quarta-feira, maio 23, 2007

Reitoria ocupada 14.05.2007

Ocupamos: metemos o pé na porta, a pedra, a mão,
a grade torta empurra empurra quebra o vidro corre rasga o passo atravessa
chega aqui.
Chegar até o presente, ao concreto, ao real,
ato duro, intransigente: violência de florir.
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Ocupamos: há mais de onze dias tomamos nosso espaço
no seio do poder e da decisão do que é e do não
nesta universidade.

Não mais esperamos a benevolência,
a boa vontade: Criamos
nós nossas condições.

Não aceitaremos mais a forma imposta, a reflexão não mais se molda. Nossa crítica não se calará com puras palavras, o puro pensamento infinitamente maleável.
O pensamento toma as mãos, que não mais tomam sua submissão, não tomam menos do que o mundo, do que aqui, sua história.
Torcemos as barras, rompemos a contenção, atravessamos o muro com nossas reivindicações: invadimos o presente.

Da violência dos atos, o nosso tem de diferente a visibilidade apenas.
Não ferimos ninguém, não subjugamos ou exploramos. Foi apenas o silêncio complacente de um vidro limpo o que se quebrou, a omissão dos corredores quanto a sua direção e o inquestionado mando de uma grade.
Podem eles falar o mesmo?
Negar a educação, formar escravos, robôs,
torcer, não uma grade, mas uma vida, formar pessoas para sua exploração;
negar comida, a vida, o sol, sem dizer não: pagando pouco e dizendo isso privilégio; vender direitos... Não são violências estas muito maiores e mais nefastas?
Por que então têm passo livre nas catracas?
Por que não ofende o mundo, a terra, o ar, sua mera possibilidade, como não sujam as paredes?

Radicais? sim, extremos, mas nem sequer fomos nós que escolhemos os termos desse passo... Reagimos: A situação é insustentável. Sim, teremos de fazer mais do que reagir, e é isso que se abriu, como uma porta para o presente, na radicalidade da resposta: Podemos criar o nosso mundo, o aqui não está dada, assim como o tempo.
O que até hoje foi óbvio (apenas) torna-se de repente real, matéria que o ato articula, com suas dores, suas faltas, seus limites. E seus sonhos.
Sonhar é, de repente, possibilidade e não fechar de olhos; é ir além do que a vista concede; é passarem os olhos a esculpir o corpo.


Lucas Itacarambi

domingo, maio 20, 2007

De um lado greve, piquetes e mobilização. Do outro diretores reacionários, ataques da mídia e mandatos de reintegração de posse.
Os ânimos se acirram na luta pelos rumos da universidade.

segunda-feira, maio 14, 2007

Se o movimento estudantil fosse sempre como ele está sendo agora na USP, a revolução estaria bem mais próxima de nós. A esperança é que este processo crie a nova militância da USP, que vai atropelar a burocracia falida dos dias de sempre.
Se vocês quiserem discutir política com gente disposta e com qualidade, recomendo frequentar a reitoria da USP. Hoje tem plenária e vai rolar uma programação legal nos próximos dias.

domingo, maio 13, 2007

Fora pelegada, pelegada fora!
Fora pelegada que chegou a nossa hora!

quarta-feira, maio 09, 2007

Minha nova casa é a reitoria da USP. Visitem-me.
Meu novo blog é http://ocupacaousp.blog.terra.com.br/ . Visitem-me.
Dia 10 tem ato na Paulista. Compareçam.
Ontem eu fui na assembléia estudantil mais cheia da minha vida, com uns dois mil estudantes.

sábado, abril 28, 2007

Acontecimentos importantes no mundo no dia do meu aniversário:

http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/070428/manchetes/manchetes_politica_lula_rebelde_pol

terça-feira, abril 24, 2007

A benevolência da universidade burguesa me trás lágrimas aos olhos:

http://br.noticias.yahoo.com/s/24042007/25/manchetes-usp-dara-411-bolsas-alunos-escola-publica.html

domingo, abril 15, 2007


O postsecret está muito legal nesta semana.
Anti-clímax

O Lui é um cara que sabe dar festas legais, sem dúvida.
Tinha comida boa, música bacana, gente legal, álcool pra caralho. O que eu mais gostei foi este lance único, raro, que acontece cada vez menos: a festa conseguiu juntar todos os tipos mais diferentes de amigos que eu tenho. E ainda tinha um monte de gente que eu não conhecia, o que é muito bacana. Eu conversei com umas pessoas que não via há um bom tempo. Eu vi o Fepas xavecar a Monique e o Caio falando com meu irmão. Foi bem legal mesmo.
E daí, na parte que eu estava me divertindo mais, fui embora.

E eu reclamo porque blog serve pra estas coisas. Quando eu quiser fazer algo construtivo e interessante, vou pra outro lugar.
Minhas eternas dificuldades de organização vão me alcançando, conforme eu tento lidar com a faculdade, as aulas que tenho que preparar, o tanto que eu tenho que estudar pro exame de proficiência em inglês...as coisas vão me devorando, e o mais importante é sempre soterrado.

segunda-feira, abril 09, 2007

Fui impiedosamente perseguido por uma gripe no feriado inteiro. Não fiz nada do que tinha que fazer. Tenho depressão noturna de domingo. As coisas estão se acumulando. Crio expectativas demais sobre coisas de menos. Eu gosto muito do Peter Pan.
Eu acho que vou tentar dormir pra ver se tiro um atraso amanhã.
Sinto saudades em pedaços vazios que não se encaixam.

quinta-feira, abril 05, 2007

Ressaca moral

A pior coisa de encher a cara é lembrar no dia seguinte das coisas imbecis que você fez e disse. Acontece que, em geral, todas estas merdas são muit amenizadas quando você está entre outras pessoas bêbadas que também dizem e fazem muita merda. Só que às vezes você percebe tarde demais que está muito mais bêbado do que todo mundo e que está sendo o mala da mesa e fazendo merda e causando pra caralho. Mas daí, enfim, já era. Você paga um puta mico ridículo, estraga a noite de todo mundo e passa o dia seguinte pensando que é um grande idiota e que não devia nunca mais beber.
É, até parece...o único jeito de esquecer a sua idiotice é bebendo mais e, possivelmente, fazendo idiotices ainda maiores.
Bom, felizmente eu tenho amigos bacanas que, espero, não vão levar tão em consideração este tipo de idiotice. Quer dizer, até vão, mas não o suficiente.

domingo, abril 01, 2007

Banalidades

Outro dia vi um estojo, de um menino na minha aula de inglês (aquela em que sou aluno, não a que sou professor). Era um daqueles estojos pretos, retangulares, com umas duas divisões de zíperes. Por dentro tem uns elastiquinhos pretos que servem pra prender as coisas, como lápis, caneta, borracha, apontador, etc.
Eu lembro que quando era pequeno quase todo mundo usava um destes. E eles eram um fato concreto e consumado da vida. Mas depois cheguei em uma época da vida em que as pessoas não usavam mais estojos, e daí nunca mais vi estes estojos assim. E, portanto, eles deixaram de fazer parte das coisas naturais da vida (como camas, escovas de dente, lousas, tênis, camiseta, etc).
Quando eu vi aquele estojo na aula de inglês depois de tantos anos, ele me pegou de surpresa. Era duas coisas ao mesmo tempo: algo que me remetia ao passado, àqueles dias em que estes estojos eram coisas cotidianas e a vida não existia sem eles. E também era só um estojo preto que um cara na aula de inglês usava, uma coisa qualquer destas que se vê por aí. E isso era algo que ele nunca foi quando eu era pequeno.
Anda cada vez mais difícil manter a coerência interna.
Há que se conciliar as coisas com as outras coisas. E muitas vezes são muitas coisas. E andam sendo cada vez mais coisas que se acumulam umas sobre as outras. E daí, as coisas que não deveriam ser coisas acabam se coisificando cada vez mais. E, a partir do momento em que são coisas, acumulam-se entre as outras coisas. E, afinal, sendo todas estas coisas apenas coisas (mesmo aquelas que antes não eram coisas), acabamos sendo obrigados a priorizar as coisas que nos devoram primeiro. E aquelas que não eram coisas e tornaram-se coisas acabam sendo cada vez mais coidificadas, e relegadas e esquecidas e perdidas...Porque as outras coisas, aquelas que sempre foram coisas, acabam devorando a gente mais rápido. Daí a gente pega todo nosso tempo, energia e tudo o mais, para lidar com estas coisas devoradoras. Até que um dia, no qual eu ainda não cheguei e não quero chegar nunca, você vai inevitavelmente esquecer e perder todas as coisas que não eram coisas e tornaram-se coisas e acabaram se enfiando por debaixo de todas as coisas que te devorariam se você não desse sua vida por elas.
E é assim que a banalidade consome o mundo.
E é assim que a vida consome os sonhos.
E é assim que as pessoas deixam de ser sujeitos e, por fim, transformam-se em coisas.

