Hoje, quase que por acaso, dei com um livro no meu nariz: Sobre o amor, de Leandro Konder. O tal livro fala sobre alguns escritores e revolucionários, e como o amor aparece em suas vidas e obras. Uma breve olhada no índice, enquanto descansava da limpeza da festa de sexta, me despertou a atenção sobre alguns personagens ali tratados. Dei uma breve folheada no Marx, mas na verdade neste campo em particular não me interesso muito por ele e creio que não é aí que vou encontrar as melhores reflexões deste mestre, admirável em tantas outras questões de capital importância.
Passei logo a ler com atenção o capítulo sobre uma moça cuja contribuição revolucionária, aí sim, é de fazer inveja a muito marxista nesta vida (mesmo que ela não o fosse). Um capítulo curto - talvez em demasia para alguém que mereceria mais - , que li inteiro ali mesmo, me contou algumas novidades sobre a vida amorosa de Simone de Beauvoir. Vou guardá-las na cabeça e amadurecê-las, conforme eu chegue de fato a conhecer a obra desta instigante mulher.
O que me coça o cérebro agora é a definição de seus amores. Aquele que a vida inteira dividiu com seu companheiro fiel, Jean-Paul Sartre, aparecia classificado pelo casal como essencial. Os outros, mais ou menos intensos, muito ou pouco profundos, porém, sempre de alguma forma passageiros, eram os ditos contingenciais . Duas simples palavras classificando este sentimento de tamanha complexidade; duas pequenas palavras dividindo UM amor de todos os outros, unificados em toda a sua diversidade.
Isso me pôs a pensar.
Fui a alguns dicionários pra ver se realmente sabia o que era contingencial. Ali estava realmente aquilo que imaginei: as definições me diziam se tratar de algo possível, porém incerto. E o essencial, sei de relance não ser o mesmo essencial da moeda corrente. Para o existencialismo de Sartre, que está aí por detrás desta definição do "amor essencial", a existência precede a essência, e esta é o fruto de uma escolha. Ora, eu cá com meus botões não manjo lá muito deste existencialismo, mas posso dizer na lata que como marxista não-existencialista não acredito em essência, que dirá no ser humano. Há alguma semelhança com a visão de Sartre, pois de fato a existência precede a essência. Mas, esse marxismo ocidental que puxa pro idealismo, parece querer dizer pra esta "existência" e pra esta "essência" - pelo menos foi o que ouvi - que podemos escolhê-las; que o homem está fadado a ser livre, pois está fadado a determinar sua existência e, assim, sua essência. E, convenhamos, não é lá bem assim. Claro que nossas decisões individuais podem, em certa medida, mudar nossa existência e, assim, dialeticamente, transformar nossa consciência (que é a palavra que prefiro usar para determinar a tal da "essência"). Enfim, vou ler mais sobre o existencialismo, pra não falar besteira demais, e aprofundar esta reflexão.
O que me importa, de fato, é que o tal amor deles era essencial, ou seja, determinante, profundo, ancorado naquilo que a existência deles vinha a ser. Os outros eram fortuitos; ocorriam, mas bem poderiam não ocorrer. Eram frutos de circunstâncias, e não de ligações estabelecidas por um modo de viver e ver a vida. Há algo, que está além deste incômodo idealismo existencialista, em que eu acredito estar de pleno acordo na visão deste amor. Que um amor entre duas pessoas fundado em concepções, afinidades e projetos sólidos, e cimentado com uma enorme liberdade e respeito mútuos, pode navegar longamente entre amores fortuitos e ocasionais sem se deixar naufragar.
Há amores, destes contingenciais, que o tempo só pode esmorecer e apagar. Na melhor das hipóteses, transformar em felizes lembranças do passado. Mas há, raramente, amores outros. Que estão alicerçados naquilo que quiçá Sartre e Beauvoir chamaram de "essência": nossos desejos, planos, sonhos mais profundos, fruto de nossas experiências e amadurecimento, de nossos confrontos e embates com a vida. Estes amores que sabem curtir na tempestade das adversidades e brigas, temperar a firmeza e a solidez de um companheirismo que vai além das banalidades. Que não se espelha em novelas nem mira casamentos; que não se alimenta de luxúria vã; que não olha o outro como espelho ou pedestal.
Estes amores - e eles não surgem espontaneamente, mas são construídos conscientemente e com muito esforço - que são capazes de trazer à tona o que há de melhor em nós mesmos. São capazes de nos desafiar, nos jogar na cara aquilo que detestamos e escondemos e nos fazer engolir nosso orgulho para superarmos o que antes não ousávamos admitir em nós mesmos. Porque eles nos dão uma força maior do que a que tínhamos antes. Porque eles nos permitem olhar a nos mesmos pelo lado de fora, através dos olhos que mais admiramos e respeitamos; e ouvir de uma voz em que confiamos e que nos pode ser impiedosamente sincera, aquilo que ninguém mais poderia dizer. Eu acredito nestes amores. Como hoje aprendi que Simone também acreditou, e que teve que lutar para que o seu existisse e resistisse, convivendo com as amargas heranças que as condições em que vivemos neste mundo vil instalam nos nossos corações, e que nenhum livre arbítrio é capaz de extirpar.
segunda-feira, outubro 04, 2010
sábado, outubro 02, 2010
Segredos...
- Posso te contar um segredo?
- Depende.
- ... de que?
- É sobre você este segredo?
- É, é sobre mim.
- Você tem muitos segredos que não me conta sobre você?
- ...
- Não precisam ser coisas secretas. Mas coisas que você pensa, sente, que são suas e que você não contou?
- Não, acho que não.
- Então não me conte. A gente também é feito de segredos, sabia? As coisas que são suas, que não são de mais ninguém. Elas também fazem você. Guarda este segredo e pensa aí se ele é realmente pra ser contado e, se for, se é pra ser contado pra mim.
- Mas eu não sou lá de ter muitos segredos.
- É uma pena. Não acho que você tem que ficar escondendo nada, não é disso que estou falando. Mas nossos desejos, sonhos, sentimentos são coisas secretas, muitas vezes. Mesmo que você conte, muitas vezes eles permanecem secretos, se a pessoa que te ouve não consegue te escutar. Há quem ache que temos que pensar bem no que contamos pros outros. Eu não acho; acho que temos que pensar bem no que guardamos. E com quem dividimos. Nossas relações também são feitas de segredos, coisas que se divide. Que não há ninguém mais com quem se possa dividir. Mas se você me contar todos os seus segredos, não dá pra gente se relacionar, porque quer dizer que você acha que eu sou você, que não há segredos entre nós e, enfim, que somos a mesma pessoa. Não é verdade. A gente sempre tem que ter segredos. O amor é construído, também, dos segredos que não se conta.
- Depende.
- ... de que?
- É sobre você este segredo?
- É, é sobre mim.
- Você tem muitos segredos que não me conta sobre você?
- ...
- Não precisam ser coisas secretas. Mas coisas que você pensa, sente, que são suas e que você não contou?
- Não, acho que não.
- Então não me conte. A gente também é feito de segredos, sabia? As coisas que são suas, que não são de mais ninguém. Elas também fazem você. Guarda este segredo e pensa aí se ele é realmente pra ser contado e, se for, se é pra ser contado pra mim.
- Mas eu não sou lá de ter muitos segredos.
- É uma pena. Não acho que você tem que ficar escondendo nada, não é disso que estou falando. Mas nossos desejos, sonhos, sentimentos são coisas secretas, muitas vezes. Mesmo que você conte, muitas vezes eles permanecem secretos, se a pessoa que te ouve não consegue te escutar. Há quem ache que temos que pensar bem no que contamos pros outros. Eu não acho; acho que temos que pensar bem no que guardamos. E com quem dividimos. Nossas relações também são feitas de segredos, coisas que se divide. Que não há ninguém mais com quem se possa dividir. Mas se você me contar todos os seus segredos, não dá pra gente se relacionar, porque quer dizer que você acha que eu sou você, que não há segredos entre nós e, enfim, que somos a mesma pessoa. Não é verdade. A gente sempre tem que ter segredos. O amor é construído, também, dos segredos que não se conta.
quarta-feira, setembro 22, 2010
Teatro de sombras
E mais uma vez, porque nunca será demais, volto à minha camarada Alexandra Kolontai:
"A idéia da propriedade se estende muito além do matrimônio legal. É um fator inevitável que penetra até na união amorosa mais livre. Os amantes de nossa época, apesar de seu respeito teórico pela liberdade, só se satisfazem com a consciência da fidelidade psicológica da pessoa amada. Com o fim de afugentar o fantasma ameaçador da solidão, penetramos, violentamente, na alma do ser amado, com uma crueldade e uma falta de delicadeza que será incompreensível à humanidade futura. Da mesma forma pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu espiritual mais íntimo. O amante contemporâneo está disposto a perdoar mais facilmente ao ser querido uma infidelidade física do que uma infidelidade moral e pretende que lhe pertença cada partícula da alma da pessoa amada, que se estenda mais além dos limites da sua união livre. Considera tudo isto como um desperdício, como um roubo imperdoável de tesouros que lhe pertenciam, exclusivamente e, portanto, como um saque cometido à sua revelia."
Sim, chegamos a vender tão barato o respeito e o carinho a quem amamos e a nós mesmos para fugir ao ameaçador fantasma da solidão. E, assim, sem perceber, viciamos, apodrecemos, contaminamos nossas ligações psicológicas e afetivas mais profundas com o sufoco do dia-a-dia, com a podridão que vai tomando conta do nosso espírito. Transformamos o amor em tédio, a companhia em prisão, o companheirismo em mordaça, a afeição em desespero. Transformamos um fantasma, inventado pela alienação, exploração e opressão, no carrasco maior que executa com requintes de crueldade uma das últimas e maiores vítimas desta sociedade encarquilhada e fétida. Nos fazemos cúmplices deste crime imperdoável. Somos nós os portadores hipócritas de uma moral arcaica e ressentida, que teme um sopro de ar fresco e um facho de luz que a varra de uma vez por todas da humanidade.
Vício, vício, vício. Procuramos nossos ópios, rastejando às cegas por esta masmorra em que estamos presos. Socando suas paredes, queremos um narcótico qualquer, uma ilusão que nos vendam barato à primeira esquina, para aplacar a dor lancinante de enxergarmos nossa liberdade tão longe e a custa de tanto esforço e esperança. Queremos fazer de nossas fraquezas uma força para combater. Não vemos o quanto somos cegos ao tentar vencer o jogo sem mudar, sem impor nossas regras. Não vemos que virar este jogo significa construir nossos exércitos e empunhar nossas armas, mas também extirpar o chorume viscoso que impregna nossos pensamentos e sentimentos. Lutar a cada dia para saber que não podemos ser o futuro, mas que precisamos ensiná-lo a ser, a nunca mais ser uma repetição eterna de um passado que insiste em não morrer. Que não podemos nos fazer só de passado, só de temor e ódio dos fantasmas.
Não há amor revolucionário sem atitudes revolucionárias.
Se a matéria prima do desejo humano é a ausência, saibamos que nosso desejo ávido por um futuro que enterre esta sociedade tem que ser nosso guia para a ação. Mas que nossas ações não se guiem só pelo desejo; que as saibamos conduzir, aprendendo com o passado. Que nosso desejo ávido por amor não nos torne pálidas figuras amedrontadas pela solidão, mas sim aqueles que lutam por emancipar o amor de seus grilhões enferrujados. Se nossa mente sofre hoje com esta crosta cinza e espessa que a recobre, que se espalha por nossas vidas e, como um óleo desliza sem se desmanchar, saibamos que os que mais sofrem com o velho são os que mais lutarão pelo novo. Não sejamos mais vítimas de nossos vícios, nossos ópios e desesperos. Coloquemos nossas mentes e corações a traçar planos e a se apaixonar por esta luta pelo novo. Somente se estivermos em movimento constante, sem nos deixar prostrar pelos fantasmas que nos assombram, poderemos aprender a construir esta difícil ponte entre o hoje e o porvir. E veremos assim que nossos fantasmas não passam de um orquestrado teatro de sombras, de ideologias de um museu travestido de vida, cujo objetivo é justamente nos paralisar.
"A idéia da propriedade se estende muito além do matrimônio legal. É um fator inevitável que penetra até na união amorosa mais livre. Os amantes de nossa época, apesar de seu respeito teórico pela liberdade, só se satisfazem com a consciência da fidelidade psicológica da pessoa amada. Com o fim de afugentar o fantasma ameaçador da solidão, penetramos, violentamente, na alma do ser amado, com uma crueldade e uma falta de delicadeza que será incompreensível à humanidade futura. Da mesma forma pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu espiritual mais íntimo. O amante contemporâneo está disposto a perdoar mais facilmente ao ser querido uma infidelidade física do que uma infidelidade moral e pretende que lhe pertença cada partícula da alma da pessoa amada, que se estenda mais além dos limites da sua união livre. Considera tudo isto como um desperdício, como um roubo imperdoável de tesouros que lhe pertenciam, exclusivamente e, portanto, como um saque cometido à sua revelia."
Sim, chegamos a vender tão barato o respeito e o carinho a quem amamos e a nós mesmos para fugir ao ameaçador fantasma da solidão. E, assim, sem perceber, viciamos, apodrecemos, contaminamos nossas ligações psicológicas e afetivas mais profundas com o sufoco do dia-a-dia, com a podridão que vai tomando conta do nosso espírito. Transformamos o amor em tédio, a companhia em prisão, o companheirismo em mordaça, a afeição em desespero. Transformamos um fantasma, inventado pela alienação, exploração e opressão, no carrasco maior que executa com requintes de crueldade uma das últimas e maiores vítimas desta sociedade encarquilhada e fétida. Nos fazemos cúmplices deste crime imperdoável. Somos nós os portadores hipócritas de uma moral arcaica e ressentida, que teme um sopro de ar fresco e um facho de luz que a varra de uma vez por todas da humanidade.
Vício, vício, vício. Procuramos nossos ópios, rastejando às cegas por esta masmorra em que estamos presos. Socando suas paredes, queremos um narcótico qualquer, uma ilusão que nos vendam barato à primeira esquina, para aplacar a dor lancinante de enxergarmos nossa liberdade tão longe e a custa de tanto esforço e esperança. Queremos fazer de nossas fraquezas uma força para combater. Não vemos o quanto somos cegos ao tentar vencer o jogo sem mudar, sem impor nossas regras. Não vemos que virar este jogo significa construir nossos exércitos e empunhar nossas armas, mas também extirpar o chorume viscoso que impregna nossos pensamentos e sentimentos. Lutar a cada dia para saber que não podemos ser o futuro, mas que precisamos ensiná-lo a ser, a nunca mais ser uma repetição eterna de um passado que insiste em não morrer. Que não podemos nos fazer só de passado, só de temor e ódio dos fantasmas.
Não há amor revolucionário sem atitudes revolucionárias.
Se a matéria prima do desejo humano é a ausência, saibamos que nosso desejo ávido por um futuro que enterre esta sociedade tem que ser nosso guia para a ação. Mas que nossas ações não se guiem só pelo desejo; que as saibamos conduzir, aprendendo com o passado. Que nosso desejo ávido por amor não nos torne pálidas figuras amedrontadas pela solidão, mas sim aqueles que lutam por emancipar o amor de seus grilhões enferrujados. Se nossa mente sofre hoje com esta crosta cinza e espessa que a recobre, que se espalha por nossas vidas e, como um óleo desliza sem se desmanchar, saibamos que os que mais sofrem com o velho são os que mais lutarão pelo novo. Não sejamos mais vítimas de nossos vícios, nossos ópios e desesperos. Coloquemos nossas mentes e corações a traçar planos e a se apaixonar por esta luta pelo novo. Somente se estivermos em movimento constante, sem nos deixar prostrar pelos fantasmas que nos assombram, poderemos aprender a construir esta difícil ponte entre o hoje e o porvir. E veremos assim que nossos fantasmas não passam de um orquestrado teatro de sombras, de ideologias de um museu travestido de vida, cujo objetivo é justamente nos paralisar.
segunda-feira, setembro 20, 2010
Sobre páginas em branco
Lembro-me das páginas em branco. Elas sempre me foram assustadoras mas, também, irresistíveis. Assustadoras como tudo aquilo que se apresenta como um infinito de possibilidades, como um mundo inteiro em potencial, colocado nas suas mãos e sob sua responsabilidade: só cabe a você dizer o que será daquilo.
Na escola, quando era pequeno, às vezes as páginas em branco se postavam à minha frente. Para a professora, uma atividade corriqueira: redação livre. Para os colegas, em sua maioria, mais uma chata tarefa escolar da qual se desembaraçavam com o mínimo de esforço possível, alguns raros até com algum prazer. Para mim, sempre, um misto de grande euforia e angústia; a página, ou até as páginas, em branco, todas só para mim, para que eu escrevesse nelas tudo aquilo que eu quisesse. Não havia para mim notas, colegas, professora. Apenas eu e a página, e a responsabilidade de colocar nela algo que estivesse a altura de preencher aquele espaço em branco. No final havia, sim, uma satisfação de ter preenchido o espaço. Mas também a sensação sempre presente de que eu poderia ter feito outra coisa, uma coisa muito mais interessante.
Na vida, seja na escola ou em qualquer lugar, este mundo nos fornece cada vez menos páginas em branco. Na verdade, nas engrenagens em que somos forçados a nos espremer, somos nós mesmos uma palavra ou pequena frase, tentando nos adequar para preencher uma lacuna obscura e alheia a nossa vontade, na qual nunca nos encaixamos de verdade. Perdemos as páginas, perdemos as canetas, perdemos a perspectiva de ler, escrever, criar, discutir, sonhar. Esta liberdade, das páginas para fazer o que se queira, estão reservadas apenas às crianças. Apenas a algumas poucas crianças. A liberdade que nos é dada a vislumbrar porque não há compromissos, responsabilidades, prazos, lacunas curtas onde temos que nos espremer. Há tempo, há brincadeiras, há espaço.
