quinta-feira, fevereiro 11, 2010

30 anos de atraso para a classe trabalhadora


Ontem o PT fez 30 anos.
No fim de semana passado eu assisti, na casa de uma amiga, o programa eleitoral do PT em 1989. Confesso que fiquei um pouco surpreso. Quer dizer, que a degeneração eleitoralista era um mal de nascença e a transição do PT em mantenedor da ordem burguesa está consolidada há anos todo mundo sabe. Mas ver um pouco daquela retórica Lulista das raízes me surpreendeu um pouco. Não há mais propaganda eleitoral que se assemelhe àquela no Brasil, nem DE LONGE. O programa cuspia na cara do empresariado, da oligarquia política e latifundiária, escancarava podres. O sujeito falava em como era candidato porque a classe trabalhadora decidiu atuar politicamente. Compare-se ao programinha ridículo de "ética na política" do P-SOL, que nem se preocupa em esconder o quão pequeno-burguês é: http://bit.ly/cT0AJA
O lance era outro. Víamos os peões saindo da fábrica e doando, com gosto, uma parte do seu salário para a campanha. Víamos os comícios, verdadeiramente de massas, com Lula vociferando em uma retórica classista. Eu estava lá, quando tinha cinco anos, e fiz boca de urna. Havia atores e artistas se angajando ativamente na campanha. Quem caralhos consegue imaginar uma coisa assim hoje?
Dá pra ver, mesmo naquele programa, que o PT era realmente o produto de um ascenso operário. E dá pra ver, na prática, como sem um programa recolucionário um partido não tem nenhuma esperança de se degenerar. Havia um quadro no programa do PT que relacionava os políticos escrotos uns aos outros, do tipo "este anda com este que anda com este...", ligando Collor, Maluf, Sarney e diversos nomes da ditadura. Hoje, Lula caberia neste mesmo quadro como uma luva.
A direção política do PT representa não apenas um desvio de um poderoso ascenso operário nos anos 70, como constituiu no Brasil o maior aparato anti-revolucionário de sua história, tendo hoje 80% da população refém de sua política assistencialista, os movimentos de massa e as centrais sindicais na mão. Mesmo a esquerda revolucionária, como o próprio PSTU, passou anos e ainda hoje segue esta linha, de ficar refém desta política. É o maior obstáculo que os revolucionários tem hoje no Brasil pela frente, superar o petismo para conseguir forjar uma nova tradição no movimento operário e de massas no país.
A dimensão do que é a traição do PT é melhor expressa pelas palavras de Paulo Skaf, presidente da FIESP, quando completam-se os 30 anos de PT: " 'Tenho certeza de que o medo do PT não existe mais', afirma o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, que apoiou Lula em 2002. De acordo com ele, o relacionamento do empresariado com Lula e também com o PT é 'excelente', 'de carinho'."
Para entender um pouquinho melhor esta história, eu recomendo entusiasticamente a leitura desta publicação da Iskra: http://bit.ly/a8XoB1

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Chafurdando a merda (trote na USP)



Eis que a matrícula da FFLCH este ano reservava uma surpresa. Fomos com panfletos sobre a situação na USP, o acesso à universidade, e outras questões que achamos importantes para falar aos calouros. Veja o panfleto aqui:


Mas neste ano o trote ressurgiu das cinzas na FFLCH. Meninas sendo obrigadas a dançar funk em cima de cadeiras, pessoas sendo pintadas e jogadas numa piscina de bolinhas de isopor contra sua vontade, humilhações de diversos tipos. Os veteranos escreviam "UNIP", "Uniban" e coisas assim nas camisetas. O pior, é que os CAs da Sociais e Letras participavam ativamente e organizavam isto.
As pessoas dizem que isso é normal, é uma brincadeira. Que os calouros participam porque querem. Até na Folha de S. Paulo de ontem se dizia o óbvio: um calouro entrevistado falava que era humilhante mesmo, mas que ele suportava pois sabia que no outro ano seria ele a humilhar os outros.
O trote revela pra mim a nu o que em geral a universidade tenta esconder sob seu verniz de hipocrisia. O machismo, elitismo, a meritocracia e o reacionarismo da USP e de seus estudantes. Ainda que estivéssemos relativamente sozinhos em nossa empreitada, os militantes do Movimento A Plenos Pulmões e do Pão e Rosas escreveram este panfleto:

fizemos um cartaz junto a independentes que dizia: "Pixar 'Unip' é comemorar a exclusão e celebrar a meritocracia".
Foi bastante curioso ver militantes do MES/P-SOL sentados na sua mesinha do suposto movimento social de cursinhos populares "Emancipa" enquanto outros da mesma corrente escreviam "Unip" na camiseta dos calouros, cortavam seus cabelos, obrigavam-nos a seguir em fila para o pedágio chamando-os de "bixos".
A prática é o critério da verdade...
Na medicina aumentei muito o desprezo que já tinha em relação à escrota prática do trote. Este ano, confesso que fiquei muito satisfeito em ter, pela primeira vez, camaradas ao meu lado que compartilhavam da minha opinião e consideravam importante fazer alguma coisa para lutar ativamente contra isto. Ano que vem, certamente nossa luta continuará. Enquanto isto, também fico feliz em saber que em outros lugares, como no IFCH da Unicamp e na Unesp, outros camaradas estão em um posição melhor para lutar por isso, conseguindo abolir os trotes e fazer um ato-pedágio para mandar dinheiro às organizações populares e operárias do povo haitiano.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Uma bela cerimônia!

Segunda-feira, feriadão.
Lá vamos nós pra porta da Sala São Paulo. Lá dentro uma pomposa cerimônia: Kassab e outros distintos membros da honrada elite paulistana condecoram o novo autocrata da USP, João Grandino Rodas. Teve até um culto ecumênico! Juro! O cara foi literalmente abençoado por líderes religiosos para sua louvável tarefa de dirigir o centro nervoso da intelectualidade paulistana, a universidade mais elitista, racista, conservadora do Brasil.
E do lado de fora, mais de cem manifestantes tomavam chuva, com faixas, cartazes, palavras de ordem. Contra Rodas e contra Kassab e suas enchentes e aumentos de passagem. Numa das faixas do Movimento A Plenos Pulmões dizíamos: Rodas, ontem com a ditadura militar, hoje com a ditadura universitária.
Exagero?
Vejamos: Rodas participou de julgamentos responsáveis por aferir a responsabilidade do Estado brasileiro em casos de morte e tortura no período da ditadura. Trabalhou arduamente para jogar para baixo do tapete alguns dos mais brutais crimes políticos ocorridos na história recente do país. Votou, para ficar em um exemplo só, pela isenção de responsabilidade do Estado no julgamento do assassinato da estilista Zuzu Angel, cujo assassinato pelos milicos já foi retratado até em filme-novelão.
Quando presidente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), foi responsãvel por permitir a criação da AmBev, criando um monstruoso monopólio no Brasil.
Listar todos seus podres é uma tarefa de titãs, que eu não tenho condições de cumprir agora. Mas acho que ainda vale contar um pouco do que já fez na USP, como diretor da Faculdade de Direito, mais conhecida como SanFran. Foi ele o responsável, em 2007, por meter a tropa de choque dentro da faculdade, para prender e reprimir um protesto de diversos movimentos sociais que consistia em uma "ocupação simbólica" de 24 horas do Largo São Francisco. Tinha criança, velhinho, estudante, sem terra. Meteu a PM lá dentro e disse à imprensa que era para garantir a "segurança do patrimônio" da universidade. Em 2008, propôs e obteve aprovação, no Conselho Universitário (o CU, denominado pela USP de CO, sua instância máxima de deliberação) uma resolução que recomendava o uso de força policial para reprimir manifestações dos trabalhadores e estudantes quando "necessário".
Assumiu a reitoria sem obter aprovação nem mesmo no CO, tendo sido indicado pelo abutre-mor Serra para ocupar o posto. Vem com um discurso pra lá de demagógico e hipócrita de diálogo, de acabar com a intransigência. Não resiste à menor prova dos fatos.
Foi já nesta segunda-feira que tomamos porrada na cabeça, sem que nem pra quê. A gente já vê quando Rodas acha necessário reprimir manifestações com uso da polícia: sempre. Se cem pessoas cantando na chuva e protestando já motivo pra meter bronca, imagina o que vai ser este ano na USP. Foram diversos feridos, um deles saiu com a cabeça banhada em sangue direto pro hospital. Três presos. Bombas, cacetetes, escudos, capacetes. Contra manifestantes desarmados.

Boa sorte para nós. Vai ser preciso pra enfrentar o novo magnífico Reitor e sua vasta tradição de "diálogo" na base do cacete.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Afogando o povo


Mais nove vítimas na região metropolitana de São Paulo:
No grajaú, um casal e sua filha de dez anos soterrados; na pompéia, um velho de 75 anos no desabamento de sua casa; em Mauá e Santo André, mais dois deslizamentos; em Ribeirão Pires, duas crianças e sua mãe soterrados.
Ontem a polícia reprimiu duas manifestações, no Jd. Lucélia e em Rio Bonito, da população revoltada com a situação em que se encontram. No Jd. Lucélia, no ano passado, uma parcela da população foi expulsa pela prefeitura para as obras de canalização de um córrego. Jogadas para fora de suas casas com uma "indenização" de cinco mil. Eu adoraria ver o filho da puta do Kassab se virar pra arranjar um lugar pra morar com cinco mil.
Quem ficou ali viu as consequências da obra que a prefeitura iniciou: nas recentes chuvas, casas que nunca sofreram problemas foram completamente inundadas. Chamados, os bombeiros nunca vieram. A ajuda que a prefeitura prometeu depois de um protesto nunca chegou.
Em Dezembro assistimos a população pobre da Zona Leste, em especial do Jardim Pantanal, sofrer as consequências de uma inundação sem precedentes. As "autoridades competentes" nos empurram a mesma cantilena de sempre: estão fazendo "de tudo" para impedir novas enchentes e "ajudar" a população atingida. Afinal, quem pode controlar as chuvas? Sem dúvida não é o prefeito, então culpem São Pedro, culpem o acaso, culpem qualquer um, menos quem controla a cidade: é uma fatalidade incontrolável.
Então, vejamos: fora o evidente fato de que só sofrem os deslizamentos e desabamentos aqueles que são obrigados a morar em condições precárias e em áreas de risco por conta da situação econômica a que, não por acaso, estão submetidos, vejamos o que os isentos governantes fizeram. No dia 8 de Dezembro todas as comportas da barragem da Penha foram fechadas, contribuindo decisivamente para o alagamento na Zona Leste. Por que elas foram fechadas? Para impedir o alagamento das marginais. Ora, o que são alguns pobres a mais morrendo lá no Jardim Pantanal?
Uma fatalidade, sem dúvida, incontrolável...

Saca só um gostinho da PM batendo na galera:
http://bit.ly/8QRUJY

Blog da campanha de solidariedade ao povo do Haiti

http://solidariedadeaohaiti.blogspot.com/?zx=bbe4a64881993a6d

http://www.youtube.com/watch?v=dS1Scrf8lHs

terça-feira, janeiro 19, 2010

Haiti: a heróica luta de um povo oprimido



Há muito blá, blá, blá por aí sobre o Haiti. É só ligar qualquer canal de TV, sintonizar qualquer estação de rádio para ver a farsa montada: o melodrama sensacionalista que a mídia burguesa faz sobre a tragédia de um povo. Concomitantemente, se abafa de maneira escandalosa as causas deste sofrimento pelo qual os haitianos passam hoje, montando um cenário imaginário em que se trata apenas de uma "catástrofe natural". Mas a coisa é tão gritante que mesmo nas arestas dos grandes monopólios da comunicação vemos algumas vozes que resgatam a exploração secular que se abate sobre os haitianos, como é o caso do texto de um professor e um estudante da Unicamp (militante do PSTU) que saiu na Folha.
Durante a greve da USP no ano passado tive a oportunidade de participar de uma atividade organizada pela Conlutas e pelo Comando de Greve dos trabalhadores e ouvir o relato de Didier Dominique, um militante de esquerda da Central Sindical e Popular Batay Ouvrier. Mesmo tendo sempre me posicionado ativamente contra a brutal ocupação das tropas da ONU no Haiti, foi só neste momento que tive a real dimensão do que se passa lá.

