segunda-feira, outubro 31, 2005

"atualiza o blog! Atualiza o blog!"
É. Fácil falar quando não se tem milhares de coisas pra fazer. Enfim, ninguém gosta de escritores que produzem exasperadamente só para atender o mercado editorial. Então eu atualizo agora com meu glamouroso atraso. A parte triste de verdade é que não tem nada que eu realmente tenha vontade de escrever, pra mim nem pros outros. Acho que eu preciso de um pouco de tédio, reclusão, melancolia, solidão ou sei lá o que pra ter vontade de escrever de novo. Nem tenho tido tempo de ficar de saco cheio da faculdade, que dirá de reclamar dela. Não que eu não esteja de saco cheio dela, mas tenho tido tão poucas oportunidades de ir à aula que fica meio injusto dizer que é ela que atrapalha minha vida. E agora, ainda com um monte de trabalhos atrasados e faltas acumuladas, talvez seja mas fácil retomar estas reclamações.
É um bocado irônico ficar na correria pra fazer vários atos pelo passe-livre, queimar catracas, fechar ruas, conversar com pessoas sobre a injustiça do mundo, dos transportes, do capitalismo e blábláblá enquanto eu sinto um desânimo tão grande em relação a todas as coisas.
Acho que na minha próxima encarnação talvez eu devesse ser um animalzinho burro e feliz, como um poodle ou uma paty.
E deste jeito eu ainda vou levar tantos anos pra me formar...cada dia eu tenho menos vontade de dar aula ou de fazer qualquer outra coisa.

segunda-feira, outubro 10, 2005

terça-feira, setembro 27, 2005

Um post de silêncio por Ronald Golias.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Eu vi no jornal uma mulher, devia ter uns sessenta anos, que foi pra cadeia por quatro meses por roubar um queijo e dois pacotes de bolacha no supermercado pro filho poder comer. Na saída do supermercado, o segurança chutou ela e depois levou pra delegacia.

Eu realmente não entendo quem acha este mundo um lugar bom. Espero conseguir fazer isto um dia.

Só pra reforçar, uma amostra grátis:


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sexta-feira, setembro 16, 2005

Eu me sinto agora (apenas neste momento) como se pudesse ter uma noite repousante de sono depois de anos acordado. Isso é porque eu consegui sentar e escrever de verdade. E tá aqui o meu conto de Natal que fiquei devendo do ano passado.

Violetas


Sentada na cama reclinável, cercada pelo ambiente estéril, asséptico e desolador do quarto de hospital, ela observava o vaso de violetas. Discretamente no parapeito da janela, aventurando-se na tentativa de irromper um vestígio de cor e vida no meio daquele deserto branco. No começo de uma tarde quente, o sol pousava seus mornos raios sobre as pétalas roxas. Era um vaso pequeno, as flores dispunham-se tão harmoniosamente que sua beleza parecia quase além do natural. O sol detinha-se no limite das flores, parecendo se admirar tanto com o encanto daquelas pétalas que não ousava seguir adiante para iluminar o quarto, a cama, os aparelhos com seus angustiantes bipes e outros barulhos mecânicos, monitorando constantemente a vida que se fragilizava mais e mais naquela cama. Lembrando constantemente que a decomposição, a dor e a morte se aproximavam a largos passos. A liberdade de viver por si só já fora arrancada por completo. A roupa verde-água misturava-a na tonalidade morta do resto do quarto, na ausência do sol tão distante do roxo vivo e intenso no parapeito.
A garoa fina e delicada que surgiu na janela pareceu um reflexo de suas vontades, expressando as lágrimas que já não saiam de seus olhos debilitados. Vermelhos e ardendo, haviam chorado muito. Agora, por exaustão ou fraqueza, se encontravam incapazes de produzir novas lágrimas. Mas as finas gotas que vertiam do céu pareciam suficientes para exprimir aquela tristeza. Desceram suavemente acariciando as pétalas roxas, umedecendo a terra do vaso e alimentando a vida da planta. Logo as gotas tornaram-se maiores, entrando pela janela aberta, molhando o chão do quarto. As pétalas balançavam para cima e para baixo com o impacto das gotas, acertando-as em cheio, asperamente. A água já não alimentava e nem era vida. Ela descia impiedosa, exagerada, dolorida por cima de cada pétala. Afogavam-se, desesperadas. Ela gostaria de levantar, de fechar a janela, pegar o vaso e protegê-lo. Ela gostaria de salvar as flores, de impedir o sofrimento. Algumas pétalas começavam a se soltar, caindo sobre o chão. Já não eram belas e cheias de sol. Eram enrugadas, amassadas, a água as havia deformado.
Seu corpo enfraquecido não conseguia deixar a cama e realizar o curto trajeto até a janela. Ela não podia fazer nada para salvar as flores, assim como ninguém podia fazer nada para salvá-la. Aflita, ela assistiu impotente à destruição das flores e suas pétalas, assim como assistia a própria decomposição de seu corpo enfermo nos longos dias e noites que se seguiam. Por fim, o que sobrava da violeta não se distinguia mais do resto do quarto: estéril, morto e sem cor. A mulher, tentando se confortar com um resto do efeito da morfina que tornava sua dor mais suportável, refugiou-se em suas memórias, que agora eram o último canto em que havia vida naquele quarto. Sua mente, também amortecida pela droga e sensibilizada pela doença, misturavam a cronologia de sua curta vida. Quando seus olhos conseguiam por um momento se concentrar e assistir pela janela o entardecer, ela enxergava do outro lado da rua no parapeito das janelas pequenas luzes brilhantes, piscantes. Eram as mesmas luzes que se acendiam em suas primeiras memórias de infância, ao lado de grandes caixas embrulhadas com papéis coloridos de presente.
Estas manhãs tinham um cheiro diferente em suas lembranças. As violetas, sempre lindas por cima da mesa da sala. Ainda que menos chamativas que os grandes embrulhos ao redor da árvore coberta de enfeites, suas cores eram as mais sinceras em sua humilde discrição. As flores preferidas de sua mãe, que todos os anos ganhava no natal, passaram a ser suas preferidas também, desde aquela época. Mas, apesar de nunca ter feito esta distinção para si mesma, não era das flores que realmente gostava, e nunca gostou das coisas pelo que elas eram. Gostava de saborear as pequenas lembranças escondidas em cada pétala, do cheiro que era de sua mãe dentro daquele pequeno vaso. Da sua mãe, lhe sobrara tão pouco. A lembrança de um toque macio e acolhedor, que não poderia nunca recuperar, tal qual a sensação de mergulhar o nariz nos profusos cachos que se prolongavam pelo contorno de seu corpo, e o modo como eles acariciavam. Sobrava uma lembrança pálida também, quase uma idealização, da voz doce que enchia seus ouvidos de melodias de ninar todas as noites, e de canções antigas nos sábados à tarde. De seu rosto, sabia os contornos e o branco dos olhos, sabia o tom de vinho sutil que delineava os finos lábios nas noites de festa, sabia as cores das compridas unhas que ajudava a pintar, sabia as duas maças do rosto que sentia em seus sonhos como se estivessem ainda ali, sabia o contorno das sobrancelhas e as linhas de expressão, sabia o contorno dos sorrisos e por onde passavam as lágrimas quando caíam. Mas fotos não havia, tampouco gravações. O tempo, que não havia se contentado em levar a mulher que cultivava sua vida com a paciência de um artesão e uma bondade que era impossível guardar, ano a ano lhe tirava mais um pedaço das memórias que haviam sobrado. E as violetas, seu cheiro, sua cor e seu gosto, talvez já fossem o pedaço mais concreto de amor que lhe sobrara. Um pedaço do único amor que havia existido, em uma idade em que o aproveitara da maneira mais autêntica mas, infelizmente, e talvez mesmo por isso, não soube o reconhecer como tal.
Sentia ainda, nas noites de sonhos ruins, o peso infinito do vaso que carregava aos treze anos, no dia em que primeiro entrou naquele prédio austero, silencioso e de brancas e assustadoras paredes onde agora aguardava a morte. Cada passo ressoando no corredor, enquanto ao seu lado acompanhavam uma freira e seu pai, como sempre de terno e cara fechada. Tentavam, dia após dia, lhe esconder a verdade. Teve raiva, mas não muita. Mesmo pequena, soube pela primeira vez entender que por mais que as pessoas vivam e aprendam, elas nunca realmente sabem o que fazer. E viu nos olhos distantes e despreparados do seu pai, que nunca soubera como lhe dar um vestígio do afeto que havia nos abraços da mãe, que ele tentava apenas poupar a dor que ele próprio sentia. Desejando poder ignorar aquela tragédia, queria colocar a filha mais próxima desse estado no qual ele imaginava não haver sofrimento. Mas o pai não sabia, e nunca saberia, que ele era apenas um apêndice naquela família. A empatia que a menina desenvolvera com sua mãe ao longo dos anos já havia há muito substituído o velho e gasto amor do casal. As lágrimas e confissões, as expectativas e alegrias, não eram para o senhor severo e engravatado que não sabia dar abraços que não fossem forçados ou dizer palavras de amor como se elas pertencessem à sua boca. Os momentos íntimos eram da menina, que os recebia e abraçava com o amor de uma criança, e com uma maturidade que escapava às margens de sua curta vida.
E, cruzando aquele corredor frio, a menina sabia muito bem aonde ia. Presa horrivelmente entre sua afetividade infantil e sua compreensão quase adulta, carregava uma angustia indizível, sentia o peso da morte naquele pequeno vasinho de violetas. Conforme levava aquelas miúdas flores roxas pro quarto de hospital da sua mãe, sentia cada vez mais que era como se carregasse o cadáver de mulher que amava para sua sepultura. Os olhos não queriam se defrontar com a palidez do edifício, muito menos com o desolador olhar do seu pai ou o sombrio semblante da freira que os escoltava. Mantinha-os fixos nas pétalas roxas, sempre os sentindo arder, como se a primeira lágrima fosse escapar a qualquer momento. Mas elas se mantinham presas aos olhos marejados, embaçando a visão que tinha das pétalas até transformarem-nas em um borrão roxo. O silêncio, também assustador demais, era substituído pela voz da mãe ressoando em uma canção dentro de sua cabeça. Os passos no corredor marcavam o tempo para a imagem de sua mãe que cantava.
A dor tornara-se mais forte, a cada dia piorava. A enfermeira, mal pôde vê-la enquanto perambulava os recantos das suas lembranças, sussurrou-lhe algumas palavras gentis e administrou mais morfina. Provavelmente a última dose, ela imaginava. A realidade de seu quarto era cada vez menos palpável, cada vez mais se mesclava com as memórias. E a voz da enfermeira soou como as palavras de sua mãe enferma, reafirmando seu amor na cama do hospital. Foi difícil encarar a mãe naquele momento. Pela janela do hospital fitava as luzinhas brilhantes de natal nas outras janelas. Já sem poder conter as lágrimas, entregou à mãe o pequeno vaso de violetas, esperando ingenuamente que assim pudesse se livrar do fardo que carregava. A mãe deu um último sorriso, agradecendo à filha por ter se lembrado das suas violetas de natal. Via as pétalas despedaçadas no quarto do hospital, sem saber se eram as de sua mãe ou as que tinha pedido para seu próprio quarto, como seu cortejo fúnebre. Filha para trazê-las não havia, nem alguém que as retirasse do parapeito da janela para que a forte chuva nas as estragasse. Pela primeira vez, desde que a mãe morrera da mesma doença que agora a consumia, a menina não poderia depositar um pequeno vaso de violetas sobre o túmulo da mãe. Fechou os olhos, lembrando do momento em que sua mãe fez o mesmo há tantos anos atrás. Suas lágrimas caíram sobre as pétalas das flores, como uma garoa fina e delicada caindo sobre um mundo que anoitece.
Ela era feita de futuro, da matéria-prima rústica que se encontra nos escombros, nas profundezas, nos berços, nas montanhas, nos esboços e rascunhos, que surgem da beleza espontânea das primeiras idéias frescas que vêm ao mundo. Ela era feita de possibilidades, da esperança mais cândida, daquele tipo que não se tornou um lugar comum, uma palavra gasta prostituída na boca de um farsante. Ela era feita de um amanhã que se concretiza a cada dia em um hoje cheio de tudo, de um dia que encontra as coisas por elas mesmas, autênticas e com a ousadia destemida de quem não se importa em parar pra se preocupar.
As alegrias, quando passageiras, tinham como rebento a mais bem acomodada lembrança, cultivada cuidadosamente e com os floreios que a realidade crua merece que nossa mente lhe forneça. As tristezas ganhavam o lugar de sua merecida importância, tomando para si ares de tragédia e forjando as paredes do castelo de cartas de acontecimentos que formavam o modo de ser e pensar e sentir. Até as mais simplórias banalidades abandonavam sua triste fugacidade para ganhar as entrelinhas que as vestiam como uma coisa que valia a pena ser lembrada, escrita, rememorada, revista, guardada.
As palavras e os gestos, ela sabia, eram inexperientes, cheios de medo e hesitação, mas até mesmo por isso embutidos de uma satisfação e de uma coragem que os tornavam mais verdadeiros, mais contundentes em suas intenções. As tentativas, mesmo quando pretensiosas, não eram arrogantes e sabiam da sua chance de sempre dar errado. E quanto maior fosse a chance de fracassar, maior era a satisfação de conseguir. A ignorância nunca fora um motivo de vergonha, mas sim de alegria por poder aprender alguma coisa nova sempre. A imaturidade nunca fora um obstáculo, mas um passaporte para poder ousar e conhecer sem o fardo das convenções e das limitações sociais. A falta de idade apenas cumpria o papel de encobrir agradavelmente o infinito de tempo por descobrir.
Eu devo estar no meu inferno astral, só pode ser.

