A conhecida citação de Lênin diz tudo, e qualquer um que se pretenda um militante revolucionário minimamente consequente há de concordar com isto, seja ou não partidário do Leninismo. Para nós, vivendo em uma época em que o legado de tradições das lutas do movimento operário e socialista remonta mais de dois séculos, e em que a ideologia triunfante burguesa (e até mesmo muitos que se autodenominam como "de esquerda") alardeou o fim da União Soviética como a vitória final do capitalismo, a tarefa de estudar e resgatar esta história a fim de aprender suas lições é tão difícil quanto necessária.
Por experiência própria sei que é prática comum entre a militância de esquerda (talvez no Brasil em especial) fazer tabula rasa da vastíssima experiência de lutas dos trabalhadores, descartando absolutamente tudo o que veio antes como inútil sem ao menos se dar ao trabalho de conhecer isto que se joga fora. É uma tentativa inútil, desesperada e leviana de criar algo como um foguete espacial sem querer saber ao menos como se faz um motor de combustão. É impressionante, no entanto, como um modo de agir tão estúpido vigora com tanto fervor entre a esquerda. Eu mesmo, por exemplo, demorei anos até me dar conta de que tomava tal atitude.
Entretanto, a postura mais perniciosa diante da teoria revolucionária e da história da luta pelo socialismo leva esta cretinice adiante, pois, além de ignorar flagrantemente a história, acredita que sabe dela tudo o que é necessário, transformando análises absolutamente superficiais em dogmas dignos de serem seguidos às últimas consequências.
A história está repleta de nomes que dedicaram longas vidas inteiramente à causa revolucionária, e que morreram sem aprender uma ínfima parte do que desejavam. Em geral, sua luta levou a sua morte prematura. Está repleta também de erros e acertos das lutas pregressas, cujo simples estudo poderia ajudar enormemente a nos prepararmos para as lutas vindouras. Poucos são os revolucionários dignos de respeito que, ao longo de sua vida, não mudaram posturas e reviram pontos fundamentais de sua prática pautados em elaborações teóricas que foram frutos de um confrontamento cotidiano de suas concepções diante da realidade concreta. Muitas vezes, aqueles que se vangloriam de peito estufado de uma pretensa "coerência teórica" são os mais obtusos militantes. Alguns dos textos mais brilhantes da história da teoria socialista são os textos de polêmicas, em que os revolucionários se debruçavam exaustivamente sobre concepções alheias, esforçando-se para demonstrar porque e em que estas estavam equivocadas.
Já passa da hora de retomarmos seriamente estas tradições, de realmente pensarmos criticamente nossas práticas, pois sem isso estamos fadados ao fracasso e a mediocridade. Estes já são um terrível peso sobre as costas de um indivíduo. São muito piores quando temos a responsabilidade de fundarmos um projeto coletivo, que pretende ser uma luta pela emancipação de toda a humanidade, junto com nossos próprios erros.
terça-feira, janeiro 27, 2009
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Acho que não sei mais fazer este negócio de blog, tem ares de coisa muito estúpida pra que eu consiga fazer algo bom dele.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.
Ando tentando ler 5000 páginas antes de voltar às aulas, pra ver se consigo pelo menos aproveitar as férias.
Quem passar aqui, deixe o link de seu respectivo site pq perdi todos quando fui mudar o lay-out do meu.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Acho que vou ter que retornar aos tempos da máquina de escrever. O Word não aceita minha tentativa de escrever várias palavras juntas sem espaço. Tentei em três computadores diferentes, e ele SEMPRE dá pau. Vou ver se o BrOffice é menos cretino. Como pode um programa que é desenvolvido há tanto tempo por uma megacorporação multimilionária ser tão absolutamente tosco?
quarta-feira, novembro 05, 2008
segunda-feira, outubro 13, 2008
Passei por aqui só pra falar bobagens, ando sufocado pelo dia-a-dia (e quem não anda?)
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?
Estou com medo de não conseguir saber me motivar para nada corretamente. Eu acho que até poderia ser uma pessoa melhor, apesar de incontáveis erros e besteiras, se tivesse o mínimo de determinação para as coisas. Pela primeira vez estou me convencendo de verdade de que tenho um desvio depressivo patológico. Quando permaneço um período de tempo, ainda que curto, sem tomar remédios, sinto-me pior. Mas sinto-me pior do que me sentia antes de tomá-los. E me assombra a dúvida: será que me sinto pior mesmo, ou que nunca havia percebido como me sentia mal? As dores de cabeça voltaram (as literais, pois as outras nunca me abandonaram).
Desculpem-me os poucos leitores destas linhas bestas. Andei reparando que quase não há tradução de Maiakóvski para o português. Será que eu deveria me arriscar nestes caminhos? O mundo é tão vasto, e eu, tão pequeno.
Afinal, onde estão meus laços? E como estão vocês?
sexta-feira, setembro 19, 2008
sexta-feira, setembro 05, 2008
Transformar nossas vidas em uma parte de um coletivo não é tarefa fácil. Nossas rotinas e a inescapável missão de sobreviver neste mundo nos forçam constantemente a segmentarmos completamente tudo aquilo a que aspiramos e tudo o que produzimos. Mergulhamos em nossos empregos, em nossos estudos, em nossos relacionamentos (por si só já fracionados e determinados, com hora certa para serem vividos), em nossos medos e nossas esperanças.
Começo a perceber drasticamente que este sentimento que nos é imposto a cada momento que é o que mais me assusta e desanima, mais consegue me vencer nesta luta cotidiana. O medo de uma solidão que é muito maior do que simplesmente estar sozinho. É o medo de uma solidão existencial, uma solidão de viver uma vida que não converge para nada, exceto para a inevitável percepção de como podemos ser vazios se estamos isolados. É exatamente assim que, creio eu, surge aquela terrível solidão em meio à multidão. A falta de nos percebermos como parte de um mundo e a crença tola de que somos excepcionalmente singulares e aboslutamente incompreensíveis para aqueles que nos vêem pelo "lado de fora".
Para mim esta solidão, e é preciso convencer-me disto a cada dia, é o fruto da ideologia em que estamos imersos. E é uma evolução natural, cunhada em séculos de nossa cultura. Provavelmente o grosso de seu germe é aquilo que descende do Romantismo, das idéias de gênio solitário, da expressão da subjetividade e, enfim, de toda esta concepção artística que deriva diretamente da consolidação da burguesia como classe dominante. E assim, isolados, vivemos nossas vidas.
Apeguei-me, durante todo o tempo, àquilo que meu desespero me conduziu na tentativa de escapar desta sensação de isolamento completo. Amigos, namoradas, família. Sentir-me próximo de pessoas. E agora percebo o quanto também destes refúgios é tragado cada dia mais pela simples rotina, que teima por jogar-nos em projetos de vida individuais, voltados para sabe-se lá o que. Estes refúgios são necessários, mas nunca serão suficientes se não olharmos mais adiante.
Superar a solidão individualista é algo que não se faz sozinho, e muito menos pode ser um processo completo dentro de nosso mundo. Mas sem dúvida faz parte de uma tarefa tão cotidiana quanto fundamental. Acreditar na revolução não me basta. E hoje, para mim, a tarefa de transformar minhas crenças em dia-a-dia está intimamente associada a romper a barreira da solidão. A crise de subjetividade que nos assola somente será rompida no momento em que conseguirmos também transformar nosso cotidiano com o estabelecimento sólido de vínculos de solidariedade com aqueles que o mundo teima em afastar de nós.
Tudo isto é fruto de uma prisão e uma mentira, que temos que destruir. Quanto àqueles que deveriam estar ao meu lado mas querem me enxergar como um inimigo, posso apenas espera-los de mão aberta, até o momento em que percebam que o nosso inimigo é comum, e que para vencê-lo é necessário que ataquemos juntos.
Começo a perceber drasticamente que este sentimento que nos é imposto a cada momento que é o que mais me assusta e desanima, mais consegue me vencer nesta luta cotidiana. O medo de uma solidão que é muito maior do que simplesmente estar sozinho. É o medo de uma solidão existencial, uma solidão de viver uma vida que não converge para nada, exceto para a inevitável percepção de como podemos ser vazios se estamos isolados. É exatamente assim que, creio eu, surge aquela terrível solidão em meio à multidão. A falta de nos percebermos como parte de um mundo e a crença tola de que somos excepcionalmente singulares e aboslutamente incompreensíveis para aqueles que nos vêem pelo "lado de fora".
Para mim esta solidão, e é preciso convencer-me disto a cada dia, é o fruto da ideologia em que estamos imersos. E é uma evolução natural, cunhada em séculos de nossa cultura. Provavelmente o grosso de seu germe é aquilo que descende do Romantismo, das idéias de gênio solitário, da expressão da subjetividade e, enfim, de toda esta concepção artística que deriva diretamente da consolidação da burguesia como classe dominante. E assim, isolados, vivemos nossas vidas.
Apeguei-me, durante todo o tempo, àquilo que meu desespero me conduziu na tentativa de escapar desta sensação de isolamento completo. Amigos, namoradas, família. Sentir-me próximo de pessoas. E agora percebo o quanto também destes refúgios é tragado cada dia mais pela simples rotina, que teima por jogar-nos em projetos de vida individuais, voltados para sabe-se lá o que. Estes refúgios são necessários, mas nunca serão suficientes se não olharmos mais adiante.
Superar a solidão individualista é algo que não se faz sozinho, e muito menos pode ser um processo completo dentro de nosso mundo. Mas sem dúvida faz parte de uma tarefa tão cotidiana quanto fundamental. Acreditar na revolução não me basta. E hoje, para mim, a tarefa de transformar minhas crenças em dia-a-dia está intimamente associada a romper a barreira da solidão. A crise de subjetividade que nos assola somente será rompida no momento em que conseguirmos também transformar nosso cotidiano com o estabelecimento sólido de vínculos de solidariedade com aqueles que o mundo teima em afastar de nós.
Tudo isto é fruto de uma prisão e uma mentira, que temos que destruir. Quanto àqueles que deveriam estar ao meu lado mas querem me enxergar como um inimigo, posso apenas espera-los de mão aberta, até o momento em que percebam que o nosso inimigo é comum, e que para vencê-lo é necessário que ataquemos juntos.
domingo, agosto 31, 2008
Sete e sete são catorze
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.
Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como poderei viver? Como poderei viver?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Somente a solidão nos une.
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.
Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?
Como poderei viver? Como poderei viver?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Sem a tua
sem a tua
sem a tua companhia?
Somente a solidão nos une.
quinta-feira, agosto 28, 2008
segunda-feira, agosto 25, 2008
Há algo que nunca se encaixa.
E eu fico pensando como será possível um dia as pessoas se entenderem.
Às vezes eu acho que o problema é comigo, sou eu.
Mas quando eu consigo olhar pro mundo eu vejo que não sou só eu.
Eu queria poder olhar nos olhos de todos e saber sentir seus sorrisos e suas lágrimas. Eu queria que as palavras fossem o coroamento de uma relação de compreensão e afeto, e não as armas que levantamos para lutar contra os outros.
Eu queria que os abraços, os sentimentos e as lições que aprendemos não fossem tão efêmeros.
Eu queria que a vida fosse uma experiência verdadeiramente coletiva. Mas eu me aparto destes sonhos com uma lúcida tristeza.
Me perdoem.
E eu fico pensando como será possível um dia as pessoas se entenderem.
Às vezes eu acho que o problema é comigo, sou eu.
Mas quando eu consigo olhar pro mundo eu vejo que não sou só eu.
Eu queria poder olhar nos olhos de todos e saber sentir seus sorrisos e suas lágrimas. Eu queria que as palavras fossem o coroamento de uma relação de compreensão e afeto, e não as armas que levantamos para lutar contra os outros.
Eu queria que os abraços, os sentimentos e as lições que aprendemos não fossem tão efêmeros.
Eu queria que a vida fosse uma experiência verdadeiramente coletiva. Mas eu me aparto destes sonhos com uma lúcida tristeza.
Me perdoem.
domingo, fevereiro 17, 2008
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Dizem, e as palavras passeiam rápido através da superfície das línguas ferinas que se alimentam do chorume das tristezas alheias, que as crônicas de uma triste peregrinação nunca estão completas até que a primeira gota de sangue toque o solo. Antes disto, tudo é um prelúdio, uma elaborada dança de corpos e mentes que, como um antigo ritual sagrado demais para que sobre ele se fale, encena-se num sombrio jogo de adivinhações. As facas quentes das palavras e gestos colocam suas lâminas em brasa na fogueira dos desejos. Os olhares, os toques, as lembranças. É tudo alimento, tudo é água no deserto da solidão.
Sentado num sofá, o corpo poeirento de milênios de espera, a alma amortecida de tanto pensar, o espírito calejado de tanto doer. A ânsia secreta por um projeto de vida, por um sonho de abrir, com a envergadura de quem não tem mais coragem de temer a vida inteira, as longas asas em direção ao mistério.
E se jogar. Sim!
Num último ato de desespero e esperança; em direção ao sol, em direção ao solo, em direção ao sonho. E sentir as batidas tribais de um coração estúpido e o vento lambendo as lágrimas, descolando-as dos olhos, lavando o pó dos anos, enquanto se aguarda o resultado daquelas asas estendidas. Em um golpe de sorte tudo se decide: ou se voa rumo ao longe, ou se fica rumo ao chão.
O impacto teria a dor surda de um fim sem homenagens, sem elegias. Nem ao menos uma voz rouca para cantar as vergonhas de uma alma que se despede sem vitórias.
O vôo teria o medo do novo. E os caminhos infinitos que se abrem numa jornada, cada passo é uma porta aberta no fio da navalha.
Viver é feito de desafiar a si mesmo.
Sentado num sofá, o corpo poeirento de milênios de espera, a alma amortecida de tanto pensar, o espírito calejado de tanto doer. A ânsia secreta por um projeto de vida, por um sonho de abrir, com a envergadura de quem não tem mais coragem de temer a vida inteira, as longas asas em direção ao mistério.
E se jogar. Sim!
Num último ato de desespero e esperança; em direção ao sol, em direção ao solo, em direção ao sonho. E sentir as batidas tribais de um coração estúpido e o vento lambendo as lágrimas, descolando-as dos olhos, lavando o pó dos anos, enquanto se aguarda o resultado daquelas asas estendidas. Em um golpe de sorte tudo se decide: ou se voa rumo ao longe, ou se fica rumo ao chão.
O impacto teria a dor surda de um fim sem homenagens, sem elegias. Nem ao menos uma voz rouca para cantar as vergonhas de uma alma que se despede sem vitórias.
O vôo teria o medo do novo. E os caminhos infinitos que se abrem numa jornada, cada passo é uma porta aberta no fio da navalha.
Viver é feito de desafiar a si mesmo.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Foi aí. Abrupto, aquele ódio irracional estancou numa engolida em seco, com gosto de cigarros e uma bebedeira de cerveja, que já começava a se transformar em ressaca na boca azeda e na mente empapuçada. Olhos estáticos, corpo imóvel. A mente se calou por dentro, ficou sentindo os reflexos lentos do corpo. O peito chiava arfante numa respiração difícil. O coração tamborilava sacudindo todas as veias, sentia-o retumbando no ouvido e latejando nas mãos. Foi invadido pela consciência da manhã que despertava, com seu frio manso e um galo que esganiçava em uma qualquer vizinhança. Sentiu então, como se fossem de outro, as gotas de sangue que lhe escorriam pelo braço. E a pontada de dor na mão cortada veio como um pungente aviso de que estava vivo, e que parecia que não podia fazer nada contra isto. Não podia fazer mais nada contra o dia que vinha em ondas fortes, destruindo o que encontrava por sua frente. E seu cérebro, alagado por aquele regurgitar salgado e incessante, agitou-se furioso mais uma vez, tentando entender alguma coisa. Desesperadamente qualquer coisa.
No chão, as gotas vermelhas pingavam formando pequeninos círculos no piso branco. Aqui e ali jaziam os cacos mortos do copo de requeijão, únicas testemunhas e cadáveres esmiuçados do cúmplice que transportara em longos goles a cerveja para dentro da boca, do esôfago, do estômago ulcerado, da mente confusa, cansada, sedenta.
Não adiantara.
Sentou-se maquinalmente, olhos vidrados, na cadeira ali ao lado. As primeiras lágrimas desta nova leva saíram ardidas dos olhos, acompanhando o flexionar pesado das pernas. A mão caiu sobre os joelhos espalhando manchas rubras pelo tecido cor de creme. Começaram aos poucos a vir as imagens da briga em soluços arrependidos de memória. Gritou, lembrava, mas não sabia dizer o quê. Provavelmente balbucios desconexos que naquele momento pareciam botar pra fora todo o medo que guardava a cada segundo e minutos dos dias pretensamente felizes. Seu ódio era uma colcha de retalhos daquelas pequenas provocações que se acumulavam, misturado com os sorrisinhos que lhe foram vendidos a tão alto preço. Sentiu a vida como um grilhão e desmaiou no sofá. Precisava de sonhos.
No chão, as gotas vermelhas pingavam formando pequeninos círculos no piso branco. Aqui e ali jaziam os cacos mortos do copo de requeijão, únicas testemunhas e cadáveres esmiuçados do cúmplice que transportara em longos goles a cerveja para dentro da boca, do esôfago, do estômago ulcerado, da mente confusa, cansada, sedenta.