terça-feira, março 27, 2007

É, ando com bastante sorte... não bastasse não poder sair nas sextas-feiras, agora ainda me dou mal quando saio nos poucos sábados em que não estou acabado.
Ao sair da festa da Rita (que foi legal, mas poderia ter sido muito mais se as pessoas tivessem tirado suas bundas gordas do lugar e ido até lá), me deparo com o o vidro do carro quebrado. Engraçado, eu previ isso quando estava saindo dele. Não costumo ficar muito noiado com estas coisas, mas desta vez realmente fiquei preocupado. Claro que, ao invés de pegar minhas coisas, preferi me convencer de que estava sendo neurótico. Perdi uma parcela BEM grande dos meus cds preferidos. Perdi meu bilhete único, o da Vanessa, os cartões de banco dela, o rádio do carro, o vidro e, o que era mais valoroso, a minha sôfrega alegria que tinha conquistado a duras penas tomando mais álcool do que deveria e dançando mais do que poderia, tentando ignorar o fato de que eu era praticamente o único a fazer isso. É meio chato ser o cara que quer curtir a balada a valer quando quase todo mundo só quer ficar sentado, conversando ou até jogando cartas. Mas, quem diria, eu de fato consegui isso. Até consegui insistir o suficiente pra tocar pelo menos metade de dois dos três cds que passei muito tempo selecionando e gravando pra levar na festa e ninguém dançar. E, bem, por mais que isso tenha incomodado algumas pessoas que de fato poderiam preferir uma música mais ambiente do que o meu conceito estranho de trilha sonora para pessoas extremamente bêbadas dançarem enquanto são transportadas pros anos 70 e 80, ainda assim eu me diverti. Sabe, foi difícil mesmo. E em geral, quando nos esforçamos para nos divertir, não dá certo. Mas daí até deu.
Só que quando eu cheguei no carro e vi o vidro quebrado, foi como se toda a infelicidade que eu reprimi durante a festa viesse à tona de uma só vez. Como se na verdade eu só tivesse fingido que me diverti. E daí fui curtir a ressaca moral enquanto acordava um escrivão na DP pra fazer o meu BO e voltar pra casa sob um melancólico nascer do sol.
Recuperei o vidro quebrado com o seguro.
Passei meu domingo cuidando de burocracias, pegando fila pra pedir um novo bilhete único (que demora um milhão de anos pra ficar pronto e custa 23 reais).
Não vou recuperar meus CDs.
Quanto à felicidade, acho duvidoso...
Mas preciso parar de pensar nisso porque amanhã eu começo a dar aulas de redação pra umas pessoas que realmente precisam da minha ajuda pra passar no vestibular.

segunda-feira, março 19, 2007

quinta-feira, março 15, 2007

Desafiando o bom senso ou Boa idéia, Má idéia

Boa idéia: ter uma alimentação saudável, uma boa noite de sono, praticar esportes regularmente e ser feliz e medíocre.

Má idéia: Beber até uma e meia, tomar remédios que dão sono, chegar em casa e preparar um seminário pra aula do dia seguinte até duas e meia. Dormir três horas, acordar às cinco e meia e ir fazer um teste de natação de 10om.
Acho que, depois de passar um pouco mal pela minha estupidez, papai do céu resolveu me castigar com novas prendas. Ao chegar no vestiário e me deparar com meu óculos sem uma das lentes, fui obrigado a passar cerca de dez minutos tateando o chão do vestiário masculino até encontrá-la. Depois disso, o carro se recusava a dar a partida e eu ficava cada vez mais atrasado para a aula do seminário. Resolveu ligar só depois que eu liguei para uma amiga e pedi pra ela avisar o professor que eu não conseguiria chegar a tempo.
Aguardem para as próximas imbecilidades...
Sinto uma angústia horrível e dilacerante, uma vontade de sair correndo e chorar. Meu novo emprego tem uma relação direta com isso.
E fico pensando: é normal? vai passar? Quanto tempo eu aguento? Será que eu não sirvo pra isso?

terça-feira, março 13, 2007

Insólitas

Daí no outro dia eu estava numa festa. Discuti a história do Japão feudal e bebi vários vinhos, de Marcus James a um trazido pessoalmente por um sommelier bam-bam-bam. Fiquei conversando com um cara que trabalha com um amigo meu (Gunther) que eu não vejo faz tempo, tem uns quarenta anos e já fez uns curta-metragens (como o Masp Movie, disponível no Youtube).
Ouvi a síndica reclamando do barulho ferozmente e a dona da festa respondendo a altura.
Lá pelas tantas, chega a polícia. O policial A, por sua vez, entra na casa e toma um vinhozinho conosco e conversa amigavelmente com nossa anfitriã, enquanto o policial B, um pouco menos sortudo, fica do lado de fora ouvindo as reclamações da síndica (que é, aliás, o perfeito estereótipo da síndica velhaca e rabugenta).
Quando a gente sai da festa, eu vejo o par de policiais atendendo outra queixa um quarteirão abaixo. Se não fosse pelo bom senso exógeno da Vanessa, eu teria gritado: Ae policial A, desencana disso aí e vamos tomar um vinho.
Foi bem bacana.

domingo, março 04, 2007

Por que tudo que sobe tem que descer mas nem tudo que vai tem que voltar?

sábado, março 03, 2007

O negócio é ir indo. Se parar pra pensar, já era.

domingo, fevereiro 25, 2007

Se eu fosse um tipo de Deus da Música, um dos meus mandamentos ia ser um lance assim:
"Se as melhores músicas de sua banda forem as músicas de trabalho, então sua banda não merece respeito".

sábado, fevereiro 24, 2007

às vezes eu fico pensando que tudo que a gente acha e pensa, tudo o que faz, nossos esforços mais sinceros, nossas convicções mais inabaláveis, tudo isso é muito mais superficial do que nosso ego e nossa auto-estima querem que a gente acredite. Quer dizer, no final tudo se afunda quando as coisas mais banais vêm à tona com toda sua força.
Eu tive minha segunda enxaqueca hoje (pelo menos não foi tão horrível quanto a primeira, que eu tive na noite do ano novo) e em certo momento, quando minha cabeça doía horrivelmente depois de eu ter já tomado dois remédios que não serviram pra nada, que a coisa mais importante do mundo pra mim naquele momento era aquela dor e como eu queria que ela fosse embora. E eu não conseguiria fazer nada se aquela dor ficasse lá. Por mais altiva e importante que fosse a minha tarefa, aquela ridícula e banal dor na minha cabeça poderia me impedir de fazer isso. Me senti pequeno e fraco e patético (isso, é claro, depois que a dor passou e teve espaço na minha mente para este tipo de sentimento tão existencial que não pode competir com a minha dorzinha mesquinha e egoísta).

terça-feira, fevereiro 20, 2007

A vida é afundar em mediocridade e solidão lentamente (às vezes nem tão lentamente).
Morrer pode interromper a submersão. Mas isso não é necessariamente melhor.
às vezes, quando você já afundou demais, pode achar que as coisas sempre foram assim e parar de se importar.
Como você descobre quando chegou no fundo do poço?
Tenho saudade de ser quem eu não sou, de vez em quando.
E de quando as pessoas eram quem elas nunca foram.
Quer saber o que é ser solitário?

http://br.noticias.yahoo.com/s/17022007/40/entretenimento-homem-encontrado-morto-diante-televisor-ano-apos-falecer.html

sábado, fevereiro 17, 2007

Hoje na mídia bueguesa: a farra das minas peladas e o altruísmo em nome da paz.

Caranaval, samba, mulata, alegria. Estas coisas vêm a calhar para despertar o grandioso sentimento patriótico depois da humilhante e divertida derrota do glorioso Brasil na copa do mundo. A Globo, eu recomendo, é especial para descobrirmos todas as maravilhas do feriado.
No interlúdio ainda um espetáculo muito melhor:
Em nome da paz, a Globo dá uma cobertura de uns cinco minutos para um ato que ocorreu no Rio de Janeiro. Meia dúzia (e isso quase não é figura de linguagem) de tiozões gordos e peruas ridículas de classe média vestiram umas roupas brancas e desfilaram pelo calçadão, exibindo primorosos cartazes confeccionados em folhas sulfite, pedindo a paz e lembrando as vítimas de violência, como a porra do moleque arrastado pelo carro (Caralho, não aguento mais ouvir falar desta merda de moleque!). Juro, nunca vi um "ato de rua" mais patético do que aquele. E olha bem, eu já vou agora pro meu quarto ano de movimento estudantil! Mas a globo deu uma cobertura sem precedentes. Ainda pude ver um pouco dos outros meios de comunicação, apesar de infelizmente não ter acompanhado com a atenção que eles recebem por parte do resto do mundo. Na capa da revista mais gagá e idiota do mundo, a pergunta na cabeça de toda a classe média: "Não vamos fazer nada?" Na rádio Eldorado, um anúncio repetia a pergunta: "nós não vamos fazer nada?!?" Falando sério, acho que o editor chefe da Veja deve ser o J.J. Jameson, e o Hugo Chavez deve ser o Homem-Aranha da vez.

Em homenagem ao Carnaval:

G.R.E.S.
(Pato Fu)

Eu não gosto dos G.R.E.S.
Mas em fevereiro
Tenho que suportar os G.R.E.S.
O carnaval

Com seu espírito de festa
Suas cabrochas na avenida
churrasquinho podro
É uma imposição absurda

Dica do Fernando para sobreviver ao carnaval:
Muito Dostoiévski e cerveja no Toldão.

"Nós não vamos fazer nada?!?"
Eu, particularmente, vou: desligar a merda da TV, ler e encher a cara. Quanto a vocês, eu não estou nem aí.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Das espúrias relações humanas II

Outro dia eu estava observando uns casais de lésbicas. E a maior parte deles se encaixava direitinho no estereótipo menina meiguinha e moça grande e malvada. Tem vários casais de homens que também tem algo semelhante com isso. Daí eu fiquei pensando como isso é escroto. É um lance dos papéis sociais tão consolidados na nossa vida que não conseguimos escapar. Mesmo se você for lésbica, tem que ter o "macho provedor e dominador" e a "mulher frágil e dominada".
As porras dos relacionamentos sempre se tornam relações de dominação e poder, relações de disputa.
É uma merda mesmo tudo isso viu...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Velhos gagás