terça-feira, agosto 30, 2005

O menino que usava camisetas brancas e meias pretas sempre iguais teve um sonho metalinguístico. Dormiu em sua cama, na mesma hora e do mesmo jeito que dormia todas as noites, com um copo d'água, dentes escovados, pijama verde de flanela e toda a vontade de que a noite não chegasse ao fim, porque ao fim da noite sempre vem o longo dia, tão mais longo que a noite e tão mais longe da vida. No seu sonho, que veio na forma de um despertar pro dia, o menino andava naquele simulacro de vida-do-dia-normal que a nossa cabeça faz quando estamos dormindo. Mas a nossa cabeça, assim como o menino (apesar de usar camisetas brancas e meias pretas sempre iguais) não gosta de mesmices, rotinas, relógios, ponteiros ou de leis da física e outras coisas que a gente vê nos filmes e nos livros da escola, e foi por isso que neste sonho o menino tinha camisetas pretas e meias brancas. E o menino entrou na escola, não do jeito que as pessoas chamam de "de verdade", porque deste jeito ele estava na sua cama, de olhos fechados e de pijama, e "de verdade" ninguém vai à escola desse jeito. Mas no seu sonho, ou seja, aquilo que as pessoas chamam "de mentira" ou "de faz-de-conta", o menino do sonho entrou na escola com camiseta preta e meias brancas. Mas o menino de "faz-de-conta", quando sentou na carteira não assistiu aula. Ele dormiu, e no seu sonho usava camiseta branca e meias pretas.

domingo, agosto 28, 2005

Meu pai, arrumando uns lixos no quarto dele, achou uma sensacional tabela de interesses que foi desenvolvida durante o meu curso vocacional (não, não me pergunte porque caralhos eu fiz uma idiotice destas. Faz parte de um passado negro da minha vida, meus pais insistiram muito e eu estudava na escola mais escrota do mundo). Esta tabela foi desenvolvida a partir de um teste de assinalar, mais ou menos que nem aqueles que tem na Capricho pra vc ver se o seu namorado te chifra ou se vc é uma vagabunda na moda. Os meus interesses, segundo o teste, são assim ó:

Ar livre 15%
mecânica 20%
cálculo 10%
científica 45%
persuasão 65%
artística 55%
literária 85%
musical 98%
social 99%
serviço de escritório 15%

Vale lembrar que eu fiz esta merda em 2001. Isso me faz pensar na seguinte questão: Será que, de acordo com os excelentíssimos psicólogos que elaboraram um teste tão fenomenal, dá pra mudar os resultados e trocar seus interesses? E, se sim, qual o sentido de fazer este teste pra escolher uma "carreira" se depois seus interesses vão mudar?
Isso é o que eu chamo de post idiota.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Eu sei que já disse milhares de vezes, pra mim mesmo, pros outros, pra todos e pra ninguém, que eu nunca fiz nada disso por você. Não há nada mais ridículo (e aqui neste ponto eu peço que me concedam a legítima licença poética do exagero desmesurado) do que alguém que se importa tanto fingindo o descaso e a indiferença.
Eu fiquei olhando praquela foto, trancado no meu quarto, que eu guardo bem no fundo da minha gaveta e espalhada por todos os lados e momentos dos meus pensamentos. Eu fiquei pensando naquele dia, que o tempo cronológico guarda há mais ou menos um ano de hoje mas, e com um refinado senso de crueldade insiste em afastar de mim na ordem de um dia por dia, e que eu, com uma não-tão-refinada falta de senso de auto-piedade, guardo nas minhas memórias mais lamentáveis e, paradoxalmente, felizes, fazendo questão de aproximar de mim na ordem de cinco ou seis pensamentos por dia, em um dia regularmente comum. A conclusão do pensamento sobre o tal dia (fato não incomum, se considerarmos a explicação já daquela frase anterior), se é que deveria haver alguma, é que eu chego quase sempre às mesmas conclusões. A não ser, evidentemente, nos frequentes casos em que não chego a conclusão alguma. Mas, começo a pensar, mesmo isto tem sido uma conclusão óbvia e um lugar-comum. Reclamar e lamentar-me das obviedades e das próprias reclamações tem cada vez mais se constituído em uma metalinguagem tão amortecida pelo repetimento enfadonho que nem tenho coragem de encarar meus próprios pensamentos a respeito. E, aqui, neste delimitado espaço de linhas e de minutos, coloco em prática mais uma enfadonha reclamação, pois disso não passará este infértil recém-nascido texto, desta vez tratando a respeito das próprias repetições que amontoei ao longo de meus pensamentos, de meus dias iguais, de minha vida. E, tal qual nos diferentes textos repetidos que produzo, aqui neste já venho me repetindo de maneira irritante há um número considerável de linhas.
Desafortunadamente, a solução para tal problema, diferentemente de sua causa, me escapa de maneira desconcertante e irritante. E a questão em si importuna minha mente de maneira tão insistente, incisiva, insuportável, que aquelas considerações primeiras a respeito de não fazer as coisas por alguém, ou ainda sobre o pensamento que tinha enquanto olhava a foto no fundo da gaveta, acabaram por se soterrar sobre uma avalanche de intervenções nada pertinentes. E agora, pensando neste problema e no resto da minha vida, fico me questionando se realmente vale a pena, a esta altura (tanto da vida quanto do texto), tentar começar a falar sobre estas coisas que iria falar.
Mais uma vez, como era de se esperar pra qualquer um que more dentro dos meus pensamentos, eu procrastinarei minhas vontades e a emancipação de minhas capacidades de libertar minha vida e minha felicidade da pequena e abafada jaula onde elas se encontram aprisionadas.

quinta-feira, agosto 18, 2005

eu sei que não ando utilizando este fértil espaço de comunicação com frequencia, mas mando aí um link bacana pra vcs.

http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp

Tem uma maravilhosa enquete ali no canto sobre o que vc acha do trabalho da polícia militar que eu recomendo a todos. Dêem sua opinião sobre estes dedicados Paladinos da Lei que zelam pelo Bem, a Ordem, a Moral e a Decência de nosso estado.
Se vcs estiverem na dúvida e quiserem boas atualizaçãoes sobre o primoroso serviço, recomendo dar uma olhada sempre no site do CMI

www.midiaindependente.org

beijinhos.

domingo, julho 10, 2005

Eu decidi que não posso mais ficar me fazendo de vítima e sendo um bundão. Eu vou fazer as coisas que eu quero e dar um jeito de conseguir.
Mas eu tenho medo de ter estragado toda minha capacidade de ser criativo ou de fazer qualquer coisa...

sábado, julho 02, 2005

Sentado na sarjeta com o sol de domingo ferindo os olhos e queimando a pele. Quis que todos os dias fossem cinzas, fossem frios, fossem de chuva, fossem de vento. Sentado na sarjeta, vendo as crianças jogando bola na praça da frente, os moleques de bicicleta, os namorados no banco da praça, o mendigo de cachaça em riste entoando a canção da vida. Quis que tudo fosse morte e desolamento, quis rasgar a hipocrisia da vida com suas próprias mãos...mas elas estavam cansadas demais para fazerem qualquer coisa. Quis lembrar a cada pessoa que sorria que a vida era solidão e sofrimento, que a felicidade era fugaz. Quis lembrar que cada sorriso é mais tênue que a chama de uma vela em meio a uma nevasca. As pessoas, felizes, eram pura ignorância. Tristes, eram descartáveis.
Quis que todos lembrassem de que a felicidade vai até ali na esquina, e que depois o mundo é um mar de desespero.

quinta-feira, junho 23, 2005

A humanidade é um experiência definitivamente frustrada. Quisera eu ter o otimismo de alguns bons corações, mas é foda quando vc se depara com a podridão do mundo real.
Olha esta bosta:

terça-feira, junho 21, 2005

Hoje eu fiz uma coisa que valeu muito a pena, e que me deu um tipo de esperança diferente. É sempre bom parar e ouvir uma pessoa bacana falando, uma pessoa que pode até pensar muitas coisas parecidas com você, mas que sente o mundo de uma maneira essencialmente diferente. Uma pessoa que, na verdade, tem tudo em comum e tudo de diferente. E uma história de uma vida pra contar. É bom saber que tem gente que passa a vida lutando por coisas que eu acredito, chega lá pra frente feliz pra caralho e tendo a certeza absoluta de que tudo valeu a pena completamente. É bom saber, por exemplo, que tem gente que luta uma vida inteira contra o capitalismo e ainda consegue chegar ao sessenta anos acreditando na humanidade e, pasmem, na não-violência.
O Patch Adams é foda, e é sem dúvida uma das pessoas mais carismáticas que eu já vi na vida. É sempre bom lembrar que existem muitos caminhos pra revolução. Ampliar os horizontes é tudo.
www.patchadams.org

Robin Willians o caralho, dá uma olhada lá...

quarta-feira, junho 08, 2005

Do que será que eu estou tentando escapar, afinal?