Didier falou sobre as revoltas que ocorreram no início de 2009 pelo aumento do salário mínimo (que tem o valor de US$1,70 por dia!). Falou sobre o tipo de perseguição política que sofrem os militantes de esquerda, sobre as repressões ao movimento que chegaram ao ponto das "tropas de paz" invadirem um hospital jogando bombas de gás lacrimogêneo em seu interior, assassinando um idoso e uma criança recém-nascida. Falou sobre a situação de miséria do Haiti, onde há 70% de desemprego e 90% de analfabetismo.
Hoje também vemos nas notícias sobre o terremoto as opiniões sobre a dificuldade de ajuda aos haitianos por conta da falta de estrutura do país. Pouco, contudo, se fala sobre o que gerou isso. Muito se fala sobre ditaduras sanguinárias que existiram lá; pouco se fala sobre que as financiou, quem as apoiou ativamente, quem ocupou o país militarmente diversas vezes. Muito se fala sobre supostas "tropas de paz"; pouco se
fala sobre o papel que cumprem cotidianamente, reprimindo a população, estuprando as mulheres, aterrorizando aqueles que se revoltam contra a miséria imposta.
Resgatar a história deste povo é fundamental, desde a luta por sua independência, que em 1804 conseguiu derrotar 25 mil homens das tropas de Napoleão e fundar o primeiro país independente da América Latina, a primeira república negra do mundo. A nossa solidariedade deve ser ao povo haitiano, que lutou e luta a cada dia contra aqueles mesmos que hoje aparecem de cara lavada nas televiões, internet e jornais, estendendo sua hipócrita mão para "ajudar".
Hoje o imperialismo disputa a tapa para decidir quem vai comandar o futuro do Haiti. O aeroporto está controlado pelas "humanitárias" forças militares estadunidenses que impedem o acesso de ajuda médica para priorizar o repatriamento de cidadãos de seu país. Mandam cada vez mais tropas, mas podemos ver nas poucas entrevistas com a população que não há ajuda alguma ao povo, que é obrigado a saquear as lojas destruídas (sendo violentamente reprimidos pelas "tropas de paz" por tentarem sobreviver) e tirar seus amigos e parentes dos escombros com as próprias mãos. A grande ajuda que chega, como apontou Adriana Diniz no JB, foi 4 mil vezes menor do que o dinheiro usado para salvar os capitalistas durante a crise.

Para quem quiser acompanhar mais notícias sobre o Haiti, estou postando algumas coisas interessantes no meu twitter (fepardal). Na quinta-feira realizaremos um ato no consulado haitiano, com horário ainda a determinar. Em breve divulgo com mais detalhes.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Livros de 2009

1- Os irmãos Karamázov (Dostoiévski)
2- Maria. Uma peça e cinco histórias (Isaac Bábel)
3- A tragédia de um povo. Revolução Russa 1891-1924 (Orlando Figes)
4- Infância (Górki)
5- Ganhando meu pão (Górki)
6- Minhas universidades (Górki)
7- No fundo (Górki)
8- O Estado e a Revolução (Lênin)
9- O programa de transição / documentos da quarta internacional (Trotsky)
10- Da Cabula (Allan da Rosa)
11- Morada (Guma e Allan da Rosa)
12- O Romantismo no Brasil (Antonio Candido)
13- Lutadoras (Andrea D'Atri e Diana Assunção orgs.)
14- Pedagogia do oprimido (Paulo Freire)
15- Letramento literário (Rildo Cosson)
16- O Cortiço (Aluisio Azevedo)
17- Um segredo no céu da boca (vários autores da Cooperifa)
18- Iracema (José de Alencar)
19- Germinal (Émile Zola)
20- Palestina: uma nação ocupada (Joe Sacco)
21- Palestina: na faixa de gaza (Joe Sacco)
22- Pyongyang (Guy Delisle)
23- Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)
24- A terra dos meninos pelados (Graciliano Ramos)
25- A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac)
26- Diário do exílio (Trotsky)
27- A revolução traída (Trotsky)
28- Marxism and Literary criticism (Terry Eagleton)
29- México rebelde: A comuna de Oaxaca (Gilson Dantas)
30- Escritos latinoamericanos (Trotsky)
31- A mão e a luva (Machado de Assis)
32 - Crônicas escolhidas (Machado de Assis)
33 - Valéria (Milo Manara)
34 - O clic (Milo Manara)
35 - O Grito do Povo (Vautrin/ Tardi)
36 - Filhos da pátria (João Melo)
37 - Persépolis (Marjane Satrapi)
38 - A história da revolução russa vol. 1 (Trotsky)

segunda-feira, novembro 09, 2009

Quem não tem cão...

Às vezes o dia amanhece de tarde, com aquele sol alto das duas horas já cansado de tanto tostar as pessoas e querendo ir se esconder. O dia já quer virar noite, e eu só queria ser capaz de dormir pra sempre.
Ora, que se dane! Que se dane mil vezes!
Você que me interroga com esta cara de quem não quer fazer nada!
A vida que me interroga com a podridão que oferece nos jornais, nas esquinas, nas bocas de quem eu encontro pela frente. Já me levantei, fazer o que? É necessário mastigar a nós mesmos, mastigar, mastigar, mastigar e, por fim mas nunca menos importante, é necessário engolirmos a nós mesmos.
Farei a digestão de meus pequeninos sentimentos apodrecidos acompanhada de um cálice de vodka.

domingo, fevereiro 22, 2009

Literatura sob a ótica marxista

Pois já demorou pra que eu me dê esta tarefa, e eu enrolei tanto justamente porque ela é assustadoramente difícil. Mas então agora vou me enterrar em livros e pesquisas pra tentar pensar uma série de questões sobre a literatura.
Pra começar, estou lendo "A formação da literatura brasileira", do Antonio Cândido.

domingo, fevereiro 15, 2009

Passa Palavra

E daí tem alguns amigos participando de um coletivo de notícias sobre movimentos populares e sociais. Tá adicionado ali nos links e, pra não ter erro, tá aqui:

http://passapalavra.info

Ainda é cedo pra fazer algum comentário acerca da minha opinião, mas logo mais eu dou meu parecer.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Paraisópolis - favela sitiada

Vídeos sobre a ação dos cachorros de guarda:

youtube - reparem nos comentários

e

Globo

Cornelius Castoriadis

Então eu vou começar a ler um livro chamado "A instituição imaginária da sociedade" que o Ciola (provavelmente o único leitor deste blog hahaha!) me emprestou. O autor é Cornelius Castoriadis, de quem eu nunca havia ouvido falar na vida. Então, pensei, é melhor eu ter alguma remota idéia de quem está falando comigo antes de ler. E fui maior fonte de conhecimento rápido e superficial do mundo, o Google. E eis que encontrei um sumário sucinto de uma opinião pessoal de um "castoridiano" (ou castorista, se preferirem) sobre o sentido da elaboração de teórico deste filósofo grego.
está aqui ó: Web Site Cornelius Castoriadis/Brasil

Isto é bom porque me dá também uma idéia de quem são os leitores e divulgadores de sua obra. E é possível que já me dê uma idéia do que vou encontrar no livro.

Favela sitiada




São quatrocentos policiais, cem viaturas, vinte cavalos, quatro cães e um helicóptero que mantém a “Lei e a Ordem” hoje na favela de Paraisópolis. Não bastasse o cotidiano de exploração e miséria a que estão submetidos os oitenta mil habitantes, hoje eles vivem submetidos ao terrorismo constante dos “homens da lei”. É esta a “Operação Saturação”, um destes momentos em que a face mais verdadeira e crua da nossa sociedade vem à tona. Basta de qualquer verniz democrático, é hora de mostrar até que ponto o Estado está disposto a manter os pobres em seu lugar à força de armas. Só quem mora lá sabe o que é viver nesta situação. E a nós, chegam somente alguns respingos de informação:

Moradores da Favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, acusam cinco agentes da Companhia de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar de terem mantido ontem dois adolescentes em cárcere privado e de agredi-los dentro da casa de um deles.

Polícia revista moradores nas entradas de Paraisópolis

Cinco membros da comunidade foram ontem à ouvidoria das polícias para reclamar de excessos na abordagem policial.

"Nossa preocupação é que tem muita polícia dentro da comunidade. Se foi necessário, foi no primeiro dia. Há alguns excessos na abordagem. Eu presenciei um policial gritando e xingando um cidadão que estava sendo revistado, de mãos na parede", afirma o radialista José Lopes, de 56 anos.

O padre Luciano Borges Basílio, da Paróquia São José, localizada na favela, também reclamou da truculência da Polícia Militar. O religioso disse que, mesmo usando roupa eclesiástica, foi maltratado ontem de manhã em abordagem dos homens do Regimento da Cavalaria.


Espumante, a raivosa “opinião pública” da burguesia clama por “justiça”, e a imprensa mostra o sofrimentos dos pobres vizinhos de Paraisópolis:

Vizinho de Paraisópolis, Morumbi vive dia de medo

Olhem os comentários

Pois é. Tudo em nome do "bem-estar social". Eu fico imaginando o tipo de coisa que está acontecendo lá e que não é divulgado.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Oba! Socialismo em dias de festa: Reunião anticapitalista no maior evento neohippie do mundo!



'Terminamos o FSM com uma vitória do socialismo e da revolução, com novas inspirações, renovados na busca de outro mundo socialista', afirmou Pedro Fuentes, Scretário de Relações Internacionais do PSOL.


Ah, fala sério! Vamos lá, pessoal, vocês acham mesmo que é assim que se luta contra o capitalismo? A história realmente não tem absolutamente NADA a ensinar para vocês? Ou será que é pura hipocrisia? (As perguntas não são retóricas, se alguém souber ou quiser tentar respondê-las, estou aguardando ansiosamente.)

Sobre Górki

Estou lendo agora a trilogia autobiográfica do Górki.
Terminei o "Infância", em que ele fala sobre suas primeiras lembranças, começando com a morte do pai e a mudança com sua mãe para a casa dos avós. Neste ponto de partida é maravilhoso o modo como Górki já descarta a possibilidade de uma autobiografia enciclopédica com enumeração e listagem de fatos, memórias, e muito blá blá blá digno das páginas da revista "Cult" ou outras publicaçõs tipo "Revista caras para burgueses metidos a intelectual", tal como, infelizmente, a Biografia recém-lançada a respeito de Maiakóvski ("Maiakovski: O poeta da Revolução", Aleksandr Mikhailov, Record, 2008). Ele começa com o ponto de vista próprio da memória infantil, e suas lembranças principiam subitamente no momento fundamental da morte de seu pai.
A partir daí, delinea-se o retrato da sua infância de miséria na família cada vez mais pobre de seu avô, onde os filhos homens disputam tapa a tapa qualquer herança que puderem conseguir de seu pai (incluindo o dote da irmã). A mesquinharia não fica na geração mais recente, e mostra suas raízes mais profundas na figura do avô. A violência absurda de uma sociedade patriarcal, conservadora, e machista, fruto da vida de obscurantismo e opressão a que os personagens estão submetidos cotidianamente, é retratada por Górki de maneira não apenas precisa, mas com o verdadeiro talento de um grande escritor (Górki, sendo quase unanimemente considerado pela crítica como um escritor de altos e baixos, também quase unanimemente tem a sua trilogia apontada como uma de suas melhores criações). Contraditoriamente, são os primeiros choques da criança com este mundo brutal que irão moldar a sua personalidade extremamente sensível, aliada à revolta contra a opressão, traços que fundamentarão a produção literária e a militância socialista que estão na base da vida de Górki. O absoluto horror a certas experiências, por vezes, deixa entrever no olhar da criança os olhos de um homem já maduro, que vê a sua vida infantil com os olhos de um adulto dotado de extrema sensibilidade e já inconformado com a miséria do nascente (porém ainda mais arcaico do que em sua contraparte Européia) capitalismo russo.
São estas passagens, que aliam a vida de miséria da criança e de seu meio com a sensibilidade e a indignação do escritor socialista, que conferem ao livro o seu sentido último. Tal ocorre, por exemplo, quando, ao retornar de um verão no qual trabalhara e viajara como lavador de pratos em um barco e caçador de pássaros, o jovem Aliekséi (Górki), retorna à casa dos antigos patrões:

"Parecia-me que, no decorrer daquele verão, eu vivera uma experiência tremendamente rica, envelhecera e ficara mais inteligente enquanto, na casa dos patrões, no mesmo período, o enfado se adensara ainda mais. Eles adoecem com a mesma frequência, desarranjando os intestinos com a comida farta, contam uns aos outros, com as mesmas minúcias, o evoluir das suas doenças, a velha [mãe de seu patrão e irmã de sua avó] reza a Deus de maneira terrível e rancorosa, como sempre."