Primeiro foi o cretino do Ozzy Osbourne apresentando as estripúlias de sua velhice senil e suas criancinhas mega-burguesas mimadas aproveitando uma infância regada a milhões de dólares.
Sei lá, Black Sabbath é legal pra valer e tal, mas acho que qualquer um já esperava que ele fosse fazer uma imbecilidade destas. Não é como se fosse a primeira nem nada assim.
Agora o velho gagá mais tosco do mundo dá as caras no seu reality show INCRIVELMENTE IMBECIL.
Sim fãs de HQ de todos os cantos, Stan Lee apresenta seu programa "Who wants to be a super-hero?", com um apanhado de americanos cretinos se humilhando loucamente em busca de ser a nova cria do velho babão.
Sabe, eu nunca achei ele grande coisa. Acho que era um otário que deu sorte. Ele fazia umas histórias que, como dizia o Will Eisner, eram para "adolescentes idiotas do Kansas" (acredito que ele se referia ao Super-Homem que, de fato, era ainda pior). Acontece que umas pessoas boas pegaram estes heróis do Stan Lee e fizeram uma ou outra coisa bacana com eles, e isso fez eles valerem a pena. Mas, ainda que ele fosse medíocre, era necessário respeitá-lo. Nenhuma HQ, por fodida que seja, pode negar o precursor que ele foi, e as possibilidades que seus quadrinhos mainstream abriram. Ele era um Elvis das HQs. E é por isso que eu fico tão puto com esta bosta de programa que ele faz. Ele arrasta pro buraco da babaquice e da falta de dignidade junto com ele uma parte da história dos quadrinhos. Mas, no fim das contas, é a prova final de que ele é o imbecil que eu sempre desconfiei que ele fosse.
E, se o Neil Gaiman ou o Alan Moore algum dia fizerem uma merda assim, daí é hora de ir atrás de alguém com uma arma.
Sobre as espúrias relações humanas

Outro dia eu vi um pai "educando" seu filho. Estavamos em um ônibus e o pai dizia "segura" para ele segurar a barra, "senta" para ele sentar no banco, "levanta" para ele ficar em pé. Assim, como se fosse um cachorrinho mesmo. Todas as pessoas, evidentemente, tomavam tal comportamento como natural. Afinal, os pais são responsáveis por seus filhos. Por suas ações, por sua educação, por suas vestimentas, por sua alimentação, etc. É de conhecimento geral de todos que uma criancinha remelenta carece de diversos atributos que poderiam lhe propiciar a capacidade de suprir suas necessidades básicas. Isso, portanto, dá direito a quem lhe propicia tudo isso e que, diga-se de passagem, é também responsável pelo seu nascimento (conscientemente ou não), de dirigir os rumos de sua educação e dos primeiros anos de sua vida como bem entendender. Não deixa, enfim, de ser um tipo de dono da criança. E assim, quem poderia interferir no que um dono faz com sua posse? Se ele quer mandar sentar, que sente. Se ele quer ensinar as coisas mais escrotas, que ensine. Dentro é claro, dos limites impostos pela força da Lei, regida pela mais estrita força da moral e dos bons costumes.
Penso que há centenas de anos era perfeitamente natural que um bem apessoado indivíduo tratasse da mesma maneira sua servil esposa ou seu obediente escravo. Hoje, há pelo menos que se encobrir este tratamento com um quê de hipocrisia.
Mas o lance é que fiquei com vontade de mandar o cara no ônibus tomar no cu dele, assim como fico com vontade de fazer isso com dezenas de pais por aí. E acho uma merda que um filho da puta possa educar seu filho pra ser um filho da puta sem que eu possa ir lá e falar pro moleque: "Ei, seu pai é um filho da puta e tudo o que ele diz é merda".
Crianças, apesar de pentelhas e remelentas, não são coisas pra que seus pais decidam o que elas devem ou não saber, ou o que eles devem ou não pensar e fazer.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Primeiro, criamos nossas necessidades. Depois, nossas necessidades nos criam.

emprego, faculdade, cerveja, cama, ortodontista, apartamentos, contratos civis...
O cemitério sempre está mais próximo do que aparenta.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Ela corria no parque cinco vezes por semana, às cinco da manhã.
Ela, enchia a cara no boteco cinco vezes por semana, às cinco da tarde.
Ela tinha um plano, com metas e objetivos.
Ela, tinha algumas dívidas e um cachorro velho.
Ela tinha um emprego estável, uma renda fixa e um plano de previdência privada.
Ela, fazia bicos e pedia dinheiro aos amigos.
Ela visitava os pais, enviava cartões de natal para uma lista de amigos e contatos importantes, e levava um presente adequado nas visitas de ocasião.
Ela, não fazia festas de aniversário e encontrava colegas de boteco.
Ela sabia pra onde ir quando acordava. Sabia pra onde ir no fim do dia.
Ela, sabia para onde queria que tudo fosse e, sempre que dava, se esforçava para mandar tudo para lá.
Ela tinha um noivo, um compromisso, uma poupança para o enxoval e para o colégio do filho.
Ela, tinha uma queda estúpida e inabalável por alguém que tinha um emprego, um plano, uma meta e um trilho.
A vida era incurável, e ela pungia a cada abrir e fechar de dias.