Não adiantara.
Sentou-se maquinalmente, olhos vidrados, na cadeira ali ao lado. As primeiras lágrimas desta nova leva saíram ardidas dos olhos, acompanhando o flexionar pesado das pernas. A mão caiu sobre os joelhos espalhando manchas rubras pelo tecido cor de creme. Começaram aos poucos a vir as imagens da briga em soluços arrependidos de memória. Gritou, lembrava, mas não sabia dizer o quê. Provavelmente balbucios desconexos que naquele momento pareciam botar pra fora todo o medo que guardava a cada segundo e minutos dos dias pretensamente felizes. Seu ódio era uma colcha de retalhos daquelas pequenas provocações que se acumulavam, misturado com os sorrisinhos que lhe foram vendidos a tão alto preço. Sentiu a vida como um grilhão e desmaiou no sofá. Precisava de sonhos.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Outro dia voltava para casa a pé às seis da manhã e tinha comigo mesmo uma das mais furiosas discussões que já tive.
Um lado me acusava de ingênuo, volúvel, falso, leviano, inconsequente, anarquista imbecil pequeno burguês.
O outro me acusava de conservador de direita retrógrado, conformista, apático, desiludido, machista.
Uma hora, quando passando em frente à Igreja dos Mormons, vi uma cara assustada de um hdei por mim mesmoomem que cruzava comigo. Eu era um sujeito com cara de maluco, roupas amassadas, olheira de maquiagem, cara de bêbado, rindo e chorando ao mesmo tempo e falando alto comigo mesmo o seguinte: "Vocâ tá louco? Você tá louco?"
Um lado me acusava de ingênuo, volúvel, falso, leviano, inconsequente, anarquista imbecil pequeno burguês.
O outro me acusava de conservador de direita retrógrado, conformista, apático, desiludido, machista.
Uma hora, quando passando em frente à Igreja dos Mormons, vi uma cara assustada de um hdei por mim mesmoomem que cruzava comigo. Eu era um sujeito com cara de maluco, roupas amassadas, olheira de maquiagem, cara de bêbado, rindo e chorando ao mesmo tempo e falando alto comigo mesmo o seguinte: "Vocâ tá louco? Você tá louco?"
sábado, dezembro 15, 2007
Parcialmente escrito, praticamente baseado em um sonho desta tarde...
Era um dia de agitações na protocidadela. Nos últimos meses o comichão de suas fronteiras havia devorado léguas de mata virgem e pasto inerte. No bairro velho fervilhavam conspirações, sibilavam ameaças entre as línguas ásperas dos velhos druidas enrugados. Os aprendizes ensimesmavam-se em treinações e ambições que recriavam suas mentes em plena expansão e derreformação. Os bruxistas não deixavam por menos, recalcando pirotecnias e transcriando as velhas cavernas enfumaçadas e escuro-piscantes. O cheio se espalhava longe nas ruelas se impregnadas de molecarias maltrapilhas emprumando-se em desejosos sonhos de integrar ambas as corjas. Velhotas carcomidas arrastavam carroças rangentes repletas de bagulheiras misteriosas, mesclando-se entre o populacho anunciavam supostos ingredientes poderosos vindos das terras distantes. Escamas petrificadas de Dragonilhos cornudos das planícies desérticas, sabugos ressecados das florestas faéricas, pisadelas de enxofre dos homúnculos ferozes do sul e outras tantas tranqueiras eram apregoadas em gritos estridentes e roucos. Os velhos magos ressabiados aproximavam-se raramente e apossavam-se de algum artigo soterrado ao fundo das tranqueiras de alguma vendedora, não sem antes remexer seus melindrosos bigodes em caretas e insultos, pechinchando as mercadorias com palavrarias tão antipáticas quanto inabilidosas. Os jovens aprendizes esbofeteavam-se em algumas filas, desesperados por colocar suas mãos em alguma bugiganga com cheiro de exoticidade. Ávidos, levantavam seus narizes sobre as cabeças uns dos outros e, com os olhos brilhosos, tentavam farejar através do ar semiprovinciano e rançoso de suor e pós mágicos de toda sorte, algo que pudesse lhes trazer a sorte grande.
Para além das fronteiras difusas dos conluios mágicos o burburinho persistia em outras formas. Viajantes de todas as partes se esbarravam nas estreitas ruelas, entre preocupados e curiosos, reviravam o lugar com os olhos e com o que mais pudessem. Procuravam por tudo. As tramarizes mulheres do bairro de baixo seducilhavam aqui e ali, espalhando por entre os recém-chegados os rabelhos flutuantes de suas belas roupas dançantes, deixando rastros lilases, azulados, rosáceos, remisturando-se. Os cheiros de almíscar, jade, canela e toda a sorte de frutilhas afrodisíacas ouriçava os pêlos dos passantes, encobrindo por completo o cheiro acre nauseabundo de suor, sangue pisado e estrume dos animais fedorrentos que eram puxados por seus donos ou arrastavam carruagens indiferentes ao buchicho das ruas. Suas risadas melodiosas e olhares ferinos, dissimulados, perfurantes, rebolavam demoradamente no ar. Rasgavam conversas broncas ao meio, cortavam pensamentos compenetrados. Passavam em passos graciosos, pretensamente indiferentes e desinteressados daquela vulgaridade que gorgolejava em altos brados por toda a cidade. Em segundos desapareciam, mas ainda assim estavam sempre por toda parte.
Velhos conhecidos se reencontravam em estrondosas gargalhadas e abraços sacolejantes. Estranhas reverências se encenavam aqui e ali, e nas tavernas os copos se chocavam ruidosamente em brindes pronunciados nas mais diversas línguas. Os bandos de andarilhos, saltimbancos e ciganos mais uma vez retornavam à cidade em uma inexplicável sincronia. Perambulando por ali ofereciam adivinhações e serviços, bajulavam ricos comerciantes e empoladas senhoras, tocavam intrumentos e entoavam suas cantigas recolhendo moedas com chapéus coloridos e bufantes. Arremessavam objetos ao ar em malabarismos improváveis e cuspiam labaredas coloridas. Furtavam objetos entre a multidão apressada e arrecadavam riquezas com sua ardilosa lábia enganatriz. Sobreviviam alegremente, e a partida os recolheria dali antes que suas confusas vítimas pudessem esboçar pretensões de entender o que havia se passado.
Na praça do mercado o estrondoso amontoar de gentes alcançava seu vertiginoso ápice. Lá, tinha-se a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento.

De: http://postsecret.blogspot.com/
Era um dia de agitações na protocidadela. Nos últimos meses o comichão de suas fronteiras havia devorado léguas de mata virgem e pasto inerte. No bairro velho fervilhavam conspirações, sibilavam ameaças entre as línguas ásperas dos velhos druidas enrugados. Os aprendizes ensimesmavam-se em treinações e ambições que recriavam suas mentes em plena expansão e derreformação. Os bruxistas não deixavam por menos, recalcando pirotecnias e transcriando as velhas cavernas enfumaçadas e escuro-piscantes. O cheio se espalhava longe nas ruelas se impregnadas de molecarias maltrapilhas emprumando-se em desejosos sonhos de integrar ambas as corjas. Velhotas carcomidas arrastavam carroças rangentes repletas de bagulheiras misteriosas, mesclando-se entre o populacho anunciavam supostos ingredientes poderosos vindos das terras distantes. Escamas petrificadas de Dragonilhos cornudos das planícies desérticas, sabugos ressecados das florestas faéricas, pisadelas de enxofre dos homúnculos ferozes do sul e outras tantas tranqueiras eram apregoadas em gritos estridentes e roucos. Os velhos magos ressabiados aproximavam-se raramente e apossavam-se de algum artigo soterrado ao fundo das tranqueiras de alguma vendedora, não sem antes remexer seus melindrosos bigodes em caretas e insultos, pechinchando as mercadorias com palavrarias tão antipáticas quanto inabilidosas. Os jovens aprendizes esbofeteavam-se em algumas filas, desesperados por colocar suas mãos em alguma bugiganga com cheiro de exoticidade. Ávidos, levantavam seus narizes sobre as cabeças uns dos outros e, com os olhos brilhosos, tentavam farejar através do ar semiprovinciano e rançoso de suor e pós mágicos de toda sorte, algo que pudesse lhes trazer a sorte grande.
Para além das fronteiras difusas dos conluios mágicos o burburinho persistia em outras formas. Viajantes de todas as partes se esbarravam nas estreitas ruelas, entre preocupados e curiosos, reviravam o lugar com os olhos e com o que mais pudessem. Procuravam por tudo. As tramarizes mulheres do bairro de baixo seducilhavam aqui e ali, espalhando por entre os recém-chegados os rabelhos flutuantes de suas belas roupas dançantes, deixando rastros lilases, azulados, rosáceos, remisturando-se. Os cheiros de almíscar, jade, canela e toda a sorte de frutilhas afrodisíacas ouriçava os pêlos dos passantes, encobrindo por completo o cheiro acre nauseabundo de suor, sangue pisado e estrume dos animais fedorrentos que eram puxados por seus donos ou arrastavam carruagens indiferentes ao buchicho das ruas. Suas risadas melodiosas e olhares ferinos, dissimulados, perfurantes, rebolavam demoradamente no ar. Rasgavam conversas broncas ao meio, cortavam pensamentos compenetrados. Passavam em passos graciosos, pretensamente indiferentes e desinteressados daquela vulgaridade que gorgolejava em altos brados por toda a cidade. Em segundos desapareciam, mas ainda assim estavam sempre por toda parte.
Velhos conhecidos se reencontravam em estrondosas gargalhadas e abraços sacolejantes. Estranhas reverências se encenavam aqui e ali, e nas tavernas os copos se chocavam ruidosamente em brindes pronunciados nas mais diversas línguas. Os bandos de andarilhos, saltimbancos e ciganos mais uma vez retornavam à cidade em uma inexplicável sincronia. Perambulando por ali ofereciam adivinhações e serviços, bajulavam ricos comerciantes e empoladas senhoras, tocavam intrumentos e entoavam suas cantigas recolhendo moedas com chapéus coloridos e bufantes. Arremessavam objetos ao ar em malabarismos improváveis e cuspiam labaredas coloridas. Furtavam objetos entre a multidão apressada e arrecadavam riquezas com sua ardilosa lábia enganatriz. Sobreviviam alegremente, e a partida os recolheria dali antes que suas confusas vítimas pudessem esboçar pretensões de entender o que havia se passado.
Na praça do mercado o estrondoso amontoar de gentes alcançava seu vertiginoso ápice. Lá, tinha-se a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento.

De: http://postsecret.blogspot.com/
quarta-feira, novembro 07, 2007
sábado, outubro 13, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
domingo, setembro 30, 2007
Pigarro, tosse. Mais tosse. Olhos em volta cutucam, não conseguindo manter a barreira da indiferença. O pus sobe e desce na garganta, dolorido como se fossem cacos de vidro. A mão, velha e enrrugada, envolta na luva esfarrapada, se esforça para permanecer colada na barra de metal a cada solavanco. A cada contorção doente do seu corpo, cresce a barreira de nojo e pena dentro do vagão lotado. Os olhos semicerrados tentam se voltar para baixo, para fora. Para algum lugar longe daquilo tudo. As dores, no entanto, impedem-no de alimentar imagens muito complicadas na sua cabeça. As tardes bestas e tranquilas que ele tenta resgatar das décadas passadas se dissolvem com as chiadas contrações de seu pulmão, desesperado por um ar que parece nunca vir.
Quando abre os olhos novamente, percebe que estão a sentá-lo nos bancos cinzas. Murmuram-lhe alguma palavras vagas. Há um vácuo ao seu redor. Ele solta o corpo no banco e aguarda a morte.
Quando abre os olhos novamente, percebe que estão a sentá-lo nos bancos cinzas. Murmuram-lhe alguma palavras vagas. Há um vácuo ao seu redor. Ele solta o corpo no banco e aguarda a morte.
sexta-feira, setembro 28, 2007
quinta-feira, setembro 20, 2007
terça-feira, setembro 18, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Qualquer pessoa inteligente que vá a uma assembléia como a que eu fui ontem consegue compreender um pouco sobre a ascensão das burocracias "legitimadas" pelos grandes ascensos dos movimentos de massa.
Às vezes eu queria poder praticar uma certa violência física contra certa "companheirada".
Haja força de vontade pra não ir pra casa dormir...
Às vezes eu queria poder praticar uma certa violência física contra certa "companheirada".
Haja força de vontade pra não ir pra casa dormir...
terça-feira, agosto 28, 2007
terça-feira, agosto 21, 2007
Por fim, era isto.
Banalidade é deixar a vida montar em você.
E acho que eles não perceberam isso.
É quando você ouve uma voz te chamar. De seus olhos podem sair lágrimas, mas a sua garganta rouca está estupefata demais pra gritar de volta. Ela fica pasma...
Pra onde vai um rosto por baixo de tantas máscaras?
Banalidade é deixar a vida montar em você.
E acho que eles não perceberam isso.
É quando você ouve uma voz te chamar. De seus olhos podem sair lágrimas, mas a sua garganta rouca está estupefata demais pra gritar de volta. Ela fica pasma...
Pra onde vai um rosto por baixo de tantas máscaras?
terça-feira, julho 31, 2007
Sobre o post abaixo
Eu pouco sei sobre a AATW que, numa livre tradução significaria Anarquistas Contra o Muro. Eu sei que em 2005 eu fui num evento não muito interessante chamado Carnaval Revolução, organizado por um coletivo anarquista de BH. Neste evento, apesar de não muito legal, vi coisas legais. Uma oficina do CMI sobre filmagem de ações diretas, como ocupações e manifestações em geral. Evidentemente não aprendi a filmar, mas pude assistir uns vídeos legais sobre ocupações no centro de São Paulo e tive a oportunidade de conhecer o Brad Will, um ativista muito firmeza do CMI que morreu lutando com o povo de Oaxaca (mas nem sei porque eu conto tudo isso se todo mundo que entra aqui já deve saber destas coisas).
Enfim, no tal carnaval eu vi uma atividade da AATW. Eles mostravam uns vídeos de umas dez, quinze pessoas completamente despudoradas enfrentando o exército israelense com a cara e a coragem. Sim, o famigerado exército israelense. Eles apanham dia a dia, literalmente, para atrapalhar a construção de um dos maiores ícones fascistas de nosso tempo: o muro que quer isolar os palestinos. Eles tomam balas de borracha, gás, porradas e até balas de verdade ocasionalmente. Eles são atingidos por gás em uma quantidade que pode causar sérios problemas de saúde, como câncer. Eles juntam, em pleno coração de uma guerra civil sangrenta e interminável, israelenses e palestinos contra o massacre que ocorre lá.
É mais ou menos isso que sei sobre eles. Não é muita coisa. Eu dei uma olhada no site, parece que tem mais coisa. Vou ver melhor. Não sei qual é a prática deles e o que mais eles procuram fazer fora lutar contra o muro. Mas sei que o que eles fazem é tão bonito e corajoso que eu sinto arrepios só de pensar. E quase ninguém sabe deles, e eles estão precisando de ajuda.
Penso em montar um comitê de solidariedade, tentar estabelecer contato com eles e fazer atividades de divulgação e arrecadação de dinheiro para enviar para eles. Alguém mais topa?
Eu pouco sei sobre a AATW que, numa livre tradução significaria Anarquistas Contra o Muro. Eu sei que em 2005 eu fui num evento não muito interessante chamado Carnaval Revolução, organizado por um coletivo anarquista de BH. Neste evento, apesar de não muito legal, vi coisas legais. Uma oficina do CMI sobre filmagem de ações diretas, como ocupações e manifestações em geral. Evidentemente não aprendi a filmar, mas pude assistir uns vídeos legais sobre ocupações no centro de São Paulo e tive a oportunidade de conhecer o Brad Will, um ativista muito firmeza do CMI que morreu lutando com o povo de Oaxaca (mas nem sei porque eu conto tudo isso se todo mundo que entra aqui já deve saber destas coisas).
Enfim, no tal carnaval eu vi uma atividade da AATW. Eles mostravam uns vídeos de umas dez, quinze pessoas completamente despudoradas enfrentando o exército israelense com a cara e a coragem. Sim, o famigerado exército israelense. Eles apanham dia a dia, literalmente, para atrapalhar a construção de um dos maiores ícones fascistas de nosso tempo: o muro que quer isolar os palestinos. Eles tomam balas de borracha, gás, porradas e até balas de verdade ocasionalmente. Eles são atingidos por gás em uma quantidade que pode causar sérios problemas de saúde, como câncer. Eles juntam, em pleno coração de uma guerra civil sangrenta e interminável, israelenses e palestinos contra o massacre que ocorre lá.
É mais ou menos isso que sei sobre eles. Não é muita coisa. Eu dei uma olhada no site, parece que tem mais coisa. Vou ver melhor. Não sei qual é a prática deles e o que mais eles procuram fazer fora lutar contra o muro. Mas sei que o que eles fazem é tão bonito e corajoso que eu sinto arrepios só de pensar. E quase ninguém sabe deles, e eles estão precisando de ajuda.
Penso em montar um comitê de solidariedade, tentar estabelecer contato com eles e fazer atividades de divulgação e arrecadação de dinheiro para enviar para eles. Alguém mais topa?