Bom, há muito ainda que eu poderia falar sobre os romances, mas ainda nem terminei de lê-los. Vou seguir o método Ciola de tentar falar para os outros para ver se escuto de novo e dizer aqui que pensei diversas vezes como valeria a pena fazer um estudo comparativo entre o "Infância" do Górki e o "Infância" do Graciliano Ramos. Mas aí eu fico pensando se vale a pena e para que eu faria isto e começo a me questionar sobre a validade da crítica literária no mundo em que vivo e blá blá blá até que a perspectiva do tal estudo some completamente.

Ciola: vou consertar o "afundar", senhor piadista, mas não vou remunerar seu serviço barato de revisão de texto. Quanto ao livro, foi mal, eu li pra caralho nestas férias e acabei deixando justo ele de canto. Mas você pode compreender né? Há tanta coisa que eu preciso ler, e um cara com o qual eu já não tenho tanto acordo logo de cara é pouco tentador. Entretanto, acho importante ler os teóricos que discordo (visando principalmente os objetivos expressos há uns dois posts atrás) e já te prometo de antemão (sua tática, novamente) que vou ler e escrever algo a respeito dele.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Engatinhando, engatilhando...

Mais fácil falar do que fazer...
Não sei o que me ocorre, ando com um bloqueio para realizar certas tarefas. De qualquer forma, posto aqui a minha intenção com o intuito de criar alguma pressão sobre mim e, assim, quem sabe, conseguir parir o rebento.
É o seguinte: após finalmente concluir a leitura do livro de Orlando Figes sobre a Revolução Russa, e estou querendo escrever uma breve resenha sobre ele. Talvez seja o fato de que não me preparei adequadamente para esta intuito enquanto lia o livro, ou talvez seja só um pouco de receio por tentar defender uma visão bastante diferente das muitíssimo bem fundamentadas mil páginas do livro, mas o fato é que o negócio ainda não foi pra frente. Acho que preciso entender que, não importa o que eu escreva agora, vai ser só um tipo de rascunho com primeiras impressões.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Não há prática revolucionária, sem teoria revolucionária

A conhecida citação de Lênin diz tudo, e qualquer um que se pretenda um militante revolucionário minimamente consequente há de concordar com isto, seja ou não partidário do Leninismo. Para nós, vivendo em uma época em que o legado de tradições das lutas do movimento operário e socialista remonta mais de dois séculos, e em que a ideologia triunfante burguesa (e até mesmo muitos que se autodenominam como "de esquerda") alardeou o fim da União Soviética como a vitória final do capitalismo, a tarefa de estudar e resgatar esta história a fim de aprender suas lições é tão difícil quanto necessária.
Por experiência própria sei que é prática comum entre a militância de esquerda (talvez no Brasil em especial) fazer tabula rasa da vastíssima experiência de lutas dos trabalhadores, descartando absolutamente tudo o que veio antes como inútil sem ao menos se dar ao trabalho de conhecer isto que se joga fora. É uma tentativa inútil, desesperada e leviana de criar algo como um foguete espacial sem querer saber ao menos como se faz um motor de combustão. É impressionante, no entanto, como um modo de agir tão estúpido vigora com tanto fervor entre a esquerda. Eu mesmo, por exemplo, demorei anos até me dar conta de que tomava tal atitude.
Entretanto, a postura mais perniciosa diante da teoria revolucionária e da história da luta pelo socialismo leva esta cretinice adiante, pois, além de ignorar flagrantemente a história, acredita que sabe dela tudo o que é necessário, transformando análises absolutamente superficiais em dogmas dignos de serem seguidos às últimas consequências.
A história está repleta de nomes que dedicaram longas vidas inteiramente à causa revolucionária, e que morreram sem aprender uma ínfima parte do que desejavam. Em geral, sua luta levou a sua morte prematura. Está repleta também de erros e acertos das lutas pregressas, cujo simples estudo poderia ajudar enormemente a nos prepararmos para as lutas vindouras. Poucos são os revolucionários dignos de respeito que, ao longo de sua vida, não mudaram posturas e reviram pontos fundamentais de sua prática pautados em elaborações teóricas que foram frutos de um confrontamento cotidiano de suas concepções diante da realidade concreta. Muitas vezes, aqueles que se vangloriam de peito estufado de uma pretensa "coerência teórica" são os mais obtusos militantes. Alguns dos textos mais brilhantes da história da teoria socialista são os textos de polêmicas, em que os revolucionários se debruçavam exaustivamente sobre concepções alheias, esforçando-se para demonstrar porque e em que estas estavam equivocadas.
Já passa da hora de retomarmos seriamente estas tradições, de realmente pensarmos criticamente nossas práticas, pois sem isso estamos fadados ao fracasso e a mediocridade. Estes já são um terrível peso sobre as costas de um indivíduo. São muito piores quando temos a responsabilidade de fundarmos um projeto coletivo, que pretende ser uma luta pela emancipação de toda a humanidade, junto com nossos próprios erros.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Acho que não sei mais fazer este negócio de blog, tem ares de coisa muito estúpida pra que eu consiga fazer algo bom dele.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Reformas

Blog em fase de modificações.
Acho que vou ter que retornar aos tempos da máquina de escrever. O Word não aceita minha tentativa de escrever várias palavras juntas sem espaço. Tentei em três computadores diferentes, e ele SEMPRE dá pau. Vou ver se o BrOffice é menos cretino. Como pode um programa que é desenvolvido há tanto tempo por uma megacorporação multimilionária ser tão absolutamente tosco?

quarta-feira, novembro 05, 2008

A minha vida vai bem sim.
E sinto que, aos trancos e barrancos, estou conseguindo apontá-la na direção que eu quero.
Mas queria ver este pessoal que pouco vejo por aí.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Passei por aqui só pra falar bobagens, ando sufocado pelo dia-a-dia (e quem não anda?)
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?

sexta-feira, setembro 19, 2008

Mas, afinal, o que é um amigo?
Creio que o último período da minha vida me leva inevitavelmente a ter que rever os paramêtros que me belizam aí neste âmbito. Aceito sugestões e comentários.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Transformar nossas vidas em uma parte de um coletivo não é tarefa fácil. Nossas rotinas e a inescapável missão de sobreviver neste mundo nos forçam constantemente a segmentarmos completamente tudo aquilo a que aspiramos e tudo o que produzimos. Mergulhamos em nossos empregos, em nossos estudos, em nossos relacionamentos (por si só já fracionados e determinados, com hora certa para serem vividos), em nossos medos e nossas esperanças.
Começo a perceber drasticamente que este sentimento que nos é imposto a cada momento que é o que mais me assusta e desanima, mais consegue me vencer nesta luta cotidiana. O medo de uma solidão que é muito maior do que simplesmente estar sozinho. É o medo de uma solidão existencial, uma solidão de viver uma vida que não converge para nada, exceto para a inevitável percepção de como podemos ser vazios se estamos isolados. É exatamente assim que, creio eu, surge aquela terrível solidão em meio à multidão. A falta de nos percebermos como parte de um mundo e a crença tola de que somos excepcionalmente singulares e aboslutamente incompreensíveis para aqueles que nos vêem pelo "lado de fora".
Para mim esta solidão, e é preciso convencer-me disto a cada dia, é o fruto da ideologia em que estamos imersos. E é uma evolução natural, cunhada em séculos de nossa cultura. Provavelmente o grosso de seu germe é aquilo que descende do Romantismo, das idéias de gênio solitário, da expressão da subjetividade e, enfim, de toda esta concepção artística que deriva diretamente da consolidação da burguesia como classe dominante. E assim, isolados, vivemos nossas vidas.
Apeguei-me, durante todo o tempo, àquilo que meu desespero me conduziu na tentativa de escapar desta sensação de isolamento completo. Amigos, namoradas, família. Sentir-me próximo de pessoas. E agora percebo o quanto também destes refúgios é tragado cada dia mais pela simples rotina, que teima por jogar-nos em projetos de vida individuais, voltados para sabe-se lá o que. Estes refúgios são necessários, mas nunca serão suficientes se não olharmos mais adiante.
Superar a solidão individualista é algo que não se faz sozinho, e muito menos pode ser um processo completo dentro de nosso mundo. Mas sem dúvida faz parte de uma tarefa tão cotidiana quanto fundamental. Acreditar na revolução não me basta. E hoje, para mim, a tarefa de transformar minhas crenças em dia-a-dia está intimamente associada a romper a barreira da solidão. A crise de subjetividade que nos assola somente será rompida no momento em que conseguirmos também transformar nosso cotidiano com o estabelecimento sólido de vínculos de solidariedade com aqueles que o mundo teima em afastar de nós.
Tudo isto é fruto de uma prisão e uma mentira, que temos que destruir. Quanto àqueles que deveriam estar ao meu lado mas querem me enxergar como um inimigo, posso apenas espera-los de mão aberta, até o momento em que percebam que o nosso inimigo é comum, e que para vencê-lo é necessário que ataquemos juntos.

domingo, agosto 31, 2008

Sete e sete são catorze
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.

Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?

Como poderei viver? Como poderei viver?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?

Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?

Somente a solidão nos une.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Deixo plantada aqui umas saudades.
Mas nunca se sabe se a terra será fértil e se a intenção frutificará.
Deve ser triste e solitário ser uma semente não germinada afundada na terra úmida e escura.
A possibilidade de vida lhe fugiu pelos cantos.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Há algo que nunca se encaixa.
E eu fico pensando como será possível um dia as pessoas se entenderem.
Às vezes eu acho que o problema é comigo, sou eu.
Mas quando eu consigo olhar pro mundo eu vejo que não sou só eu.
Eu queria poder olhar nos olhos de todos e saber sentir seus sorrisos e suas lágrimas. Eu queria que as palavras fossem o coroamento de uma relação de compreensão e afeto, e não as armas que levantamos para lutar contra os outros.
Eu queria que os abraços, os sentimentos e as lições que aprendemos não fossem tão efêmeros.
Eu queria que a vida fosse uma experiência verdadeiramente coletiva. Mas eu me aparto destes sonhos com uma lúcida tristeza.
Me perdoem.

domingo, fevereiro 17, 2008

Ontem eu redescobri uma coisa que já achava que tinha perdido para sempre. E lágrimas me encheram os olhos.
Nunca imaginei que Dostoiévski poderia me ajudar desta forma novamente.
Ainda há, quem sabe, esperança contra a banalidade da vida. Pelo menos alguma...