terça-feira, janeiro 16, 2007

domingo, dezembro 24, 2006

Milagres


O natal é uma época de milagres.
Eu voltava pra minha casa a pé, os ônibus eram bissextos naquela manhã cinza da véspera do feriado. É ridículo, eu sei, mas a gente acaba sendo contaminado pelo sentimento de todo mundo em volta. E o tédio e a mansidão dos dias me faziam querer acreditar em alguma coisa diferente, qualquer coisa. Era por isso que eu andava com a cara meio franzida, mas com um sorriso por dentro, com a expectativa de algo por vir. A cada esquina que virava, me sentia um idiota por esperar que algo acontecesse, qualquer coisa que eu, na verdade, sabia que não aconteceria.
As ruas estavam meio vazias, algumas pessoas passavam com sacolas de compras. Um vento meio frio entrava por um buraco que eu tinha no sapato esquerdo, mas não me incomodava. Não era muito frio, e eu me apegava àquilo como se fosse algo digno de recordar, como se fosse um pequeno detalhe antes de um evento que me marcaria pro resto da vida e que, passados vários anos, eu poderia lembrar comigo mesmo: é, eu me lembro de cada detalhe daquele dia: tinha um furo no sapato esquerdo por onde entrava frio e, cruzando a esquina em frente à padaria, eu lembro distintamente de um velho carregando uma sacola de pães mornos, seu cheiro enchia a manhã e ele cantarolava uma música de natal. Me apegar a estas idiotices fazia parte da expectativa de um milagre de natal, bem como aquela falsa impressão de que tudo o que eu fazia podia ser importante e mudar a minha vida de alguma maneira. Sabe, quando você fica pensando em todos os detalhes e dizendo: se eu tivesse passado por esta rua cinco minutos depois, poderia ter sido assaltado e talvez levar um tiro na perna, isso poderia mudar toda a minha vida. Ou se, na quinta série, eu tivesse aceitado o convite da Maria pra ir à sorveteria nós poderíamos ter nos beijado, nos apaixonado, nos casado...Tudo era uma grande idiotice, mas o dia era diferente dos outros. Minha cabeça não deixava ser igual. As coisas banais tinham aquele potencial e aquela poesia de alguns livros, tudo era um fluxo de consciência na minha cabeça. Ou pelo menos eu fingia que era assim.
Minha vida não era um ambiente propicio a milagres. Mas, pensando bem, acho que a vida de ninguém é, e talvez por isso todo mundo precise tanto do Natal. É como um dia em que todos podem olhar qualquer besteira e revesti-la de um caráter mágico, especial. Tudo pode ser um milagre. Só que eu acho que na maioria das vezes isso dá meio errado, como se o tiro saísse pela culatra. Atravessei a rua olhando pela janela de uma casa: uma família assistia televisão, pareciam esperar pela ceia. Não diria que pareciam especialmente felizes, mas pareciam querer estar, se esforçavam por encontrar um amor familiar e um apego à vida que certamente nunca teriam numa segunda-feira à tarde, por exemplo. Era algo assim, como um dia em que tudo lhe diz para parar e contemplar a vida, para procurar o valor das coisas que deveriam ser valorosas e que deixamos passar batido.
Ao atravessar a Consolação vi um mendigo maltrapilho que esparramava sua vida na rua, como todos os dias. Só que hoje era mais triste.
É claro que o tiro sai pela culatra. Pensa só: de repente você se vê obrigado a confrontar tudo aquilo que fez e faz da sua vida, todos os caminhos que trilha e, principalmente, os que deixa de trilhar. Não é o tipo de coisa que deixa uma pessoa ilesa. Ainda mais se você está sozinho, sem um peru e uma numerosa e barulhenta família para dispersar seus pensamentos. Sei lá, uma ou duas garrafas de cidra barata e um pouco mais de disposição e pronto, você resolve que não vai mais ter que passar por isso no ano que vem. É quase uma seleção natural da sociedade de consumo, um feriado em que a maioria das famílias ricas desembolsa uma quantidade satisfatória de dinheiro e, por outro lado, um punhado de gente relativamente inútil se mata. Quer dizer, talvez seja uma generalização idiota, mas acho que o pessoal que costuma se matar no ano novo são também aqueles que costumam gastar e ganhar menos dinheiro. Claro, deve ter sempre um ricaço com crise de consciência, pensando que não dedicou tempo suficiente de sua vida à família e coisa e tal. Mas, convenhamos, se você tem um bocado de dinheiro é mais fácil comprar algo pra te aliviar.
Talvez neste ano eu estivesse mais triste e amargo do que de costume mas, mesmo assim, enquanto perambulava pelas ruas e pensava este monte de asneiras, eu ainda não conseguia controlar aquela minha parte que sabia: o Natal é uma época de milagres. E, pensando bem, acho que a melhor vítima pra um milagre redentor e maravilhoso é alguém assim, com uma vida medíocre, meio sem perspectivas. Talvez, se eu estivesse pensando em me matar, fosse um candidato melhor. Mas não. Não era que a idéia do suicídio me parecesse desagradável em si, mas é que na minha cabeça sempre houve algo de auto-indulgente demais a respeito do suicídio. Me deixava desconfortável a idéia de que parentes e “amigos” fossem estar no meu enterro, comentando sobre como sentiam pena de mim, e eu estaria esticado no caixão sem a menor possibilidade de mandá-los à merda.
Na verdade eu não estava indo pra casa. Apenas andava naquela direção, porque era o único lugar que tinha pra ir. Era mais deprimente e tedioso lá, e nas ruas eu não me sentia exatamente triste. Era uma melancolia quase agradável e contemplativa, esperando meu milagre em cada instante. Nas ruas, sempre é mais fácil encontrar milagres. Mas estava um pouco frio, e minhas pernas começaram a cansar de andar, por isso resolvi procurar meu milagre esperando um pouco no primeiro banco que encontrei e que, por acaso, foi o do ponto de ônibus. Uma vez sentado no banco frio e um tanto desconfortável do ponto, repassava na minha cabeça outros natais e as coisas que eles levaram. Às vezes, concluí, os milagres até aconteciam. Notei então, em frente ao ponto, uma banquinha de livros velhos. O vendedor, com a boa vontade dos meus olhos natalinos, poderia ser o papai Noel disfarçado. Ele me aguardava com a paciência dos benfeitores, separava em sua sacola de bondades o meu milagre de Natal. Mas tudo o que pude encontrar ao me aproximar da banca foi um velho triste e solitário que, graças a algum problema na perna, mal podia se levantar. E trazia o rosto triste dos que trabalham no Natal para poder sobreviver. Sem milagres.
Esperando no ponto li o livro que comprei do velho por uma bagatela. As páginas amassadas e amareladas traziam contos de Natal de autores quase anônimos, que de certo passaram algum natal escrevendo e esperando seu próprio milagre de levar ao mundo suas palavras. Reconfortava-me pensando que, ao ler aquele livreto toscamente impresso, ajudava de alguma forma a realizar o milagre de Natal dos que o haviam escrito. E, é claro, eu também sabia o quanto era idiota pensar isto. Cerca uma hora lendo aquelas páginas não me aproximaram não de um milagre. Nas histórias em que li estes eram abundantes e redentores. Traziam a quem os recebia e presenciava um momento epifânico em que, por fim, todo o sentido do Natal se revelava. As pessoas mudavam, o mundo mudava. Tudo mudava. Nas histórias, as pessoas não pegavam ônibus e nem procuravam por milagres em uma rua cinza de São Paulo. Elas também não se afunilavam entre multidões sufocantes tentando comprar seus presentes na rua 25 de Março. Jesus estava presente em muitas delas, às vezes mais do que Papai Noel. Mas nunca era representado em um presépio de plástico fabricado na China e montado por um velho e rabugento síndico na portaria de um prédio. Os milagres das histórias nunca eram fruto de luzinhas coloridas que são ligadas na tomada, nem tampouco os protagonistas se referiam a tais luzinhas como portadoras do espírito do Natal e sei lá o que.
Uma das histórias, dizia o prefácio do livro, era uma versão de tal autor sobre um conto de natal clássico de um cara chamado Charles Dickens. Era sobre um cara rico e muquirana que recebe uma visita de uns espíritos e vira um cara um pouco menos muquirana porque tem medo de ser castigado por sua mesquinharia depois da morte. Esta história foi a única, acho, que pareceu ter algo em comum com a minha vida. Meu patrão parecia o sujeito da história, e parecia também ter medo de ser castigado se não fizesse boas ações. De fato, ele me deu uma bonificação de natal e um peru pessoalmente, e mandou um cartão enfeitado pra minha casa. Uma semana depois, no entanto, ele mandou um encarregado me dizer que a firma estava passando por um processo de reestruturação e que, infelizmente, na prática isso queria dizer que eu ia começar o novo ano sem emprego. Esta última parte não estava em nenhuma das histórias, e acho que Papai Noel não costuma trazer empregos em sua sacola. De qualquer maneira, eu não tenho chaminé e não escrevi uma carta pra ele. Acho também que ele não diria que me comportei bem neste ano.
Quando meu livro já estava quase no fim, enfim chegou o ônibus. Encontrei-o relativamente cheio, dividindo seu espaço entre as pessoas que voltavam para casa e as sacolas de presentes que se amontoavam. O cobrador tinha um rosto fatigado, os cabelos esbranquiçados e a expressão marcada por rugas que começavam a se insinuar. Eu senti um desejo sincero de desejar a ele e sua família um feliz natal e, de alguma forma, fazer brotar um sorriso em seu rosto. Contentei-me em lhe esticar em notas amassadas e moedas o dinheiro trocado da passagem e passar em silêncio pela catraca. Durante a viagem, as pessoas estavam ensimesmadas em seus sacos de presentes.
Não conversei com ninguém, como sempre costumo fazer dentro de qualquer ônibus que pegue. Só que hoje era mais triste.
Minha ceia foi um salgado gorduroso, duro e ressecado e algumas garrafas de cerveja em um boteco. Fiz questão de entrar em um que nunca tivesse freqüentado. Eu sabia que os milagres se escondem nos lugares mais improváveis. Minha sociabilidade de Natal foi facilitada pelo álcool, e acabei entabulando uma conversa com uma prostituta que se apresentou como Leila. Falei todo tipo de idiotices pra ela, e ela não apenas ouviu como também respondeu e parecia até mesmo alegre ao conversar comigo. Atribuí isto ao fato de que ela estava acostumada e, como requisito da profissão, agüentava todo tipo de bêbado idiota, fazendo com que eles acreditassem que ela estava se divertindo. Mas acho que ela não alimentava ilusões de que eu fosse um cliente em potencial. Já havia deixado bem claro a minha falta de dinheiro ou de vontade de usá-lo, caso tivesse, para garantir uma trepada de natal. Acho que isso seria ainda mais solitário e triste do que beber até cair e vomitar na sarjeta. Só que a menina era legal mesmo, e acho que resolveu conversar comigo porque devia também querer alguma companhia para passar o Natal. Pareceu-me bastante compreensiva quando lhe confessei que procurava um milagre de natal. Achei que, mesmo sem confessar, ela fazia o mesmo. Muita gente faz. Contei do livro que havia comprado. Ela disse que conhecia a tal história do muquirana, que ela havia visto um desenho do pato Donald sobre isto. Nesta hora, lembro-me que começamos a tomar um conhaque vagabundo em celebração à noite. Ríamos e falávamos alto.
Sabe, eu confesso que não me lembro exatamente o que aconteceu depois disso. Algumas imagens esparsas me ocorrem de vez em quando, como um álbum de fotografias desarrumado. Tudo o que sei é que no dia seguinte acordei com uma dor de cabeça a mais e todo o meu bônus de natal havia sumido sem deixar rastros. Achei um papel com um telefone, e algumas coisas escritas em uma letra meio ilegível e borradas por algum líquido. Não quero pensar sobre o que pode realmente ter acontecido. Prefiro ter a certeza de que durante este turbilhão de horas, eu encontrei meu milagre de Natal.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Tá bom então...
Quanto a mim, tenho uma reconfortante pilha de livros, um quarto inteiro pra arrumar, e outras coisas. É, bem, vamo aí...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tanta coisa...
e uma hora você para e fica pensando:
pra onde será que eu estou indo mesmo?

domingo, outubro 01, 2006

NULO

Estamos em quarto lugar nas pesquisas. Mas é engraçado como mal se divulga o assunto. A única forma de divulgação é o apelo desesperado de todos os jornalistas, comentaristas e órgãos como o TSE implorando que as pessoas não votem nulo e dizendo como isso "enfraquece a democracia" e outras imbecilidades do tipo.

terça-feira, setembro 12, 2006

CHUPA! CHUPA!!!!
Realizaram um sonho maravilhoso que eu tinha em minha mente, uma destas coisas bonitas que você sempre quis realizar na vida, mas sempre foi uma utopia.
Há dias em que você recupera um pouco da esperança de que o mundo pode ser um lugar justo e bom, e hoje é um destes dias.
Até mais Excelentíssimo Coronel Ubiratan. Neste momento singular eu gostaria que realmente houvesse uma vida após a morte, onde você pudesse sofrer mais.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u125835.shtml


Ah, estou pensando que deveríamos fazer uma festa de comemoração, talvez no espaço aquário. Quem topa?

domingo, setembro 10, 2006

Tudo bem, eu sei que não tenho doenças incuráveis e tenho todos os meus membros e que os meus problemas são todos bobinhos e vivem praticamente dentro da minha cabeça depressiva pós-adolescente pseudo-niilista de moleque desocupado do começo do século do fim do mundo. Mas, afinal, fizemos blogs para escrever coisas belas e edificar o conhecimento e a moral dos nossos tempos ou fizemos para ficar reclamando de nossas vidinhas pacatas e medíocres de pequenos-burgueses pretensiosos impotentes diante da crueldade e feiúra do mundo e de nós mesmos? (e repare que a primeira pessoa do plural é puramente um efeito retórico e eu não tive a intenção de envolver nenhum de vocês em meus toscos draminhas pessoais tá? E como a pergunta também foi retórica, e nós já sabemos a resposta, vamos pular direto pra parte onde eu começo o famigerado mimimi).
Mas pra falar a verdade perdi a vontade de reclamar agora. Não porque tenha perdido as reclamações em si, mas estou de saco cheio demais até pra isso. Fica pra próxima, pelo menos a introdução ao assunto já está feita.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Você precisa parar de ser vítima das coisas, Fernando.
Tudo o que você tem de bom na vida joga fora. Todas as oportunidades que tem de ser feliz, você desperdiça.
- Acho que é isso o que eu sei fazer da vida.
Mas isso tem que parar alguma hora. Se não um dia você vai olhar em volta e ver que não tem nada. Que não construiu nada para você. Tudo são escombros.
Por onde você passa, planta coisas ruins. Você não consegue lidar com as pessoas sem fazer elas sofrerem. Não consegue entender o sofrimento dos outros, só o seu próprio.
Você não é uma pessoa escrota, Fernando.
Fernando, você é um bobão, viu? Um bobão...
Você acha que um dia vai crescer?
- Acho que não...

quarta-feira, agosto 23, 2006

E até mesmo isso agora.

Sleater-Kinney acabou.

As coisas carecem de rumo...

terça-feira, junho 27, 2006

Tava lendo um textinho aí do carequinha Lênin, chamado assim: O materialismo dialético e o Anarquismo.
Achei que ia ser interessante, mas não tem nada a ver. É uma discussão sobre o materialismo dialético ser ou não uma ciência e coisa e tal. Tipo assim, super demodê, sabe?
Mas tem um trecho que me deu vontade de colocar aqui, porque não faz absolutamente nenhum sentido, é como uma discussão entre crianças de nove anos.