sábado, junho 04, 2005

Você pode até chamar de uma tristeza saudosista idiota, mas eu te digo que é mais do que isso. São as coisas sendo corroídas, sempre do mesmo jeito.
Há onze anos atrás eu fui no II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera. E, desde então, todo final de Maio eu fui na convenção. Este ano eu fui na minha décima segunda convenção de RPG. Mesmo sem conseguir sair da galeria de manhã cedo para ir em caravana, como sempre fazemos, eu fui pra lá.
Eu já fui ridicularizado por muita gente por atribuir uma importância muito grande ao RPG e ao papel que ele pode ter. Mas, mesmo ficando um pouco isolado, eu continuei e ainda continuo defendendo que o RPG não é qualquer merda. Não é assistir novela, nem ler um gibi da mônica, nem jogar palitinho. O RPG pode ser muito mais, muito mais inclusive do que ele é hoje. Só que pra isto muita coisa ainda tem que acontecer. Enquanto ele for um joguinho extremamente elitizado que serva pra meia dúzia de moleques passar o tempo, enquanto ele for tratado como passatempo de nerd bobo que não consegue interagir com o resto do mundo, o RPG vai continuar sendo uma imbecilidade deixada de lado.
Mas o foda é o que aconteceu hoje, quando eu vi o RPG ser banalizado, prostituído, degradado como um lixo que se vende num supermercado. É tarde, tudo que tem potencial pra ser bom caí na mão de filho da puta. E o mundo assiste passivo.
Hoje eu fui na convenção mais esvaziada desde que eu me entendo por gente. No Mart Center, com dezenas de seguranças por todos os lados. Oito reais de entrada, este é o preço pra encontrar as pessoas que jogam também. Noventa reais, este é o preço se você quiser ler o livro de Changeling em português. É, meu amigo, as pessoas precisam se sustentar não é?
Por mais que tivesse seus defeitos, a convenção pra mim sempre foi um espaço de liberdade, muito mais do que de ver livros novos ou qualquer merda assim. E, uma vez por ano, eu realmente me sentia bem de entrar em um espaço onde as pessoas poderiam ser diferentes, ser toleradas. Não digo que a convenção era um espaço maravilhoso e lindo, onde tudo pode acontecer e todos se amam. Mas era um espaço onde pelo menos os jogadores de RPG podiam se sentir um pouco em casa. E era uma coisa que realmente me deixava feliz.
Faz mais ou menos quatro ou cinco convenções que ela se realiza no Mart Center. Com ingresso, com controle de entrada e saída, com seguranças, e com lives realizados numa área quadrada de dez por dez metros, cercada por uma fita. Foi nesta época que passaram a impedir que as pessoas entrassem com espadas, com guarda-chuvas, com bastões, com cajados. Foi nessa época que uma menina morreu jogando RPG, e no sensacionalismo o RPG cavou seu espaço na grande e escrota mídia, no fantástico e nas páginas do jornal. Era hora dos empresários do RPG defenderem seus lucros, mostrando que o RPG zela pela moralidade, pelos bons costumes. O RPG é coisa de família também não é? Como disseram os filhos da puta, temos que mostrar que o nosso "hobby" é saudável. Hobby de cu é rola, bando de ladrão de merda.
No ano passado, um dos juízes do torneio de Jyhad quase foi expulso por "vender cartas dentro do espaço do encontro". É verdade, como fomos esquecer: a exploração dos jogadores é monopólio da Devir e dos seus capangas.
Neste ano, eu e mais várias pessoas quase fomos expulsos também da convenção. O problema, desta vez, foi o atentado à moral cometido pelas palavras de baixo calão que estavam grafadas em nossas roupas. Ou seja, se você aparecer amanhã com uma camiseta escrito "vai tomar no cu" no meio do Mart Center, cuidado com o Caco ou outros manda-chuvas do RPG nacional. Cuidado com os MIB vigiando o salão. Cuidado com as camêras da Globo. Pra vender melhor o RPG, vão ter que convidar a sua pessoa a se retirar daquele ambiente reservado ao lazer saudável e alegre do RPG da Devir.
Eu estou absolutamente puto, e eu acho que é hora de reagir.
Foda-se a Devir e o monopólio do RPG. O RPG não é propriedade deles, e muito menos eles podem censurar o que pensa ou diz qualquer jogador de RPG. Se eles querem cobrar oito reais de entrada para "garantir a estrutura" do encontro, então eles que enfiem o encontro deles no cu. Enquanto o RPG não for livre, ele vai ser controlado por uma máfia e uma corja de filhos da puta. Pra jogar rpg vc só precisa de livros e dados, na verdade nem isso se você não quiser. E eu digo que ninguém deve pagar noventa reais pra jogar Changeling. Todos devem poder jogar Changeling.
É hora de dizer que a gente está pouco se fodendo pro que o Fantástico pensa do RPG, da mesma forma que estamos pouco nos fodendo pro que a Devir pensa de nós. E, se alguém quiser proibir o RPG, que proíba. Quero ver quem é que vai impedir a gente de jogar, seja leis, preços absurdos, seguranças ou entradas de oito reais.
RPG é imaginação, é Glamour, é vida. E isto é livre. E a banalidade destes Dauntains e Auttumn People não vai nos derrubar.

terça-feira, maio 31, 2005

Você lembra da primeira vez que se sentiu angustiado?
Com 14 anos eu senti toda a solidão e desespero do mundo simultaneamente dentro do meu coração, e de repente eu tive a certeza de que ele ia explodir e acabar com tudo. Mas não acabava nunca, e a dor continuava.
Entrou no meu coração como uma faca quente cortando manteiga.
E só depois que eu descobri que aquilo que eu senti em relação a uma só coisa, dava pra sentir em relação a tudo e a mim mesmo ao mesmo tempo.

terça-feira, maio 24, 2005

Como pode um peixe vivo viver fora d'água fria?

quinta-feira, maio 12, 2005

Havia as tomado como uma prostituta sem valor, a quem se dá uns trocados e julga não dever mais nada. Pelo serviço prestado, alguns trocados. Recebidos com a fome de quem não existe sem aquele resto de misericórdia. Pois é disso que dependiam elas, as palavras, de um pouco de crença, de um crédito alheio. Se ninguém lhes desse valor, elas nunca serviriam de nada. As palavras se alimentavam de bocas, de saliva, de línguas, de tradições orais, de papéis, de canetas, de livros, de escritos, de histórias, documentos, promessas, juras. As palavras se alimentavam da comunicação, da carência, da eterna necessidade de se aproximar do outro, de tocar as mentes e os corações daqueles que estão separados por espaços, tempos e intempéries. E foi para aproximar o que os corpos, gestos e intenções não podiam, que aquelas palavras foram pronunciadas.
As palavras eram prostituídas todos os dias em troca de mentiras fúteis. Na boca de quem as falava, eram entretenimento barato. Palavras se desfazem no vento e no tempo, nas traças que devoram os papéis e nas memórias carcomidas de defuntos que um dia as ouviram. As palavras, por si mesmas, nunca tiveram valor nenhum. O valor que podiam ter era só o de quem as falava, de quem as ouvia. E se neste valor não podiam se fiar, sua existência era uma tentativa frustrada de viver mentiras, de convencer às fantasias que elas haviam encontrado abrigo seguro. Nem mentiras aquelas palavras foram, na boca de quem as disse. As mentiras têm o valor da artimanha, da lábia, da malandragem. As mentiras têm o valor da dura premeditação que se arremeda em uma complexa rede, tramada delicadamente fio a fio para lhe conferir a esplendorosa teia da verossimilhança. Uma mentira bem contada trazia a beleza das grandes sagas, das lendas e mitos, as ficções perdidas no tempo. E era este um dos valores mais lindo que as palavras poderiam assumir.
Mas não, não era isto que aquelas palavras haviam se tornado. Escapando ao valor da jura, da promessa que se faz com o amor de lágrimas soluçadas, aquelas palavras haviam caído no vazio da futilidade que quer se agarrar em uma besteira. Tal qual as palavras de um apresentador de um programa de televisão numa tarde qualquer de domingo, palavras que são atraentes, mas não mais do que isto. As palavras que, depois de alguns pontos de ibope ou de algumas carícias consoladoras, tem a única importância para quem as disse de um leve constrangimento passado. Mas as memórias são fracas, as vontades são volúveis, as pessoas não se importam, e o passado não pertence a ninguém mais.
As palavras, prostituídas em troca de uma pretensa necessidade imediata, perderam seu valor, foram surradas e desmerecidas. As palavras, se não houvesse alguém para chorá-las, nem ao menos receberiam um funeral da parte de quem as pronunciou. Apenas enterradas sobre o peso forjado e irredutível de um esquecimento.
Que estas palavras, eu ainda as lembro, ao menos tenham uma morte digna e um canto merecido para seu descanso dentro de minha penosa memória, que as guardará tão bem quanto puder até que ela própria se desfaça esquecimento. Pois de quem as disse, nunca mais receberão nada.

quarta-feira, abril 27, 2005

Sempre tentando se segurar com as duas mãos na Terra do Nunca.

Hoje é meu último dia na APG.
Saldo do primeiro emprego: algum dinheiro e dois meses de encheção de saco.
E agora criançada, será que eu consigo controlar minha vida pra ela não ser tão imbecil?

quinta-feira, abril 14, 2005

Podia quebrar o despertador, mas não podia fazer o tempo parar.
Podia pedir demissão, mas não podia deixar de trabalhar.
Podia tapar os ouvidos, mas não podia deixar de ouvir.
Podia fechar os olhos, mas não podia deixar de ver.
Podia dormir mais, mas não podia extinguir o sono.
Podia comer mais, mas não podia extinguir a fome.
Podia alterar, mas não podia transformar.
Podia conquistar, mas não podia ser Rei.
Podia melhorar, mas não podia ser bom.
Podia correr, mas não podia escapar.
Podia pensar, mas não podia fazer.
Podia parecer, mas não podia ser.


Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo roda gigante
Roda moinho, pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

segunda-feira, abril 11, 2005

A Terri Schiavo, o Papa e um príncipe de Um-Lugar-Qualquer-Que-Eu-Não-Lembro-O-Nome morreram.
Mas eu não estou nem aí. E não estou nem aí pra não estar nem aí. E não estou nem aí se você não está nem aí.
Eu estou sempre preso dentro da minha cabeça, e todos os lugares que eu possa visitar também estão. E na verdade, não importa onde eu estou, o que eu estou fazendo ou o que acontece. Porque a minha cabeça é um lugar pequeno, escuro e repetitivo, e eu não vou sair dela nunca. E eu sei que nunca estive em todos os lugares da minha cabeça, e também que nem todos os lugares estiveram na minha cabeça. Eu gosto de imaginar minha cabeça como um lugar grande, colorido, divertido e cheio de surpresas. Mas na verdade ela já estava pronta muito antes de eu nascer, velha e chata como sempre vai ser. Eu não sei fazer as coisas direito, e acho que já me acostumei com isso. É só mais uma daquelas coisas da minha cabeça. Daí eu tento endireitar todas as coisas erradas que venho fazendo e finalmente acho que elas estão certas. Mas na verdade elas estão erradas de outro jeito. Acertar as coisas é só errar no sentido contrário.
Meios termos fedem. Intensidade enjoa, dá náuseas, acaba e fica com cheiro de perfume vagabundo e ressaca.
A sinceridade é um lugar-comum, e a mentira é uma caverna triste e solitária.
Na minha cabeça, eu já vi o seu rosto mil vezes. Dá trabalho cuidar de uma memória até ela não gastar. O fácil é deixar todas as coisas velhas, ruins, sujas e opacas. A vida é translucida pra uns e transparente pra outros, mas no fim dá na mesma.
Se você não gosta de mim, eu não sei porque chega tão perto. Sempre chegam pertopertopertodemais.
Eu sou só um velho rabugento. Mas uma vez um amigo disse que eu oscilo entre a impulsividade e a depressão de uma maneira meio aleatória, caótica e divertida. É bom conseguir acreditar que se é pelo menos um pouco imprevisível e interessante. Vou tentar guardar isto na cabeça, e com sorte amanhã eu vou ter esquecido tudo de ruim que eu fiz comigo mesmo e com os outros. Com sorte vou ter esquecido que sou igual a todo mundo e vou lembrar que tem muita coisa ainda pra fazer. Com sorte, vou achar que a vida não é um disco riscado em um refrão meloso e idiota.

quinta-feira, março 24, 2005

A Poesia irá nos redimir

Numa manhã cinza e triste eu me lembrei do poeta, daquele que tantas vezes inspirou tantos de nós a continuarmos seguindo nossas vidas. Suas palavras, profundas, sempre nos apoiaram e nos deram forças. Em homenagem a ele, aqui vai meu humilde esforço poético. Quem dera um dia atingir o patamar de sua genialidade, mas ele está além de nossos alcances, além dos pobre mortais que o admiram.


