses de sua morte, e o trecho me soa absurdo. A dor não está nada organizada, a vida não está organizada. Ela é nublada, ela vem em soluços e solavancos.
A dor hoje costuma me pegar de surpresa, em meio a alguma vislumbrada ao passado que parece só mais uma das tantas que vêm involuntariamente todos os dias. Mas de repente ela se prolonga e se aprofunda. E isso vai se repetindo mais e mais, sempre que sobra um espacinho no cérebro. Começo a perceber que há uma mudança de qualidade. A saudade de um eterno imaginado vai misturando-se com a saudade de um cotidiano vivido. Vou entendendo novamente o que se disse, sobre o luto consistir em chorar cada pedacinho. Os pedacinhos de dor e saudade que vão nos vindo, vindo, vindo... Que tola minha mente, que em algum momento achou que entrava em uma curva descendente esta dor. Era uma calmaria antes da tempestade.
A ideia de sua morte hoje me parece mais absurda do que jamais fora. Quanto tempo leva para entender o tamanho de uma vida sem ela, o tamanho desta ausência? Quanto tempo leva para entender o que é pensar nela e nunca mais dizer "você"? Como faz pra caber em uma cabeça tão limitada, mundana, a ideia de que uma existência, uma consciência sem a qual eu não seria o que sou hoje, simplesmente se extinguiu? São ideias que cabem na boca, cabem nas palavras. Mas não cabem em meu entendimento. Não cabem nestas lágrimas que vêm em espasmos, e que não podem prolongar-se pelo tempo e a profundidade desta ausência. Neste deslumbramento diante do que era a vida, do que ela é; neste assombro diante de olhar para o mundo e ver o que ela é, o ponto de abandono a que chegou. De saber que a miséria que me enfia esta faca no peito é um esboço do que é a regra deste mundo.
Às vezes parece que carregar esta vida absurda, insólita, para um lugar que faça dela algo palpável e valoroso é um tiro no escuro. Somos pequeninas formigas cumprindo o destino de Sísifo, e carregando ladeira acima pedras imensas uma e outra vez mais.
Mas não é; saber que sua vida escorregou entre meus dedos, entre os dedos dela é algo de tirar o fôlego. E se esta pequenina morte, tão próxima e tão doída, é tão difícil de apalpar, ela é o mais próximo que consigo chegar diante do absurdo da realidade. Diante de milhões de mortes que são o combustível de um mundo morto-vivo. De uma fome que não quer dizer chega.
Sua voz me ressoa aos ouvidos, sinto na memória teus dedos pequeninos, teus cachos que me enlaçam em seu cheiro com cigarro. Vejo na noite seu vulto levantando-se para beber água. Não há nada ali, nem ilusões. Pego-me procurando na vida explicações, motivações, todos os fios do dia-a-dia levam-me de volta a esta fenda cavada em meu interior. Agarro-me nas palavras do velho camarada, que antes de ele mesmo meter uma bala na cabeça, cantou seu precursor no suicídio. Quem saberá por onde vamos amanhã?

A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"
(1) -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin
(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"
(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov
(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan
(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

(Tradução de Haroldo de Campos)
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1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.

2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).
3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.
4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
publicado no livro: "Maiakóvski - Poemas"
traduzido por Boris Schnaiderman,
Augusto de Campos e Haroldo de Campos
Editora Perspectiva