"Uma outra coisa os senhores anarquistas não podem perdoar ao método dialético: "A dialética... não oferece a possibilidade nem de sair ou pular para fora de si, nem de saltar por cima de si mesmo" (vide Nobati, n. 8, Ch. G.). Eis que, senhores, tendes totalmente razão: o método dialético não dá essa possibilidade. Mas por que não a dá? Porque "pular para fora de si mesmo e saltar por cima de si mesmo", são ocupações próprias de cabras monteses, e o método dialético, ao invés, é feito para os homens. Eis onde está o segredo!"

Sensacional né? Aprendi horrores.

domingo, junho 04, 2006

Como Queríamos Demonstrar


Transtornado. Esta é a palavra que define meu estado de espírito no momento. Ainda nem sinto a coisa bem digerida no meu cérebro pra poder escrever sobre ela, mas como eu posso falar a merda que quiser aqui, vai assim mesmo.
O Movimento Estudantil é um CU, um GRANDE CU. Eu queria ir na plenária final do Congresso de Estudantes da USP e gritar isto. Isto não ia ser suficiente. Eu queria ir na plenária final do CONUNE e gritar isto e um monte de coisas no microfone. Eu queria escrever um tratado de mil páginas dizendo em detalhes como, quando, onde e porquê o ME é um grande CU.
Mas, como queríamos demonstrar, eu fui na plenária inicial ver o grande autismo burocrata: em vez de defendermos o emprego de oito terceirizados que ganham menos de quatrocentos reais, não têm direitos trabalhistas e foram demitidos por se organizarem com um sindicato, o Congresso decide por fazer a discussão, priorizando nosso "acúmulo", levar as discussões pra nossos Campi e, finalmente, tirar uma deliberação que será fundamental para impulsionar nossas lutas. Os burocratas optam pela mentira deslavada, a calúnia, a hipocrisia sem pudores.
Eu vi os GTs autistas, discutindo idiotices sem base material nenhuma. Eu vi a plenária final com seus delegados desqualificando a posição das correntes minoritárias em um gesto absolutamente idiota e infantil. O Congresso aprovou que o PCO é fascista.
E, enfim, como já prevíamos, vimos as pessoas não entenderem sarcasmo e nos dizerem que somos reacionários, machistas, conservadores. E até mesmo levantarem a questão de que talvez estejamos do outro lado da trincheira. Veja bem, não veio da minha boca sectária e cheia de nojo. Mas talvez seja verdade. Talvez eu não esteja do lado da trincheira das pessoas que querem fazer a frente classista e brincar de ser parlamentar. Talvez eu não esteja do lado da trincheira que quer brincar de "acumular" sobre a luta de classes enquanto ela está acontecendo debaixo do nosso nariz.
Eu estou de saco cheio. DE SACO CHEIO.

domingo, maio 21, 2006

Ouvir babaquice e opiniões estúpidas infelizmente é algo pra lá de corriqueiro neste mundo imbecil, mas fazia um bocado de tempo que eu não era forçado a ouvir tanta merda em uma só semana. Caralho, que que é esta porra da cidade inteira parar, as pessoas cancelarem tudo e fecharem todas as coisas porque queimaram uns ônibus e mataram uns PMs. "Ai, que medo! O PCC vai me matar!" Se você é uma destas pessoas que ficou com medo de sair na rua por causa do PCC e tá lendo isto, eu só queria dizer que te acho um imbecil. Se você tivesse reparado um pouco em vez de só enfiar no seu cérebro de ervilha a opinião pré-fabricada do senso comum, teria notado que só morreram PMs. SÓ POLÍCIA, entendeu animal? Não mataram nenhum adolescente de classe média que vive no percurso jardins-paulista-pinheiros-butantã-centro-vilamariana-perdizes. Aliás, teria notado também que os ataques foram na PERIFERIA, lugar que você não frequenta. Tudo bem, pra não dizer que eu menti, morreu também um bombeiro. Mas, tecnicamente, ele é da polícia também. E devia ter um uniforme parecido além de tudo. Quanto ao resto, não posso dizer que eu não sinto uma certa satisfação, e, às vezes, inveja. Quem já não teve vontade de matar um policial cuzão a pauladas? Eu sei que eu já, muitas vezes. É claro que eu me recrimino por esta vontade tão horrível, afinal o gambé é só mais um filho da puta explorado, com uma família e tudo mais. Bom, mas aí é só visitar umas comunidades de PM no orkut que eu até fico com vontade de ver eles morrendo de novo. E queimar uns ônibus, porra, taí outra coisa que eu também sempre quis fazer.
Mas enquanto o pessoal fica se borrando de medo do PCC, não causa nenhum alarde os grupos de policiais encapuzados que saíram matando quatro ou cinco vezes mais pessoas indiscriminadamente pelas periferias.
A primeira coisa que eu pensei na segunda-feira, quando começou o pânico generalizado foi aquela velha frase da Rosinha: Socialismo ou barbárie. Enfim, acho que a escolha tá feita né, num adianta chorar sobre o leite derramado. Enquanto isso o filho da puta, hipócrita, ex-arena que governa alegremente São Paulo tem a coragem de colocar a culpa na porra da elite branca. Vai tomar no cu, caralho, olha no espelho e na sua carteira seu merda. Deviam colocar ele pra ser agente penitenciário por um mês, isso ia dar um bom reality show.
E a frase mais ouvida na minha semana foi o velho e bom chavão: "direitos humanos para humanos direitos."
Revolução meu cu. O que pega agora pro povo marginalizado é se enfiar no capitalismo em grande estilo e pegar sua fatia do bolo através de mega-corporações de narcotraficantes. Depois da gaviões e do PCC em SP e do mengão e do CV no Rio, quem vai querer outra coisa? As mobilizações de massa são estas meus amigos: nem trotskistas com quartas internacionais, nem UJS e stalinismo, nem Passe-Livre porra nenhuma. O povo pobre tá aí, lutando pra não se foder na cadeia e sobrevivendo da droga que você vai lá comprar no fim de semana. A grande luta é entre a corporação A e a B. Enquanto os colarinhos brancos ficam assistindo, quem vai se foder são os peõs do lado branco e negro: os PMs que se fodem na rua e os pau-mandado que entopem as cadeias. Não tem espaço pra mais nada neste duelo de titãs.
A cada dia que eu vivo neste mundo eu tenho mais vontade de cair fora.

sábado, abril 08, 2006

Hahahah!
Eu me divirto muito, viu.
Olha só o post que eu encontrei no orkut hoje:

minha amiga se filiou bêbada

A UJS sabe fazer festa, uma das táticas de filiar membros. Certa vez, numa festa da UJS, minha amiga bebeu muito e no outro dia para sua surpresa ela estava filiada a UJS. Lógico, ressacas passam!!!!

quinta-feira, março 30, 2006

Vai Rita! Vai Rita! Arrebenta! Arrebenta!

domingo, março 19, 2006


Eu acho absolutamente genial a inabalável vontade de viver e ser feliz de certas pessoas. Eu queria poder abraçá-las.

Frank, I didn't make this card, but it could have been me. I just burst into tears.To the person who made that secret:When I was four years old, my father punched me in the face for the first time. When I was five we moved to a new town, where everybody hated me because I had red hair. I had no friends until I was eighteen years old. I began cutting and starving at six years old. At 12 I was sexually assaulted. At fourteen I nearly had my eye torn out when it was hit by a stone. By the time I left for university I weighed 70lbs. Six months later I weighed 64lbs. A year after that I was resuscitated in hospital, and spent six months fighting to get my memory back and stay at university. My first boyfriend starved and abused me. My second boyfriend ignored me then cheated on me. My best friend killed himself last year. A couple of months ago I was assaulted for the second time. Thank you for helping me see that I'm not alone. I'm not the only one.I'm 12 days away from finishing my PhD. I have a friend helping me to get my series of books published.I spent 21 years of my life fighting between trying to die and trying to stay alive. Thank you for saying what I wanted to say, but am too scared to. I'm excited, because my life is about to begin, because of who I'm becoming. I'm 27 years old.
-UK

quarta-feira, março 15, 2006

Efeito rebote.
A raiva passou, isso é bom.
Ressaca, tristeza. Eu penso sobre o pecado original, eu vejo o mundo no espelho.

sábado, março 04, 2006

A lótus brota do lodo.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

sábado, janeiro 21, 2006

De repente me bateu uma saudade.
De coisas que tive e das que não tive.
Das que poderia ter tido e das que não poderia.
Das coisas que eu ainda vou ter e das que nunca terei.
E o arrependimento.
De coisas que fiz, que não fiz.
E daquelas que ainda não fiz ou nunca farei.
Quero pintar com uma aquarela ridícula os espaços pretos e brancos daqui e dali.
Às vezes eu acho que vou lembrar como.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