Atrás de um chute

Não importa se só possui
o que não tem importância
O Jorge já sabe
Somos um porquinho-da-índia sem infância
Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Depois de um trago
Eu trago um relógio
E molho a pélvis
E moldo a lembrança
Você é belíssima
sua mãe é belíssima
que importa um trago

Bis

Atrás de um chute
Atrás de um buraco
Para contemplar
Para radicalizar
Para pestanejar e fazer estrago
Depois de um trago



Em minha tarefa poética eu fui auxiliado e acessorado por:
http://www.mundoperfeito.com.br/
Acho que eu escrevo cada vez pior.
Acho que a banalidade vai sempre vencer no final.
Acho que o mundo é essencialmente um lugar ruim.

sábado, março 19, 2005

Quando ele acordou suas mãos transpiravam muito, de um jeito anormal. O lençol empapado. O olho dele coçava. Durante o dia, o olho sempre coçava. Quando ficava nervoso, deste jeito de num saber as coisas, de num saber o que fazer, ficava enfiando o dedo no olho até ficar bem vermelho. Ele sempre lacrimejava. Ele sempre chorava também, mas dava pra fingir que estava lacrimejando. Às vezes ele chorava era de saudades das coisas, mas de vez em quando era medo. Muitas vezes ele chorava de indecisão ou de angustia. Ele não contava muito pra ninguém. Às vezes, quando chorava, era de saudades de coisas que não tinham acontecido. Às vezes era de medo das coisas nunca acontecerem, outras era de medo delas acontecerem mesmo. Chorava também porque se sentia incapaz. Porque tinha muita coisa bonita no mundo, e ele não conseguia dar conta de tudo. Chorava porque via as coisas bonitas escapando pelos seus dedos. Chorava porque às vezes era beleza demais. Porque às vezes as coisas grandes e bonitas são menos bonitas do que as coisas pequenas, que acontecem só uma vez ou outra e são tão preciosas. Chorava de medo de esquecer, de perder as coisas bonitas e pequenas. Ou de medo de deixar elas escaparem, de nunca ficar sabendo que elas poderiam ter acontecido, e daí elas não iam acontecer mesmo. Chorava de medo de nunca conseguir dizer pras pessoas o quanto gostava delas, o quanto elas eram importantes. Chorava de medo de que se conseguisse dizer, elas não acreditarem, ou passarem a não gostar dele por causa disso. Chorava de medo de não poder dizer a verdade sempre, e de não conseguir saber a diferença entre a hora de dizer a verdade e a hora de mentir. E de não saber mentir direito. De não saber a diferença entre um exagero e uma mentira. Das coisas que eram verdade pra ele não serem pros outros. Chorava porque às vezes ele dizia uma verdade, mas que no mundo das outras pessoas era uma mentira. Daí ele parava de saber a diferença entere a mentira e a verdade, e parava de saber o que dizer. Daí ele ficava com medo de falar, com medo de fazer tudo errado. Chorava de medo do mundo ser muito complicado pra ele, ou dele ser muito complicado pro mundo. Ou das pessoas serem muito complicadas umas com as outras, de não poderem ser sinceras porque às vezes se você gosta muito o melhor jeito de mostrar isto é dizer uma mentira, ou exagerar, ou não falar nada. Chorava de medo de não saber o melhor jeito de mostrar isto. Gostar das pessoas é complicado.
Às vezes, ele queria falar mas não dava certo. Ele pensava nas coisas e quando os pensamentos viravam palavras eles viravam outras coisas. E às vezes ele falava sem querer, porque não sabia o que mais podia fazer. Ou, depois, ele queria falar mas acabava ficando quieto. Daí então ele enchia a boca de unhas, que mordia até que os dedos ficavam todos lascados e sangrando. Às vezes tinha vontade de se bater também, mas isto acontecia menos. Ele ficava chateado porque as unhas que ele comia quando não sabia o que fazer demoravam muito pra crescer, e ele precisava muitas vezes comer as unhas. Ele queria que suas unhas crescessem mais rápido ou que ele tivesse mais unhas. Ou então ele queria saber o que fazer, porque daí ele não ia ter que comer tantas unhas. Ele queria que lembrar das pessoas fosse sempre bom, e nunca dolorido. Ele queria que as coiasas que ele falasse fossem sempre as certas, e as que ele fizesse também. Ele achava idiota que muitas vezes amar alguém fizesse as pessoas sofrerem, porque ele achava que era uma destas coisas que tinha que deixar as pessoas felizes. Mas ele também percebeu que, de um jeito ou de outro, sempre acabava deixando as pessoas tristes também. Ele amava muito as pessoas, e chorava por causa disso também. E também porque ele achava que as pessoas não entendiam isso muito. Ou se entendiam, não parecia que entendiam. Ele achava que ia ser bom se as pessoas conseguissem se comunicar melhor. Ele achava muito ruim isso das pessoas não se entenderem direito.
Mas ele também achava difícil isto de ter que pensar tanto nas coisas e delas darem trabalho. O sol já estava alto e ele tinha muito o que fazer. Mas o mundo era complicado demais, e nos seus sonhos tudo acontecia sem ele ter que pensar. Secou as mãos no lençol e dormiu. Deixou a vida pra depois.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Vamos brincar de uma coisa que eu não brinco faz tempo. Funciona assim, eu pego um pedaço de um conto meu grande o suficiente pra encher o saco de qualquer um e posto aqui.



Todos os Reinos se fazem, todos os Reinos se ruem.
Nos escombros dos velhos Reinos, nas cinzas das antigas Vidas, nas sombras dos esquecidos Amores, sempre se criarão novas Vidas, novos Amores, que erguerão novos Reinos.
As grandes batalhas nunca serão as de Sangue e Espada. Elas serão de Corações e Mentes. As grandes guerras não se travam em vastos campos, mas sim, dentro dos Corações.
Pois o mais imponente Castelo ou Palácio será sempre uma carcaça sem valor, se suas paredes não abrigarem o Amor e Lealdade dos Corações.
A Vida não surge com a ascensão do primeiro Rei, nem há de se apagar com a queda da última Rainha. A Vida é persistente e teimosa, capaz de se arrastar por cantos escuros para voltar em esplendor. E ela não há de pertencer a ninguém, nem submeter seu poder a nenhuma ganância.
O Poder é uma ficção dos homens, mas a Vida é uma Verdade do mundo.
Quanto ao Amor, ninguém saberá jamais.

Estas palavras já existiam, muito antes que se soubesse do primeiro Reino erguido sob o testemunho dos astros eternos, pairando sobre as cabeças mortais. Quem primeiro as havia proferido, ninguém sabia. Mas um Rei uma vez disse, e muitos concordaram, que eram apenas palavras e, como tal, estavam fadadas a se desvanecerem nas areias do Tempo. Se o Tempo consumia florestas, oceanos, Reis e Rainhas, havia de consumir palavras ditas ao acaso. Um dia não significariam nada, para ninguém. E neste dia, quem as proclamou não existiria nem mesmo nas mais derradeiras canções do mais soturno bardo, e nunca poderia recriar a força que suas palavras um dia possuíram.
No entanto, havia quem discordasse deste Rei, vendo nestas palavras algo de verdadeiro e imortal. Havia quem acreditasse que estas palavras não teriam sido cunhadas por meras mãos mortais, mas sim por alguém que via as tramas invisíveis que criavam e desfaziam os Amores e os Reinados. E eram palavras que deveriam permanecer guardadas com zelo e observadas quando qualquer decisão importante devesse ser tomada. Principalmente, pelo governante de um Reino.
Um dos que valorizavam estas palavras era um jovem de poucas aventuras e sem grandes feitos heróicos. Ele gostava de palavras, pois as palavras viravam pensamentos. Os pensamentos, por sua vez, originam as idéias. E este jovem sempre acreditou que as idéias e emoções tinham uma relação estreita, mais valiosa do que era costumeiro acreditar na terra onde ele nasceu. Idéias originam Amores, Amores originam Idéias. Era isto e algo mais. Idealizar era isto para ele: transformar idéias em sentimentos, em Amores, que eram os cavalos a puxar as carruagens das ações. Era isto, o jovem pensava, que erguia e derrubava os Reinos e os Corações. Era isto que criava as histórias e, por fim, as transformava em Lendas. Idealizar era, em si, o ato supremo de criar o Amor. Ele especulava muito sobre o Amor, pensando de que maneira ele se criava e se desfazia e até que ponto os Corações podiam se unir. Muitos de seus dias e noites dedicaram-se a isto: pensar nas idéias e nos sentimentos; pensar nos Corações e nos pensamentos.
Ele via naquelas misteriosas palavras proferidas em um passado remoto, este poder mágico, ao mesmo tempo criador e transformador. Eram palavras que suscitavam algo, e ele sabia que não eram todos que pensavam assim. Seriam as palavras, de fato, apenas seqüências mortas de letras, incapazes e estéreis? Não, sem dúvida as palavras eram portais de poder infinito. Portais para dentro dos Corações e mentes, e tudo se faria através delas. Mas de nada valia o poder das palavras se ninguém acreditasse nelas. O poder estava em acreditar, esta era a maior conclusão a que ele havia chegado.
No pequeno vilarejo onde vivia, o jovem tinha alguns bons amigos e levava uma vida simples. Nada de guerras ou Reis ambiciosos, nada de conflitos ou disputas. Nos seus dias tranqüilos, o jovem tinha muito tempo para pensar nestas coisas, e muitas vezes tentava compartilhar seus pensamentos com algum companheiro, mas a resposta quase sempre era a mesma. Com um sorriso de escárnio e comiseração estampado nos seus rostos, todos lhe diziam que faltava algo fundamental para que ele pudesse afirmar com tanta autoridade sobre Corações e Amores: ao pobre jovem, faltava um verdadeiro Amor. Ele sempre se zangava com esta resposta, que considerava demasiadamente simplória. Ora, não é preciso ser um Rei para poder julgar se as atitudes de um Rei são justas ou não. Não é preciso ser perfurado por uma espada para saber que a frieza de sua lâmina é capaz de causar a dor e extinguir o brilho de uma vida. Por que seria preciso um verdadeiro Amor para saber o que o causa, qual é o seu poder e como ele funciona? Dentro de si o jovem tinha a certeza de que os que lhe diziam isto é que se encontravam verdadeiramente iludidos, pois o Amor que eles julgavam tão essencial para compreender esta questão os havia cegado completamente e isto impedia que o enxergassem objetivamente, como um objeto de contemplações e estudos, que poderia ser entendido como outro qualquer. Afinal, estes que criticavam suas idéias, nunca surgiram com outras idéias para contrapor às suas. A maioria simplesmente dizia que tentar entender o verdadeiro Amor era estupidez, perda de tempo, como seria tentar movimentar o sol com suas próprias mãos.
Foi na véspera do casamento de seu melhor amigo, que a decisão de partir finalmente foi forte o suficiente para lhe arrancar de seu povoado. Era uma noite quente de verão, os dois estavam sentados perto do bosque, vendo as estrelas e conversando. Eram tempos magros na aldeia, o clima severo havia acabado com muitas plantações e as dificuldades para alimentar tantas bocas famintas se faziam presentes no dia-a-dia de todas as famílias. Definitivamente, não era uma boa época para casamentos ou filhos. Estas coisas significavam mais despesas, que poderiam perfeitamente ser adiadas para uma época de maior fartura. Insistentemente o jovem dizia isto para seu amigo.
- Eu já coloquei todos os meus argumentos à sua disposição, com os quais você concordou prontamente, e já se fez mais do que evidente o fato de que o casamento complicará sua vida. Passará mais tempo trabalhando e mesmo assim isto pode não ser o suficiente para garantir seu sustento. Se tiverem filhos então, não sei como conseguirá mantê-los. Explique-me por que você não adia o casamento, pelo menos até a próxima colheita?
O amigo sorria ao responder a pergunta para ele. Sabia que tudo o que ele dizia era verdade, mas isto não abalava sua felicidade.
- Caso-me porque é isto que devo fazer. Se os tempos são de fome, sobreviveremos juntos a eles. Não há porque me preocupar, nós vamos passar por isto. Eu sei que você não entende isto, você ainda não é capaz de entender o que me dá forças.
- Forças? Como você diz que isto dá forças ao seu Coração? Isto apenas está cegando você, fazendo com que tome decisões precipitadas e inconseqüentes. E quando esta loucura se abrandar, como eu sei que o Tempo há de fazer, então perceberá os erros que cometeu. Mas então será tarde demais, e vendo os seus próprios erros julgará que a culpa por eles é daquela que conquistou seu Coração e fez com que perdesse seu caminho. E aquilo que um dia você chamou de verdadeiro Amor tornar-se-á lentamente em ódio velado e você estará amarrado a isto, fadado a carregar pelo resto de sua vida o resultado de um momento de insensatez. E criará seus filhos, frutos daquele Amor que um dia sentiu, apenas para que no futuro eles venham a cometer o mesmo erro. Você diz que o amor é incompreensível, mas o que é verdadeiramente incompreensível é sua atitude diante dele. Por que você não deseja compreender o Amor e se libertar de suas armadilhas? Não me desagrada que você viva um Amor, mas seria muito mais feliz se o vivesse com prudência.
- Não somos nós que devemos compreender o Amor, mas ele que deve nos compreender. Não há prudência na fome de um recém-nascido que sorve o leite de sua mãe, não há prudência no sono de alguém que não dorme há uma semana. Não há prudência no vôo de um pássaro ou nos homens quando respiram o ar que lhes alimenta a Vida. Um dia meu amigo, eu sei que você há de compreender que no Amor, assim como em outras situações, a prudência é uma mentira e um erro. O Amor existe por si e para si e não deve satisfações a você nem a ninguém. Ele não tem um porque ou um como, pois ele é o porquê e o como.
- Apenas palavras de um cego que não deseja enxergar. Você tem sido usado por este Amor como todos nós sempre temos sido. É assim que governantes tiranos se aproveitam de seu povo e o exploram, recebendo em troca juras de lealdade. Os Reis são homens que souberam dominar os Corações e usá-los para seu proveito, impiedosos Conquistadores de Corações. Seus súditos, cegos, apenas lhes entregam seus Corações para serem governados. Meu amigo, eu não nasci neste povoado para ter meu Coração escravizado por ninguém. Eu lhe desejo uma boa sorte em sua vida, mas meu caminho é diferente. Tomo as rédeas de meu Destino em minhas próprias mãos e um dia você há de ouvir sobre mim de novo, pois eu sei o valor das Palavras, dos Corações e das Mentes. Eu farei as pessoas acreditarem em mim, do mesmo modo que você acredita em seu Amor.
Tendo dito estas palavras, o jovem tirou de seu pescoço o pingente que pela vida inteira usou, e entregou a seu amigo.
- Não se esqueça de mim, pois eu não me esquecerei de ti. Este é meu presente de casamento. Como sabe, nada tenho que possa lhe garantir riquezas e sustento para sua família, como eu gostaria de poder garantir. O melhor que posso lhe dar é meu pingente, que para mim vale muito. Que ele mantenha perto de seu Coração o desejo que eu tenho que você seja feliz.
Então eles se abraçaram. O amigo sabia que seria a última vez que veria o jovem e sabia que nada do que dissesse o faria desistir de sua partida. Ele o conhecia bem o suficiente para saber que este dia chegaria, pois não era àquele lugar que o Coração do jovem pertencia. Ele devia procurar seu próprio Destino. Quando se olharam demoradamente uma última vez antes da partida, lágrimas escorriam dos olhos de ambos. Mas eles também sorriam, pois sabiam que os dois estavam partindo para o Destino que haviam escolhido para si.
O jovem saiu da cidade levando pouca coisa consigo e sem avisar mais ninguém, pois sabia que os outros não entenderiam seus motivos se tentasse explicá-los. Enquanto saia para um mundo que desconhecia, ele ainda pensava sobre as palavras de seu amigo e sobre o Amor. Pensou nas palavras antigas, que diziam que o Poder é uma ficção dos homens e a Vida é uma verdade do mundo. Quanto ao amor, ninguém jamais saberá. “Eu sei”, pensou o jovem. “O Amor é uma ficção dos homens, que eles criam e torna-se maior do que eles próprios. É uma ficção criada para enganarem a si mesmos, e que foge ao controle depois de feita. E, sendo uma ficção, qualquer um que o entenda pode criá-lo e usá-lo. As pessoas se submetem incondicionalmente aos Amores e aos desejos de seus Corações, e elas idealizam sem nem ao menos se darem conta disto. As Palavras são Poder, os Corações são Poder, os Amores são Poder. Se as pessoas querem realmente se enganar criando estas ficções, então eu não serei uma delas. Não me subjugarei de uma maneira tão deliberada. Como diziam as velhas palavras, a Vida é capaz de se arrastar por cantos escuros e voltar em esplendor. Ela não há de se pertencer a ninguém e nem se submeter a nenhuma ganância. A minha vida certamente não se submeterá.”
Com o Coração amargurado, o jovem decidiu que o Amor seria seu instrumento, seria seu para usá-lo. Se todos se subjugavam ao Amor, ele seria um dos poucos que subjugavam o próprio Amor para desfrutar verdadeiramente de seus benefícios. E foi assim que, quando saiu do povoado, o jovem já havia se transformado em um Caçador de Corações.