Um dia eu percebi, finalmente: não existem as páginas em branco. E isto é absolutamente incrível. As páginas em branco são uma conversa fiada que nos empurraram cabeça adentro, uma historinha nos faz achar que existem gênios criadores arrebatados por momentos sublimes de inspiração. Que existe ou pode existir em alguma alma excepcionalmente sensível uma melancolia ou uma alegria indeléveis, um arroubo de solidão, uma fagulha insubstituível de criatividade, um dom místico, metafísico, imaterial, esplêndido, intocável. Que há um espaço dentro de nós mesmos, ou fora, por aí, a procura de almas, onde podemos encontrar coisas secretas. Que este momento raro é a essência mesma da vida.
Quanta bobagem me haviam vendido em uma só página em branco! A página em branco da minha cabeça, onde as palavras hediondas e espelhadas em um reverso tão idêntico a si mesmas haviam sido escritas. As palavras que me deram: era com elas que eu preenchia as páginas em branco da minha infância, nas redações escolares. As palavras que me deram, que já estavam me dando e preparando e consagradas muito antes que eu nascesse, foi com estas palavras gastas que eu preenchi todos os meus relacionamentos, sonhos, perspectivas e esperanças. As palavras que querem nos fazer acreditar que são nossas, com elas preenchemos nossas páginas em branco, que se ajuntam em um imenso livro velho e empoeirado que se escreve por cima das nossas cabeças.
Há aqueles que acreditam, ingenuamente, poder formar suas próprias palavras, ter páginas em branco só suas para escrever. Se inventássemos nossas próprias palavras, quem nos entenderia? Não se trata disto, de acharmos que o que precisamos são páginas em branco preenchidas de palavras que nunca foram ditas. Há sim que criar e dizer e escrever palavras que nunca foram ditas, para que possamos de uma vez por todas mudar a mesma velha história que se escreve a cada dia. Mas não há quem possa criar sozinho suas palavras, assim como não há palavras novas que não se criem das velhas.
Temos que tomar o discurso das nossas vidas em nossas mãos; procurar no velho livro as palavras que querem nos ocultar, palavras desafiadoras que possam nos servir para mudarmos o discurso e, com tempo, esforço e, principalmente, construindo discursos coletivos, poderemos criar novas palavras, novos discursos, que se somem e possam criar, enfim, uma nova história sobre as páginas em branco que se postam a nossa frente.
Na escola, quando era pequeno, às vezes as páginas em branco se postavam à minha frente. Para a professora, uma atividade corriqueira: redação livre. Para os colegas, em sua maioria, mais uma chata tarefa escolar da qual se desembaraçavam com o mínimo de esforço possível, alguns raros até com algum prazer. Para mim, sempre, um misto de grande euforia e angústia; a página, ou até as páginas, em branco, todas só para mim, para que eu escrevesse nelas tudo aquilo que eu quisesse. Não havia para mim notas, colegas, professora. Apenas eu e a página, e a responsabilidade de colocar nela algo que estivesse a altura de preencher aquele espaço em branco. No final havia, sim, uma satisfação de ter preenchido o espaço. Mas também a sensação sempre presente de que eu poderia ter feito outra coisa, uma coisa muito mais interessante.
Na vida, seja na escola ou em qualquer lugar, este mundo nos fornece cada vez menos páginas em branco. Na verdade, nas engrenagens em que somos forçados a nos espremer, somos nós mesmos uma palavra ou pequena frase, tentando nos adequar para preencher uma lacuna obscura e alheia a nossa vontade, na qual nunca nos encaixamos de verdade. Perdemos as páginas, perdemos as canetas, perdemos a perspectiva de ler, escrever, criar, discutir, sonhar. Esta liberdade, das páginas para fazer o que se queira, estão reservadas apenas às crianças. Apenas a algumas poucas crianças. A liberdade que nos é dada a vislumbrar porque não há compromissos, responsabilidades, prazos, lacunas curtas onde temos que nos espremer. Há tempo, há brincadeiras, há espaço.
Um dia eu percebi, finalmente: não existem as páginas em branco. E isto é absolutamente incrível. As páginas em branco são uma conversa fiada que nos empurraram cabeça adentro, uma historinha nos faz achar que existem gênios criadores arrebatados por momentos sublimes de inspiração. Que existe ou pode existir em alguma alma excepcionalmente sensível uma melancolia ou uma alegria indeléveis, um arroubo de solidão, uma fagulha insubstituível de criatividade, um dom místico, metafísico, imaterial, esplêndido, intocável. Que há um espaço dentro de nós mesmos, ou fora, por aí, a procura de almas, onde podemos encontrar coisas secretas. Que este momento raro é a essência mesma da vida.
Quanta bobagem me haviam vendido em uma só página em branco! A página em branco da minha cabeça, onde as palavras hediondas e espelhadas em um reverso tão idêntico a si mesmas haviam sido escritas. As palavras que me deram: era com elas que eu preenchia as páginas em branco da minha infância, nas redações escolares. As palavras que me deram, que já estavam me dando e preparando e consagradas muito antes que eu nascesse, foi com estas palavras gastas que eu preenchi todos os meus relacionamentos, sonhos, perspectivas e esperanças. As palavras que querem nos fazer acreditar que são nossas, com elas preenchemos nossas páginas em branco, que se ajuntam em um imenso livro velho e empoeirado que se escreve por cima das nossas cabeças.
Há aqueles que acreditam, ingenuamente, poder formar suas próprias palavras, ter páginas em branco só suas para escrever. Se inventássemos nossas próprias palavras, quem nos entenderia? Não se trata disto, de acharmos que o que precisamos são páginas em branco preenchidas de palavras que nunca foram ditas. Há sim que criar e dizer e escrever palavras que nunca foram ditas, para que possamos de uma vez por todas mudar a mesma velha história que se escreve a cada dia. Mas não há quem possa criar sozinho suas palavras, assim como não há palavras novas que não se criem das velhas.
Temos que tomar o discurso das nossas vidas em nossas mãos; procurar no velho livro as palavras que querem nos ocultar, palavras desafiadoras que possam nos servir para mudarmos o discurso e, com tempo, esforço e, principalmente, construindo discursos coletivos, poderemos criar novas palavras, novos discursos, que se somem e possam criar, enfim, uma nova história sobre as páginas em branco que se postam a nossa frente.
domingo, setembro 12, 2010
Das coisas que se pode aprender com a solidão
Talvez a primeira coisa que eu poderia dizer que eu aprendi com a solidão foi esta vontade, um pouco absurda na minha cabeça de uns poucos dias atrás (quando eu estava sozinho mas ainda não tinha aprendido muito com isso), de que se pode vir em um lugar assim, como um blog semiabandonado, que é mais ou menos público - pois todos podem acessá-lo - e mais ou menos secreto - pois ninguém teria por que encontrar este domínio obscuro do blogspot (eu sempre fico surpreso que de fato possa haver gente tão perdida aleatoriamente na rede que chegue de fato a este texto e o leia!), e se escreva sobre coisas que no mês passado eu já nem lembrava como se contava a um amigo.
Perdoem-me os períodos gigantescos, cheios de vírgulas e digressões em períodos compostos mal encaixados, mas é que minha mente está livre das regras habituais de composição; ou, melhor dizendo, eu estou fora da gaiolinha.
Bom, mas acho que escrever, e talvez o fato de eu ter parado com isto, tenha muito a ver com isso, como eu de certa forma sempre soube. Quando eu comecei a escrever, como uma necessidade e uma coisa que eu realmente amava fazer, foi durante o primeiro período da minha vida em que, como um adolescente uma tanto deprimido, entre o pós-modernismo e um comunismo quase utópico-instintivo, e, é claro, muito egocêntrico, melodramático e autocomplacente, eu estava afundado na minha primeira tristeza mais profunda, sem amigos muito próximos e, fundamentalmente, sem muita referência de vida ou de mundo. Pegando todas aquelas porcarias que ficavam se remoendo dentro da minha cabeça e estômago, joguei todas elas num conto, um autêntico escrito bobalhão, mas sincero. E eu gostei muito de ter feito isso.
Acho que um monte de coisas me levaram a interromper isto, e também um monte de outras coisas: música, escritos, criar. Mas, talvez uma das preponderantes tenha sido isso: eu passei a fugir de ficar sozinho como o diabo foge da cruz. E é impressionante, ao olhar para trás, começar a perceber a que limites isto me levou, que tipo de coisas comecei a fazer comigo mesmo e com os outros para atender desesperadamente e sem perceber a esta necessidade: ter alguém do meu lado para me socorrer da assustadora experiência de me saber por conta própria diante desta vida imensa, deste mundo horrível, podre, vil; de saber que, no fim das contas, a gente tem que saber andar nele com nossas próprias pernas, e que não adianta tentar encontrar alguma outra pessoa para jogar em cima o fardo dessa solidão, e nem para tentar prender alguém com você pelo preço de "segurar" também o fardo dela. Não é disso que são feitos os amores, os verdadeiramente revolucionários, e nem os verdadeiros companheiros, aqueles que estarão dispostos a ajudá-lo sim, sempre, pois estão unidos por algo muito mais sólido e verdadeiro do que aquele desespero de não estar sozinho. É uma relação de dois sujeitos, cada um se sabendo e agindo como isto. E a relação deles é algo fundado em coisas reais: confiança, afinidades, compreensão mútua e um desejo de ajudar aquela pessoa no que ELA quiser, e não no que VOCÊ quer que ela queira. Disto são feitos os verdadeiros companheiros, prontos, aí sim, a poder ajudar um ao outro a ter que viver em um mundo que é uma grande bosta. E, muito mais importante do que isso, a ter a disposição para procurar e lutar pelo caminho de mudança dele; e a ter a sensibilidade, ajudada pela do outro, a procurar os detalhes, as frestas. Ler, refletir, procurar.
Precisamos encontrar na solidão a nós mesmos; precisamos nos fazer sujeitos diante do que a vida nos impõe; pegar nossa história pelas mãos. E, assim, poder saber de uma maneira profunda e verdadeira que não somos nem nunca seremos o sujeito heróico burguês, o self made man, a mulher da capa de revista, o político célebre das páginas do jornal, o casal feliz da propaganda de Margarina. Somos sujeitos que precisam procurar outros sujeitos para poder construir, coletivamente, pois é esta a única forma possível, uma saída para esta escuridão em que estamos; uma saída verdadeira para que, amanhã, os sujeitos possam se saber muito mais e muito melhor como sujeitos; e possam, assim, saber muito mais profunda e verdadeiramente ser companheiros e amar. Saber os verdadeiros significados que podemos atribuir a estes conceitos, que sem dúvida ainda estão por nascer nas mentes de uma humanidade futura.
E hoje, sozinho aqui e me esforçando por procurar de verdade me descobrir como um sujeito, eu me sinto bem, apesar de às vezes um pouco assustado ainda, de saber que é este o caminho que eu estou lutando para traçar.
Perdoem-me os períodos gigantescos, cheios de vírgulas e digressões em períodos compostos mal encaixados, mas é que minha mente está livre das regras habituais de composição; ou, melhor dizendo, eu estou fora da gaiolinha.
Bom, mas acho que escrever, e talvez o fato de eu ter parado com isto, tenha muito a ver com isso, como eu de certa forma sempre soube. Quando eu comecei a escrever, como uma necessidade e uma coisa que eu realmente amava fazer, foi durante o primeiro período da minha vida em que, como um adolescente uma tanto deprimido, entre o pós-modernismo e um comunismo quase utópico-instintivo, e, é claro, muito egocêntrico, melodramático e autocomplacente, eu estava afundado na minha primeira tristeza mais profunda, sem amigos muito próximos e, fundamentalmente, sem muita referência de vida ou de mundo. Pegando todas aquelas porcarias que ficavam se remoendo dentro da minha cabeça e estômago, joguei todas elas num conto, um autêntico escrito bobalhão, mas sincero. E eu gostei muito de ter feito isso.
Acho que um monte de coisas me levaram a interromper isto, e também um monte de outras coisas: música, escritos, criar. Mas, talvez uma das preponderantes tenha sido isso: eu passei a fugir de ficar sozinho como o diabo foge da cruz. E é impressionante, ao olhar para trás, começar a perceber a que limites isto me levou, que tipo de coisas comecei a fazer comigo mesmo e com os outros para atender desesperadamente e sem perceber a esta necessidade: ter alguém do meu lado para me socorrer da assustadora experiência de me saber por conta própria diante desta vida imensa, deste mundo horrível, podre, vil; de saber que, no fim das contas, a gente tem que saber andar nele com nossas próprias pernas, e que não adianta tentar encontrar alguma outra pessoa para jogar em cima o fardo dessa solidão, e nem para tentar prender alguém com você pelo preço de "segurar" também o fardo dela. Não é disso que são feitos os amores, os verdadeiramente revolucionários, e nem os verdadeiros companheiros, aqueles que estarão dispostos a ajudá-lo sim, sempre, pois estão unidos por algo muito mais sólido e verdadeiro do que aquele desespero de não estar sozinho. É uma relação de dois sujeitos, cada um se sabendo e agindo como isto. E a relação deles é algo fundado em coisas reais: confiança, afinidades, compreensão mútua e um desejo de ajudar aquela pessoa no que ELA quiser, e não no que VOCÊ quer que ela queira. Disto são feitos os verdadeiros companheiros, prontos, aí sim, a poder ajudar um ao outro a ter que viver em um mundo que é uma grande bosta. E, muito mais importante do que isso, a ter a disposição para procurar e lutar pelo caminho de mudança dele; e a ter a sensibilidade, ajudada pela do outro, a procurar os detalhes, as frestas. Ler, refletir, procurar.
Precisamos encontrar na solidão a nós mesmos; precisamos nos fazer sujeitos diante do que a vida nos impõe; pegar nossa história pelas mãos. E, assim, poder saber de uma maneira profunda e verdadeira que não somos nem nunca seremos o sujeito heróico burguês, o self made man, a mulher da capa de revista, o político célebre das páginas do jornal, o casal feliz da propaganda de Margarina. Somos sujeitos que precisam procurar outros sujeitos para poder construir, coletivamente, pois é esta a única forma possível, uma saída para esta escuridão em que estamos; uma saída verdadeira para que, amanhã, os sujeitos possam se saber muito mais e muito melhor como sujeitos; e possam, assim, saber muito mais profunda e verdadeiramente ser companheiros e amar. Saber os verdadeiros significados que podemos atribuir a estes conceitos, que sem dúvida ainda estão por nascer nas mentes de uma humanidade futura.
E hoje, sozinho aqui e me esforçando por procurar de verdade me descobrir como um sujeito, eu me sinto bem, apesar de às vezes um pouco assustado ainda, de saber que é este o caminho que eu estou lutando para traçar.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Ato pela redução das mensalidades e anistia dos inadimplentes na Fundação Santo André
Os estudantes da Fundação Santo André estão hoje construindo um exemplo de luta nas suas faculdades. A reitoria, além de querer aumentar as mensalidades, hoje está abrindo processos judiciais contra os estudantes que estão inadimplentes, impedindo que aqueles que não conseguem pagar as absurdas mensalidades possam estudar. Contra isso, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia (DA da FAFIL), a partir da gestão "Desafiando a miséria do possível", e junto aos estudantes dos outros prédios (FAECO e FAENG), estão impulsionando uma campanha pela redução das mensalidades, pela anistia da dívida dos inadimplentes e retirada dos processos contra estes.
Na semana passada ocorreu uma assembleia seguida de um ato que percorreu os três prédios. Os estudantes do Movimento A Plenos Pulmões, junto com estudantes que compõem a ANEL-SP e o bloco Anel às ruas estiveram presentes para apoiar a luta dos estudantes da FSA. Veja abaixo vídeos da assembleia e da manifestação.
Na semana passada ocorreu uma assembleia seguida de um ato que percorreu os três prédios. Os estudantes do Movimento A Plenos Pulmões, junto com estudantes que compõem a ANEL-SP e o bloco Anel às ruas estiveram presentes para apoiar a luta dos estudantes da FSA. Veja abaixo vídeos da assembleia e da manifestação.
sábado, setembro 04, 2010
Mudanças morais: uma necessidade para os revolucionários
"Somos o que fazemos. E, sobretudo, o que fazemos para mudar o que somos."
- Eduardo Galeano
Àqueles que colocam suas vidas a serviço da mudança radical da sociedade, da luta pela derrocada do capitalismo e de seus pútridos alicerces, passar os dias imerso nas contradições entre a vida que desejamos erradicar e aquela que queremos construir é uma inevitável e triste realidade. Contudo, não é errado dizer que devemos medir a fibra revolucionária de um militante não apenas pela sua dedicação a lutar por uma nova sociedade, mas também pelo que ele faz, desde já, para viver de acordo com a moral que defende. Isso equivale a dizer que não podemos admitir em um revolucionário uma vida dupla: aquilo que ele luta para implementar no futuro da humanidade deve, impreterivelmente, balizar até o limite do possível as suas ações cotidianas em todos os âmbitos da vida. Aí está a caminhada na corda bamba: como nos demonstra a história e nos ensina a sua análise marxista, o modo de vida e a consciência do ser humano não podem estar dissociados de suas condições materiais de vida, do mais sólido e concreto fundamento que cimenta as suas crenças, as suas ações, a sua subjetividade.