quarta-feira, junho 06, 2012

Por uma vida que nos pertença


Me perguntaram se tive raiva dela alguma vez. Raiva por ter partido, nos deixado com o sofrimento de sua ausência. Me lembrei de um simpósio que fui uma vez, sobre suicídio. Uma palestrante era uma psicanalista cujo filho tinha se suicidado, e ela disse que ela via dois filhos: o que ela amava, que havia perdido, e aquele do qual tinha raiva, que tinha levado ele. É uma resposta tão “fácil” quanto falsa. Não havia duas Camilas, mas apenas uma. Era a mesma pessoa que sorria mansamente e me falava com a voz macia e a que se contorcia em pesadelos; que me amava e que brigava comigo. Era a sua dor que a fazia ser tão sensível à dor alheia. Era a sua vontade de viver que fazia sua dor tão insuportável. Não há a Camila que eu amei sem o sofrimento que ela carregou; sua vida foi uma luta, até o fim. Ela era uma pessoa apenas, e quando me perguntaram se tive raiva dela a minha resposta foi não: eu nunca tive raiva dela por ter partido.
A vida de uma pessoa tem de ser sua. Os sofrimentos que este mundo podre incutiu a marteladas não eram dela, ao mesmo tempo que eram apenas dela e de mais ninguém. Eram imensos, e eram-lhe alheios; eram alheias suas causas, suas motivações e suas soluções. Ela nunca os dominou, e ninguém pôde ajudá-la suficientemente nesta tarefa que provou-se difícil demais para que fosse realizada. Os suicidas carregam uma dor que não é sua. Ainda que tragicamente seja sua, e de mais ninguém. Mas, enfim, a vida era dela. Com todas as dores que ela tinha e que não podíamos compartilhar, como poderia crer, em qualquer momento, que eu tivesse o direito de censurá-la por sua decisão derradeira? Não seria isso o mais egoísta dos gestos?
Ela me deixou as perguntas, pouco antes de partir. Perguntou-me se eu sentiria sua falta se ela morresse; e perguntou-me se eu achava egoísta o suicídio. Respondi a única coisa que poderia. Sim, claro que sentiria. E, obviamente, àquela altura eu era completamente incapaz de saber o quanto sentiria. Às vezes, acho que ainda sou incapaz de saber o quanto ainda sentirei sua falta enquanto eu viver. Quanto à outra pergunta, que mostrava que a decisão estava próxima, ainda que eu tenha sido tristemente incapaz de ver, eu respondi também a única coisa que poderia, que é o que disse acima. A vida de uma pessoa lhe pertence, e ela deve viver para si, e não para os outros. Foi o que eu disse, mas hoje percebo com mais clareza que não é assim. Na verdade, o que acontece é que vivemos em um mundo tão doente que nem nossa vida nos pertence, apenas algumas partes dela, e acho que pelo menos nossa morte deve nos pertencer. É isso o que eu lhe diria hoje. Pois se a vida da Cami lhe pertencesse plenamente, ela a teria levado adiante, a teria vivido como ela merecia viver. Mas não, apenas pedaços lhe pertenciam. Outros pertenciam àquele sofrimento imensurável, que não era dela também. E ela lutou, lutou com determinação para conseguir mais pedaços que lhe pertencessem. E depois de muito lutar, a resposta que pôde dar foi a morte. Uma resposta que nós, que ficamos, passaremos os dias a lamentar. Que sempre nos deixará a pergunta: poderia ter sido outra a reposta para tanta dor?
            Até o fim ela levou a pergunta: posso morrer? É meu direito causar este sofrimento a quem me ama? E até mesmo: será que sofrerão? Sim, ela nunca vai poder saber o quanto, mas sofremos. Eu e outros, sofremos a cada dia. E senti raiva já por várias vezes, nunca dela, mas de mim, por não ter podido ajudá-la mais. É uma raiva injusta também, porque a verdade é esta: não pude, não poderia. Se pudesse, teria feito qualquer coisa a meu alcance. Qualquer coisa, se soubesse que a morte estava ali na esquina. Mas ela sempre esteve, e sempre estaria se ela tivesse sobrevivido. Se as coisas fossem diferentes, eu estaria ali naquela noite derradeira. E provavelmente não teria sido a derradeira, e nem posso saber por quanto tempo mais ela viveria. Mas não teria sido isso que a salvaria. É muita pretensão ter tanta raiva de minhas ações. E me disseram uma verdade dolorosa: sentimos culpa porque é mais fácil do que enfrentarmos o sentimento da impotência.
            Mas se eu tivesse que responder de novo, responderia o mesmo para a pergunta que ela me fez: pode partir, se é esta a sua decisão. Faria de tudo para que ela decidisse outra coisa, mas a decisão não é minha. Sua morte, pelo menos, lhe pertence. As visões dogmáticas e carcomidas de mundo fazem isto: culpar o suicida por sua impossibilidade de levar a vida adiante, ou sua decisão de não levar. Tiram-lhe o direito de viver e, quando consegue surrupiar a seus carrascos ao menos o direito da morte, acusam-no também por isso. Enterram-no em um lugar distinto como marca do estigma, reservam-lhe suas fantasias metafísicas de punições eternas. Ignoram que é somente quando a sociedade chega ao extremo da dor e sofrimento que pode causar a uma pessoa, que a morte se torna uma saída factível. Os escravos se matavam contra sua escravidão; os operários chineses se matam contra sua escravidão. Quando a pessoa se mata é um ato de ódio, simultaneamente de impotência e de resistência. De indignação e de impossibilidade.
            Havia apenas uma Camila, e ela me foi tirada. Quem tomou a decisão de tirá-la de mim e de todos os outros que a amavam foi ela mesma; foi uma decisão à qual ela chegou por um caminho longo e tortuoso, e esta decisão não pode ser compreendida sem se olhar para este caminho. Não há culpa, nem raiva, nem nada que pese sobre seu cadáver ou sua memória. Talvez houvesse, se eu não tivesse acompanhado uma parte de seu caminho até a decisão, compreendesse menos porque ela a tomou. Há a tristeza inelutável de não ter vencido a batalha contra as dores que lhe impingiram. Quem pode julgar sua ação? Quem pode julgar a ação dos que a amavam, que lhe eram próximos, e que foram incapazes de antever? De ajudar? Quem poderia fazer diferente? Fica-nos uma culpa, mas não é nossa. É que é impossível ela ficar totalmente para quem lhe cabe, que é todo um mundo a ser vencido, então temos que tomá-la para nós para poder lhe dar um fim, transformá-la em algo.
            Fica um gosto amargo na vida. Que eu luto, cotidianamente, para transformar em consciência cristalina de que a vida de quem ficou tem que ser luta permanente, contra a morte, contra a expropriação das vidas que acontece cotidianamente. No sentido mais amplo que há. A luta contra as dores que matam, e matam pessoas que mereciam a vida. Todas as pessoas mereciam a vida, mas acontece que em diferentes graus, todas são expropriadas dela. Privadas de viver suas vidas plenamente por um mundo que nos arrasta por caminhos que não escolhemos, que não podemos escolher. Dores que embrutecem, que castram a vida de tantos que ficam. Há quem não se suicide, e ao longo de décadas morre e definha aos poucos, nem sempre vivendo, mas sobrevivendo como pode. Privados de suas próprias vidas. Há um ditado em inglês que diz: “It’s better to burn out than to fade away”. Algo como: É melhor incandescer do que esvanescer; é melhor queimar intensamente do que esmorecer aos poucos. Camila era boa demais em um mundo ruim demais. Sua morte é um alerta de que este mundo nos priva do que há de melhor nesta vida, que é vivê-la. Ela levou consigo um pedaço de minha vida também; o gosto amargo que fica é também um embrutecimento, uma necessidade de se anestesiar do sofrimento para continuar lutando; tê-lo no coração e não se paralisar por ele. Torna-me mais sensível, mas também mais bruto. A têmpera que é necessário ter para enfrentar os tempos que virão é uma faca de dois gumes. Pois outro alerta que ela me deixa é o de não estar anestesiado, de sentir o outro; uma lição profunda que me deu dia após dia e que não posso esquecer.
Penso sempre nos grandes que nos antecederam, que nos legaram as melhores armas para nossas lutas. Suas vidas foram provações atrás de provações. Prisões, perseguições, mortes, exílios. Marx viu a filha morrer de fome. Lênin viu, ainda jovem, seu irmão ser enforcado pelo tsarismo. Trotski viu sua família assassinada, fugiu ao redor do mundo, para morrer assassinado em sua casa. Rosa foi brutalmente assassinada com a conivência de seus antigos companheiros. Embruteço, mas permaneço. O gosto amargo desta morte é uma cicatriz que levo em uma luta que não é só minha, da qual sou uma parte ínfima; da qual ela também foi e ainda é parte, e na qual carrego o melhor de sua herança. É uma luta de toda a humanidade contra nosso embrutecimento coletivo, contra a expropriação da vida, contra a morte como uma saída factível. Para libertar. Hoje o tempo ainda é de fezes e maus poemas. Camila morreu na escuridão. Eu me sinto vivo assim: na escuridão. Mas é esta consciência que tem de nos levar para frente. Ainda haverão outros, muitos e muitos outros; eles poderão viver plenamente sobre um mundo pavimentado por nossa luta. Seria confortável alimentar-me de fantasias, mas não; abro os olhos, deixo-os bem abertos. Levo-a neles, a cada dia, a cada combate. Não podemos nos dar o luxo de nos deixar abater. 