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Dizem, e as palavras passeiam rápido através da superfície das línguas ferinas que se alimentam do chorume das tristezas alheias, que as crônicas de uma triste peregrinação nunca estão completas até que a primeira gota de sangue toque o solo. Antes disto, tudo é um prelúdio, uma elaborada dança de corpos e mentes que, como um antigo ritual sagrado demais para que sobre ele se fale, encena-se num sombrio jogo de adivinhações. As facas quentes das palavras e gestos colocam suas lâminas em brasa na fogueira dos desejos. Os olhares, os toques, as lembranças. É tudo alimento, tudo é água no deserto da solidão.
Sentado num sofá, o corpo poeirento de milênios de espera, a alma amortecida de tanto pensar, o espírito calejado de tanto doer. A ânsia secreta por um projeto de vida, por um sonho de abrir, com a envergadura de quem não tem mais coragem de temer a vida inteira, as longas asas em direção ao mistério.
E se jogar. Sim!
Num último ato de desespero e esperança; em direção ao sol, em direção ao solo, em direção ao sonho. E sentir as batidas tribais de um coração estúpido e o vento lambendo as lágrimas, descolando-as dos olhos, lavando o pó dos anos, enquanto se aguarda o resultado daquelas asas estendidas. Em um golpe de sorte tudo se decide: ou se voa rumo ao longe, ou se fica rumo ao chão.
O impacto teria a dor surda de um fim sem homenagens, sem elegias. Nem ao menos uma voz rouca para cantar as vergonhas de uma alma que se despede sem vitórias.
O vôo teria o medo do novo. E os caminhos infinitos que se abrem numa jornada, cada passo é uma porta aberta no fio da navalha.
Viver é feito de desafiar a si mesmo.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Foi aí. Abrupto, aquele ódio irracional estancou numa engolida em seco, com gosto de cigarros e uma bebedeira de cerveja, que já começava a se transformar em ressaca na boca azeda e na mente empapuçada. Olhos estáticos, corpo imóvel. A mente se calou por dentro, ficou sentindo os reflexos lentos do corpo. O peito chiava arfante numa respiração difícil. O coração tamborilava sacudindo todas as veias, sentia-o retumbando no ouvido e latejando nas mãos. Foi invadido pela consciência da manhã que despertava, com seu frio manso e um galo que esganiçava em uma qualquer vizinhança. Sentiu então, como se fossem de outro, as gotas de sangue que lhe escorriam pelo braço. E a pontada de dor na mão cortada veio como um pungente aviso de que estava vivo, e que parecia que não podia fazer nada contra isto. Não podia fazer mais nada contra o dia que vinha em ondas fortes, destruindo o que encontrava por sua frente. E seu cérebro, alagado por aquele regurgitar salgado e incessante, agitou-se furioso mais uma vez, tentando entender alguma coisa. Desesperadamente qualquer coisa.
No chão, as gotas vermelhas pingavam formando pequeninos círculos no piso branco. Aqui e ali jaziam os cacos mortos do copo de requeijão, únicas testemunhas e cadáveres esmiuçados do cúmplice que transportara em longos goles a cerveja para dentro da boca, do esôfago, do estômago ulcerado, da mente confusa, cansada, sedenta.
Não adiantara.
Sentou-se maquinalmente, olhos vidrados, na cadeira ali ao lado. As primeiras lágrimas desta nova leva saíram ardidas dos olhos, acompanhando o flexionar pesado das pernas. A mão caiu sobre os joelhos espalhando manchas rubras pelo tecido cor de creme. Começaram aos poucos a vir as imagens da briga em soluços arrependidos de memória. Gritou, lembrava, mas não sabia dizer o quê. Provavelmente balbucios desconexos que naquele momento pareciam botar pra fora todo o medo que guardava a cada segundo e minutos dos dias pretensamente felizes. Seu ódio era uma colcha de retalhos daquelas pequenas provocações que se acumulavam, misturado com os sorrisinhos que lhe foram vendidos a tão alto preço. Sentiu a vida como um grilhão e desmaiou no sofá. Precisava de sonhos.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Outro dia voltava para casa a pé às seis da manhã e tinha comigo mesmo uma das mais furiosas discussões que já tive.
Um lado me acusava de ingênuo, volúvel, falso, leviano, inconsequente, anarquista imbecil pequeno burguês.
O outro me acusava de conservador de direita retrógrado, conformista, apático, desiludido, machista.
Uma hora, quando passando em frente à Igreja dos Mormons, vi uma cara assustada de um hdei por mim mesmoomem que cruzava comigo. Eu era um sujeito com cara de maluco, roupas amassadas, olheira de maquiagem, cara de bêbado, rindo e chorando ao mesmo tempo e falando alto comigo mesmo o seguinte: "Vocâ tá louco? Você tá louco?"

sábado, dezembro 15, 2007

Parcialmente escrito, praticamente baseado em um sonho desta tarde...



Era um dia de agitações na protocidadela. Nos últimos meses o comichão de suas fronteiras havia devorado léguas de mata virgem e pasto inerte. No bairro velho fervilhavam conspirações, sibilavam ameaças entre as línguas ásperas dos velhos druidas enrugados. Os aprendizes ensimesmavam-se em treinações e ambições que recriavam suas mentes em plena expansão e derreformação. Os bruxistas não deixavam por menos, recalcando pirotecnias e transcriando as velhas cavernas enfumaçadas e escuro-piscantes. O cheio se espalhava longe nas ruelas se impregnadas de molecarias maltrapilhas emprumando-se em desejosos sonhos de integrar ambas as corjas. Velhotas carcomidas arrastavam carroças rangentes repletas de bagulheiras misteriosas, mesclando-se entre o populacho anunciavam supostos ingredientes poderosos vindos das terras distantes. Escamas petrificadas de Dragonilhos cornudos das planícies desérticas, sabugos ressecados das florestas faéricas, pisadelas de enxofre dos homúnculos ferozes do sul e outras tantas tranqueiras eram apregoadas em gritos estridentes e roucos. Os velhos magos ressabiados aproximavam-se raramente e apossavam-se de algum artigo soterrado ao fundo das tranqueiras de alguma vendedora, não sem antes remexer seus melindrosos bigodes em caretas e insultos, pechinchando as mercadorias com palavrarias tão antipáticas quanto inabilidosas. Os jovens aprendizes esbofeteavam-se em algumas filas, desesperados por colocar suas mãos em alguma bugiganga com cheiro de exoticidade. Ávidos, levantavam seus narizes sobre as cabeças uns dos outros e, com os olhos brilhosos, tentavam farejar através do ar semiprovinciano e rançoso de suor e pós mágicos de toda sorte, algo que pudesse lhes trazer a sorte grande.
Para além das fronteiras difusas dos conluios mágicos o burburinho persistia em outras formas. Viajantes de todas as partes se esbarravam nas estreitas ruelas, entre preocupados e curiosos, reviravam o lugar com os olhos e com o que mais pudessem. Procuravam por tudo. As tramarizes mulheres do bairro de baixo seducilhavam aqui e ali, espalhando por entre os recém-chegados os rabelhos flutuantes de suas belas roupas dançantes, deixando rastros lilases, azulados, rosáceos, remisturando-se. Os cheiros de almíscar, jade, canela e toda a sorte de frutilhas afrodisíacas ouriçava os pêlos dos passantes, encobrindo por completo o cheiro acre nauseabundo de suor, sangue pisado e estrume dos animais fedorrentos que eram puxados por seus donos ou arrastavam carruagens indiferentes ao buchicho das ruas. Suas risadas melodiosas e olhares ferinos, dissimulados, perfurantes, rebolavam demoradamente no ar. Rasgavam conversas broncas ao meio, cortavam pensamentos compenetrados. Passavam em passos graciosos, pretensamente indiferentes e desinteressados daquela vulgaridade que gorgolejava em altos brados por toda a cidade. Em segundos desapareciam, mas ainda assim estavam sempre por toda parte.
Velhos conhecidos se reencontravam em estrondosas gargalhadas e abraços sacolejantes. Estranhas reverências se encenavam aqui e ali, e nas tavernas os copos se chocavam ruidosamente em brindes pronunciados nas mais diversas línguas. Os bandos de andarilhos, saltimbancos e ciganos mais uma vez retornavam à cidade em uma inexplicável sincronia. Perambulando por ali ofereciam adivinhações e serviços, bajulavam ricos comerciantes e empoladas senhoras, tocavam intrumentos e entoavam suas cantigas recolhendo moedas com chapéus coloridos e bufantes. Arremessavam objetos ao ar em malabarismos improváveis e cuspiam labaredas coloridas. Furtavam objetos entre a multidão apressada e arrecadavam riquezas com sua ardilosa lábia enganatriz. Sobreviviam alegremente, e a partida os recolheria dali antes que suas confusas vítimas pudessem esboçar pretensões de entender o que havia se passado.
Na praça do mercado o estrondoso amontoar de gentes alcançava seu vertiginoso ápice. Lá, tinha-se a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento.



De: http://postsecret.blogspot.com/

quarta-feira, novembro 07, 2007

Feliz aniversário à Revolução Russa!
90 anos.
E a reitoria da PUC foi ocupada, somando-se assim às tantas outras pelo país. :-)

sábado, outubro 13, 2007

Já que este blog chafurda em si mesmo numa agonia pasma há tanto tempo, resolvi fazer um outro mais concreto e pragmático para acompanhá-lo. É dedicado a traduções de textos socialistas e o endereço é o seguinte:

revolucaotraduzida.blogspot.com

sexta-feira, outubro 12, 2007

Documentário sobre o anarquismo nos EUA. Não sei o quanto ele reflete a realidade, mas espero que não muito. Não tive estômago pra assistir até o fim:

Part 1: http://www.youtube.com/watch?v=v9znhVZT9_Y

Nesta parte tem o link pras outras sete.

domingo, setembro 30, 2007

Pigarro, tosse. Mais tosse. Olhos em volta cutucam, não conseguindo manter a barreira da indiferença. O pus sobe e desce na garganta, dolorido como se fossem cacos de vidro. A mão, velha e enrrugada, envolta na luva esfarrapada, se esforça para permanecer colada na barra de metal a cada solavanco. A cada contorção doente do seu corpo, cresce a barreira de nojo e pena dentro do vagão lotado. Os olhos semicerrados tentam se voltar para baixo, para fora. Para algum lugar longe daquilo tudo. As dores, no entanto, impedem-no de alimentar imagens muito complicadas na sua cabeça. As tardes bestas e tranquilas que ele tenta resgatar das décadas passadas se dissolvem com as chiadas contrações de seu pulmão, desesperado por um ar que parece nunca vir.
Quando abre os olhos novamente, percebe que estão a sentá-lo nos bancos cinzas. Murmuram-lhe alguma palavras vagas. Há um vácuo ao seu redor. Ele solta o corpo no banco e aguarda a morte.

sexta-feira, setembro 28, 2007

quinta-feira, setembro 20, 2007

às vezes quando eu estou em algum maravilhoso espaço do movimento estudantil, penso como é fácil ter uns derrames e morrer que nem o Lenin.
Aliás, descobri que ele foi um grande entusiasta do taylorismo, e um de seus introdutores na Rússia...

terça-feira, setembro 18, 2007

http://www.youtube.com/watch?v=1QDnkcktEm8

sexta-feira, setembro 14, 2007

Qualquer pessoa inteligente que vá a uma assembléia como a que eu fui ontem consegue compreender um pouco sobre a ascensão das burocracias "legitimadas" pelos grandes ascensos dos movimentos de massa.
Às vezes eu queria poder praticar uma certa violência física contra certa "companheirada".
Haja força de vontade pra não ir pra casa dormir...

terça-feira, agosto 28, 2007

Tantos caminhos, tão poucas pernas...

terça-feira, agosto 21, 2007

Por fim, era isto.

Banalidade é deixar a vida montar em você.
E acho que eles não perceberam isso.