domingo, fevereiro 13, 2005

Pra todos aqueles que estão meio melancólicos.
Pra todos aqueles que estão meio apaixonados, cujas vidas vivem em sonhos.
Pra todos aqueles que gostam de dormir, e deixar a realidade pra trás.

Dream a little dream of me

Stars shining bright above you.
Night breezes seem to whisper, 'I love you,'
Birds singing in the sycamore tree.
Dream a little dream of me.

Say nighty-night and kiss me.
Just hold me tight and tell me you'll miss me.
While I'm alone and blue as can be,
Dream a little dream of me.

Stars fading, but I linger on, dear,
Still craving your kiss.
I'm longing to linger 'till dawn, dear,
Just saying this:

Sweet dreams 'till sunbeams find you,
Sweet dreams that leave all worries behind you.
But in your dreams, whatever they be.
Dream a little dream of me.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Fica muito difícil conseguir sair daqui.
Computador novo, com word e tudo mais.
Faz tanto tempo que eu não escrevo...tanto, tanto...

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Cinzas.
São as verdades de ontem, espalhadas sobre sua vida.
Lágrimas secas tem gosto de sal, tem gosto de sangue.
O sangue tem gosto de vida. Tudo o que é vivo sangra e chora.
O gosto de sal nunca vai embora.
Você pode mentir. Você pode dizer que tudo tem gosto de nada.
A verdade é que as alegrias podem não ter mais gosto de nada.
Mas o gosto de sal fica, ele nunca vai embora.
Cinzas.
O passado é feito de cinzas. A vida é feita de passado.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Hoje eu só tenho uma coisa muito bonita e verdadeira pra dizer pra vocês.
Dostoievski é foda.
Tadinho do Oscar Wild, ele até parece uma criancinha de cinco anos tentando ser malvado com suas histórias. Eu sei que a comparação não é pertinente, mas ela é minha e para mim, então se você não gostou não me enche.

domingo, janeiro 23, 2005

Pessoas que não iam beber já beberam.
Pessoas que não iam se drogar já se drogaram.
Pessoas que não iam fumar já fumam.
Pessoas que não iam beijar já beijaram.
Pessoas que não iam fazer sexo já fazem.
Pessoas que não iam namorar já namoraram.
Namoros que não iam terminar já terminaram.
Amizades que não iam terminar já terminaram.
Idéias que não iam morrer já morreram.
Valores que não sumiriam já sumiram.
Pessoas que nunca seriam amigas já são.
Pessoas que nunca iam deixar de se amar já se odiaram.
As coisas que aconteceram há muito tempo na nossa vida aconteceram quando outras coisas que aconteceram na nossa vida já haviam acontecido há muito tempo.
As pessoas que conhecemos muito bem e há muito tempo ainda eram desconhecidas quando conhecemos outras pessoas que conhecemos há muito tempo.
Já temos carros, casas, empregos, faculdades, filhos, eletrodomésticos, lembranças estúpidas.
Já sabemos que podemos ficar um ano ou mais sem ver alguém, e que as coisas podem não mudar.
Já sabemos que quando as coisas mudam elas ficam iguais.
Já não temos pressa de nada.
As coisas não são mais surpreendentes de verdade.
Paramos de ficar maiores e começamos a ficar mais velhos.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

É sempre curioso ver as definições que a gente ganha por aí. E ficar tentando descobrir de onde elas vieram. Mas tudo bem, a gente sabe que a língua é uma construção social e que o uso dos termos ao longo da história pode redefinir seu significado. Então eis minha sugestão.

Falso Manipulador: moleque idiota que paga um mico na sarjeta do bar.

Pronto, agora é mais condizente com minha singela personalidade.
Espero que um dia eu pelo menos alcance o status de manipulador verdadeiro. Falso manipulador parece nome pra um idiota que tenta manipular os outros e não consegue.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Enfia no cu suas batatas fritas.
Eu tenho a última cerveja e o Mateus tb.
"I've got to get the next plane home"
P.S. Aliás, seus nuggets tb.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Caralho, que ano...
O conto de natal vai ter que sair, é questão de honra. Mesmo que não seja pro natal e nem pra este ano. Já comecei a escrever, mas a greve tá tirando o atraso até agora em cima das minhas costas. Falta de computador em casa, ainda não consegui me adaptar a tantas mudanças tão rápido. Falta emprego, falta tempo, falta glamour e um monte de coisa. Mas dá pra tirar de letra, eu sei que dá.
Daí eu vou colocar o conto aqui em breve. Assim que terminar meus dois trabalhos que tenho que entregar no dia 3 e escrever ele em um computador generosamente emprestado (talvez o do Bueno, onde eu escrevo este post e que vai me ajudar a digitar os trabalhos).
Férias...fôlego pra 2005, que provavelmente vai ser muito mais foda que 2004, que por sua vez foi muito mais foda que 2003, que por sua vez foi muito mais foda que 2002...

domingo, dezembro 12, 2004

Glamour x Banalidade.
A vida segue...
Changeling nestas férias, isto é uma certeza.
Se preparem meus playerzinhos preferidos.

P.S. pros meus amiguinhos: a gente ainda se vê por aí. ;-)
P.S. pra Juju: Eu acho que vou fazer russo com vc...

sexta-feira, novembro 05, 2004

Eu sempre achei isto:
Ser criança é muito mais divertido.

Amanhã, sábado, tem uma festa na minha casa de arrecadação de fundos para campanha da chapa para DCE que a gente apóia. Cinco reais para entrar e qualquer bebida é um real. Eu ficaria feliz se alguns amiguinhos de fora da usp estivessem por lá.
Meu cérebro é um gerador de crises.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Where is my mind?

É emgraçado ficar vendo e vivendo as coisas mudando e remudando e tremudando.
Minha vida vao bem, fora problemas pontuais de grande importância que devem ser resolvidos com urgência.
Sabe, é triste como não ter internet e telefone ceifa uma parcela significativa e importante da minha vida social. Mas eu vou dar um jeito de voltar a falar com meus amigos direitinho.
E quem quiser sempre pode passar na minha nova casa pra me visitar.
(Acho que meu grande problema nesta vida é não conseguir ser comedido com as coisas e saber concilicar. Será que é uma limitação intelectual não conseguir se dedicar decentemente a mais de um aspecto da sua vida simultaneamente?)
Saudades são uma coceira engraçada na cabeça.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Agora tenho pouco tempo pra pensar.
Mas se arranjo, e penso, me sinto vazio por dentro e cheio por fora.
Acho que o que me angustia é não conseguir me encontrar.
E se procuro tanto e não me encontro, deve ser porque não há o que encontrar.
Portanto, eu não existo.
Ou estou procurando do jeito errado no lugar errado.

domingo, agosto 29, 2004

Quando você abre os olhos e acorda, tudo deveria ser como a vida que você deixou na cama ontem. Quando você acorda, tudo deveria ser um retorno, mais um episódio do gigantesco contínuo.
Você acorda, desperta pra um divórcio.
Antes, com os olhos fechados, você finalmente era um só. Seja lá onde estivesse, você era aquilo, por mais estranho e desconexo que fosse. E quanto mais desperto você se encontra, mais você passa a se perder dentro de tudo aquilo. Aquilo do qual você acordou, aquilo para o qual você acordou, aquilo para o qual você continua dormindo.
Quando você acorda, é um nascimento, é uma morte.
Eu lembro precisamente do rosto que agora há pouco era uma verdade. Ele é meu, ele é tudo, ele é uma invenção imprecisa que não existe. Eu era um passado. Mas agora o que eu sou?
Eu não sou estas linhas tortas, eu não sou uma batida de carro, eu não sou um coquetel de drogas, eu não sou palavras e nem gestos, eu não sou você, eu não sou eu.
Eu não sou um sonho, e nem um despertar.
A vida é um delírio onírico, uma realidade palpável, um algo intangível e concreto como uma parede de granito.
Eu já não sei mais falar, e agora não sei mais se isto importa. Eu já não sei mais atribuir valor às coisas e graduá-las, eu não sei mais ordenar o caos. E eu já não sei se isto importa.
E eu já não sei se você importa.
Ser feliz é o que? E faz parte disto?
Cadernos podem ser preenchidos de tantas maneiras.