Não há caminho fácil neste sentido: os sacrifícios que temos que fazer como revolucionários não nos serão impostos apenas externamente, por tudo aquilo e aqueles que nos combatem em nossos objetivos; há sacrifícios que nós teremos que nos auto-impingir, para que possamos de fato levar nossa vontade de mudar até o fim e que tenhamos a consciência que uma moral comunista não se ergue como passe de mágica com o fim da propriedade privada ou sequer com o fim das classes. Tais condições materiais são, sim, imprescindíveis para que esta moral possa se desenvolver plenamente. Mas as sementes das novas relações morais, da mesma forma que os instrumentos que poderão dar cabo desta sociedade de exploração e miséria, devem ser construídos num esforço consciente e desde sempre pelos revolucionários.
É neste espírito que retomo a valorosa camarada Alexandra Kolontai, autora do trecho citado aqui há poucos dias, e que travou luta ferrenha e encarniçada dentro do mais avançado partido revolucionário até hoje para que as questões do amor e da moral sexual fossem tratadas com a devida importância e como um assunto coletivo, combatendo os preconceitos burgueses que hipocritamente relegam toda a camada fétida de sua ideologia sexual a uma suposta "esfera privada" de relacionamentos. A moral sexual é um dos pontos mais arraigados da ideologia burguesa nas vidas dos que se encontram sob sua égide; os revolucionários não são exceção.
Kolontai parece partir da herança fundamental já consolidada por Engels em "A origem da família, da propriedade privada e do estado", texto que consegue apontar os elementos centrais da relação entre os sexos a partir de uma visão marxista, demonstrando que a origem da opressão da mulher está indissoluvelmente vinculada à origem da propriedade privada. A partir daí, Kolontai coloca uma lupa sobre as relações amorosas e sexuais em diversos estágios de desenvolvimento social, mostrando como as sociedades feudais, patriarcais e burguesas enxergavam o amor e as relações sexuais e de que forma isto estava atrelado às suas ideologias como um todo. A lição fundamental que ela ensina é que uma tarefa histórica essencial do proletariado será jogar por terra toda a moral sexual burguesa e erigir uma nova. E que é tarefa dos revolucionários erguer os fundamentos morais do questionamento às relações amorosas como relações de posse, ao mesmo tempo em que lutam contra os fundamentos materiais da opressão à mulher e que garantem a perpetuação destas relações.
A cada um dos que hoje levantamos a bandeira da revolução social e nos postamos no campo da classe trabalhadora em sua tarefa histórica de derrubar o capitalismo, é necessário levarmos a fundo um questionamento moral de nossas relações amorosas e sexuais. É somente através disso que poderemos abrir espaço, nas fileiras da vanguarda proletária, para um novo ar, para o desenvolvimento de uma subjetividade que possa se desenvolver sem a necessidade parasitária de se impor sobre ou dominar a pessoa que pretenda amar, ou ainda seu revés, subjugar-se e viver da dependência do afeto de outro ser. O amor só pode se tornar um sentimento mais profundo, mais verdadeiro e contribuir para o desenvolvimento psicológico e afetivo dos seres humanos, se ele for uma janela que possibilite o contato verdadeiro, igualitário, solidário e livre entre duas pessoas que possam ser independentes em sua subjetividade, e, assim, realmente companheiras, lado a lado.
Transformemos esta necessidade em reflexão, e esta reflexão em prática. Àqueles que, como eu, consideram esta perspectiva essencial, recomendo resgatar a obra de Alexandra Kolontai, aliada indispensável na luta por uma nova moral sexual, seja contra os inimigos de fora ou contra nossos próprios preconceitos e sentimentos que, neste caso, podem ser nossos piores adversários.
- Eduardo Galeano
Àqueles que colocam suas vidas a serviço da mudança radical da sociedade, da luta pela derrocada do capitalismo e de seus pútridos alicerces, passar os dias imerso nas contradições entre a vida que desejamos erradicar e aquela que queremos construir é uma inevitável e triste realidade. Contudo, não é errado dizer que devemos medir a fibra revolucionária de um militante não apenas pela sua dedicação a lutar por uma nova sociedade, mas também pelo que ele faz, desde já, para viver de acordo com a moral que defende. Isso equivale a dizer que não podemos admitir em um revolucionário uma vida dupla: aquilo que ele luta para implementar no futuro da humanidade deve, impreterivelmente, balizar até o limite do possível as suas ações cotidianas em todos os âmbitos da vida. Aí está a caminhada na corda bamba: como nos demonstra a história e nos ensina a sua análise marxista, o modo de vida e a consciência do ser humano não podem estar dissociados de suas condições materiais de vida, do mais sólido e concreto fundamento que cimenta as suas crenças, as suas ações, a sua subjetividade.
Não há caminho fácil neste sentido: os sacrifícios que temos que fazer como revolucionários não nos serão impostos apenas externamente, por tudo aquilo e aqueles que nos combatem em nossos objetivos; há sacrifícios que nós teremos que nos auto-impingir, para que possamos de fato levar nossa vontade de mudar até o fim e que tenhamos a consciência que uma moral comunista não se ergue como passe de mágica com o fim da propriedade privada ou sequer com o fim das classes. Tais condições materiais são, sim, imprescindíveis para que esta moral possa se desenvolver plenamente. Mas as sementes das novas relações morais, da mesma forma que os instrumentos que poderão dar cabo desta sociedade de exploração e miséria, devem ser construídos num esforço consciente e desde sempre pelos revolucionários.
É neste espírito que retomo a valorosa camarada Alexandra Kolontai, autora do trecho citado aqui há poucos dias, e que travou luta ferrenha e encarniçada dentro do mais avançado partido revolucionário até hoje para que as questões do amor e da moral sexual fossem tratadas com a devida importância e como um assunto coletivo, combatendo os preconceitos burgueses que hipocritamente relegam toda a camada fétida de sua ideologia sexual a uma suposta "esfera privada" de relacionamentos. A moral sexual é um dos pontos mais arraigados da ideologia burguesa nas vidas dos que se encontram sob sua égide; os revolucionários não são exceção.
Kolontai parece partir da herança fundamental já consolidada por Engels em "A origem da família, da propriedade privada e do estado", texto que consegue apontar os elementos centrais da relação entre os sexos a partir de uma visão marxista, demonstrando que a origem da opressão da mulher está indissoluvelmente vinculada à origem da propriedade privada. A partir daí, Kolontai coloca uma lupa sobre as relações amorosas e sexuais em diversos estágios de desenvolvimento social, mostrando como as sociedades feudais, patriarcais e burguesas enxergavam o amor e as relações sexuais e de que forma isto estava atrelado às suas ideologias como um todo. A lição fundamental que ela ensina é que uma tarefa histórica essencial do proletariado será jogar por terra toda a moral sexual burguesa e erigir uma nova. E que é tarefa dos revolucionários erguer os fundamentos morais do questionamento às relações amorosas como relações de posse, ao mesmo tempo em que lutam contra os fundamentos materiais da opressão à mulher e que garantem a perpetuação destas relações.
A cada um dos que hoje levantamos a bandeira da revolução social e nos postamos no campo da classe trabalhadora em sua tarefa histórica de derrubar o capitalismo, é necessário levarmos a fundo um questionamento moral de nossas relações amorosas e sexuais. É somente através disso que poderemos abrir espaço, nas fileiras da vanguarda proletária, para um novo ar, para o desenvolvimento de uma subjetividade que possa se desenvolver sem a necessidade parasitária de se impor sobre ou dominar a pessoa que pretenda amar, ou ainda seu revés, subjugar-se e viver da dependência do afeto de outro ser. O amor só pode se tornar um sentimento mais profundo, mais verdadeiro e contribuir para o desenvolvimento psicológico e afetivo dos seres humanos, se ele for uma janela que possibilite o contato verdadeiro, igualitário, solidário e livre entre duas pessoas que possam ser independentes em sua subjetividade, e, assim, realmente companheiras, lado a lado.
Transformemos esta necessidade em reflexão, e esta reflexão em prática. Àqueles que, como eu, consideram esta perspectiva essencial, recomendo resgatar a obra de Alexandra Kolontai, aliada indispensável na luta por uma nova moral sexual, seja contra os inimigos de fora ou contra nossos próprios preconceitos e sentimentos que, neste caso, podem ser nossos piores adversários.
terça-feira, agosto 31, 2010
Lição de vida

"Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os sexos, na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro que caracteriza nossa época. Absurdamente se imagina que basta ao homem, para escapar à solidão moral que o rodeia, o amor, exigir seus direitos sobre outra pessoa. Espera assim, unicamente, obter esta sorte rara: a harmonia da afinidade moral e a compreensão entre dois seres. Nós, os indivíduos dotados de uma alma que se fez grosseira pelo constante culto de nosso eu, cremos que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das sortes humanas, o verdadeiro amor, não só para nós, como também para nossos semelhantes. Cremos poder conquistar isso sem dar em troca a nossa própria personalidade. Pretendemos conquistar a totalidade da alma do ser amado mas, em compensação, somos incapazes de respeitar a mais simples fórmula do amor: acercarmo-nos do outro dispostos a dispensar-lhe todo o gênero de considerações. Esta simples fórmula nos será unicamente inculcada pelas novas relações entre os sexos, relações que já começaram a se manifestar e que estão baseadas também, em dois princípios novos: liberdade absoluta, por um lado, e igualdade e verdadeira solidariedade entre companheiros, por outro."
- Alexandra Kolontai, 1918.
domingo, julho 18, 2010
Solidão por entre a gente
Na minha primeira noite de solteiro em quase seis anos eu: não encontrei uma pessoa pra sair comigo, nem sequer pra beber uma cerveja no boteco; recusei o convite do meu cunhado para jogar pôquer com a minha família; vaguei feito um idiota as ruas de pinheiros por quase uma hora; liguei para quem não queria falar comigo, e não fui atendido; hesitei, pensei, andei mais; voltei para casa triste, joguei pôquer, bebi cachaça mineira de graça, faturei R$8,50; me senti solitário como há muitos anos não o fazia; fiquei pensando por onde andam as pessoas que eu costumava chamar de amigos.
Escrevi uma porcaria sobre meu dia no meu ex-falecido blog, pensando que talvez ele possa voltar a ser uma companhia fundamental frente à minha nova situação.
Fui dormir, lá pelas quatro da manhã, pensando sobre como será meu futuro próximo.
Escrevi uma porcaria sobre meu dia no meu ex-falecido blog, pensando que talvez ele possa voltar a ser uma companhia fundamental frente à minha nova situação.
Fui dormir, lá pelas quatro da manhã, pensando sobre como será meu futuro próximo.
sexta-feira, abril 16, 2010
Professores na corda bamba: entre a PM de Serra e os pelegos de Lula

Semana passada foi encerrada a greve de mais de um mês dos professores da rede pública do estado de São Paulo. Durante este período os professores saíram as ruas para expressar seu descontentamento acumulado por mais de uma década de políticas de precarização do seu trabalho e de destruição do ensino público básico no Estado. Seguindo à risca os modelos educacionais elaborados pelos órgãos financeiros do imperialismo (BID, FMI), o PSDB à frente do governo desde que eu era criança (ainda com o falecido já-foi-tarde Mario Covas) deu conta de transformar o trabalho dos professores em um verdadeiro inferno. Vale lembrar que o modelo neoliberal de educação que vem dominando o Brasil não é exclusividade do PSDB em São Paulo, e quem vem dando os exemplos mais contundentes nos últimos anos é o governo Lula no ensino superior, através de políticas como UAB, ProUni, Reuni, entre outras.
Aqui em São Paulo, contudo, o PSDB foi um pioneiro e hoje chegamos a um patamar sem precedentes. Impossível enumerar todos os ataques realizados em 16 anos em apenas um pequenino texto. Mas podemos ver a concretude deles entrando em qualquer escola pública, até mesmo as escolas "modelo" do estado. As salas chegam a ter mais de 50 alunos. O salário por uma jornada de 40 horas semanais (que considera apenas o tempo de reuniões e aulas, mas não o tempo de preparação de aulas, atividades e correções) é de pouco mais de mil reais. O vale alimentação dos professores é de R$4,00 por dia. O material imposto pelo governo é indescritível: em mapas da apostila de Geografia, havia países repetidos e países faltando na América Latina; na apostila de português, os exercícios do ensino médio pedem que os alunos completem conversas de MSN. E por aí vai.
As medidas mais recentes do governo incluem uma nova série de divisões e precarizações da categoria. Como disse um amigo meu, dividir a categoria não é novidade (hoje 48% da categoria é composta por professores "temporários", ou seja, não concursados e que não tem uma série de direitos elementares) o que o governo fez agora foi dividir os professores em "castas". Os temporários agora são divididos por Letras que determinam o nível de precarização a que estão submetidos. Na casta mais prejudicada, a "categoria O", os professores, depois de cumprir um contrato em que substituem algum efetivo, são obrigados a passar 200 dias letivos sem entrar em sala de aula. É isto mesmo: o professor fica um ano sem poder trabalhar! Vai viver de brisa! Além disso, agora os professores não efetivos ainda tem que fazer uma prova todo ano para poder continuar assumindo turmas. Os professores que passarem por concurso a partir de agora serão submetidos a um curso de 4 meses, de caráter eliminatório, recebendo R$600,00 por mês, antes de poderem se efetivar na rede!
E agora, prestem atenção nisto: estas novas medidas não são de 2010. Foram implementadas pelo governo no começo do ano passado. Diante disso, o sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo, a APEOESP, chamou uma greve no ano passado. Depois de um dia, acabaram com a greve! UM DIA DE GREVE! A APEOESP é o sindicato com maior número de filiados na América Latina, conta com recursos indizíveis. Seu carro de som parece uma nave espacial do Star Wars. Sua direção majoritária é da CUT e do PT. A maior corrente de oposição, que também compõe a direção proporcional, é o PSTU.
Ora, vejamos: depois da greve de um dia no ano passado, neste ano a APEOESP convocou uma greve e, no primeiro ato na Av. Paulista, colocou mais de 20.000 professores de todos os cantos do estado na rua. Porque será que no ano passado, depois de todos estes novos ataques, a categoria estava "desmobilizada" e neste ano subitamente resolveram comparecer massivamente desde o primeiro dia? Isso fica mais fácil de compreender quando sabemos algumas coisinhas: que o governador de São Paulo, José Serra, este ano concorre à presidência da república, sendo a principal oposição à continuidade do PT no poder; este mesmo governador se recusou terminantemente a reconhecer a tremenda greve dos professores, que chegou a colocar mais de 50.000 professores na rua, dizendo que se tratava de uma "greve política", que não atingia nem 1% dos professores (número que equivaleria a cerca de 2.000 pessoas), e se recusando a negociar antes que a greve fosse encerrada; que, uma semana após Serra se licenciar do cargo para concorrer à presidência, a Bebel, presidente do sindicato, defendeu o fim da greve sem nem ao menos ter sentado em uma mesa de negociação. E aí, deu pra entender?
Bebel, depois de encerrar a greve em um ato com alguns milhares de professores, sem dúvida o mais esvaziado desde o começo da paralisação, teve que sair escoltada pelos bate-paus da CUT pra não ser moída de pancada pelos furiosos professores, que tiveram mais de um mês de salário cortado e não conseguiram absolutamente nada. A Oposição Alternativa, por sua vez, dirigida pelo PSTU, concordou com a linha dos petistas e defendeu o fim da greve dizendo que não havia mais uma adesão forte e, portanto, era impossível continuar a greve. Os atos estavam menores do que no começo da greve? Sim, eles estavam. O que explica isto então? Vejamos um comentário que uma professore deixou no blog "palavra da presidenta", escrito pela pelega-mor, Bebel:
Sinceramente, é lamentável que depois de tudo que passamos, principalmente a violência do dia 26 no Palácio dos Bandeirantes, muitos colegas pelegos não terem aderido a greve naquele semana seguinte,nem por solidariedade a nós. Na minha opinião, greve com 50% dos professores trabalhando e 50% se sacrificando não dá certo. Já perdi um mês de salário e cheguei a conclusão que a nossa categoria é muito desunida. Portanto, não farei greve novamente. Além disso, esse governo já demonstrou o não comprometimento com a educação! Esperar alguma atitude positiva com relação as nossas reivindicações , vinda desse governo truculento, somente com greve de 100%. PSDB odeia funcionário público. O negócio deles é sucatear e privatizar.