IV

Foi através da filha do prefeito, e não poderia ter sido outra pessoa, que Pablo conheceu seus amigos e passou a ter uma vida fora de sua triste esfera profissional e familiar. Maria Pilatos poderia ser a ovelha negra da família se seus pais não fizessem vista grossa para todos seus pecados, tratando-a como se fosse uma verdadeira princesa. Coisa da idade, logo passa, segredava o prefeito para sua esposa, torcendo em seu íntimo e rezando todas as noites para que isso fosse verdade. Como não poderia deixar de ser, os hábitos da garota não escapavam à ávida perseguição de todos. Maria era certamente a figura mais comentada da cidade nas fofocas de maldizer que alegravam o dia-a-dia das comadres. Nas línguas ferinas das beatas, a moral cristã fritava a alma da menina como se no inferno já estivesse. Era uma vagabunda, uma pequena prostituta, pensava Dona Carmela com estas mesmas palavras sujas que nunca poderiam ser proferidas por sua boca casta e pura, de onde saíam apenas palavras de uma adoração voraz por nosso Senhor.
Maria gostava de viver o máximo que podia, mesmo naquela cidade em que a vida parece estar sempre aprisionada a um estado inescapável de torpor. A letargia das tardes quentes na pracinha e a hipocrisia das missas de domingo não alcançaram a menina, que permanecia incólume como se pertencesse a outro mundo. Era capaz de tratar seus pais com grande amor e dedicação, e ainda assim mantinha todos os costumes que a civilidade de Nazaré tanto condenava, especialmente no que se refere ao comportamento sexual de uma moça de família como ela. Como dizia Alexandre Pôncio, as putas ao menos ganhavam dinheiro com sua vadiagem, e isso as fazia mais valorosas que Maria Pilatos, vagabunda por vocação. Nascida em berço de ouro, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, estudo. Quem sabe um dia destes não engravidava de um qualquer por aí e, aí sim, nem o frouxo do Felipe Pilatos iria aturar sustentar uma vadia desonrada.
Mas era evidente que as coisas que se diziam e pensavam de Maria Pilatos estavam sempre confinadas à esfera da vida particular. Em público, não se poderia desrespeitar a filha única de Felipe Pilatos, honrado prefeito da cidade. Havia, evidentemente, as inconvenientes indiretas por parte de algumas pessoas mais exaltadas em defender os bons costumes. Mas, ao concordarem secretamente, todos fingiam não entender de que se tratava. Grande parte dos bons cidadãos de Nazaré do Bom Jesus sentiam pena de Felipe Pilatos, que nada fizera para merecer uma filha assim a sujar o bom nome de sua família.
E foi justamente pelo estranho marceneiro que ninguém notava que se apaixonou Maria. Aos poucos, o pequeno mundo familiar de Pablo se anulou diante das possibilidades trazidas pela garota. Foi uma questão de tempo até que o marceneiro se convencesse a conseguir, em suas viagens na camioneta para a capital, algo para ajudar a escapar à enfadonha realidade de Nazaré do Bom Jesus.

terça-feira, dezembro 27, 2005

III

Pôncio não sabia, mas o plano de Natal dos moleques havia começado já há muitos meses. E toda a sua felicidade, materializada em quantidades fartas de diversos tipos de drogas se devia a um sujeito que nunca passaria pela cabeça bronca do delegado: era graças ao discreto marceneiro de Bom Jesus do Nazaré que eles conseguiam aquilo tudo. Moleque pobre e paraguaio, não falava português bem o suficiente para que alguém na cidade se preocupasse em tentar entender o que dizia. Pablo Sujes era considerado cidadão de segunda categoria, inapto a participar da vida social da cidade e não recebia convites para aniversários, casamentos, ceias de Natal e ano novo. Sua única função era construir e reformar móveis, portas, cadeiras e outras quinquilharias. De resto, a cidade não lhe notava a existência. Atrás de seu portunhol tosco, seu bigodinho mal aparado e suas camisas xadrez velhas e maltrapilhas, se escondia um moleque ressentido daquela caipirada estúpida.
A família Sujes chegara na cidade antes de seu nascimento, apenas sua mãe e o marido, fugindo sabe-se lá do que para ter que parar num fim de mundo como Nazaré. Já velha e doente, a mãe recebeu a gravidez de seu único filho como uma surpresa desagradável, já que o marido havia sido diagnosticado por uma infinidade de médicos como estéril. A ferida no orgulho de José Sujes de não poder passar seu sangue adiante se agravou dolorosamente ao se deparar com a inevitável constatação de que fora traído pela mulher que, não importando o quanto jurasse não ter sido infiel, não conseguira convencer disso o marido. Durante a gravidez Maria Sujes passou por maus bocados na mão do marido inconformado, que lhe batia e insultava. Após as surras que recebeu, a continuidade da gravidez era um verdadeiro milagre. Afora os vizinhos consternados com o barulho, ninguém se importou com as contínuas brigas na casa deles. Por fim, no dia do nascimento do filho bastardo, o desgosto de José Sujes foi demais: deixou a mulher no hospital para parir o rebento e não ficou para assistir. A mulher passou a noite de Natal na maternidade, perguntando desesperadamente em um incompreensível espanhol dirigido a uma apática enfermeira de plantão onde se encontrava seu marido, até que lhe aplicaram um sedativo que a fez dormir até o fim da noite. O paradeiro de seu marido só lhe foi revelado quando chegou em casa com o pequeno Pablo e viu José enforcado numa viga da casa.
Pablo teve que trabalhar desde os dez anos ajudando na marcenaria do Seu Sebastião para poder sustentar a mãe enferma, que já então mal conseguia andar e muito menos trabalhar. Foi assim que herdou o ofício e a oficina do patrão sem família, que morreu quando Pablo tinha dezenove anos. Não terminou a escola, não tinha amigos e, além do trabalho, sua única ocupação era cuidar da mãe. Bebia uma cerveja solitária no domingo, pensando em coisas que não existiam. Mas um dia as coisas mudaram.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

II


O delegado Alexandre Pôncio revirava sem sucesso as redondezas da praça principal atrás dos fugitivos. Era o último de uma longa linhagem de mantenedores da lei na cidade, com mão de ferro. Mas não era segredo para ninguém na cidade que, há anos, desde o nascimento de seu primogênito, a família Pôncio não era mais digna de sua dinastia de xerifes em Nazaré do Bom Jesus. Juninho nascera retardado, pra desgraça do pai, que ficara sem saber como iria arranjar herdeiro a Lei da cidade. Só não jogou o moleque num rio ou deixou no orfanato por causa dos mexericos. A cidade inteira sempre sabia de tudo, e não teria como explicar o término da gravidez da mulher sem uma criança no colo depois. Seria o fim do prestígio da família Pôncio. Então Alexandre seguia, com desgosto, na carreira de justiceiro de Nazaré. O último.
Mas, intimamente, Alexandre conhecia o problema real de sua família: o sangue enfraquecera. Ele próprio, Alexandre Pôncio, sabia não ser digno do título de Varão da família, herdeiro da Lei de Nazaré do Bom Jesus. Lembrava-se, envergonhado e em segredo, das coças que recebia do pai na infância enquanto ouvia os desabafos do velho pai-xerife: Fraco, covarde, inútil. Apanhava na escola e depois em casa, por não ter sabido revidar. Primeiro teve que aprendeu a não chorar e, em seguida, a bater nos meninos da escola também: primeiro nos menores, depois nos grandes. Batia por vingança, pra revigorar a alma das surras aplicadas pelo pai. As punições físicas não lhe doíam tanto, o que ressentia Alexandre era sua moral ferida de menino que queria ser homem. A humilhação de casa ele aprendeu a colocar no punho que acertava os moleques da escola. Irrascível, certa vez, aos quinze anos, exagerara numa demonstração de força para tentar provar a si mesmo que era digno de ser um Pôncio. A vítima foi para o hospital, dali pra frente não se sabe. Fosse qualquer outra criança, Alexandre teria enfrentado problemas sérios. Mas era um Pôncio, e o caso foi logo esquecido por todos. De qualquer forma, a surra foi incapaz de purificar Alexandre da certeza que o pai lhe dera: era um fraco, fruto dos novos tempos em que os casamentos dos Pôncio deixaram de ser consangüíneos. O sangue puro se diluíra na frouxidão das outras famílias. E Alexandre carregou isto ao longo da vida, destilando lentamente como um veneno que o corroia por dentro. A confirmação final veio no maldito dia em que trouxera ao mundo aquela aberração, incapaz de levar adiante a tradição da família. Seu único contentamento era o pai não estar lá para presenciar esta degradação final. Mas tudo isto Pôncio carregava dentro de si. Por fora se mantivera impassível, rígido: era o incontestável homem forte da cidade.
Outrora teria dado um corretivo de dar gosto nestes moleques, arruaceiros de merda, ao invés deste chá de cadeira fajuto que se aplicava na delegacia. Nas estradas ao redor de Nazaré, a lei dos livros não tinha vez: lá quem era Rei e dava a palavra da justiça era a família Pôncio. Mas, além do desamparo de ser um Rei sem herdeiro, a nova geração de arruaceiros trazia outros problemas pro delegado: uma das principais figuras no bando era Maria, filha única da outra família notória da cidade, e o pai da menina era o prefeito. Por isso a coisa apertava bem onde o delegado tinha menos tato, que era a diplomacia. Por mais que fosse um Pôncio, não podia chegar ao extremo de mandar prender ou dar uma surra em Maria Pilatos. Pelo menos, consolava-se Alexandre, minha família não chegou a ponto de criar uma vagabunda drogada. Se pudesse, arrancava ele mesmo os dentes da pequena meretriz. Era principalmente por causa dos seus privilégios que ela conseguia sempre tirar os outros da cadeia, depois de passarem uma noitada na cela. E, Pôncio tinha certeza, era ela também que facilitava a entrada na cidade das drogas que eles usavam. Era o resultado desta merda de criação de frouxo que deram às crianças. Sem trabalho, só saindo de casa pra vadiar. Deu nisso.
Alexandre continuava rodeando o centro da cidade, aliviado pela oportunidade de sair de casa. O Natal era para ele o pior dia do ano, pois foi justamente nele que se deu a desgraça de nascer o filho. Todo ano a mulher, a filha mais nova e o resto da família comemoravam o aniversário de Juninho, enquanto o pai se remoia de tristeza num canto, engolindo a amargura num prato de peru e farofa. O filho da puta do médico, nunca confiara nesta raça, dissera que o menino não passaria dos quinze anos. Este ano completava vinte e três, e andava muito bem de saúde. Pelo menos a arruaça na cidade lhe deu uma desculpa pra sair, e também alguma coisa em que descontar a raiva. Deu uma boa surra nos dois primeiros antes de os mandar pra delegacia. Mas ainda faltavam muitos, com certeza todos tinham saído pra aproveitar as ruas desertas da noite de Natal.