- I guess I could be pretty pissed off about what happened to me... but it's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much, my heart fills up like a balloon that's about to burst...And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life...You have no idea what I'm talking about, I'm sure... but don't worry...You will someday.
-Lester, American Beauty
Até que dá pra se divertir um bocado nesta vidinha pacata.
E a literatura tá sempre aí, que nem aqueles amigos que você fica muito tempo sem falar, mas que sabe que quando precisar vai poder contar com eles pra qualquer coisa.

sexta-feira, agosto 27, 2004

http://kevan.org/brain.cgi?harlegraaargh!

sexta-feira, agosto 13, 2004

Lá na minha casa eu não estou conseguindo acessar pra postar no meu blog.
Estou no DCE postando.
Ando procurando tempo pra fazer tudo que eu devia e/ou queria fazer.
Ando procurando meios termos entre eu e eu.
Tenho saudades de muitas coisas, mas eu sempre fui assim mesmo.

sexta-feira, julho 30, 2004

O que você procurava em mim e no mundo?
Se era um espelho, você se deu mal.

domingo, julho 25, 2004

Às vezes a gente tem que se enfrentar.
Eu olho pra você, como se fosse um espelho ou um retrato antigo. Uma foto de criança com cabelo engomadinho e roupa bordada com firulas, que a mamãe colocou pra ficar bem bonito. Eu olho pra você e eu posso ver um monte de coisas.
Aí eu me pergunto.
O que você vê quando olha pra mim?
O que acontece quando você mergulha e fica lá embaixo muito tempo?
Quando foi a última vez que você me enfrentou?
Quando foi a última vez que você se enfrentou?
Em que mundo você vive e em que mundo você quer viver?
Não é bom ter uma alma com cãimbras.
Exercite-se, exercite-me.
Abraços sinceros.

segunda-feira, julho 05, 2004

Estive fora de SP neste fim de semana, mas estou de volta.
Vou de novo pra assembléia, a partir de hoje à noite.
Caso alguém da USP ou alguém que se importe minimamente com a greve apareça por aqui, amanhã vai ter o ato mais importante da greve. Apareçam na assembléia em qualquer momento, vai ter votação da LDO e é MUITO importante termos muitas pessoas por lá.
Se vcs quiserem ir hoje mesmo e se juntar ao acampamento, são bem vindos.
Até mais.

terça-feira, junho 29, 2004

A partir desta noite estarei acampado em frente à assembléia legislativa. Aqueles que não tiverem mais o que fazer e quiserem apoiar este importante ato da nossa greve serão muito bem vindos no acampamento, onde haverá diversão infinita para todos.
Até mais.
Beijos.

segunda-feira, junho 21, 2004

Às vezes as coisas mudam.
Às vezes, parece que as coisas mudaram mas é só porque as pessoas nunca enxergaram que no fundo elas já eram daquele jeito.
As pessoas são demasiadamente presas aos seus pontos de vista e preconceitos. As pessoas são críticas de menos, egoístas de menos e muitíssimo apressadas em julgar as ações e pensamentos dos outros. Nada contra, é necessário julgar os outros em um momento ou outro. Mas se olha no espelho antes de dizer que alguém é imbecil.
Ah, eu estou bem sim Thaís. Bem demais até, tomei um spray de pimenta na cara e uns empurrões com cassetete, mas isto não me fez mal.
Mas o que importa agora é que não é o momento pra escrever. Fora o fato de que eu preciso urgentemente arranjar um word. Alguém tem?

segunda-feira, junho 07, 2004

The Good Life

When I look in the mirror, I can't believe what I see
Tell me, who's that funky dude, staring back at me?
Broken, beaten down can't even get around
Without an old-man cane, I fall and hit the ground
Shivering in the cold, I'm bitter and alone

Excuse the bitchin', I shouldn't complain
I should have no feeling, 'cuz feeling is pain
As everything I need, is denied me
And everything i want, is taken away from me
But who do I got to blame? Nobody but me

…And I don't wanna be an old man anymore
It's been a year or two since I was out on the floor
Shakin' booty, makin' sweet love all the night
It's time I got back to the Good Life
It's time i got back, it's time i got back
And I don't even know how I got off the track
I wanna go back…Yeah!

Screw this crap, I've had it! I ain't no Mr. Cool
I'm a pig, I'm a dog, so 'scuse me if I drool
I ain't gonna hurt nobody, ain't gonna 'cause a scene
I just need to admit that I want sugar in my tea
Hear me? Hear me? I want sugar in my tea!

…And I don't wanna be an old man anymore
It's been a year or two since I was out on the floor
Shakin' booty, makin' sweet love all the night
It's time I got back to the Good Life
It's time i got back, it's time i got back
And I don't even know how I got off the track
I wanna go back…Yeah!

I want to go back, I want to go back
And I don't even know how I got off the track
It's time i got back, it's time i got back
And I don't even know how I got off the track
I want to go back…Yeah!

…And I don't wanna be an old man anymore
It's been a year or two since I was out on the floor
Shakin' booty, makin' sweet love all the night
It's time I got back to the Good Life
It's time i got back, it's time i got back
and I don't even know how I got off the track
I wanna go back…Yeah!

terça-feira, junho 01, 2004

Eu tive uma idéia, provavelmente uma das mais práticas e certeiras que já passou pela minha cabeça.
Eu devia tatuar "OTÁRIO" bem grande na minha testa, assim quando eu acordasse e olhasse no espelho eu não correria mais o risco de esquecer esta informação vital.
Mas eu não vou colocar minha idéia em prática.
Abstinência de vida. Maldito vício.
Dormindo. É o único jeito de escapar. Não de verdade, porque de verdade não se escapa. E eu já sei disto, faz tempo, por mais que relute. Quando se está dormindo apenas os sonhos atormentam. E os pesadelos. Mas não faz diferença, não dá mais pra dizer qual é qual. Não existe mais esta distinção nos mundos que me acolhem quando eu fecho os olhos pra fugir. Pra fugir de tudo e continuo aqui, esperando acordar. Não dá pra dormir pra sempre, e eu acordo. Uma, duas, dez vezes. Eu acordo pra sempre e vejo que nos meus sonhos tudo é ruim também. Tudo é ruim de qualquer jeito, e eu tento fazer de tudo pra não conseguir pensar em nada. Mas não pensar é impossível, não sentir é impossível. Faz parte de ser. E é por isto que eu não queria ser. Eu queria não ser. Só que eu sou e continuo sendo e mesmo nos meus sonhos eu sou, e sinto e penso. E tudo me arrasta de volta sempre pro mesmo lugar. Uma âncora me prende, mas o motor continua correndo. Tudo se esgota, tudo me esgota. Nada esgota os meus sonhos. As lágrimas são a prova de que estou vivo. Acho que as lágrimas são a única coisa que diferencia os sonhos da vida. Quando acabam os sonhos, vêm as lágrimas. Antes de começar os sonhos, tem as lágrimas. Elas secam, mas vêm outras. Não acabam.
Os sonhos sempre dependem de quem os cria. Se alguém não os sonhasse, não seriam sonhos, não seriam nada. Mas e se existisse um sonho sem ninguém para sonhá-lo? É a solidão mais triste, que um sonho tenha que correr atrás de seu sonhador. Isto não existe. Mas ainda assim chora.
Abstinência de verdade, crenças, esperanças. Malditos vícios. Um viciado faz de tudo para conseguir suas drogas. A vida é triste correndo atrás de vícios.

segunda-feira, maio 31, 2004

Never There

I need your arms around me, I need to feel your touch
I need your understanding, I need your love so much
You tell me that you love me so, you tell me that you care
But when I need you baby, you’re never there

On the phone long, long distance
Always through such strong resistance
First you say you’re too busy
I wonder if you even miss me

Never there
You’re never there
You’re never, ever, ever, ever there

A golden bird that flies away, a candle’s fickle flame
To think I held you yesterday, your love was just a game
A golden bird that flies away, a candle’s fickle flame
To think I held you yesterday, your love was just a game

You tell me that you love me so, you tell me that you care
But when I need you baby
Take the time to get to know me
If you want me why can’t you just show me
We’re always on this roller coaster
If you want me why can’t you get closer?

Never there
You’re never there
You’re never ever ever ever there

quinta-feira, maio 27, 2004

Thru The Eyes Of Ruby Lyrics

Wrap me in always, and drag me in with maybes
Your innocence is treasure, your innocence is death
Your innocence is all I have
Breathing underwater, and living under glass
And if you spin your love around
The secrets of your dreams
You may find your love is gone
And is not quite what it seemed
To appear to disappear
Beneath all your darkest fears
I believe in never, I believe in all the way
But belief is not to notice, belief is just some faith
And faith can't help you to escape
And with this ring I wed thee true
And with this ring I wed thee now
And with this ring I play so dead
But no one's asking for the truth, so let me tell you
If you spin your love around
The secrets of your dreams
You may find your love is gone
And is not quite what it seemed
To appear to disappear
Beneath all your darkest fears
To the revelations of fresh faced youth
No one will come to save you
So speak your peace in the murmurs drawn
But youth is wasted on the young
Your strength is my weakness, your weakness my hate
My love for you just can't explain
Why we're forever frozen, forever beautiful,
Forever lost inside ourselves
The night has come to hold us young

quarta-feira, maio 26, 2004

Inúmeras vezes levantei. Senti minhas pernas se esticando, meus músculos contraindo, minhas articulações rangendo e estalando, minha configuração espacial se transformando no meu cérebro, minha freqüência respiratória e cardíaca se alterando. Contei, pra ter certeza. Levantar era um esforço, como levantar o mundo nas costas, mas tudo confirmava: vinte e cinco movimentos respiratórios por minuto, cento e vinte batimentos cardíacos. Tendões esticados, tensos, retesando-se a todo custo. Depois a dor, a fadiga, câimbras, tremedeiras. O suor, escorrendo lentamente, tentando aplacar o calor que toma o corpo, cada vez mais quente pelo esforço. A planta do pé firme, colada ao chão duro. A visão turva, embaçando, o mal-estar, desconforto, enjôo, ânsias. Glicemia baixando, energia se consumindo, dor.

Mas quando abri os olhos, não tinha levantado.

terça-feira, maio 25, 2004

Às vezes os dias são lutas.
Acordamos como quem não quer, abrimos os olhos e levantamos como quem não deve. Contra nós mesmos nos colocamos de pé. Como quem não quer ver este mundo que parece feito para nos maltratar. Quero me agarrar nos meus sonhos, tão lindos, tão violentamente destroçados pelo ranço da realidade. Mas é tarde demais, ele gruda, ele infecta e contamina. Estamos acordados e vivendo, e não há muito que se possa fazer a respeito. Os sonhos que pareciam tão bons, agora parecem servir apenas para explicitar, esfregar na nossa cara o desgosto de cada passo, de cada momento nesta prisão a céu aberto.
Escola, trabalho, almoço, jantar, escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa, pagar as contas, assistir tevê, arrumar a cama, lavar a roupa, arrumar o quarto, ligar pro Zé, marcar dentista, ir no médico, trocar as fraldas, fazer as compras, ser educado, cumprir as tarefas. Não pense muito e vai dar tudo certo. Apenas faça aquilo, mantenha os pés no chão, mantenha a cabeça cheia de vazios consistentes de realidade. Idiossincrasias em excesso. Engula-as com um pão com manteiga e um café com leite e parta pra luta. A luta de se manter em constante caminho certeiro, sem hesitar nem parar. Olhando pros lados pra ver se está na frente, se está direito. Rumo imutável, inabalável, verdadeiro, na direção do dia seguinte, do insuportável e ordinário dia seguinte que te chama. Na cama, a noite, as lágrimas tem que secar rápido. Elas não pode tomar o espaço reservado para a reconfortante certeza de que acabou. Você sobreviveu de novo, a mais um dia. E isto tem que ser o suficiente pra que você não se faça a inútil pergunta. Se você ganhou a luta, não importa. O que importa é que amanhã tem outra, e que você tem que dormir pra estar bem descansado e pronto para enfrentá-la. Algumas horas de fuga, algumas horas de sono e sonhos. Ou pesadelos com o interminável amanhã e o incorrigível ontem. Pé na estrada, de carona na boleia do caminhão que vai nos levando ao nosso derradeiro destino. Uma morte agonizante e infértil que ingenuamente denominamos vida.