Ora, será que todos os professores não estão PUTOS DA VIDA com as condições de trabalho deles? Claro que sim! Mas Serra, desde o começo, avisou que o ponto seria cortado. Muitos professores já estão na rede há anos, e sabem muito bem que o sindicato não está disposto a levar a luta deles até o final. Perder a greve significa perder o salário, que eles precisam para sustentar suas famílias. Ao contrário de Bebel, que vive como uma parasita nojenta da estrutura sindical varguista, alimentada pelo imposto sindical compulsório de todos os professores do estado, o que rende uma verba de centenas de milhares de reais para a APEOESP todo mês. Quando ela colocou fim na greve, nenhum dos seus dias de trabalho para a candidatura da Dilma foram descontados. Esta burocrata infeliz, que, conforme ela mesma confirmou em entrevista para a coluna da socialite Mônica Bergamo, há 15 não pisa numa sala de aula, não se enfrente com nenhum dos ataques de Serra: seja as novas leis de precarização, o material didático abominável, as salas superlotadas ou o corte no ponto durante a greve. Por isso ela pode tranquilamente sentar em uma mesa de negociação com o secretário da educação depois de ter contribuído ativamente para que os professores continuem enfiados na merda, e dizer que eles estão negociando para que o desconto dos dias parados seja descontado de forma parcelada (!!!) Se você não acredita em tamanho absurdo, leia aqui nas palavras dos próprios pelegos: http://bit.ly/aVxEGz
Além do fato de que muitos professores não entram em greve porque não podem prescindir de seu salário e já tem uma longa experiência em serem jogados na fogueira pela pelegada do PT, devemos lembrar outros fatos concretos de suma importância: para que os professores do interior compareçam aos atos, eles dependem de ônibus e infraestrutura que está controlada por esta mesma pelegada, que dispõe dos recursos materiais do sindicato ao seu bel prazer. Nas cidades onde a subsede é dirigida pela oposição, por exemplo, nem pensar em ônibus! As assembleias dos professores parecem comícios ou show de trio elétrico. Enquanto a Bebel fica lá em cima falando a merda que bem entende, os professores embaixo não podem sequer apresentar suas propostas para organizar a luta! Na entrada do carro de som, alguns bate-paus da CUT vigiam o acesso ao microfone, certamente para nossa própria segurança! Não há exemplo melhor disso do que o dia em que estávamos apanhando da PM próximo ao palácio dos bandeirantes, e enquanto isso a Bebel começa a soltar suas pérolas no microfone. Depois de pedir mil vezes para que todos os professores recuassem, ela resolve usar todo seu talento argumentativo e diz: "Pessoal, recuar também é uma forma de luta", para logo em seguida começar a cantar o hino nacional, que foi recebido por uma saraivada de vaias pelos professores que enfrentavam a polícia. Para fechar com chave de ouro, quando cantamos para os burocratas: "desde do caminhão, a luta é aqui no chão!", recebemos como resposta uma garrafa d'água jogada em nossas cabeças de cima do caminhão. Eles só estavam tentando ajudar a PM de Serra a bater na gente! Os professores em cada escola são tratados como meros espectadores da greve, e não como sujeitos que a constroem ativamente! Além disso, entre as reivindicações colocadas pela direção como pauta da greve, não aparecem reivindicações elementares como a efetivação de todos os professores temporários, para que todos tenham os mesmos direitos e salários pelo mesmo trabalho!
Enfim, fica uma lição bastante evidente: enquanto não derrubarmos a burocracia pelega que controla este sindicato e faz de tudo para colocar um freio nas mobilizações dos professores, não conseguiremos avançar para travar uma luta até o fim com o governo, unificando com todos os setores do funcionalismo. Por isso convido todos os professores a discutirmos como podemos levar a frente a organização dos professores a partir da base, em cada escola e por cada demanda. Amanhã, 17/4, A LER-QI em conjunto com estudantes da Fundação Sto. André e professores, organizaremos uma atividade em conjunto na Casa Socialista do ABC, para fazer um balanço desta greve e também discutirmos um episódio exemplar quando, em 2006, uma greve de professores em Oaxaca, no México, conseguiu despertar para a luta todos os setores explorados e oprimidos, chegando a tomar estações de rádio e televisão e instaurando um governo popular na cidade.
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
30 anos de atraso para a classe trabalhadora

Ontem o PT fez 30 anos.
No fim de semana passado eu assisti, na casa de uma amiga, o programa eleitoral do PT em 1989. Confesso que fiquei um pouco surpreso. Quer dizer, que a degeneração eleitoralista era um mal de nascença e a transição do PT em mantenedor da ordem burguesa está consolidada há anos todo mundo sabe. Mas ver um pouco daquela retórica Lulista das raízes me surpreendeu um pouco. Não há mais propaganda eleitoral que se assemelhe àquela no Brasil, nem DE LONGE. O programa cuspia na cara do empresariado, da oligarquia política e latifundiária, escancarava podres. O sujeito falava em como era candidato porque a classe trabalhadora decidiu atuar politicamente. Compare-se ao programinha ridículo de "ética na política" do P-SOL, que nem se preocupa em esconder o quão pequeno-burguês é: http://bit.ly/cT0AJA
O lance era outro. Víamos os peões saindo da fábrica e doando, com gosto, uma parte do seu salário para a campanha. Víamos os comícios, verdadeiramente de massas, com Lula vociferando em uma retórica classista. Eu estava lá, quando tinha cinco anos, e fiz boca de urna. Havia atores e artistas se angajando ativamente na campanha. Quem caralhos consegue imaginar uma coisa assim hoje?
Dá pra ver, mesmo naquele programa, que o PT era realmente o produto de um ascenso operário. E dá pra ver, na prática, como sem um programa recolucionário um partido não tem nenhuma esperança de se degenerar. Havia um quadro no programa do PT que relacionava os políticos escrotos uns aos outros, do tipo "este anda com este que anda com este...", ligando Collor, Maluf, Sarney e diversos nomes da ditadura. Hoje, Lula caberia neste mesmo quadro como uma luva.
A direção política do PT representa não apenas um desvio de um poderoso ascenso operário nos anos 70, como constituiu no Brasil o maior aparato anti-revolucionário de sua história, tendo hoje 80% da população refém de sua política assistencialista, os movimentos de massa e as centrais sindicais na mão. Mesmo a esquerda revolucionária, como o próprio PSTU, passou anos e ainda hoje segue esta linha, de ficar refém desta política. É o maior obstáculo que os revolucionários tem hoje no Brasil pela frente, superar o petismo para conseguir forjar uma nova tradição no movimento operário e de massas no país.
A dimensão do que é a traição do PT é melhor expressa pelas palavras de Paulo Skaf, presidente da FIESP, quando completam-se os 30 anos de PT: " 'Tenho certeza de que o medo do PT não existe mais', afirma o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, que apoiou Lula em 2002. De acordo com ele, o relacionamento do empresariado com Lula e também com o PT é 'excelente', 'de carinho'."
Para entender um pouquinho melhor esta história, eu recomendo entusiasticamente a leitura desta publicação da Iskra: http://bit.ly/a8XoB1
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Chafurdando a merda (trote na USP)

Eis que a matrícula da FFLCH este ano reservava uma surpresa. Fomos com panfletos sobre a situação na USP, o acesso à universidade, e outras questões que achamos importantes para falar aos calouros. Veja o panfleto aqui:
Mas neste ano o trote ressurgiu das cinzas na FFLCH. Meninas sendo obrigadas a dançar funk em cima de cadeiras, pessoas sendo pintadas e jogadas numa piscina de bolinhas de isopor contra sua vontade, humilhações de diversos tipos. Os veteranos escreviam "UNIP", "Uniban" e coisas assim nas camisetas. O pior, é que os CAs da Sociais e Letras participavam ativamente e organizavam isto.
As pessoas dizem que isso é normal, é uma brincadeira. Que os calouros participam porque querem. Até na Folha de S. Paulo de ontem se dizia o óbvio: um calouro entrevistado falava que era humilhante mesmo, mas que ele suportava pois sabia que no outro ano seria ele a humilhar os outros.
O trote revela pra mim a nu o que em geral a universidade tenta esconder sob seu verniz de hipocrisia. O machismo, elitismo, a meritocracia e o reacionarismo da USP e de seus estudantes. Ainda que estivéssemos relativamente sozinhos em nossa empreitada, os militantes do Movimento A Plenos Pulmões e do Pão e Rosas escreveram este panfleto:
fizemos um cartaz junto a independentes que dizia: "Pixar 'Unip' é comemorar a exclusão e celebrar a meritocracia".
Foi bastante curioso ver militantes do MES/P-SOL sentados na sua mesinha do suposto movimento social de cursinhos populares "Emancipa" enquanto outros da mesma corrente escreviam "Unip" na camiseta dos calouros, cortavam seus cabelos, obrigavam-nos a seguir em fila para o pedágio chamando-os de "bixos".
A prática é o critério da verdade...
Na medicina aumentei muito o desprezo que já tinha em relação à escrota prática do trote. Este ano, confesso que fiquei muito satisfeito em ter, pela primeira vez, camaradas ao meu lado que compartilhavam da minha opinião e consideravam importante fazer alguma coisa para lutar ativamente contra isto. Ano que vem, certamente nossa luta continuará. Enquanto isto, também fico feliz em saber que em outros lugares, como no IFCH da Unicamp e na Unesp, outros camaradas estão em um posição melhor para lutar por isso, conseguindo abolir os trotes e fazer um ato-pedágio para mandar dinheiro às organizações populares e operárias do povo haitiano.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Uma bela cerimônia!
Segunda-feira, feriadão.
Lá vamos nós pra porta da Sala São Paulo. Lá dentro uma pomposa cerimônia: Kassab e outros distintos membros da honrada elite paulistana condecoram o novo autocrata da USP, João Grandino Rodas. Teve até um culto ecumênico! Juro! O cara foi literalmente abençoado por líderes religiosos para sua louvável tarefa de dirigir o centro nervoso da intelectualidade paulistana, a universidade mais elitista, racista, conservadora do Brasil.
E do lado de fora, mais de cem manifestantes tomavam chuva, com faixas, cartazes, palavras de ordem. Contra Rodas e contra Kassab e suas enchentes e aumentos de passagem. Numa das faixas do Movimento A Plenos Pulmões dizíamos: Rodas, ontem com a ditadura militar, hoje com a ditadura universitária.
Exagero?
Vejamos: Rodas participou de julgamentos responsáveis por aferir a responsabilidade do Estado brasileiro em casos de morte e tortura no período da ditadura. Trabalhou arduamente para jogar para baixo do tapete alguns dos mais brutais crimes políticos ocorridos na história recente do país. Votou, para ficar em um exemplo só, pela isenção de responsabilidade do Estado no julgamento do assassinato da estilista Zuzu Angel, cujo assassinato pelos milicos já foi retratado até em filme-novelão.
Quando presidente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), foi responsãvel por permitir a criação da AmBev, criando um monstruoso monopólio no Brasil.
Listar todos seus podres é uma tarefa de titãs, que eu não tenho condições de cumprir agora. Mas acho que ainda vale contar um pouco do que já fez na USP, como diretor da Faculdade de Direito, mais conhecida como SanFran. Foi ele o responsável, em 2007, por meter a tropa de choque dentro da faculdade, para prender e reprimir um protesto de diversos movimentos sociais que consistia em uma "ocupação simbólica" de 24 horas do Largo São Francisco. Tinha criança, velhinho, estudante, sem terra. Meteu a PM lá dentro e disse à imprensa que era para garantir a "segurança do patrimônio" da universidade. Em 2008, propôs e obteve aprovação, no Conselho Universitário (o CU, denominado pela USP de CO, sua instância máxima de deliberação) uma resolução que recomendava o uso de força policial para reprimir manifestações dos trabalhadores e estudantes quando "necessário".
Assumiu a reitoria sem obter aprovação nem mesmo no CO, tendo sido indicado pelo abutre-mor Serra para ocupar o posto. Vem com um discurso pra lá de demagógico e hipócrita de diálogo, de acabar com a intransigência. Não resiste à menor prova dos fatos.
Foi já nesta segunda-feira que tomamos porrada na cabeça, sem que nem pra quê. A gente já vê quando Rodas acha necessário reprimir manifestações com uso da polícia: sempre. Se cem pessoas cantando na chuva e protestando já motivo pra meter bronca, imagina o que vai ser este ano na USP. Foram diversos feridos, um deles saiu com a cabeça banhada em sangue direto pro hospital. Três presos. Bombas, cacetetes, escudos, capacetes. Contra manifestantes desarmados.
Boa sorte para nós. Vai ser preciso pra enfrentar o novo magnífico Reitor e sua vasta tradição de "diálogo" na base do cacete.
Lá vamos nós pra porta da Sala São Paulo. Lá dentro uma pomposa cerimônia: Kassab e outros distintos membros da honrada elite paulistana condecoram o novo autocrata da USP, João Grandino Rodas. Teve até um culto ecumênico! Juro! O cara foi literalmente abençoado por líderes religiosos para sua louvável tarefa de dirigir o centro nervoso da intelectualidade paulistana, a universidade mais elitista, racista, conservadora do Brasil.
E do lado de fora, mais de cem manifestantes tomavam chuva, com faixas, cartazes, palavras de ordem. Contra Rodas e contra Kassab e suas enchentes e aumentos de passagem. Numa das faixas do Movimento A Plenos Pulmões dizíamos: Rodas, ontem com a ditadura militar, hoje com a ditadura universitária.
Exagero?
Vejamos: Rodas participou de julgamentos responsáveis por aferir a responsabilidade do Estado brasileiro em casos de morte e tortura no período da ditadura. Trabalhou arduamente para jogar para baixo do tapete alguns dos mais brutais crimes políticos ocorridos na história recente do país. Votou, para ficar em um exemplo só, pela isenção de responsabilidade do Estado no julgamento do assassinato da estilista Zuzu Angel, cujo assassinato pelos milicos já foi retratado até em filme-novelão.
Quando presidente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), foi responsãvel por permitir a criação da AmBev, criando um monstruoso monopólio no Brasil.
Listar todos seus podres é uma tarefa de titãs, que eu não tenho condições de cumprir agora. Mas acho que ainda vale contar um pouco do que já fez na USP, como diretor da Faculdade de Direito, mais conhecida como SanFran. Foi ele o responsável, em 2007, por meter a tropa de choque dentro da faculdade, para prender e reprimir um protesto de diversos movimentos sociais que consistia em uma "ocupação simbólica" de 24 horas do Largo São Francisco. Tinha criança, velhinho, estudante, sem terra. Meteu a PM lá dentro e disse à imprensa que era para garantir a "segurança do patrimônio" da universidade. Em 2008, propôs e obteve aprovação, no Conselho Universitário (o CU, denominado pela USP de CO, sua instância máxima de deliberação) uma resolução que recomendava o uso de força policial para reprimir manifestações dos trabalhadores e estudantes quando "necessário".
Assumiu a reitoria sem obter aprovação nem mesmo no CO, tendo sido indicado pelo abutre-mor Serra para ocupar o posto. Vem com um discurso pra lá de demagógico e hipócrita de diálogo, de acabar com a intransigência. Não resiste à menor prova dos fatos.
Foi já nesta segunda-feira que tomamos porrada na cabeça, sem que nem pra quê. A gente já vê quando Rodas acha necessário reprimir manifestações com uso da polícia: sempre. Se cem pessoas cantando na chuva e protestando já motivo pra meter bronca, imagina o que vai ser este ano na USP. Foram diversos feridos, um deles saiu com a cabeça banhada em sangue direto pro hospital. Três presos. Bombas, cacetetes, escudos, capacetes. Contra manifestantes desarmados.
Boa sorte para nós. Vai ser preciso pra enfrentar o novo magnífico Reitor e sua vasta tradição de "diálogo" na base do cacete.
sexta-feira, janeiro 22, 2010
Afogando o povo

Mais nove vítimas na região metropolitana de São Paulo:
No grajaú, um casal e sua filha de dez anos soterrados; na pompéia, um velho de 75 anos no desabamento de sua casa; em Mauá e Santo André, mais dois deslizamentos; em Ribeirão Pires, duas crianças e sua mãe soterrados.
Ontem a polícia reprimiu duas manifestações, no Jd. Lucélia e em Rio Bonito, da população revoltada com a situação em que se encontram. No Jd. Lucélia, no ano passado, uma parcela da população foi expulsa pela prefeitura para as obras de canalização de um córrego. Jogadas para fora de suas casas com uma "indenização" de cinco mil. Eu adoraria ver o filho da puta do Kassab se virar pra arranjar um lugar pra morar com cinco mil.
Quem ficou ali viu as consequências da obra que a prefeitura iniciou: nas recentes chuvas, casas que nunca sofreram problemas foram completamente inundadas. Chamados, os bombeiros nunca vieram. A ajuda que a prefeitura prometeu depois de um protesto nunca chegou.
Em Dezembro assistimos a população pobre da Zona Leste, em especial do Jardim Pantanal, sofrer as consequências de uma inundação sem precedentes. As "autoridades competentes" nos empurram a mesma cantilena de sempre: estão fazendo "de tudo" para impedir novas enchentes e "ajudar" a população atingida. Afinal, quem pode controlar as chuvas? Sem dúvida não é o prefeito, então culpem São Pedro, culpem o acaso, culpem qualquer um, menos quem controla a cidade: é uma fatalidade incontrolável.
Então, vejamos: fora o evidente fato de que só sofrem os deslizamentos e desabamentos aqueles que são obrigados a morar em condições precárias e em áreas de risco por conta da situação econômica a que, não por acaso, estão submetidos, vejamos o que os isentos governantes fizeram. No dia 8 de Dezembro todas as comportas da barragem da Penha foram fechadas, contribuindo decisivamente para o alagamento na Zona Leste. Por que elas foram fechadas? Para impedir o alagamento das marginais. Ora, o que são alguns pobres a mais morrendo lá no Jardim Pantanal?
Uma fatalidade, sem dúvida, incontrolável...
Saca só um gostinho da PM batendo na galera:
http://bit.ly/8QRUJY
Blog da campanha de solidariedade ao povo do Haiti
http://solidariedadeaohaiti.blogspot.com/?zx=bbe4a64881993a6d
http://www.youtube.com/watch?v=dS1Scrf8lHs
http://www.youtube.com/watch?v=dS1Scrf8lHs
terça-feira, janeiro 19, 2010
Haiti: a heróica luta de um povo oprimido

Há muito blá, blá, blá por aí sobre o Haiti. É só ligar qualquer canal de TV, sintonizar qualquer estação de rádio para ver a farsa montada: o melodrama sensacionalista que a mídia burguesa faz sobre a tragédia de um povo. Concomitantemente, se abafa de maneira escandalosa as causas deste sofrimento pelo qual os haitianos passam hoje, montando um cenário imaginário em que se trata apenas de uma "catástrofe natural". Mas a coisa é tão gritante que mesmo nas arestas dos grandes monopólios da comunicação vemos algumas vozes que resgatam a exploração secular que se abate sobre os haitianos, como é o caso do texto de um professor e um estudante da Unicamp (militante do PSTU) que saiu na Folha.