domingo, dezembro 25, 2005

Ainda iriam passar cerca de quatro horas naquele buraco sujo, segundo os cálculos imprecisos de Pedro. Mas para sua cabeça, naquele estado, quarenta minutos ou quatro horas seriam difíceis de distinguir. Alternava o foco da sua atenção entre os diversos pontos de dor no seu corpo, ora sentindo seu pé latejando, provavelmente com algum osso quebrado, ora sentindo as feridas no rosto, cujo sangramento não estancado tingia de vermelho sua camiseta velha e o chão da cela. Felizmente, os gritos e insultos do Ferreira se tornavam um zumbido distante e sem importância na sua consciência anuviada pelas drogas.
Sentado no chão a sua frente, Paulo olhava fixamente um fiapo de peru que, pendurado de maneira insólita, se remexia insistentemente no bigodinho do Ferreira a cada grunhido do discurso disciplinar que ele emitia. Na visão do guarda, o deslumbramento lisérgico do adolescente com o resto de comida no seu bigode era um olhar assombrado pelo temor que sua figura de autoridade transmitia. De pé, perscrutando os adolescentes com seu rosto arduamente treinado pelos procedimentos da corporação policial, Ferreira sentia a plenitude do dever cumprido: a vigilância da ordem da cidade estava sendo executada à risca. E a harmonia sagrada do Natal, agora que estes arruaceiros estavam atrás das grades, estava mais uma vez assegurada. Para enfatizar o apelo disciplinar de sua fala, por vezes o guarda batia subitamente com seu cassetete nas grades de metal da cela, provocando um barulho desagradável que ecoava pelos corredores da pequena delegacia de Nazaré do Bom Jesus. A moral do policial permanecia inabalável, a despeito do fato de que ninguém na cela estava ouvindo ou se importando com seus impetuosos brados.
O guarda Ferreira, agora já passado da idade de receber uma promoção do delegado, tinha como única ocupação correr atrás deste bando de moleques. Era a quinta vez neste ano que eram presos por vadiagem. Eram, na verdade, a última salvação do pobre guarda: não podia agüentar o burburinho das conversas de praça e das comadres da Igreja dizendo como era um inútil, que polícia em Nazaré era que nem bombeiro no pólo Norte, que sua profissão era vigiar os casais namorando na rua. Ferreira sabia que o destino lhe guardava mais: era um bastião da justiça, defensor incansável da lei. Recebera treinamento, sabia atirar, algemar, conhecia os procedimentos. Das suas histórias, todas inventadas, se gabava portentosamente nas festas, quando todos estavam bêbados. Ele, nunca bebendo, dizia que era dever de um oficial permanecer em plena capacidade de exercer sua função, ainda que fora de serviço. Era necessário se manter austero para intervir em quaisquer complicações. E saíra orgulhosamente da ceia de Natal, como se atendesse uma emergência, quando precisou resolver o caso dos moleques. Pois sim, pensava ele a caminho do dever, agora esta cidade vai ver como é fundamental um policial preparado para a ação em plena noite de Natal. Ou prefeririam ver a Noite mais sagrada do ano arruinada por uma dúzia de arruaceiros? E agora vigiava a cela enquanto o delegado ia atrás dos outros.
Seu discurso corretivo versava acerca dos valores que os jovens haviam desrespeitado, da decepção e vergonha que causavam às suas famílias e à reputação da cidade, entre outros ensinamentos morais que certamente, segundo Ferreira, dariam a estes delinqüentes algo em que pensar enquanto alguém não os vinha retirar. Vadiagem é errado! Bradava Ferreira a plenos pulmões. Bebedeira é errado! As faces murchas do guarda adquiriam tons avermelhados. Desrespeitar a autoridade é errado! Os olhos injetados saltavam das órbitas. Vocês são vagabundos! Arruaceiros! Delinqüentes! Imbecis! Paulo finalmente alterou sua expressão catatônica e boquiaberta quando, ao proferir os últimos brados acertando escandalosamente seu cassetete contra as grades, Ferreira varreu de seu bigode o pedacinho de peru, carregado por uma torrente de frenéticos perdigotos. O menino olhou pra baixo, encarando no chão a sua frente a pequena gota de saliva que jazia junto ao resto mortal do animal servido na ceia de Natal da casa da sogra do guarda Ferreira. O guarda, vendo Paulo olhar para baixo, se deu por satisfeito concluindo que o menino baixava a cabeça de vergonha diante de seu sermão. Taquicárdico por sua comoção, o policial resolveu descansar um pouco em sua mesa. A noite ainda era longa pela frente, e felizmente ele estava longe dos parentes bêbados e de seu escárnio pela sua nobre profissão. Paulo e Pedro aguardavam em silêncio na cela, certos de que seus outros amigos se juntariam e eles em breve.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Algumas coisas me deixaram com vontade de postar aqui, mas resolvi aproveitar a inspiração pra começar meu conto de natal.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Quero sugestões pro meu conto de natal.
Afinal, o que tem de interessante no natal?
Queria escrever uma coisa bacana neste ano, pra variar.
Acho que não tenho mais coragem de escrever, a não ser trabalhos acadêmicos.
Quem sabe não é neste ramo da mediocridade humana que reside meu futuro, ao invés da literatura de boteco.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Atualizei todos os meus links.
Agora, vê se vcs param de criar, recriar, destruir e mudar seus blogs.

terça-feira, dezembro 06, 2005

As últimas temporadas de Simpsons, não sei se devido ao desgaste de mais de quinze anos, ou à queda da qualidade dos roteiristas, ou ao meu gradual processo de enranzinzamento e perda de humor, me pareceram sempre muito piores do que as primeiras.
No entanto, hoje eu vi um episódio sensacional. O burns resolve ficar popular e compra toda a mídia da cidade, menos o jornalzinho que a Lisa faz. No fim do episódio a Lisa diz pro Homer que aprendeu que um jornalzinho não pode mudar este mundo ruim. Daí aparece um monte de gente com seus próprios jornaizinhos, e a Lisa vê que ensinou as pessoas a acreditarem no poder da mídia alternativa.
Mas enfim, tudo isso só pra dizer a última frase do Homer, que foi o foda do episódio:

Agora não tem mais um tirano controlando a imprensa, mas mil malucos distribuindo suas opiniões sem nenhuma importância.

Lembra algo?
Just for the record...

Estava relendo um trabalho meu sobre a formação do império russo, e fiquei pensando sobre como as pessoas são engraçadas. Sei lá, aí vai um trecho. Dúvido que interesse a muita gente, mas isso é problema de vcs:


O domínio tártaro que se estendeu por séculos na Rússia teve conseqüências profundas na vida cultural de seu povo. Um dos fatores mais importantes a se observar neste período é o isolamento em relação à Europa pelo qual Rus passa. Apenas Novgórod e Pskov mantiveram algumas relações com cidades setentrionais alemãs. Todo o desenvolvimento cultural que havia no período anterior ao advento dos mongóis sucumbiu diante de sua dominação. O artesanato, por exemplo, até então bem desenvolvido, regrediu significativamente. Nas palavras de Púchkin: “Os tártaros conquistaram a Rússia, mas não nos ofereceram a álgebra nem Aristóteles”. As crônicas e escritos religiosos da época também demonstraram a influência negativa que a dominação tártara exerceu sobre o mundo cultural da Rússia. Os negócios e as cidades também foram prejudicados, e isto tudo se deve essencialmente aos métodos da dominação mongol. Além da produção cultural, a cultura política russa também sofreu grande influência, que ajudou a construir a mentalidade absolutista e autocrática da Rússia.
O dia tá frio, cinza e ruim.
Eu escrevo, escrevo, mas ainda estou na quarta página do meu trabalho. Não aguento mais. Provavelmente mais uma noite em claro.
Eu sou uma pessoa mesquinha, desmotivada, egoísta, rancorosa e ruim.
O Garbage acabou, era uma das minhas bandas preferidas.
Eu vi um filme ruim hoje na tv, e perdi um tempão do trabalho que devia estar fazendo.
Eu devia gostar mais da Rússia, ou de alguma coisa.
As férias estão chegando, e eu sempre acho que vou encontrar alguma coisa atrás da porta.
Se eu fosse você, não perdia mais tempo.
Você perde tempo?

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Eu tenho medo de mim.

Cada dia eu olho pras coisas e tenho mais raiva, nojo, desprezo, tristeza, desânimo, desgosto em relação a todas elas. Quando as pessoas falam, eu não gosto. Quando eu vejo programas, leio livros, penso em possibilidades, tudo é escroto. Eu não tenho mais respostas, perguntas, iniciativa, esperança, ambições, planos, metas, vontades.
A vida me parece a coisa mais idiota já inventada. E me parece a única.
Eu fico imaginando como eu vou estar daqui a trinta anos. Mas eu não consigo nem pensar em que merda que eu vou fazer pra amanhã.
As coisas que gosto, as poucas, são bacanas. Mas elas não podem me salvar e nem salvar o mundo.
eu não gosto deste post, e provavelmente não gosto dos seus comentários.

(Eu tenho vontade de ficar fazendo uma lista de coisas que me dão raiva, e ela cresce em velocidade exponencial. Odeio seus hábitos, gostos, gestos, pretensões. Que se fodam.)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Pois bem, veja que beleza:

O professor de orçamento do meu pai, no MBA de administração hospitalar, estava falando sobre lucros. Ele estava discorrendo sobre empresas que investem no setor público e a lucratividade disso. Em geral, ele explicou, o lucro gira em torno de 20% ao ano. No entanto, ele começou a pesquisar um determinado setor: Transportes públicos. Ora, vejam a surpresa quando, eis que o senhor doutor da FGV descobre o seguinte: o retorno das empresas deste setor superaria os 100% anuais caso eles cobrassem uma tarifa de R$ 0,50. No entanto, o que constatamos é que não há tarifa que não custe três vezes este valor no sul e sudeste do país.
Logo, penso eu, seria de grande valia tal pesquisa para fundamentar certos argumentos muito úteis na nossa vida. Infelizmente um fato peculiar impede a conclusão da pesquisa do Prof. Dr: Ele recebe algumas ligações de novos amigos perguntando se ele estava interessado em falecer e, caso não estivesse, seria saudável pesquisar outras coisas por aí.