domingo, maio 23, 2004

Às vezes acontece esta desgraça, que você precisa de uma maldita palavra que não existe. É bem diferente da palavra que você quer e não encontra, que escapou da sua cabeça. Tem ocasiões que você precisa de uma palavra que possa dar conta de coisas que palavras não podem fazer. Tem vezes que você precisa de uma salvação, e inutilmente vai caçá-la nas palavras.
Todo o ódio e desgosto que eu preciso, toda a mágoa e os gritos e lágrimas contidos. Toda a repulsa por tudo aquilo que eu desprezo e recuso, toda a insatisfação que eu não consigo por pra fora. Todos os fracassos acumulados, todos os sonhos desfeitos, todas as desilusões criadas. Toda minha decepção, minhas esperanças dilaceradas que se penduram sôfregas e decadentes nas bordas da minha vida, todas as investidas e tentativas e recomeços e esforços e insatisfação e agonia e desespero e tudo de novo e de novo e de novo. Todo o maldito ciclo que vem e se desfaz e se reconstrói com unha e ferro e fogo e carne e sangue e lágrimas e desgosto. Todo o castelo que se constrói, tijolo por tijolo, com imaginação gasta e superações de limites e esforços supremos e sonhos alcançados. Todo o castelo que se põe abaixo em um segundo, uma palavra, um gesto, um olhar. Toda a indiferença, a pena, a lástima, a desgraça. Tudo o que se perde, se destrói, se esvai, se acaba, se esgota, se finda, morre, termina, some, desaparece, perece, desfaz. Todos os gritos que ninguém ouve, todas as gargantas em vão que se criam por uma guerra que não pode ser lutada. Todas as intenções que não se concretizam, os sonhos que não tem sono, as palavras censuradas. Todos os sacrifícios ocultos, as oferendas recusadas, os mundos de beleza e esplendor que mofam em um canto de armário sem nunca cumprir seu desígnio. Todas as verdades encobertas, as mentiras vitoriosas, as falsidades constituídas, os ideais que não importam, a jornada que não se completa, que morre na praia, que se deita, que se esquece. Todas as vinganças que crescem e se elaboram e se alimentam do ódio infindável que se alimenta nos restos e cresce na escuridão e almeja com cada fibra de horror o dia final em que irá ter nas suas mãos o sangue quente, o gozo final, o alimento da vida, todas as vinganças que não acontecem. Todo o amor que se guarda nas pessoas solitárias e tristes, o amor que se transforma em lágrimas amargas de desgosto pelo mundo que as abandona, que vira as costas sem jamais olhar para trás. Todos os pedidos que não são ouvidos, as súplicas soluçantes que são ignoradas, as risadas que se fazem às custas do sofrimento alheio eterno. Todas as dores desprezadas, pequenas demais para existirem ou grandes demais para serem verossímeis. Todos os exageros e antagonismos da sua felicidade, compaixão, alegria, piedade, esperança, carinho, amor, beleza. Tudo o que se quis para as pessoas que mereciam e que não se fez. Todas as mortes injustas e lentas e dolorosas e sofridas. Todas as torturas e angustias e desprezo. Tudo o que um dia eu quis oferecer e me foi enfiado goela abaixo com socos e pontapés no estômago. Toda a amizade fingida, os interesses ocultos, as segundas intenções, as coisas feitas por debaixo do pano, as sacanagens inconfessáveis de uma meia-noite esquecida, as traições descaradas, as reviravoltas injustas, os motins. Tudo o que há de ruim em mim desde sempre e que cresce e se alimenta com a podridão do mundo que se instala em mim a cada dia em doses pequenas e dilacerantes. Todas as coisas boas que um dia moraram em cada coração de cada ser humano bom e ingênuo de cada canto e que se desfaz com o desgosto e a mágoa eterna das amarguras que corroem tudo, tudo o que havia e poderia haver de bom neste mundo. Todos os que se sentem inferiores, injustiçados, que são pisados, humilhados, esquecidos, destruídos, abandonados. Todos os suicídios tristes em quartos de hotel de beira de estrada, em janelas de apartamentos, em festas de aniversário. Todos os natais tristes e solitários, todas as pessoas que ficaram de fora de todas as comemorações, todas as datas especiais que se passa sozinho e triste com uma angustia interminável no peito. Todas as madrugadas na rua, de frio, fome e miséria. Todas as guerras com suas mortes, torturas, mutilações, escoriações, cicatrizes. Todos os roubos, incêndios, homicídios, estupros, seqüestros, estelionatos, extorsões, chantagens, brigas. Tudo o que todas as pessoas já fizeram de mal para as outras, justificando para si mesmas que faziam o bem. Todas as mentiras, todas as pessoas que são adoradas e conquistam um espaço no coração dos outros através de trapaças, manipulações, mentiras e armações. Tudo o que há de ruim e detestável neste mundo, todas as vezes em que não há luz no fim do túnel, não há esperança nenhuma de se livrar desta desgraça que é a vida porque o mundo e as pessoas são podres demais para fazerem alguma coisa que presta. Todas as vezes em que todo o resto do mundo é feliz e eu sou miserável. Todas as vezes em que todos são bons e eu sou um lixo. Todas as vezes que contei com amigos e me decepcionei. Todas as vezes em que coloquei todas as minhas esperanças em alguma coisa que me apunhalou e apunhalou e apunhalou. Todas as vezes que eu quis dizer e ninguém me ouviu, todas as vezes em que eu estava certo e todo mundo disse o contrário. Todas as vezes em que fui bom e disseram que eu fui mau. Todas as vezes em que fiz algo certo e não fui reconhecido. Todos os meus erros estúpidos que não pude consertar, todos os erros que cresceram e dominaram tudo. Todas as pessoas que sofrem e sofrem e sofrem para sempre. Todas as pessoas que já viveram e já morreram e sofreram e foram infelizes e sentiram dor e tudo isto não valeu a pena para nada. Todas as mortes infelizes e sofridas com todos os seus arrependimentos. Todas as pessoas por nascer e todo o seu sofrimento que não existe, mas que ainda existirá e será real e horrível. Tudo o que um dia desejei com todas as minhas forças e não fui capaz de conseguir.

quarta-feira, maio 19, 2004

Podia ainda ouvir incessantemente o barulho que o vaso fizera ao se espatifar contra a porta. Em sua cabeça, mil vezes, ele era ainda mais ensurdecedor. Não existia mais nada que não fosse aquele barulho, pai dos cacos que jaziam no chão da sala. Os gritos já eram mudos, não diziam nada. Um crescente da sinfonia que se compôs, sobrepondo nota acima de nota, elevando a cacofonia ao estado sublime e prodigioso de sua forma, as batidas, os grunhidos, os berros, os gemidos. Toda uma ordem calculada e desmesurada, quebrantada em um espasmo súbito. Apenas a dor exaltada na repentina explosão lavava seu espírito da pueridade infeliz das intenções. As intenções nunca valeram de nada: o mundo se construiria por elas da mesma forma que o vaso pelos seus cacos inertes. A vida se espatifou contra a porta. Eu me espatifei contra você. Meu sonho se espatifou na manhã. Se espatifar uma vida fosse fácil como espatifar o vaso, teria nas mãos a coleção dos cacos que herdou dela. Alguém que já fechou a porta, com um vaso espatifando-se atrás. Alguém cujo telefone toca eternamente, mas que nunca vai ser atendido. Sua porta, fechada, muito antes dos gritos ou do vaso, já tinha espatifado a vida no barulho insolúvel.
Fora uma briga como qualquer outra, os vizinhos podiam confirmar. Só que tinha os cacos do vaso, a porta batida. Tinha coisa de menos, antes de ter coisa demais. Ela, dois quarteirões andando bem rápido pela rua, os passos firmes. As lágrimas não escorriam, seguras em seus olhos como se sua vida dependesse disto. Marejados, vermelhos, agora doíam pelo esforço de não piscar. Se piscasse, elas escorreriam. Ela não enxergava mais nada, a visão obstruída pelas lágrimas que se acumulavam. Em sua cabeça primeiro tinham xingamentos, palavrões, que depois viraram em lista de supermercado, nomes de cds. Qualquer coisa que ela pudesse sussurrar para si mesma por entre os dentes cerrados que rangiam enquanto ela descia a rua em tropeços ofegantes e desconcertados. Estava ocupada demais para prestar atenção no que pensava, tinha que andar rápido e não deixar as lágrimas escorrerem. Depois que as pernas se cansaram o suficiente para questionar o porque do esforço, depois que os olhos ardiam o suficiente para questionar o porque não das lágrimas, foi aí que ela parou, sentou no meio fio e desatinou a chorar. Um choro copioso que assustou qualquer pedestre que pensasse em ajudá-la. Era claro, estava além da ajuda de um passante inocente. Melhor cuidar da própria vida.
Aos cacos do vaso no chão juntaram-se os de dois copos, depois de um prato, depois os do controle remoto e por fim os do enfeite feio de porcelana sobre a mesinha de centro. Acabaram-se as coisas espatifáveis ao seu alcance, e então ele percebeu que jogar coisas na porta não faria ela se abrir de novo, e que ela já não estava mais escutando as coisas se espatifarem na porta. Viu que sua mão tinha sangue, e primeiro achou que tinha se cortado com algum caco. Depois viu que as feridas foram provocadas pelas suas unhas entrando na carne da sua mão, enquanto ele as fechava convulsivamente em ódio irreprimível e irracional. Nada se espatifaria satisfatoriamente a ponto de controlar sua raiva. O ódio impotente crescia, tomando forma de uma angustia irreprimível. Encolhido no sofá, ele chorava como um bebê de colo ao relento. Se sua dor fosse apenas um pouco maior, parecia, talvez ele não precisasse mais se importar com ela. Os dentes dele desfaziam-se enquanto ele esfregava sofregamente sua arcada superior contra a inferior. Os gritos eram abafados pelas almofadas do sofá nas quais sua cara se enterrava, e seus braços tremiam descontroladamente.
Ela, sem perceber, mordia os lábios e afundava seus sapatos recém-lavados na água suja que escorria pela sarjeta. As lágrimas escorriam mais rápido do que caberiam em seus pequenos olhos, e os soluços se atropelavam pela sua boca, sacudindo seu corpo esquelético em chacoalhadas repetidas. Acompanhando seu choro, uma espécie de gemido fino se esgueirava pela sua garganta. Envolvendo seu corpo com seus braços, balançava-se para a frente e para trás. Seu nariz estava vermelho e escorria. O dono da banca de jornal observava a cena, com repulsa e pena pela patética criatura sentada na calçada.
Os sapatos estragaram na água da sarjeta. A televisão ficou sem controle remoto.
Misturou o ontem num copo de pinga, virou goela abaixo. Deitou-se de lado e quis dormir. Quis espatifar o mundo contra a porta, afogar a vida na sarjeta. Teve medo da vida não lhe pertencer mais.

terça-feira, maio 18, 2004

O blig apagou meu blog e com isto levou cerca de dois anos de textos meus. Que eu gostava e que eu não gostava. Só sobrou a parte que eu tenho salva no computador. Que pena que a gente perde as coisas assim.
Eu reparei que sinto falta de mim mesmo. Não sei onde me procurar.

segunda-feira, maio 17, 2004

Continuação do meu post que eu não escrevi.