É quando você ouve uma voz te chamar. De seus olhos podem sair lágrimas, mas a sua garganta rouca está estupefata demais pra gritar de volta. Ela fica pasma...
Pra onde vai um rosto por baixo de tantas máscaras?

terça-feira, julho 31, 2007

Sobre o post abaixo

Eu pouco sei sobre a AATW que, numa livre tradução significaria Anarquistas Contra o Muro. Eu sei que em 2005 eu fui num evento não muito interessante chamado Carnaval Revolução, organizado por um coletivo anarquista de BH. Neste evento, apesar de não muito legal, vi coisas legais. Uma oficina do CMI sobre filmagem de ações diretas, como ocupações e manifestações em geral. Evidentemente não aprendi a filmar, mas pude assistir uns vídeos legais sobre ocupações no centro de São Paulo e tive a oportunidade de conhecer o Brad Will, um ativista muito firmeza do CMI que morreu lutando com o povo de Oaxaca (mas nem sei porque eu conto tudo isso se todo mundo que entra aqui já deve saber destas coisas).
Enfim, no tal carnaval eu vi uma atividade da AATW. Eles mostravam uns vídeos de umas dez, quinze pessoas completamente despudoradas enfrentando o exército israelense com a cara e a coragem. Sim, o famigerado exército israelense. Eles apanham dia a dia, literalmente, para atrapalhar a construção de um dos maiores ícones fascistas de nosso tempo: o muro que quer isolar os palestinos. Eles tomam balas de borracha, gás, porradas e até balas de verdade ocasionalmente. Eles são atingidos por gás em uma quantidade que pode causar sérios problemas de saúde, como câncer. Eles juntam, em pleno coração de uma guerra civil sangrenta e interminável, israelenses e palestinos contra o massacre que ocorre lá.
É mais ou menos isso que sei sobre eles. Não é muita coisa. Eu dei uma olhada no site, parece que tem mais coisa. Vou ver melhor. Não sei qual é a prática deles e o que mais eles procuram fazer fora lutar contra o muro. Mas sei que o que eles fazem é tão bonito e corajoso que eu sinto arrepios só de pensar. E quase ninguém sabe deles, e eles estão precisando de ajuda.
Penso em montar um comitê de solidariedade, tentar estabelecer contato com eles e fazer atividades de divulgação e arrecadação de dinheiro para enviar para eles. Alguém mais topa?
Call for support by Anarchists Against The Wall


URGENT CALL FOR DONATIONS

----------------------------------------

*** PLEASE DISSEMINATE WIDELY ***



Dear friend,

The mounting legal cost of the joint Palestinian-Israeli struggle
against the occupation is forcing us to send this urgent appeal for
funds. We are asking for your support to continue the work of the
Israeli group Anarchists Against the Wall (AATW).

For the past four years, the group has supported the Palestinian
struggle against Israeli occupation and specifically against Israel`s
segregation wall. Week after week, AATW joins the Palestinian popular
resistance against the wall, in diverse areas of the West Bank,
including the villages of Bil`in west of Ramallah, al-Ma`asara, and
Ertas, south of Bethlehem, and Beit Ummar, north of Hebron.

Activists have often been arrested and indicted for their participation
in the struggle. Fortunately, the group is represented by a dedicated
lawyer, Adv. Gaby Lasky. Adv. Lasky has tirelessly worked to defend
activists arrested at demonstrations or direct actions in the West Bank
and in Israel. Though the legal defense she provides AATW is almost a
full-time job, she has agreed to be paid only a token fee. However, the
group has not managed to cover even this sum, and now owes approximately
$40,000 in legal expenses for over 60 indictments. In addition to this
enormous legal debt, AATW activists are forced to spend large sums on
transportation and phone bills.

Please make a donation that will enable us to continue this struggle.

Thank you for your solidarity.
Anarchists Against the Wall

For more information about AATW, our actions and how to make a donation,
visit our website: www.awalls.org or contact us at donate (at) awalls.org.


Email:: donate@awalls.org
URL:: http://awalls.org
vírus do autismo solitário.

Engraçado receber milhares de scraps de pessoas que eu gosto e com quem não falo há muitíssimo tempo. Especialmente quando o tema é um vírus idiota de orkut.
Isto me fez sentir meio solitário.
Também fiquei meio surpreso quando li o tal scrap e vi o que um monte de gente achava que era eu. Não sei se sou meio malucão, mas creio que, ainda que não fosse óbvio que qualquer link que te mandem provavelmente é um vírus, eu certamente conheço razoavelmente o jeito de escrever dos meus amigos. Pelo menos dos mais próximos. E aquilo não parece comigo escrevendo nem um pouco.
Agora eu também não sei como aviso pra todo mundo que mandei um vírus porque nunca mandei estas malditas mensagens em massa. Se alguém tiver uma sugestão me avise.

domingo, julho 29, 2007

Brecht:

Poesia do Exílio

Nos tempos sombrios
se cantará também?
Também se cantará
sobre os tempos sombrios.

Mais:

Se Fossemos Infinitos

Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

domingo, julho 22, 2007

O ar gelado atravessou sua garganta rasgando. Ela engasgou-se consigo própria e, na surpresa de se descobrir falível, tropeçou em seus próprios pés, esborrachando-se no chão e rolando. Sem tentar impedir a si mesma, sentiu seu corpo arrastar-se pelo asfalto com o impulso que havia ganhado nas largas e desesperadas passadas que havia impulsionado. Sentiu as dores arrastando-se pela noite, embriagando-se de confusão e mágoa, rolando pela terra úmida que emoldurava a estrada.
Uma vez terminado o impulso, deixou o peso de si mesma jazer sobre o chão, que se reentrava na sua consciência aos poucos. Pesava sobre o mundo, sentindo a respiração resfolegar-se para dentro e para fora, com o barulho ensurdecedor de quem não quer ver nem lembrar nada. Corria, ainda. Se não com as pernas, com tudo que lhe sobrava fora isso. As dores, enfim, começaram a despontar em seus ferimentos. Sentiu as gotas principiantes se arriscando sobre seu corpo, ouviu-as espatifando-se perto de seus ouvidos. Olhava para cima, vendo as estrelas que já nem se lembrava de existirem. Suas dores, começou a sentir-pensar, vinham todas daqueles pontos brancos flutuantes na negridão do universo. Eles entravam na sua carne como facas quentes, penetrantes. Era o alívio de quem não precisa repousar a consciência em uma dura cama de angustias. Era a liberdade de quem entrega seu corpo à caçada de si mesmo, correndo por caminhos de desencontrar-se a si mesma.
Sentiu a dor das estrelas em sua carne transformar-se em novo impulso, levantou-se de um pulo e reiniciou a corrida, desta vez abandonando por completo a estrada asfaltada. Seguia através dos obstáculos da relva, como um animal acossado pelos faróis violentos de um carro. Ignorava a beleza de seu sangue vermelho tingindo as plantas ignorantes e humilhadas da beira da estrada. Queria gritar, mas não sabia como. Os gritos, sabia sem saber, já haviam sido por demais gastos. Seu fôlego agora pertencia a outras coisas, pertencia aos passos que se desenhavam instintivamente. E ela precisava criar um caminho que não era seu, que estava além de suas pernas, além de seus pulmões. Precisava saber que a vida precisa do irracional, dos animais enraivecidos que correm sem olhar para trás, sem saber o que há em sua frente. Ela precisava livrar-se de si mesma como se nunca tivesse surgido alguma daquelas oportunidades cinzas das noites da cidade. Aquelas em que olhava para si mesma e pensava, ainda com as marcas de ter crescido e se educado, em como tudo aquilo já havia consumido por demais tudo o que poderia ser. As oportunidades haviam tornado-se desesperanças, haviam assumido as cores envelhecidas das estátuas, estanques em um passado intransponível, imutável. Ela pensava, nestas noites, que só poderia ser tudo aquilo que já havia feito.
E era por isso que agora corria com a força de quem quer ser outra. Com a força de quem, por tanto pensar, já sabe que o caminho do novo passa pela violência, pela agressão desmesurada a si mesmo e àquilo que se ama. Queria odiar tudo aquilo que a havia feito ser o que era. Queria livrar-se de todas as cargas semânticas usadas, apodrecidas. Queria reinventar sua língua, esmagar a massa encefálica mofada com um martelo pesado de bater carne.
Ela era autofagia e fuga. Reconstrução e morte. Tinha medo e, conseqüentemente, esperança. Jogava as palavras de seus pensamentos contra a grade de sua consciência. Quebrava!

sexta-feira, julho 20, 2007

Dá tchauzinho filho da puta.

quarta-feira, junho 20, 2007

E a tropa de choque entrou em Araraquara.
E na Unicamp ocuparam a diretoria acadêmica.

segunda-feira, junho 18, 2007

É, é triste, mas às vezes é difícil manter o ânimo depois de golpes assim.
Não existe nenhuma direita tão eficiente quanto as burocracias parasitas e oportunistas que se alimentam da esquerda. A Adusp (apoiando-se no setor mais nojento de professores corporativistas e pequeno-burgueses) deu uma rasteira na greve da qual dificilmente conseguiremos nos levantar. A ala mais reformista e burocrata do ME, por sua vez, cresce em cima do sentimento de medo e instaura as mesmas políticas que sempre defendeu.
Os momentos com mais potencial de mudança em geral também são os que mais têm potencial de fazer com que tudo seja o mesmo por muito mais tempo. E fica a dúvida, a ser respondida em pouco tempo: 2007 será 2002 mais uma vez?

segunda-feira, junho 11, 2007

A epidemia de gripe assola a ocupação.

Este cartunista veio do Rio apoiar a gente e fez várias charges bacanas:


sexta-feira, junho 08, 2007

Gripe, febre, crises de bronquite como eu não via desde a minha infância.
Descanso forçado.
Exame de Cambridge durante a semana.
droga...
A direita ataca: decreto declaratório, ato fracassado de professores reacionários, indicativo de saída da greve da burocracia docente.

A esquerda ataca: encontro de estaduais, ocupações se multiplicam, encontro nacional, greve se espalha.

Estamos indo bem...

segunda-feira, junho 04, 2007

Um mês e contando...

quarta-feira, maio 23, 2007

Reitoria ocupada 14.05.2007

Ocupamos: metemos o pé na porta, a pedra, a mão,
a grade torta empurra empurra quebra o vidro corre rasga o passo atravessa
chega aqui.
Chegar até o presente, ao concreto, ao real,
ato duro, intransigente: violência de florir.
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Ocupamos: há mais de onze dias tomamos nosso espaço
no seio do poder e da decisão do que é e do não
nesta universidade.

Não mais esperamos a benevolência,
a boa vontade: Criamos
nós nossas condições.

Não aceitaremos mais a forma imposta, a reflexão não mais se molda. Nossa crítica não se calará com puras palavras, o puro pensamento infinitamente maleável.
O pensamento toma as mãos, que não mais tomam sua submissão, não tomam menos do que o mundo, do que aqui, sua história.
Torcemos as barras, rompemos a contenção, atravessamos o muro com nossas reivindicações: invadimos o presente.

Da violência dos atos, o nosso tem de diferente a visibilidade apenas.
Não ferimos ninguém, não subjugamos ou exploramos. Foi apenas o silêncio complacente de um vidro limpo o que se quebrou, a omissão dos corredores quanto a sua direção e o inquestionado mando de uma grade.
Podem eles falar o mesmo?
Negar a educação, formar escravos, robôs,
torcer, não uma grade, mas uma vida, formar pessoas para sua exploração;
negar comida, a vida, o sol, sem dizer não: pagando pouco e dizendo isso privilégio; vender direitos... Não são violências estas muito maiores e mais nefastas?
Por que então têm passo livre nas catracas?
Por que não ofende o mundo, a terra, o ar, sua mera possibilidade, como não sujam as paredes?

Radicais? sim, extremos, mas nem sequer fomos nós que escolhemos os termos desse passo... Reagimos: A situação é insustentável. Sim, teremos de fazer mais do que reagir, e é isso que se abriu, como uma porta para o presente, na radicalidade da resposta: Podemos criar o nosso mundo, o aqui não está dada, assim como o tempo.
O que até hoje foi óbvio (apenas) torna-se de repente real, matéria que o ato articula, com suas dores, suas faltas, seus limites. E seus sonhos.
Sonhar é, de repente, possibilidade e não fechar de olhos; é ir além do que a vista concede; é passarem os olhos a esculpir o corpo.


Lucas Itacarambi

domingo, maio 20, 2007

De um lado greve, piquetes e mobilização. Do outro diretores reacionários, ataques da mídia e mandatos de reintegração de posse.
Os ânimos se acirram na luta pelos rumos da universidade.

segunda-feira, maio 14, 2007

Se o movimento estudantil fosse sempre como ele está sendo agora na USP, a revolução estaria bem mais próxima de nós. A esperança é que este processo crie a nova militância da USP, que vai atropelar a burocracia falida dos dias de sempre.
Se vocês quiserem discutir política com gente disposta e com qualidade, recomendo frequentar a reitoria da USP. Hoje tem plenária e vai rolar uma programação legal nos próximos dias.

domingo, maio 13, 2007

Fora pelegada, pelegada fora!
Fora pelegada que chegou a nossa hora!

quarta-feira, maio 09, 2007

Minha nova casa é a reitoria da USP. Visitem-me.
Meu novo blog é http://ocupacaousp.blog.terra.com.br/ . Visitem-me.
Dia 10 tem ato na Paulista. Compareçam.
Ontem eu fui na assembléia estudantil mais cheia da minha vida, com uns dois mil estudantes.

sábado, abril 28, 2007

Acontecimentos importantes no mundo no dia do meu aniversário:

http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/070428/manchetes/manchetes_politica_lula_rebelde_pol

terça-feira, abril 24, 2007

A benevolência da universidade burguesa me trás lágrimas aos olhos:

http://br.noticias.yahoo.com/s/24042007/25/manchetes-usp-dara-411-bolsas-alunos-escola-publica.html

domingo, abril 15, 2007


O postsecret está muito legal nesta semana.
Anti-clímax

O Lui é um cara que sabe dar festas legais, sem dúvida.
Tinha comida boa, música bacana, gente legal, álcool pra caralho. O que eu mais gostei foi este lance único, raro, que acontece cada vez menos: a festa conseguiu juntar todos os tipos mais diferentes de amigos que eu tenho. E ainda tinha um monte de gente que eu não conhecia, o que é muito bacana. Eu conversei com umas pessoas que não via há um bom tempo. Eu vi o Fepas xavecar a Monique e o Caio falando com meu irmão. Foi bem legal mesmo.
E daí, na parte que eu estava me divertindo mais, fui embora.

E eu reclamo porque blog serve pra estas coisas. Quando eu quiser fazer algo construtivo e interessante, vou pra outro lugar.
Minhas eternas dificuldades de organização vão me alcançando, conforme eu tento lidar com a faculdade, as aulas que tenho que preparar, o tanto que eu tenho que estudar pro exame de proficiência em inglês...as coisas vão me devorando, e o mais importante é sempre soterrado.

segunda-feira, abril 09, 2007

Fui impiedosamente perseguido por uma gripe no feriado inteiro. Não fiz nada do que tinha que fazer. Tenho depressão noturna de domingo. As coisas estão se acumulando. Crio expectativas demais sobre coisas de menos. Eu gosto muito do Peter Pan.
Eu acho que vou tentar dormir pra ver se tiro um atraso amanhã.
Sinto saudades em pedaços vazios que não se encaixam.

quinta-feira, abril 05, 2007

Ressaca moral

A pior coisa de encher a cara é lembrar no dia seguinte das coisas imbecis que você fez e disse. Acontece que, em geral, todas estas merdas são muit amenizadas quando você está entre outras pessoas bêbadas que também dizem e fazem muita merda. Só que às vezes você percebe tarde demais que está muito mais bêbado do que todo mundo e que está sendo o mala da mesa e fazendo merda e causando pra caralho. Mas daí, enfim, já era. Você paga um puta mico ridículo, estraga a noite de todo mundo e passa o dia seguinte pensando que é um grande idiota e que não devia nunca mais beber.
É, até parece...o único jeito de esquecer a sua idiotice é bebendo mais e, possivelmente, fazendo idiotices ainda maiores.
Bom, felizmente eu tenho amigos bacanas que, espero, não vão levar tão em consideração este tipo de idiotice. Quer dizer, até vão, mas não o suficiente.

domingo, abril 01, 2007

Banalidades

Outro dia vi um estojo, de um menino na minha aula de inglês (aquela em que sou aluno, não a que sou professor). Era um daqueles estojos pretos, retangulares, com umas duas divisões de zíperes. Por dentro tem uns elastiquinhos pretos que servem pra prender as coisas, como lápis, caneta, borracha, apontador, etc.
Eu lembro que quando era pequeno quase todo mundo usava um destes. E eles eram um fato concreto e consumado da vida. Mas depois cheguei em uma época da vida em que as pessoas não usavam mais estojos, e daí nunca mais vi estes estojos assim. E, portanto, eles deixaram de fazer parte das coisas naturais da vida (como camas, escovas de dente, lousas, tênis, camiseta, etc).
Quando eu vi aquele estojo na aula de inglês depois de tantos anos, ele me pegou de surpresa. Era duas coisas ao mesmo tempo: algo que me remetia ao passado, àqueles dias em que estes estojos eram coisas cotidianas e a vida não existia sem eles. E também era só um estojo preto que um cara na aula de inglês usava, uma coisa qualquer destas que se vê por aí. E isso era algo que ele nunca foi quando eu era pequeno.
Anda cada vez mais difícil manter a coerência interna.
Há que se conciliar as coisas com as outras coisas. E muitas vezes são muitas coisas. E andam sendo cada vez mais coisas que se acumulam umas sobre as outras. E daí, as coisas que não deveriam ser coisas acabam se coisificando cada vez mais. E, a partir do momento em que são coisas, acumulam-se entre as outras coisas. E, afinal, sendo todas estas coisas apenas coisas (mesmo aquelas que antes não eram coisas), acabamos sendo obrigados a priorizar as coisas que nos devoram primeiro. E aquelas que não eram coisas e tornaram-se coisas acabam sendo cada vez mais coidificadas, e relegadas e esquecidas e perdidas...Porque as outras coisas, aquelas que sempre foram coisas, acabam devorando a gente mais rápido. Daí a gente pega todo nosso tempo, energia e tudo o mais, para lidar com estas coisas devoradoras. Até que um dia, no qual eu ainda não cheguei e não quero chegar nunca, você vai inevitavelmente esquecer e perder todas as coisas que não eram coisas e tornaram-se coisas e acabaram se enfiando por debaixo de todas as coisas que te devorariam se você não desse sua vida por elas.
E é assim que a banalidade consome o mundo.
E é assim que a vida consome os sonhos.
E é assim que as pessoas deixam de ser sujeitos e, por fim, transformam-se em coisas.

terça-feira, março 27, 2007

É, ando com bastante sorte... não bastasse não poder sair nas sextas-feiras, agora ainda me dou mal quando saio nos poucos sábados em que não estou acabado.
Ao sair da festa da Rita (que foi legal, mas poderia ter sido muito mais se as pessoas tivessem tirado suas bundas gordas do lugar e ido até lá), me deparo com o o vidro do carro quebrado. Engraçado, eu previ isso quando estava saindo dele. Não costumo ficar muito noiado com estas coisas, mas desta vez realmente fiquei preocupado. Claro que, ao invés de pegar minhas coisas, preferi me convencer de que estava sendo neurótico. Perdi uma parcela BEM grande dos meus cds preferidos. Perdi meu bilhete único, o da Vanessa, os cartões de banco dela, o rádio do carro, o vidro e, o que era mais valoroso, a minha sôfrega alegria que tinha conquistado a duras penas tomando mais álcool do que deveria e dançando mais do que poderia, tentando ignorar o fato de que eu era praticamente o único a fazer isso. É meio chato ser o cara que quer curtir a balada a valer quando quase todo mundo só quer ficar sentado, conversando ou até jogando cartas. Mas, quem diria, eu de fato consegui isso. Até consegui insistir o suficiente pra tocar pelo menos metade de dois dos três cds que passei muito tempo selecionando e gravando pra levar na festa e ninguém dançar. E, bem, por mais que isso tenha incomodado algumas pessoas que de fato poderiam preferir uma música mais ambiente do que o meu conceito estranho de trilha sonora para pessoas extremamente bêbadas dançarem enquanto são transportadas pros anos 70 e 80, ainda assim eu me diverti. Sabe, foi difícil mesmo. E em geral, quando nos esforçamos para nos divertir, não dá certo. Mas daí até deu.
Só que quando eu cheguei no carro e vi o vidro quebrado, foi como se toda a infelicidade que eu reprimi durante a festa viesse à tona de uma só vez. Como se na verdade eu só tivesse fingido que me diverti. E daí fui curtir a ressaca moral enquanto acordava um escrivão na DP pra fazer o meu BO e voltar pra casa sob um melancólico nascer do sol.
Recuperei o vidro quebrado com o seguro.
Passei meu domingo cuidando de burocracias, pegando fila pra pedir um novo bilhete único (que demora um milhão de anos pra ficar pronto e custa 23 reais).
Não vou recuperar meus CDs.
Quanto à felicidade, acho duvidoso...
Mas preciso parar de pensar nisso porque amanhã eu começo a dar aulas de redação pra umas pessoas que realmente precisam da minha ajuda pra passar no vestibular.

segunda-feira, março 19, 2007

quinta-feira, março 15, 2007

Desafiando o bom senso ou Boa idéia, Má idéia

Boa idéia: ter uma alimentação saudável, uma boa noite de sono, praticar esportes regularmente e ser feliz e medíocre.

Má idéia: Beber até uma e meia, tomar remédios que dão sono, chegar em casa e preparar um seminário pra aula do dia seguinte até duas e meia. Dormir três horas, acordar às cinco e meia e ir fazer um teste de natação de 10om.
Acho que, depois de passar um pouco mal pela minha estupidez, papai do céu resolveu me castigar com novas prendas. Ao chegar no vestiário e me deparar com meu óculos sem uma das lentes, fui obrigado a passar cerca de dez minutos tateando o chão do vestiário masculino até encontrá-la. Depois disso, o carro se recusava a dar a partida e eu ficava cada vez mais atrasado para a aula do seminário. Resolveu ligar só depois que eu liguei para uma amiga e pedi pra ela avisar o professor que eu não conseguiria chegar a tempo.
Aguardem para as próximas imbecilidades...
Sinto uma angústia horrível e dilacerante, uma vontade de sair correndo e chorar. Meu novo emprego tem uma relação direta com isso.
E fico pensando: é normal? vai passar? Quanto tempo eu aguento? Será que eu não sirvo pra isso?

terça-feira, março 13, 2007

Insólitas

Daí no outro dia eu estava numa festa. Discuti a história do Japão feudal e bebi vários vinhos, de Marcus James a um trazido pessoalmente por um sommelier bam-bam-bam. Fiquei conversando com um cara que trabalha com um amigo meu (Gunther) que eu não vejo faz tempo, tem uns quarenta anos e já fez uns curta-metragens (como o Masp Movie, disponível no Youtube).
Ouvi a síndica reclamando do barulho ferozmente e a dona da festa respondendo a altura.
Lá pelas tantas, chega a polícia. O policial A, por sua vez, entra na casa e toma um vinhozinho conosco e conversa amigavelmente com nossa anfitriã, enquanto o policial B, um pouco menos sortudo, fica do lado de fora ouvindo as reclamações da síndica (que é, aliás, o perfeito estereótipo da síndica velhaca e rabugenta).
Quando a gente sai da festa, eu vejo o par de policiais atendendo outra queixa um quarteirão abaixo. Se não fosse pelo bom senso exógeno da Vanessa, eu teria gritado: Ae policial A, desencana disso aí e vamos tomar um vinho.
Foi bem bacana.

domingo, março 04, 2007

Por que tudo que sobe tem que descer mas nem tudo que vai tem que voltar?

sábado, março 03, 2007

O negócio é ir indo. Se parar pra pensar, já era.

domingo, fevereiro 25, 2007

Se eu fosse um tipo de Deus da Música, um dos meus mandamentos ia ser um lance assim:
"Se as melhores músicas de sua banda forem as músicas de trabalho, então sua banda não merece respeito".

sábado, fevereiro 24, 2007

às vezes eu fico pensando que tudo que a gente acha e pensa, tudo o que faz, nossos esforços mais sinceros, nossas convicções mais inabaláveis, tudo isso é muito mais superficial do que nosso ego e nossa auto-estima querem que a gente acredite. Quer dizer, no final tudo se afunda quando as coisas mais banais vêm à tona com toda sua força.
Eu tive minha segunda enxaqueca hoje (pelo menos não foi tão horrível quanto a primeira, que eu tive na noite do ano novo) e em certo momento, quando minha cabeça doía horrivelmente depois de eu ter já tomado dois remédios que não serviram pra nada, que a coisa mais importante do mundo pra mim naquele momento era aquela dor e como eu queria que ela fosse embora. E eu não conseguiria fazer nada se aquela dor ficasse lá. Por mais altiva e importante que fosse a minha tarefa, aquela ridícula e banal dor na minha cabeça poderia me impedir de fazer isso. Me senti pequeno e fraco e patético (isso, é claro, depois que a dor passou e teve espaço na minha mente para este tipo de sentimento tão existencial que não pode competir com a minha dorzinha mesquinha e egoísta).

terça-feira, fevereiro 20, 2007

A vida é afundar em mediocridade e solidão lentamente (às vezes nem tão lentamente).
Morrer pode interromper a submersão. Mas isso não é necessariamente melhor.
às vezes, quando você já afundou demais, pode achar que as coisas sempre foram assim e parar de se importar.
Como você descobre quando chegou no fundo do poço?
Tenho saudade de ser quem eu não sou, de vez em quando.
E de quando as pessoas eram quem elas nunca foram.
Quer saber o que é ser solitário?

http://br.noticias.yahoo.com/s/17022007/40/entretenimento-homem-encontrado-morto-diante-televisor-ano-apos-falecer.html

sábado, fevereiro 17, 2007

Hoje na mídia bueguesa: a farra das minas peladas e o altruísmo em nome da paz.

Caranaval, samba, mulata, alegria. Estas coisas vêm a calhar para despertar o grandioso sentimento patriótico depois da humilhante e divertida derrota do glorioso Brasil na copa do mundo. A Globo, eu recomendo, é especial para descobrirmos todas as maravilhas do feriado.
No interlúdio ainda um espetáculo muito melhor:
Em nome da paz, a Globo dá uma cobertura de uns cinco minutos para um ato que ocorreu no Rio de Janeiro. Meia dúzia (e isso quase não é figura de linguagem) de tiozões gordos e peruas ridículas de classe média vestiram umas roupas brancas e desfilaram pelo calçadão, exibindo primorosos cartazes confeccionados em folhas sulfite, pedindo a paz e lembrando as vítimas de violência, como a porra do moleque arrastado pelo carro (Caralho, não aguento mais ouvir falar desta merda de moleque!). Juro, nunca vi um "ato de rua" mais patético do que aquele. E olha bem, eu já vou agora pro meu quarto ano de movimento estudantil! Mas a globo deu uma cobertura sem precedentes. Ainda pude ver um pouco dos outros meios de comunicação, apesar de infelizmente não ter acompanhado com a atenção que eles recebem por parte do resto do mundo. Na capa da revista mais gagá e idiota do mundo, a pergunta na cabeça de toda a classe média: "Não vamos fazer nada?" Na rádio Eldorado, um anúncio repetia a pergunta: "nós não vamos fazer nada?!?" Falando sério, acho que o editor chefe da Veja deve ser o J.J. Jameson, e o Hugo Chavez deve ser o Homem-Aranha da vez.

Em homenagem ao Carnaval:

G.R.E.S.
(Pato Fu)

Eu não gosto dos G.R.E.S.
Mas em fevereiro
Tenho que suportar os G.R.E.S.
O carnaval

Com seu espírito de festa
Suas cabrochas na avenida
churrasquinho podro
É uma imposição absurda

Dica do Fernando para sobreviver ao carnaval:
Muito Dostoiévski e cerveja no Toldão.

"Nós não vamos fazer nada?!?"
Eu, particularmente, vou: desligar a merda da TV, ler e encher a cara. Quanto a vocês, eu não estou nem aí.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Das espúrias relações humanas II

Outro dia eu estava observando uns casais de lésbicas. E a maior parte deles se encaixava direitinho no estereótipo menina meiguinha e moça grande e malvada. Tem vários casais de homens que também tem algo semelhante com isso. Daí eu fiquei pensando como isso é escroto. É um lance dos papéis sociais tão consolidados na nossa vida que não conseguimos escapar. Mesmo se você for lésbica, tem que ter o "macho provedor e dominador" e a "mulher frágil e dominada".
As porras dos relacionamentos sempre se tornam relações de dominação e poder, relações de disputa.
É uma merda mesmo tudo isso viu...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Velhos gagás

Primeiro foi o cretino do Ozzy Osbourne apresentando as estripúlias de sua velhice senil e suas criancinhas mega-burguesas mimadas aproveitando uma infância regada a milhões de dólares.
Sei lá, Black Sabbath é legal pra valer e tal, mas acho que qualquer um já esperava que ele fosse fazer uma imbecilidade destas. Não é como se fosse a primeira nem nada assim.
Agora o velho gagá mais tosco do mundo dá as caras no seu reality show INCRIVELMENTE IMBECIL.
Sim fãs de HQ de todos os cantos, Stan Lee apresenta seu programa "Who wants to be a super-hero?", com um apanhado de americanos cretinos se humilhando loucamente em busca de ser a nova cria do velho babão.
Sabe, eu nunca achei ele grande coisa. Acho que era um otário que deu sorte. Ele fazia umas histórias que, como dizia o Will Eisner, eram para "adolescentes idiotas do Kansas" (acredito que ele se referia ao Super-Homem que, de fato, era ainda pior). Acontece que umas pessoas boas pegaram estes heróis do Stan Lee e fizeram uma ou outra coisa bacana com eles, e isso fez eles valerem a pena. Mas, ainda que ele fosse medíocre, era necessário respeitá-lo. Nenhuma HQ, por fodida que seja, pode negar o precursor que ele foi, e as possibilidades que seus quadrinhos mainstream abriram. Ele era um Elvis das HQs. E é por isso que eu fico tão puto com esta bosta de programa que ele faz. Ele arrasta pro buraco da babaquice e da falta de dignidade junto com ele uma parte da história dos quadrinhos. Mas, no fim das contas, é a prova final de que ele é o imbecil que eu sempre desconfiei que ele fosse.
E, se o Neil Gaiman ou o Alan Moore algum dia fizerem uma merda assim, daí é hora de ir atrás de alguém com uma arma.
Sobre as espúrias relações humanas

Outro dia eu vi um pai "educando" seu filho. Estavamos em um ônibus e o pai dizia "segura" para ele segurar a barra, "senta" para ele sentar no banco, "levanta" para ele ficar em pé. Assim, como se fosse um cachorrinho mesmo. Todas as pessoas, evidentemente, tomavam tal comportamento como natural. Afinal, os pais são responsáveis por seus filhos. Por suas ações, por sua educação, por suas vestimentas, por sua alimentação, etc. É de conhecimento geral de todos que uma criancinha remelenta carece de diversos atributos que poderiam lhe propiciar a capacidade de suprir suas necessidades básicas. Isso, portanto, dá direito a quem lhe propicia tudo isso e que, diga-se de passagem, é também responsável pelo seu nascimento (conscientemente ou não), de dirigir os rumos de sua educação e dos primeiros anos de sua vida como bem entendender. Não deixa, enfim, de ser um tipo de dono da criança. E assim, quem poderia interferir no que um dono faz com sua posse? Se ele quer mandar sentar, que sente. Se ele quer ensinar as coisas mais escrotas, que ensine. Dentro é claro, dos limites impostos pela força da Lei, regida pela mais estrita força da moral e dos bons costumes.
Penso que há centenas de anos era perfeitamente natural que um bem apessoado indivíduo tratasse da mesma maneira sua servil esposa ou seu obediente escravo. Hoje, há pelo menos que se encobrir este tratamento com um quê de hipocrisia.
Mas o lance é que fiquei com vontade de mandar o cara no ônibus tomar no cu dele, assim como fico com vontade de fazer isso com dezenas de pais por aí. E acho uma merda que um filho da puta possa educar seu filho pra ser um filho da puta sem que eu possa ir lá e falar pro moleque: "Ei, seu pai é um filho da puta e tudo o que ele diz é merda".
Crianças, apesar de pentelhas e remelentas, não são coisas pra que seus pais decidam o que elas devem ou não saber, ou o que eles devem ou não pensar e fazer.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Primeiro, criamos nossas necessidades. Depois, nossas necessidades nos criam.

emprego, faculdade, cerveja, cama, ortodontista, apartamentos, contratos civis...
O cemitério sempre está mais próximo do que aparenta.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Ela corria no parque cinco vezes por semana, às cinco da manhã.
Ela, enchia a cara no boteco cinco vezes por semana, às cinco da tarde.
Ela tinha um plano, com metas e objetivos.
Ela, tinha algumas dívidas e um cachorro velho.
Ela tinha um emprego estável, uma renda fixa e um plano de previdência privada.
Ela, fazia bicos e pedia dinheiro aos amigos.
Ela visitava os pais, enviava cartões de natal para uma lista de amigos e contatos importantes, e levava um presente adequado nas visitas de ocasião.
Ela, não fazia festas de aniversário e encontrava colegas de boteco.
Ela sabia pra onde ir quando acordava. Sabia pra onde ir no fim do dia.
Ela, sabia para onde queria que tudo fosse e, sempre que dava, se esforçava para mandar tudo para lá.
Ela tinha um noivo, um compromisso, uma poupança para o enxoval e para o colégio do filho.
Ela, tinha uma queda estúpida e inabalável por alguém que tinha um emprego, um plano, uma meta e um trilho.
A vida era incurável, e ela pungia a cada abrir e fechar de dias.

terça-feira, janeiro 16, 2007

domingo, dezembro 24, 2006

Milagres


O natal é uma época de milagres.
Eu voltava pra minha casa a pé, os ônibus eram bissextos naquela manhã cinza da véspera do feriado. É ridículo, eu sei, mas a gente acaba sendo contaminado pelo sentimento de todo mundo em volta. E o tédio e a mansidão dos dias me faziam querer acreditar em alguma coisa diferente, qualquer coisa. Era por isso que eu andava com a cara meio franzida, mas com um sorriso por dentro, com a expectativa de algo por vir. A cada esquina que virava, me sentia um idiota por esperar que algo acontecesse, qualquer coisa que eu, na verdade, sabia que não aconteceria.
As ruas estavam meio vazias, algumas pessoas passavam com sacolas de compras. Um vento meio frio entrava por um buraco que eu tinha no sapato esquerdo, mas não me incomodava. Não era muito frio, e eu me apegava àquilo como se fosse algo digno de recordar, como se fosse um pequeno detalhe antes de um evento que me marcaria pro resto da vida e que, passados vários anos, eu poderia lembrar comigo mesmo: é, eu me lembro de cada detalhe daquele dia: tinha um furo no sapato esquerdo por onde entrava frio e, cruzando a esquina em frente à padaria, eu lembro distintamente de um velho carregando uma sacola de pães mornos, seu cheiro enchia a manhã e ele cantarolava uma música de natal. Me apegar a estas idiotices fazia parte da expectativa de um milagre de natal, bem como aquela falsa impressão de que tudo o que eu fazia podia ser importante e mudar a minha vida de alguma maneira. Sabe, quando você fica pensando em todos os detalhes e dizendo: se eu tivesse passado por esta rua cinco minutos depois, poderia ter sido assaltado e talvez levar um tiro na perna, isso poderia mudar toda a minha vida. Ou se, na quinta série, eu tivesse aceitado o convite da Maria pra ir à sorveteria nós poderíamos ter nos beijado, nos apaixonado, nos casado...Tudo era uma grande idiotice, mas o dia era diferente dos outros. Minha cabeça não deixava ser igual. As coisas banais tinham aquele potencial e aquela poesia de alguns livros, tudo era um fluxo de consciência na minha cabeça. Ou pelo menos eu fingia que era assim.
Minha vida não era um ambiente propicio a milagres. Mas, pensando bem, acho que a vida de ninguém é, e talvez por isso todo mundo precise tanto do Natal. É como um dia em que todos podem olhar qualquer besteira e revesti-la de um caráter mágico, especial. Tudo pode ser um milagre. Só que eu acho que na maioria das vezes isso dá meio errado, como se o tiro saísse pela culatra. Atravessei a rua olhando pela janela de uma casa: uma família assistia televisão, pareciam esperar pela ceia. Não diria que pareciam especialmente felizes, mas pareciam querer estar, se esforçavam por encontrar um amor familiar e um apego à vida que certamente nunca teriam numa segunda-feira à tarde, por exemplo. Era algo assim, como um dia em que tudo lhe diz para parar e contemplar a vida, para procurar o valor das coisas que deveriam ser valorosas e que deixamos passar batido.
Ao atravessar a Consolação vi um mendigo maltrapilho que esparramava sua vida na rua, como todos os dias. Só que hoje era mais triste.
É claro que o tiro sai pela culatra. Pensa só: de repente você se vê obrigado a confrontar tudo aquilo que fez e faz da sua vida, todos os caminhos que trilha e, principalmente, os que deixa de trilhar. Não é o tipo de coisa que deixa uma pessoa ilesa. Ainda mais se você está sozinho, sem um peru e uma numerosa e barulhenta família para dispersar seus pensamentos. Sei lá, uma ou duas garrafas de cidra barata e um pouco mais de disposição e pronto, você resolve que não vai mais ter que passar por isso no ano que vem. É quase uma seleção natural da sociedade de consumo, um feriado em que a maioria das famílias ricas desembolsa uma quantidade satisfatória de dinheiro e, por outro lado, um punhado de gente relativamente inútil se mata. Quer dizer, talvez seja uma generalização idiota, mas acho que o pessoal que costuma se matar no ano novo são também aqueles que costumam gastar e ganhar menos dinheiro. Claro, deve ter sempre um ricaço com crise de consciência, pensando que não dedicou tempo suficiente de sua vida à família e coisa e tal. Mas, convenhamos, se você tem um bocado de dinheiro é mais fácil comprar algo pra te aliviar.
Talvez neste ano eu estivesse mais triste e amargo do que de costume mas, mesmo assim, enquanto perambulava pelas ruas e pensava este monte de asneiras, eu ainda não conseguia controlar aquela minha parte que sabia: o Natal é uma época de milagres. E, pensando bem, acho que a melhor vítima pra um milagre redentor e maravilhoso é alguém assim, com uma vida medíocre, meio sem perspectivas. Talvez, se eu estivesse pensando em me matar, fosse um candidato melhor. Mas não. Não era que a idéia do suicídio me parecesse desagradável em si, mas é que na minha cabeça sempre houve algo de auto-indulgente demais a respeito do suicídio. Me deixava desconfortável a idéia de que parentes e “amigos” fossem estar no meu enterro, comentando sobre como sentiam pena de mim, e eu estaria esticado no caixão sem a menor possibilidade de mandá-los à merda.
Na verdade eu não estava indo pra casa. Apenas andava naquela direção, porque era o único lugar que tinha pra ir. Era mais deprimente e tedioso lá, e nas ruas eu não me sentia exatamente triste. Era uma melancolia quase agradável e contemplativa, esperando meu milagre em cada instante. Nas ruas, sempre é mais fácil encontrar milagres. Mas estava um pouco frio, e minhas pernas começaram a cansar de andar, por isso resolvi procurar meu milagre esperando um pouco no primeiro banco que encontrei e que, por acaso, foi o do ponto de ônibus. Uma vez sentado no banco frio e um tanto desconfortável do ponto, repassava na minha cabeça outros natais e as coisas que eles levaram. Às vezes, concluí, os milagres até aconteciam. Notei então, em frente ao ponto, uma banquinha de livros velhos. O vendedor, com a boa vontade dos meus olhos natalinos, poderia ser o papai Noel disfarçado. Ele me aguardava com a paciência dos benfeitores, separava em sua sacola de bondades o meu milagre de Natal. Mas tudo o que pude encontrar ao me aproximar da banca foi um velho triste e solitário que, graças a algum problema na perna, mal podia se levantar. E trazia o rosto triste dos que trabalham no Natal para poder sobreviver. Sem milagres.
Esperando no ponto li o livro que comprei do velho por uma bagatela. As páginas amassadas e amareladas traziam contos de Natal de autores quase anônimos, que de certo passaram algum natal escrevendo e esperando seu próprio milagre de levar ao mundo suas palavras. Reconfortava-me pensando que, ao ler aquele livreto toscamente impresso, ajudava de alguma forma a realizar o milagre de Natal dos que o haviam escrito. E, é claro, eu também sabia o quanto era idiota pensar isto. Cerca uma hora lendo aquelas páginas não me aproximaram não de um milagre. Nas histórias em que li estes eram abundantes e redentores. Traziam a quem os recebia e presenciava um momento epifânico em que, por fim, todo o sentido do Natal se revelava. As pessoas mudavam, o mundo mudava. Tudo mudava. Nas histórias, as pessoas não pegavam ônibus e nem procuravam por milagres em uma rua cinza de São Paulo. Elas também não se afunilavam entre multidões sufocantes tentando comprar seus presentes na rua 25 de Março. Jesus estava presente em muitas delas, às vezes mais do que Papai Noel. Mas nunca era representado em um presépio de plástico fabricado na China e montado por um velho e rabugento síndico na portaria de um prédio. Os milagres das histórias nunca eram fruto de luzinhas coloridas que são ligadas na tomada, nem tampouco os protagonistas se referiam a tais luzinhas como portadoras do espírito do Natal e sei lá o que.
Uma das histórias, dizia o prefácio do livro, era uma versão de tal autor sobre um conto de natal clássico de um cara chamado Charles Dickens. Era sobre um cara rico e muquirana que recebe uma visita de uns espíritos e vira um cara um pouco menos muquirana porque tem medo de ser castigado por sua mesquinharia depois da morte. Esta história foi a única, acho, que pareceu ter algo em comum com a minha vida. Meu patrão parecia o sujeito da história, e parecia também ter medo de ser castigado se não fizesse boas ações. De fato, ele me deu uma bonificação de natal e um peru pessoalmente, e mandou um cartão enfeitado pra minha casa. Uma semana depois, no entanto, ele mandou um encarregado me dizer que a firma estava passando por um processo de reestruturação e que, infelizmente, na prática isso queria dizer que eu ia começar o novo ano sem emprego. Esta última parte não estava em nenhuma das histórias, e acho que Papai Noel não costuma trazer empregos em sua sacola. De qualquer maneira, eu não tenho chaminé e não escrevi uma carta pra ele. Acho também que ele não diria que me comportei bem neste ano.
Quando meu livro já estava quase no fim, enfim chegou o ônibus. Encontrei-o relativamente cheio, dividindo seu espaço entre as pessoas que voltavam para casa e as sacolas de presentes que se amontoavam. O cobrador tinha um rosto fatigado, os cabelos esbranquiçados e a expressão marcada por rugas que começavam a se insinuar. Eu senti um desejo sincero de desejar a ele e sua família um feliz natal e, de alguma forma, fazer brotar um sorriso em seu rosto. Contentei-me em lhe esticar em notas amassadas e moedas o dinheiro trocado da passagem e passar em silêncio pela catraca. Durante a viagem, as pessoas estavam ensimesmadas em seus sacos de presentes.
Não conversei com ninguém, como sempre costumo fazer dentro de qualquer ônibus que pegue. Só que hoje era mais triste.
Minha ceia foi um salgado gorduroso, duro e ressecado e algumas garrafas de cerveja em um boteco. Fiz questão de entrar em um que nunca tivesse freqüentado. Eu sabia que os milagres se escondem nos lugares mais improváveis. Minha sociabilidade de Natal foi facilitada pelo álcool, e acabei entabulando uma conversa com uma prostituta que se apresentou como Leila. Falei todo tipo de idiotices pra ela, e ela não apenas ouviu como também respondeu e parecia até mesmo alegre ao conversar comigo. Atribuí isto ao fato de que ela estava acostumada e, como requisito da profissão, agüentava todo tipo de bêbado idiota, fazendo com que eles acreditassem que ela estava se divertindo. Mas acho que ela não alimentava ilusões de que eu fosse um cliente em potencial. Já havia deixado bem claro a minha falta de dinheiro ou de vontade de usá-lo, caso tivesse, para garantir uma trepada de natal. Acho que isso seria ainda mais solitário e triste do que beber até cair e vomitar na sarjeta. Só que a menina era legal mesmo, e acho que resolveu conversar comigo porque devia também querer alguma companhia para passar o Natal. Pareceu-me bastante compreensiva quando lhe confessei que procurava um milagre de natal. Achei que, mesmo sem confessar, ela fazia o mesmo. Muita gente faz. Contei do livro que havia comprado. Ela disse que conhecia a tal história do muquirana, que ela havia visto um desenho do pato Donald sobre isto. Nesta hora, lembro-me que começamos a tomar um conhaque vagabundo em celebração à noite. Ríamos e falávamos alto.
Sabe, eu confesso que não me lembro exatamente o que aconteceu depois disso. Algumas imagens esparsas me ocorrem de vez em quando, como um álbum de fotografias desarrumado. Tudo o que sei é que no dia seguinte acordei com uma dor de cabeça a mais e todo o meu bônus de natal havia sumido sem deixar rastros. Achei um papel com um telefone, e algumas coisas escritas em uma letra meio ilegível e borradas por algum líquido. Não quero pensar sobre o que pode realmente ter acontecido. Prefiro ter a certeza de que durante este turbilhão de horas, eu encontrei meu milagre de Natal.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Tá bom então...
Quanto a mim, tenho uma reconfortante pilha de livros, um quarto inteiro pra arrumar, e outras coisas. É, bem, vamo aí...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tanta coisa...
e uma hora você para e fica pensando:
pra onde será que eu estou indo mesmo?

domingo, outubro 01, 2006

NULO

Estamos em quarto lugar nas pesquisas. Mas é engraçado como mal se divulga o assunto. A única forma de divulgação é o apelo desesperado de todos os jornalistas, comentaristas e órgãos como o TSE implorando que as pessoas não votem nulo e dizendo como isso "enfraquece a democracia" e outras imbecilidades do tipo.

terça-feira, setembro 12, 2006

CHUPA! CHUPA!!!!
Realizaram um sonho maravilhoso que eu tinha em minha mente, uma destas coisas bonitas que você sempre quis realizar na vida, mas sempre foi uma utopia.
Há dias em que você recupera um pouco da esperança de que o mundo pode ser um lugar justo e bom, e hoje é um destes dias.
Até mais Excelentíssimo Coronel Ubiratan. Neste momento singular eu gostaria que realmente houvesse uma vida após a morte, onde você pudesse sofrer mais.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u125835.shtml


Ah, estou pensando que deveríamos fazer uma festa de comemoração, talvez no espaço aquário. Quem topa?

domingo, setembro 10, 2006

Tudo bem, eu sei que não tenho doenças incuráveis e tenho todos os meus membros e que os meus problemas são todos bobinhos e vivem praticamente dentro da minha cabeça depressiva pós-adolescente pseudo-niilista de moleque desocupado do começo do século do fim do mundo. Mas, afinal, fizemos blogs para escrever coisas belas e edificar o conhecimento e a moral dos nossos tempos ou fizemos para ficar reclamando de nossas vidinhas pacatas e medíocres de pequenos-burgueses pretensiosos impotentes diante da crueldade e feiúra do mundo e de nós mesmos? (e repare que a primeira pessoa do plural é puramente um efeito retórico e eu não tive a intenção de envolver nenhum de vocês em meus toscos draminhas pessoais tá? E como a pergunta também foi retórica, e nós já sabemos a resposta, vamos pular direto pra parte onde eu começo o famigerado mimimi).
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Você precisa parar de ser vítima das coisas, Fernando.
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...

quarta-feira, agosto 23, 2006

E até mesmo isso agora.

Sleater-Kinney acabou.

As coisas carecem de rumo...