Call for support by Anarchists Against The Wall
URGENT CALL FOR DONATIONS
----------------------------------------
*** PLEASE DISSEMINATE WIDELY ***
Dear friend,
The mounting legal cost of the joint Palestinian-Israeli struggle
against the occupation is forcing us to send this urgent appeal for
funds. We are asking for your support to continue the work of the
Israeli group Anarchists Against the Wall (AATW).
For the past four years, the group has supported the Palestinian
struggle against Israeli occupation and specifically against Israel`s
segregation wall. Week after week, AATW joins the Palestinian popular
resistance against the wall, in diverse areas of the West Bank,
including the villages of Bil`in west of Ramallah, al-Ma`asara, and
Ertas, south of Bethlehem, and Beit Ummar, north of Hebron.
Activists have often been arrested and indicted for their participation
in the struggle. Fortunately, the group is represented by a dedicated
lawyer, Adv. Gaby Lasky. Adv. Lasky has tirelessly worked to defend
activists arrested at demonstrations or direct actions in the West Bank
and in Israel. Though the legal defense she provides AATW is almost a
full-time job, she has agreed to be paid only a token fee. However, the
group has not managed to cover even this sum, and now owes approximately
$40,000 in legal expenses for over 60 indictments. In addition to this
enormous legal debt, AATW activists are forced to spend large sums on
transportation and phone bills.
Please make a donation that will enable us to continue this struggle.
Thank you for your solidarity.
Anarchists Against the Wall
For more information about AATW, our actions and how to make a donation,
visit our website: www.awalls.org or contact us at donate (at) awalls.org.
Email:: donate@awalls.org
URL:: http://awalls.org
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segregation wall. Week after week, AATW joins the Palestinian popular
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including the villages of Bil`in west of Ramallah, al-Ma`asara, and
Ertas, south of Bethlehem, and Beit Ummar, north of Hebron.
Activists have often been arrested and indicted for their participation
in the struggle. Fortunately, the group is represented by a dedicated
lawyer, Adv. Gaby Lasky. Adv. Lasky has tirelessly worked to defend
activists arrested at demonstrations or direct actions in the West Bank
and in Israel. Though the legal defense she provides AATW is almost a
full-time job, she has agreed to be paid only a token fee. However, the
group has not managed to cover even this sum, and now owes approximately
$40,000 in legal expenses for over 60 indictments. In addition to this
enormous legal debt, AATW activists are forced to spend large sums on
transportation and phone bills.
Please make a donation that will enable us to continue this struggle.
Thank you for your solidarity.
Anarchists Against the Wall
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vírus do autismo solitário.
Engraçado receber milhares de scraps de pessoas que eu gosto e com quem não falo há muitíssimo tempo. Especialmente quando o tema é um vírus idiota de orkut.
Isto me fez sentir meio solitário.
Também fiquei meio surpreso quando li o tal scrap e vi o que um monte de gente achava que era eu. Não sei se sou meio malucão, mas creio que, ainda que não fosse óbvio que qualquer link que te mandem provavelmente é um vírus, eu certamente conheço razoavelmente o jeito de escrever dos meus amigos. Pelo menos dos mais próximos. E aquilo não parece comigo escrevendo nem um pouco.
Agora eu também não sei como aviso pra todo mundo que mandei um vírus porque nunca mandei estas malditas mensagens em massa. Se alguém tiver uma sugestão me avise.
Engraçado receber milhares de scraps de pessoas que eu gosto e com quem não falo há muitíssimo tempo. Especialmente quando o tema é um vírus idiota de orkut.
Isto me fez sentir meio solitário.
Também fiquei meio surpreso quando li o tal scrap e vi o que um monte de gente achava que era eu. Não sei se sou meio malucão, mas creio que, ainda que não fosse óbvio que qualquer link que te mandem provavelmente é um vírus, eu certamente conheço razoavelmente o jeito de escrever dos meus amigos. Pelo menos dos mais próximos. E aquilo não parece comigo escrevendo nem um pouco.
Agora eu também não sei como aviso pra todo mundo que mandei um vírus porque nunca mandei estas malditas mensagens em massa. Se alguém tiver uma sugestão me avise.
domingo, julho 29, 2007
domingo, julho 22, 2007
O ar gelado atravessou sua garganta rasgando. Ela engasgou-se consigo própria e, na surpresa de se descobrir falível, tropeçou em seus próprios pés, esborrachando-se no chão e rolando. Sem tentar impedir a si mesma, sentiu seu corpo arrastar-se pelo asfalto com o impulso que havia ganhado nas largas e desesperadas passadas que havia impulsionado. Sentiu as dores arrastando-se pela noite, embriagando-se de confusão e mágoa, rolando pela terra úmida que emoldurava a estrada.
Uma vez terminado o impulso, deixou o peso de si mesma jazer sobre o chão, que se reentrava na sua consciência aos poucos. Pesava sobre o mundo, sentindo a respiração resfolegar-se para dentro e para fora, com o barulho ensurdecedor de quem não quer ver nem lembrar nada. Corria, ainda. Se não com as pernas, com tudo que lhe sobrava fora isso. As dores, enfim, começaram a despontar em seus ferimentos. Sentiu as gotas principiantes se arriscando sobre seu corpo, ouviu-as espatifando-se perto de seus ouvidos. Olhava para cima, vendo as estrelas que já nem se lembrava de existirem. Suas dores, começou a sentir-pensar, vinham todas daqueles pontos brancos flutuantes na negridão do universo. Eles entravam na sua carne como facas quentes, penetrantes. Era o alívio de quem não precisa repousar a consciência em uma dura cama de angustias. Era a liberdade de quem entrega seu corpo à caçada de si mesmo, correndo por caminhos de desencontrar-se a si mesma.
Sentiu a dor das estrelas em sua carne transformar-se em novo impulso, levantou-se de um pulo e reiniciou a corrida, desta vez abandonando por completo a estrada asfaltada. Seguia através dos obstáculos da relva, como um animal acossado pelos faróis violentos de um carro. Ignorava a beleza de seu sangue vermelho tingindo as plantas ignorantes e humilhadas da beira da estrada. Queria gritar, mas não sabia como. Os gritos, sabia sem saber, já haviam sido por demais gastos. Seu fôlego agora pertencia a outras coisas, pertencia aos passos que se desenhavam instintivamente. E ela precisava criar um caminho que não era seu, que estava além de suas pernas, além de seus pulmões. Precisava saber que a vida precisa do irracional, dos animais enraivecidos que correm sem olhar para trás, sem saber o que há em sua frente. Ela precisava livrar-se de si mesma como se nunca tivesse surgido alguma daquelas oportunidades cinzas das noites da cidade. Aquelas em que olhava para si mesma e pensava, ainda com as marcas de ter crescido e se educado, em como tudo aquilo já havia consumido por demais tudo o que poderia ser. As oportunidades haviam tornado-se desesperanças, haviam assumido as cores envelhecidas das estátuas, estanques em um passado intransponível, imutável. Ela pensava, nestas noites, que só poderia ser tudo aquilo que já havia feito.
E era por isso que agora corria com a força de quem quer ser outra. Com a força de quem, por tanto pensar, já sabe que o caminho do novo passa pela violência, pela agressão desmesurada a si mesmo e àquilo que se ama. Queria odiar tudo aquilo que a havia feito ser o que era. Queria livrar-se de todas as cargas semânticas usadas, apodrecidas. Queria reinventar sua língua, esmagar a massa encefálica mofada com um martelo pesado de bater carne.
Ela era autofagia e fuga. Reconstrução e morte. Tinha medo e, conseqüentemente, esperança. Jogava as palavras de seus pensamentos contra a grade de sua consciência. Quebrava!
Uma vez terminado o impulso, deixou o peso de si mesma jazer sobre o chão, que se reentrava na sua consciência aos poucos. Pesava sobre o mundo, sentindo a respiração resfolegar-se para dentro e para fora, com o barulho ensurdecedor de quem não quer ver nem lembrar nada. Corria, ainda. Se não com as pernas, com tudo que lhe sobrava fora isso. As dores, enfim, começaram a despontar em seus ferimentos. Sentiu as gotas principiantes se arriscando sobre seu corpo, ouviu-as espatifando-se perto de seus ouvidos. Olhava para cima, vendo as estrelas que já nem se lembrava de existirem. Suas dores, começou a sentir-pensar, vinham todas daqueles pontos brancos flutuantes na negridão do universo. Eles entravam na sua carne como facas quentes, penetrantes. Era o alívio de quem não precisa repousar a consciência em uma dura cama de angustias. Era a liberdade de quem entrega seu corpo à caçada de si mesmo, correndo por caminhos de desencontrar-se a si mesma.
Sentiu a dor das estrelas em sua carne transformar-se em novo impulso, levantou-se de um pulo e reiniciou a corrida, desta vez abandonando por completo a estrada asfaltada. Seguia através dos obstáculos da relva, como um animal acossado pelos faróis violentos de um carro. Ignorava a beleza de seu sangue vermelho tingindo as plantas ignorantes e humilhadas da beira da estrada. Queria gritar, mas não sabia como. Os gritos, sabia sem saber, já haviam sido por demais gastos. Seu fôlego agora pertencia a outras coisas, pertencia aos passos que se desenhavam instintivamente. E ela precisava criar um caminho que não era seu, que estava além de suas pernas, além de seus pulmões. Precisava saber que a vida precisa do irracional, dos animais enraivecidos que correm sem olhar para trás, sem saber o que há em sua frente. Ela precisava livrar-se de si mesma como se nunca tivesse surgido alguma daquelas oportunidades cinzas das noites da cidade. Aquelas em que olhava para si mesma e pensava, ainda com as marcas de ter crescido e se educado, em como tudo aquilo já havia consumido por demais tudo o que poderia ser. As oportunidades haviam tornado-se desesperanças, haviam assumido as cores envelhecidas das estátuas, estanques em um passado intransponível, imutável. Ela pensava, nestas noites, que só poderia ser tudo aquilo que já havia feito.
E era por isso que agora corria com a força de quem quer ser outra. Com a força de quem, por tanto pensar, já sabe que o caminho do novo passa pela violência, pela agressão desmesurada a si mesmo e àquilo que se ama. Queria odiar tudo aquilo que a havia feito ser o que era. Queria livrar-se de todas as cargas semânticas usadas, apodrecidas. Queria reinventar sua língua, esmagar a massa encefálica mofada com um martelo pesado de bater carne.
Ela era autofagia e fuga. Reconstrução e morte. Tinha medo e, conseqüentemente, esperança. Jogava as palavras de seus pensamentos contra a grade de sua consciência. Quebrava!
sexta-feira, julho 20, 2007
quarta-feira, junho 20, 2007
segunda-feira, junho 18, 2007
É, é triste, mas às vezes é difícil manter o ânimo depois de golpes assim.
Não existe nenhuma direita tão eficiente quanto as burocracias parasitas e oportunistas que se alimentam da esquerda. A Adusp (apoiando-se no setor mais nojento de professores corporativistas e pequeno-burgueses) deu uma rasteira na greve da qual dificilmente conseguiremos nos levantar. A ala mais reformista e burocrata do ME, por sua vez, cresce em cima do sentimento de medo e instaura as mesmas políticas que sempre defendeu.
Os momentos com mais potencial de mudança em geral também são os que mais têm potencial de fazer com que tudo seja o mesmo por muito mais tempo. E fica a dúvida, a ser respondida em pouco tempo: 2007 será 2002 mais uma vez?
Não existe nenhuma direita tão eficiente quanto as burocracias parasitas e oportunistas que se alimentam da esquerda. A Adusp (apoiando-se no setor mais nojento de professores corporativistas e pequeno-burgueses) deu uma rasteira na greve da qual dificilmente conseguiremos nos levantar. A ala mais reformista e burocrata do ME, por sua vez, cresce em cima do sentimento de medo e instaura as mesmas políticas que sempre defendeu.
Os momentos com mais potencial de mudança em geral também são os que mais têm potencial de fazer com que tudo seja o mesmo por muito mais tempo. E fica a dúvida, a ser respondida em pouco tempo: 2007 será 2002 mais uma vez?
segunda-feira, junho 11, 2007
sexta-feira, junho 08, 2007
segunda-feira, junho 04, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
Reitoria ocupada 14.05.2007
Ocupamos: metemos o pé na porta, a pedra, a mão,
a grade torta empurra empurra quebra o vidro corre rasga o passo atravessa
chega aqui.
Chegar até o presente, ao concreto, ao real,
ato duro, intransigente: violência de florir.
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Ocupamos: há mais de onze dias tomamos nosso espaço
no seio do poder e da decisão do que é e do não
nesta universidade.
Não mais esperamos a benevolência,
a boa vontade: Criamos
nós nossas condições.
Não aceitaremos mais a forma imposta, a reflexão não mais se molda. Nossa crítica não se calará com puras palavras, o puro pensamento infinitamente maleável.
O pensamento toma as mãos, que não mais tomam sua submissão, não tomam menos do que o mundo, do que aqui, sua história.
Torcemos as barras, rompemos a contenção, atravessamos o muro com nossas reivindicações: invadimos o presente.
Da violência dos atos, o nosso tem de diferente a visibilidade apenas.
Não ferimos ninguém, não subjugamos ou exploramos. Foi apenas o silêncio complacente de um vidro limpo o que se quebrou, a omissão dos corredores quanto a sua direção e o inquestionado mando de uma grade.
Podem eles falar o mesmo?
Negar a educação, formar escravos, robôs,
torcer, não uma grade, mas uma vida, formar pessoas para sua exploração;
negar comida, a vida, o sol, sem dizer não: pagando pouco e dizendo isso privilégio; vender direitos... Não são violências estas muito maiores e mais nefastas?
Por que então têm passo livre nas catracas?
Por que não ofende o mundo, a terra, o ar, sua mera possibilidade, como não sujam as paredes?
Radicais? sim, extremos, mas nem sequer fomos nós que escolhemos os termos desse passo... Reagimos: A situação é insustentável. Sim, teremos de fazer mais do que reagir, e é isso que se abriu, como uma porta para o presente, na radicalidade da resposta: Podemos criar o nosso mundo, o aqui não está dada, assim como o tempo.
O que até hoje foi óbvio (apenas) torna-se de repente real, matéria que o ato articula, com suas dores, suas faltas, seus limites. E seus sonhos.
Sonhar é, de repente, possibilidade e não fechar de olhos; é ir além do que a vista concede; é passarem os olhos a esculpir o corpo.
Lucas Itacarambi
Ocupamos: metemos o pé na porta, a pedra, a mão,
a grade torta empurra empurra quebra o vidro corre rasga o passo atravessa
chega aqui.
Chegar até o presente, ao concreto, ao real,
ato duro, intransigente: violência de florir.
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Ocupamos: há mais de onze dias tomamos nosso espaço
no seio do poder e da decisão do que é e do não
nesta universidade.
Não mais esperamos a benevolência,
a boa vontade: Criamos
nós nossas condições.
Não aceitaremos mais a forma imposta, a reflexão não mais se molda. Nossa crítica não se calará com puras palavras, o puro pensamento infinitamente maleável.
O pensamento toma as mãos, que não mais tomam sua submissão, não tomam menos do que o mundo, do que aqui, sua história.
Torcemos as barras, rompemos a contenção, atravessamos o muro com nossas reivindicações: invadimos o presente.
Da violência dos atos, o nosso tem de diferente a visibilidade apenas.
Não ferimos ninguém, não subjugamos ou exploramos. Foi apenas o silêncio complacente de um vidro limpo o que se quebrou, a omissão dos corredores quanto a sua direção e o inquestionado mando de uma grade.
Podem eles falar o mesmo?
Negar a educação, formar escravos, robôs,
torcer, não uma grade, mas uma vida, formar pessoas para sua exploração;
negar comida, a vida, o sol, sem dizer não: pagando pouco e dizendo isso privilégio; vender direitos... Não são violências estas muito maiores e mais nefastas?
Por que então têm passo livre nas catracas?
Por que não ofende o mundo, a terra, o ar, sua mera possibilidade, como não sujam as paredes?
Radicais? sim, extremos, mas nem sequer fomos nós que escolhemos os termos desse passo... Reagimos: A situação é insustentável. Sim, teremos de fazer mais do que reagir, e é isso que se abriu, como uma porta para o presente, na radicalidade da resposta: Podemos criar o nosso mundo, o aqui não está dada, assim como o tempo.
O que até hoje foi óbvio (apenas) torna-se de repente real, matéria que o ato articula, com suas dores, suas faltas, seus limites. E seus sonhos.
Sonhar é, de repente, possibilidade e não fechar de olhos; é ir além do que a vista concede; é passarem os olhos a esculpir o corpo.
Lucas Itacarambi
domingo, maio 20, 2007
segunda-feira, maio 14, 2007
Se o movimento estudantil fosse sempre como ele está sendo agora na USP, a revolução estaria bem mais próxima de nós. A esperança é que este processo crie a nova militância da USP, que vai atropelar a burocracia falida dos dias de sempre.
Se vocês quiserem discutir política com gente disposta e com qualidade, recomendo frequentar a reitoria da USP. Hoje tem plenária e vai rolar uma programação legal nos próximos dias.
Se vocês quiserem discutir política com gente disposta e com qualidade, recomendo frequentar a reitoria da USP. Hoje tem plenária e vai rolar uma programação legal nos próximos dias.
quarta-feira, maio 09, 2007
Minha nova casa é a reitoria da USP. Visitem-me.