Poodles são criaturas estúpidas, cretinas de verdade. Mas este não é o caso, atualmente eu não me daria ao trabalho de sentar pra escrever um tratado sobre meu desgosto por poodles. O caso aqui é muito mais grave, pois apesar de nossa tendência a antropomorfização de animais estúpidos, eles continuam sendo criaturas irracionais que não tem culpa ou vontade sobre suas imbecilidades, sejam quais forem elas. Infelizmente, não podemos dizer o mesmo sobre um indivíduo que venha a gostar de uma criatura assim. Especialmente alguém que sabe muito bem como e porque não gostar de poodles. Não é uma coisa incrivelmente patética aquelas madames cretinas que fazem sua vida girar em torno de um cachorrinho cretino, deixando que aquele bicho conduza suas vontades de um lado para o outro? O poodle, por outro lado, nunca será capaz de retribuir aquele sentimento cultivado por ele. Poodles não amam: eles comem, dormem, latem, defecam e são pentelhos, mas eles não vão ter amizade ou estima por você do mesmo modo que você pode ter por eles. Nunca. E é uma coisa triste quando você ignora este fato.
Uma pessoa que odeia poodles, quando passa a gostar de um poodle, em geral não deixa de odiar poodles. Você olha o resto dos poodles do mundo e vê que eles são idiotas. Aí você olha bem pro tal poodle que você gosta, e vê coisas idiotas nele também. Aí você passa a odiar a si mesmo, por fazer algo que você considera imbecil, como gostar de um poodle. Aquela sua vontade enorme de bicar poodles na parede começa a se voltar contra você, e você quer bicar sua própria cabeça contra a parede. Você olha alguém fazendo aquelas vozes idiotas de conversar com bebês e cachorros, e uma pessoa se humilhando desesperadamente para ganhar atenção do cachorro. E de repente você se flagra fazendo o mesmo, e sente náuseas de ser aquela pessoa, e mais ainda por continuar fazendo aquilo. Tem uma hora que você começa a defender seu poodle, comparando com os outros, tentando provar para si mesmo e para todos que ele é melhor. Ridículo. E provavelmente o mais lamentável é quando você percebe que por mais ridículo que seja, por mais que você faça de tudo para gostar do poodle, ele simplesmente prefere um pedaço de carne ou outra pessoa que tenha mais talento com poodles idiotas.
Pro inferno os poodles e pro inferno os idiotas que gostam deles.

O2

I wanna run away
I wanna get away
but I will never get up
oh won't you help me up

I rely on oxygen
I depend on the bitter snow
I rely on oxygen
I depend on the bitter cold

I want to know
why it hurts to stay
and hurts to go away
will I be ok?

Crawled out of the mud
this filth you called your love
slept for countless days
but I will be ok

I wanna run away
I wanna get away
but I will never get up
oh won't you help me up

I rely on oxygen
I depend on the bitter snow
I rely on oxygen
I depend on the bitter cold

I didn't know I could feel this low
so afraid that I'll watch you go
I didn't know I could feel this low
so afraid that I'll watch you go

Take my strength out
but I'm not down
Write this reverse
I'm not down

I wanna run away
I wanna get away
but I will never get up
oh won't you help me up

Take my strength out
but I'm not down
Write this reverse
I'm not down

sábado, maio 15, 2004

- Sabe Verônica, eu vejo você em silêncio por tanto tempo e você me faz pensar muito sobre isto. Acho que às vezes as pessoas falam demais e dizem muitas coisas que não valem nada para elas e para os outros. Mas nos seus olhos eu vejo alguém observando o mundo e aprendendo, eu vejo alguém que parece mais sábia do que o senso comum. Acho que eu tenho que te agradecer muito por me ensinar o valor das palavras.

Verônica continuou quieta, e a seu interlocutor pareceu mais uma demonstração sobre a grandeza das palavras. Mas se ela se desse ao trabalho de abrir a boca pra lhe dizer algo, seria mais ou menos assim:

- Grandeza das palavras o caralho. Eu não vou gastar meu tempo pra falar um monte de merda inútil pra gente que só para pra ouvir os outros porque depois quer que os outros parem para ouvir também. Se as pessoas achassem que as merdas que falam valessem alguma coisa, aí sim guardariam para elas ao invés de despejar em torrentes intermináveis de asneiras descontroladas. Eu só tenho merda pra falar, merdas que nem esta que você acabou de me falar, e por isto não me dou ao trabalho de abrir a minha boca. No dia em que falar for valer a pena, pode apostar também que não vou perder meu tempo falando com você. Eu passaria tanto tempo procurando alguém pra quem valesse a pena falar, que acabaria ficando quieta do mesmo jeito.

- É. - foi o que Verônica respondeu depois de um tempo. - você tem dois reais pra eu pegar o ônibus?

Ela sabia gastar sua saliva com o que era importante de verdade.

sexta-feira, maio 14, 2004

Hoje faz um ano que cortei meu cabelo.
Conclusão: meu cabelo cresce uns sete centímetros por ano.
Quanto as outras coisas que poderia dizer, só existe uma coisa a falar: Quando disser algo, cuide para que seja melhor do que o silêncio.
Vou cuidar, cada vez mais. Principalmente quando alguém está ouvindo, e mais ainda quando forem vocês, de fora da minha cabeça.

The trick is to keep breathing

She's not the kind of girl
Who likes to tell the world
About the way she feels about herself
She takes a little time
In making up her mind
She doesn't want to fight against the tide

And lately,
I'm not the only one
I say never trust anyone

Always the one who has to drag her down
Maybe you'll get what you want this time around

Can't bear to face the truth
So sick, he cannot move
And when it hurts he takes it out on you

And lately,
I'm not the only one
I say never trust anyone

Always the one who has to drag her down
Maybe you'll get what you want this time around

The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing

She knows the human heart
And how to read the stars
Now everything's about to fall apart

I won't be the one who's going to let you down
Maybe you'll get what you want this time around
(The trick is to keep breathing)
I won't be the one who's going to let you down
(The trick is to keep breathing)
Maybe you'll get what you want this time around

The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing
The trick is to keep breathing

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Hand in my pocket

I’m broke but I’m happy
I’m poor but I’m kind
I’m short but I’m healthy, yeah
I’m high but I’m grounded
I’m sane but I’m overwhelmed
I’m lost but I’m hopeful baby
What it all comes down to
Is that everthing’s gonna be fine fine fine
I’ve got one hand in my pocket
And the other one is giving a high five
I feel drunk but I’m sober
I’m young and I’m underpaid
I’m tired but I’m working, yeah
I care but I’m restless
I’m here but I’m really gone
I’m wrong and I’m sorry baby
What it all comes down to
Is that everything’s gonna be quite alright
I’ve got one hand in my pocket
And the other is flicking a cigarette
What is all comes down to
Is that I haven’t got it all figured out just yet
I’ve got one hand in my pocket
And the other one is giving the peace sign
I’m free but I’m focused
I’m green but I’m wise
I’m hard but I’m friendly baby
I’m sad but I’m laughing
I’m brave but I’m chicken shit
I’m sick but I’m pretty baby
What it all boils down to
Is that no one’s really got it figured out just yet
I’ve got one hand in my pocket
And the other one is playing the piano
What it all comes down to my friends
Is that everything’s just fine fine fine
I’ve got one hand in my pocket
And the other one is hailing a taxi cab...

quinta-feira, maio 06, 2004

Blam!
É um barulho assustador o de uma porta batendo. Assustador e triste.
Eu nunca achei que seria uma decisão fácil, mas acho que seria ainda mais estranho pensar que ela seria assim tão difícil. Por ser assim tão mais difícil do que eu achei que seria, ela foi procrastinada por tanto tempo. Mas eu não podia fazer isto para sempre.
As coisas começaram bem antes dos meus primeiros dias. Elas começaram no colegial, quando eu decidi abandonar uma escola que eu, apesar de tudo, amava, pra ir para uma que eu odiava. Depois disto foi pior, eu tive que abandonar uma faculdade que gostava para voltar pro cursinho. E eu já estava embarcando pro segundo ano de cursinho, sem hesitações nem nada.
Daí vieram os primeiros dias, e destes eu não vou esquecer nunca. Só quem estava lá sabe como aquilo foi horrível. Eu sobrevivi, mas as coisas não mudaram. Os primeiros dias arrastam-se em primeiras semanas e primeiros meses. Provas, cadáveres, relatórios, isolamentos. Quando as coisas pareciam melhorar elas pioravam. Mas sabe o que? Eu sobrevivi, e bem. Eu consegui me virar de uma maneira surpreendente, e descobri coisas sobre mim mesmo que eu jamais suspeitaria que existiam. E descobri coisas sobre os outros que jamais suspeitaria. Eu excedi limites que nem mesmo sabia que existiam. No final, eu já estava tirando de letra.
O tanto de merda que eu tive que aguentar, que eu tive que superar. E, quando você menos espera, você olha pros lados e percebe que conquistou um espaço seu, só seu, e que nenhum filho da puta pode tirar ele de você. Depois de um bocado de percalços, eu tive meu espaço. Eu olhava pra pessoas e podia, sinceramente, considerá-las amigos. Eu não tinha nada a temer, eu não devia merda nenhuma para ninguém. Pro bem ou pro mal, eu estava em casa.
E foi bem aí que eu tive que ir embora.
Eu carreguei o mundo nas costas por dois meses, e o fiz com uma habilidade que novamente me surpreendeu. Meu coração se rasgou, e de todos os jeitos eu tentei remendar os pedaços da minha vida que me puxavam de um lado pro outro.
Hoje eu acabei com isto, e acho que foi a decisão mais difícil da minha vida. Cheguei lá, pedi o papel, fui carimbar, até que estava segurando as pontas. Não olhe pra trás, não olhe pra trás. Aí aparece do meu lado uma Priscila, e depois eu vejo os olhos dela marejados. Não adianta, não tem como explicar o que foi assinar aquele papel, o que foi guardar este sonho na estante, o que foi mudar de caminho depois de ter lutado tanto por este.
Desculpem o punhado de clichês idiotas, mas é como as coisas aparecem. Você não escolhe a medicina, de verdade. Ela escolhe você, e ela te persegue até o fim, incessantemente. E eu sei que trancar ou não trancar, fazer ou não fazer um curso não muda nada disto. Ela vai me perseguir pra sempre, de um jeito ou de outro, quer eu queira, quer não. E eu vou ter que aprender a conviver com isto. A porta pode estar fechada, mas ela ainda está ali.
Agora, é bom que eu faça esta merda de letras direito, é bom que eu faça alguma coisa pra valer. Porque se eu fiz isto à toa, pode apostar que eu nunca vou me perdoar. E se eu perceber que não fiz nada direito em um ano, pode apostar que eu vou voltar correndo praquela porta, antes que ela se feche pra sempre. Um ano pra destrancar a matrícula, este é o prazo. Um ano pra ter certeza que eu quero fazer letras, este vai ser o prazo também. Porque se eu não tiver certeza de que é isto, eu volto pra medicina. Eu sei que ela sempre vai me querer de volta tanto quanto eu sempre vou querer voltar pra ela.
Mas agora ela está trancada. Agora eu sou um aluno de letras.
Desejem-me sorte, porque eu vou precisar.

quarta-feira, maio 05, 2004

Basket Case

Do you have the time to listen to me whine
About nothing and everything all at once
I am one of those
Melodramatic fools
Neurotic to the bone
No doubt about it

Sometimes I give myself the creeps
Sometimes my mind plays tricks on me
It all keeps adding up
I think I’m cracking up
Am I just paranoid ?
Or Am I just stoned

I went to a shrink
To analyze my dreams
She says it’s lack of sex that’s bringing me down
I went to a whore
He said my life’s a bore
And quit my whining cause it’s bringing her down

Grasping to control
So you better hold on

Sometimes I give myself the creeps
Sometimes my mind plays tricks on me
It all keeps adding up
I think I’m cracking up
Am I just paranoid ?
Or Am I just stoned

segunda-feira, maio 03, 2004

Hey

hey
been trying to meet you
hey
must be a devil between us
or whores in my head
whores at my door
whores in my bed
but hey
where
have you
been if you go i will surely die
we're chained

uh said the man to the lady
uh said the lady to the man she adored
and the whores like a choir
go uh all night
and mary ain't you tired of this
uh
is
the
sound
that the mother makes when the baby breaks
we're chained
Where is my mind?

Ooooooh - stop

With your feet in the air
and your head by the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse,
and there's nothing in it
and you'll ask yourself:

Where is my mind?
Where is my mind?
Where is my mind?

Way out,
in the water see it swimmin'

I was swimmin' in the Caribean
Animals were hiding behind a rock
Exept the little fish,
when they told me east is west
trying to talk to me to me
koy-koy

Where is my mind?
Where is my mind?
Where is my mind?

Way out,
in the water see it swimmin'

With YOUR feet in the air
and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
and there's nothing in it
and you'll ask yourself:

Where is my mind?
Where is my mind?
Where is my mind?

Way out,
in the water see it swimmin'

With your feet in the air
and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah...