terça-feira, maio 22, 2012

A dor e as cicatrizes


Toda cicatriz começa com uma ferida. Quanto mais profunda for a ferida, mais marcante será a cicatriz. Uma marca, irremovível, que muda para sempre sua feição; que deixa à mostra, visível e exposta, uma parte de você. Que coloca ali aos olhos do mundo uma pergunta: de onde vem esta marca? O que ela representa? O que ela muda?
As feridas podem ser omitidas. As cicatrizes não, estão estampadas em nosso corpo. Cobrimo-las com roupas, adereços. Para trabalharmos, para podermos estar em uma sociedade que finge não haver feridas, para evitarmos as perguntas, cobrimo-las com band-aids, com mentiras.
Feridas em nosso psiquismo deixam cicatrizes também; algumas, ainda que mais visíveis e indisfarçáveis, são mais fáceis de cobrir com mentiras. Quem vê nossa mente em funcionamento raramente se pergunta como suas marcas surgiram. Nossos segredos são nossas feridas, nossas cicatrizes estão ali: visíveis e invisíveis para quem quer que nos veja. A nossa história nos torna, em um mundo doente e distorcido, tal qual um retrato de Dorian Gray, uma forma disforme por baixo de uma fachada de mentiras.
Quando a morte em sua nudez me rasgou uma ferida pulsante e aberta, algumas pessoas me abriram a história de suas cicatrizes. Como as crianças que comparam seus ferimentos, eu ouvi sobre as feridas, invisíveis em um mundo onde há tanta dor, que quase toda ela nos passa despercebida.
Aline, no dia em que bebia para aplacar a dor – o álcool, no fim das contas, assim como todas as drogas de hoje, só pode ter tamanha popularidade explicada pelo anestesiamento do corpo e da mente que ele promove – me revelou, com um sorriso torto, entre uma cerveja e outra que servia em nossa mesa, sua própria ferida; invisível. Eu lhe abri a minha primeiro: uma pessoa que amava de uma forma ainda inaudita havia morrido, colocando para fora em um último ato de sofrimento o seu silêncio final; enfim, as dores sobrepujaram a força para vencê-las. Aline revelou-me que havia tentado pôr fim às suas próprias dores também; cinco vezes. Me deparei com o choque de pensar nas cicatrizes invisíveis que desfilam todos os dias diante de nossos olhos anestesiados. Pouco depois, ainda com a ferida aberta, ouvi uma palavra de consolo com uma lógica absurda, tanto quanto o próprio mundo que a gerou. “Você vai conseguir passar por isso. Eu já passei quatro vezes.” Uma pessoa que amo, que viveu perto de mim a vida inteira. Quatro pessoas de sua família cometeram suicídio. Andou com suas cicatrizes coladas aos meus olhos por décadas, e eu simplesmente não vi as feridas que as causaram. Por onde quer que se repare, não com os olhos anestesiados pela demente naturalização da dor de um mundo torpe, mas com os olhos de quem possa vislumbrar um mundo onde possamos ser humanos de fato, veremos as cicatrizes deixadas por tantas e tantas feridas. Ignoramo-las, dia após dia, para podermos prestar atenção ao que é desimportante e que nos permite sobreviver. E agradecer – pois não nos resta outra saída – a cachaça de graça que a gente tem que engolir.
Quero sentir no corpo a dor que me mata por dentro. Foi isso que ela me disse uma vez. Sentia dor demais para caber dentro de si; dor demais para uma pessoa. Cicatrizes cobriam sua pele, cobriam sua vida. Eu me marquei com seu nome, querendo me ferir, querendo deixar em mim a cicatriz de sua morte, de sua vida apagada por um mundo triste. Ela ia ao encontro da dor, foi à Bósnia ver até onde pode chegar a barbárie humana. Um mundo tão doente, em que não vemos as feridas e nem mesmo as cicatrizes, uma verdadeira máquina de destruição humana em curso. Campos de estupro em massa, cerca de 70% da população masculina dizimada. Uma cicatriz gigante, que rasga a feição de um povo, de gerações. Ela foi, para ver o sofrimento de perto.
Uma cicatriz, hoje quase apagada, foi nossa primeira aliança. A cicatriz que fiz em mim, hoje ainda uma ferida, fechando-se, foi meu presente de despedida. Para mim mesmo, pois seus olhos fechados, matéria inerte em decomposição, já não veem mais nada. A dor foi boa, pois eu sentia no corpo a dor que me mata por dentro. Mas foi curta e passou. A ferida no corpo está cicatrizando. A ferida em minha mente permanece aberta, pulsante. Uma parte da dor foi enterrada com ela; uma parte que a ninguém era acessível. Outra, nos deixa de herança; uma herança difícil de administrar.
O desafio é permanecer de olhos bem abertos. Ver as feridas, as cicatrizes. Questioná-las, enfrentá-las. E não deixar que elas nos paralisem. Não deixar que elas nos matem. Fazer das cicatrizes a pintura de guerra contra o mundo que as fabrica em uma escala imensurável. Nossas cicatrizes são pequenas diante do mundo. E o mundo, pequeno diante de tantas feridas. Perdemos batalhas a cada dia. E destas derrotas, precisamos pavimentar o caminho para vencer. Não para nós mesmos, já desfigurados por tantas marcas. Mas para aqueles que ainda não foram marcados, feito gado, com o ferro em brasa de um mundo que se apropria daquilo que poderíamos ser para nos levar ao abatedouro. Quero tomar suas cicatrizes para mim, para erguê-las como uma bandeira vermelha de indignação. Sua voz, mesmo extinta, não se calará diante de tanta dor. Carrego estampada na mente a frase de nosso camarada, que não teve poucas cicatrizes em sua luta: “aqueles que lutam com mais energia e persistência pelo novo são os que mais sofreram com o velho.” E a vida dela, a morte dela, minha cicatriz.

Momento num café


Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

sexta-feira, abril 20, 2012

Nunca mais...


The Raven

Edgar Allan Poe, first published in 1845

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
" 'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door;

Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember, it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow, sorrow for the lost Lenore,
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore,

Nameless here forevermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me---filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
" 'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door,
Some late visitor entreating entrance at my chamber door.

This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is, I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you." Here I opened wide the door;---

Darkness there, and nothing more.

Deep into the darkness peering, long I stood there, wondering, fearing
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word,
Lenore?, This I whispered, and an echo murmured back the word,

"Lenore!" Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping, something louder than before,
"Surely," said I, "surely, that is something at my window lattice.
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore.
Let my heart be still a moment, and this mystery explore.

" 'Tis the wind, and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven, of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But with mien of lord or lady, perched above my chamber door. Perched upon a bust of Pallas, just above my chamber door,

Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
 By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly, grim, and ancient raven, wandering from the nightly shore.
Tell me what the lordly name is on the Night's Plutonian shore."

Quoth the raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning, little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door,
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,

With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on that placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered; not a feather then he fluttered;
Till I scarcely more than muttered,"Other friends have flown before;
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."

Then the bird said,"Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master, whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster, till his songs one burden bore,---
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore

Of "Never---nevermore."

But the raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore,
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

Meant in croaking, "Nevermore."

Thus I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl, whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er

She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee -- by these angels he hath
Sent thee respite---respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, O quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!"

Quoth the raven, "Nevermore!"

"Prophet!" said I, "thing of evil!--prophet still, if bird or devil!
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted--
On this home by horror haunted--tell me truly, I implore:
Is there--is there balm in Gilead?--tell me--tell me I implore!"

Quoth the raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil--prophet still, if bird or devil!
By that heaven that bends above us--by that God we both adore--
Tell this soul with sorrow laden, if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden, whom the angels name Lenore---
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels name Lenore?

Quoth the raven, "Nevermore."

"Be that word our sign of parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting--
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul spoken!
Leave my loneliness unbroken! -- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"

Quoth the raven, "Nevermore."

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming.
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor Shall be lifted--- nevermore!

O corvo 
Tradução de Milton Amado

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém ? fiquei a murmurar ? que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais."

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
? Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
E a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:
Escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,
Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: "Lenora!"
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" ? penso então. ? "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
? É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto ? uma escultura de Minerva,
Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular" ? então lhe digo ?
"Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!"
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
E que se chame "Nunca mais".

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa me envenena: "Amigos? sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora."
E disse o Corvo: "Nunca mais."

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: "É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: ? o ritornelo
De "Nunca, nunca, nunca mais".

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: "Nunca mais."