Meu novo blog é http://ocupacaousp.blog.terra.com.br/ . Visitem-me.
Dia 10 tem ato na Paulista. Compareçam.
Ontem eu fui na assembléia estudantil mais cheia da minha vida, com uns dois mil estudantes.
Meu novo blog é http://ocupacaousp.blog.terra.com.br/ . Visitem-me.
Dia 10 tem ato na Paulista. Compareçam.
Ontem eu fui na assembléia estudantil mais cheia da minha vida, com uns dois mil estudantes.
sábado, abril 28, 2007
Acontecimentos importantes no mundo no dia do meu aniversário:
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/070428/manchetes/manchetes_politica_lula_rebelde_pol
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/070428/manchetes/manchetes_politica_lula_rebelde_pol
terça-feira, abril 24, 2007
A benevolência da universidade burguesa me trás lágrimas aos olhos:
http://br.noticias.yahoo.com/s/24042007/25/manchetes-usp-dara-411-bolsas-alunos-escola-publica.html
http://br.noticias.yahoo.com/s/24042007/25/manchetes-usp-dara-411-bolsas-alunos-escola-publica.html
domingo, abril 15, 2007
Anti-clímax
O Lui é um cara que sabe dar festas legais, sem dúvida.
Tinha comida boa, música bacana, gente legal, álcool pra caralho. O que eu mais gostei foi este lance único, raro, que acontece cada vez menos: a festa conseguiu juntar todos os tipos mais diferentes de amigos que eu tenho. E ainda tinha um monte de gente que eu não conhecia, o que é muito bacana. Eu conversei com umas pessoas que não via há um bom tempo. Eu vi o Fepas xavecar a Monique e o Caio falando com meu irmão. Foi bem legal mesmo.
E daí, na parte que eu estava me divertindo mais, fui embora.
E eu reclamo porque blog serve pra estas coisas. Quando eu quiser fazer algo construtivo e interessante, vou pra outro lugar.
Minhas eternas dificuldades de organização vão me alcançando, conforme eu tento lidar com a faculdade, as aulas que tenho que preparar, o tanto que eu tenho que estudar pro exame de proficiência em inglês...as coisas vão me devorando, e o mais importante é sempre soterrado.
O Lui é um cara que sabe dar festas legais, sem dúvida.
Tinha comida boa, música bacana, gente legal, álcool pra caralho. O que eu mais gostei foi este lance único, raro, que acontece cada vez menos: a festa conseguiu juntar todos os tipos mais diferentes de amigos que eu tenho. E ainda tinha um monte de gente que eu não conhecia, o que é muito bacana. Eu conversei com umas pessoas que não via há um bom tempo. Eu vi o Fepas xavecar a Monique e o Caio falando com meu irmão. Foi bem legal mesmo.
E daí, na parte que eu estava me divertindo mais, fui embora.
E eu reclamo porque blog serve pra estas coisas. Quando eu quiser fazer algo construtivo e interessante, vou pra outro lugar.
Minhas eternas dificuldades de organização vão me alcançando, conforme eu tento lidar com a faculdade, as aulas que tenho que preparar, o tanto que eu tenho que estudar pro exame de proficiência em inglês...as coisas vão me devorando, e o mais importante é sempre soterrado.
segunda-feira, abril 09, 2007
Fui impiedosamente perseguido por uma gripe no feriado inteiro. Não fiz nada do que tinha que fazer. Tenho depressão noturna de domingo. As coisas estão se acumulando. Crio expectativas demais sobre coisas de menos. Eu gosto muito do Peter Pan.
Eu acho que vou tentar dormir pra ver se tiro um atraso amanhã.
Sinto saudades em pedaços vazios que não se encaixam.
Eu acho que vou tentar dormir pra ver se tiro um atraso amanhã.
Sinto saudades em pedaços vazios que não se encaixam.
quinta-feira, abril 05, 2007
Ressaca moral
A pior coisa de encher a cara é lembrar no dia seguinte das coisas imbecis que você fez e disse. Acontece que, em geral, todas estas merdas são muit amenizadas quando você está entre outras pessoas bêbadas que também dizem e fazem muita merda. Só que às vezes você percebe tarde demais que está muito mais bêbado do que todo mundo e que está sendo o mala da mesa e fazendo merda e causando pra caralho. Mas daí, enfim, já era. Você paga um puta mico ridículo, estraga a noite de todo mundo e passa o dia seguinte pensando que é um grande idiota e que não devia nunca mais beber.
É, até parece...o único jeito de esquecer a sua idiotice é bebendo mais e, possivelmente, fazendo idiotices ainda maiores.
Bom, felizmente eu tenho amigos bacanas que, espero, não vão levar tão em consideração este tipo de idiotice. Quer dizer, até vão, mas não o suficiente.
A pior coisa de encher a cara é lembrar no dia seguinte das coisas imbecis que você fez e disse. Acontece que, em geral, todas estas merdas são muit amenizadas quando você está entre outras pessoas bêbadas que também dizem e fazem muita merda. Só que às vezes você percebe tarde demais que está muito mais bêbado do que todo mundo e que está sendo o mala da mesa e fazendo merda e causando pra caralho. Mas daí, enfim, já era. Você paga um puta mico ridículo, estraga a noite de todo mundo e passa o dia seguinte pensando que é um grande idiota e que não devia nunca mais beber.
É, até parece...o único jeito de esquecer a sua idiotice é bebendo mais e, possivelmente, fazendo idiotices ainda maiores.
Bom, felizmente eu tenho amigos bacanas que, espero, não vão levar tão em consideração este tipo de idiotice. Quer dizer, até vão, mas não o suficiente.
domingo, abril 01, 2007
Banalidades
Outro dia vi um estojo, de um menino na minha aula de inglês (aquela em que sou aluno, não a que sou professor). Era um daqueles estojos pretos, retangulares, com umas duas divisões de zíperes. Por dentro tem uns elastiquinhos pretos que servem pra prender as coisas, como lápis, caneta, borracha, apontador, etc.
Eu lembro que quando era pequeno quase todo mundo usava um destes. E eles eram um fato concreto e consumado da vida. Mas depois cheguei em uma época da vida em que as pessoas não usavam mais estojos, e daí nunca mais vi estes estojos assim. E, portanto, eles deixaram de fazer parte das coisas naturais da vida (como camas, escovas de dente, lousas, tênis, camiseta, etc).
Quando eu vi aquele estojo na aula de inglês depois de tantos anos, ele me pegou de surpresa. Era duas coisas ao mesmo tempo: algo que me remetia ao passado, àqueles dias em que estes estojos eram coisas cotidianas e a vida não existia sem eles. E também era só um estojo preto que um cara na aula de inglês usava, uma coisa qualquer destas que se vê por aí. E isso era algo que ele nunca foi quando eu era pequeno.
Outro dia vi um estojo, de um menino na minha aula de inglês (aquela em que sou aluno, não a que sou professor). Era um daqueles estojos pretos, retangulares, com umas duas divisões de zíperes. Por dentro tem uns elastiquinhos pretos que servem pra prender as coisas, como lápis, caneta, borracha, apontador, etc.
Eu lembro que quando era pequeno quase todo mundo usava um destes. E eles eram um fato concreto e consumado da vida. Mas depois cheguei em uma época da vida em que as pessoas não usavam mais estojos, e daí nunca mais vi estes estojos assim. E, portanto, eles deixaram de fazer parte das coisas naturais da vida (como camas, escovas de dente, lousas, tênis, camiseta, etc).
Quando eu vi aquele estojo na aula de inglês depois de tantos anos, ele me pegou de surpresa. Era duas coisas ao mesmo tempo: algo que me remetia ao passado, àqueles dias em que estes estojos eram coisas cotidianas e a vida não existia sem eles. E também era só um estojo preto que um cara na aula de inglês usava, uma coisa qualquer destas que se vê por aí. E isso era algo que ele nunca foi quando eu era pequeno.
Anda cada vez mais difícil manter a coerência interna.
Há que se conciliar as coisas com as outras coisas. E muitas vezes são muitas coisas. E andam sendo cada vez mais coisas que se acumulam umas sobre as outras. E daí, as coisas que não deveriam ser coisas acabam se coisificando cada vez mais. E, a partir do momento em que são coisas, acumulam-se entre as outras coisas. E, afinal, sendo todas estas coisas apenas coisas (mesmo aquelas que antes não eram coisas), acabamos sendo obrigados a priorizar as coisas que nos devoram primeiro. E aquelas que não eram coisas e tornaram-se coisas acabam sendo cada vez mais coidificadas, e relegadas e esquecidas e perdidas...Porque as outras coisas, aquelas que sempre foram coisas, acabam devorando a gente mais rápido. Daí a gente pega todo nosso tempo, energia e tudo o mais, para lidar com estas coisas devoradoras. Até que um dia, no qual eu ainda não cheguei e não quero chegar nunca, você vai inevitavelmente esquecer e perder todas as coisas que não eram coisas e tornaram-se coisas e acabaram se enfiando por debaixo de todas as coisas que te devorariam se você não desse sua vida por elas.
E é assim que a banalidade consome o mundo.
E é assim que a vida consome os sonhos.
E é assim que as pessoas deixam de ser sujeitos e, por fim, transformam-se em coisas.
Há que se conciliar as coisas com as outras coisas. E muitas vezes são muitas coisas. E andam sendo cada vez mais coisas que se acumulam umas sobre as outras. E daí, as coisas que não deveriam ser coisas acabam se coisificando cada vez mais. E, a partir do momento em que são coisas, acumulam-se entre as outras coisas. E, afinal, sendo todas estas coisas apenas coisas (mesmo aquelas que antes não eram coisas), acabamos sendo obrigados a priorizar as coisas que nos devoram primeiro. E aquelas que não eram coisas e tornaram-se coisas acabam sendo cada vez mais coidificadas, e relegadas e esquecidas e perdidas...Porque as outras coisas, aquelas que sempre foram coisas, acabam devorando a gente mais rápido. Daí a gente pega todo nosso tempo, energia e tudo o mais, para lidar com estas coisas devoradoras. Até que um dia, no qual eu ainda não cheguei e não quero chegar nunca, você vai inevitavelmente esquecer e perder todas as coisas que não eram coisas e tornaram-se coisas e acabaram se enfiando por debaixo de todas as coisas que te devorariam se você não desse sua vida por elas.
E é assim que a banalidade consome o mundo.
E é assim que a vida consome os sonhos.
E é assim que as pessoas deixam de ser sujeitos e, por fim, transformam-se em coisas.
terça-feira, março 27, 2007
É, ando com bastante sorte... não bastasse não poder sair nas sextas-feiras, agora ainda me dou mal quando saio nos poucos sábados em que não estou acabado.
Ao sair da festa da Rita (que foi legal, mas poderia ter sido muito mais se as pessoas tivessem tirado suas bundas gordas do lugar e ido até lá), me deparo com o o vidro do carro quebrado. Engraçado, eu previ isso quando estava saindo dele. Não costumo ficar muito noiado com estas coisas, mas desta vez realmente fiquei preocupado. Claro que, ao invés de pegar minhas coisas, preferi me convencer de que estava sendo neurótico. Perdi uma parcela BEM grande dos meus cds preferidos. Perdi meu bilhete único, o da Vanessa, os cartões de banco dela, o rádio do carro, o vidro e, o que era mais valoroso, a minha sôfrega alegria que tinha conquistado a duras penas tomando mais álcool do que deveria e dançando mais do que poderia, tentando ignorar o fato de que eu era praticamente o único a fazer isso. É meio chato ser o cara que quer curtir a balada a valer quando quase todo mundo só quer ficar sentado, conversando ou até jogando cartas. Mas, quem diria, eu de fato consegui isso. Até consegui insistir o suficiente pra tocar pelo menos metade de dois dos três cds que passei muito tempo selecionando e gravando pra levar na festa e ninguém dançar. E, bem, por mais que isso tenha incomodado algumas pessoas que de fato poderiam preferir uma música mais ambiente do que o meu conceito estranho de trilha sonora para pessoas extremamente bêbadas dançarem enquanto são transportadas pros anos 70 e 80, ainda assim eu me diverti. Sabe, foi difícil mesmo. E em geral, quando nos esforçamos para nos divertir, não dá certo. Mas daí até deu.
Só que quando eu cheguei no carro e vi o vidro quebrado, foi como se toda a infelicidade que eu reprimi durante a festa viesse à tona de uma só vez. Como se na verdade eu só tivesse fingido que me diverti. E daí fui curtir a ressaca moral enquanto acordava um escrivão na DP pra fazer o meu BO e voltar pra casa sob um melancólico nascer do sol.
Recuperei o vidro quebrado com o seguro.
Passei meu domingo cuidando de burocracias, pegando fila pra pedir um novo bilhete único (que demora um milhão de anos pra ficar pronto e custa 23 reais).
Não vou recuperar meus CDs.
Quanto à felicidade, acho duvidoso...
Mas preciso parar de pensar nisso porque amanhã eu começo a dar aulas de redação pra umas pessoas que realmente precisam da minha ajuda pra passar no vestibular.
Ao sair da festa da Rita (que foi legal, mas poderia ter sido muito mais se as pessoas tivessem tirado suas bundas gordas do lugar e ido até lá), me deparo com o o vidro do carro quebrado. Engraçado, eu previ isso quando estava saindo dele. Não costumo ficar muito noiado com estas coisas, mas desta vez realmente fiquei preocupado. Claro que, ao invés de pegar minhas coisas, preferi me convencer de que estava sendo neurótico. Perdi uma parcela BEM grande dos meus cds preferidos. Perdi meu bilhete único, o da Vanessa, os cartões de banco dela, o rádio do carro, o vidro e, o que era mais valoroso, a minha sôfrega alegria que tinha conquistado a duras penas tomando mais álcool do que deveria e dançando mais do que poderia, tentando ignorar o fato de que eu era praticamente o único a fazer isso. É meio chato ser o cara que quer curtir a balada a valer quando quase todo mundo só quer ficar sentado, conversando ou até jogando cartas. Mas, quem diria, eu de fato consegui isso. Até consegui insistir o suficiente pra tocar pelo menos metade de dois dos três cds que passei muito tempo selecionando e gravando pra levar na festa e ninguém dançar. E, bem, por mais que isso tenha incomodado algumas pessoas que de fato poderiam preferir uma música mais ambiente do que o meu conceito estranho de trilha sonora para pessoas extremamente bêbadas dançarem enquanto são transportadas pros anos 70 e 80, ainda assim eu me diverti. Sabe, foi difícil mesmo. E em geral, quando nos esforçamos para nos divertir, não dá certo. Mas daí até deu.
Só que quando eu cheguei no carro e vi o vidro quebrado, foi como se toda a infelicidade que eu reprimi durante a festa viesse à tona de uma só vez. Como se na verdade eu só tivesse fingido que me diverti. E daí fui curtir a ressaca moral enquanto acordava um escrivão na DP pra fazer o meu BO e voltar pra casa sob um melancólico nascer do sol.
Recuperei o vidro quebrado com o seguro.
Passei meu domingo cuidando de burocracias, pegando fila pra pedir um novo bilhete único (que demora um milhão de anos pra ficar pronto e custa 23 reais).
Não vou recuperar meus CDs.
Quanto à felicidade, acho duvidoso...
Mas preciso parar de pensar nisso porque amanhã eu começo a dar aulas de redação pra umas pessoas que realmente precisam da minha ajuda pra passar no vestibular.
quinta-feira, março 15, 2007
Desafiando o bom senso ou Boa idéia, Má idéia
Boa idéia: ter uma alimentação saudável, uma boa noite de sono, praticar esportes regularmente e ser feliz e medíocre.
Má idéia: Beber até uma e meia, tomar remédios que dão sono, chegar em casa e preparar um seminário pra aula do dia seguinte até duas e meia. Dormir três horas, acordar às cinco e meia e ir fazer um teste de natação de 10om.
Acho que, depois de passar um pouco mal pela minha estupidez, papai do céu resolveu me castigar com novas prendas. Ao chegar no vestiário e me deparar com meu óculos sem uma das lentes, fui obrigado a passar cerca de dez minutos tateando o chão do vestiário masculino até encontrá-la. Depois disso, o carro se recusava a dar a partida e eu ficava cada vez mais atrasado para a aula do seminário. Resolveu ligar só depois que eu liguei para uma amiga e pedi pra ela avisar o professor que eu não conseguiria chegar a tempo.
Aguardem para as próximas imbecilidades...
Boa idéia: ter uma alimentação saudável, uma boa noite de sono, praticar esportes regularmente e ser feliz e medíocre.
Má idéia: Beber até uma e meia, tomar remédios que dão sono, chegar em casa e preparar um seminário pra aula do dia seguinte até duas e meia. Dormir três horas, acordar às cinco e meia e ir fazer um teste de natação de 10om.
Acho que, depois de passar um pouco mal pela minha estupidez, papai do céu resolveu me castigar com novas prendas. Ao chegar no vestiário e me deparar com meu óculos sem uma das lentes, fui obrigado a passar cerca de dez minutos tateando o chão do vestiário masculino até encontrá-la. Depois disso, o carro se recusava a dar a partida e eu ficava cada vez mais atrasado para a aula do seminário. Resolveu ligar só depois que eu liguei para uma amiga e pedi pra ela avisar o professor que eu não conseguiria chegar a tempo.