Já que não temos acesso à pesquisa, fica aí o relato do episódio como uma reflexão do dia.

sábado, novembro 19, 2005

Harlequim recomenda:

A Morta, peça do Oswald de Andrade do caralho. Um grupo muito bacana que tá apresentando, só dez reais a entrada.
Sexta e sábado às 21:00. É lá em Pinheiros, naquela rua que é uma travessa da Inácio pereira da Rocha e sai ali perto do Sacolão. O endereço é Rua Medeiros de Albuquerque 55.
Mas só fica em cartaz até 3 de Dezembro.
Vale a pena ir, de verdade.

sábado, novembro 12, 2005

A hora das quatro me consome a vida, indiferente.
O vagar dos dias dissolve o sentido, qualquer que seja, daqueles cantos onde um dia enxergara reflexos da sua alma. Empalidecido, desgastado. Agora os dias eram foscos, e os caminhos, não importando onde fossem, já não eram dos pés de alguém que conhecesse. Amor, amizade e as outras palavras da mesquinha língua dos homens haviam se desgastado e perdido o clamor que a ingenuidade lhes conferira um dia. Embebidas da artificialidade que, esta sim, fulgurava em sua essência, nada mais comunicavam. Palavras, pensamentos, dias. Os olhos, quem dera tivessem se perfurado antes, com a intensidade que latejava em tudo: das asas de uma borboleta estúpida ao branco rígido do rigor mortis.
A alegria, outra das palavras prontas e estéreis, esta a achava em pequenos acontecimentos sem significado algum. Apenas por um momento, se vestiam com um sentido que parecia recriar algo que já nem mesmo sabia o que era. E, em alguns segundos, tentava ao menos se agarrar na nostalgia, pois lhe vagava pela mente anestesiada a tênue e ridícula impressão de que um dia já soube porque vivera tanto.
Nas manhãs havia o espelho. As imagens físicas não eram como a das palavras, idéias, sentimentos e sentidos: elas não se alteravam, exceto por esforço do tempo que as corroia. Era apenas o sentido que as recheava que se alterava conforme o ser olhante.
Tudo que um dia houvera havia se tornado sombras. Vivia ainda, quem sabe no porvir de vislumbres.

segunda-feira, outubro 31, 2005

"atualiza o blog! Atualiza o blog!"
É. Fácil falar quando não se tem milhares de coisas pra fazer. Enfim, ninguém gosta de escritores que produzem exasperadamente só para atender o mercado editorial. Então eu atualizo agora com meu glamouroso atraso. A parte triste de verdade é que não tem nada que eu realmente tenha vontade de escrever, pra mim nem pros outros. Acho que eu preciso de um pouco de tédio, reclusão, melancolia, solidão ou sei lá o que pra ter vontade de escrever de novo. Nem tenho tido tempo de ficar de saco cheio da faculdade, que dirá de reclamar dela. Não que eu não esteja de saco cheio dela, mas tenho tido tão poucas oportunidades de ir à aula que fica meio injusto dizer que é ela que atrapalha minha vida. E agora, ainda com um monte de trabalhos atrasados e faltas acumuladas, talvez seja mas fácil retomar estas reclamações.
É um bocado irônico ficar na correria pra fazer vários atos pelo passe-livre, queimar catracas, fechar ruas, conversar com pessoas sobre a injustiça do mundo, dos transportes, do capitalismo e blábláblá enquanto eu sinto um desânimo tão grande em relação a todas as coisas.
Acho que na minha próxima encarnação talvez eu devesse ser um animalzinho burro e feliz, como um poodle ou uma paty.
E deste jeito eu ainda vou levar tantos anos pra me formar...cada dia eu tenho menos vontade de dar aula ou de fazer qualquer outra coisa.

segunda-feira, outubro 10, 2005

terça-feira, setembro 27, 2005

Um post de silêncio por Ronald Golias.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Eu vi no jornal uma mulher, devia ter uns sessenta anos, que foi pra cadeia por quatro meses por roubar um queijo e dois pacotes de bolacha no supermercado pro filho poder comer. Na saída do supermercado, o segurança chutou ela e depois levou pra delegacia.

Eu realmente não entendo quem acha este mundo um lugar bom. Espero conseguir fazer isto um dia.

Só pra reforçar, uma amostra grátis:


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sexta-feira, setembro 16, 2005

Eu me sinto agora (apenas neste momento) como se pudesse ter uma noite repousante de sono depois de anos acordado. Isso é porque eu consegui sentar e escrever de verdade. E tá aqui o meu conto de Natal que fiquei devendo do ano passado.

Violetas


Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Ela era feita de futuro, da matéria-prima rústica que se encontra nos escombros, nas profundezas, nos berços, nas montanhas, nos esboços e rascunhos, que surgem da beleza espontânea das primeiras idéias frescas que vêm ao mundo. Ela era feita de possibilidades, da esperança mais cândida, daquele tipo que não se tornou um lugar comum, uma palavra gasta prostituída na boca de um farsante. Ela era feita de um amanhã que se concretiza a cada dia em um hoje cheio de tudo, de um dia que encontra as coisas por elas mesmas, autênticas e com a ousadia destemida de quem não se importa em parar pra se preocupar.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
Eu devo estar no meu inferno astral, só pode ser.

terça-feira, agosto 30, 2005

O menino que usava camisetas brancas e meias pretas sempre iguais teve um sonho metalinguístico. Dormiu em sua cama, na mesma hora e do mesmo jeito que dormia todas as noites, com um copo d'água, dentes escovados, pijama verde de flanela e toda a vontade de que a noite não chegasse ao fim, porque ao fim da noite sempre vem o longo dia, tão mais longo que a noite e tão mais longe da vida. No seu sonho, que veio na forma de um despertar pro dia, o menino andava naquele simulacro de vida-do-dia-normal que a nossa cabeça faz quando estamos dormindo. Mas a nossa cabeça, assim como o menino (apesar de usar camisetas brancas e meias pretas sempre iguais) não gosta de mesmices, rotinas, relógios, ponteiros ou de leis da física e outras coisas que a gente vê nos filmes e nos livros da escola, e foi por isso que neste sonho o menino tinha camisetas pretas e meias brancas. E o menino entrou na escola, não do jeito que as pessoas chamam de "de verdade", porque deste jeito ele estava na sua cama, de olhos fechados e de pijama, e "de verdade" ninguém vai à escola desse jeito. Mas no seu sonho, ou seja, aquilo que as pessoas chamam "de mentira" ou "de faz-de-conta", o menino do sonho entrou na escola com camiseta preta e meias brancas. Mas o menino de "faz-de-conta", quando sentou na carteira não assistiu aula. Ele dormiu, e no seu sonho usava camiseta branca e meias pretas.

domingo, agosto 28, 2005

Meu pai, arrumando uns lixos no quarto dele, achou uma sensacional tabela de interesses que foi desenvolvida durante o meu curso vocacional (não, não me pergunte porque caralhos eu fiz uma idiotice destas. Faz parte de um passado negro da minha vida, meus pais insistiram muito e eu estudava na escola mais escrota do mundo). Esta tabela foi desenvolvida a partir de um teste de assinalar, mais ou menos que nem aqueles que tem na Capricho pra vc ver se o seu namorado te chifra ou se vc é uma vagabunda na moda. Os meus interesses, segundo o teste, são assim ó:

Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%

Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Eu sei que já disse milhares de vezes, pra mim mesmo, pros outros, pra todos e pra ninguém, que eu nunca fiz nada disso por você. Não há nada mais ridículo (e aqui neste ponto eu peço que me concedam a legítima licença poética do exagero desmesurado) do que alguém que se importa tanto fingindo o descaso e a indiferença.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.

quinta-feira, agosto 18, 2005

eu sei que não ando utilizando este fértil espaço de comunicação com frequencia, mas mando aí um link bacana pra vcs.

http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp

Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI

www.midiaindependente.org

beijinhos.

domingo, julho 10, 2005

Eu decidi que não posso mais ficar me fazendo de vítima e sendo um bundão. Eu vou fazer as coisas que eu quero e dar um jeito de conseguir.
Mas eu tenho medo de ter estragado toda minha capacidade de ser criativo ou de fazer qualquer coisa...

sábado, julho 02, 2005

Sentado na sarjeta com o sol de domingo ferindo os olhos e queimando a pele. Quis que todos os dias fossem cinzas, fossem frios, fossem de chuva, fossem de vento. Sentado na sarjeta, vendo as crianças jogando bola na praça da frente, os moleques de bicicleta, os namorados no banco da praça, o mendigo de cachaça em riste entoando a canção da vida. Quis que tudo fosse morte e desolamento, quis rasgar a hipocrisia da vida com suas próprias mãos...mas elas estavam cansadas demais para fazerem qualquer coisa. Quis lembrar a cada pessoa que sorria que a vida era solidão e sofrimento, que a felicidade era fugaz. Quis lembrar que cada sorriso é mais tênue que a chama de uma vela em meio a uma nevasca. As pessoas, felizes, eram pura ignorância. Tristes, eram descartáveis.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.

quinta-feira, junho 23, 2005

A humanidade é um experiência definitivamente frustrada. Quisera eu ter o otimismo de alguns bons corações, mas é foda quando vc se depara com a podridão do mundo real.
Olha esta bosta:

terça-feira, junho 21, 2005

Hoje eu fiz uma coisa que valeu muito a pena, e que me deu um tipo de esperança diferente. É sempre bom parar e ouvir uma pessoa bacana falando, uma pessoa que pode até pensar muitas coisas parecidas com você, mas que sente o mundo de uma maneira essencialmente diferente. Uma pessoa que, na verdade, tem tudo em comum e tudo de diferente. E uma história de uma vida pra contar. É bom saber que tem gente que passa a vida lutando por coisas que eu acredito, chega lá pra frente feliz pra caralho e tendo a certeza absoluta de que tudo valeu a pena completamente. É bom saber, por exemplo, que tem gente que luta uma vida inteira contra o capitalismo e ainda consegue chegar ao sessenta anos acreditando na humanidade e, pasmem, na não-violência.
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org

Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...

quarta-feira, junho 08, 2005

Do que será que eu estou tentando escapar, afinal?

sábado, junho 04, 2005

Você pode até chamar de uma tristeza saudosista idiota, mas eu te digo que é mais do que isso. São as coisas sendo corroídas, sempre do mesmo jeito.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.