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,
Já não repousa, ah! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,
Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta! ? brado. ? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"
"Seja isso a nossa despedida! ? ergo-me e grito, alma incendida. ?
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

quinta-feira, abril 19, 2012

Herança

Está na ponta das minhas memórias a primeira vez que conversei com a Cami. Nosso camarada Chipi estava no Brasil, e fomos para o apertado e claustrofóbico Pau Brasil, levá-lo ao samba. Eu, há pouco tempo estava militando n’A Plenos Pulmões, agrupação da ler-qi e independentes no movimento estudantil; pela primeira vez ia em rumo decidido para dedicar minha vida a algo maior do que minhas ambições pessoais; minhas ambições pessoais, de fato, não cabiam mais em minha própria vida: passavam a ser a de tornar o mundo um lugar sem esta espessa camada cinza que cobre a vida. Isso me tornava mais forte e mais vivo. E foi neste momento que me apresentaram a “Camilinha, lá da PUC”. Ela era linda, e estava bastante bêbada. Falaram pra ela que eu era da USP, que estava na Plenos Pulmões. Ela pareceu feliz com esta informação – naquela época aproximar novos militantes na USP era um feito, e eu, com meus cinco anos de flerte com a ler-qi, era uma prova concreta disso – e cami não demorou mais do que três minutos pra me perguntar, com a voz meio pastosa da embriaguez e uma empatia que conseguiu até perfurar minha imensa timidez: “Mas você tá convencido de construir o partido revolucionário?”. Achei engraçado aquele nível de ofensividade tão de cara; por sorte eu estava, sim, convencido, e foi o que respondi pra ela. Conversamos um pouco, e a atração que senti por ela foi bastante imediata. Não me lembro de mais muita coisa naquela noite. Acabei dando uma carona pra ela, meio que pra qualquer lugar, tive uma destas brigas idiotas de ciúmes com a mila (por outros motivos), com quem namorava e que também estava bastante bêbada.
Mais de um ano se passou entre este dia e o dia 17 de abril, quando a gente começou nosso relacionamento. A data, ela que guardou com exatidão; eu só lembrava que era pouco antes do meu aniversário. O fato de que pouco nos víamos antes disso e de que em nossa sociedade de relações degeneradas as pessoas pouco conseguem se falar, fez com que neste ano quase não nos conhecessemos. Quando nos víamos, eram flertes tímidos, conversas pontuais. Uma vez, tive coragem de lhe mandar uma mensagem, como um adolescente besta que gosta da amiguinha. A mensagem não chegou, coisa que só soube muito depois. Só ficamos juntos quando ela colocou toda sua “sutileza” em prática; parados na fila do caixa de um bar, cami me disse: “E aí, quando você vai me chamar pra sair?” Mesmo com minha incapacidade de responder algo decente, balbuciei “quando você quiser”, e acabamos ficando naquela mesma noite. Lembro-me muitas vezes depois dela dizendo como “assustou” muitas pessoas com quem queria ficar pela sua incapacidade de ser sutil ao tentar demonstrar interesse. Comigo, foi a melhor tática, eu respondia.
Ela era direta, falava as coisas com dureza e sinceridade; ao mesmo tempo, algumas vezes era incapaz de dirigir uma palavra a quem queria. Era profundamente empática e simpática, capaz de atingir em cheio o que uma pessoa sentia; ao mesmo tempo, era quase sociofóbica. As contradições marcaram a vida da cami, tornavam-na fascinante, muitas vezes a dilaceravam. Compartilhei com ela um tempo intenso e tristemente curto, dois anos em que tive o imenso privilégio de ser uma das pessoas mais próximas de sua vida. Foi muito rápido: em duas semanas era como se nos conhecessemos há anos. Conversar com ela era um ato de auto-conhecimento e de conhecer o mundo também; sua sensibilidade não tem muitos parelelos nas pessoas que conheci. A seu lado e com nossas conversas pude conhecer melhor a organização em que militava, pude encontrar, ainda que afastada da militância cotidiana, uma autêntica camarada que via como, muitas vezes, em pequenas atitudes se expressam grandes questões políticas.
Muito do que nos aproximou, era evidente, vinha de uma grande identificação, pelo menos de minha parte, e isso eu lhe disse algumas boas vezes. Eu via a mim mesmo em sua tristeza com o mundo, e em como sua insatisfação com o ambiente que a cercou na infância e adolescência a empurraram para a esquerda, para ver no comunismo a única saída para uma humanidade tão amesquinhada e apartada de si mesma. Eu me via também na enorme contradição entre sentimentos dolorosos e incapacitantes e a vontade de colocar-se a serviço de uma luta que consome quantidades imensas de energia; energia que muitas vezes ambos não encontrávamos. Mas não era apenas isso. Ela me empurrou para frente em todos, todos, todos os aspectos da minha vida. Me fez ver como as limitações de minha vida pessoal estavam casadas com as minhas limitações políticas; me ajudou a romper preconceitos dogmáticos e ver que ainda, ao conhecer a mente humana, engatínhamos (como não poderia deixar de ser em uma sociedade com uma ciência tão obtusa, pragmática, míope). Me ajudou a tentar coisas das quais eu tinha medo.
Lembro-me no começo, eu era instigado por uma vontade de conhecê-la melhor, de ser mais parte de sua vida, como sempre acontece quando nos apaixonamos. Conversamos muito sobre a dor que ela carregava, e que no fim das contas era inacessível para qualquer um que não fosse ela. Isso foi ficando dolorosamente mais claro para mim com o passar do tempo. Lembro-me bem de uma conversa que tivemos sobre sua família. O amor que ela sentia pelos seus irmãos, acompanhado de saudades, era algo profundo, mas também cheio de contradições. Contou-me de uma das vezes que havia tentado se suicidar, e que Pedro, seu irmão mais novo, a encontrou sozinho e teve que salvar sua vida. Ela via que isso havia deixado marcas em sua relação que eram difíceis de superar; um trauma, que ela compreendia e lamentava também. Me marcou esta conversa, e o como isso foi se tornando concreto para mim. Por exemplo, em uma vez que tive que segurá-la quando, inconsciente, em estado de sonambulismo, tentou quebrar o vidro da janela do meu quarto. Meus dias seguintes foram cheios de angustia e preocupação, de um sentimento terrível de impotência. E se aquilo acontecesse quando eu estava longe? E se eu não pudesse impedir? Talvez aí eu tenha entendido melhor, finalmente, o que ela quis dizer quando contou a história do suicídio que seu irmão impediu de se concretizar. Somos pequenos e frágeis demais para lidar com as nossas limitações diante de quem amamos; às vezes, nossa única opção é tentar nos preservarmos de qualquer forma, tentando negar um pouco nosso amor por aquilo que nos sentimos incapazes de preservar.
Cami, eu acho, tinha bem pouca ciência das suas próprias capacidades, do quão profundamente conseguia chegar nas pessoas e do quão difícil era para outras pessoas entender coisas que para ela eram acessíveis. O quão profundamente humana ela podia ser, nos momentos certos. Mas no último ano estava progressivamente se tornando mais consciente disso, de que as pessoas conseguiam confiar nela rapidamente e se sentir compreendidas; de que a singular combinação entre sua sensibilidade e suas próprias dificuldades permitiam-na explorar partes da mente humana que são águas turvas. Isso se concretizava em um desejo um pouco difuso que ela passou a manifestar de fazer psicanálise e tornar-se terapeuta. O desejo era difuso porque a instabilidade em sua vida dificultava enormemente que levasse seus planos à frente. Isso a rasgava por dentro.
Conhecer uma pessoa tão profunda e com tanto potencial, ver de perto como uma sociedade degenerada e mutiladora consegue atacar e comprometer de forma irreversível seu psiquismo e como por, em grande parte, ser esta uma pessoa boa demais em um mundo ruim demais, somos forçados a assistir impotentes ela ser arrancada brutalmente de nós de uma forma tão estúpida e violenta; esta experiência é algo que não é plenamente traduzível em palavras. Mas ela nos ensina muito, e eu espero poder transformar isso em ação e reflexão para levar adiante a luta para que um dia isso nunca mais aconteça. Ela foi a prova viva daquela frase que diz que não é saudável ser bem ajustado em uma sociedade profundamente doente. Mil conversas, fatos, coisas que aprendi com ela me vêm à mente, e seria impossível expressar em umas poucas linhas ainda vertidas em meio a um sofrimento imenso, uma ferida aberta que dói só de respirar, o quanto cami representou em minha trajetória pessoal e política. Mas, de fato, o que pode passar batido a muitos é o que cami deixa a este mundo, e é sobre isso que queria falar um pouco mais.
Não posso negar que a cortina pesada que cai sobre a vida ao me deparar com a súbita e trágica morte de uma pessoa que era como uma parte de mim tem um peso difícil de medir. A morte se tornou hoje a medida de todas as coisas. No segundo dia que conversei com Helena – um destes pilares que me ajuda e entender por onde vou tateando em meio a este mundo – após a morte da cami, ela me disse que ainda não era possível ver isto, mas que a morte dela me deixaria uma herança. Hoje, escrevo este texto com uma primeiro vislumbre de uma herança que, sei, ainda está longe de se consolidar. Vi hoje “Pina”, de Win Wenders, e foi uma experiência libertadora. Lembrei, em primeiro lugar, que mesmo uma humanidade tão torpe e distante de si própria é capaz de produzir coisas belas, coisas que nos façam abrir um pouco mais os olhos, sentir um pouco mais a vida. Nos movimentos daquela dança, cujo significado profundo não é realizável em palavras, havia angustia e vida; dor e esperança. “Dancem, dancem, ou estamos todos perdidos”. Em um mundo onde não é possível nos reconciliarmos com nossa humanidade, há um desespero em cada gesto verdadeiramente humano, em cada gesto que carrega, em um lado, a esperança de não sermos mais assim, e em outro o desespero de nos vermos aqui ainda, nesta escuridão. A dançarina que se puxa pelos cabelos, a outra que dança enquanto lhe enterram viva; movimentos que querem se libertar em espasmos mas que carregam em si o peso deste mundo.
Em segundo lugar, me aproximei um pouco do sentido de herança ao ouvir dançarinos, alguns dos quais conviveram décadas, outros toda uma vida, e outros alguns anos, com Pina. Ela deixou uma marca que está vertida em suas veias, em seus passos. Uma dançarina fala sobre como ela se foi subitamente, e sobre a leveza que ela quer ver em sua partida; outra, que cresceu no teatro e na companhia de Pina diz: “O que é a vida sem Pina? Não sei.” E Pina estará em sua vida, sempre. Cami se foi. Nada que eu ou qualquer um faça fará ela voltar. Mas ela deixa suas marcas em tudo aquilo que tocou. Se hoje carregamos a bandeira da quarta internacional, do comunismo, a mesma que carregou cami e outros tantos milhares, milhões antes dela, temos que imprimir fortemente sua marca no que hoje levamos adiante. Se em mim estas marcas são parte constitutiva e irreversível do que sou, como também em alguns outros que tiveram a sorte de conhecê-la profundamente, contudo, deixar esta marca como uma herança para uma jovem organização que luta contra a corrente em meio a uma geração enterrada até a medula no lixo da sociedade burguesa requer um esforço maior e cotidianamente consciente. Não se constrói uma organização revolucionária sem ser capaz de ouvir a voz de uma pessoa que tirou sua vida e nos deixou lições.
Cami nos ensinou, antes de mais nada, que uma organização revolucionária não é feita apenas de programa e estratégia; ela é feita de gente, que pensa, sente, e sofre. Que um comunista não é feito apenas de convicção e teoria marxista; que precisamos aprender a olhar atentamente uns aos outros, como naquela epígrafe do “Ensaio sobre a cegueira” que diz: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. Curioso termos que aprender isso, sendo que em todos nós foi algum desajuste com esta sociedade de miséria e a vida que ela nos impõe que fez com que colocássemos como nosso objetivo a sua transformação radical. No entanto, precisamos reaprender esta lição cotidianamente e por diferentes olhos.
Neste mundo estamos numa contradição fodida: para conseguir andar pra frente, ainda que não possamos prescindir de apoio, temos que usar nossas próprias pernas. Nosso dia é curto e, nossas jornadas de trabalho, o trânsito, os pequenos infernos que vivemos cotidianamente – demasiadamente longos. É para acabar com isso que lutamos. Mas, pelo simples fato de lutarmos, às vezes somos obrigados a abrir mão de vivermos um pouco mais. Se é verdade, como meu camarada Val disse, que somos privilegiados por levarmos uma vida consciente e, como disse Trotski, “carregarmos uma pequena parte do futuro da humanidade em nossas costas”, não há entre nós quem não saiba quantos sacrifícios isso não requer (outros, mil vezes maiores, estão ainda por vir!).
Hoje penso em quantas vezes quis estar com cami e não pude. Queria estar com ela no México; no dia-a-dia, ao seu lado para poder ajudar um pouco mais a combater a enfermidade que este mundo lhe deu e que a levou de nossa luta e de nossas vidas. Porra, como dói não poder estar mais a seu lado, levar esta pesada bandeira sem sua mão para ajudar a carregá-la. Mas quando dizemos “Camila, presente!”, é necessário que levemos isto até suas últimas consequências. Uma camarada tombada em um combate, que deu o melhor de suas forças por um mundo em que, não ela e nem nós, mas as futuras gerações possam desfrutar de uma vida plena, verdadeiramente humana. Que tiremos de suas palavras, de seus atos e suas intenções as lições para que nos tornemos mais fortes, também individualmente, mas, principalmente, como coletivo, para que sua morte não seja em vão. Para que possamos assentar bases sólidas sobre as quais erguer o futuro, um futuro onde não haja mais sequer uma morte como a de cami, e que pessoas sensíveis e belas como ela possam ter sua subjetividade respeitada e desenvolvida plenamente, como bem queiram. Sua morte é uma ferida marcada a ferro e fogo em minha vida, como na de todos que puderam conhecer a pessoa incrível que ela foi; carreguemos sua memória viva em cada luta, em cada combate contra um mundo que a tirou de nós.

Encerro com uma bela homenagem do camarada Vinicius, com um trecho do testamento de Trótski, com o espírito que devemos carregar em nossos ombros:

Saudades

Era diferente. Era assim: “Poxa fulano, estou com saudades, vamos almoçar nesta semana.” Ou “Nossa, eles mudaram de cidade e eu estou com muitas saudades.” Agora não é mais assim. A saudade é uma coisa nova, que eu não conhecia. Ela é uma ferida profunda e irreversível. Ela engole tudo o que há a seu redor. Ela é saber que cada toque, abraço, palavra, carinho será sempre a menos do que gostaríamos. É uma vida adiante que poderia ter sido, que não foi e não será. São dezenas, centenas, milhares, infinitas coisas que gostaríamos de ter feito, mas que nunca estiveram em nosso poder. São os pedidos de desculpa, as demonstrações de amor que não existem mais, nem em possibilidade. Viagens que ficaram para um momento posterior...que nunca chegará. Saber que nossa memória é curta, falha, limitada, e a angustia de querer segurar por entre as lembranças todos os insuficientes momentos; querer guardar o tamanho de suas mãos, o contorno de suas pintas, feridas e tatuagens; querer guardar o som de sua voz, seu cheiro, sua risada, o contorno de sua boca quando tragava um cigarro. Saudade é saber que tudo o que ela é de agora em diante está em nós. É querer conhecê-la mais escavando por entre as histórias dos outros, dos momentos guardados em cada memória. É saber que ainda há alguns sorrisos seus que não vi, e que só poderei ver em fotos que descubra perdida por entre todos os que guardam pedaços do que foi nas suas memórias. São todos os momentos que não estive a seu lado. É a consciência pungente de sua ausência que dá quando vejo algo que queria lhe mostrar, escuto algo que queria lhe dizer. É um dia que não estive com ela, que não liguei. É saber que não vi o momento do adeus chegando. É carregar a luta sem sua presença ao lado, sem suas palavras e gestos para me empurrar adiante, para levar a luta à frente.

Saudade, antes, era pensar num momento querido do passado e querer repetí-lo.
Hoje, a saudade é o futuro. É olhar para ele e pensar em quão grande e imprevisível ele é, e que não importa o que ele reserve, ela não estará lá.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Faísca num barril de pólvora: o dia 27 de outubro

Depois de quase dois meses de imersão completa no ativismo da luta dos estudantes da USP, estou com um pouquinho mais de tempo, agora que as tarefas estão um pouco menos urgentes. Resolvi, portanto, tentar fazer aqui neste blog um breve resumo de pontos centrais da luta, recapitular algumas coisas que ocorreram desde o início da nossa mobilização. E começando, evidentemente, pelo estopim que desatou tudo isso: o dia 27 de outubro.

Era uma tarde bastante rotineira, se é que pode-se chamar este momento histórico de rotineiro em qualquer âmbito. Eu estava saindo de uma reunião do grupo de estudos e indo para outra, de discussão de chapa para o DCE da USP...

A política das correntes frente às eleições estudantis no momento pré-mobilização

Acho que vale à pena retomar um pouco como estava a política de formação de chapas, pois isto demonstra bem a visão estratégica de como atuam as correntes que existem no movimento estudantil da USP. Nós, da Juventude às Ruas e LER-QI, havíamos soltado já um chamado para discutir uma necessária unidade da esquerda frente aos novos ataques da reitoria. Como pontos programáticos essenciais, colocávamos o balanço do que havia sido, até então, a principal mobilização na USP: a greve das trabalhadoras terceirizadas da União no primeiro semestre , em que todas as correntes políticas cumpriram um papel completamente aquém do necessário, quando não abertamente ignoraram a mobilização fundamental destas trabalhadoras, que expôs o que há de mais podre na universidade. Colocávamos também a necessidade da unificação com base nos principais ataques da reitoria e do governo, como o PROADE, que visa institucionalizar o assédio moral e a demissão em massa de trabalhadores da USP para aumentar a terceirização; também a luta contra a perseguição política aos trabalhadores e estudantes, às dezenas de processos administrativos e inquéritos policiais. Enfim, fazíamos um chamado à unificação da esquerda com base em um programa de combate à reitoria e ao governo nos pontos principais.

Outro chamado de unidade, com conteúdo bastante distinto, estava sendo feito pelo Movimento Negação da Negação: ausente durante todo o ano, e completamente inexistente durante a greve da União. O chamado deles consistia em conformar uma unidade contra "a direita", que em sua caracterização tinha como ponto de articulação não a reitoria e o governo, mas a direita estudantil hoje reunida na chapa "Reação", e com único ponto programático de "Fora PM", o que, para nós, é completamente insuficiente para fortalecer uma ala combativa contra o projeto da reitoria. Ora, de que vale uma chapa que se coloca contra a polícia e não diz a serviço de que ela está aqui? Que não discute a estrutura de poder e a elitização da universidade? Que não está preocupada em aprofundar a aliança estratégica de trabalhadores e estudantes.

Para além disso, havia acordos eleitorais tão espúrios como o PSTU se aliando à corrente mais à direita do PSOL, o MES, que passou dois anos dirigindo gestões que fizeram de tudo para enfraquecer a democracia de base dos estudantes, não chamando assembleias mesmo diante da ameaça de expulsão de 24 estudantes, emplacando resoluções no X Congresso que fortalecem o CCA (Conselho de Centros Acadêmicos que reúne as direções das entidades sem nenhuma discussão na base dos cursos, atuando como um verdadeiro parlamento estudantil) em detrimento das assembleias, não colocando sequer a palavra "Rodas" no manual do calouro deste ano. Como contraposição, as demais correntes do reformismo fizeram outro acordo espúrio entre APS (corrente abertamente reformista e parlamentar do PSOL), Consulta Popular, ex-militantes do PCB e CSOL.

Ou seja, as correntes do movimento estudantil, mesmo diante do grande avanço repressivo de Rodas, da assinatura do convênio com a PM, do aumento da implementação de medidas de privatização e elitização da universidade, combinadas com o aumento do elitismo e a maior precarização do ensino, continuavam vendo as eleições como um momento de disputa por aparatos completamente por fora das reais necessidades do movimento.

Mas, ainda que estas correntes insistissem em fechas seus olhos para a situação explosiva que se desenhava na universidade, com a PM fazendo revistas em CAs, blitzes todos os dias, enquadros em professores e prisões de estudantes, a realidade não é regida pela política mesquinha desta esquerda adaptada...

A merda bate no ventilador: a prisão dos estudantes na FFLCH

Nada mais natural do que a explosão desta situação insustentável se dar no principal centro da resistência estudantil na USP: a FFLCH. Já havia, sim, ocorrido uma prisão na POLI, um enquadro na ECA, entre outras medidas da PM. Contudo, foi ali na FFLCH que dezenas de estudantes anti-PM presenciaram a prisão de três estudantes por porte de maconha. Em pouco tempo haviam centenas de estudantes ali. Os policiais pediram reforço e logo havia uma dezena de viaturas. O circo estava armado. E eu, indo para uma reunião sobre chapa de DCE, vi o que estava acontecendo e me juntei às centenas que gritavam contra a polícia. Cercamos os polícias, que haviam tomado o documento dos estudantes e queriam levá-los para a delegacia. Logo, estavam ali também diretores do Sintusp, como meu camarada Pablito e o Aníbal, e professores da FFLCH, bem como a diretora Sandra Nitrini.

Naquele impasse que se criou, logo se desenharam duas posições: Sandra Nitrini, os professores e os diretores do DCE passaram a conversar com os estudantes defendendo a seguinte posição: eles deveriam ir para a delegacia e assinar o termo circunstanciado por porte de drogas, em seguida teriam seus documentos devolvidos. Não aconteceria nada demais, era o que diziam. De outro lado estava o Sintusp, nós da LER-QI e centenas de outros estudantes indignados, que defendíamos que a polícia tinha que devolver os documentos imediatamente e ir embora, que os estudantes não deveriam ir para lugar algum. Diante do impasse e da confusão que estava ali, propusemos inclusive que se fizesse uma assembleia no vão da história para que discutíssemos com calma e democraticamente, e depois os estudantes tomassem sua decisão livremente, a qual seria respeitada por todos.

A gestão do DCE toma seu lado: cordão de isolamento para que os estudantes conversem "livremente" com a diretora

O DCE e Sandra Nitrini tinham outra visão sobre qual seria a melhor maneira dos estudantes decidirem "livremente", e foi a que prevaleceu: eles foram levados para dentro do prédio da Ciências Sociais, onde entraram em uma sala em que ficaram sozinhos com a diretora e outros professores, que tentavam convencê-los a decidir "livremente" que o melhor a fazer era ir para a delegacia. Nós, estudantes contra a polícia, também queríamos dizer a eles nossa opinião: de que não deveriam ir e que não estavam sozinhos, que iríamos ficar ao lado deles e respaldar sua atitude de não ir à delegacia. Contudo, não pudemos conversar com eles porque a gestão do DCE e seus aliados tomaram a seguinte decisão "democrática": fizeram um cordão de isolamento na porta da sala. Sim, isso mesmo, como se fossem capangas da diretoria, eles cerraram fileiras e piquetaram a sala, organizaram um piquete para defender a conversa da diretora com os estudantes com um ímpeto que nunca tiveram para organizar piquetes ao lado dos trabalhadores em suas diversas greves ou ao lado das terceirizadas neste ano. Chegaram mesmo a agredir diversos estudantes, como uma camarada minha que teve os pontos de uma cirurgia recém-feita abertos por uma cotovelada de um diretor do CEUPES.

A polícia tenta entrar no prédio e os estudantes a enxotam.

Neste momento os policiais tentam entrar no prédio para garantir o bom andamento das conversas entre diretoria e estudantes presos. Talvez não soubessem que a gestão do DCE (MES e CSOL compunham o cordão) já estava cumprindo este papel de modo eficiente. Nos 3 vídeos abaixo é possível ver o momento em que os estudantes expulsam a PM de dentro do prédio aos gritos de "FORA!".







Neste terceiro vídeo também podemos ver o desespero da professora Marlene, da história, tentando defender os pobres policiais dos terríveis estudantes. Vale dizer que quando ocupamos a reitoria encontramos um e-mail bizarro desta professora, em que atacava duramente os estudantes e justificava a ação da PM dizendo que havia traficantes entre os estudantes, além de dizer que a PM não usou de violência para nos reprimir. Contém ainda uma pérola que sintetiza seu pensamento nojento, quando diz que eles apenas usou "aquelas bombinhas que fazem barulho para assustar gente ignorante". Será que ela já tomou um estilhaço das tais bombinhas barulhentas?

A gestão do DCE faz um cordão para levar os estudantes...para a polícia!!!

Enquanto isso, ali na salinha onde os estudantes eram coagidos pela diretoria com a conivência do DCE, as coisas pareciam difíceis...quase uma hora e nada. Tentaram pedir um reforço de alguém que parecesse menos tendencioso do que uma comitiva de burocratas universitários: chamaram a companheira Mafê, processada pela ocupação de 2007 da reitoria. O tiro saiu pela culatra: ela disse que em sua opinião os estudantes não deveriam assinar nada. Esta atitude de coragem não saiu barato para Mafê: a diretora Sandra Nitrini, alguns dias depois, tentou por meio de seu puxa-saco Clóvis adulterar o resultado da prova de ingresso no mestrado da Mafê para que ela fosse "expurgada" da USP. Contudo, mesmo com a postura da Mafê não adiantou: os estudantes, após mais de uma hora de "debate democrático" com a diretora, decidiram ir para a delegacia. Neste momento, quando eles saíram da sala, a gestão do DCE fez um cordão humano para, como eles disseram posteriormente, "respeitar a decisão dos estudantes" de ir pra delegacia.

Os estudantes cercam a polícia

Ok, eles foram pro carro pra ir pra delegacia, mas quem disse que deixaríamos a polícia ir embora com eles? Veja um vídeo que mostra quando cercamos os carros da polícia para impedir que ela saísse.



A polícia parte pra cima

Foram alguns minutos de tensão em frente aos soldados e o delegado que também estava ali. Os companheiros do PCO haviam estacionado um carro de som logo ali ao lado, e os policiais passaram a tentar força-los a fechar o porta-malas e desligar o som, e acabaram por quebrar o carro deles e danificar o aparelho de som. No vídeo abaixo é possível ver o momento, ainda que de forma um pouco confusa, quem que os policiais partem para cima de nós.



Vejam uma das primeiras matérias que saiu na Globo sobre o conflito, que sintetiza bem a posição de toda a mídia burguesa:



Além de sua posição reacionária de defesa da ideologia de que a polícia serve para defender as pessoas e que os estudantes-maconheiros começaram a atacar a pobre polícia, é interessante como a globo fala de 3 policiais supostamente feridos enquanto tentávamos nos defender desesperadamente com pedras e paus, mas não fala do companheiro que ficou com a cabeça rachada e sangrando fartamente. Infelizmente, só consegui registrar dois ferimentos, pouco expressivos diante das agressões que sofremos. O primeiro é o que eu mesmo sofri no braço:



O segundo é o de uma estudante de pedagogia, que também passou muito mal porque ficou nervosa e teve uma crise de pânico:



Além disso tiveram inúmeros outros casos de violência. Um camarada meu que tem asma quase sufocou com as bombas de gás lacrimogêneo.

A assembleia decide responder à violência policial ocupando a diretoria da FFLCH

Depois que nos reagrupamos no saguão da história éramos cerca de 450 estudantes. E o DCE, que não havia chamado nenhuma assembleia no ano, subitamente se viu forçado a referendar uma assembleia espontânea. E, mesmo com o bloco PSTU+PSOL que defendeu contra a ocupação da diretoria com seu falacioso argumento de que era necessário "ir aos cursos", colocando uma falsa oposição entre esta necessária atitude e uma resposta imediata e contundente, foi votada a ocupação da diretoria por apenas onze votos de vantagem.

terça-feira, outubro 18, 2011

Quarto encontro do grupo de estudos de cultura e marxismo


A Juventude às Ruas e estudantes independentes convidam todos ao quarto encontro do grupo de estudos, que está maior e melhor a casa sessão.
Desta vez vamos ler Trotsky, Breton e Gramsci. A bibliografia está no blog do grupo.

terça-feira, outubro 11, 2011

Terceiro encontro do grupo de estudos de cultura, literatura e marxismo


Vai firme o grupo de estudos na Letras, que já conta com estudantes de diversos cursos. Nesta semana teremos o terceiro encontro, a bibliografia está disponível no Blog do grupo

segunda-feira, outubro 10, 2011

Vídeo da Juventude às Ruas - Campinas - na luta dos trabalhadores terceirizados do bandejão

Vídeo muito bom que meus camaradas da Unicamp fizeram em apoio à luta dos terceirizados. O exemplo da União se espalha, contagia, contamina! Juventude em apoio à luta dos trabalhadores!!!

quinta-feira, setembro 22, 2011

1ª Sessão do Grupo de Estudos: Marxismo, cultura e literatura


FINALMENTE vai sair do papel um projeto político e, para mim, também um projeto pessoal acalentado há tanto tempo! O
grupo de estudos da Letras USP de Marxismo, Cultura e Literatura, impulsionado pela Juventude às Ruas e estudantes independentes.

O texto da primeira sessão, "O que é literatura?", do Terry Eagleton, está no link do blog logo ali acima. Divulguem!

quarta-feira, setembro 21, 2011

Todo apoio à luta dos trabalhadores terceirizados da BMK! Pagamento dos salários! Efetivação de todos!

Abaixo, matéria da rede bandeirantes sobre a ocupação da coordenadoria do campus butantã da USP pelos trabalhadores terceirizados da empresa BMK, que estão há mais de um mês com seus salários atrasados. No vídeo, Diana Assunção, diretora do Sintusp e dirigente da LER-QI, conta como foi agredida pela guarda ao se colocar em defesa dos trabalhadores e defende a incorporação de todos os terceirizados ao quadro de efetivos da USP.
Os militantes do Bloco Anel às Ruas e da LER-QI estivaram lá para prestar solidariedade ativa, junto a outros estudantes. Hoje, a solidariedade nos cursos está sendo organizada e a ocupação permanece até o pagamento dos salários!

terça-feira, setembro 20, 2011

Diário da Argentina: Compañero López, PRESENTE! Ahora, Y SIEMPRE! Punição a todos os responsáveis pela ditadura, na Argentina e no Brasil!



Venho novamente falar do caso de Júlio López, porque o considero um importante exemplo que trás reflexões fundamentais para a esquerda brasileira. Antes de prosseguir, acho que vale à pena deixar este vídeo aqui, que o PTS produziu aos quatro anos de desaparecimento de Jorge Julio Lopez:



Neste vídeo se mostra a condenação de Miguel Etchecolatz, ex-comissário de polícia e diretor de investigações em Buenos Aires, que foi um dos principais responsáveis por mortes, torturas e sequestros durante a ditadura argentina, que em seu total assassinou 30.000 trabalhadores, militantes de esquerda, opositores ao regime. Foi ele, por exemplo, o responsável direto pelo sequestro de estudantes na "Noche de los lápices" que mencionei no meu primeiro post daqui.

Este genocida havia sido julgado no fim da ditadura, em 1986, e condenado a 23 anos. Porém, logo em seguida foi inocentado de todos os seus crimes pela suprema corte argentina baseado na "Ley Obediencia Debida", estabelecida na Argentina em 1987, durante o governo de Raúl Alfonsín. Esta lei perdoava todos os crimes de militares com patentes abaixo da de coronel de seus crimes, baseando-se no fato de que estavam apenas "cumprindo ordens". Pouco antes desta lei, em 1986, foi promulgada a "Ley de Punto Final". Depois, no governo de Carlos Menem, que foi o governo liberal em toda a linha da Argentina com diversas privatizações, vieram os indultos.

Há algo de familiar para você nestas leis? O Brasil, hoje governado por uma ex-guerrilheira, permanece com sua Lei de Anistia, que deixa completamente impunes TODOS os torturadores, empresários que financiaram o golpe, lhe deram suporte político, financiaram a OBAN (Operação Bandeirantes), que deu origem ao DOI-CODI. Durante o governo Lula, se fez uma "firula" de que algo seria feito. O ministro Paulo Vanucchi, considerado ala esquerda do governo, defendia uma "comissão da verdade e da justiça". Em pouco tempo, esta se tornou já uma proposta de "comissão da verdade": pedir justiça era demais. Mas a verdade é que Dilma e Lula não podem bancar sequer isso: seus maiores aliados eram parte orgânica do regime militar. José Sarney, por exemplo, a quem Lula dedicou grandes esforços para salvar, tendo chegado a centralizar o líder da bancada do PT no senado, Aloízio Mercadante, quando Sarney esteve envolvido em escândalos (se não me engano foi este aqui, mas são tantos que fica difícil lembrar de todos os escândalos!). Enfim, o PT não irá levar à frente nenhuma revisão da Lei de Anistia ou de punição aos torturadores.

Na Argentina, em 2003 foram revogadas estas leis que davam perdão aos torturadores. Em 2006, Miguel Etchecolat foi ao banco dos réus, e Julio López foi uma testemunha chave. Assistam abaixo, vale muito à pena, seu testemunho:



Foi por isso, por temerem sua coragem de dizer o que havia sofrido e de enfrentar os militares, coragem que os reformistas de ontem e hoje aplicadores da política burguesa do PT nunca terão, que sequestraram López. No dia seguinte de seu desaparecimento condenaram o primeiro genocida na Argentina, Etchecolat, à prisão perpétua. Mas é ainda pouco, muito pouco. Os camaradas do PTS há muito tempo dizem, como neste debate cinco anos depois das revogações das leis, que isso não é suficiente.

Não foi de graça que se revogaram as leis que anistiam os torturadores na Argentina, nem será de graça que o farão aqui. Lá, ainda há muito a se fazer. O governo de Cristina, que hoje tem 50% de popularidade, se passa por defensor de direitos humanos. A esquerda tem papel ativo, não apenas o PTS. O caso de Julio López, graças à atuação da esquerda, torna-se um escândalo nacional. No dia seguinte ao ato, no táxi, indo ao congresso, havia no rádio uma entrevista sobre isso. Hoje, passando por uma banca, vi estampado em um jornal. A denúncia ao governo está em nossas palavras de ordem nos atos:

- Cristina, no me chamuches! Hay genocidas libres, ainda há la impunidad! Y López dondé está? Y López dondé está?

(Chamuche, me disse uma camarada, é tipo uma conversa mole, lero-lero)

E também:

- Que pasa? Que pasa? Que pasa con el K? Hay desaparecidos en el gobierno popular!
e sua variante:
- Que pasa? Que pasa? Que pasa con el K? Ya pasán cinco años, Julio López dondé está?
("K" é o Kirchnerismo)

Há outra que denuncia a repressão ao movimento operário:

- mira Cristina, que popular! És el gobierno com más presos por luchar!

Em um país com 50% de popularidade em um governo que se diz "popular", em que o governismo tem uma base militante, com pichações nas ruas, marchas e manifestações, nos damos a tarefa de denunciá-lo, de enfrentar sua popularidade. Colocamo-nos a tarefa de enfrentar os resquícios da ditadura.

No Brasil, a esquerda está muito atrás. Somos um grupo muito menor, mas também temos nos colocado na linha de frente desta tarefa. É isso que demonstramos no dia 1 de abril, quando fomos a única organização que realizou um ato contra o golpe militar. A fala de Brandão foi muito lúcida no sentido de relacionar o que temos hoje com a ditadura:



É uma tarefa imprescindível da esquerda lutar contra a ditadura! O sequestro de Julio López é uma mostra de que ainda hoje há a impunidade, ainda hoje os torturadores e articuladores da ditadura estão livres, estão fazendo negócios milionários, estão nos governos! As transições pactuadas mantém os trabalhadores esmagados pela polícia, pelo estado! Se na Argentina nossos companheiros ainda lutam pela punição de todos os genocidas, aqui no Brasil, em que estamos muito mais atrasados, temos que redobrar nossos esforços: Pelo fim da lei da anistia! Pela punição de todos os torturadores, financiadores, cúmplices do golpe! Só os trabalhadores podem dar uma resposta a isso!

Participamos do ato pela punição do coronel Ustra, torturador de Merlino e muitos outros:



Mas este julgamento sequer pode condená-lo pelo que realmente ele é: um genocida!
Como gritamos no ato dos 5 anos de desaparecimento de Julio López:

- A los milicos assassinos les salvaran sus amigos: la democrácia peronista y radicál. Pero te cuides milico genocida, de la justícia obrera y popular.

Aqui também, não deixemos o PT salvar os milicos! Justiça operária e popular para punir todos os genocidas da ditadura!

Terceirizados da manutenção externa da USP ocupam coordenadoria do campus!

URGENTE!

Os trabalhadores da empresa da empresa BMK, responsável pelos serviços de jardinagem e manutenção de áreas externas da USP, agora há pouco ocuparam a coordenadoria do campus Butantã exigindo o pagamento de seus salários atrasados em cerca de um mês.

Minha camarada Diana Assunção, diretora do Sintusp e dirigente da LER-QI, está lá dentro com eles. Não sairão enquanto não receberem o que a empresa lhes deve.

Está é uma demonstração contundente do enorme impacto da greve dxs trabalhadorxs da União no primeiro semestre. Os terceirizados viram que é possível lutar, e que estaremos ao lado deles até a vitória!

TODO APOIO À LUTA DOS TRABALHADORES DA BMK!

segunda-feira, setembro 19, 2011

Diário da Argentina: 15º Congresso Mundial de Psiquiatria: hace falta el marxismo!




Primeiro de tudo: de quem e para quem é o congresso?

O Congresso Mundial de Psiquiatria em Buenos Aires deve reunir mais de dez mil psiquiatras. Realiza-se no requintado centro de convenções do Hotel Sheraton, e sua inscrição custa nada menos que 150 dólares. As mesas, quase todas, exceto umas poucas em espanhol, realizam-se em inglês, sem tradução. Fica a pergunta para vocês: quem participa do congresso? Mais uma dica: entre os milhares de participantes, vi aqui e ali uns dez ou, sendo otimista, vinte negros. Quem tem acesso à psiquiatria?

Dentre as muitas e muitas mesas que havia, tentei pegar as que pareceriam mais críticas ao abominável cenário da medicina do capital. Já deixo aqui no começo um esboço de uma crítica a este modelo de medicina, escrita por meu camarada Gilson Dantas, que converge com o que penso. É claro, a crítica à medicina do capital é extensa, profunda, e vou esboçar aqui mais algumas coisinhas.

A normalidade e a psicopatologia: horizontes estreitos da fenomenologia

A primeira mesa que vi falava sobre aspectos, digamos, mais "teóricos", alcançando aquele ponto restrito em que alguns poucos psiquiatras se preocupam em teorizar. A maioria dos trabalhos acadêmicos não trás nada além de estatísticas e quantidades. Então, a princípio, foi uma boa surpresa que o primeiro palestrante não mostrasse nada disso. O nome da apresentação, em tradução livre, era "rumo a uma definição das desordens mentais: questões conceituais". Como pontos mais progressistas, havia o questionamento de que os psiquiatras não estão nem aí para as definições de doença mental (sim, pasmem: aqueles responsáveis por tratar as doenças mentais NÃO ESTÃO NEM AÍ PARA PENSAR O QUE SÃO AS DOENÇAS MENTAIS!!!)

Parênteses: como funciona a medicina psiquiatrica padrão

O artigo do Gilson acima citado fala bem sobre isso: de fato, quem dá a letra da maioria das decisões tomadas pelos médicos são os laboratórios. Há uma função essencial destas empresas cumprida pro profissionais chamados de "propagandistas". Estes são tipo os lobistas do corpo a corpo da multibilionária indústria farmacêutica. Sua função é peregrinar pelos consultórios particulares enchendo a cabeça dos médios de pesquisas patrocinadas pelos laboratórios para os quais trabalham que, de maneira muito "isenta e imparcial" (afinal, não é assim que nos dizem que a ciência procede?) "provam" que tal remédio no qual se investiu alguns milhões é a melhor cura para a doença X, e nada poderá ser melhor do que ele. Mas não se engane, os milhões investidos em pesquisas e desenvolvimento não são nada perto da verba destinada à "divulgação". Então, por via das dúvidas, caso estas maravilhosas pesquisas não os convençam, os propagandistas estão com ser arsenal mais poderoso: um grande estoque de presentes, bajulações e mimos baratos, caros e caríssimos para agradar seus clientes. Para que vocês não duvidem de quão longe vai isso, vou dar um singelo exemplo: viemos ao congresso eu, meu pai, meu irmão e sua namorada. Meu pai pagou minha passagem e minha inscrição no congresso e eu barganhei com o diabo para poder vir à Argentina conhecer de perto o PTS, prometendo comparecer mais ou menos ao congresso. Mas ele só pôde se dar ao luxo de pagar minha passagem e a nada amistosa inscrição, como forma de tentar me persuadir a voltar para o maravilhoso mundo da medicina, porque um propagandista simpático conseguiu que todas as outras passagens e inscrições fossem bancadas pelo laboratório para o qual trabalha! Entre outras coisas, já assisti uma palestra com ele sobre TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) no Hotel Mercure em São Paulo, com direito a um jantarzinho supimpa e um livrinho sobre esta doença. Tudo na conta do laboratório que produz a Ritalina, único remédio para este diagnóstico um tanto quanto suspeito, mas que é uma tremenda doença da moda. Quão isento é o diagnóstico do seu psiquiatra? Aquele mesmo que não se importa com definições de doença mental e recebe agrado de propagandistas que lhe trazem pesquisas patrocinadas por laboratórios? Pensa aí...

(Fecha parênteses, voltemos ao psiquiatra "filósofo" da conferência...)

Bom, entre os outros aspectos progressistas, ele disse o óbvio, mas que para nossos médicos que pensam com o cérebro dos propagandistas não é tão óbvio assim: o conceito de "doença mental" (em inglês ele usava o termo "mental disorder") é carregado de valores morais, culturais e sociais! Pra quem é marxista, chega a ser bizarro pensar que alguém precisa ir a um congresso ouvir isso! Mais uma obviedade progressista: as doenças não são nem apenas biologicamente determinadas, nem apenas socialmente construídas, mas são uma combinação destas coisas. Esta aí até dá polêmica com um monte de psiquiatra! Em seguida ele questionou os diagnósticos do famoso e aberrante "manual" de psiquiatria adotado universalmente, o DSM, que está em sua quarta edição e logo terá a quinta. Acreditem ou não, os psiquiatras, além do lixo entuchado pelos propagandistas, também utilizam isto, que funciona assim: você tem uma lista de sintomas para cada doença, e se o paciente atinge um certo número de sintomas da lista: BINGO! Ele tem a doença! Tipo um "Cheklist"!
Daí, depois de criticar a definição ridícula do grande manual sagrado da psiquiatria, ele deu sua definição pela positiva. Não era das piores. Incluía a "interferência em atingir objetivos pessoais" e "um comportamento ou crença não sancionado culturalmente". O mais progressista, a meu ver, foi admitir que é uma questão cultural, social e, portanto, (ainda que ele não tenha colocado neste termo) histórica. O outro ponto progressista foi quando ele discutiu a intensidade dos sintomas, o "cut point", o limite entre o "normal" e o patológico. Admitiu, coisa que poucos psiquiatras fazem, que no fim das contas é arbitrário, que não há como não ser.
O cara que veio em seguida mostrou a tosquice total do método científico da nossa medicina. É o que se chama de "evidence-based medicine", a medicina baseada em evidências. É a miséria da fenomenologia: os psiquiatras vêem o que está diante do nariz deles. E o cara falava sobre ansiedade, sobre transtornos e como diagnosticá-los. Inovando, mostrou um gráfico, em que muita ansiedade era patológico, e muito pouca era patológico, fazendo uma bela curvinha em seu powerpoint. Brilhante!

O ápice da miséria desta perspectiva imbecil, a fenomenologia, um tipo de empirismo mais "sofisticado", se demonstrou com toda a clareza na mesa seguinte que assisti, cujo nome era "Psiquiatria, religião e espiritualidade: aspectos clínicos". O cidadão que abriu fez uma fala de que a psiquiatria sempre estigmatizou a religião (verdade) e que era hora de mudar a relação que tinha com esta (verdade também). E daí foi de uma merda à outra, fazendo uma apologia da religião dizendo que tanto ela quanto a psiquiatria "querem o bem" e que era hora de "trabalharem juntas para o bem comum"!!! O que leva a tamanha barbaridade ser proferida por um "especialista" em uma mesa de congresso? Simples: o pragmatismo míope do seu método epistemológico e terapêutico. A apresentação a seguir, de um brasileiro, demonstrou exatamente o que leva a isto. Falava sobre religião e alcoolismo no Brasil, e demonstrava com seus diversos números, estatísticas e quantidades (lembrem-se do ditado imbecil: os números não mentem) que pessoas religiosas tem menos problemas de alcoolismo. ORA, QUEM DIRIA?!? O sensacional é que o estudo dele se detém exatamente aí, não vai um milímetro além. O que importa, pra esta abordagem tacanha, não é o que, como funciona, o que significa. O que importa é que funciona! Só faltou ele dizer que é bom prescrever religião pros pacientes!

E será que esta merda é o melhor que este congresso tem a oferecer? Ninguém tem uma visão um pouco menos imbecil?!? Milhares de psiquiatras e nada de bom a dizer? Calma! Há algo um pouco melhor, mas antes...

Intervalo 1: a burocracia sindical argentina tenta lavar sua cara




Eis que no fim da primeira mesa ouço um longínquo "Bum! BUM! BUM!" e me pergunto "Que pása?" Será que há uma apresentação de dança? E eis que à porta do Hotel vejo meia dúzia de gatos pingados da Associação dos Agentes de Propaganda Médica (Sim! Isso mesmo! O sindicato daqueles propagandistas que mencionei lá em cima!) fazendo isso aqui. Estão batendo uns bumbos descompassadamente e dando uns panfletos pra quem está por ali. Em seu uniforme do sindicato está ostensivamente colocado o símbolo da CTA, uma central sindical dominada pela burocracia peronista. Nesta matéria sobre sua manifestação no site, cinicamente dizem: "La medida de fuerza será llevada acabo con una marcha y escrache donde se no se descarta la interrupción de las propias actividades del Congreso de Psiquiatría auspiciado por la industria farmaceutica." HÁ! Até parece! Seria sensacional se levassem a sério suas próprias palavras, causando no meio de um congresso internacional! Seria facílimo fazer isto e o efeito seria estrondoso! Mas é óbvio, é pura demagogia.
A causa de seu ato é mais do que justa: demissões, práticas antissindicais, péssimas condições de trabalho. Mas se sua intenção não era fazer nada de efetivo, por que estavam lá panfletando? (diga-se de passagem, fui até eles, pedi seu panfleto, li e fiquei ali parado, com um crachá do congresso. Ninguém se deu ao trabalho de trocar uma palavra comigo sobre o que estavam fazendo. Só no bumbo descordenado). Estavam ali porque de uma forma ou de outra, o maravilhoso fenômeno do sindicalismo de base pressiona as burocracias a darem respostas às suas bases. Precisam fingir que organizam mobilizações e lutas, porque os trabalhadores vêem o que acontece na Kraft, no metrô, na Pepsico, em Zanon, na Disco e em tantos outros lugares. Pra saber mais sobre esta impressionante organização dos trabalhadores pela base, contra a patronal e as burocracias, recomendo ver o site do Nuestra Lucha, o jornal que o PTS impulsiona junto com os trabalhadores independentes do sindicalismo de base.
Dá o que pensar a burocracia sendo forçada a organizar este tipo de coisa, mesmo que seja um ato tão tosco que foi muito parecido com uma propaganda de um laboratório que teve na hora do almoço (com a diferença que na propaganda as pessoas sabiam tocar os instrumentos adequadamente). Quando há luta de classes, a potencialidade de uma política de exigência e denúncia a partir de uma localização estratégica no movimento operário é imensa...




Intervalo 2: passeando no maravilhoso shopping center da saúde mental

Como podemos ler na notícia do sindicato, o congresso é "auspiciado" pela indústria farmacêutica, como tudo o mais que os médicos fazem nesta vida (até as festas da medicina da USP, com chopp de graça, são patrocinadas pelos laboratórios). Isso quer dizer que os corredores do congresso são um grande mercadinho, tipo uma feira de rua mesmo, com cada barraquinha (estande) cheia de propagandistas vendendo seu peixe. Alguns pôsteres anunciam atividades no congresso que vão falar dos remédios. E, como não podia deixar de ser, tem os presentinhos. Depois do almoço hoje fui numa das salas onde ficam concentrados dezenas de standes (além dos que ficam em TODOS os corredores). Tomei um café por conta de um laboratório, ganhei uma destas garrafas de água (destas de atleta) de outro. Depois, usei a internet em um terceiro. Ainda ganhei de meu pai um caderno, uma caneta, um porta-lápis, um marcador de livro e uma caneta marca-texto. Amanhã, acho que vou levar uma sacola pra recolher tudo e depois quando voltar pra São Paulo abro uma barraca de camelô...

Perspectivas menos sombrias: psiquiatria transcultural (ainda hacé falta el marxismo!)

Mais pro fim do dia, pelo menos tive uma esperança de que nem tudo é horror. Fui numa mesa mais acalentadora com o título de "Efeitos duradouros do colonialismo na saúde mental de povos pós-coloniais". Muito interessante, depois vou explicar melhor pq estou já ficando com muito sono, mas o lance é pensar como os diferentes contextos culturais afetam a perspectiva psiquiátrica. Porque a perspectiva fenomenológica é tão cretina que sequer consegue pensar em algo tão elementar quanto isso! A tal psiquiatria transcultural tem florescido muito no Canada, um dos poucos redutos em que ainda sobra algo do estado de bem estar social e que há um influxo imenso de imigrantes e refugiados. Houve uma apresentação sobre a psiquiatria e os povos originários da Australia, uma sobre o conceito de paranóia cultural e o diagnóstico equivocado de esquizofrenia em pacientes negros nos EUA e uma sobre imigrantes negros no Canada. Muito interessante, mas vou desenvolver isto em outro post porque estou cansado (o facebook me distrai muito!). Este pedaço foi o filé do primeiro dia, e vai dar pano pra manga, mas quem sabe isso não incentiva as pessoas a voltarem para ver este blog com mais frequência (e seu autor a escrever com mais frequência!).

domingo, setembro 18, 2011

Diário da Argentina: 5 anos sem Julio López!



Consegui pegar o 150 na Avenida Santa Fé depois de rodar um pouco que nem tonto e perguntar para algumas pessoas. O guia de Buenos Aires que me foi dado pela camarada Patricia, trabalhadora da indústria alimentícia que conheci ontem na festa, me ajudou bastante. Não tenho nada a reclamar dos meus camaradas do PTS, que me receberam todos muito bem, mas sem dúvida noto uma diferença da proximidade que os brasileiros costumam ter. Sempre fiz pouco caso disso, como se fosse uma conversa pra boi dormir, um destes mitos nojentos que eu colocava no mesmo bojo de comentários reacionários sobre a sexualidade exacerbada das brasileiras e coisas afim, de estereótipos a serem rechaçados. Mas não se pode negar que há um traço cultural que nos influencia, ainda que eu, em geral, me considere um ponto fora da curva por minha timidez e antissociabilidade crônica. Daí que mesmo na festa tive longos momentos de isolamento e observação de canto.
No começo da festa o camarada Daniel Romero, o delegado demitido da Disco, foi muito legal me apresentando a todos; ele parecia ter bastante orgulho de apresentar um camarada da Fração Trotskista do Brasil - em especial aos companheiros independentes da nossa agrupação no comércio - e eu o entendo porque sinto o mesmo: acho incrível poder pensar na potencialidade de todos nós, em cada país que estamos, refletindo, atuando, conspirando contra o capital e golpeando a um só punho embasados em nossa estratégia e nosso programa que são fruto de milhares de cérebros e corpos dedicados ao mesmo propósito. Por mais que sejamos tão pequeninos perto da necessidade de nossa classe e da luta que enfrentamos, acho incrível esta potencialidade que existe, e sempre que penso nisto sinto minhas forças renovadas para continuar a lutar pela construção do partido mundial da revolução, ou seja, para que possamos voltar a ter a Quarta Internacional.
A companheira Sole, da agrupação "comercio despierta", também foi muito legal tentando me forçar a aprender a dançar, inclusive as músicas de meu próprio país que sempre desprezei. Infelizmente, creio que apenas a decepcionei em relação à sua capacidade de ensinar e também à tradição da "ginga" brasileira. Na verdade acho curioso como eu posso ser tão tosco para dançar, considerando que sempre gostei muito de tocar instrumentos musicais e acho que isso me dá um ritmo relativamente apurado. Acho que é mais um efeito colateral da timidez.
Mas, enfim, estou divagando. O ponto é que a camarada Patricia me ajudou e eu consegui pegar o ônibus 150 que parava em frente ao Congresso Nacional, de onde sairia o ato no dia em que se completam 5 anos de desaparecimento do companheiro Julio López. Este foi um companheiro que havia desaparecido durante a ditadura e reapareceu, era uma testemunha chave em processos contra torturadores e genocidas da ditadura militar, inclusive o chefe da polícia de Buenos Aires. Em 18 de setembro de 2006 foi sequestrado novamente, e até hoje não de sabe seu paradeiro. O governo dos Kirchner nunca se pronunciou a respeito, não faz nada para encontrá-lo e encobre muitos genocidas da ditadura. Há uma seção especial no site do PTS sobre os cinco anos de desaparecimento de Julio López.

Acordei tarde, saí correndo, achando que se chegasse às 16h (a concentração estava marcada para 15:30) estaria muito atrasado. E se eles saíssem?! Nunca mais conseguiria achar o ato!
O transporte público em Buenos Aires assustaria qualquer morador de São Paulo. É privado e subsidiado pelo governo, como em minha cidade natal. Mas para além disso, não tem paralelo. As tarifas de ônibus variam de acordo com o trajeto, chegando a um máximo de 1,25 pesos (cerca de 65 centavos de real); o metrô, com mais do que o dobro de nossas estações em uma cidade com muito menos gente, custa 1,10. Num domingo, esperei menos de dez minutos pelo ônibus.
Desci em frente ao congresso. Na praça, espalhavam-se rodeando-a as delegações de todas as organizações. As mais expressivas eram as do PTS, PO, IS, MAS e MST. Vi também a do recém-fundado PSTU argentino num canto. Fiquei decepcionado, na realidade, pelo reduzidíssimo número de pessoas, tanto em nosso bloco como em todo o ato. Logo fui conversar com Chipi, o Christian Castillo, nosso candidato a vice presidente pela Frente de Esquerda e dos trabalhadores (FIT). Ele, como sempre, foi muito simpático comigo.
- Ah, pardal! Viu o resultado das eleições? Ganhamos entre os estudantes.
Referia-se ao resultado das eleições para diretor de carreira, na qual estava concorrendo para a de sociologia na UBA, como disse no meu primeiro post. Eu havia visto no facebook, no qual a mafê havia me marcado em um post de Chipi referente aos resultados. Mas vi muito de relance, quando cheguei da festa antes de dormir. Pensando ingenuamente que acordaria antes do horário do ato, teria tempo para ver no dia seguinte. Respondi apenas:
- Não, não vi. como foi?
- tivemos 36,4%, os outros... (não me lembro bem o que disse, mas era coisa de 21% para um e não sei quanto para outro. Em segundo lugar ficaram os autonomistas e em terceiro os kirchneristas. Quem quiser ver alguns dos resultados, que no entanto não tem este especificamente, os companheiros do PO publicaram aqui no facebook)
De fato, ganhamos com folga entre os estudantes, o que mostra um ressurgimento da esquerda na sociais da UBA. A FIT tem dado um novo destaque a nossas ideias, e tem se mostrado uma tática completamente acertada, dando uma grande lição tanto aos ingênuos que pensam que os revolucionários não devem participar nas eleições como, principalmente em nosso caso brasileiro, ao miserável eleitoralismo de partidos como o PSOL e até dos companheiros do PSTU que rebaixam seu programa para "dialogar com as massas".
Enfim Chipi, obviamente, estava muito ocupado e não pode ficar muito tempo falando comigo, mas deixo-me dizendo:
- Não viemos com o partido todo, apenas uma delegação.
"Bom - pensei, tentando me consolar de ver apenas cerca de 50 camaradas por ali - os camaradas devem ter tido um bom motivo, talvez, para dar tão pouco peso a este ato." Mas a verdade é que não me convenci: fiquei com uma enorme pulga atrás da orelha pensando se não estávamos nos adaptando às lutas de calendário e ao rotineirismo da esquerda, tratando este ato dos cinco anos de desaparecimento de Julio López como mais um ato sem importância no qual devíamos aparecer para "cumprir uma obrigação". Além disso, parecia um velório. Camaradas parados, conversando entre si, sem canções, bandeiras enroladas e enfiadas no caminhão de som. Conversei um pouco com Patricia e com companheiros que vi na festa ontem, mas guardei minha inquietação para mim mesmo.

Algumas horas depois aprendi a mesma lição do dia anterior pela segunda vez: os argentinos tem um ritmo próprio. O bloco do PTS, como todo o resto do ato, cresceu assustadoramente. Avalio, de onde eu estava, que tínhamos lá umas quase 400 pessoas no nosso bloco. Camaradas meus da ler-qi já me contestaram mais de uma vez por minhas estimativas elevadas, então deixemos por 300. No ato inteiro eu diria que tinham umas 2000 pessoas. fiquei à frente, próximo a nossa bandeira de vanguarda, imensa, carregada com dificuldade por três pessoas fortes que seguravam imensos bambus e enfrentavam o forte vento de Buenos Aires. Todas as organizações grandes levam uma destas, na foto abaixo podemos ver as três da FIT enfileiradas lado a lado:



Carreguei uma bandeira do PTS/FIT de fazer inveja a nossa pequeninas bandeiras da LER-QI. Estive o tempo todo perto de um bloco de camaradas secundaristas e universitários que com certeza eram os mais animados do ato. Cantamos contra a ditadura argentina, seus resquícios e a cumplicidade do governo de Kirchner. Minha memória tosca tenta reproduzir algumas, sem dúvida as mais fáceis:

- A los milicos assassinos les salvaran sus amigos: la democrácia peronista y radical. Pero te cuides milico genocida de la justícia obrera y popular.

- Ahora, ahora, resulta indispensáble: aparición con vida e castigo a los culpables!

Tinha outras que lembro e esqueço a todo momento. Mas é incrível como aqui não se fazem apenas palavras de ordem, mas realmente marchas e músicas com cantos afinados e baterias apuradas, com letras com conteúdo político e programático de fazer inveja a panfletos toscos de grande parte da esquerda brasileira.



Enfim, já me alonguei muito e amanhã tenho que acordar cedo. Meu acordo com meus pais para vir para cá é que iria ao congresso mundial de psiquiatria, e agora vou ter que dividir meu tempo entre isso e as atividades políticas. Encerro deixando abaixo o manifesto lido na Praça de Maio no encerramento do ato, acordado entre mais de cem (!!!) organizações políticas, sindicais, estudantis, de direitos humanos, etc, etc.


Se cumplen hoy 5 años de la desaparición de nuestro compañero Julio López.

5 años de impunidad, 5 años de encubrimiento y silencio oficial.......

Una vez más, recordamos cómo, ante su ausencia y a pesar de la incredulidad, salimos a las calles a exigir su aparición.

La silueta de su rostro recorrió la argentina en multitudinarias marchas exigiendo su aparición con vida y el castigo a los responsables de su secuestro. Su imagen, testimoniando en el juicio del genocida Etchecolatz, se convirtió en el emblema de esta etapa de lucha contra la impunidad y por la aplicación de justicia a los genocidas.

A partir de ese momento y durante estos 5 años, la respuesta del gobierno nacional y provincial a nuestras demandas fue la descalificación y el silencio. Poblamos las calles con nuestro reclamo y recorrimos cuanto despacho oficial y judicial era posible.

Exigimos al gobierno una y otra vez, que impulsara la acción necesaria para dar con el paradero de Julio y con los culpables.

Sin embargo, el gobierno que se autoproclama defensor de los derechos humanos, no consideró de su incumbencia ocuparse del tema.

Por eso hoy, a 5 años , convocados por el Encuentro Memoria , Verdad y Justicia, .estamos una vez más en la Plaza, reafirmando que:

Acusamos al gobierno nacional y provincial de encubrir la desaparición, los responsabilizamos de usar el silencio para impulsar el olvido que sostiene la impunidad.

Los acusamos de haber renunciado a su responsabilidad de buscar y encontrar a nuestro compañero Julio, y a su obligación de detener , juzgar y condenar a los responsables..
Lo hacemos concientes de que esa política de impunidad es coherente con la política represiva que implementa hacia la protesta social.

La mano de obra genocida, así como sus discípulos presentes en las fuerzas de seguridad , están dispuestos y son utilizados para reprimir la protesta social.

El poder judicial demuestra palmariamente en este caso como es capaz de actuar cuando está al servicio de los sectores dominantes. La causa judicial de Julio es un ejemplo descarado de las maniobras de impunidad y encubrimiento de las que son responsables jueces y fiscales subordinados al poder político o a las fuerzas represivas.

Una vez más el discurso de derechos humanos del gobierno es un doble discurso. La realidad desmiente sus afirmaciones.

La anuencia oficial, del gobierno y de la justicia, con la desaparición de Julio y la impunidad que lo rodea , han sido la condición que facilitó el asesinato de Silvia Suppo, los secuestros de Pouthod y .. y las centenas de amenazas a testigos y querellantes en los juicios contra los genocidas.
Jamás se investigó a la Bonaerense, que en todos estos años, y en las más diversas situaciones , demuestra ser una verdadera organización mafiosa.

Hoy, a 5 años de la dolorosa desaparición de Julio, estamos firmes en la Plaza para ratificar la lucha popular contra la impunidad, para denunciar el encubrimiento, para poner voz al silencio de los de arriba, para reclamar justicia.

Y , junto a nuestros 30000, está Julio con nosotros, exigiendo cárcel común y efectiva a sus secuestradores, , a todos los represores y asesinos, a todos los genocidas.

Compañeros y compañeras: Levantamos aquí las banderas de la lucha por la memoria, por la verdad, por la justicia . Son las banderas de nuestra responsabilidad histórica con los compañeros detenidos desaparecidos y con Julio López.

Por ellos y por nosotros también levantamos las banderas del derecho inalienable y el compromiso a luchar por vivienda, trabajo y salario digno para todos, por educación y salud para nuestro pueblo, contra la entrega de nuestros recursos naturales, contra el pago de la ilegitima y usuraria deuda externa, contra la depredación ambiental de las empresas imperialistas. Por un país sin opresión, sin explotación. Un país justo por el que ellos dieron su vida.
Por eso reinvindicamos y nos sentimos partícipes de las puebladas, movilizaciones; cortes de ruta, huelgas, ocupaciones de fábricas, de tierras y de edificios públicos, escraches a genocidas, acampes, piquetes, que son la expresión más genuina de la disposición a la lucha y de la rebeldía popular .


Porque defendemos el derecho a luchar , estamos también aquí hoy denunciando al gobierno nacional y también a Macri y a los gobiernos provinciales, por la brutal criminalización de la protesta social y por la impunidad, de las que son responsable. Los denunciamos por el asesinato de luchadores populares.

Con dolor y con bronca tenemos que decir que en el último año fueron asesinados por las fuerzas represivas y por las patotas 14 de ellos, y que durante este gobierno , la respuesta a la ola de luchas populares que recorren el país ha estado marcada por represión y tortura. ; Que el gatillo fácil, instrumento de criminalización de la pobreza, sigue golpeando a nuestros jóvenes.

Denunciamos también que la impunidad de los responsables políticos y materiales de los asesinatos a nuestros hermanos se garantiza una y otra vez, mientras se persigue a los dirigentes obreros y populares a través de procesos judiciales, que se abren y reabren una y otra vez.

, Alzamos nuestra voz reclamando juicio y castigo por los chicos de Bariloche( nombres) , por Mariano Ferreira , por Roberto López........

Como el pueblo sí tiene memoria, estamos con Petete Almirón, Darío y Maxi, Cristian Ibáñez y Cuellar, Carlos Fuentealba, Lázaro Duarte.

Diário da Argentina: Na Disco-Jumbo há ditadura! Não à demissão de Daniel Romero!

Chego a um casarão velho, uma imensa árvore no jardim debruça-se em direção à calçada. O portão externo aberto me sinaliza que devo estar no lugar certo, apesar do imenso silêncio e nenhum movimento por ali. Entro e subo as escadas da frente. A plaquinha discreta na frente me confirma que cheguei: Instituto del pensiamiento socialista - Karl Marx. Logo ao lado um pequeno bilhete sobre a campainha diz: não está funcionando - bata na porta. Contudo, antes que eu o possa fazer, vejo que algumas pessoas surgem no corredor andando em minha direção. Espero que abram a porta e me perguntem o que quero.
- Sou do Brasil, da LER-QI, vim para a festa.
- Ah, da ler-qi! Chegou cedo, vai poder nos ajudar.
"temprano"? Penso que os argentinos têm realmente hábitos diferentes dos nossos. Andei a passos apressados quase vinte quarteirões desde o apartamento que meus pais alugaram, chegando mais de onze horas com medo de que poderia ser tarde demais. No Brasil as festas que fazemos na Casa Socialista raramente passam da meia-noite, tanto por conta das possíveis multas como por conta do horário de trabalho, reuniões e estudo da militância e demais convidados. Depois de me receber, um dos anfitriões do PTS me explica: sim, chegou cedo. A maioria das pessoas vai chegar por volta de umas duas da manhã. Ajudo alguns preparativos. Têm luzes, mesa de som. Fazem cartazes com os preços: Fernet com coca-cola, 25 pesos; cerveja (brahma, uma de nossas multinacionais que vai inundando o continente) 15 pesos.
Converso com um camarada mais receptivo e simpático que vem me perguntar quando cheguei e quando vou, essas coisas. Descubro que é Daniel Romero, e que a festa é por sua causa: é delegado de base dos trabalhadores do comércio, e foi despedido por perseguição política. Trabalha na Disco, um mercado que foi comprado pela Jumbo, uma empresa chilena que já vem perseguindo os trabalhadores e sua organização sindical há algum tempo. Depois, lendo o boletim, descubro que já deixaram os delegados sem salário, que proíbem os funcionários de ir ao banheiro e que não fornecem refeitórios a eles. A festa é para arrecadar fundos para a luta dos trabalhadores, impulsionada pela agrupação Comercio Despierta (PTS e independentes).
A festa começa tão vazia que penso que será um fracasso completo. Algumas horas depois descubro que meus camaradas estavam certos: as pessoas começam a chegar às duas. Antes disso, Sole, também trabalhadora da Disco, foi a pessoa que me tirou do isolamento completo: insistiu para que eu aprendesse a dançar com ela, entre músicas bregas argentinas e lixo exportado por nós: ouvi na festa até a boquinha da garrafa. A discotecagem desta parte da festa ficou por parte de Diego, outro delegado de nossa agrupação independente. Conversei com camaradas do PTS sobre estas músicas, em que coincidiram comigo que eram terríveis e machistas. Mais uma mostra, dentre tantas outras, que mesmo entre a vanguarda da classe trabalhadora, a discussão sobre ideologia, arte e cultura é premente.
Mais de cem pessoas compareceram, e conheci camaradas sensacionais de diversos lugares. De Santa Cruz, da indústria alimentícia. E preparo-me para amanhã ir ao ato pela reaparição de Júlio López. Deixo-os com alguns vídeos da luta dos companheiros do comércio contra a demissão de Daniel Romero.

No al despido de Daniel Romero

Daniel Romero, delegado despido de disco, contra el desafuero de Victor