Aguardem para as próximas imbecilidades...
terça-feira, março 13, 2007
Insólitas
Daí no outro dia eu estava numa festa. Discuti a história do Japão feudal e bebi vários vinhos, de Marcus James a um trazido pessoalmente por um sommelier bam-bam-bam. Fiquei conversando com um cara que trabalha com um amigo meu (Gunther) que eu não vejo faz tempo, tem uns quarenta anos e já fez uns curta-metragens (como o Masp Movie, disponível no Youtube).
Ouvi a síndica reclamando do barulho ferozmente e a dona da festa respondendo a altura.
Lá pelas tantas, chega a polícia. O policial A, por sua vez, entra na casa e toma um vinhozinho conosco e conversa amigavelmente com nossa anfitriã, enquanto o policial B, um pouco menos sortudo, fica do lado de fora ouvindo as reclamações da síndica (que é, aliás, o perfeito estereótipo da síndica velhaca e rabugenta).
Quando a gente sai da festa, eu vejo o par de policiais atendendo outra queixa um quarteirão abaixo. Se não fosse pelo bom senso exógeno da Vanessa, eu teria gritado: Ae policial A, desencana disso aí e vamos tomar um vinho.
Foi bem bacana.
Daí no outro dia eu estava numa festa. Discuti a história do Japão feudal e bebi vários vinhos, de Marcus James a um trazido pessoalmente por um sommelier bam-bam-bam. Fiquei conversando com um cara que trabalha com um amigo meu (Gunther) que eu não vejo faz tempo, tem uns quarenta anos e já fez uns curta-metragens (como o Masp Movie, disponível no Youtube).
Ouvi a síndica reclamando do barulho ferozmente e a dona da festa respondendo a altura.
Lá pelas tantas, chega a polícia. O policial A, por sua vez, entra na casa e toma um vinhozinho conosco e conversa amigavelmente com nossa anfitriã, enquanto o policial B, um pouco menos sortudo, fica do lado de fora ouvindo as reclamações da síndica (que é, aliás, o perfeito estereótipo da síndica velhaca e rabugenta).
Quando a gente sai da festa, eu vejo o par de policiais atendendo outra queixa um quarteirão abaixo. Se não fosse pelo bom senso exógeno da Vanessa, eu teria gritado: Ae policial A, desencana disso aí e vamos tomar um vinho.
Foi bem bacana.
domingo, fevereiro 25, 2007
sábado, fevereiro 24, 2007
às vezes eu fico pensando que tudo que a gente acha e pensa, tudo o que faz, nossos esforços mais sinceros, nossas convicções mais inabaláveis, tudo isso é muito mais superficial do que nosso ego e nossa auto-estima querem que a gente acredite. Quer dizer, no final tudo se afunda quando as coisas mais banais vêm à tona com toda sua força.
Eu tive minha segunda enxaqueca hoje (pelo menos não foi tão horrível quanto a primeira, que eu tive na noite do ano novo) e em certo momento, quando minha cabeça doía horrivelmente depois de eu ter já tomado dois remédios que não serviram pra nada, que a coisa mais importante do mundo pra mim naquele momento era aquela dor e como eu queria que ela fosse embora. E eu não conseguiria fazer nada se aquela dor ficasse lá. Por mais altiva e importante que fosse a minha tarefa, aquela ridícula e banal dor na minha cabeça poderia me impedir de fazer isso. Me senti pequeno e fraco e patético (isso, é claro, depois que a dor passou e teve espaço na minha mente para este tipo de sentimento tão existencial que não pode competir com a minha dorzinha mesquinha e egoísta).
Eu tive minha segunda enxaqueca hoje (pelo menos não foi tão horrível quanto a primeira, que eu tive na noite do ano novo) e em certo momento, quando minha cabeça doía horrivelmente depois de eu ter já tomado dois remédios que não serviram pra nada, que a coisa mais importante do mundo pra mim naquele momento era aquela dor e como eu queria que ela fosse embora. E eu não conseguiria fazer nada se aquela dor ficasse lá. Por mais altiva e importante que fosse a minha tarefa, aquela ridícula e banal dor na minha cabeça poderia me impedir de fazer isso. Me senti pequeno e fraco e patético (isso, é claro, depois que a dor passou e teve espaço na minha mente para este tipo de sentimento tão existencial que não pode competir com a minha dorzinha mesquinha e egoísta).
terça-feira, fevereiro 20, 2007
A vida é afundar em mediocridade e solidão lentamente (às vezes nem tão lentamente).
Morrer pode interromper a submersão. Mas isso não é necessariamente melhor.
às vezes, quando você já afundou demais, pode achar que as coisas sempre foram assim e parar de se importar.
Como você descobre quando chegou no fundo do poço?
Tenho saudade de ser quem eu não sou, de vez em quando.
E de quando as pessoas eram quem elas nunca foram.
Morrer pode interromper a submersão. Mas isso não é necessariamente melhor.
às vezes, quando você já afundou demais, pode achar que as coisas sempre foram assim e parar de se importar.
Como você descobre quando chegou no fundo do poço?
Tenho saudade de ser quem eu não sou, de vez em quando.
E de quando as pessoas eram quem elas nunca foram.
sábado, fevereiro 17, 2007
Hoje na mídia bueguesa: a farra das minas peladas e o altruísmo em nome da paz.
Caranaval, samba, mulata, alegria. Estas coisas vêm a calhar para despertar o grandioso sentimento patriótico depois da humilhante e divertida derrota do glorioso Brasil na copa do mundo. A Globo, eu recomendo, é especial para descobrirmos todas as maravilhas do feriado.
No interlúdio ainda um espetáculo muito melhor:
Em nome da paz, a Globo dá uma cobertura de uns cinco minutos para um ato que ocorreu no Rio de Janeiro. Meia dúzia (e isso quase não é figura de linguagem) de tiozões gordos e peruas ridículas de classe média vestiram umas roupas brancas e desfilaram pelo calçadão, exibindo primorosos cartazes confeccionados em folhas sulfite, pedindo a paz e lembrando as vítimas de violência, como a porra do moleque arrastado pelo carro (Caralho, não aguento mais ouvir falar desta merda de moleque!). Juro, nunca vi um "ato de rua" mais patético do que aquele. E olha bem, eu já vou agora pro meu quarto ano de movimento estudantil! Mas a globo deu uma cobertura sem precedentes. Ainda pude ver um pouco dos outros meios de comunicação, apesar de infelizmente não ter acompanhado com a atenção que eles recebem por parte do resto do mundo. Na capa da revista mais gagá e idiota do mundo, a pergunta na cabeça de toda a classe média: "Não vamos fazer nada?" Na rádio Eldorado, um anúncio repetia a pergunta: "nós não vamos fazer nada?!?" Falando sério, acho que o editor chefe da Veja deve ser o J.J. Jameson, e o Hugo Chavez deve ser o Homem-Aranha da vez.
Em homenagem ao Carnaval:
G.R.E.S.
(Pato Fu)
Eu não gosto dos G.R.E.S.
Mas em fevereiro
Tenho que suportar os G.R.E.S.
O carnaval
Com seu espírito de festa
Suas cabrochas na avenida
churrasquinho podro
É uma imposição absurda
Dica do Fernando para sobreviver ao carnaval:
Muito Dostoiévski e cerveja no Toldão.
"Nós não vamos fazer nada?!?"
Eu, particularmente, vou: desligar a merda da TV, ler e encher a cara. Quanto a vocês, eu não estou nem aí.
Caranaval, samba, mulata, alegria. Estas coisas vêm a calhar para despertar o grandioso sentimento patriótico depois da humilhante e divertida derrota do glorioso Brasil na copa do mundo. A Globo, eu recomendo, é especial para descobrirmos todas as maravilhas do feriado.
No interlúdio ainda um espetáculo muito melhor:
Em nome da paz, a Globo dá uma cobertura de uns cinco minutos para um ato que ocorreu no Rio de Janeiro. Meia dúzia (e isso quase não é figura de linguagem) de tiozões gordos e peruas ridículas de classe média vestiram umas roupas brancas e desfilaram pelo calçadão, exibindo primorosos cartazes confeccionados em folhas sulfite, pedindo a paz e lembrando as vítimas de violência, como a porra do moleque arrastado pelo carro (Caralho, não aguento mais ouvir falar desta merda de moleque!). Juro, nunca vi um "ato de rua" mais patético do que aquele. E olha bem, eu já vou agora pro meu quarto ano de movimento estudantil! Mas a globo deu uma cobertura sem precedentes. Ainda pude ver um pouco dos outros meios de comunicação, apesar de infelizmente não ter acompanhado com a atenção que eles recebem por parte do resto do mundo. Na capa da revista mais gagá e idiota do mundo, a pergunta na cabeça de toda a classe média: "Não vamos fazer nada?" Na rádio Eldorado, um anúncio repetia a pergunta: "nós não vamos fazer nada?!?" Falando sério, acho que o editor chefe da Veja deve ser o J.J. Jameson, e o Hugo Chavez deve ser o Homem-Aranha da vez.
Em homenagem ao Carnaval:
G.R.E.S.
(Pato Fu)
Eu não gosto dos G.R.E.S.
Mas em fevereiro
Tenho que suportar os G.R.E.S.
O carnaval
Com seu espírito de festa
Suas cabrochas na avenida
churrasquinho podro
É uma imposição absurda
Dica do Fernando para sobreviver ao carnaval:
Muito Dostoiévski e cerveja no Toldão.
"Nós não vamos fazer nada?!?"
Eu, particularmente, vou: desligar a merda da TV, ler e encher a cara. Quanto a vocês, eu não estou nem aí.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Das espúrias relações humanas II
Outro dia eu estava observando uns casais de lésbicas. E a maior parte deles se encaixava direitinho no estereótipo menina meiguinha e moça grande e malvada. Tem vários casais de homens que também tem algo semelhante com isso. Daí eu fiquei pensando como isso é escroto. É um lance dos papéis sociais tão consolidados na nossa vida que não conseguimos escapar. Mesmo se você for lésbica, tem que ter o "macho provedor e dominador" e a "mulher frágil e dominada".
As porras dos relacionamentos sempre se tornam relações de dominação e poder, relações de disputa.
É uma merda mesmo tudo isso viu...
Outro dia eu estava observando uns casais de lésbicas. E a maior parte deles se encaixava direitinho no estereótipo menina meiguinha e moça grande e malvada. Tem vários casais de homens que também tem algo semelhante com isso. Daí eu fiquei pensando como isso é escroto. É um lance dos papéis sociais tão consolidados na nossa vida que não conseguimos escapar. Mesmo se você for lésbica, tem que ter o "macho provedor e dominador" e a "mulher frágil e dominada".
As porras dos relacionamentos sempre se tornam relações de dominação e poder, relações de disputa.
É uma merda mesmo tudo isso viu...
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Velhos gagás
Primeiro foi o cretino do Ozzy Osbourne apresentando as estripúlias de sua velhice senil e suas criancinhas mega-burguesas mimadas aproveitando uma infância regada a milhões de dólares.
Sei lá, Black Sabbath é legal pra valer e tal, mas acho que qualquer um já esperava que ele fosse fazer uma imbecilidade destas. Não é como se fosse a primeira nem nada assim.
Agora o velho gagá mais tosco do mundo dá as caras no seu reality show INCRIVELMENTE IMBECIL.
Sim fãs de HQ de todos os cantos, Stan Lee apresenta seu programa "Who wants to be a super-hero?", com um apanhado de americanos cretinos se humilhando loucamente em busca de ser a nova cria do velho babão.
Sabe, eu nunca achei ele grande coisa. Acho que era um otário que deu sorte. Ele fazia umas histórias que, como dizia o Will Eisner, eram para "adolescentes idiotas do Kansas" (acredito que ele se referia ao Super-Homem que, de fato, era ainda pior). Acontece que umas pessoas boas pegaram estes heróis do Stan Lee e fizeram uma ou outra coisa bacana com eles, e isso fez eles valerem a pena. Mas, ainda que ele fosse medíocre, era necessário respeitá-lo. Nenhuma HQ, por fodida que seja, pode negar o precursor que ele foi, e as possibilidades que seus quadrinhos mainstream abriram. Ele era um Elvis das HQs. E é por isso que eu fico tão puto com esta bosta de programa que ele faz. Ele arrasta pro buraco da babaquice e da falta de dignidade junto com ele uma parte da história dos quadrinhos. Mas, no fim das contas, é a prova final de que ele é o imbecil que eu sempre desconfiei que ele fosse.
E, se o Neil Gaiman ou o Alan Moore algum dia fizerem uma merda assim, daí é hora de ir atrás de alguém com uma arma.
Primeiro foi o cretino do Ozzy Osbourne apresentando as estripúlias de sua velhice senil e suas criancinhas mega-burguesas mimadas aproveitando uma infância regada a milhões de dólares.
Sei lá, Black Sabbath é legal pra valer e tal, mas acho que qualquer um já esperava que ele fosse fazer uma imbecilidade destas. Não é como se fosse a primeira nem nada assim.
Agora o velho gagá mais tosco do mundo dá as caras no seu reality show INCRIVELMENTE IMBECIL.
Sim fãs de HQ de todos os cantos, Stan Lee apresenta seu programa "Who wants to be a super-hero?", com um apanhado de americanos cretinos se humilhando loucamente em busca de ser a nova cria do velho babão.
Sabe, eu nunca achei ele grande coisa. Acho que era um otário que deu sorte. Ele fazia umas histórias que, como dizia o Will Eisner, eram para "adolescentes idiotas do Kansas" (acredito que ele se referia ao Super-Homem que, de fato, era ainda pior). Acontece que umas pessoas boas pegaram estes heróis do Stan Lee e fizeram uma ou outra coisa bacana com eles, e isso fez eles valerem a pena. Mas, ainda que ele fosse medíocre, era necessário respeitá-lo. Nenhuma HQ, por fodida que seja, pode negar o precursor que ele foi, e as possibilidades que seus quadrinhos mainstream abriram. Ele era um Elvis das HQs. E é por isso que eu fico tão puto com esta bosta de programa que ele faz. Ele arrasta pro buraco da babaquice e da falta de dignidade junto com ele uma parte da história dos quadrinhos. Mas, no fim das contas, é a prova final de que ele é o imbecil que eu sempre desconfiei que ele fosse.
E, se o Neil Gaiman ou o Alan Moore algum dia fizerem uma merda assim, daí é hora de ir atrás de alguém com uma arma.
Sobre as espúrias relações humanas
Outro dia eu vi um pai "educando" seu filho. Estavamos em um ônibus e o pai dizia "segura" para ele segurar a barra, "senta" para ele sentar no banco, "levanta" para ele ficar em pé. Assim, como se fosse um cachorrinho mesmo. Todas as pessoas, evidentemente, tomavam tal comportamento como natural. Afinal, os pais são responsáveis por seus filhos. Por suas ações, por sua educação, por suas vestimentas, por sua alimentação, etc. É de conhecimento geral de todos que uma criancinha remelenta carece de diversos atributos que poderiam lhe propiciar a capacidade de suprir suas necessidades básicas. Isso, portanto, dá direito a quem lhe propicia tudo isso e que, diga-se de passagem, é também responsável pelo seu nascimento (conscientemente ou não), de dirigir os rumos de sua educação e dos primeiros anos de sua vida como bem entendender. Não deixa, enfim, de ser um tipo de dono da criança. E assim, quem poderia interferir no que um dono faz com sua posse? Se ele quer mandar sentar, que sente. Se ele quer ensinar as coisas mais escrotas, que ensine. Dentro é claro, dos limites impostos pela força da Lei, regida pela mais estrita força da moral e dos bons costumes.
Penso que há centenas de anos era perfeitamente natural que um bem apessoado indivíduo tratasse da mesma maneira sua servil esposa ou seu obediente escravo. Hoje, há pelo menos que se encobrir este tratamento com um quê de hipocrisia.
Mas o lance é que fiquei com vontade de mandar o cara no ônibus tomar no cu dele, assim como fico com vontade de fazer isso com dezenas de pais por aí. E acho uma merda que um filho da puta possa educar seu filho pra ser um filho da puta sem que eu possa ir lá e falar pro moleque: "Ei, seu pai é um filho da puta e tudo o que ele diz é merda".
Crianças, apesar de pentelhas e remelentas, não são coisas pra que seus pais decidam o que elas devem ou não saber, ou o que eles devem ou não pensar e fazer.
Outro dia eu vi um pai "educando" seu filho. Estavamos em um ônibus e o pai dizia "segura" para ele segurar a barra, "senta" para ele sentar no banco, "levanta" para ele ficar em pé. Assim, como se fosse um cachorrinho mesmo. Todas as pessoas, evidentemente, tomavam tal comportamento como natural. Afinal, os pais são responsáveis por seus filhos. Por suas ações, por sua educação, por suas vestimentas, por sua alimentação, etc. É de conhecimento geral de todos que uma criancinha remelenta carece de diversos atributos que poderiam lhe propiciar a capacidade de suprir suas necessidades básicas. Isso, portanto, dá direito a quem lhe propicia tudo isso e que, diga-se de passagem, é também responsável pelo seu nascimento (conscientemente ou não), de dirigir os rumos de sua educação e dos primeiros anos de sua vida como bem entendender. Não deixa, enfim, de ser um tipo de dono da criança. E assim, quem poderia interferir no que um dono faz com sua posse? Se ele quer mandar sentar, que sente. Se ele quer ensinar as coisas mais escrotas, que ensine. Dentro é claro, dos limites impostos pela força da Lei, regida pela mais estrita força da moral e dos bons costumes.