Durante a greve da USP no ano passado tive a oportunidade de participar de uma atividade organizada pela Conlutas e pelo Comando de Greve dos trabalhadores e ouvir o relato de Didier Dominique, um militante de esquerda da Central Sindical e Popular Batay Ouvrier. Mesmo tendo sempre me posicionado ativamente contra a brutal ocupação das tropas da ONU no Haiti, foi só neste momento que tive a real dimensão do que se passa lá.
Didier falou sobre as revoltas que ocorreram no início de 2009 pelo aumento do salário mínimo (que tem o valor de US$1,70 por dia!). Falou sobre o tipo de perseguição política que sofrem os militantes de esquerda, sobre as repressões ao movimento que chegaram ao ponto das "tropas de paz" invadirem um hospital jogando bombas de gás lacrimogêneo em seu interior, assassinando um idoso e uma criança recém-nascida. Falou sobre a situação de miséria do Haiti, onde há 70% de desemprego e 90% de analfabetismo.
Hoje também vemos nas notícias sobre o terremoto as opiniões sobre a dificuldade de ajuda aos haitianos por conta da falta de estrutura do país. Pouco, contudo, se fala sobre o que gerou isso. Muito se fala sobre ditaduras sanguinárias que existiram lá; pouco se fala sobre que as financiou, quem as apoiou ativamente, quem ocupou o país militarmente diversas vezes. Muito se fala sobre supostas "tropas de paz"; pouco se
fala sobre o papel que cumprem cotidianamente, reprimindo a população, estuprando as mulheres, aterrorizando aqueles que se revoltam contra a miséria imposta.
Resgatar a história deste povo é fundamental, desde a luta por sua independência, que em 1804 conseguiu derrotar 25 mil homens das tropas de Napoleão e fundar o primeiro país independente da América Latina, a primeira república negra do mundo. A nossa solidariedade deve ser ao povo haitiano, que lutou e luta a cada dia contra aqueles mesmos que hoje aparecem de cara lavada nas televiões, internet e jornais, estendendo sua hipócrita mão para "ajudar".
Hoje o imperialismo disputa a tapa para decidir quem vai comandar o futuro do Haiti. O aeroporto está controlado pelas "humanitárias" forças militares estadunidenses que impedem o acesso de ajuda médica para priorizar o repatriamento de cidadãos de seu país. Mandam cada vez mais tropas, mas podemos ver nas poucas entrevistas com a população que não há ajuda alguma ao povo, que é obrigado a saquear as lojas destruídas (sendo violentamente reprimidos pelas "tropas de paz" por tentarem sobreviver) e tirar seus amigos e parentes dos escombros com as próprias mãos. A grande ajuda que chega, como apontou Adriana Diniz no JB, foi 4 mil vezes menor do que o dinheiro usado para salvar os capitalistas durante a crise.
Para quem quiser acompanhar mais notícias sobre o Haiti, estou postando algumas coisas interessantes no meu twitter (fepardal). Na quinta-feira realizaremos um ato no consulado haitiano, com horário ainda a determinar. Em breve divulgo com mais detalhes.
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Livros de 2009
1- Os irmãos Karamázov (Dostoiévski)
2- Maria. Uma peça e cinco histórias (Isaac Bábel)
3- A tragédia de um povo. Revolução Russa 1891-1924 (Orlando Figes)
4- Infância (Górki)
5- Ganhando meu pão (Górki)
6- Minhas universidades (Górki)
7- No fundo (Górki)
8- O Estado e a Revolução (Lênin)
9- O programa de transição / documentos da quarta internacional (Trotsky)
10- Da Cabula (Allan da Rosa)
11- Morada (Guma e Allan da Rosa)
12- O Romantismo no Brasil (Antonio Candido)
13- Lutadoras (Andrea D'Atri e Diana Assunção orgs.)
14- Pedagogia do oprimido (Paulo Freire)
15- Letramento literário (Rildo Cosson)
16- O Cortiço (Aluisio Azevedo)
17- Um segredo no céu da boca (vários autores da Cooperifa)
18- Iracema (José de Alencar)
19- Germinal (Émile Zola)
20- Palestina: uma nação ocupada (Joe Sacco)
21- Palestina: na faixa de gaza (Joe Sacco)
22- Pyongyang (Guy Delisle)
23- Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)
24- A terra dos meninos pelados (Graciliano Ramos)
25- A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac)
26- Diário do exílio (Trotsky)
27- A revolução traída (Trotsky)
28- Marxism and Literary criticism (Terry Eagleton)
29- México rebelde: A comuna de Oaxaca (Gilson Dantas)
30- Escritos latinoamericanos (Trotsky)
31- A mão e a luva (Machado de Assis)
32 - Crônicas escolhidas (Machado de Assis)
33 - Valéria (Milo Manara)
34 - O clic (Milo Manara)
35 - O Grito do Povo (Vautrin/ Tardi)
36 - Filhos da pátria (João Melo)
37 - Persépolis (Marjane Satrapi)
38 - A história da revolução russa vol. 1 (Trotsky)
2- Maria. Uma peça e cinco histórias (Isaac Bábel)
3- A tragédia de um povo. Revolução Russa 1891-1924 (Orlando Figes)
4- Infância (Górki)
5- Ganhando meu pão (Górki)
6- Minhas universidades (Górki)
7- No fundo (Górki)
8- O Estado e a Revolução (Lênin)
9- O programa de transição / documentos da quarta internacional (Trotsky)
10- Da Cabula (Allan da Rosa)
11- Morada (Guma e Allan da Rosa)
12- O Romantismo no Brasil (Antonio Candido)
13- Lutadoras (Andrea D'Atri e Diana Assunção orgs.)
14- Pedagogia do oprimido (Paulo Freire)
15- Letramento literário (Rildo Cosson)
16- O Cortiço (Aluisio Azevedo)
17- Um segredo no céu da boca (vários autores da Cooperifa)
18- Iracema (José de Alencar)
19- Germinal (Émile Zola)
20- Palestina: uma nação ocupada (Joe Sacco)
21- Palestina: na faixa de gaza (Joe Sacco)
22- Pyongyang (Guy Delisle)
23- Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)
24- A terra dos meninos pelados (Graciliano Ramos)
25- A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac)
26- Diário do exílio (Trotsky)
27- A revolução traída (Trotsky)
28- Marxism and Literary criticism (Terry Eagleton)
29- México rebelde: A comuna de Oaxaca (Gilson Dantas)
30- Escritos latinoamericanos (Trotsky)
31- A mão e a luva (Machado de Assis)
32 - Crônicas escolhidas (Machado de Assis)
33 - Valéria (Milo Manara)
34 - O clic (Milo Manara)
35 - O Grito do Povo (Vautrin/ Tardi)
36 - Filhos da pátria (João Melo)
37 - Persépolis (Marjane Satrapi)
38 - A história da revolução russa vol. 1 (Trotsky)
segunda-feira, novembro 09, 2009
Quem não tem cão...
Às vezes o dia amanhece de tarde, com aquele sol alto das duas horas já cansado de tanto tostar as pessoas e querendo ir se esconder. O dia já quer virar noite, e eu só queria ser capaz de dormir pra sempre.
Ora, que se dane! Que se dane mil vezes!
Você que me interroga com esta cara de quem não quer fazer nada!
A vida que me interroga com a podridão que oferece nos jornais, nas esquinas, nas bocas de quem eu encontro pela frente. Já me levantei, fazer o que? É necessário mastigar a nós mesmos, mastigar, mastigar, mastigar e, por fim mas nunca menos importante, é necessário engolirmos a nós mesmos.
Farei a digestão de meus pequeninos sentimentos apodrecidos acompanhada de um cálice de vodka.
Ora, que se dane! Que se dane mil vezes!
Você que me interroga com esta cara de quem não quer fazer nada!
A vida que me interroga com a podridão que oferece nos jornais, nas esquinas, nas bocas de quem eu encontro pela frente. Já me levantei, fazer o que? É necessário mastigar a nós mesmos, mastigar, mastigar, mastigar e, por fim mas nunca menos importante, é necessário engolirmos a nós mesmos.
Farei a digestão de meus pequeninos sentimentos apodrecidos acompanhada de um cálice de vodka.
domingo, fevereiro 22, 2009
Literatura sob a ótica marxista
Pois já demorou pra que eu me dê esta tarefa, e eu enrolei tanto justamente porque ela é assustadoramente difícil. Mas então agora vou me enterrar em livros e pesquisas pra tentar pensar uma série de questões sobre a literatura.
Pra começar, estou lendo "A formação da literatura brasileira", do Antonio Cândido.
Pra começar, estou lendo "A formação da literatura brasileira", do Antonio Cândido.
domingo, fevereiro 15, 2009
Passa Palavra
E daí tem alguns amigos participando de um coletivo de notícias sobre movimentos populares e sociais. Tá adicionado ali nos links e, pra não ter erro, tá aqui:
http://passapalavra.info
Ainda é cedo pra fazer algum comentário acerca da minha opinião, mas logo mais eu dou meu parecer.
http://passapalavra.info
Ainda é cedo pra fazer algum comentário acerca da minha opinião, mas logo mais eu dou meu parecer.
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Cornelius Castoriadis
Então eu vou começar a ler um livro chamado "A instituição imaginária da sociedade" que o Ciola (provavelmente o único leitor deste blog hahaha!) me emprestou. O autor é Cornelius Castoriadis, de quem eu nunca havia ouvido falar na vida. Então, pensei, é melhor eu ter alguma remota idéia de quem está falando comigo antes de ler. E fui maior fonte de conhecimento rápido e superficial do mundo, o Google. E eis que encontrei um sumário sucinto de uma opinião pessoal de um "castoridiano" (ou castorista, se preferirem) sobre o sentido da elaboração de teórico deste filósofo grego.
está aqui ó: Web Site Cornelius Castoriadis/Brasil
Isto é bom porque me dá também uma idéia de quem são os leitores e divulgadores de sua obra. E é possível que já me dê uma idéia do que vou encontrar no livro.
está aqui ó: Web Site Cornelius Castoriadis/Brasil
Isto é bom porque me dá também uma idéia de quem são os leitores e divulgadores de sua obra. E é possível que já me dê uma idéia do que vou encontrar no livro.
Favela sitiada

São quatrocentos policiais, cem viaturas, vinte cavalos, quatro cães e um helicóptero que mantém a “Lei e a Ordem” hoje na favela de Paraisópolis. Não bastasse o cotidiano de exploração e miséria a que estão submetidos os oitenta mil habitantes, hoje eles vivem submetidos ao terrorismo constante dos “homens da lei”. É esta a “Operação Saturação”, um destes momentos em que a face mais verdadeira e crua da nossa sociedade vem à tona. Basta de qualquer verniz democrático, é hora de mostrar até que ponto o Estado está disposto a manter os pobres em seu lugar à força de armas. Só quem mora lá sabe o que é viver nesta situação. E a nós, chegam somente alguns respingos de informação:
Moradores da Favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, acusam cinco agentes da Companhia de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar de terem mantido ontem dois adolescentes em cárcere privado e de agredi-los dentro da casa de um deles.
Polícia revista moradores nas entradas de Paraisópolis
Cinco membros da comunidade foram ontem à ouvidoria das polícias para reclamar de excessos na abordagem policial.
"Nossa preocupação é que tem muita polícia dentro da comunidade. Se foi necessário, foi no primeiro dia. Há alguns excessos na abordagem. Eu presenciei um policial gritando e xingando um cidadão que estava sendo revistado, de mãos na parede", afirma o radialista José Lopes, de 56 anos.
O padre Luciano Borges Basílio, da Paróquia São José, localizada na favela, também reclamou da truculência da Polícia Militar. O religioso disse que, mesmo usando roupa eclesiástica, foi maltratado ontem de manhã em abordagem dos homens do Regimento da Cavalaria.
Espumante, a raivosa “opinião pública” da burguesia clama por “justiça”, e a imprensa mostra o sofrimentos dos pobres vizinhos de Paraisópolis:
Vizinho de Paraisópolis, Morumbi vive dia de medo
Olhem os comentários
Pois é. Tudo em nome do "bem-estar social". Eu fico imaginando o tipo de coisa que está acontecendo lá e que não é divulgado.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Oba! Socialismo em dias de festa: Reunião anticapitalista no maior evento neohippie do mundo!
'Terminamos o FSM com uma vitória do socialismo e da revolução, com novas inspirações, renovados na busca de outro mundo socialista', afirmou Pedro Fuentes, Scretário de Relações Internacionais do PSOL.
Ah, fala sério! Vamos lá, pessoal, vocês acham mesmo que é assim que se luta contra o capitalismo? A história realmente não tem absolutamente NADA a ensinar para vocês? Ou será que é pura hipocrisia? (As perguntas não são retóricas, se alguém souber ou quiser tentar respondê-las, estou aguardando ansiosamente.)
Sobre Górki
Estou lendo agora a trilogia autobiográfica do Górki.
Terminei o "Infância", em que ele fala sobre suas primeiras lembranças, começando com a morte do pai e a mudança com sua mãe para a casa dos avós. Neste ponto de partida é maravilhoso o modo como Górki já descarta a possibilidade de uma autobiografia enciclopédica com enumeração e listagem de fatos, memórias, e muito blá blá blá digno das páginas da revista "Cult" ou outras publicaçõs tipo "Revista caras para burgueses metidos a intelectual", tal como, infelizmente, a Biografia recém-lançada a respeito de Maiakóvski ("Maiakovski: O poeta da Revolução", Aleksandr Mikhailov, Record, 2008). Ele começa com o ponto de vista próprio da memória infantil, e suas lembranças principiam subitamente no momento fundamental da morte de seu pai.
A partir daí, delinea-se o retrato da sua infância de miséria na família cada vez mais pobre de seu avô, onde os filhos homens disputam tapa a tapa qualquer herança que puderem conseguir de seu pai (incluindo o dote da irmã). A mesquinharia não fica na geração mais recente, e mostra suas raízes mais profundas na figura do avô. A violência absurda de uma sociedade patriarcal, conservadora, e machista, fruto da vida de obscurantismo e opressão a que os personagens estão submetidos cotidianamente, é retratada por Górki de maneira não apenas precisa, mas com o verdadeiro talento de um grande escritor (Górki, sendo quase unanimemente considerado pela crítica como um escritor de altos e baixos, também quase unanimemente tem a sua trilogia apontada como uma de suas melhores criações). Contraditoriamente, são os primeiros choques da criança com este mundo brutal que irão moldar a sua personalidade extremamente sensível, aliada à revolta contra a opressão, traços que fundamentarão a produção literária e a militância socialista que estão na base da vida de Górki. O absoluto horror a certas experiências, por vezes, deixa entrever no olhar da criança os olhos de um homem já maduro, que vê a sua vida infantil com os olhos de um adulto dotado de extrema sensibilidade e já inconformado com a miséria do nascente (porém ainda mais arcaico do que em sua contraparte Européia) capitalismo russo.
São estas passagens, que aliam a vida de miséria da criança e de seu meio com a sensibilidade e a indignação do escritor socialista, que conferem ao livro o seu sentido último. Tal ocorre, por exemplo, quando, ao retornar de um verão no qual trabalhara e viajara como lavador de pratos em um barco e caçador de pássaros, o jovem Aliekséi (Górki), retorna à casa dos antigos patrões:
"Parecia-me que, no decorrer daquele verão, eu vivera uma experiência tremendamente rica, envelhecera e ficara mais inteligente enquanto, na casa dos patrões, no mesmo período, o enfado se adensara ainda mais. Eles adoecem com a mesma frequência, desarranjando os intestinos com a comida farta, contam uns aos outros, com as mesmas minúcias, o evoluir das suas doenças, a velha [mãe de seu patrão e irmã de sua avó] reza a Deus de maneira terrível e rancorosa, como sempre."
Bom, há muito ainda que eu poderia falar sobre os romances, mas ainda nem terminei de lê-los. Vou seguir o método Ciola de tentar falar para os outros para ver se escuto de novo e dizer aqui que pensei diversas vezes como valeria a pena fazer um estudo comparativo entre o "Infância" do Górki e o "Infância" do Graciliano Ramos. Mas aí eu fico pensando se vale a pena e para que eu faria isto e começo a me questionar sobre a validade da crítica literária no mundo em que vivo e blá blá blá até que a perspectiva do tal estudo some completamente.
Ciola: vou consertar o "afundar", senhor piadista, mas não vou remunerar seu serviço barato de revisão de texto. Quanto ao livro, foi mal, eu li pra caralho nestas férias e acabei deixando justo ele de canto. Mas você pode compreender né? Há tanta coisa que eu preciso ler, e um cara com o qual eu já não tenho tanto acordo logo de cara é pouco tentador. Entretanto, acho importante ler os teóricos que discordo (visando principalmente os objetivos expressos há uns dois posts atrás) e já te prometo de antemão (sua tática, novamente) que vou ler e escrever algo a respeito dele.
Terminei o "Infância", em que ele fala sobre suas primeiras lembranças, começando com a morte do pai e a mudança com sua mãe para a casa dos avós. Neste ponto de partida é maravilhoso o modo como Górki já descarta a possibilidade de uma autobiografia enciclopédica com enumeração e listagem de fatos, memórias, e muito blá blá blá digno das páginas da revista "Cult" ou outras publicaçõs tipo "Revista caras para burgueses metidos a intelectual", tal como, infelizmente, a Biografia recém-lançada a respeito de Maiakóvski ("Maiakovski: O poeta da Revolução", Aleksandr Mikhailov, Record, 2008). Ele começa com o ponto de vista próprio da memória infantil, e suas lembranças principiam subitamente no momento fundamental da morte de seu pai.
A partir daí, delinea-se o retrato da sua infância de miséria na família cada vez mais pobre de seu avô, onde os filhos homens disputam tapa a tapa qualquer herança que puderem conseguir de seu pai (incluindo o dote da irmã). A mesquinharia não fica na geração mais recente, e mostra suas raízes mais profundas na figura do avô. A violência absurda de uma sociedade patriarcal, conservadora, e machista, fruto da vida de obscurantismo e opressão a que os personagens estão submetidos cotidianamente, é retratada por Górki de maneira não apenas precisa, mas com o verdadeiro talento de um grande escritor (Górki, sendo quase unanimemente considerado pela crítica como um escritor de altos e baixos, também quase unanimemente tem a sua trilogia apontada como uma de suas melhores criações). Contraditoriamente, são os primeiros choques da criança com este mundo brutal que irão moldar a sua personalidade extremamente sensível, aliada à revolta contra a opressão, traços que fundamentarão a produção literária e a militância socialista que estão na base da vida de Górki. O absoluto horror a certas experiências, por vezes, deixa entrever no olhar da criança os olhos de um homem já maduro, que vê a sua vida infantil com os olhos de um adulto dotado de extrema sensibilidade e já inconformado com a miséria do nascente (porém ainda mais arcaico do que em sua contraparte Européia) capitalismo russo.
São estas passagens, que aliam a vida de miséria da criança e de seu meio com a sensibilidade e a indignação do escritor socialista, que conferem ao livro o seu sentido último. Tal ocorre, por exemplo, quando, ao retornar de um verão no qual trabalhara e viajara como lavador de pratos em um barco e caçador de pássaros, o jovem Aliekséi (Górki), retorna à casa dos antigos patrões:
"Parecia-me que, no decorrer daquele verão, eu vivera uma experiência tremendamente rica, envelhecera e ficara mais inteligente enquanto, na casa dos patrões, no mesmo período, o enfado se adensara ainda mais. Eles adoecem com a mesma frequência, desarranjando os intestinos com a comida farta, contam uns aos outros, com as mesmas minúcias, o evoluir das suas doenças, a velha [mãe de seu patrão e irmã de sua avó] reza a Deus de maneira terrível e rancorosa, como sempre."
Bom, há muito ainda que eu poderia falar sobre os romances, mas ainda nem terminei de lê-los. Vou seguir o método Ciola de tentar falar para os outros para ver se escuto de novo e dizer aqui que pensei diversas vezes como valeria a pena fazer um estudo comparativo entre o "Infância" do Górki e o "Infância" do Graciliano Ramos. Mas aí eu fico pensando se vale a pena e para que eu faria isto e começo a me questionar sobre a validade da crítica literária no mundo em que vivo e blá blá blá até que a perspectiva do tal estudo some completamente.
Ciola: vou consertar o "afundar", senhor piadista, mas não vou remunerar seu serviço barato de revisão de texto. Quanto ao livro, foi mal, eu li pra caralho nestas férias e acabei deixando justo ele de canto. Mas você pode compreender né? Há tanta coisa que eu preciso ler, e um cara com o qual eu já não tenho tanto acordo logo de cara é pouco tentador. Entretanto, acho importante ler os teóricos que discordo (visando principalmente os objetivos expressos há uns dois posts atrás) e já te prometo de antemão (sua tática, novamente) que vou ler e escrever algo a respeito dele.
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Engatinhando, engatilhando...
Mais fácil falar do que fazer...
Não sei o que me ocorre, ando com um bloqueio para realizar certas tarefas. De qualquer forma, posto aqui a minha intenção com o intuito de criar alguma pressão sobre mim e, assim, quem sabe, conseguir parir o rebento.
É o seguinte: após finalmente concluir a leitura do livro de Orlando Figes sobre a Revolução Russa, e estou querendo escrever uma breve resenha sobre ele. Talvez seja o fato de que não me preparei adequadamente para esta intuito enquanto lia o livro, ou talvez seja só um pouco de receio por tentar defender uma visão bastante diferente das muitíssimo bem fundamentadas mil páginas do livro, mas o fato é que o negócio ainda não foi pra frente. Acho que preciso entender que, não importa o que eu escreva agora, vai ser só um tipo de rascunho com primeiras impressões.
Não sei o que me ocorre, ando com um bloqueio para realizar certas tarefas. De qualquer forma, posto aqui a minha intenção com o intuito de criar alguma pressão sobre mim e, assim, quem sabe, conseguir parir o rebento.
É o seguinte: após finalmente concluir a leitura do livro de Orlando Figes sobre a Revolução Russa, e estou querendo escrever uma breve resenha sobre ele. Talvez seja o fato de que não me preparei adequadamente para esta intuito enquanto lia o livro, ou talvez seja só um pouco de receio por tentar defender uma visão bastante diferente das muitíssimo bem fundamentadas mil páginas do livro, mas o fato é que o negócio ainda não foi pra frente. Acho que preciso entender que, não importa o que eu escreva agora, vai ser só um tipo de rascunho com primeiras impressões.
terça-feira, janeiro 27, 2009
Não há prática revolucionária, sem teoria revolucionária
A conhecida citação de Lênin diz tudo, e qualquer um que se pretenda um militante revolucionário minimamente consequente há de concordar com isto, seja ou não partidário do Leninismo. Para nós, vivendo em uma época em que o legado de tradições das lutas do movimento operário e socialista remonta mais de dois séculos, e em que a ideologia triunfante burguesa (e até mesmo muitos que se autodenominam como "de esquerda") alardeou o fim da União Soviética como a vitória final do capitalismo, a tarefa de estudar e resgatar esta história a fim de aprender suas lições é tão difícil quanto necessária.
Por experiência própria sei que é prática comum entre a militância de esquerda (talvez no Brasil em especial) fazer tabula rasa da vastíssima experiência de lutas dos trabalhadores, descartando absolutamente tudo o que veio antes como inútil sem ao menos se dar ao trabalho de conhecer isto que se joga fora. É uma tentativa inútil, desesperada e leviana de criar algo como um foguete espacial sem querer saber ao menos como se faz um motor de combustão. É impressionante, no entanto, como um modo de agir tão estúpido vigora com tanto fervor entre a esquerda. Eu mesmo, por exemplo, demorei anos até me dar conta de que tomava tal atitude.
Entretanto, a postura mais perniciosa diante da teoria revolucionária e da história da luta pelo socialismo leva esta cretinice adiante, pois, além de ignorar flagrantemente a história, acredita que sabe dela tudo o que é necessário, transformando análises absolutamente superficiais em dogmas dignos de serem seguidos às últimas consequências.
A história está repleta de nomes que dedicaram longas vidas inteiramente à causa revolucionária, e que morreram sem aprender uma ínfima parte do que desejavam. Em geral, sua luta levou a sua morte prematura. Está repleta também de erros e acertos das lutas pregressas, cujo simples estudo poderia ajudar enormemente a nos prepararmos para as lutas vindouras. Poucos são os revolucionários dignos de respeito que, ao longo de sua vida, não mudaram posturas e reviram pontos fundamentais de sua prática pautados em elaborações teóricas que foram frutos de um confrontamento cotidiano de suas concepções diante da realidade concreta. Muitas vezes, aqueles que se vangloriam de peito estufado de uma pretensa "coerência teórica" são os mais obtusos militantes. Alguns dos textos mais brilhantes da história da teoria socialista são os textos de polêmicas, em que os revolucionários se debruçavam exaustivamente sobre concepções alheias, esforçando-se para demonstrar porque e em que estas estavam equivocadas.
Já passa da hora de retomarmos seriamente estas tradições, de realmente pensarmos criticamente nossas práticas, pois sem isso estamos fadados ao fracasso e a mediocridade. Estes já são um terrível peso sobre as costas de um indivíduo. São muito piores quando temos a responsabilidade de fundarmos um projeto coletivo, que pretende ser uma luta pela emancipação de toda a humanidade, junto com nossos próprios erros.
Por experiência própria sei que é prática comum entre a militância de esquerda (talvez no Brasil em especial) fazer tabula rasa da vastíssima experiência de lutas dos trabalhadores, descartando absolutamente tudo o que veio antes como inútil sem ao menos se dar ao trabalho de conhecer isto que se joga fora. É uma tentativa inútil, desesperada e leviana de criar algo como um foguete espacial sem querer saber ao menos como se faz um motor de combustão. É impressionante, no entanto, como um modo de agir tão estúpido vigora com tanto fervor entre a esquerda. Eu mesmo, por exemplo, demorei anos até me dar conta de que tomava tal atitude.
Entretanto, a postura mais perniciosa diante da teoria revolucionária e da história da luta pelo socialismo leva esta cretinice adiante, pois, além de ignorar flagrantemente a história, acredita que sabe dela tudo o que é necessário, transformando análises absolutamente superficiais em dogmas dignos de serem seguidos às últimas consequências.
A história está repleta de nomes que dedicaram longas vidas inteiramente à causa revolucionária, e que morreram sem aprender uma ínfima parte do que desejavam. Em geral, sua luta levou a sua morte prematura. Está repleta também de erros e acertos das lutas pregressas, cujo simples estudo poderia ajudar enormemente a nos prepararmos para as lutas vindouras. Poucos são os revolucionários dignos de respeito que, ao longo de sua vida, não mudaram posturas e reviram pontos fundamentais de sua prática pautados em elaborações teóricas que foram frutos de um confrontamento cotidiano de suas concepções diante da realidade concreta. Muitas vezes, aqueles que se vangloriam de peito estufado de uma pretensa "coerência teórica" são os mais obtusos militantes. Alguns dos textos mais brilhantes da história da teoria socialista são os textos de polêmicas, em que os revolucionários se debruçavam exaustivamente sobre concepções alheias, esforçando-se para demonstrar porque e em que estas estavam equivocadas.
Já passa da hora de retomarmos seriamente estas tradições, de realmente pensarmos criticamente nossas práticas, pois sem isso estamos fadados ao fracasso e a mediocridade. Estes já são um terrível peso sobre as costas de um indivíduo. São muito piores quando temos a responsabilidade de fundarmos um projeto coletivo, que pretende ser uma luta pela emancipação de toda a humanidade, junto com nossos próprios erros.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Acho que não sei mais fazer este negócio de blog, tem ares de coisa muito estúpida pra que eu consiga fazer algo bom dele.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Acho que vou ter que retornar aos tempos da máquina de escrever. O Word não aceita minha tentativa de escrever várias palavras juntas sem espaço. Tentei em três computadores diferentes, e ele SEMPRE dá pau. Vou ver se o BrOffice é menos cretino. Como pode um programa que é desenvolvido há tanto tempo por uma megacorporação multimilionária ser tão absolutamente tosco?
quarta-feira, novembro 05, 2008
segunda-feira, outubro 13, 2008
Passei por aqui só pra falar bobagens, ando sufocado pelo dia-a-dia (e quem não anda?)
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?
sexta-feira, setembro 19, 2008
sexta-feira, setembro 05, 2008
Transformar nossas vidas em uma parte de um coletivo não é tarefa fácil. Nossas rotinas e a inescapável missão de sobreviver neste mundo nos forçam constantemente a segmentarmos completamente tudo aquilo a que aspiramos e tudo o que produzimos. Mergulhamos em nossos empregos, em nossos estudos, em nossos relacionamentos (por si só já fracionados e determinados, com hora certa para serem vividos), em nossos medos e nossas esperanças.
Começo a perceber drasticamente que este sentimento que nos é imposto a cada momento que é o que mais me assusta e desanima, mais consegue me vencer nesta luta cotidiana. O medo de uma solidão que é muito maior do que simplesmente estar sozinho. É o medo de uma solidão existencial, uma solidão de viver uma vida que não converge para nada, exceto para a inevitável percepção de como podemos ser vazios se estamos isolados. É exatamente assim que, creio eu, surge aquela terrível solidão em meio à multidão. A falta de nos percebermos como parte de um mundo e a crença tola de que somos excepcionalmente singulares e aboslutamente incompreensíveis para aqueles que nos vêem pelo "lado de fora".
Para mim esta solidão, e é preciso convencer-me disto a cada dia, é o fruto da ideologia em que estamos imersos. E é uma evolução natural, cunhada em séculos de nossa cultura. Provavelmente o grosso de seu germe é aquilo que descende do Romantismo, das idéias de gênio solitário, da expressão da subjetividade e, enfim, de toda esta concepção artística que deriva diretamente da consolidação da burguesia como classe dominante. E assim, isolados, vivemos nossas vidas.
Apeguei-me, durante todo o tempo, àquilo que meu desespero me conduziu na tentativa de escapar desta sensação de isolamento completo. Amigos, namoradas, família. Sentir-me próximo de pessoas. E agora percebo o quanto também destes refúgios é tragado cada dia mais pela simples rotina, que teima por jogar-nos em projetos de vida individuais, voltados para sabe-se lá o que. Estes refúgios são necessários, mas nunca serão suficientes se não olharmos mais adiante.
Superar a solidão individualista é algo que não se faz sozinho, e muito menos pode ser um processo completo dentro de nosso mundo. Mas sem dúvida faz parte de uma tarefa tão cotidiana quanto fundamental. Acreditar na revolução não me basta. E hoje, para mim, a tarefa de transformar minhas crenças em dia-a-dia está intimamente associada a romper a barreira da solidão. A crise de subjetividade que nos assola somente será rompida no momento em que conseguirmos também transformar nosso cotidiano com o estabelecimento sólido de vínculos de solidariedade com aqueles que o mundo teima em afastar de nós.
Tudo isto é fruto de uma prisão e uma mentira, que temos que destruir. Quanto àqueles que deveriam estar ao meu lado mas querem me enxergar como um inimigo, posso apenas espera-los de mão aberta, até o momento em que percebam que o nosso inimigo é comum, e que para vencê-lo é necessário que ataquemos juntos.
Começo a perceber drasticamente que este sentimento que nos é imposto a cada momento que é o que mais me assusta e desanima, mais consegue me vencer nesta luta cotidiana. O medo de uma solidão que é muito maior do que simplesmente estar sozinho. É o medo de uma solidão existencial, uma solidão de viver uma vida que não converge para nada, exceto para a inevitável percepção de como podemos ser vazios se estamos isolados. É exatamente assim que, creio eu, surge aquela terrível solidão em meio à multidão. A falta de nos percebermos como parte de um mundo e a crença tola de que somos excepcionalmente singulares e aboslutamente incompreensíveis para aqueles que nos vêem pelo "lado de fora".
Para mim esta solidão, e é preciso convencer-me disto a cada dia, é o fruto da ideologia em que estamos imersos. E é uma evolução natural, cunhada em séculos de nossa cultura. Provavelmente o grosso de seu germe é aquilo que descende do Romantismo, das idéias de gênio solitário, da expressão da subjetividade e, enfim, de toda esta concepção artística que deriva diretamente da consolidação da burguesia como classe dominante. E assim, isolados, vivemos nossas vidas.
Apeguei-me, durante todo o tempo, àquilo que meu desespero me conduziu na tentativa de escapar desta sensação de isolamento completo. Amigos, namoradas, família. Sentir-me próximo de pessoas. E agora percebo o quanto também destes refúgios é tragado cada dia mais pela simples rotina, que teima por jogar-nos em projetos de vida individuais, voltados para sabe-se lá o que. Estes refúgios são necessários, mas nunca serão suficientes se não olharmos mais adiante.
Superar a solidão individualista é algo que não se faz sozinho, e muito menos pode ser um processo completo dentro de nosso mundo. Mas sem dúvida faz parte de uma tarefa tão cotidiana quanto fundamental. Acreditar na revolução não me basta. E hoje, para mim, a tarefa de transformar minhas crenças em dia-a-dia está intimamente associada a romper a barreira da solidão. A crise de subjetividade que nos assola somente será rompida no momento em que conseguirmos também transformar nosso cotidiano com o estabelecimento sólido de vínculos de solidariedade com aqueles que o mundo teima em afastar de nós.
Tudo isto é fruto de uma prisão e uma mentira, que temos que destruir. Quanto àqueles que deveriam estar ao meu lado mas querem me enxergar como um inimigo, posso apenas espera-los de mão aberta, até o momento em que percebam que o nosso inimigo é comum, e que para vencê-lo é necessário que ataquemos juntos.
domingo, agosto 31, 2008
Sete e sete são catorze
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.
Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como poderei viver? Como poderei viver?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Somente a solidão nos une.
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.
Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como poderei viver? Como poderei viver?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Somente a solidão nos une.
quinta-feira, agosto 28, 2008
segunda-feira, agosto 25, 2008
Há algo que nunca se encaixa.
E eu fico pensando como será possível um dia as pessoas se entenderem.
Às vezes eu acho que o problema é comigo, sou eu.
Mas quando eu consigo olhar pro mundo eu vejo que não sou só eu.
Eu queria poder olhar nos olhos de todos e saber sentir seus sorrisos e suas lágrimas. Eu queria que as palavras fossem o coroamento de uma relação de compreensão e afeto, e não as armas que levantamos para lutar contra os outros.
Eu queria que os abraços, os sentimentos e as lições que aprendemos não fossem tão efêmeros.
Eu queria que a vida fosse uma experiência verdadeiramente coletiva. Mas eu me aparto destes sonhos com uma lúcida tristeza.
Me perdoem.
E eu fico pensando como será possível um dia as pessoas se entenderem.
Às vezes eu acho que o problema é comigo, sou eu.
Mas quando eu consigo olhar pro mundo eu vejo que não sou só eu.
Eu queria poder olhar nos olhos de todos e saber sentir seus sorrisos e suas lágrimas. Eu queria que as palavras fossem o coroamento de uma relação de compreensão e afeto, e não as armas que levantamos para lutar contra os outros.
Eu queria que os abraços, os sentimentos e as lições que aprendemos não fossem tão efêmeros.
Eu queria que a vida fosse uma experiência verdadeiramente coletiva. Mas eu me aparto destes sonhos com uma lúcida tristeza.
Me perdoem.
domingo, fevereiro 17, 2008
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Dizem, e as palavras passeiam rápido através da superfície das línguas ferinas que se alimentam do chorume das tristezas alheias, que as crônicas de uma triste peregrinação nunca estão completas até que a primeira gota de sangue toque o solo. Antes disto, tudo é um prelúdio, uma elaborada dança de corpos e mentes que, como um antigo ritual sagrado demais para que sobre ele se fale, encena-se num sombrio jogo de adivinhações. As facas quentes das palavras e gestos colocam suas lâminas em brasa na fogueira dos desejos. Os olhares, os toques, as lembranças. É tudo alimento, tudo é água no deserto da solidão.
Sentado num sofá, o corpo poeirento de milênios de espera, a alma amortecida de tanto pensar, o espírito calejado de tanto doer. A ânsia secreta por um projeto de vida, por um sonho de abrir, com a envergadura de quem não tem mais coragem de temer a vida inteira, as longas asas em direção ao mistério.
E se jogar. Sim!
Num último ato de desespero e esperança; em direção ao sol, em direção ao solo, em direção ao sonho. E sentir as batidas tribais de um coração estúpido e o vento lambendo as lágrimas, descolando-as dos olhos, lavando o pó dos anos, enquanto se aguarda o resultado daquelas asas estendidas. Em um golpe de sorte tudo se decide: ou se voa rumo ao longe, ou se fica rumo ao chão.
O impacto teria a dor surda de um fim sem homenagens, sem elegias. Nem ao menos uma voz rouca para cantar as vergonhas de uma alma que se despede sem vitórias.
O vôo teria o medo do novo. E os caminhos infinitos que se abrem numa jornada, cada passo é uma porta aberta no fio da navalha.
Viver é feito de desafiar a si mesmo.
Sentado num sofá, o corpo poeirento de milênios de espera, a alma amortecida de tanto pensar, o espírito calejado de tanto doer. A ânsia secreta por um projeto de vida, por um sonho de abrir, com a envergadura de quem não tem mais coragem de temer a vida inteira, as longas asas em direção ao mistério.
E se jogar. Sim!
Num último ato de desespero e esperança; em direção ao sol, em direção ao solo, em direção ao sonho. E sentir as batidas tribais de um coração estúpido e o vento lambendo as lágrimas, descolando-as dos olhos, lavando o pó dos anos, enquanto se aguarda o resultado daquelas asas estendidas. Em um golpe de sorte tudo se decide: ou se voa rumo ao longe, ou se fica rumo ao chão.
O impacto teria a dor surda de um fim sem homenagens, sem elegias. Nem ao menos uma voz rouca para cantar as vergonhas de uma alma que se despede sem vitórias.
O vôo teria o medo do novo. E os caminhos infinitos que se abrem numa jornada, cada passo é uma porta aberta no fio da navalha.
Viver é feito de desafiar a si mesmo.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Foi aí. Abrupto, aquele ódio irracional estancou numa engolida em seco, com gosto de cigarros e uma bebedeira de cerveja, que já começava a se transformar em ressaca na boca azeda e na mente empapuçada. Olhos estáticos, corpo imóvel. A mente se calou por dentro, ficou sentindo os reflexos lentos do corpo. O peito chiava arfante numa respiração difícil. O coração tamborilava sacudindo todas as veias, sentia-o retumbando no ouvido e latejando nas mãos. Foi invadido pela consciência da manhã que despertava, com seu frio manso e um galo que esganiçava em uma qualquer vizinhança. Sentiu então, como se fossem de outro, as gotas de sangue que lhe escorriam pelo braço. E a pontada de dor na mão cortada veio como um pungente aviso de que estava vivo, e que parecia que não podia fazer nada contra isto. Não podia fazer mais nada contra o dia que vinha em ondas fortes, destruindo o que encontrava por sua frente. E seu cérebro, alagado por aquele regurgitar salgado e incessante, agitou-se furioso mais uma vez, tentando entender alguma coisa. Desesperadamente qualquer coisa.
No chão, as gotas vermelhas pingavam formando pequeninos círculos no piso branco. Aqui e ali jaziam os cacos mortos do copo de requeijão, únicas testemunhas e cadáveres esmiuçados do cúmplice que transportara em longos goles a cerveja para dentro da boca, do esôfago, do estômago ulcerado, da mente confusa, cansada, sedenta.
Não adiantara.
Sentou-se maquinalmente, olhos vidrados, na cadeira ali ao lado. As primeiras lágrimas desta nova leva saíram ardidas dos olhos, acompanhando o flexionar pesado das pernas. A mão caiu sobre os joelhos espalhando manchas rubras pelo tecido cor de creme. Começaram aos poucos a vir as imagens da briga em soluços arrependidos de memória. Gritou, lembrava, mas não sabia dizer o quê. Provavelmente balbucios desconexos que naquele momento pareciam botar pra fora todo o medo que guardava a cada segundo e minutos dos dias pretensamente felizes. Seu ódio era uma colcha de retalhos daquelas pequenas provocações que se acumulavam, misturado com os sorrisinhos que lhe foram vendidos a tão alto preço. Sentiu a vida como um grilhão e desmaiou no sofá. Precisava de sonhos.
No chão, as gotas vermelhas pingavam formando pequeninos círculos no piso branco. Aqui e ali jaziam os cacos mortos do copo de requeijão, únicas testemunhas e cadáveres esmiuçados do cúmplice que transportara em longos goles a cerveja para dentro da boca, do esôfago, do estômago ulcerado, da mente confusa, cansada, sedenta.
Não adiantara.
Sentou-se maquinalmente, olhos vidrados, na cadeira ali ao lado. As primeiras lágrimas desta nova leva saíram ardidas dos olhos, acompanhando o flexionar pesado das pernas. A mão caiu sobre os joelhos espalhando manchas rubras pelo tecido cor de creme. Começaram aos poucos a vir as imagens da briga em soluços arrependidos de memória. Gritou, lembrava, mas não sabia dizer o quê. Provavelmente balbucios desconexos que naquele momento pareciam botar pra fora todo o medo que guardava a cada segundo e minutos dos dias pretensamente felizes. Seu ódio era uma colcha de retalhos daquelas pequenas provocações que se acumulavam, misturado com os sorrisinhos que lhe foram vendidos a tão alto preço. Sentiu a vida como um grilhão e desmaiou no sofá. Precisava de sonhos.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Outro dia voltava para casa a pé às seis da manhã e tinha comigo mesmo uma das mais furiosas discussões que já tive.
Um lado me acusava de ingênuo, volúvel, falso, leviano, inconsequente, anarquista imbecil pequeno burguês.
O outro me acusava de conservador de direita retrógrado, conformista, apático, desiludido, machista.
Uma hora, quando passando em frente à Igreja dos Mormons, vi uma cara assustada de um hdei por mim mesmoomem que cruzava comigo. Eu era um sujeito com cara de maluco, roupas amassadas, olheira de maquiagem, cara de bêbado, rindo e chorando ao mesmo tempo e falando alto comigo mesmo o seguinte: "Vocâ tá louco? Você tá louco?"
Um lado me acusava de ingênuo, volúvel, falso, leviano, inconsequente, anarquista imbecil pequeno burguês.
O outro me acusava de conservador de direita retrógrado, conformista, apático, desiludido, machista.
Uma hora, quando passando em frente à Igreja dos Mormons, vi uma cara assustada de um hdei por mim mesmoomem que cruzava comigo. Eu era um sujeito com cara de maluco, roupas amassadas, olheira de maquiagem, cara de bêbado, rindo e chorando ao mesmo tempo e falando alto comigo mesmo o seguinte: "Vocâ tá louco? Você tá louco?"
sábado, dezembro 15, 2007
Parcialmente escrito, praticamente baseado em um sonho desta tarde...
Era um dia de agitações na protocidadela. Nos últimos meses o comichão de suas fronteiras havia devorado léguas de mata virgem e pasto inerte. No bairro velho fervilhavam conspirações, sibilavam ameaças entre as línguas ásperas dos velhos druidas enrugados. Os aprendizes ensimesmavam-se em treinações e ambições que recriavam suas mentes em plena expansão e derreformação. Os bruxistas não deixavam por menos, recalcando pirotecnias e transcriando as velhas cavernas enfumaçadas e escuro-piscantes. O cheio se espalhava longe nas ruelas se impregnadas de molecarias maltrapilhas emprumando-se em desejosos sonhos de integrar ambas as corjas. Velhotas carcomidas arrastavam carroças rangentes repletas de bagulheiras misteriosas, mesclando-se entre o populacho anunciavam supostos ingredientes poderosos vindos das terras distantes. Escamas petrificadas de Dragonilhos cornudos das planícies desérticas, sabugos ressecados das florestas faéricas, pisadelas de enxofre dos homúnculos ferozes do sul e outras tantas tranqueiras eram apregoadas em gritos estridentes e roucos. Os velhos magos ressabiados aproximavam-se raramente e apossavam-se de algum artigo soterrado ao fundo das tranqueiras de alguma vendedora, não sem antes remexer seus melindrosos bigodes em caretas e insultos, pechinchando as mercadorias com palavrarias tão antipáticas quanto inabilidosas. Os jovens aprendizes esbofeteavam-se em algumas filas, desesperados por colocar suas mãos em alguma bugiganga com cheiro de exoticidade. Ávidos, levantavam seus narizes sobre as cabeças uns dos outros e, com os olhos brilhosos, tentavam farejar através do ar semiprovinciano e rançoso de suor e pós mágicos de toda sorte, algo que pudesse lhes trazer a sorte grande.
Para além das fronteiras difusas dos conluios mágicos o burburinho persistia em outras formas. Viajantes de todas as partes se esbarravam nas estreitas ruelas, entre preocupados e curiosos, reviravam o lugar com os olhos e com o que mais pudessem. Procuravam por tudo. As tramarizes mulheres do bairro de baixo seducilhavam aqui e ali, espalhando por entre os recém-chegados os rabelhos flutuantes de suas belas roupas dançantes, deixando rastros lilases, azulados, rosáceos, remisturando-se. Os cheiros de almíscar, jade, canela e toda a sorte de frutilhas afrodisíacas ouriçava os pêlos dos passantes, encobrindo por completo o cheiro acre nauseabundo de suor, sangue pisado e estrume dos animais fedorrentos que eram puxados por seus donos ou arrastavam carruagens indiferentes ao buchicho das ruas. Suas risadas melodiosas e olhares ferinos, dissimulados, perfurantes, rebolavam demoradamente no ar. Rasgavam conversas broncas ao meio, cortavam pensamentos compenetrados. Passavam em passos graciosos, pretensamente indiferentes e desinteressados daquela vulgaridade que gorgolejava em altos brados por toda a cidade. Em segundos desapareciam, mas ainda assim estavam sempre por toda parte.
Velhos conhecidos se reencontravam em estrondosas gargalhadas e abraços sacolejantes. Estranhas reverências se encenavam aqui e ali, e nas tavernas os copos se chocavam ruidosamente em brindes pronunciados nas mais diversas línguas. Os bandos de andarilhos, saltimbancos e ciganos mais uma vez retornavam à cidade em uma inexplicável sincronia. Perambulando por ali ofereciam adivinhações e serviços, bajulavam ricos comerciantes e empoladas senhoras, tocavam intrumentos e entoavam suas cantigas recolhendo moedas com chapéus coloridos e bufantes. Arremessavam objetos ao ar em malabarismos improváveis e cuspiam labaredas coloridas. Furtavam objetos entre a multidão apressada e arrecadavam riquezas com sua ardilosa lábia enganatriz. Sobreviviam alegremente, e a partida os recolheria dali antes que suas confusas vítimas pudessem esboçar pretensões de entender o que havia se passado.
Na praça do mercado o estrondoso amontoar de gentes alcançava seu vertiginoso ápice. Lá, tinha-se a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento.

De: http://postsecret.blogspot.com/
Era um dia de agitações na protocidadela. Nos últimos meses o comichão de suas fronteiras havia devorado léguas de mata virgem e pasto inerte. No bairro velho fervilhavam conspirações, sibilavam ameaças entre as línguas ásperas dos velhos druidas enrugados. Os aprendizes ensimesmavam-se em treinações e ambições que recriavam suas mentes em plena expansão e derreformação. Os bruxistas não deixavam por menos, recalcando pirotecnias e transcriando as velhas cavernas enfumaçadas e escuro-piscantes. O cheio se espalhava longe nas ruelas se impregnadas de molecarias maltrapilhas emprumando-se em desejosos sonhos de integrar ambas as corjas. Velhotas carcomidas arrastavam carroças rangentes repletas de bagulheiras misteriosas, mesclando-se entre o populacho anunciavam supostos ingredientes poderosos vindos das terras distantes. Escamas petrificadas de Dragonilhos cornudos das planícies desérticas, sabugos ressecados das florestas faéricas, pisadelas de enxofre dos homúnculos ferozes do sul e outras tantas tranqueiras eram apregoadas em gritos estridentes e roucos. Os velhos magos ressabiados aproximavam-se raramente e apossavam-se de algum artigo soterrado ao fundo das tranqueiras de alguma vendedora, não sem antes remexer seus melindrosos bigodes em caretas e insultos, pechinchando as mercadorias com palavrarias tão antipáticas quanto inabilidosas. Os jovens aprendizes esbofeteavam-se em algumas filas, desesperados por colocar suas mãos em alguma bugiganga com cheiro de exoticidade. Ávidos, levantavam seus narizes sobre as cabeças uns dos outros e, com os olhos brilhosos, tentavam farejar através do ar semiprovinciano e rançoso de suor e pós mágicos de toda sorte, algo que pudesse lhes trazer a sorte grande.
Para além das fronteiras difusas dos conluios mágicos o burburinho persistia em outras formas. Viajantes de todas as partes se esbarravam nas estreitas ruelas, entre preocupados e curiosos, reviravam o lugar com os olhos e com o que mais pudessem. Procuravam por tudo. As tramarizes mulheres do bairro de baixo seducilhavam aqui e ali, espalhando por entre os recém-chegados os rabelhos flutuantes de suas belas roupas dançantes, deixando rastros lilases, azulados, rosáceos, remisturando-se. Os cheiros de almíscar, jade, canela e toda a sorte de frutilhas afrodisíacas ouriçava os pêlos dos passantes, encobrindo por completo o cheiro acre nauseabundo de suor, sangue pisado e estrume dos animais fedorrentos que eram puxados por seus donos ou arrastavam carruagens indiferentes ao buchicho das ruas. Suas risadas melodiosas e olhares ferinos, dissimulados, perfurantes, rebolavam demoradamente no ar. Rasgavam conversas broncas ao meio, cortavam pensamentos compenetrados. Passavam em passos graciosos, pretensamente indiferentes e desinteressados daquela vulgaridade que gorgolejava em altos brados por toda a cidade. Em segundos desapareciam, mas ainda assim estavam sempre por toda parte.
Velhos conhecidos se reencontravam em estrondosas gargalhadas e abraços sacolejantes. Estranhas reverências se encenavam aqui e ali, e nas tavernas os copos se chocavam ruidosamente em brindes pronunciados nas mais diversas línguas. Os bandos de andarilhos, saltimbancos e ciganos mais uma vez retornavam à cidade em uma inexplicável sincronia. Perambulando por ali ofereciam adivinhações e serviços, bajulavam ricos comerciantes e empoladas senhoras, tocavam intrumentos e entoavam suas cantigas recolhendo moedas com chapéus coloridos e bufantes. Arremessavam objetos ao ar em malabarismos improváveis e cuspiam labaredas coloridas. Furtavam objetos entre a multidão apressada e arrecadavam riquezas com sua ardilosa lábia enganatriz. Sobreviviam alegremente, e a partida os recolheria dali antes que suas confusas vítimas pudessem esboçar pretensões de entender o que havia se passado.
Na praça do mercado o estrondoso amontoar de gentes alcançava seu vertiginoso ápice. Lá, tinha-se a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento.

De: http://postsecret.blogspot.com/
quarta-feira, novembro 07, 2007
sábado, outubro 13, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
domingo, setembro 30, 2007
Pigarro, tosse. Mais tosse. Olhos em volta cutucam, não conseguindo manter a barreira da indiferença. O pus sobe e desce na garganta, dolorido como se fossem cacos de vidro. A mão, velha e enrrugada, envolta na luva esfarrapada, se esforça para permanecer colada na barra de metal a cada solavanco. A cada contorção doente do seu corpo, cresce a barreira de nojo e pena dentro do vagão lotado. Os olhos semicerrados tentam se voltar para baixo, para fora. Para algum lugar longe daquilo tudo. As dores, no entanto, impedem-no de alimentar imagens muito complicadas na sua cabeça. As tardes bestas e tranquilas que ele tenta resgatar das décadas passadas se dissolvem com as chiadas contrações de seu pulmão, desesperado por um ar que parece nunca vir.
Quando abre os olhos novamente, percebe que estão a sentá-lo nos bancos cinzas. Murmuram-lhe alguma palavras vagas. Há um vácuo ao seu redor. Ele solta o corpo no banco e aguarda a morte.
Quando abre os olhos novamente, percebe que estão a sentá-lo nos bancos cinzas. Murmuram-lhe alguma palavras vagas. Há um vácuo ao seu redor. Ele solta o corpo no banco e aguarda a morte.
sexta-feira, setembro 28, 2007
quinta-feira, setembro 20, 2007
terça-feira, setembro 18, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Qualquer pessoa inteligente que vá a uma assembléia como a que eu fui ontem consegue compreender um pouco sobre a ascensão das burocracias "legitimadas" pelos grandes ascensos dos movimentos de massa.
Às vezes eu queria poder praticar uma certa violência física contra certa "companheirada".
Haja força de vontade pra não ir pra casa dormir...
Às vezes eu queria poder praticar uma certa violência física contra certa "companheirada".
Haja força de vontade pra não ir pra casa dormir...
terça-feira, agosto 28, 2007
terça-feira, agosto 21, 2007
Por fim, era isto.
Banalidade é deixar a vida montar em você.
E acho que eles não perceberam isso.
É quando você ouve uma voz te chamar. De seus olhos podem sair lágrimas, mas a sua garganta rouca está estupefata demais pra gritar de volta. Ela fica pasma...
Pra onde vai um rosto por baixo de tantas máscaras?
Banalidade é deixar a vida montar em você.
E acho que eles não perceberam isso.
É quando você ouve uma voz te chamar. De seus olhos podem sair lágrimas, mas a sua garganta rouca está estupefata demais pra gritar de volta. Ela fica pasma...
Pra onde vai um rosto por baixo de tantas máscaras?
terça-feira, julho 31, 2007
Sobre o post abaixo
Eu pouco sei sobre a AATW que, numa livre tradução significaria Anarquistas Contra o Muro. Eu sei que em 2005 eu fui num evento não muito interessante chamado Carnaval Revolução, organizado por um coletivo anarquista de BH. Neste evento, apesar de não muito legal, vi coisas legais. Uma oficina do CMI sobre filmagem de ações diretas, como ocupações e manifestações em geral. Evidentemente não aprendi a filmar, mas pude assistir uns vídeos legais sobre ocupações no centro de São Paulo e tive a oportunidade de conhecer o Brad Will, um ativista muito firmeza do CMI que morreu lutando com o povo de Oaxaca (mas nem sei porque eu conto tudo isso se todo mundo que entra aqui já deve saber destas coisas).
Enfim, no tal carnaval eu vi uma atividade da AATW. Eles mostravam uns vídeos de umas dez, quinze pessoas completamente despudoradas enfrentando o exército israelense com a cara e a coragem. Sim, o famigerado exército israelense. Eles apanham dia a dia, literalmente, para atrapalhar a construção de um dos maiores ícones fascistas de nosso tempo: o muro que quer isolar os palestinos. Eles tomam balas de borracha, gás, porradas e até balas de verdade ocasionalmente. Eles são atingidos por gás em uma quantidade que pode causar sérios problemas de saúde, como câncer. Eles juntam, em pleno coração de uma guerra civil sangrenta e interminável, israelenses e palestinos contra o massacre que ocorre lá.
É mais ou menos isso que sei sobre eles. Não é muita coisa. Eu dei uma olhada no site, parece que tem mais coisa. Vou ver melhor. Não sei qual é a prática deles e o que mais eles procuram fazer fora lutar contra o muro. Mas sei que o que eles fazem é tão bonito e corajoso que eu sinto arrepios só de pensar. E quase ninguém sabe deles, e eles estão precisando de ajuda.
Penso em montar um comitê de solidariedade, tentar estabelecer contato com eles e fazer atividades de divulgação e arrecadação de dinheiro para enviar para eles. Alguém mais topa?
Eu pouco sei sobre a AATW que, numa livre tradução significaria Anarquistas Contra o Muro. Eu sei que em 2005 eu fui num evento não muito interessante chamado Carnaval Revolução, organizado por um coletivo anarquista de BH. Neste evento, apesar de não muito legal, vi coisas legais. Uma oficina do CMI sobre filmagem de ações diretas, como ocupações e manifestações em geral. Evidentemente não aprendi a filmar, mas pude assistir uns vídeos legais sobre ocupações no centro de São Paulo e tive a oportunidade de conhecer o Brad Will, um ativista muito firmeza do CMI que morreu lutando com o povo de Oaxaca (mas nem sei porque eu conto tudo isso se todo mundo que entra aqui já deve saber destas coisas).
Enfim, no tal carnaval eu vi uma atividade da AATW. Eles mostravam uns vídeos de umas dez, quinze pessoas completamente despudoradas enfrentando o exército israelense com a cara e a coragem. Sim, o famigerado exército israelense. Eles apanham dia a dia, literalmente, para atrapalhar a construção de um dos maiores ícones fascistas de nosso tempo: o muro que quer isolar os palestinos. Eles tomam balas de borracha, gás, porradas e até balas de verdade ocasionalmente. Eles são atingidos por gás em uma quantidade que pode causar sérios problemas de saúde, como câncer. Eles juntam, em pleno coração de uma guerra civil sangrenta e interminável, israelenses e palestinos contra o massacre que ocorre lá.
É mais ou menos isso que sei sobre eles. Não é muita coisa. Eu dei uma olhada no site, parece que tem mais coisa. Vou ver melhor. Não sei qual é a prática deles e o que mais eles procuram fazer fora lutar contra o muro. Mas sei que o que eles fazem é tão bonito e corajoso que eu sinto arrepios só de pensar. E quase ninguém sabe deles, e eles estão precisando de ajuda.
Penso em montar um comitê de solidariedade, tentar estabelecer contato com eles e fazer atividades de divulgação e arrecadação de dinheiro para enviar para eles. Alguém mais topa?
Call for support by Anarchists Against The Wall
URGENT CALL FOR DONATIONS
----------------------------------------
*** PLEASE DISSEMINATE WIDELY ***
Dear friend,
The mounting legal cost of the joint Palestinian-Israeli struggle
against the occupation is forcing us to send this urgent appeal for
funds. We are asking for your support to continue the work of the
Israeli group Anarchists Against the Wall (AATW).
For the past four years, the group has supported the Palestinian
struggle against Israeli occupation and specifically against Israel`s
segregation wall. Week after week, AATW joins the Palestinian popular
resistance against the wall, in diverse areas of the West Bank,
including the villages of Bil`in west of Ramallah, al-Ma`asara, and
Ertas, south of Bethlehem, and Beit Ummar, north of Hebron.
Activists have often been arrested and indicted for their participation
in the struggle. Fortunately, the group is represented by a dedicated
lawyer, Adv. Gaby Lasky. Adv. Lasky has tirelessly worked to defend
activists arrested at demonstrations or direct actions in the West Bank
and in Israel. Though the legal defense she provides AATW is almost a
full-time job, she has agreed to be paid only a token fee. However, the
group has not managed to cover even this sum, and now owes approximately
$40,000 in legal expenses for over 60 indictments. In addition to this
enormous legal debt, AATW activists are forced to spend large sums on
transportation and phone bills.
Please make a donation that will enable us to continue this struggle.
Thank you for your solidarity.
Anarchists Against the Wall
For more information about AATW, our actions and how to make a donation,
visit our website: www.awalls.org or contact us at donate (at) awalls.org.
Email:: donate@awalls.org
URL:: http://awalls.org
URGENT CALL FOR DONATIONS
----------------------------------------
*** PLEASE DISSEMINATE WIDELY ***
Dear friend,
The mounting legal cost of the joint Palestinian-Israeli struggle
against the occupation is forcing us to send this urgent appeal for
funds. We are asking for your support to continue the work of the
Israeli group Anarchists Against the Wall (AATW).
For the past four years, the group has supported the Palestinian
struggle against Israeli occupation and specifically against Israel`s
segregation wall. Week after week, AATW joins the Palestinian popular
resistance against the wall, in diverse areas of the West Bank,
including the villages of Bil`in west of Ramallah, al-Ma`asara, and
Ertas, south of Bethlehem, and Beit Ummar, north of Hebron.
Activists have often been arrested and indicted for their participation
in the struggle. Fortunately, the group is represented by a dedicated
lawyer, Adv. Gaby Lasky. Adv. Lasky has tirelessly worked to defend
activists arrested at demonstrations or direct actions in the West Bank
and in Israel. Though the legal defense she provides AATW is almost a
full-time job, she has agreed to be paid only a token fee. However, the
group has not managed to cover even this sum, and now owes approximately
$40,000 in legal expenses for over 60 indictments. In addition to this
enormous legal debt, AATW activists are forced to spend large sums on
transportation and phone bills.
Please make a donation that will enable us to continue this struggle.
Thank you for your solidarity.
Anarchists Against the Wall
For more information about AATW, our actions and how to make a donation,
visit our website: www.awalls.org or contact us at donate (at) awalls.org.
Email:: donate@awalls.org
URL:: http://awalls.org
vírus do autismo solitário.
Engraçado receber milhares de scraps de pessoas que eu gosto e com quem não falo há muitíssimo tempo. Especialmente quando o tema é um vírus idiota de orkut.
Isto me fez sentir meio solitário.
Também fiquei meio surpreso quando li o tal scrap e vi o que um monte de gente achava que era eu. Não sei se sou meio malucão, mas creio que, ainda que não fosse óbvio que qualquer link que te mandem provavelmente é um vírus, eu certamente conheço razoavelmente o jeito de escrever dos meus amigos. Pelo menos dos mais próximos. E aquilo não parece comigo escrevendo nem um pouco.
Agora eu também não sei como aviso pra todo mundo que mandei um vírus porque nunca mandei estas malditas mensagens em massa. Se alguém tiver uma sugestão me avise.
Engraçado receber milhares de scraps de pessoas que eu gosto e com quem não falo há muitíssimo tempo. Especialmente quando o tema é um vírus idiota de orkut.
Isto me fez sentir meio solitário.
Também fiquei meio surpreso quando li o tal scrap e vi o que um monte de gente achava que era eu. Não sei se sou meio malucão, mas creio que, ainda que não fosse óbvio que qualquer link que te mandem provavelmente é um vírus, eu certamente conheço razoavelmente o jeito de escrever dos meus amigos. Pelo menos dos mais próximos. E aquilo não parece comigo escrevendo nem um pouco.
Agora eu também não sei como aviso pra todo mundo que mandei um vírus porque nunca mandei estas malditas mensagens em massa. Se alguém tiver uma sugestão me avise.
domingo, julho 29, 2007
domingo, julho 22, 2007
O ar gelado atravessou sua garganta rasgando. Ela engasgou-se consigo própria e, na surpresa de se descobrir falível, tropeçou em seus próprios pés, esborrachando-se no chão e rolando. Sem tentar impedir a si mesma, sentiu seu corpo arrastar-se pelo asfalto com o impulso que havia ganhado nas largas e desesperadas passadas que havia impulsionado. Sentiu as dores arrastando-se pela noite, embriagando-se de confusão e mágoa, rolando pela terra úmida que emoldurava a estrada.
Uma vez terminado o impulso, deixou o peso de si mesma jazer sobre o chão, que se reentrava na sua consciência aos poucos. Pesava sobre o mundo, sentindo a respiração resfolegar-se para dentro e para fora, com o barulho ensurdecedor de quem não quer ver nem lembrar nada. Corria, ainda. Se não com as pernas, com tudo que lhe sobrava fora isso. As dores, enfim, começaram a despontar em seus ferimentos. Sentiu as gotas principiantes se arriscando sobre seu corpo, ouviu-as espatifando-se perto de seus ouvidos. Olhava para cima, vendo as estrelas que já nem se lembrava de existirem. Suas dores, começou a sentir-pensar, vinham todas daqueles pontos brancos flutuantes na negridão do universo. Eles entravam na sua carne como facas quentes, penetrantes. Era o alívio de quem não precisa repousar a consciência em uma dura cama de angustias. Era a liberdade de quem entrega seu corpo à caçada de si mesmo, correndo por caminhos de desencontrar-se a si mesma.
Sentiu a dor das estrelas em sua carne transformar-se em novo impulso, levantou-se de um pulo e reiniciou a corrida, desta vez abandonando por completo a estrada asfaltada. Seguia através dos obstáculos da relva, como um animal acossado pelos faróis violentos de um carro. Ignorava a beleza de seu sangue vermelho tingindo as plantas ignorantes e humilhadas da beira da estrada. Queria gritar, mas não sabia como. Os gritos, sabia sem saber, já haviam sido por demais gastos. Seu fôlego agora pertencia a outras coisas, pertencia aos passos que se desenhavam instintivamente. E ela precisava criar um caminho que não era seu, que estava além de suas pernas, além de seus pulmões. Precisava saber que a vida precisa do irracional, dos animais enraivecidos que correm sem olhar para trás, sem saber o que há em sua frente. Ela precisava livrar-se de si mesma como se nunca tivesse surgido alguma daquelas oportunidades cinzas das noites da cidade. Aquelas em que olhava para si mesma e pensava, ainda com as marcas de ter crescido e se educado, em como tudo aquilo já havia consumido por demais tudo o que poderia ser. As oportunidades haviam tornado-se desesperanças, haviam assumido as cores envelhecidas das estátuas, estanques em um passado intransponível, imutável. Ela pensava, nestas noites, que só poderia ser tudo aquilo que já havia feito.
E era por isso que agora corria com a força de quem quer ser outra. Com a força de quem, por tanto pensar, já sabe que o caminho do novo passa pela violência, pela agressão desmesurada a si mesmo e àquilo que se ama. Queria odiar tudo aquilo que a havia feito ser o que era. Queria livrar-se de todas as cargas semânticas usadas, apodrecidas. Queria reinventar sua língua, esmagar a massa encefálica mofada com um martelo pesado de bater carne.
Ela era autofagia e fuga. Reconstrução e morte. Tinha medo e, conseqüentemente, esperança. Jogava as palavras de seus pensamentos contra a grade de sua consciência. Quebrava!
Uma vez terminado o impulso, deixou o peso de si mesma jazer sobre o chão, que se reentrava na sua consciência aos poucos. Pesava sobre o mundo, sentindo a respiração resfolegar-se para dentro e para fora, com o barulho ensurdecedor de quem não quer ver nem lembrar nada. Corria, ainda. Se não com as pernas, com tudo que lhe sobrava fora isso. As dores, enfim, começaram a despontar em seus ferimentos. Sentiu as gotas principiantes se arriscando sobre seu corpo, ouviu-as espatifando-se perto de seus ouvidos. Olhava para cima, vendo as estrelas que já nem se lembrava de existirem. Suas dores, começou a sentir-pensar, vinham todas daqueles pontos brancos flutuantes na negridão do universo. Eles entravam na sua carne como facas quentes, penetrantes. Era o alívio de quem não precisa repousar a consciência em uma dura cama de angustias. Era a liberdade de quem entrega seu corpo à caçada de si mesmo, correndo por caminhos de desencontrar-se a si mesma.
Sentiu a dor das estrelas em sua carne transformar-se em novo impulso, levantou-se de um pulo e reiniciou a corrida, desta vez abandonando por completo a estrada asfaltada. Seguia através dos obstáculos da relva, como um animal acossado pelos faróis violentos de um carro. Ignorava a beleza de seu sangue vermelho tingindo as plantas ignorantes e humilhadas da beira da estrada. Queria gritar, mas não sabia como. Os gritos, sabia sem saber, já haviam sido por demais gastos. Seu fôlego agora pertencia a outras coisas, pertencia aos passos que se desenhavam instintivamente. E ela precisava criar um caminho que não era seu, que estava além de suas pernas, além de seus pulmões. Precisava saber que a vida precisa do irracional, dos animais enraivecidos que correm sem olhar para trás, sem saber o que há em sua frente. Ela precisava livrar-se de si mesma como se nunca tivesse surgido alguma daquelas oportunidades cinzas das noites da cidade. Aquelas em que olhava para si mesma e pensava, ainda com as marcas de ter crescido e se educado, em como tudo aquilo já havia consumido por demais tudo o que poderia ser. As oportunidades haviam tornado-se desesperanças, haviam assumido as cores envelhecidas das estátuas, estanques em um passado intransponível, imutável. Ela pensava, nestas noites, que só poderia ser tudo aquilo que já havia feito.
E era por isso que agora corria com a força de quem quer ser outra. Com a força de quem, por tanto pensar, já sabe que o caminho do novo passa pela violência, pela agressão desmesurada a si mesmo e àquilo que se ama. Queria odiar tudo aquilo que a havia feito ser o que era. Queria livrar-se de todas as cargas semânticas usadas, apodrecidas. Queria reinventar sua língua, esmagar a massa encefálica mofada com um martelo pesado de bater carne.
Ela era autofagia e fuga. Reconstrução e morte. Tinha medo e, conseqüentemente, esperança. Jogava as palavras de seus pensamentos contra a grade de sua consciência. Quebrava!
sexta-feira, julho 20, 2007
quarta-feira, junho 20, 2007
segunda-feira, junho 18, 2007
É, é triste, mas às vezes é difícil manter o ânimo depois de golpes assim.
Não existe nenhuma direita tão eficiente quanto as burocracias parasitas e oportunistas que se alimentam da esquerda. A Adusp (apoiando-se no setor mais nojento de professores corporativistas e pequeno-burgueses) deu uma rasteira na greve da qual dificilmente conseguiremos nos levantar. A ala mais reformista e burocrata do ME, por sua vez, cresce em cima do sentimento de medo e instaura as mesmas políticas que sempre defendeu.
Os momentos com mais potencial de mudança em geral também são os que mais têm potencial de fazer com que tudo seja o mesmo por muito mais tempo. E fica a dúvida, a ser respondida em pouco tempo: 2007 será 2002 mais uma vez?
Não existe nenhuma direita tão eficiente quanto as burocracias parasitas e oportunistas que se alimentam da esquerda. A Adusp (apoiando-se no setor mais nojento de professores corporativistas e pequeno-burgueses) deu uma rasteira na greve da qual dificilmente conseguiremos nos levantar. A ala mais reformista e burocrata do ME, por sua vez, cresce em cima do sentimento de medo e instaura as mesmas políticas que sempre defendeu.
Os momentos com mais potencial de mudança em geral também são os que mais têm potencial de fazer com que tudo seja o mesmo por muito mais tempo. E fica a dúvida, a ser respondida em pouco tempo: 2007 será 2002 mais uma vez?
segunda-feira, junho 11, 2007
sexta-feira, junho 08, 2007
segunda-feira, junho 04, 2007
Assinar:
Postagens (Atom)