terça-feira, maio 22, 2012

A dor e as cicatrizes


Toda cicatriz começa com uma ferida. Quanto mais profunda for a ferida, mais marcante será a cicatriz. Uma marca, irremovível, que muda para sempre sua feição; que deixa à mostra, visível e exposta, uma parte de você. Que coloca ali aos olhos do mundo uma pergunta: de onde vem esta marca? O que ela representa? O que ela muda?
As feridas podem ser omitidas. As cicatrizes não, estão estampadas em nosso corpo. Cobrimo-las com roupas, adereços. Para trabalharmos, para podermos estar em uma sociedade que finge não haver feridas, para evitarmos as perguntas, cobrimo-las com band-aids, com mentiras.
Feridas em nosso psiquismo deixam cicatrizes também; algumas, ainda que mais visíveis e indisfarçáveis, são mais fáceis de cobrir com mentiras. Quem vê nossa mente em funcionamento raramente se pergunta como suas marcas surgiram. Nossos segredos são nossas feridas, nossas cicatrizes estão ali: visíveis e invisíveis para quem quer que nos veja. A nossa história nos torna, em um mundo doente e distorcido, tal qual um retrato de Dorian Gray, uma forma disforme por baixo de uma fachada de mentiras.
Quando a morte em sua nudez me rasgou uma ferida pulsante e aberta, algumas pessoas me abriram a história de suas cicatrizes. Como as crianças que comparam seus ferimentos, eu ouvi sobre as feridas, invisíveis em um mundo onde há tanta dor, que quase toda ela nos passa despercebida.
Aline, no dia em que bebia para aplacar a dor – o álcool, no fim das contas, assim como todas as drogas de hoje, só pode ter tamanha popularidade explicada pelo anestesiamento do corpo e da mente que ele promove – me revelou, com um sorriso torto, entre uma cerveja e outra que servia em nossa mesa, sua própria ferida; invisível. Eu lhe abri a minha primeiro: uma pessoa que amava de uma forma ainda inaudita havia morrido, colocando para fora em um último ato de sofrimento o seu silêncio final; enfim, as dores sobrepujaram a força para vencê-las. Aline revelou-me que havia tentado pôr fim às suas próprias dores também; cinco vezes. Me deparei com o choque de pensar nas cicatrizes invisíveis que desfilam todos os dias diante de nossos olhos anestesiados. Pouco depois, ainda com a ferida aberta, ouvi uma palavra de consolo com uma lógica absurda, tanto quanto o próprio mundo que a gerou. “Você vai conseguir passar por isso. Eu já passei quatro vezes.” Uma pessoa que amo, que viveu perto de mim a vida inteira. Quatro pessoas de sua família cometeram suicídio. Andou com suas cicatrizes coladas aos meus olhos por décadas, e eu simplesmente não vi as feridas que as causaram. Por onde quer que se repare, não com os olhos anestesiados pela demente naturalização da dor de um mundo torpe, mas com os olhos de quem possa vislumbrar um mundo onde possamos ser humanos de fato, veremos as cicatrizes deixadas por tantas e tantas feridas. Ignoramo-las, dia após dia, para podermos prestar atenção ao que é desimportante e que nos permite sobreviver. E agradecer – pois não nos resta outra saída – a cachaça de graça que a gente tem que engolir.
Quero sentir no corpo a dor que me mata por dentro. Foi isso que ela me disse uma vez. Sentia dor demais para caber dentro de si; dor demais para uma pessoa. Cicatrizes cobriam sua pele, cobriam sua vida. Eu me marquei com seu nome, querendo me ferir, querendo deixar em mim a cicatriz de sua morte, de sua vida apagada por um mundo triste. Ela ia ao encontro da dor, foi à Bósnia ver até onde pode chegar a barbárie humana. Um mundo tão doente, em que não vemos as feridas e nem mesmo as cicatrizes, uma verdadeira máquina de destruição humana em curso. Campos de estupro em massa, cerca de 70% da população masculina dizimada. Uma cicatriz gigante, que rasga a feição de um povo, de gerações. Ela foi, para ver o sofrimento de perto.
Uma cicatriz, hoje quase apagada, foi nossa primeira aliança. A cicatriz que fiz em mim, hoje ainda uma ferida, fechando-se, foi meu presente de despedida. Para mim mesmo, pois seus olhos fechados, matéria inerte em decomposição, já não veem mais nada. A dor foi boa, pois eu sentia no corpo a dor que me mata por dentro. Mas foi curta e passou. A ferida no corpo está cicatrizando. A ferida em minha mente permanece aberta, pulsante. Uma parte da dor foi enterrada com ela; uma parte que a ninguém era acessível. Outra, nos deixa de herança; uma herança difícil de administrar.
O desafio é permanecer de olhos bem abertos. Ver as feridas, as cicatrizes. Questioná-las, enfrentá-las. E não deixar que elas nos paralisem. Não deixar que elas nos matem. Fazer das cicatrizes a pintura de guerra contra o mundo que as fabrica em uma escala imensurável. Nossas cicatrizes são pequenas diante do mundo. E o mundo, pequeno diante de tantas feridas. Perdemos batalhas a cada dia. E destas derrotas, precisamos pavimentar o caminho para vencer. Não para nós mesmos, já desfigurados por tantas marcas. Mas para aqueles que ainda não foram marcados, feito gado, com o ferro em brasa de um mundo que se apropria daquilo que poderíamos ser para nos levar ao abatedouro. Quero tomar suas cicatrizes para mim, para erguê-las como uma bandeira vermelha de indignação. Sua voz, mesmo extinta, não se calará diante de tanta dor. Carrego estampada na mente a frase de nosso camarada, que não teve poucas cicatrizes em sua luta: “aqueles que lutam com mais energia e persistência pelo novo são os que mais sofreram com o velho.” E a vida dela, a morte dela, minha cicatriz.

Momento num café


Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

sexta-feira, abril 20, 2012

Nunca mais...


The Raven

Edgar Allan Poe, first published in 1845

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
" 'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door;

Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember, it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow, sorrow for the lost Lenore,
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore,

Nameless here forevermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me---filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
" 'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door,
Some late visitor entreating entrance at my chamber door.

This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is, I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you." Here I opened wide the door;---

Darkness there, and nothing more.

Deep into the darkness peering, long I stood there, wondering, fearing
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word,
Lenore?, This I whispered, and an echo murmured back the word,

"Lenore!" Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping, something louder than before,
"Surely," said I, "surely, that is something at my window lattice.
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore.
Let my heart be still a moment, and this mystery explore.

" 'Tis the wind, and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven, of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But with mien of lord or lady, perched above my chamber door. Perched upon a bust of Pallas, just above my chamber door,

Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
 By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly, grim, and ancient raven, wandering from the nightly shore.
Tell me what the lordly name is on the Night's Plutonian shore."

Quoth the raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning, little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door,
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,

With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on that placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered; not a feather then he fluttered;
Till I scarcely more than muttered,"Other friends have flown before;
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."

Then the bird said,"Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master, whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster, till his songs one burden bore,---
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore

Of "Never---nevermore."

But the raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore,
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

Meant in croaking, "Nevermore."

Thus I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl, whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er

She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee -- by these angels he hath
Sent thee respite---respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, O quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!"

Quoth the raven, "Nevermore!"

"Prophet!" said I, "thing of evil!--prophet still, if bird or devil!
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted--
On this home by horror haunted--tell me truly, I implore:
Is there--is there balm in Gilead?--tell me--tell me I implore!"

Quoth the raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil--prophet still, if bird or devil!
By that heaven that bends above us--by that God we both adore--
Tell this soul with sorrow laden, if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden, whom the angels name Lenore---
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels name Lenore?

Quoth the raven, "Nevermore."

"Be that word our sign of parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting--
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul spoken!
Leave my loneliness unbroken! -- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"

Quoth the raven, "Nevermore."

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming.
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor Shall be lifted--- nevermore!

O corvo 
Tradução de Milton Amado

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém ? fiquei a murmurar ? que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais."

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
? Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
E a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:
Escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,
Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: "Lenora!"
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" ? penso então. ? "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
? É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto ? uma escultura de Minerva,
Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular" ? então lhe digo ?
"Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!"
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
E que se chame "Nunca mais".

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa me envenena: "Amigos? sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora."
E disse o Corvo: "Nunca mais."

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: "É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: ? o ritornelo
De "Nunca, nunca, nunca mais".

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: "Nunca mais."

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,
Já não repousa, ah! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,
Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta! ? brado. ? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"
"Seja isso a nossa despedida! ? ergo-me e grito, alma incendida. ?
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

quinta-feira, abril 19, 2012

Herança

Está na ponta das minhas memórias a primeira vez que conversei com a Cami. Nosso camarada Chipi estava no Brasil, e fomos para o apertado e claustrofóbico Pau Brasil, levá-lo ao samba. Eu, há pouco tempo estava militando n’A Plenos Pulmões, agrupação da ler-qi e independentes no movimento estudantil; pela primeira vez ia em rumo decidido para dedicar minha vida a algo maior do que minhas ambições pessoais; minhas ambições pessoais, de fato, não cabiam mais em minha própria vida: passavam a ser a de tornar o mundo um lugar sem esta espessa camada cinza que cobre a vida. Isso me tornava mais forte e mais vivo. E foi neste momento que me apresentaram a “Camilinha, lá da PUC”. Ela era linda, e estava bastante bêbada. Falaram pra ela que eu era da USP, que estava na Plenos Pulmões. Ela pareceu feliz com esta informação – naquela época aproximar novos militantes na USP era um feito, e eu, com meus cinco anos de flerte com a ler-qi, era uma prova concreta disso – e cami não demorou mais do que três minutos pra me perguntar, com a voz meio pastosa da embriaguez e uma empatia que conseguiu até perfurar minha imensa timidez: “Mas você tá convencido de construir o partido revolucionário?”. Achei engraçado aquele nível de ofensividade tão de cara; por sorte eu estava, sim, convencido, e foi o que respondi pra ela. Conversamos um pouco, e a atração que senti por ela foi bastante imediata. Não me lembro de mais muita coisa naquela noite. Acabei dando uma carona pra ela, meio que pra qualquer lugar, tive uma destas brigas idiotas de ciúmes com a mila (por outros motivos), com quem namorava e que também estava bastante bêbada.
Mais de um ano se passou entre este dia e o dia 17 de abril, quando a gente começou nosso relacionamento. A data, ela que guardou com exatidão; eu só lembrava que era pouco antes do meu aniversário. O fato de que pouco nos víamos antes disso e de que em nossa sociedade de relações degeneradas as pessoas pouco conseguem se falar, fez com que neste ano quase não nos conhecessemos. Quando nos víamos, eram flertes tímidos, conversas pontuais. Uma vez, tive coragem de lhe mandar uma mensagem, como um adolescente besta que gosta da amiguinha. A mensagem não chegou, coisa que só soube muito depois. Só ficamos juntos quando ela colocou toda sua “sutileza” em prática; parados na fila do caixa de um bar, cami me disse: “E aí, quando você vai me chamar pra sair?” Mesmo com minha incapacidade de responder algo decente, balbuciei “quando você quiser”, e acabamos ficando naquela mesma noite. Lembro-me muitas vezes depois dela dizendo como “assustou” muitas pessoas com quem queria ficar pela sua incapacidade de ser sutil ao tentar demonstrar interesse. Comigo, foi a melhor tática, eu respondia.
Ela era direta, falava as coisas com dureza e sinceridade; ao mesmo tempo, algumas vezes era incapaz de dirigir uma palavra a quem queria. Era profundamente empática e simpática, capaz de atingir em cheio o que uma pessoa sentia; ao mesmo tempo, era quase sociofóbica. As contradições marcaram a vida da cami, tornavam-na fascinante, muitas vezes a dilaceravam. Compartilhei com ela um tempo intenso e tristemente curto, dois anos em que tive o imenso privilégio de ser uma das pessoas mais próximas de sua vida. Foi muito rápido: em duas semanas era como se nos conhecessemos há anos. Conversar com ela era um ato de auto-conhecimento e de conhecer o mundo também; sua sensibilidade não tem muitos parelelos nas pessoas que conheci. A seu lado e com nossas conversas pude conhecer melhor a organização em que militava, pude encontrar, ainda que afastada da militância cotidiana, uma autêntica camarada que via como, muitas vezes, em pequenas atitudes se expressam grandes questões políticas.
Muito do que nos aproximou, era evidente, vinha de uma grande identificação, pelo menos de minha parte, e isso eu lhe disse algumas boas vezes. Eu via a mim mesmo em sua tristeza com o mundo, e em como sua insatisfação com o ambiente que a cercou na infância e adolescência a empurraram para a esquerda, para ver no comunismo a única saída para uma humanidade tão amesquinhada e apartada de si mesma. Eu me via também na enorme contradição entre sentimentos dolorosos e incapacitantes e a vontade de colocar-se a serviço de uma luta que consome quantidades imensas de energia; energia que muitas vezes ambos não encontrávamos. Mas não era apenas isso. Ela me empurrou para frente em todos, todos, todos os aspectos da minha vida. Me fez ver como as limitações de minha vida pessoal estavam casadas com as minhas limitações políticas; me ajudou a romper preconceitos dogmáticos e ver que ainda, ao conhecer a mente humana, engatínhamos (como não poderia deixar de ser em uma sociedade com uma ciência tão obtusa, pragmática, míope). Me ajudou a tentar coisas das quais eu tinha medo.
Lembro-me no começo, eu era instigado por uma vontade de conhecê-la melhor, de ser mais parte de sua vida, como sempre acontece quando nos apaixonamos. Conversamos muito sobre a dor que ela carregava, e que no fim das contas era inacessível para qualquer um que não fosse ela. Isso foi ficando dolorosamente mais claro para mim com o passar do tempo. Lembro-me bem de uma conversa que tivemos sobre sua família. O amor que ela sentia pelos seus irmãos, acompanhado de saudades, era algo profundo, mas também cheio de contradições. Contou-me de uma das vezes que havia tentado se suicidar, e que Pedro, seu irmão mais novo, a encontrou sozinho e teve que salvar sua vida. Ela via que isso havia deixado marcas em sua relação que eram difíceis de superar; um trauma, que ela compreendia e lamentava também. Me marcou esta conversa, e o como isso foi se tornando concreto para mim. Por exemplo, em uma vez que tive que segurá-la quando, inconsciente, em estado de sonambulismo, tentou quebrar o vidro da janela do meu quarto. Meus dias seguintes foram cheios de angustia e preocupação, de um sentimento terrível de impotência. E se aquilo acontecesse quando eu estava longe? E se eu não pudesse impedir? Talvez aí eu tenha entendido melhor, finalmente, o que ela quis dizer quando contou a história do suicídio que seu irmão impediu de se concretizar. Somos pequenos e frágeis demais para lidar com as nossas limitações diante de quem amamos; às vezes, nossa única opção é tentar nos preservarmos de qualquer forma, tentando negar um pouco nosso amor por aquilo que nos sentimos incapazes de preservar.
Cami, eu acho, tinha bem pouca ciência das suas próprias capacidades, do quão profundamente conseguia chegar nas pessoas e do quão difícil era para outras pessoas entender coisas que para ela eram acessíveis. O quão profundamente humana ela podia ser, nos momentos certos. Mas no último ano estava progressivamente se tornando mais consciente disso, de que as pessoas conseguiam confiar nela rapidamente e se sentir compreendidas; de que a singular combinação entre sua sensibilidade e suas próprias dificuldades permitiam-na explorar partes da mente humana que são águas turvas. Isso se concretizava em um desejo um pouco difuso que ela passou a manifestar de fazer psicanálise e tornar-se terapeuta. O desejo era difuso porque a instabilidade em sua vida dificultava enormemente que levasse seus planos à frente. Isso a rasgava por dentro.
Conhecer uma pessoa tão profunda e com tanto potencial, ver de perto como uma sociedade degenerada e mutiladora consegue atacar e comprometer de forma irreversível seu psiquismo e como por, em grande parte, ser esta uma pessoa boa demais em um mundo ruim demais, somos forçados a assistir impotentes ela ser arrancada brutalmente de nós de uma forma tão estúpida e violenta; esta experiência é algo que não é plenamente traduzível em palavras. Mas ela nos ensina muito, e eu espero poder transformar isso em ação e reflexão para levar adiante a luta para que um dia isso nunca mais aconteça. Ela foi a prova viva daquela frase que diz que não é saudável ser bem ajustado em uma sociedade profundamente doente. Mil conversas, fatos, coisas que aprendi com ela me vêm à mente, e seria impossível expressar em umas poucas linhas ainda vertidas em meio a um sofrimento imenso, uma ferida aberta que dói só de respirar, o quanto cami representou em minha trajetória pessoal e política. Mas, de fato, o que pode passar batido a muitos é o que cami deixa a este mundo, e é sobre isso que queria falar um pouco mais.
Não posso negar que a cortina pesada que cai sobre a vida ao me deparar com a súbita e trágica morte de uma pessoa que era como uma parte de mim tem um peso difícil de medir. A morte se tornou hoje a medida de todas as coisas. No segundo dia que conversei com Helena – um destes pilares que me ajuda e entender por onde vou tateando em meio a este mundo – após a morte da cami, ela me disse que ainda não era possível ver isto, mas que a morte dela me deixaria uma herança. Hoje, escrevo este texto com uma primeiro vislumbre de uma herança que, sei, ainda está longe de se consolidar. Vi hoje “Pina”, de Win Wenders, e foi uma experiência libertadora. Lembrei, em primeiro lugar, que mesmo uma humanidade tão torpe e distante de si própria é capaz de produzir coisas belas, coisas que nos façam abrir um pouco mais os olhos, sentir um pouco mais a vida. Nos movimentos daquela dança, cujo significado profundo não é realizável em palavras, havia angustia e vida; dor e esperança. “Dancem, dancem, ou estamos todos perdidos”. Em um mundo onde não é possível nos reconciliarmos com nossa humanidade, há um desespero em cada gesto verdadeiramente humano, em cada gesto que carrega, em um lado, a esperança de não sermos mais assim, e em outro o desespero de nos vermos aqui ainda, nesta escuridão. A dançarina que se puxa pelos cabelos, a outra que dança enquanto lhe enterram viva; movimentos que querem se libertar em espasmos mas que carregam em si o peso deste mundo.
Em segundo lugar, me aproximei um pouco do sentido de herança ao ouvir dançarinos, alguns dos quais conviveram décadas, outros toda uma vida, e outros alguns anos, com Pina. Ela deixou uma marca que está vertida em suas veias, em seus passos. Uma dançarina fala sobre como ela se foi subitamente, e sobre a leveza que ela quer ver em sua partida; outra, que cresceu no teatro e na companhia de Pina diz: “O que é a vida sem Pina? Não sei.” E Pina estará em sua vida, sempre. Cami se foi. Nada que eu ou qualquer um faça fará ela voltar. Mas ela deixa suas marcas em tudo aquilo que tocou. Se hoje carregamos a bandeira da quarta internacional, do comunismo, a mesma que carregou cami e outros tantos milhares, milhões antes dela, temos que imprimir fortemente sua marca no que hoje levamos adiante. Se em mim estas marcas são parte constitutiva e irreversível do que sou, como também em alguns outros que tiveram a sorte de conhecê-la profundamente, contudo, deixar esta marca como uma herança para uma jovem organização que luta contra a corrente em meio a uma geração enterrada até a medula no lixo da sociedade burguesa requer um esforço maior e cotidianamente consciente. Não se constrói uma organização revolucionária sem ser capaz de ouvir a voz de uma pessoa que tirou sua vida e nos deixou lições.
Cami nos ensinou, antes de mais nada, que uma organização revolucionária não é feita apenas de programa e estratégia; ela é feita de gente, que pensa, sente, e sofre. Que um comunista não é feito apenas de convicção e teoria marxista; que precisamos aprender a olhar atentamente uns aos outros, como naquela epígrafe do “Ensaio sobre a cegueira” que diz: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. Curioso termos que aprender isso, sendo que em todos nós foi algum desajuste com esta sociedade de miséria e a vida que ela nos impõe que fez com que colocássemos como nosso objetivo a sua transformação radical. No entanto, precisamos reaprender esta lição cotidianamente e por diferentes olhos.
Neste mundo estamos numa contradição fodida: para conseguir andar pra frente, ainda que não possamos prescindir de apoio, temos que usar nossas próprias pernas. Nosso dia é curto e, nossas jornadas de trabalho, o trânsito, os pequenos infernos que vivemos cotidianamente – demasiadamente longos. É para acabar com isso que lutamos. Mas, pelo simples fato de lutarmos, às vezes somos obrigados a abrir mão de vivermos um pouco mais. Se é verdade, como meu camarada Val disse, que somos privilegiados por levarmos uma vida consciente e, como disse Trotski, “carregarmos uma pequena parte do futuro da humanidade em nossas costas”, não há entre nós quem não saiba quantos sacrifícios isso não requer (outros, mil vezes maiores, estão ainda por vir!).
Hoje penso em quantas vezes quis estar com cami e não pude. Queria estar com ela no México; no dia-a-dia, ao seu lado para poder ajudar um pouco mais a combater a enfermidade que este mundo lhe deu e que a levou de nossa luta e de nossas vidas. Porra, como dói não poder estar mais a seu lado, levar esta pesada bandeira sem sua mão para ajudar a carregá-la. Mas quando dizemos “Camila, presente!”, é necessário que levemos isto até suas últimas consequências. Uma camarada tombada em um combate, que deu o melhor de suas forças por um mundo em que, não ela e nem nós, mas as futuras gerações possam desfrutar de uma vida plena, verdadeiramente humana. Que tiremos de suas palavras, de seus atos e suas intenções as lições para que nos tornemos mais fortes, também individualmente, mas, principalmente, como coletivo, para que sua morte não seja em vão. Para que possamos assentar bases sólidas sobre as quais erguer o futuro, um futuro onde não haja mais sequer uma morte como a de cami, e que pessoas sensíveis e belas como ela possam ter sua subjetividade respeitada e desenvolvida plenamente, como bem queiram. Sua morte é uma ferida marcada a ferro e fogo em minha vida, como na de todos que puderam conhecer a pessoa incrível que ela foi; carreguemos sua memória viva em cada luta, em cada combate contra um mundo que a tirou de nós.

Encerro com uma bela homenagem do camarada Vinicius, com um trecho do testamento de Trótski, com o espírito que devemos carregar em nossos ombros:

Saudades

Era diferente. Era assim: “Poxa fulano, estou com saudades, vamos almoçar nesta semana.” Ou “Nossa, eles mudaram de cidade e eu estou com muitas saudades.” Agora não é mais assim. A saudade é uma coisa nova, que eu não conhecia. Ela é uma ferida profunda e irreversível. Ela engole tudo o que há a seu redor. Ela é saber que cada toque, abraço, palavra, carinho será sempre a menos do que gostaríamos. É uma vida adiante que poderia ter sido, que não foi e não será. São dezenas, centenas, milhares, infinitas coisas que gostaríamos de ter feito, mas que nunca estiveram em nosso poder. São os pedidos de desculpa, as demonstrações de amor que não existem mais, nem em possibilidade. Viagens que ficaram para um momento posterior...que nunca chegará. Saber que nossa memória é curta, falha, limitada, e a angustia de querer segurar por entre as lembranças todos os insuficientes momentos; querer guardar o tamanho de suas mãos, o contorno de suas pintas, feridas e tatuagens; querer guardar o som de sua voz, seu cheiro, sua risada, o contorno de sua boca quando tragava um cigarro. Saudade é saber que tudo o que ela é de agora em diante está em nós. É querer conhecê-la mais escavando por entre as histórias dos outros, dos momentos guardados em cada memória. É saber que ainda há alguns sorrisos seus que não vi, e que só poderei ver em fotos que descubra perdida por entre todos os que guardam pedaços do que foi nas suas memórias. São todos os momentos que não estive a seu lado. É a consciência pungente de sua ausência que dá quando vejo algo que queria lhe mostrar, escuto algo que queria lhe dizer. É um dia que não estive com ela, que não liguei. É saber que não vi o momento do adeus chegando. É carregar a luta sem sua presença ao lado, sem suas palavras e gestos para me empurrar adiante, para levar a luta à frente.

Saudade, antes, era pensar num momento querido do passado e querer repetí-lo.
Hoje, a saudade é o futuro. É olhar para ele e pensar em quão grande e imprevisível ele é, e que não importa o que ele reserve, ela não estará lá.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Faísca num barril de pólvora: o dia 27 de outubro

Depois de quase dois meses de imersão completa no ativismo da luta dos estudantes da USP, estou com um pouquinho mais de tempo, agora que as tarefas estão um pouco menos urgentes. Resolvi, portanto, tentar fazer aqui neste blog um breve resumo de pontos centrais da luta, recapitular algumas coisas que ocorreram desde o início da nossa mobilização. E começando, evidentemente, pelo estopim que desatou tudo isso: o dia 27 de outubro.

Era uma tarde bastante rotineira, se é que pode-se chamar este momento histórico de rotineiro em qualquer âmbito. Eu estava saindo de uma reunião do grupo de estudos e indo para outra, de discussão de chapa para o DCE da USP...

A política das correntes frente às eleições estudantis no momento pré-mobilização

Acho que vale à pena retomar um pouco como estava a política de formação de chapas, pois isto demonstra bem a visão estratégica de como atuam as correntes que existem no movimento estudantil da USP. Nós, da Juventude às Ruas e LER-QI, havíamos soltado já um chamado para discutir uma necessária unidade da esquerda frente aos novos ataques da reitoria. Como pontos programáticos essenciais, colocávamos o balanço do que havia sido, até então, a principal mobilização na USP: a greve das trabalhadoras terceirizadas da União no primeiro semestre , em que todas as correntes políticas cumpriram um papel completamente aquém do necessário, quando não abertamente ignoraram a mobilização fundamental destas trabalhadoras, que expôs o que há de mais podre na universidade. Colocávamos também a necessidade da unificação com base nos principais ataques da reitoria e do governo, como o PROADE, que visa institucionalizar o assédio moral e a demissão em massa de trabalhadores da USP para aumentar a terceirização; também a luta contra a perseguição política aos trabalhadores e estudantes, às dezenas de processos administrativos e inquéritos policiais. Enfim, fazíamos um chamado à unificação da esquerda com base em um programa de combate à reitoria e ao governo nos pontos principais.

Outro chamado de unidade, com conteúdo bastante distinto, estava sendo feito pelo Movimento Negação da Negação: ausente durante todo o ano, e completamente inexistente durante a greve da União. O chamado deles consistia em conformar uma unidade contra "a direita", que em sua caracterização tinha como ponto de articulação não a reitoria e o governo, mas a direita estudantil hoje reunida na chapa "Reação", e com único ponto programático de "Fora PM", o que, para nós, é completamente insuficiente para fortalecer uma ala combativa contra o projeto da reitoria. Ora, de que vale uma chapa que se coloca contra a polícia e não diz a serviço de que ela está aqui? Que não discute a estrutura de poder e a elitização da universidade? Que não está preocupada em aprofundar a aliança estratégica de trabalhadores e estudantes.

Para além disso, havia acordos eleitorais tão espúrios como o PSTU se aliando à corrente mais à direita do PSOL, o MES, que passou dois anos dirigindo gestões que fizeram de tudo para enfraquecer a democracia de base dos estudantes, não chamando assembleias mesmo diante da ameaça de expulsão de 24 estudantes, emplacando resoluções no X Congresso que fortalecem o CCA (Conselho de Centros Acadêmicos que reúne as direções das entidades sem nenhuma discussão na base dos cursos, atuando como um verdadeiro parlamento estudantil) em detrimento das assembleias, não colocando sequer a palavra "Rodas" no manual do calouro deste ano. Como contraposição, as demais correntes do reformismo fizeram outro acordo espúrio entre APS (corrente abertamente reformista e parlamentar do PSOL), Consulta Popular, ex-militantes do PCB e CSOL.

Ou seja, as correntes do movimento estudantil, mesmo diante do grande avanço repressivo de Rodas, da assinatura do convênio com a PM, do aumento da implementação de medidas de privatização e elitização da universidade, combinadas com o aumento do elitismo e a maior precarização do ensino, continuavam vendo as eleições como um momento de disputa por aparatos completamente por fora das reais necessidades do movimento.

Mas, ainda que estas correntes insistissem em fechas seus olhos para a situação explosiva que se desenhava na universidade, com a PM fazendo revistas em CAs, blitzes todos os dias, enquadros em professores e prisões de estudantes, a realidade não é regida pela política mesquinha desta esquerda adaptada...

A merda bate no ventilador: a prisão dos estudantes na FFLCH

Nada mais natural do que a explosão desta situação insustentável se dar no principal centro da resistência estudantil na USP: a FFLCH. Já havia, sim, ocorrido uma prisão na POLI, um enquadro na ECA, entre outras medidas da PM. Contudo, foi ali na FFLCH que dezenas de estudantes anti-PM presenciaram a prisão de três estudantes por porte de maconha. Em pouco tempo haviam centenas de estudantes ali. Os policiais pediram reforço e logo havia uma dezena de viaturas. O circo estava armado. E eu, indo para uma reunião sobre chapa de DCE, vi o que estava acontecendo e me juntei às centenas que gritavam contra a polícia. Cercamos os polícias, que haviam tomado o documento dos estudantes e queriam levá-los para a delegacia. Logo, estavam ali também diretores do Sintusp, como meu camarada Pablito e o Aníbal, e professores da FFLCH, bem como a diretora Sandra Nitrini.

Naquele impasse que se criou, logo se desenharam duas posições: Sandra Nitrini, os professores e os diretores do DCE passaram a conversar com os estudantes defendendo a seguinte posição: eles deveriam ir para a delegacia e assinar o termo circunstanciado por porte de drogas, em seguida teriam seus documentos devolvidos. Não aconteceria nada demais, era o que diziam. De outro lado estava o Sintusp, nós da LER-QI e centenas de outros estudantes indignados, que defendíamos que a polícia tinha que devolver os documentos imediatamente e ir embora, que os estudantes não deveriam ir para lugar algum. Diante do impasse e da confusão que estava ali, propusemos inclusive que se fizesse uma assembleia no vão da história para que discutíssemos com calma e democraticamente, e depois os estudantes tomassem sua decisão livremente, a qual seria respeitada por todos.

A gestão do DCE toma seu lado: cordão de isolamento para que os estudantes conversem "livremente" com a diretora

O DCE e Sandra Nitrini tinham outra visão sobre qual seria a melhor maneira dos estudantes decidirem "livremente", e foi a que prevaleceu: eles foram levados para dentro do prédio da Ciências Sociais, onde entraram em uma sala em que ficaram sozinhos com a diretora e outros professores, que tentavam convencê-los a decidir "livremente" que o melhor a fazer era ir para a delegacia. Nós, estudantes contra a polícia, também queríamos dizer a eles nossa opinião: de que não deveriam ir e que não estavam sozinhos, que iríamos ficar ao lado deles e respaldar sua atitude de não ir à delegacia. Contudo, não pudemos conversar com eles porque a gestão do DCE e seus aliados tomaram a seguinte decisão "democrática": fizeram um cordão de isolamento na porta da sala. Sim, isso mesmo, como se fossem capangas da diretoria, eles cerraram fileiras e piquetaram a sala, organizaram um piquete para defender a conversa da diretora com os estudantes com um ímpeto que nunca tiveram para organizar piquetes ao lado dos trabalhadores em suas diversas greves ou ao lado das terceirizadas neste ano. Chegaram mesmo a agredir diversos estudantes, como uma camarada minha que teve os pontos de uma cirurgia recém-feita abertos por uma cotovelada de um diretor do CEUPES.

A polícia tenta entrar no prédio e os estudantes a enxotam.

Neste momento os policiais tentam entrar no prédio para garantir o bom andamento das conversas entre diretoria e estudantes presos. Talvez não soubessem que a gestão do DCE (MES e CSOL compunham o cordão) já estava cumprindo este papel de modo eficiente. Nos 3 vídeos abaixo é possível ver o momento em que os estudantes expulsam a PM de dentro do prédio aos gritos de "FORA!".







Neste terceiro vídeo também podemos ver o desespero da professora Marlene, da história, tentando defender os pobres policiais dos terríveis estudantes. Vale dizer que quando ocupamos a reitoria encontramos um e-mail bizarro desta professora, em que atacava duramente os estudantes e justificava a ação da PM dizendo que havia traficantes entre os estudantes, além de dizer que a PM não usou de violência para nos reprimir. Contém ainda uma pérola que sintetiza seu pensamento nojento, quando diz que eles apenas usou "aquelas bombinhas que fazem barulho para assustar gente ignorante". Será que ela já tomou um estilhaço das tais bombinhas barulhentas?

A gestão do DCE faz um cordão para levar os estudantes...para a polícia!!!

Enquanto isso, ali na salinha onde os estudantes eram coagidos pela diretoria com a conivência do DCE, as coisas pareciam difíceis...quase uma hora e nada. Tentaram pedir um reforço de alguém que parecesse menos tendencioso do que uma comitiva de burocratas universitários: chamaram a companheira Mafê, processada pela ocupação de 2007 da reitoria. O tiro saiu pela culatra: ela disse que em sua opinião os estudantes não deveriam assinar nada. Esta atitude de coragem não saiu barato para Mafê: a diretora Sandra Nitrini, alguns dias depois, tentou por meio de seu puxa-saco Clóvis adulterar o resultado da prova de ingresso no mestrado da Mafê para que ela fosse "expurgada" da USP. Contudo, mesmo com a postura da Mafê não adiantou: os estudantes, após mais de uma hora de "debate democrático" com a diretora, decidiram ir para a delegacia. Neste momento, quando eles saíram da sala, a gestão do DCE fez um cordão humano para, como eles disseram posteriormente, "respeitar a decisão dos estudantes" de ir pra delegacia.

Os estudantes cercam a polícia

Ok, eles foram pro carro pra ir pra delegacia, mas quem disse que deixaríamos a polícia ir embora com eles? Veja um vídeo que mostra quando cercamos os carros da polícia para impedir que ela saísse.



A polícia parte pra cima

Foram alguns minutos de tensão em frente aos soldados e o delegado que também estava ali. Os companheiros do PCO haviam estacionado um carro de som logo ali ao lado, e os policiais passaram a tentar força-los a fechar o porta-malas e desligar o som, e acabaram por quebrar o carro deles e danificar o aparelho de som. No vídeo abaixo é possível ver o momento, ainda que de forma um pouco confusa, quem que os policiais partem para cima de nós.



Vejam uma das primeiras matérias que saiu na Globo sobre o conflito, que sintetiza bem a posição de toda a mídia burguesa:



Além de sua posição reacionária de defesa da ideologia de que a polícia serve para defender as pessoas e que os estudantes-maconheiros começaram a atacar a pobre polícia, é interessante como a globo fala de 3 policiais supostamente feridos enquanto tentávamos nos defender desesperadamente com pedras e paus, mas não fala do companheiro que ficou com a cabeça rachada e sangrando fartamente. Infelizmente, só consegui registrar dois ferimentos, pouco expressivos diante das agressões que sofremos. O primeiro é o que eu mesmo sofri no braço:



O segundo é o de uma estudante de pedagogia, que também passou muito mal porque ficou nervosa e teve uma crise de pânico:



Além disso tiveram inúmeros outros casos de violência. Um camarada meu que tem asma quase sufocou com as bombas de gás lacrimogêneo.

A assembleia decide responder à violência policial ocupando a diretoria da FFLCH

Depois que nos reagrupamos no saguão da história éramos cerca de 450 estudantes. E o DCE, que não havia chamado nenhuma assembleia no ano, subitamente se viu forçado a referendar uma assembleia espontânea. E, mesmo com o bloco PSTU+PSOL que defendeu contra a ocupação da diretoria com seu falacioso argumento de que era necessário "ir aos cursos", colocando uma falsa oposição entre esta necessária atitude e uma resposta imediata e contundente, foi votada a ocupação da diretoria por apenas onze votos de vantagem.