Penso que há centenas de anos era perfeitamente natural que um bem apessoado indivíduo tratasse da mesma maneira sua servil esposa ou seu obediente escravo. Hoje, há pelo menos que se encobrir este tratamento com um quê de hipocrisia.
Mas o lance é que fiquei com vontade de mandar o cara no ônibus tomar no cu dele, assim como fico com vontade de fazer isso com dezenas de pais por aí. E acho uma merda que um filho da puta possa educar seu filho pra ser um filho da puta sem que eu possa ir lá e falar pro moleque: "Ei, seu pai é um filho da puta e tudo o que ele diz é merda".
Crianças, apesar de pentelhas e remelentas, não são coisas pra que seus pais decidam o que elas devem ou não saber, ou o que eles devem ou não pensar e fazer.
domingo, fevereiro 11, 2007
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
quarta-feira, janeiro 31, 2007
And now, something completely different:
http://br.noticias.yahoo.com/s/31012007/25/manchetes-crian-quatro-anos-enforca-irmao-ano-sp.html
http://br.noticias.yahoo.com/s/31012007/25/manchetes-crian-quatro-anos-enforca-irmao-ano-sp.html
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Ela corria no parque cinco vezes por semana, às cinco da manhã.
Ela, enchia a cara no boteco cinco vezes por semana, às cinco da tarde.
Ela tinha um plano, com metas e objetivos.
Ela, tinha algumas dívidas e um cachorro velho.
Ela tinha um emprego estável, uma renda fixa e um plano de previdência privada.
Ela, fazia bicos e pedia dinheiro aos amigos.
Ela visitava os pais, enviava cartões de natal para uma lista de amigos e contatos importantes, e levava um presente adequado nas visitas de ocasião.
Ela, não fazia festas de aniversário e encontrava colegas de boteco.
Ela sabia pra onde ir quando acordava. Sabia pra onde ir no fim do dia.
Ela, sabia para onde queria que tudo fosse e, sempre que dava, se esforçava para mandar tudo para lá.
Ela tinha um noivo, um compromisso, uma poupança para o enxoval e para o colégio do filho.
Ela, tinha uma queda estúpida e inabalável por alguém que tinha um emprego, um plano, uma meta e um trilho.
A vida era incurável, e ela pungia a cada abrir e fechar de dias.
Ela, enchia a cara no boteco cinco vezes por semana, às cinco da tarde.
Ela tinha um plano, com metas e objetivos.
Ela, tinha algumas dívidas e um cachorro velho.
Ela tinha um emprego estável, uma renda fixa e um plano de previdência privada.
Ela, fazia bicos e pedia dinheiro aos amigos.
Ela visitava os pais, enviava cartões de natal para uma lista de amigos e contatos importantes, e levava um presente adequado nas visitas de ocasião.
Ela, não fazia festas de aniversário e encontrava colegas de boteco.
Ela sabia pra onde ir quando acordava. Sabia pra onde ir no fim do dia.
Ela, sabia para onde queria que tudo fosse e, sempre que dava, se esforçava para mandar tudo para lá.
Ela tinha um noivo, um compromisso, uma poupança para o enxoval e para o colégio do filho.
Ela, tinha uma queda estúpida e inabalável por alguém que tinha um emprego, um plano, uma meta e um trilho.
A vida era incurável, e ela pungia a cada abrir e fechar de dias.
terça-feira, janeiro 16, 2007
domingo, dezembro 24, 2006
Milagres
O natal é uma época de milagres.
Eu voltava pra minha casa a pé, os ônibus eram bissextos naquela manhã cinza da véspera do feriado. É ridículo, eu sei, mas a gente acaba sendo contaminado pelo sentimento de todo mundo em volta. E o tédio e a mansidão dos dias me faziam querer acreditar em alguma coisa diferente, qualquer coisa. Era por isso que eu andava com a cara meio franzida, mas com um sorriso por dentro, com a expectativa de algo por vir. A cada esquina que virava, me sentia um idiota por esperar que algo acontecesse, qualquer coisa que eu, na verdade, sabia que não aconteceria.
As ruas estavam meio vazias, algumas pessoas passavam com sacolas de compras. Um vento meio frio entrava por um buraco que eu tinha no sapato esquerdo, mas não me incomodava. Não era muito frio, e eu me apegava àquilo como se fosse algo digno de recordar, como se fosse um pequeno detalhe antes de um evento que me marcaria pro resto da vida e que, passados vários anos, eu poderia lembrar comigo mesmo: é, eu me lembro de cada detalhe daquele dia: tinha um furo no sapato esquerdo por onde entrava frio e, cruzando a esquina em frente à padaria, eu lembro distintamente de um velho carregando uma sacola de pães mornos, seu cheiro enchia a manhã e ele cantarolava uma música de natal. Me apegar a estas idiotices fazia parte da expectativa de um milagre de natal, bem como aquela falsa impressão de que tudo o que eu fazia podia ser importante e mudar a minha vida de alguma maneira. Sabe, quando você fica pensando em todos os detalhes e dizendo: se eu tivesse passado por esta rua cinco minutos depois, poderia ter sido assaltado e talvez levar um tiro na perna, isso poderia mudar toda a minha vida. Ou se, na quinta série, eu tivesse aceitado o convite da Maria pra ir à sorveteria nós poderíamos ter nos beijado, nos apaixonado, nos casado...Tudo era uma grande idiotice, mas o dia era diferente dos outros. Minha cabeça não deixava ser igual. As coisas banais tinham aquele potencial e aquela poesia de alguns livros, tudo era um fluxo de consciência na minha cabeça. Ou pelo menos eu fingia que era assim.
Minha vida não era um ambiente propicio a milagres. Mas, pensando bem, acho que a vida de ninguém é, e talvez por isso todo mundo precise tanto do Natal. É como um dia em que todos podem olhar qualquer besteira e revesti-la de um caráter mágico, especial. Tudo pode ser um milagre. Só que eu acho que na maioria das vezes isso dá meio errado, como se o tiro saísse pela culatra. Atravessei a rua olhando pela janela de uma casa: uma família assistia televisão, pareciam esperar pela ceia. Não diria que pareciam especialmente felizes, mas pareciam querer estar, se esforçavam por encontrar um amor familiar e um apego à vida que certamente nunca teriam numa segunda-feira à tarde, por exemplo. Era algo assim, como um dia em que tudo lhe diz para parar e contemplar a vida, para procurar o valor das coisas que deveriam ser valorosas e que deixamos passar batido.
Ao atravessar a Consolação vi um mendigo maltrapilho que esparramava sua vida na rua, como todos os dias. Só que hoje era mais triste.
É claro que o tiro sai pela culatra. Pensa só: de repente você se vê obrigado a confrontar tudo aquilo que fez e faz da sua vida, todos os caminhos que trilha e, principalmente, os que deixa de trilhar. Não é o tipo de coisa que deixa uma pessoa ilesa. Ainda mais se você está sozinho, sem um peru e uma numerosa e barulhenta família para dispersar seus pensamentos. Sei lá, uma ou duas garrafas de cidra barata e um pouco mais de disposição e pronto, você resolve que não vai mais ter que passar por isso no ano que vem. É quase uma seleção natural da sociedade de consumo, um feriado em que a maioria das famílias ricas desembolsa uma quantidade satisfatória de dinheiro e, por outro lado, um punhado de gente relativamente inútil se mata. Quer dizer, talvez seja uma generalização idiota, mas acho que o pessoal que costuma se matar no ano novo são também aqueles que costumam gastar e ganhar menos dinheiro. Claro, deve ter sempre um ricaço com crise de consciência, pensando que não dedicou tempo suficiente de sua vida à família e coisa e tal. Mas, convenhamos, se você tem um bocado de dinheiro é mais fácil comprar algo pra te aliviar.
Talvez neste ano eu estivesse mais triste e amargo do que de costume mas, mesmo assim, enquanto perambulava pelas ruas e pensava este monte de asneiras, eu ainda não conseguia controlar aquela minha parte que sabia: o Natal é uma época de milagres. E, pensando bem, acho que a melhor vítima pra um milagre redentor e maravilhoso é alguém assim, com uma vida medíocre, meio sem perspectivas. Talvez, se eu estivesse pensando em me matar, fosse um candidato melhor. Mas não. Não era que a idéia do suicídio me parecesse desagradável em si, mas é que na minha cabeça sempre houve algo de auto-indulgente demais a respeito do suicídio. Me deixava desconfortável a idéia de que parentes e “amigos” fossem estar no meu enterro, comentando sobre como sentiam pena de mim, e eu estaria esticado no caixão sem a menor possibilidade de mandá-los à merda.
Na verdade eu não estava indo pra casa. Apenas andava naquela direção, porque era o único lugar que tinha pra ir. Era mais deprimente e tedioso lá, e nas ruas eu não me sentia exatamente triste. Era uma melancolia quase agradável e contemplativa, esperando meu milagre em cada instante. Nas ruas, sempre é mais fácil encontrar milagres. Mas estava um pouco frio, e minhas pernas começaram a cansar de andar, por isso resolvi procurar meu milagre esperando um pouco no primeiro banco que encontrei e que, por acaso, foi o do ponto de ônibus. Uma vez sentado no banco frio e um tanto desconfortável do ponto, repassava na minha cabeça outros natais e as coisas que eles levaram. Às vezes, concluí, os milagres até aconteciam. Notei então, em frente ao ponto, uma banquinha de livros velhos. O vendedor, com a boa vontade dos meus olhos natalinos, poderia ser o papai Noel disfarçado. Ele me aguardava com a paciência dos benfeitores, separava em sua sacola de bondades o meu milagre de Natal. Mas tudo o que pude encontrar ao me aproximar da banca foi um velho triste e solitário que, graças a algum problema na perna, mal podia se levantar. E trazia o rosto triste dos que trabalham no Natal para poder sobreviver. Sem milagres.
Esperando no ponto li o livro que comprei do velho por uma bagatela. As páginas amassadas e amareladas traziam contos de Natal de autores quase anônimos, que de certo passaram algum natal escrevendo e esperando seu próprio milagre de levar ao mundo suas palavras. Reconfortava-me pensando que, ao ler aquele livreto toscamente impresso, ajudava de alguma forma a realizar o milagre de Natal dos que o haviam escrito. E, é claro, eu também sabia o quanto era idiota pensar isto. Cerca uma hora lendo aquelas páginas não me aproximaram não de um milagre. Nas histórias em que li estes eram abundantes e redentores. Traziam a quem os recebia e presenciava um momento epifânico em que, por fim, todo o sentido do Natal se revelava. As pessoas mudavam, o mundo mudava. Tudo mudava. Nas histórias, as pessoas não pegavam ônibus e nem procuravam por milagres em uma rua cinza de São Paulo. Elas também não se afunilavam entre multidões sufocantes tentando comprar seus presentes na rua 25 de Março. Jesus estava presente em muitas delas, às vezes mais do que Papai Noel. Mas nunca era representado em um presépio de plástico fabricado na China e montado por um velho e rabugento síndico na portaria de um prédio. Os milagres das histórias nunca eram fruto de luzinhas coloridas que são ligadas na tomada, nem tampouco os protagonistas se referiam a tais luzinhas como portadoras do espírito do Natal e sei lá o que.
Uma das histórias, dizia o prefácio do livro, era uma versão de tal autor sobre um conto de natal clássico de um cara chamado Charles Dickens. Era sobre um cara rico e muquirana que recebe uma visita de uns espíritos e vira um cara um pouco menos muquirana porque tem medo de ser castigado por sua mesquinharia depois da morte. Esta história foi a única, acho, que pareceu ter algo em comum com a minha vida. Meu patrão parecia o sujeito da história, e parecia também ter medo de ser castigado se não fizesse boas ações. De fato, ele me deu uma bonificação de natal e um peru pessoalmente, e mandou um cartão enfeitado pra minha casa. Uma semana depois, no entanto, ele mandou um encarregado me dizer que a firma estava passando por um processo de reestruturação e que, infelizmente, na prática isso queria dizer que eu ia começar o novo ano sem emprego. Esta última parte não estava em nenhuma das histórias, e acho que Papai Noel não costuma trazer empregos em sua sacola. De qualquer maneira, eu não tenho chaminé e não escrevi uma carta pra ele. Acho também que ele não diria que me comportei bem neste ano.
Quando meu livro já estava quase no fim, enfim chegou o ônibus. Encontrei-o relativamente cheio, dividindo seu espaço entre as pessoas que voltavam para casa e as sacolas de presentes que se amontoavam. O cobrador tinha um rosto fatigado, os cabelos esbranquiçados e a expressão marcada por rugas que começavam a se insinuar. Eu senti um desejo sincero de desejar a ele e sua família um feliz natal e, de alguma forma, fazer brotar um sorriso em seu rosto. Contentei-me em lhe esticar em notas amassadas e moedas o dinheiro trocado da passagem e passar em silêncio pela catraca. Durante a viagem, as pessoas estavam ensimesmadas em seus sacos de presentes.
Não conversei com ninguém, como sempre costumo fazer dentro de qualquer ônibus que pegue. Só que hoje era mais triste.
Minha ceia foi um salgado gorduroso, duro e ressecado e algumas garrafas de cerveja em um boteco. Fiz questão de entrar em um que nunca tivesse freqüentado. Eu sabia que os milagres se escondem nos lugares mais improváveis. Minha sociabilidade de Natal foi facilitada pelo álcool, e acabei entabulando uma conversa com uma prostituta que se apresentou como Leila. Falei todo tipo de idiotices pra ela, e ela não apenas ouviu como também respondeu e parecia até mesmo alegre ao conversar comigo. Atribuí isto ao fato de que ela estava acostumada e, como requisito da profissão, agüentava todo tipo de bêbado idiota, fazendo com que eles acreditassem que ela estava se divertindo. Mas acho que ela não alimentava ilusões de que eu fosse um cliente em potencial. Já havia deixado bem claro a minha falta de dinheiro ou de vontade de usá-lo, caso tivesse, para garantir uma trepada de natal. Acho que isso seria ainda mais solitário e triste do que beber até cair e vomitar na sarjeta. Só que a menina era legal mesmo, e acho que resolveu conversar comigo porque devia também querer alguma companhia para passar o Natal. Pareceu-me bastante compreensiva quando lhe confessei que procurava um milagre de natal. Achei que, mesmo sem confessar, ela fazia o mesmo. Muita gente faz. Contei do livro que havia comprado. Ela disse que conhecia a tal história do muquirana, que ela havia visto um desenho do pato Donald sobre isto. Nesta hora, lembro-me que começamos a tomar um conhaque vagabundo em celebração à noite. Ríamos e falávamos alto.
Sabe, eu confesso que não me lembro exatamente o que aconteceu depois disso. Algumas imagens esparsas me ocorrem de vez em quando, como um álbum de fotografias desarrumado. Tudo o que sei é que no dia seguinte acordei com uma dor de cabeça a mais e todo o meu bônus de natal havia sumido sem deixar rastros. Achei um papel com um telefone, e algumas coisas escritas em uma letra meio ilegível e borradas por algum líquido. Não quero pensar sobre o que pode realmente ter acontecido. Prefiro ter a certeza de que durante este turbilhão de horas, eu encontrei meu milagre de Natal.
O natal é uma época de milagres.
Eu voltava pra minha casa a pé, os ônibus eram bissextos naquela manhã cinza da véspera do feriado. É ridículo, eu sei, mas a gente acaba sendo contaminado pelo sentimento de todo mundo em volta. E o tédio e a mansidão dos dias me faziam querer acreditar em alguma coisa diferente, qualquer coisa. Era por isso que eu andava com a cara meio franzida, mas com um sorriso por dentro, com a expectativa de algo por vir. A cada esquina que virava, me sentia um idiota por esperar que algo acontecesse, qualquer coisa que eu, na verdade, sabia que não aconteceria.
As ruas estavam meio vazias, algumas pessoas passavam com sacolas de compras. Um vento meio frio entrava por um buraco que eu tinha no sapato esquerdo, mas não me incomodava. Não era muito frio, e eu me apegava àquilo como se fosse algo digno de recordar, como se fosse um pequeno detalhe antes de um evento que me marcaria pro resto da vida e que, passados vários anos, eu poderia lembrar comigo mesmo: é, eu me lembro de cada detalhe daquele dia: tinha um furo no sapato esquerdo por onde entrava frio e, cruzando a esquina em frente à padaria, eu lembro distintamente de um velho carregando uma sacola de pães mornos, seu cheiro enchia a manhã e ele cantarolava uma música de natal. Me apegar a estas idiotices fazia parte da expectativa de um milagre de natal, bem como aquela falsa impressão de que tudo o que eu fazia podia ser importante e mudar a minha vida de alguma maneira. Sabe, quando você fica pensando em todos os detalhes e dizendo: se eu tivesse passado por esta rua cinco minutos depois, poderia ter sido assaltado e talvez levar um tiro na perna, isso poderia mudar toda a minha vida. Ou se, na quinta série, eu tivesse aceitado o convite da Maria pra ir à sorveteria nós poderíamos ter nos beijado, nos apaixonado, nos casado...Tudo era uma grande idiotice, mas o dia era diferente dos outros. Minha cabeça não deixava ser igual. As coisas banais tinham aquele potencial e aquela poesia de alguns livros, tudo era um fluxo de consciência na minha cabeça. Ou pelo menos eu fingia que era assim.
Minha vida não era um ambiente propicio a milagres. Mas, pensando bem, acho que a vida de ninguém é, e talvez por isso todo mundo precise tanto do Natal. É como um dia em que todos podem olhar qualquer besteira e revesti-la de um caráter mágico, especial. Tudo pode ser um milagre. Só que eu acho que na maioria das vezes isso dá meio errado, como se o tiro saísse pela culatra. Atravessei a rua olhando pela janela de uma casa: uma família assistia televisão, pareciam esperar pela ceia. Não diria que pareciam especialmente felizes, mas pareciam querer estar, se esforçavam por encontrar um amor familiar e um apego à vida que certamente nunca teriam numa segunda-feira à tarde, por exemplo. Era algo assim, como um dia em que tudo lhe diz para parar e contemplar a vida, para procurar o valor das coisas que deveriam ser valorosas e que deixamos passar batido.
Ao atravessar a Consolação vi um mendigo maltrapilho que esparramava sua vida na rua, como todos os dias. Só que hoje era mais triste.
É claro que o tiro sai pela culatra. Pensa só: de repente você se vê obrigado a confrontar tudo aquilo que fez e faz da sua vida, todos os caminhos que trilha e, principalmente, os que deixa de trilhar. Não é o tipo de coisa que deixa uma pessoa ilesa. Ainda mais se você está sozinho, sem um peru e uma numerosa e barulhenta família para dispersar seus pensamentos. Sei lá, uma ou duas garrafas de cidra barata e um pouco mais de disposição e pronto, você resolve que não vai mais ter que passar por isso no ano que vem. É quase uma seleção natural da sociedade de consumo, um feriado em que a maioria das famílias ricas desembolsa uma quantidade satisfatória de dinheiro e, por outro lado, um punhado de gente relativamente inútil se mata. Quer dizer, talvez seja uma generalização idiota, mas acho que o pessoal que costuma se matar no ano novo são também aqueles que costumam gastar e ganhar menos dinheiro. Claro, deve ter sempre um ricaço com crise de consciência, pensando que não dedicou tempo suficiente de sua vida à família e coisa e tal. Mas, convenhamos, se você tem um bocado de dinheiro é mais fácil comprar algo pra te aliviar.
Talvez neste ano eu estivesse mais triste e amargo do que de costume mas, mesmo assim, enquanto perambulava pelas ruas e pensava este monte de asneiras, eu ainda não conseguia controlar aquela minha parte que sabia: o Natal é uma época de milagres. E, pensando bem, acho que a melhor vítima pra um milagre redentor e maravilhoso é alguém assim, com uma vida medíocre, meio sem perspectivas. Talvez, se eu estivesse pensando em me matar, fosse um candidato melhor. Mas não. Não era que a idéia do suicídio me parecesse desagradável em si, mas é que na minha cabeça sempre houve algo de auto-indulgente demais a respeito do suicídio. Me deixava desconfortável a idéia de que parentes e “amigos” fossem estar no meu enterro, comentando sobre como sentiam pena de mim, e eu estaria esticado no caixão sem a menor possibilidade de mandá-los à merda.
Na verdade eu não estava indo pra casa. Apenas andava naquela direção, porque era o único lugar que tinha pra ir. Era mais deprimente e tedioso lá, e nas ruas eu não me sentia exatamente triste. Era uma melancolia quase agradável e contemplativa, esperando meu milagre em cada instante. Nas ruas, sempre é mais fácil encontrar milagres. Mas estava um pouco frio, e minhas pernas começaram a cansar de andar, por isso resolvi procurar meu milagre esperando um pouco no primeiro banco que encontrei e que, por acaso, foi o do ponto de ônibus. Uma vez sentado no banco frio e um tanto desconfortável do ponto, repassava na minha cabeça outros natais e as coisas que eles levaram. Às vezes, concluí, os milagres até aconteciam. Notei então, em frente ao ponto, uma banquinha de livros velhos. O vendedor, com a boa vontade dos meus olhos natalinos, poderia ser o papai Noel disfarçado. Ele me aguardava com a paciência dos benfeitores, separava em sua sacola de bondades o meu milagre de Natal. Mas tudo o que pude encontrar ao me aproximar da banca foi um velho triste e solitário que, graças a algum problema na perna, mal podia se levantar. E trazia o rosto triste dos que trabalham no Natal para poder sobreviver. Sem milagres.
Esperando no ponto li o livro que comprei do velho por uma bagatela. As páginas amassadas e amareladas traziam contos de Natal de autores quase anônimos, que de certo passaram algum natal escrevendo e esperando seu próprio milagre de levar ao mundo suas palavras. Reconfortava-me pensando que, ao ler aquele livreto toscamente impresso, ajudava de alguma forma a realizar o milagre de Natal dos que o haviam escrito. E, é claro, eu também sabia o quanto era idiota pensar isto. Cerca uma hora lendo aquelas páginas não me aproximaram não de um milagre. Nas histórias em que li estes eram abundantes e redentores. Traziam a quem os recebia e presenciava um momento epifânico em que, por fim, todo o sentido do Natal se revelava. As pessoas mudavam, o mundo mudava. Tudo mudava. Nas histórias, as pessoas não pegavam ônibus e nem procuravam por milagres em uma rua cinza de São Paulo. Elas também não se afunilavam entre multidões sufocantes tentando comprar seus presentes na rua 25 de Março. Jesus estava presente em muitas delas, às vezes mais do que Papai Noel. Mas nunca era representado em um presépio de plástico fabricado na China e montado por um velho e rabugento síndico na portaria de um prédio. Os milagres das histórias nunca eram fruto de luzinhas coloridas que são ligadas na tomada, nem tampouco os protagonistas se referiam a tais luzinhas como portadoras do espírito do Natal e sei lá o que.
Uma das histórias, dizia o prefácio do livro, era uma versão de tal autor sobre um conto de natal clássico de um cara chamado Charles Dickens. Era sobre um cara rico e muquirana que recebe uma visita de uns espíritos e vira um cara um pouco menos muquirana porque tem medo de ser castigado por sua mesquinharia depois da morte. Esta história foi a única, acho, que pareceu ter algo em comum com a minha vida. Meu patrão parecia o sujeito da história, e parecia também ter medo de ser castigado se não fizesse boas ações. De fato, ele me deu uma bonificação de natal e um peru pessoalmente, e mandou um cartão enfeitado pra minha casa. Uma semana depois, no entanto, ele mandou um encarregado me dizer que a firma estava passando por um processo de reestruturação e que, infelizmente, na prática isso queria dizer que eu ia começar o novo ano sem emprego. Esta última parte não estava em nenhuma das histórias, e acho que Papai Noel não costuma trazer empregos em sua sacola. De qualquer maneira, eu não tenho chaminé e não escrevi uma carta pra ele. Acho também que ele não diria que me comportei bem neste ano.
Quando meu livro já estava quase no fim, enfim chegou o ônibus. Encontrei-o relativamente cheio, dividindo seu espaço entre as pessoas que voltavam para casa e as sacolas de presentes que se amontoavam. O cobrador tinha um rosto fatigado, os cabelos esbranquiçados e a expressão marcada por rugas que começavam a se insinuar. Eu senti um desejo sincero de desejar a ele e sua família um feliz natal e, de alguma forma, fazer brotar um sorriso em seu rosto. Contentei-me em lhe esticar em notas amassadas e moedas o dinheiro trocado da passagem e passar em silêncio pela catraca. Durante a viagem, as pessoas estavam ensimesmadas em seus sacos de presentes.
Não conversei com ninguém, como sempre costumo fazer dentro de qualquer ônibus que pegue. Só que hoje era mais triste.
Minha ceia foi um salgado gorduroso, duro e ressecado e algumas garrafas de cerveja em um boteco. Fiz questão de entrar em um que nunca tivesse freqüentado. Eu sabia que os milagres se escondem nos lugares mais improváveis. Minha sociabilidade de Natal foi facilitada pelo álcool, e acabei entabulando uma conversa com uma prostituta que se apresentou como Leila. Falei todo tipo de idiotices pra ela, e ela não apenas ouviu como também respondeu e parecia até mesmo alegre ao conversar comigo. Atribuí isto ao fato de que ela estava acostumada e, como requisito da profissão, agüentava todo tipo de bêbado idiota, fazendo com que eles acreditassem que ela estava se divertindo. Mas acho que ela não alimentava ilusões de que eu fosse um cliente em potencial. Já havia deixado bem claro a minha falta de dinheiro ou de vontade de usá-lo, caso tivesse, para garantir uma trepada de natal. Acho que isso seria ainda mais solitário e triste do que beber até cair e vomitar na sarjeta. Só que a menina era legal mesmo, e acho que resolveu conversar comigo porque devia também querer alguma companhia para passar o Natal. Pareceu-me bastante compreensiva quando lhe confessei que procurava um milagre de natal. Achei que, mesmo sem confessar, ela fazia o mesmo. Muita gente faz. Contei do livro que havia comprado. Ela disse que conhecia a tal história do muquirana, que ela havia visto um desenho do pato Donald sobre isto. Nesta hora, lembro-me que começamos a tomar um conhaque vagabundo em celebração à noite. Ríamos e falávamos alto.
Sabe, eu confesso que não me lembro exatamente o que aconteceu depois disso. Algumas imagens esparsas me ocorrem de vez em quando, como um álbum de fotografias desarrumado. Tudo o que sei é que no dia seguinte acordei com uma dor de cabeça a mais e todo o meu bônus de natal havia sumido sem deixar rastros. Achei um papel com um telefone, e algumas coisas escritas em uma letra meio ilegível e borradas por algum líquido. Não quero pensar sobre o que pode realmente ter acontecido. Prefiro ter a certeza de que durante este turbilhão de horas, eu encontrei meu milagre de Natal.
terça-feira, dezembro 19, 2006
sexta-feira, novembro 17, 2006
domingo, outubro 01, 2006
NULO
Estamos em quarto lugar nas pesquisas. Mas é engraçado como mal se divulga o assunto. A única forma de divulgação é o apelo desesperado de todos os jornalistas, comentaristas e órgãos como o TSE implorando que as pessoas não votem nulo e dizendo como isso "enfraquece a democracia" e outras imbecilidades do tipo.
Estamos em quarto lugar nas pesquisas. Mas é engraçado como mal se divulga o assunto. A única forma de divulgação é o apelo desesperado de todos os jornalistas, comentaristas e órgãos como o TSE implorando que as pessoas não votem nulo e dizendo como isso "enfraquece a democracia" e outras imbecilidades do tipo.
terça-feira, setembro 12, 2006
CHUPA! CHUPA!!!!
Realizaram um sonho maravilhoso que eu tinha em minha mente, uma destas coisas bonitas que você sempre quis realizar na vida, mas sempre foi uma utopia.
Há dias em que você recupera um pouco da esperança de que o mundo pode ser um lugar justo e bom, e hoje é um destes dias.
Até mais Excelentíssimo Coronel Ubiratan. Neste momento singular eu gostaria que realmente houvesse uma vida após a morte, onde você pudesse sofrer mais.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u125835.shtml
Ah, estou pensando que deveríamos fazer uma festa de comemoração, talvez no espaço aquário. Quem topa?
Realizaram um sonho maravilhoso que eu tinha em minha mente, uma destas coisas bonitas que você sempre quis realizar na vida, mas sempre foi uma utopia.
Há dias em que você recupera um pouco da esperança de que o mundo pode ser um lugar justo e bom, e hoje é um destes dias.
Até mais Excelentíssimo Coronel Ubiratan. Neste momento singular eu gostaria que realmente houvesse uma vida após a morte, onde você pudesse sofrer mais.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u125835.shtml
Ah, estou pensando que deveríamos fazer uma festa de comemoração, talvez no espaço aquário. Quem topa?
domingo, setembro 10, 2006
Tudo bem, eu sei que não tenho doenças incuráveis e tenho todos os meus membros e que os meus problemas são todos bobinhos e vivem praticamente dentro da minha cabeça depressiva pós-adolescente pseudo-niilista de moleque desocupado do começo do século do fim do mundo. Mas, afinal, fizemos blogs para escrever coisas belas e edificar o conhecimento e a moral dos nossos tempos ou fizemos para ficar reclamando de nossas vidinhas pacatas e medíocres de pequenos-burgueses pretensiosos impotentes diante da crueldade e feiúra do mundo e de nós mesmos? (e repare que a primeira pessoa do plural é puramente um efeito retórico e eu não tive a intenção de envolver nenhum de vocês em meus toscos draminhas pessoais tá? E como a pergunta também foi retórica, e nós já sabemos a resposta, vamos pular direto pra parte onde eu começo o famigerado mimimi).
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Você precisa parar de ser vítima das coisas, Fernando.
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...
quarta-feira, agosto 23, 2006
terça-feira, junho 27, 2006
Tava lendo um textinho aí do carequinha Lênin, chamado assim: O materialismo dialético e o Anarquismo.
Achei que ia ser interessante, mas não tem nada a ver. É uma discussão sobre o materialismo dialético ser ou não uma ciência e coisa e tal. Tipo assim, super demodê, sabe?
Mas tem um trecho que me deu vontade de colocar aqui, porque não faz absolutamente nenhum sentido, é como uma discussão entre crianças de nove anos.
"Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo!"
Sensacional né? Aprendi horrores.
Achei que ia ser interessante, mas não tem nada a ver. É uma discussão sobre o materialismo dialético ser ou não uma ciência e coisa e tal. Tipo assim, super demodê, sabe?
Mas tem um trecho que me deu vontade de colocar aqui, porque não faz absolutamente nenhum sentido, é como uma discussão entre crianças de nove anos.
"Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo!"
Sensacional né? Aprendi horrores.
domingo, junho 04, 2006
Como Queríamos Demonstrar
Transtornado. Esta é a palavra que define meu estado de espírito no momento. Ainda nem sinto a coisa bem digerida no meu cérebro pra poder escrever sobre ela, mas como eu posso falar a merda que quiser aqui, vai assim mesmo.
O Movimento Estudantil é um CU, um GRANDE CU. Eu queria ir na plenária final do Congresso de Estudantes da USP e gritar isto. Isto não ia ser suficiente. Eu queria ir na plenária final do CONUNE e gritar isto e um monte de coisas no microfone. Eu queria escrever um tratado de mil páginas dizendo em detalhes como, quando, onde e porquê o ME é um grande CU.
Mas, como queríamos demonstrar, eu fui na plenária inicial ver o grande autismo burocrata: em vez de defendermos o emprego de oito terceirizados que ganham menos de quatrocentos reais, não têm direitos trabalhistas e foram demitidos por se organizarem com um sindicato, o Congresso decide por fazer a discussão, priorizando nosso "acúmulo", levar as discussões pra nossos Campi e, finalmente, tirar uma deliberação que será fundamental para impulsionar nossas lutas. Os burocratas optam pela mentira deslavada, a calúnia, a hipocrisia sem pudores.
Eu vi os GTs autistas, discutindo idiotices sem base material nenhuma. Eu vi a plenária final com seus delegados desqualificando a posição das correntes minoritárias em um gesto absolutamente idiota e infantil. O Congresso aprovou que o PCO é fascista.
E, enfim, como já prevíamos, vimos as pessoas não entenderem sarcasmo e nos dizerem que somos reacionários, machistas, conservadores. E até mesmo levantarem a questão de que talvez estejamos do outro lado da trincheira. Veja bem, não veio da minha boca sectária e cheia de nojo. Mas talvez seja verdade. Talvez eu não esteja do lado da trincheira das pessoas que querem fazer a frente classista e brincar de ser parlamentar. Talvez eu não esteja do lado da trincheira que quer brincar de "acumular" sobre a luta de classes enquanto ela está acontecendo debaixo do nosso nariz.
Eu estou de saco cheio. DE SACO CHEIO.
Transtornado. Esta é a palavra que define meu estado de espírito no momento. Ainda nem sinto a coisa bem digerida no meu cérebro pra poder escrever sobre ela, mas como eu posso falar a merda que quiser aqui, vai assim mesmo.
O Movimento Estudantil é um CU, um GRANDE CU. Eu queria ir na plenária final do Congresso de Estudantes da USP e gritar isto. Isto não ia ser suficiente. Eu queria ir na plenária final do CONUNE e gritar isto e um monte de coisas no microfone. Eu queria escrever um tratado de mil páginas dizendo em detalhes como, quando, onde e porquê o ME é um grande CU.
Mas, como queríamos demonstrar, eu fui na plenária inicial ver o grande autismo burocrata: em vez de defendermos o emprego de oito terceirizados que ganham menos de quatrocentos reais, não têm direitos trabalhistas e foram demitidos por se organizarem com um sindicato, o Congresso decide por fazer a discussão, priorizando nosso "acúmulo", levar as discussões pra nossos Campi e, finalmente, tirar uma deliberação que será fundamental para impulsionar nossas lutas. Os burocratas optam pela mentira deslavada, a calúnia, a hipocrisia sem pudores.
Eu vi os GTs autistas, discutindo idiotices sem base material nenhuma. Eu vi a plenária final com seus delegados desqualificando a posição das correntes minoritárias em um gesto absolutamente idiota e infantil. O Congresso aprovou que o PCO é fascista.
E, enfim, como já prevíamos, vimos as pessoas não entenderem sarcasmo e nos dizerem que somos reacionários, machistas, conservadores. E até mesmo levantarem a questão de que talvez estejamos do outro lado da trincheira. Veja bem, não veio da minha boca sectária e cheia de nojo. Mas talvez seja verdade. Talvez eu não esteja do lado da trincheira das pessoas que querem fazer a frente classista e brincar de ser parlamentar. Talvez eu não esteja do lado da trincheira que quer brincar de "acumular" sobre a luta de classes enquanto ela está acontecendo debaixo do nosso nariz.
Eu estou de saco cheio. DE SACO CHEIO.
domingo, maio 21, 2006
Ouvir babaquice e opiniões estúpidas infelizmente é algo pra lá de corriqueiro neste mundo imbecil, mas fazia um bocado de tempo que eu não era forçado a ouvir tanta merda em uma só semana. Caralho, que que é esta porra da cidade inteira parar, as pessoas cancelarem tudo e fecharem todas as coisas porque queimaram uns ônibus e mataram uns PMs. "Ai, que medo! O PCC vai me matar!" Se você é uma destas pessoas que ficou com medo de sair na rua por causa do PCC e tá lendo isto, eu só queria dizer que te acho um imbecil. Se você tivesse reparado um pouco em vez de só enfiar no seu cérebro de ervilha a opinião pré-fabricada do senso comum, teria notado que só morreram PMs. SÓ POLÍCIA, entendeu animal? Não mataram nenhum adolescente de classe média que vive no percurso jardins-paulista-pinheiros-butantã-centro-vilamariana-perdizes. Aliás, teria notado também que os ataques foram na PERIFERIA, lugar que você não frequenta. Tudo bem, pra não dizer que eu menti, morreu também um bombeiro. Mas, tecnicamente, ele é da polícia também. E devia ter um uniforme parecido além de tudo. Quanto ao resto, não posso dizer que eu não sinto uma certa satisfação, e, às vezes, inveja. Quem já não teve vontade de matar um policial cuzão a pauladas? Eu sei que eu já, muitas vezes. É claro que eu me recrimino por esta vontade tão horrível, afinal o gambé é só mais um filho da puta explorado, com uma família e tudo mais. Bom, mas aí é só visitar umas comunidades de PM no orkut que eu até fico com vontade de ver eles morrendo de novo. E queimar uns ônibus, porra, taí outra coisa que eu também sempre quis fazer.
Mas enquanto o pessoal fica se borrando de medo do PCC, não causa nenhum alarde os grupos de policiais encapuzados que saíram matando quatro ou cinco vezes mais pessoas indiscriminadamente pelas periferias.
A primeira coisa que eu pensei na segunda-feira, quando começou o pânico generalizado foi aquela velha frase da Rosinha: Socialismo ou barbárie. Enfim, acho que a escolha tá feita né, num adianta chorar sobre o leite derramado. Enquanto isso o filho da puta, hipócrita, ex-arena que governa alegremente São Paulo tem a coragem de colocar a culpa na porra da elite branca. Vai tomar no cu, caralho, olha no espelho e na sua carteira seu merda. Deviam colocar ele pra ser agente penitenciário por um mês, isso ia dar um bom reality show.
E a frase mais ouvida na minha semana foi o velho e bom chavão: "direitos humanos para humanos direitos."
Revolução meu cu. O que pega agora pro povo marginalizado é se enfiar no capitalismo em grande estilo e pegar sua fatia do bolo através de mega-corporações de narcotraficantes. Depois da gaviões e do PCC em SP e do mengão e do CV no Rio, quem vai querer outra coisa? As mobilizações de massa são estas meus amigos: nem trotskistas com quartas internacionais, nem UJS e stalinismo, nem Passe-Livre porra nenhuma. O povo pobre tá aí, lutando pra não se foder na cadeia e sobrevivendo da droga que você vai lá comprar no fim de semana. A grande luta é entre a corporação A e a B. Enquanto os colarinhos brancos ficam assistindo, quem vai se foder são os peõs do lado branco e negro: os PMs que se fodem na rua e os pau-mandado que entopem as cadeias. Não tem espaço pra mais nada neste duelo de titãs.
A cada dia que eu vivo neste mundo eu tenho mais vontade de cair fora.
Mas enquanto o pessoal fica se borrando de medo do PCC, não causa nenhum alarde os grupos de policiais encapuzados que saíram matando quatro ou cinco vezes mais pessoas indiscriminadamente pelas periferias.
A primeira coisa que eu pensei na segunda-feira, quando começou o pânico generalizado foi aquela velha frase da Rosinha: Socialismo ou barbárie. Enfim, acho que a escolha tá feita né, num adianta chorar sobre o leite derramado. Enquanto isso o filho da puta, hipócrita, ex-arena que governa alegremente São Paulo tem a coragem de colocar a culpa na porra da elite branca. Vai tomar no cu, caralho, olha no espelho e na sua carteira seu merda. Deviam colocar ele pra ser agente penitenciário por um mês, isso ia dar um bom reality show.
E a frase mais ouvida na minha semana foi o velho e bom chavão: "direitos humanos para humanos direitos."
Revolução meu cu. O que pega agora pro povo marginalizado é se enfiar no capitalismo em grande estilo e pegar sua fatia do bolo através de mega-corporações de narcotraficantes. Depois da gaviões e do PCC em SP e do mengão e do CV no Rio, quem vai querer outra coisa? As mobilizações de massa são estas meus amigos: nem trotskistas com quartas internacionais, nem UJS e stalinismo, nem Passe-Livre porra nenhuma. O povo pobre tá aí, lutando pra não se foder na cadeia e sobrevivendo da droga que você vai lá comprar no fim de semana. A grande luta é entre a corporação A e a B. Enquanto os colarinhos brancos ficam assistindo, quem vai se foder são os peõs do lado branco e negro: os PMs que se fodem na rua e os pau-mandado que entopem as cadeias. Não tem espaço pra mais nada neste duelo de titãs.
A cada dia que eu vivo neste mundo eu tenho mais vontade de cair fora.
sábado, abril 08, 2006
Hahahah!
Eu me divirto muito, viu.
Olha só o post que eu encontrei no orkut hoje:
minha amiga se filiou bêbada
A UJS sabe fazer festa, uma das táticas de filiar membros. Certa vez, numa festa da UJS, minha amiga bebeu muito e no outro dia para sua surpresa ela estava filiada a UJS. Lógico, ressacas passam!!!!
Eu me divirto muito, viu.
Olha só o post que eu encontrei no orkut hoje:
minha amiga se filiou bêbada
A UJS sabe fazer festa, uma das táticas de filiar membros. Certa vez, numa festa da UJS, minha amiga bebeu muito e no outro dia para sua surpresa ela estava filiada a UJS. Lógico, ressacas passam!!!!
quinta-feira, março 30, 2006
domingo, março 19, 2006

Eu acho absolutamente genial a inabalável vontade de viver e ser feliz de certas pessoas. Eu queria poder abraçá-las.
Frank, I didn't make this card, but it could have been me. I just burst into tears.To the person who made that secret:When I was four years old, my father punched me in the face for the first time. When I was five we moved to a new town, where everybody hated me because I had red hair. I had no friends until I was eighteen years old. I began cutting and starving at six years old. At 12 I was sexually assaulted. At fourteen I nearly had my eye torn out when it was hit by a stone. By the time I left for university I weighed 70lbs. Six months later I weighed 64lbs. A year after that I was resuscitated in hospital, and spent six months fighting to get my memory back and stay at university. My first boyfriend starved and abused me. My second boyfriend ignored me then cheated on me. My best friend killed himself last year. A couple of months ago I was assaulted for the second time. Thank you for helping me see that I'm not alone. I'm not the only one.I'm 12 days away from finishing my PhD. I have a friend helping me to get my series of books published.I spent 21 years of my life fighting between trying to die and trying to stay alive. Thank you for saying what I wanted to say, but am too scared to. I'm excited, because my life is about to begin, because of who I'm becoming. I'm 27 years old.
-UK
quarta-feira, março 15, 2006
sábado, março 04, 2006
sexta-feira, janeiro 27, 2006
sábado, janeiro 21, 2006
De repente me bateu uma saudade.
De coisas que tive e das que não tive.
Das que poderia ter tido e das que não poderia.
Das coisas que eu ainda vou ter e das que nunca terei.
E o arrependimento.
De coisas que fiz, que não fiz.
E daquelas que ainda não fiz ou nunca farei.
Quero pintar com uma aquarela ridícula os espaços pretos e brancos daqui e dali.
Às vezes eu acho que vou lembrar como.
De coisas que tive e das que não tive.
Das que poderia ter tido e das que não poderia.
Das coisas que eu ainda vou ter e das que nunca terei.
E o arrependimento.
De coisas que fiz, que não fiz.
E daquelas que ainda não fiz ou nunca farei.
Quero pintar com uma aquarela ridícula os espaços pretos e brancos daqui e dali.
Às vezes eu acho que vou lembrar como.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
IV
Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.
Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.
terça-feira, dezembro 27, 2005
III
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
II
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.
domingo, dezembro 25, 2005
Ainda iriam passar cerca de quatro horas naquele buraco sujo, segundo os cálculos imprecisos de Pedro. Mas para sua cabeça, naquele estado, quarenta minutos ou quatro horas seriam difíceis de distinguir. Alternava o foco da sua atenção entre os diversos pontos de dor no seu corpo, ora sentindo seu pé latejando, provavelmente com algum osso quebrado, ora sentindo as feridas no rosto, cujo sangramento não estancado tingia de vermelho sua camiseta velha e o chão da cela. Felizmente, os gritos e insultos do Ferreira se tornavam um zumbido distante e sem importância na sua consciência anuviada pelas drogas.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Quero sugestões pro meu conto de natal.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
terça-feira, dezembro 06, 2005
As últimas temporadas de Simpsons, não sei se devido ao desgaste de mais de quinze anos, ou à queda da qualidade dos roteiristas, ou ao meu gradual processo de enranzinzamento e perda de humor, me pareceram sempre muito piores do que as primeiras.
No entanto, hoje eu vi um episódio sensacional. O burns resolve ficar popular e compra toda a mídia da cidade, menos o jornalzinho que a Lisa faz. No fim do episódio a Lisa diz pro Homer que aprendeu que um jornalzinho não pode mudar este mundo ruim. Daí aparece um monte de gente com seus próprios jornaizinhos, e a Lisa vê que ensinou as pessoas a acreditarem no poder da mídia alternativa.
Mas enfim, tudo isso só pra dizer a última frase do Homer, que foi o foda do episódio:
Agora não tem mais um tirano controlando a imprensa, mas mil malucos distribuindo suas opiniões sem nenhuma importância.
Lembra algo?
No entanto, hoje eu vi um episódio sensacional. O burns resolve ficar popular e compra toda a mídia da cidade, menos o jornalzinho que a Lisa faz. No fim do episódio a Lisa diz pro Homer que aprendeu que um jornalzinho não pode mudar este mundo ruim. Daí aparece um monte de gente com seus próprios jornaizinhos, e a Lisa vê que ensinou as pessoas a acreditarem no poder da mídia alternativa.
Mas enfim, tudo isso só pra dizer a última frase do Homer, que foi o foda do episódio:
Agora não tem mais um tirano controlando a imprensa, mas mil malucos distribuindo suas opiniões sem nenhuma importância.
Lembra algo?
Just for the record...
Estava relendo um trabalho meu sobre a formação do império russo, e fiquei pensando sobre como as pessoas são engraçadas. Sei lá, aí vai um trecho. Dúvido que interesse a muita gente, mas isso é problema de vcs:
O domínio tártaro que se estendeu por séculos na Rússia teve conseqüências profundas na vida cultural de seu povo. Um dos fatores mais importantes a se observar neste período é o isolamento em relação à Europa pelo qual Rus passa. Apenas Novgórod e Pskov mantiveram algumas relações com cidades setentrionais alemãs. Todo o desenvolvimento cultural que havia no período anterior ao advento dos mongóis sucumbiu diante de sua dominação. O artesanato, por exemplo, até então bem desenvolvido, regrediu significativamente. Nas palavras de Púchkin: “Os tártaros conquistaram a Rússia, mas não nos ofereceram a álgebra nem Aristóteles”. As crônicas e escritos religiosos da época também demonstraram a influência negativa que a dominação tártara exerceu sobre o mundo cultural da Rússia. Os negócios e as cidades também foram prejudicados, e isto tudo se deve essencialmente aos métodos da dominação mongol. Além da produção cultural, a cultura política russa também sofreu grande influência, que ajudou a construir a mentalidade absolutista e autocrática da Rússia.
Estava relendo um trabalho meu sobre a formação do império russo, e fiquei pensando sobre como as pessoas são engraçadas. Sei lá, aí vai um trecho. Dúvido que interesse a muita gente, mas isso é problema de vcs:
O domínio tártaro que se estendeu por séculos na Rússia teve conseqüências profundas na vida cultural de seu povo. Um dos fatores mais importantes a se observar neste período é o isolamento em relação à Europa pelo qual Rus passa. Apenas Novgórod e Pskov mantiveram algumas relações com cidades setentrionais alemãs. Todo o desenvolvimento cultural que havia no período anterior ao advento dos mongóis sucumbiu diante de sua dominação. O artesanato, por exemplo, até então bem desenvolvido, regrediu significativamente. Nas palavras de Púchkin: “Os tártaros conquistaram a Rússia, mas não nos ofereceram a álgebra nem Aristóteles”. As crônicas e escritos religiosos da época também demonstraram a influência negativa que a dominação tártara exerceu sobre o mundo cultural da Rússia. Os negócios e as cidades também foram prejudicados, e isto tudo se deve essencialmente aos métodos da dominação mongol. Além da produção cultural, a cultura política russa também sofreu grande influência, que ajudou a construir a mentalidade absolutista e autocrática da Rússia.
O dia tá frio, cinza e ruim.
Eu escrevo, escrevo, mas ainda estou na quarta página do meu trabalho. Não aguento mais. Provavelmente mais uma noite em claro.
Eu sou uma pessoa mesquinha, desmotivada, egoísta, rancorosa e ruim.
O Garbage acabou, era uma das minhas bandas preferidas.
Eu vi um filme ruim hoje na tv, e perdi um tempão do trabalho que devia estar fazendo.
Eu devia gostar mais da Rússia, ou de alguma coisa.
As férias estão chegando, e eu sempre acho que vou encontrar alguma coisa atrás da porta.
Se eu fosse você, não perdia mais tempo.
Você perde tempo?
Eu escrevo, escrevo, mas ainda estou na quarta página do meu trabalho. Não aguento mais. Provavelmente mais uma noite em claro.
Eu sou uma pessoa mesquinha, desmotivada, egoísta, rancorosa e ruim.
O Garbage acabou, era uma das minhas bandas preferidas.
Eu vi um filme ruim hoje na tv, e perdi um tempão do trabalho que devia estar fazendo.
Eu devia gostar mais da Rússia, ou de alguma coisa.
As férias estão chegando, e eu sempre acho que vou encontrar alguma coisa atrás da porta.
Se eu fosse você, não perdia mais tempo.
Você perde tempo?
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Eu tenho medo de mim.
Cada dia eu olho pras coisas e tenho mais raiva, nojo, desprezo, tristeza, desânimo, desgosto em relação a todas elas. Quando as pessoas falam, eu não gosto. Quando eu vejo programas, leio livros, penso em possibilidades, tudo é escroto. Eu não tenho mais respostas, perguntas, iniciativa, esperança, ambições, planos, metas, vontades.
A vida me parece a coisa mais idiota já inventada. E me parece a única.
Eu fico imaginando como eu vou estar daqui a trinta anos. Mas eu não consigo nem pensar em que merda que eu vou fazer pra amanhã.
As coisas que gosto, as poucas, são bacanas. Mas elas não podem me salvar e nem salvar o mundo.
eu não gosto deste post, e provavelmente não gosto dos seus comentários.
(Eu tenho vontade de ficar fazendo uma lista de coisas que me dão raiva, e ela cresce em velocidade exponencial. Odeio seus hábitos, gostos, gestos, pretensões. Que se fodam.)
Cada dia eu olho pras coisas e tenho mais raiva, nojo, desprezo, tristeza, desânimo, desgosto em relação a todas elas. Quando as pessoas falam, eu não gosto. Quando eu vejo programas, leio livros, penso em possibilidades, tudo é escroto. Eu não tenho mais respostas, perguntas, iniciativa, esperança, ambições, planos, metas, vontades.
A vida me parece a coisa mais idiota já inventada. E me parece a única.
Eu fico imaginando como eu vou estar daqui a trinta anos. Mas eu não consigo nem pensar em que merda que eu vou fazer pra amanhã.
As coisas que gosto, as poucas, são bacanas. Mas elas não podem me salvar e nem salvar o mundo.
eu não gosto deste post, e provavelmente não gosto dos seus comentários.
(Eu tenho vontade de ficar fazendo uma lista de coisas que me dão raiva, e ela cresce em velocidade exponencial. Odeio seus hábitos, gostos, gestos, pretensões. Que se fodam.)
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